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que cardíaco. Aconteceu poucos dias antesda chegada dos Tiger Lillies, uma banda com quem estava prestes a encetar maisuma parceria criativa. Foi tudo muito rápi-do. Os serviços de emergência vieram ime-diatamente, mas nada pôde ser feito para o trazer de volta. Permaneceu ligado àsmáquinas durante dois dias, mas tinha dei-xado escrito que não desejava ser man-tido vivo «por circunstâncias artifi-ciais», e as tomadas foram desliga-das a 15 de Abril de 2000. Gorey foicremado e parte das cinzas atira-das ao mar, junto com a única florque havia na magnólia do jardim.Simbolicamente, a casa-museu reabreas portas ao público no mesmo dia doano, depois de passar o Inverno em silen-ciosa hibernação. Agora, a casa é dominada por um felinopreto e branco, cujos onze quilos se atraves-sam à entrada como uma imponente bar-reira de pêlo. Apareceu num dia em que a instituição promovia a adopção de cães egatos; e há quem diga, por brincadeira (ounão), que esta presença solitária é a encar-nação do próprio Gorey, empenhado emmanter-se de vigia ao espaço que habitou.Convidados a sugerir um nome, os visitan-tes foram depositando papelinhos enrola-dos dentro de um frasco. Tudo parecia apontar para que Mr. E fosse o escolhido.«E» de Edward, claro, mas também porque«Mr. E» soa foneticamente como
mistery
,«mistério». Dificilmente se encontrará umnome mais apropriado para um gato.
A Casa do Elefante
Nascido em Chicago a 22 de Fevereiro de1925, numa família da classe média-alta, Ed- ward St. John Gorey herdou o nome do pai, jornalista no
Chicago Tribune
. Os pais divor-ciaram-se quando ele tinha onze anos e vol-taram a casar mais tarde. Pelo meio, enquan-to vivia com a mãe, teve uma madrasta semi-famosa: Corinna Mura, a actriz-cantora quebrilhou por cinco minutos em
Casablanca
, aoentoar o hino nacional francês em despiquepatriótico com a clientela alemã que fre-quenta o bar de Rick Blaine/Humphrey Bo-gart. Mais influente em Gorey, todavia, terá sido a avó materna, no seu tempo bastantepopular como ilustradora de cartões festivos,talento que o neto veio a aperfeiçoar com re-quintes de negra ironia. A única formação ar-tística que se lhe conhece é um semestre noSchool of the Art Institute of Chicago, após oqual, acabado o serviço militar, se mudou pa-ra o estado de Massachusetts e entrou para Harvard. Aí, dedicou-se aos estudos france-ses e fez dupla boémia e literata com o poeta Frank O’Hara, uma amizade
dandy
que nãosobreviveu ao fim da universidade.Mas o
background
literário de Gorey foi de-terminante para o que viria a seguir. Em 1953,mudou-se para Nova Iorque, onde durante ostrinta anos seguintes foi visto a ocupar uma cadeira nos espectáculos de
ballet
do New York State Theater, envergando o traje de ga-la habitual: casaco de pele e ténis. Fã do coreó-grafo George Balanchine, a quem venerava como um deus, raramente terá falhado uma apresentação. Ao mesmo tempo, trabalhava para uma editora na ilustração de capas de li-vros:
Dracula
, de Bram Stoker;
The War of theWorlds
, de H.G. Wells; e
Old Possum’s Book of Practical Cats
, de T.S. Eliot, figuram entre osmais conhecidos. Balanchine morreu em1983. Pouco depois, Gorey meteu-se no seuVolkswagen amarelo e mudou-se definitiva-mente com os gatos para Cape Cod, sentindoque já nada o prendia a Nova Iorque. Ali encontrou aquela a que viria a chamara «Elephant House», julga-se que por causa do aspecto velho e estalado da tinta, a lem-brar a pele de um elefante. A decrepitude da casa combinava lindamente com a belíssi-ma magnólia do jardim, capaz de resistir aosInvernos agrestes e ao ar do mar. Gorey fi-cou com ela. Tinha ganho dinheiro com oprojecto de cenografia e figurinos na produ-ção de
Drácula
para a Broadway; e a série detelevisão
Mistery!
, onde assinou o genéricoanimado de abertura, também fez com queo seu trabalho chegasse a um grande núme-ro de pessoas. De resto, o dinheiro, como va-lor abstracto, não lhe dizia nada. Usava-o pa-ra comprar as coisas de que gostava: livros,filmes, CD, obras de arte, antiguidades, bo-necos de peluche… Quando decidiu mandararranjar o telhado da casa, pagou tudo numsó cheque. O homem apareceu meia dúzia de vezes e depois desapareceu do mapa. Osamigos perguntaram-lhe por que tinha sidotão confiante. «Parecia-me mais prático pa-gar assim», foi a resposta.
O gosto pelo insólito
Aparentemente, não houve nada de dramá-tico na infância e adolescência do autor de
The Gashlycrumb Tinies
, a história em forma de alfabeto em que 26 personagens de crian-ças são implacavelmente eliminadascom uma só frase mortífera – desde«A» de «Amy que caiu das escadas»até «Z» de «Zillah que bebia demasia-do
gin
». As primeiras leituras de Go-rey (que aprendeu a ler sozinho aostrês anos e meio) terão preenchido,pela imaginação, o vazio da norma-lidade quotidiana.
Drácula
,
Franken-stein
,
Alice no País das Maravilhas
e toda a obra de Victor Hugo foram devorados atéaos oito anos. Solitário,
ma non troppo
, ele pró-prio confessou depois a um jornal que, em-bora gostasse de se imaginar como um miú-do «sensível e pálido», era mais do género debrincar na rua e fazer coisas inesperadas.Uma colega da escola secundária contou co-
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urante muitos anos,Edward Gorey foiuma figura inconfun-dível em YarmouthPort. Alto, calvo e de barbas, brincos nas ore-lhas e largos anéis nos dedos, tinha um feti-che por casacos de peles compridos, quecombinava com uns sapatos de ténis muitousados. Não se parecia com mais ninguém,excepto com ele próprio. Yarmouth Port éuma terra pequena e algo
coquette
, onde serespira a atmosfera veraneante de Cape Code as senhoras tomam o seu chá com bolinhosem lugares como The Optimist Café. É uma das paragens possíveis da cénica Route 6A,alinhada de ambos os lados com lojas de an-tiguidades, restaurantes e estalagens deco-radas como caixas de bombons. No Opti-mist, porém, nenhum dos empregados sa-bia onde ficava a casa-museu de EdwardGorey, situada a menos de 500 metros dali.Indício de que ninguém é profeta na sua própria terra ou um sinal da ambígua popu-laridade do homem que adorava gatos maisdo que tudo no mundo?Só a parte dos gatos é totalmente verdade.Edward Gorey não era natural de YarmouthPort, muito menos quis ser profeta ou repre-culiar universo criativo. O passaporte expos-to na vitrina guarda o carimbo da única via-gem fora dos Estados Unidos, às ilhas escoce-sas de Orkney, em 1975. Porquê Orkney? Nãose sabe. Gorey delirava com jogos de palavrase manteve uma série de pseudónimos, a maior parte anagramas do seu nome: OgdredWeary, Raddory Gewe, Dogear Wryde, E.G.Deadworry, etc. Ele era suficientemente ex-cêntrico para atravessar o Atlântico em bus-ca do som de uma palavra como «Orkney».
Bem-vindo, Mr. E
Existem muitas pedras na casa onde viveuEdward Gorey, hoje adaptada para receberum público ecléctico, desde pais comcrianças pela mão até dignos representan-tes das mais radicais tribos urbanas. Exis-tem pedras que parecem sapos, pedras queparecem ovos de avestruz, pedras que sóparecem pedras.
George
,
Alice
,
Jane
e todosos outros gatos foram adoptados por ami-gos desde a súbita morte de Gorey por ata-
Em Yarmouth Port, a casa-museude Edward Gorey fica em Strawberry Lane.
sentante de algum estilo, embora seja recla-mado por muitos como «gótico». Quanto aoresto, quando a revista
Vanity Fair
lhe pergun-tou «qual é o grande amor da sua vida?», elerespondeu simplesmente: «Gatos.» E, mais à frente: «Se estivesse a morrer e pudesse vol-tar sob a forma de uma pessoa ou de uma coi-sa, o que acha que seria?» «Uma pedra.» «Qualé a sua viagem favorita?» «Olhar através da ja-nela.» Eis o retrato abreviado de alguém quegostava de estar em casa, entregue ao seu pe-
Imponente, independente,indiferente. Mr. E, o gato.Os animais fazem partedo imaginário de Gorey.
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