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Homenagens a Millôr - Estadão, O Globo e Folha de SP

Homenagens a Millôr - Estadão, O Globo e Folha de SP

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Reportagens publicadas nos jornais "O Estado de S.Paulo", "O Globo" e "Folha de S.Paulo", em homenagem a Millôr Fernandes, falecido no dia 28 de março de 2012. As reportagens são das edições do dia 29 de março de 2012.
Reportagens publicadas nos jornais "O Estado de S.Paulo", "O Globo" e "Folha de S.Paulo", em homenagem a Millôr Fernandes, falecido no dia 28 de março de 2012. As reportagens são das edições do dia 29 de março de 2012.

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%HermesFileInfo:A-27:20120329:
OESTADODES.PAULO
QUINTA-FEIRA, 29DEMARÇO DE2012
Vida
A27
Dilma Rousseff
Presidente da República
“MillôrFernandesfoiumgênio brasileiro,umíconedohumorismo.Brilhantejornalista,comamesmamaestriatornou-seescritor,cartunistaedramaturgo.Autodidata,tradu-ziuparaoportuguêsdezenasdeobrasteatraisclássicas.Atuouemdiversosveículosdecomunicação,alémdetersidofundadordepublicaçõesalternativas.Comsuamorte,oBrasiletodaanossageraçãoperdemumareferênciaintelectual.”
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*As unidades e a área comum deste empreendimento serão entregues conforme memorial descritivo. Incorporadora Responsável: Queiroz Galvão Life Desenvolvimento Imobiliário Ltda. – Av. Juscelino Kubitschek, 360 – 13º andar – CEP: 04543- PARA VIVER.000 – São Paulo - SP. Memorial de Incorporação registrado no R.01 da matrícula nº 111.029, do 1º Registro de Imóveis daCapital - SP, em 29/06/2011. O empreendimento será construído de acordo com projeto aprovado pela Prefeitura Municipal de São Paulo, conforme Alvará nº 2011/11148-00, publicado nodia 26/03/2011. Central de Atendimento: Coelho da Fonseca – Rua Estados Unidos, 209 – Tel.: (11) 3888 3000 – São Paulo - SP – Creci J- 961
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Ilustração artística do Living AmpliadoIlustração artísticada fachada
EscritorecartunistamorrenoRio,aos88anos,deparadacardíacaefancialtipladosóros
O
 jornalista, escritor,dramaturgo e cartu-nista Millôr Fernan-des, autor de frases eaforismos memoráveis pelo hu-moresarcasmo,morreuporvol-tadas21horasdeterça-feira,aos88 anos, em casa, em Ipanema(zona sul). Millôr havia perdidoosmovimentosetinhadificulda-desdesecomunicardesdefeve-reirodoanopassado,quandoso-freu um acidente vascular cere- bral (AVC). Em novembro, tevealta depois de passar cinco me-ses internado na Casa de SaúdeSãoJosé,noHumaitá(zonasul).OfilhodeMillôr,IvanFernan-des,dissequeopaitevefalênciamúltipladosórgãoseparadacar-díaca. O velório acontecerá das10às15horasdehojenoMemo-rialdoCarmo,noCaju(zonapor-tuária), e o corpo será cremadoemcerimôniarestritaàfamíliaeaosamigos.Companheiro de Millôr naconfraria que durante 30 anosreuniu amigos nos almoços desábado,oadvogadoTécioLinseSilvadissequeoescritor,nosúl-timos meses, “não interagia”,masdurantelongotempomante- vealucidezechegouaanunciara intenção de escrever um livrosobreodramaquevivia.“Eleteveváriasconvulsõesce-rebrais e AVCs em número queosmédicosdiziamqueninguémsuportaria,masestranha,curio-saesurpreendentementeeraca-paz de reconhecer as pessoas efalar com dificuldade. Em mui-tosmomentossabiaoestadoemque se encontrava”, afirmouLinseSilvaontem.Nascido Milton Fernandes,em 16 de agosto de 1923, noMéier(zonanorte),Millôrsedi- vertiacomaconfusãodedatas:acarteiradeidentidaderegistravao nascimento em 27 de maio de1924. “Não adianta ter qualqueresperança contra a cronologia.No meu caso, talvez a carteiraseja (um pouquinho) a meu fa- vor”, dizia em seu site na inter-net, Millôr Online. O jornalistatinha um casal de filhos, Ivan ePaula,eumneto,Gabriel.Irmão de Millôr, o jornalistaHélio Fernandes contou que,além de Técio Lins e Silva, o ar-quitetoPauloCasé,ocartunistaChicoCarusoeojornalistaLuizGravatáiamcomfrequênciaveroamigonoapartamentodeIpa-nema.“Desdequeelevoltoupa-racasa,agenteiavisitar,maselenãoouvianada,nãofalavanada.Era uma angústia total, aindamais para mim, que perdi doisfilhosnoauge”,lamentouHélio,pai dos também jornalistas Ro-dolfoFernandeseHélioFernan-des Filho, que morreram emagostoeoutubrode2011.SegundoHélioFernandes,an-tes do AVC Millôr já se locomo- viacomcadeiraderodas,porcau-sa de problemas circulatórios,mas estava em plena atividade.“Ele dizia ‘da cintura para baixominhas pernas se recusam a an-dar, daqui para cima está tudomuitobem’. UsavaoTwittereoFacebook”,lembrouoirmão.ColaboradoreseadmiradoresdeMillôrusaramasredessociaispara homenagear o jornalista.“OMestrefoi...Nossoeternoca-rinho”,escreveuaequipedositede Millôr, que reúne biografia,obra,desenhoseomelhordohu-mor do jornalista, em frases co-mo:“Fiquemtranquilosospode-rosos que têm medo de nós: ne-nhum humorista atira para ma-tar”.
/ CLARISSA THOMÉ, ROBERTAPENNAFORT,LUCIANANUNESLEAL,ANTONIOPITA
UMGÊNIOBRASILEIRO
MAISINFOMAÇÕESSOBREAMORTEDEMILLÔRFERNANDES.
Págs. A28 e A29
1999.
Primeirailustraçãopublicadapor Millôr no‘Estado’
1923-2012
 
%HermesFileInfo:A-28:20120329:
 A28
Vida
QUINTA-FEIRA,29 DE MARÇO DE2012
O ESTADO DE S. PAULO
RodrigoBurgarelli 
Entrevistei Millôr Fernandesem 1.º de dezembro de 2010.Quer dizer, quase. Ao chegarà sua cobertura em Ipanemapara uma conversa marcadahá semanas para a
TV Estadão
,ele desconversou. Rindo e brincando como se me conhe-cesse há anos, disse que tinhamudado de ideia, que não da-ria mais entrevista, muito me-nos em frente de câmera. “Vo-cê pode ficar aqui e me per-guntar o que quiser. Mas semgravar nem anotar nada.”Foi o que fiz. Transcrevias seguintes linhas, atéagora inéditas, logoapós deixar o prédio.“Agora volte lá para oseu jornal e escrevasobre o dia em que qua-se entrevistou o Mil-lôr”, despediu-se, gar-galhando. Aí está.
OBrasilestámelhoran-do?
Melhorou sim. O problema éque sempre se avalia issocom base numa coisa que nin-guém questiona, que é a socie-dade de consumo. Aumentaro consumo não é prejudicialquando se fala de uma pessoaque hoje pode comprar carneno supermercado. O problemaé quando um menino de 3 anosde idade pede aumento de me-sada para comprar um celular.
Temcomoacabarcomacor-rupçãonoBrasil?
Não. A corrupção é inerenteao homem. O homem semprefoi corrupto, e continuará sen-do. Mas a corrupção não impe-de que as coisas aconteçam. Ao contrário, até ajuda.Um governador constróiuma ponte e ganha por fora.Se não ganhasse, por que eleiria fazer?
Vocênãocrênoaltruísmo?
O altruísmo existe, mas eledura pouco tempo. Pega umexemplo: o ataque às torresgêmeas de Nova York. Nocomeço, todo mundo é bonzi-nho, quer ajudar. Mas 24 horas depois, já entra opessoal para saquear oprédio e poder levar tudoo que consegue.
Vocêachaqueatecnologiapo-deajudaroPaís?
 Acho. Uma coisa muito inte-ressante é o Twitter. Hoje,não tem como o cara escutaruma crítica e deixar de res-ponder.
Oquemudounobrasileiro?
 Acho que hoje o brasileiro temorgulho de falar que é brasilei-ro. Isso é inédito.
1923-2012
Prosa
EvasemCostelaUmLivroemDefesadoHomem
(1946,sobopseudônimodeAdãoJúnior)
FábulasFabulosas
(1964)
EstaéaVerdadeiraHistóriadoParaíso
(1972)
TrintaAnosdeMimMesmo
(1972)
QuePaísÉEste?
(1978)
Poesia
PapaverumMillôr 
(1967)
Hai-kais
(1968)
Teatro
Computa,Computador,Compu-ta
(1972)
É...
(1977)
OsÓrfãosdeJânio
(1979)
DuasTábuaseUmaPaixão
(1982)
MARCOSDE PAULA/AE - 12/9/2007
ENTREVISTAACRÍTICABEM-HUMORADA
Intelinciaedebochecomoresistência
Já aos 10 anos, o cidadão Milton ViolaFernandes iniciou a sua vida profissional, quelhe trouxe fama, dinheiro e muitos inimigos
Memória
‘Acorrupçãoatéajuda’
MillôrFernandes
“O Código Penal
éacausa
de todos os crimes”“O melhor
movimentofeminino
ainda é o dos quadris”
Avidaseriamelhor
se não fosse diária”“Nós, humoristas, temos bastante importância
paraserpresos
e nenhuma importânciapara ser soltos”“Todo homem
nasceoriginal
e morre plágio”“De todas as
tarassexuais
,não existe nenhuma mais estranhaque a
abstinência
UbiratanBrasil 
E
msua própria história,Millôr flertava com ohumor,aindaqueinvo-luntariamente. Cario-cadoier,elenasceuem16deagosto de 1923, mas foi registra-doemmaiodoanoseguinte.Jul-gavasechamarMiltonViolaFer-nandesmas,adolescente,desco- briu que, graças a uma caligrafiaduvidosa, fora registrado comoMillôr.Adata,aliás,tambémeraincerta: 16, 27 ou 28 de maio ouagosto. “Meu amigo FredericoChateaubriand sempre repetia,quandosefalavaquealguémesta- va‘muitomoço’,istoé,aparenta- va menos que a idade que tinha:‘Idadeéadacarteira’.Istoé,nãoadianta ter qualquer esperançacontra acronologia. No meu ca-so talvez a carteira esteja (umpouquinho)ameufavor”,dizia.Comapenas1anodevida,per-deu o pai. Nove anos depois,aconteceamortedamãe.“Sozi-nhonomundotiveasensaçãodainjustiça da vida e concluí queDeus em absoluto não existia.Masosentimentofoidepaz,quedurouparasempre,comrelaçãoà religião:apazdadescrença. Assim,iniciouavidaprofissio-nalaindajovem.Aos10anos,ven-deuoprimeirodesenhoparaapu- blicação
OJornaldoRiodeJaneiro
.Recebeudezmilréis.Em1938co-meçouatrabalharcomorepagina-dor e contínuo n’
O Cruzeiro
, amaiorrevistadaépoca.Assumiuadireçãoem1943,quandotambéminiciouapublicaçãodaseção
Pos-teEscrito
,agoraassinadaporVãoGôgo. De 110 mil exemplares, atiragemde
OCruzeiro
saltoupara750mil.“Osucessode
OCruzeiro
fazosjornalistasviraremnotícia.Na redação, entrevista para o rá-dio, uma espécie de televisão daépoca, muito melhor, porquesemimagem”,comentava.Oêxitotambémrendeufinan-ceiramente,apontodepermitirque Millôr comprasse seu pri-meiro apartamento em 1954.“Era num lugar mais ou menosdistante, chamado Vieira Sou-to. Quando a grã-finada soube,correu atrás de mim e o lugar virou‘status’,ometroquadradomaiscaro domundo.”Doisanosdepois,dividiuapri-meira colocação na ExposiçãoInternacionaldoMuseudaCari-catura de Buenos Aires com océlebredesenhistanorte-ameri-canoSaul Steinberg. Várias de suas frases se torna-ramclássicas,assimcomoashis-tóriasquegostavadeinventar.Co-moadeserumdosimplementa-dores do frescobol, no bairro deIpanema,nomesmoanode1957.“Eu me lembro que antes apare-ceuumabesteirachamada‘lape-lotebasquesansfronton’.Eumeautoproclamei campeão do fres-coboldoposto9.Mantiveotítulopor muito tempo: quando al-guémjogavamelhordoqueeu,eudiziaqueeleeradoposto8.”Dispensou o pseudônimo VãoGôgoem 1962, quandocomeçoua assinar apenas como Millôr ostextosde
OCruzeiro
.Deixouare- vista no ano seguinte, por contadeumapolêmica:apublicaçãode
 A Verdadeira História do Paraíso
despertouairadeconservadorescatólicos,quepressionaramadi-reção da revista. AproveitandoumaviagemdeMillôraLisboa,arevistasaiucomumeditorialnãoassinado em que o escritor eraacusadodeterpublicadoahistó-ria sem conhecimento da reda-ção,dasecretariae,consequente-mente,dadireçãodosemanário.Em1964,preparouolançamen-to darevista quinzenal
O Pif-Paf 
,que se tornaria outro de seusclássicos.“Em1979,oserviçodeinformações do Exército consi-derariaapublicaçãocomoopon-to de partida da imprensa alter-nativanoBrasil.Aindabem,por-quefecharamarevistanooitavonúmero e eu fiquei devendo 21milcruzeiros.Meuvalornapra-ça,então,eramaisoumenos500cruzeirosmensais”,ironizava.Noanoseguinte,1965,ocorreaencenaçãode
Liberdade,Liber-dade
, sua peça dirigida por Flá- vioRangelquecriticavaaberta-menteoregimemilitarinstaura-do no ano anterior. A censuralogo vetou o texto.Em 1969, Millôr tornou-seum dos fundadores d’
O Pas-quim
. “Parecia até que o Paísexistiaequecerta socialização,confundida com uma fugidiafraternidade, era possível.”Premonitório,deuoavisologono primeiro número: se o jornalfosse independente, seria fecha-do–senãofossefechado,erapor-quedeixaradeserindependente.Ofatoéque
OPasquim
abriuuma brecha na imprensa brasileira aoutilizarainteligênciaeodebochecomo resistência à rigorosa cen-suraimpostapeloregimemilitar.Nos anos seguintes, intensi-ficou a escrita de peças de tea-tro, textos de humor e poesia.Também exerceu a função detradutor, vertendo do inglês edofrancês,váriasobras,princi-palmente peças de teatro, en-treestas,clássicosdeSófocles,Shakespeare, Molière, Brechte Tennessee Williams.
PRINCIPAISOBRASPUBLICADAS
 
%HermesFileInfo:A-29:20120329:
OESTADODES.PAULO
QUINTA-FEIRA, 29 DE MARÇO DE 2012
Vida
A29
Arnaldo Jabor
Cineasta e escritor
“PerdemosChicoAnysioeMillôrFernandes.Ambosviamasocieda-decomolharcrítico.Millôreramaismordaz,alémdeterumaes-critaoriginalmenteconcisa.”
Ziraldo
Escritor e cartunista
“Paranós,eleeraumDeus.Paramim,foiomaiorfilósofodoBra-sil.Nãoqueriasofrer,elequeriaapagar.Efoiissoqueaconteceu.”
Luis FernandoVerissimo
Escritor e cronista do
Caderno2
“Lamentoamortedoamigo,umgrandetalento,grandepensadoreintelectualindependente.
Álvaro Moya
Jornalista e professor,especialista em HQ
“Certavez,MillôrfoiaoMacken-zieparaumdebatesobreadita-duraepercebeuqueosalunosnãoestavaminteressadosnote-ma,masnoscartunsdaexposi-ção.Quandoomestredecerimô-nias,enfim,oapresentou,eleto-mouapalavraedisseapenas:‘Es-táencerradaasessão’.”
Glauco Mattoso
Poeta
“SetivessevividoduranteoIlumi-nismo,MillôrseriaumaespéciedeVoltaire.Aacademianãofez justiçaaotalentoliteráriodessehumanistalibertário.”
IvanFernandes
Filho de Millôr
“Arelaçãodelecomopúblicosem-prefoimarcante.Masnuncaen-trounocultodecelebridade.Gosta- vadesernotório,nãofamoso.”
HéliodelaPeña
Humorista
“SegundoMillôr,‘todohomemnasceoriginalemorreplágio’.Nãofoiocasodele.”
MarceloTas
Apresentador
“Elediziaquenãoseevitaonas-cimentonemamorteepergun-tavasenãodavapramelhorarointervalo.Mostrouquesim!Obrigado,mestreMillôr.”
PauloCaruso
Cartunista
“Faziadesenhosenormes,coisasofisticadíssima.Em1957,come-çouaganharprêmiosinternacio-nais,comSaulSteinberg,umdosgrandesmestresdomundo.Mil-lôrsenivelouporcima.”
SergioAbranches
Cientista político
“Eleeraumainteligênciaradian-te,nãolivravanemasimesmodesuafinaironia.
ZuenirVentura
Jornalista e escritor
“Millôrusavaohumorparafazerpensar,maisdoqueparafazerrir.OBrasiletodanossageraçãoper-demumareferênciaintelectual.”
MaurícioAzedo
Presidente da AssociaçãoBrasileira de Imprensa
“Foiumexemplodeintelectualfecundoqueultrapassouomarcodojornalismoesetornougrandedramaturgoeumadasprincipaisfigurasdaresistênciaàditadura.”
Veja.FotosetextodeMariaSílviaBettisobreteatrodeMillôr
TeixeiraCoelho
ESPECIAL PARA O ESTADO
U
m indício das relaçõesenviesadasentreMillôre a arte surge logo nopseudônimo que ado-tou por um tempo: Vão Gôgo.Existe aí uma clara derrisão. Em
Stardust Memories
, Woody Allen,que corre em raia próxima à deMillôr, faz um de seus persona-gensexplicarqueacomédiaésem-preumaviolência,umacorrosão.Deseuobjetoeporvezesdequema escreve ou filma. Essa ideia éuma variante da estética clássicaqueapresentaacomédiacomoex-ploraçãodaperdadeharmonia.Al-guémqueescorregaecaiperdeaharmonia–eaconsequência,emquem observa, é quase sempre oriso. Um grande autor, como WoodyAllen,recompõecomsuaação estética a desarmonia quesua própria obra gera e explora.Issonãodiminuiaviolência–masaequilibra. A derrisão em “Vão Gôgo” éprimeirocontraVanGogheaar-tee,aindaquepormeraestraté-gia autoral, contra aquele mes-mo que adota o pseudônimo equeseriaumVanGoghvão,umacontrafação de artista. Alguémque produz uma falsa arte, umaarteinútil.QueMillôrtemaartecomo referência é evidente: co-nheceasescolas,cita-as,ironiza-as.Omotequeusoudurantelon-go tempo, “Enfim, um escritorsem estilo”, pode de início serlidonessamesmachaveautocrí-tica,emboraparaaestéticapós-moderna a ausência de uma“voz”reconhecívelemsuaiden-tidade imutável seja antes umtraço positivo do que real falhaestética.Um escritor e um artista semestilo–porquepassaportodoseoscorróitodos.Seudesenhovaidosimplestraçonegrodoinício(aomododesteoutrocartunistamagistral, Saul Steinberg), à composiçãopós-impressionistaque acabou sendo a mais usualneleecomaqual,talvezacontra-gosto,Millôréidentificado.Eis-sopassandopelacitaçãodocon-cretismo e pela “má pintura”neoexpressionista, que Millôrexperimentou na década de 60 vinte anos antes que ela apare-cesse nos artistas brasileiros –comonobelo
Burro,Burro,Bur-ro
assinado ainda como VãoGôgo.Semfalarnotoquedearteconceitualem
PoluiçãoBurocráti-ca
, de 1977, feito com cópias desuasváriascarteirasdeidentida-de, sua certidão de casamento,certificado de reservista, cartãodecrédito,notificaçãodoimpos-tode renda, C.P.F. etanta outragangainventadapeloEstadopa-ramanteratodossobcontroleatítulo de “exercício da cidada-nia”. Asaproximaçõesentreosmo- vimentosdaarteeaproduçãodeMillôrnãosãoforçadas,nemde-pendemdeanálisefina:elemes-mo as explicita, como em
Me-lhor, Combateremos à Sombra
(1961),quevemcomosubtítulo
VersãoConcretista
equedefatooé,comsuassetasnegrasdispos-tas em poema visual ilustrativoda resposta que, segundo Heró-doto, Leônidas de Esparta teriadadoaopersaXerxesquandoes-tedissequesuasflechasdispara-dascontraosgregosseriamtan-tas que ocultariam o sol. Ou co-mo em
Enterro de Mondrian
(1957/1978), em que figuras mo-nacaisseguramcruzesnegrasen-trelaçadasnosretângulosequa-dradosquefizeramafamadesseprimeiro artista minimalista.Ou, ainda, nas referências dire-tas a Pollock, implícitas a Picas-soeexpressasatantosoutros.QueMillôrconversacomaar-tetantoquantocomadegradadarealidade cotidiana é bem claro.Mas,eaívemaquestãocentral,oqueelemesmofazéarte?Seemalgumas peças é nítida a funçãode comentário ligeiro, fadado alogoconsumir-selevandoconsi-goapartevisualdacomposição,em muitas outras a visualidadepuracomanda–eisso,pordefini-ção, dá em arte. Nessas, o olhopode demorar-se na apreciaçãodedetalheseefeitoseéissoqueconstituiaexperiênciaartística,muitoalémdosimplescomentá-rio visual do cartum. Os exem-plossãomuitos,desdeaprimei-ra fase em preto&branco (
 Aameaça
,1961;
OEsforçodoAutoreaIndolênciadoPersonagem
,1955)atéaquelasnasquaisacorimpe-ra (
Continua Tentando
, 1964,
Uma Composição
, de 1966 e tan-tasmaisrecentes).MesmodepoisdeabandonaropseudônimoVãoGôgo,em1962,Millôrpodetercontinuadoaen-cararaartecomumpéatrás–ou,emtodocaso,continuadoasuge-rir que optaria mais pela vida doquepelaarte(pelomenosaquelahabitual), como num cartum de1979emqueseveemváriasobrasda op art numa galeria cujo visi-tanteoudono(ouseriaoartista?)noentantoolhaparafora,poron-de passam duas jovens em exí-guosbiquínisquesãoporém...ou-tros modos dessa mesma op art.Conhecer o exato papel da artediante da vida não significa anu-laraquelaemfavordesta.Issoeofatodeterexpostosuaobranaspáginasderevistasmaisdo que em galerias e museus(mostrou-aumaveznoMAMdoRio, em 1957) pode ter levado aque seja considerado um cartu-nista e não tanto um artista. Éum entendimento reducionista,tantomaisquandosesabequeomesmo Saul Steinberg (comquem dividiu, entre outras coi-sas,umprêmiodecaricaturaemBuenos Aires, 1956) é tido pelopúblicoepelacríticanorte-ame-ricanos como artista e dos maisamadosdaquelepaís.Muitosar-tistas são admirados e respeita-dos,oquejáestámuitobem.Unspoucos, como Millôr, por maisde uma geração, são amados. Oamornãoanulaaarte.
estadão.com.br/millôr
REPRODUÇÕES
Pré-
Pasquim
.
Contracapadonº3da
PifPaf 
(1964),querevolucionouohumorimpresso
Relaçõesenviesadascomaarte
Semprenavanguarda.
Desenhistadetraçoincomum,Millôrreuniu seustrabalhos em1981 nolivro
Desenhos
, com prefáciode PietroMaria Bardieapresentaçãode Antônio Houaiss
ARQUIVO/AE
Omaisdivertidofisofo
Gêniodemuitasfaces,alémdeescreverparateatroecinema,nossomaiorhumoristaefrasistaeraumesplêndidoartistaplástico
SérgioAugusto
E
lásefoiamaisfulgu-rante inteligênciado Brasil, o nossomaior humorista, onosso maior frasis-ta,onossoBernardShaw,onos-so La Rochefoucauld, o nossoGroucho Marx, o nosso SaulSteinberg. Com pelo menosuma vantagem sobre todos oscitados: Shaw, La Rochefou-cauldeGrouchonãosabiamde-senhar, e Steinberg não era deescrever. Além de escrever, in-clusiveparateatroecinema,Mil-lôr era um esplêndido artistaplástico. Gênio de muitas facese nomes (Vão Gôgo, Volksmil-lor, Milton à Milanesa), foi umdosmaiorespensadoresdoPaíseseumaisdivertidofilósofo.Orgulhoso de ser um franco-atirador,umautodidata,especia-lizado em coisa alguma (“Espe-cialista é o que só não ignoraumacoisa”),impermeávelaideo-logias (daí sua divisa: “Livre co-moumtáxi”)eàtentaçãodeen-trar para a Academia, aprendeutudo o que sua inteligência ne-cessitavanoLiceudeArteseOfí-cios do Rio de Janeiro e, comogostavadesalientar,na(fictícia)“Universidade Livre do Méier”,subúrbio carioca onde nasceu,oficialmente, em 27 de maio de1924,e,concretamente,em16deagosto de 1923. Explica-se: seupai, o espanhol Francisco Fer-nandez (com z), demorou novemeses para tirar-lhe a certidãode nascimento. Não bastasse, o juiz responsável pela certidãoderrapou na caligrafia. E assimfoi que o pimpolho Milton Fer-nandesvirouMillôrFernandes.De uma criatividade assom- brosa, volta e meia deparamoscom uma novidade – expres-sões,brincadeiras,definições,sa-cadas jornalísticas – inventadapor ele alguns ou muitos anosatrás.Seescrevesseeminglês,di-ziam, seria lido e festejado nomundo inteiro. Embora conhe-cessecomopoucosalínguaingle-sa(graçasaeleShakespeareeHa-rold Pinter nunca soaram tão bememportuguês),nuncasear-rependeu da que o destino lhedeuetãobemsoubetratar.Dominava-a à perfeição, bus-cando,obstinadamente,aimper-feição:asuposta imperfeiçãodalínguafalada,coloquial.Porseraconcisão o timing do humor es-crito, jamais gastou 11 palavrasondecabiamdez–eàsvezescon-seguia o mesmo efeito com 9. Vezporoutra,porém,desobede-ciaaessepreceitoedesembesta- va,semjamaisficarenxundioso.Cometia em sua prosa toda sor-te de firulas e audácias, e até oestilo anfigúrico de GuimarãesRosa parodiou numa memorá- velversão(ouriversão)dahistó-riadoChapeuzinhoVermelho.ConheciMillôrnoprimeirose-mestrede1963,narevista
OCru- zeiro
.Eraamaiorestreladacasa,ondesóapareciaàssextas-feirasparaentregarasduaspáginasdesuaseção,o
PifPaf 
,erecalibraroQ.I. da redação. Sempre de ter-no, de uma feita chegou sobra-çandoalgunsrolosamaisdepa-pelcartonado.Apedidodadire-ção,adaptaraparaarevistaumasátira lançada no teatro sobre a“verdadeira” história de Adão eEvanoParaíso. Eram12páginasmagistrais,dehumoregrafismo,que acabariam indignando al-gunsleitorescarolaseprovocan-doademissãodoautor.Acusadode“traidor”peladireçãodarevis-ta, Millôr jogou para o alto osseus20anosde
OCruzeiro
eme-teu-lhe um processo, que afinalganhoucomopénascostas. Vinte anos, mesmo naquelaépoca, pareciam uma eternida-de.Enaempresaemsi,aliás,foimais do que isso, pois nos Diá-riosAssociados,ofeudojornalís-tico de Assis Chateaubriand aque
OCruzeiro
pertencia,omeni-noprodígiodoMéierjátrabalha- va desde 1938. Levado por seutio Viola, chefe da gráfica de
OCruzeiro
, começou como factó-tumdosuperintendentedaem-presa, Dario de Almeida Maga-lhães.Numconcursodecontos,promovidoporoutrarevistaas-sociada,
A Cigarra
, chegou emprimeirolugare,nãoexatamen-te por isso, ascendeu ao arqui- vo. Atento ao talento do jovemarquivista, o diretor de
 A Cigar-ra
, Frederico Chateaubriand,não pensou em mais ninguémquandoprecisoutaparoburacodeumanúnciocanceladoemci-ma da hora. “Faça um negócioqualquer que ocupe duas pági-nas”, pediu Fred. Millôr bolouuma seção chamada
Post-Scriptum
.Agradoutantoaoslei-toresque elase tornou fixa. Alçado a secretário de reda-ção,logopassouaacumularono- vo cargo com a direção de duasoutras publicações:
O Guri 
(dequadrinhos) e
Detetive
(de con-tos policiais). A guerra na Euro-pa ainda estava longe de termi-narquandoodeslocarampara
OCruzeiro
.AmeninadosolhosdeChateaubriand enfrentava umacrise de criatividade e coube ao versátilMillôrrevitalizá-la,ocu-pando-sedeseisseçõesdiferen-tes, fazendo ilustrações, produ-zindoreportagense,lastbutnotleast, as duas páginas mais lidasdaimprensabrasileiradaépoca:o
Pif Paf 
. Quando a guerra aca- bou,asvendasde
OCruzeiro
ha- viam pulado de 11 mil para 760milexemplaressemanais,marcaque só a
Veja
conseguiria bater,cincodécadasdepois. Apresentado como “o únicomatutino semanal” do País,
Pif Paf 
revolucionouojornalismodehumor brasileiro. Embora só ti- vesseduas“vastíssimaspáginas”,pareciaumencarte,umarevistaà parte.Millôr,queaocriaro
PifPaf 
tinhaapenas22anos,falavaebrin-cava com tudo: guerra, cinema,teatro,poesia,anúncios(ourecla-mes,comoentãosedizia),filoso-fia,esporte,rádio,medicina,oes-cambau.Adespeitodesuaprofes-sada,masfalsa,modéstia(“Souomaior leigo do País”), já era, em1945,umpolímata,umsábiosemdiploma,permanentementedes-concertanteeinventivo.Depoisde todos aquelesanosem
O Cruzeiro
, Millôr passou 14 em
Veja
, 6 no
Pasquim
, 10 na
Is-toÉ
, mais ou menos isso no
Jor-nal do Brasil
(em duas fases) ealgum tempo na
Tribuna da Im- prensa
,
Correio da Manhã
, aquino
Estado de S. Paulo
e
Folha deS.Paulo
. Lançou e editou duaspublicações de curta duração(
Voga
, a primeira revista sema-nal de texto do País, que durouapenas cinco números em 1951,e
Pif Paf 
, embrião do
Pasquim
que a Censura militar não dei- xou ir além do oitavo número,nadécadade1960).Quando,em1994,resolveu-sequejáeratem-po de se enfeixar num único to-mo o que se dispersara por tan-tosveículos,umaprimeirasele-ção chegou à espantosa cifra de13miltópicos,que,mesmoredu-zidaa5.142,rendeuumcartapá-cio de 524 páginas, editado pelaL&PM. Parecia a
Bíblia
. E nomemais adequado não lhe pode-riamterdado:
 ABíbliadoCaos
.
estadão.com.br
Sábiolivre.
Autodidata,especializadoemcoisaalguma,orgulhava-sedeser umfranco-atirador,“livrecomoum táxi”
Revista.
Millôr(àdir.)naredaçãode
OCruzeiro
,em1950
ProdígiodoMéier
FilhodoespanholFranciscoFer-nandez,nasceuem16/8/1923,masopaisóoregistrouem27/5/1924.Nãobastasse,ores-ponsávelpelacertidãoderrapounacaligrafiaeMiltonvirouMillôr
Éatitudereducionistaconsiderá-lomaiscartunistaqueartistaporexporsuaobramaisemrevistasqueemgalerias
REPERCUSSÃO

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