/  5
 
Ninguém sabe ao certo quantos filhos há em Portugalprivados dos pais,mas,cruzando os números emanados dosgabinetes do Ministério da Justiça (sempre distantes darealidade,acredita-se) com aqueles (talvez mais perto daverdade) fornecidos pelas associações a trabalhar na áreadafamília,fica uma certeza:a de que em Portugal há mi-lhares de crianças que crescem longe dos progenitores – asmais das vezes afastadas dos pais pelas próprias mães,mediante processos judiciais erguidos antes de mais paraos afastar delas próprias.
em luta
pelos
filhos
SEPARAÇÃO
pais
TEXTO
Sarah Adamopoulos
¬
FOTOGRAFIA
Clara Azevedo
C
hama-se síndroma de alie-nação parental (SAP) o dis-túrbio que define um con- junto de sintomas (e ac-ções) resultantes de um processo de ma-nipulação da consciência das crianças, nosentido de «impedir, obstaculizar ou destruiros vínculos daquelas com o outro progeni-tor», alienando-o da vida e da educação dosfilhos. Assim designada pela primeira vez na segunda metade dos anos oitenta, a SAP sur-ge no contexto de disputas pela custódia dascrianças e tem regra geral as mães por prota-gonistas – já que são elas quem na sua maio-ria age segundo princípios bem conhecidosdos técnicos que trabalham na área da psico-logia do casal e da família, embora dissimu-lados por detrás de estratégias ocultas. Mas,pese embora toda a «não-inscrição» (enten-da-se o apagamento, a ocultação) deste tipode doutrinação (também chamada lavagemcerebral), ou talvez precisamente por causa dela, a SAP caracteriza-se por afectar irre-versivelmente a vida de todas as suas vítimas.
Vidas magoadas
Têm as vidas cheias das pequenas e grandescicatrizes da guerrilha. Fizeram o favor decontar as suas histórias, mas fizeram-nocheios de dúvidas, divididos entre a indigna-ção e o medo: o de dar um passo em falso, por-ventura passível de os afastar ainda mais dosfilhos. Cada história que aqui se conta é decerta forma um calvário, um caminho longo(para um pai cada dia sem ver o seu filho está a mais) e cheio de obstáculos, que estes paispercorrem com o coração nas mãos. Há quem não veja os filhos há anos, porque asmães não deixam, ajudadas por um sistema  judicial impossibilitado de funcionar com justiça. Um sistema que aceita, por exemplo,tratar estes pais como criminosos, à primeira acusação das mães todo-poderosas (de abusosexual, por exemplo). Mas talvez fosse con-veniente lembrar a estas mães (feridas, masde outras guerras) que aquele pai que esco-lheram para os seus filhos é só mesmo um:aquele – que não se substitui, que não se podeesquecer, que tem direitos e não apenas deve-res, que mesmo se menos equilibrado, ou me-nos lúcido, ou menos consensual, ou menosconvencional, ou até mesmo fora do baralho,será sempre o pai legítimo. Excluem-se evi-dentemente deste raciocínio os pais com psi-copatologias impeditivas da sua condição.
Leis variáveis
Nos EUA a legislação varia de estado para es-tado, tal como na Europa de país para país,embora no mundo predomine a guarda úni-ca – em geral dada à mãe. No Brasil, foi apro-vada nova legislação, que os movimentos as-sociativos de pais consideram um avançoinédito em termos mundiais. A AssociaçãoPais para Sempre (APPS) mantém contac-tos com uma associação brasileira de mãessolteiras, realidade que no Brasil não tem a 
 
sitivas. A alteração da designação «poder pa-rental» para «responsabilidade parental» éuma das mudanças mais aplaudidas. Já o nãocumprimento da prestação de alimentospassou a ser considerada tão grave como a re-cusa de contacto entre os filhos e o outro pai.Relativamente à introdução do princípio da guarda conjunta, o dirigente associativopensa que a questão foi apenas considerada a nível teórico. Também a supressão da no-ção de culpa merece o seu aplauso, porque,diz, «a culpa, tal como estava expressa na lei,tinha consequências muito graves em ter-mos práticos, porque muitas vezes as pes-soas não conseguiam pura e simplesmentedivorciar-se!» Sobre os denominados direi-tos de compensação, muitas são as vozes quese levantam contra aquilo que consideramser um retrocesso, já que a pensão que visava compensar o cônjuge que tinha deixado detrabalhar para dar apoio em casa a tempo in-teiro passou a ser encarada como uma forma de contabilizar o cumprimento de cada umna partilha das tarefas domésticas (quem la-vou mais vezes a casa, mudou mais fraldas,etc.) – o que produz processos intermináveisem tribunal, no decorrer dos quais se vai es-quecendo o que deveria ser prioritário: a questão dos filhos. Para não falar dos inúme-ros casos em que a pensão de alimentos dei-
44
»
noticiasmagazine
02.NOV.2008
45
»
noticiasmagazine
02.NOV.2008
mesma aceitação que em Portugal. No Bra-sil há uma enorme quantidade de criançasnão registadas (muitas fruto de uniões está-veis), sendo comummente aceite que a mãenão forneça a identidade do pai. Inesperadoque num país como o Brasil a nova legislaçãotome contornos de progresso civilizacional.Trata-se de um diploma que define como re-gra a guarda conjunta e também a reduçãode direitos em caso de difamação do outropai. Resta compreender de que modo os juí-zes a vão aplicar, já que os tribunais de famí-lia são amiúde acusados de nem sempreaplicar a lei, mas os preconceitos dos juízes.
Preconceitos e realidade
Um porta-voz da APPS (que pediu anoni-mato) disse à 
nm
pensar que o facto de a guarda em Portugal ser quase sempre entre-gue à mãe deriva da aplicação de princípiosda tradição. Embora nãose possa falar da existência de uma lei sexista, a verdade é queos juízes parecem sê-lo. «A tradição servepara esconder os preconceitos dos juízes,porque sabemos hoje que, tirando o períododa amamentação, que justifica nalguns casosque a guarda seja da mãe, o que predomina na educação de uma criança é a afectividade.Mesmo assim, muitos bebés são alimenta-dos a biberão, sem prejuízos de maior. Acre-ditamos que o que verdadeiramente conta éa ligação que as crianças estabelecem emantêm com os dois pais. Outro preconceitoé a pouca aceitação da guarda conjunta, combase no facto de a criança supostamente nãopoder crescer equilibradamente se viver emduas casas. Está hoje em dia sobejamenteprovado que o que prejudica o bom desenvol-vimento das crianças é a impossibilidade demanter uma relação afectiva com ambos ospais. A guarda conjunta não é uma soluçãomilagrosa, mas é a que mais se aproxima deuma solução sensata. Porque uma coisa é ospais desentenderem-se entre si, e outra sãoos filhos. É preciso que os pais percebam quenão podem continuar a usar os tribunais defamília para benefício da sua vingança, dassuas irritações, dos seus ressentimentos,instrumentalizando os filhos, embora pre-tendendo estar a beneficiá-los. Há aqui uma bandeira, socialmente bem recebida, que éa da defesa dos filhos – mas que se presta a todo o tipo de abusos.»
Princípios sexistas prevalecem
«Por outro lado, a guarda conjunta, a que mui-tas mães se negam pelas razões erradas (no-meadamente para se vingarem dos pais dosfilhos), serve também as mães – criar um filhosozinha é uma enorme responsabilidade euma grande carga. Por que razão há cada vezmenos mulheres a casar uma segunda vez?Porque não têm tempo, muitas vezes, nem se-quer para conhecer outros homens, pois es-tão a tempo inteiro a tratar dos filhos da pri-meira união. Hoje em dia, uma segunda uniãonão representa nenhum problema em ter-mos sociais. Antigamente as mulheres ti-nham a vida muito complicada se queriam di-vorciar-se. Os homens tinham quase todos osdireitos – o cabeça-de-casal era sempre o ho-mem, que tomava todas as decisões, incluin-do as que diziam respeito aos bens do casal. Antes do 25 de Abril as mães não tinham se-quer o direito de levar os filhos ao estrangei-ro... e também não tinham o direito de atribuira um filho outro nome que não o do marido(mesmo que o filho fosse de outro homem)!Já em Espanha, sobretudo desde a governa-ção de Zapatero, assistiu-se ao surgimento deuma discriminação legal, aprovada por todosos partidos, e que penaliza sobretudo os ho-mens no caso de violência doméstica ou abu-sos sexuais. O que contraria evidentemente a primazia legal da não distinção entre os géne-ros. É preciso ainda não esquecer que a vio-lência doméstica toma diferentes formas, eatinge tanto mulheres como homens, crian-ças ou velhos. Convém finalmente lembrarque a violência maior é a psicológica, que dei-xa mais marcas do que a física, como bem.»
Nova lei aquém das expectativas
Relativamente às recentes alterações à lei dodivórcio, o representante da APPS conside-ra-as superficiais, apesar de globalmente po-xa de ter cabimento, porque (a título deexemplo) o elemento que estava mais con-fortável do ponto de vista financeiro deixoude estar, invertendo-se por vezes a situação,sem que a lei possa ser célere a revê-la.»
Divórcio litigioso
Jaime Roriz, cinquenta anos, é pai de uma menina com dez anos, filha de um casamen-to cuja dissolução aconteceu contra a vonta-de da mãe. «Eu mudei de cidade, mas ia qua-se todos os dias a casa da minha ex-mulher(distante uma centena e meia de quilóme-tros) para dar banho à minha filha. Cantava--lhe uma canção, vestia-a, e essa foi duranteum ano a minha maneira de estar com ela.Depois as coisas começaram a correr mal e a mãe da minha filha tornou-se extremamen-te violenta, mudou a fechadura da casa e im-pediu-me de estar com a menina. A essa re-cusa juntaram-se outras circunstâncias, a mudança de cidade, de emprego, e tive mui-ta dificuldade em lutar contra isso. A minha vida estava por demais complicada, e confes-so que houve um momento em que baixei osbraços, e desisti. Quando a minha vida esta-bilizou um pouco, tentei reaproximar-me da minha filha, mas fui mal recebido. Na altura em que ela fez dois anos, apareci lá em casa,mas a avó materna recusou-se a deixar-meentrar. A mãe da minha filha anunciou entãoque eu só poderia ver a menina em casa dela e na presença dela. Sim, penso que ela temum ressentimento enorme contra mim.»
Advogados impreparados
Para Jaime Roriz, ele próprio jurista, algunsadvogados têm neste tipo de casos uma in-tervenção que considera insuficiente. «Para eles um processo destes não passa de maisum, mas a verdade é que envolve quase sem-pre um grande desgaste emocional, para oqual muitos advogados não estão prepara-dos. Percebi que dificilmente conseguiria arranjar um advogado que fosse comigo a uma conferência de pais e que pegasse noassunto como ele merecia. Eu dou apoio ju-rídico numa associação e sei que a primeira coisa que as pessoas fazem é passar a sua an-gústia ao advogado. Se eu não tivesse algu-ma preparação, que decorre também domeu caso pessoal, saía de todas essas reu-niões de rastos. O que a generalidade dos ad-vogados faz é construir uma “parede emo-cional”, para não deixar que essa angústia osafecte – mas isso não resolve nada. Por outrolado, é preciso ver que este tipo de processosnão tem muito interesse para os advogados,porque obrigam a muito trabalho, muitas di-ligências, muito tempo, por pouco dinheiro.E portanto não é uma área vantajosa para eles. Eu confrontei-me pessoalmente comessa realidade. Só consegui pegar novamen-te no processo quando a minha filha já tinha seis anos.»«Os tribunais não enfrentam as mães, por-que fazem o que é mais fácil, porque da ou-tra maneira dá muito trabalho. Os próprios juizes saem frustrados destes processos, oque explica que se desinteressem. Quanto a alguns representantes do Ministério Públi-co, estão por vezes mais preocupados com a hora de almoço... Isso aconteceu-me.»«A dada altura, por ordem do juiz, fui du-rante seis semanas todos os sábados a casa da minha filha para passar com ela um mo-mento. Comprei-lhe uma mochila, onde co-locava novos brinquedos, um livro para lercom ela, uma máquina fotográfica para fa-zermos fotos juntos, material para dese-nhar... Mas logo na segunda vez a mãe come-çou a boicotar. Ficava sentada no sofá, a me-nina no meio, eu de um lado, ela de outro, einventava todo o tipo de coisas urgentes pa-ra fazer com a criança, interferindo cons-tantemente. De tal forma que o Instituto deReinserção Social interveio e conquistei pa-ra o meu lado tanto as técnicas como a psicó-loga e a pedopsiquiatra, todas essas pessoasconcordam que um pai tem o direito deacompanhar a vida da filha. Contudo, não há nada nem ninguém que possa punir a mãeda minha filha por boicotar tanto a minha como a acção deste pessoal técnico.»
Sofrimento das crianças
Num segundo momento, Jaime passou a en-contrar-se com a filha no espaço do entãoInstituto de Reinserção Social, agora Co-missão de Protecção de Menores e Jovens
Confronto
«Os tribunaisnão enfrentam as mães porque fazemo que é mais fácil,da outra maneiradá muito trabalho»,Jaime Roriz.
Perversões do sistema judicial
 A dado passo houve um juiz que se mostrouinteressado em resolver o problema. Fui ou-vido por ele, que se decidiu pela aproxima-ção entre mim e a minha filha, porque a criança tem direito a ter um pai, e um paitem direito a estar com os filhos. Esse juizdisse-se empenhado em resolver o proble-ma. Mas a conferência de pais que se seguiufoi com outro juiz. Tive três juizes ao longodo processo. Isto não devia acontecer, masinfelizmente é a regra.» Jaime tem plena consciência de que a colaboração da mãe éfundamental para chegar à filha, porém es-sa ajuda nunca existiu, muito pelo contrário, já que a mãe investiu a partir de certa altura num discurso difamatório em relação ao pai.em Risco, após o que ia passear um poucocom ela, entregando-a mais tarde em casa da mãe. «A mãe fazia uma fita quando euchegava a casa dela. Um dia, sem razão, de-satou a chorar à frente da criança, o que fezcom que esta fizesse chichi pelas pernasabaixo.» Admoestada pelas técnicas do en-tão Instituto de Reinserção Social, a mãenão abrandou o boicote, transformando asvisitas do pai em momentos de disforia cul-pabilizadora para a criança, que mais do queuma vez perdeu o controlo da micção. E foientão que o pai bateu uma segunda vez emretirada, mais preocupado com a saúde e oequilíbrio mental da filha do que com qual-quer outra coisa. «Sou feito de carne e osso,e houve um momento em que à frente da 
 
47
»
noticiasmagazine
02.NOV.2008
46
»
noticiasmagazine
02.NOV.2008
técnica do instituto eu disse que não aguen-tava mais aquele sofrimento. Alguém tinha de ter juizo e acabar com aqueles momen-tos de sofrimento insuportável para a crian-ça, que não percebia nada do que se passava e se sentia culpada por aquelas cenas da mãe. Isto passou-se há três anos.»Entretanto, Jaime mudou de casa, ondepela primeira vez não fez um quarto para a filha, por se recusar a olhar para ele semprevazio. Inúmeras vezes pediu à mãe que fi-zesse algum tipo de trabalho interior, uma psicoterapia por exemplo, passível de a aju-dar a lidar melhor com a situação. Em tribu-nal, solicitou uma avaliação psicológica à mãe, que nunca aconteceu porque o tribu-nal não tinha meios coercivos para o fazer.
Mediação familiar musculada
Jaime luta contra o estereótipo que dita queos filhos devem sempre ficar com a mãe, emfavor da teoria da psicóloga (e autora de vá-rios livros sobre a alienação parental emPortugal) Maria Saldanha Pinto Ribeiro,que defende que os filhos devem ficar com oprogenitor mais flexível – aquele que seja considerado o mais equilibrado do ponto devista do superior interesse das crianças. So-bre o poder das mães, Jaime pensa que cabeaos legisladores e aos juízes cerceá-lo,nosentido de se manterem de acordo com asnecessidades das crianças. Este pai sabe quea sociedade não se muda por decreto. «Os juízes vêem a guarda conjunta como um fac-tor de conflitualidade, mas é preciso nãoperder de vista as questões filosóficas, as da doutrina. Porque se trata aqui de um valorque não pode ser posto de lado: o do direito
Bebés pertencem às mães?
Luís (nome fictício), 36 anos, separou-se da mulher com quem teve uma filha ao fim decerca de três anos de relação – quando a criança, que tem neste momento poucomais de um ano, contava apenas três meses.Tratou-se de uma separação de comumacordo, e a mãe ficar na altura com a guarda da menina não representou qualquer pro-blema para Luís, que concordou para ela continuar a ser amamentada pela mãe.O conflito entre estes pais surgiu no fim da amamentação, altura em que o pai pediu pa-ra partilharem a guarda, «embora não numa perspectiva rígida», esclarece Luís, «tendoeu aceitado que ela continuasse (por ser ain-da muito pequenina) a maior parte do tem-sões. Há um desequilíbrio da mãe ao níveldas exigências feitas, que não saberei dizer a que corresponde, mas talvez a mágoas queela tem. Todos saímos magoados disto, in-cluindo a nossa filha. Felizmente conseguievitar que a mãe a pusesse num infantário,porque não havia justificação para essa de-cisão, já que a minha mãe está disponível pa-ra tomar conta da menina. É uma situaçãode grande desgaste emocional, claro. Uma coisa sei: os filhos não têm de pagar pelos er-ros dos pais. Eu não abdico da minha filha.»
Pai afastado da vida da filha
Luís queixa-se: a comunicação com a mãe da sua filha está a ser muito difícil: «Quando a amamentação terminou, eu pedi para estarcom a minha filha em minha casa, mas a mãerecusou-se (alegando que era muito peque-nina e podia estranhar), e foi então que pusuma acção em tribunal. Desde então, as coi-sas pioraram, penso que ela ficou magoada,mas eu não podia fazer outra coisa, porquenão havia diálogo possível. Eu não prescindodo direito de participar na vida da minha fi-lha. O tempo está a passar, sem que esteja com ela ou tenha sequer uma palavra a dizersobre a sua vida. A minha filha está a crescersem mim – posso ter todos os defeitos massou o pai dela. É muito frustrante ter este ti-po de contacto com a minha filha, que se re-sume às minhas horas de almoço, ao banhoque lhe dou às quartas-feiras ao final do dia e,desde a última conferência de pais, a uma noite por semana em minha casa.»
Em defesa da guarda conjunta
Luís sabe que é melhor manter as expectati-vas baixas, o que diz bem da falta de esperan-ça na justiça da Justiça. «É claro que gostava de uma guarda conjunta, e estaria disposto a que fosse exercida de forma flexível, por aten-ção para com a sensibilidade da mãe (e reco-nhecer que a mãe tem tanto direito em estarcom a filha quanto eu, e a flexibilidade é ele-mento-chave porque a maior beneficiada é a nossa filha), pelo menos enquanto a menina é bebé. Não vejo nenhum impedimento para a guarda conjunta, mesmo na versão mais co-mum, em que a criança vive em duas casas,porque acredito que a única coisa que ascrianças vêem, e sentem, é a dedicação, oafecto dos pais. Para elas ter duas casas não re-presenta um problema. Mas a justiça, en-quanto instituição, tem outro entendimento. A justiça limita-se a aplicar a “chapa 5” para este tipo de casos. O que sinto, e vejo, à minha volta é desinteresse em saber por exemploqual o progenitor que reúne melhores condi-ções, do ponto de vista do equilíbrio da crian-ça, para ficar com a guarda. Saber por exem-plo qual é a pessoa que tem mais disponibili-dade para favorecer o contacto com o outropai. Eu pedi a guarda conjunta, mas a mãe nãoaceitou e pediu a guarda única, porque querdeter o controlo exclusivo da criança. Nãosendo possível, reclamo a guarda para mim,para fazer uma guarda conjunta. Tenho di-vergências com a mãe a vários níveis, mas ela é ainda assim a melhor mãe que a minha filha pode ter, porque é a dela!»
Quando a família toma o poder
 A filha de António (nome fictício), 43 anos,nasceu de uma união que durou cerca de trêsanos, e que este pai considera ter sido «de iní-cio boa, com alguma harmonia. A nossa filha nasceu um ano e meio depois de estarmos a viver juntos, e a partir desse momento passá-mos a ter imensos problemas. A avó materna é uma pessoa com um comportamento umpouco obsessivo, um pouco estranho em re-lação à minha filha. Eu explico: a mãe da mi-nha filha tinha uma irmã, que morreu com16 anos, e de alguma forma a avó materna fezuma projecção na neta dessa filha que per-deu. E por isso, a partir do nascimento da me-nina, a nossa vida de casal passou a ser de cer-to modo comandada pela avó materna, por-que a minha então companheira não era capaz de fazer o que quer que fosse sem con-sultar a mãe, que mandava em tudo e toma-va todas as decisões. A nossa relação termi-nou por causa disso. Era muito difícil lidarcom essa situação. Tentei várias vezes cha-mar a mãe da minha filha à razão, mas ela nãoassumia. Quando nos separámos, a nossa fi-lha tinha um ano e meio. Não foi pacífico,porque a mãe não queria essa separação, eagia como se a nossa situação estivesse ópti-ma, como se a relação não estivesse a degra-dar-se diariamente, muito devido àquela cir-cunstância familiar nada saudável.»
Acusação de abuso sexual
 A partir da separação, há cerca de cinco anos,várias peripécias marcam o percurso de An-tónio enquanto pai. Desaparecimentos da mãe, tentativas goradas de chegar a um acor-do em termos de regulação das responsabili-dades parentais, constante intervenção da família da mãe, desemprego temporário de António, chantagens «inaceitáveis» da mãe(«para veres a tua filha tens de pagar»), ten-tativa de afastamento da família de Antónioda vida da criança (agressões verbais à avópaterna, por exemplo) e, finalmente, «a cere- ja»: acusação de abuso sexual. «Eu tinha es-tado vários meses impedido de ver a minha filha, e tinha consultado um advogado, queme aconselhou a ser mais afirmativo e a im-por o meu direito de visita. Acabou por resul-tar, e vi-a durante alguns fins-de-semana.Mas depois da acusação de abuso sexualnunca mais consegui vê-la. Antes disso ligueivárias vezes à mãe, mas ela não atendia. Assemanas desfilaram sem que eu pudesse es-tar com a minha filha. Vários meses depoisrecebi uma mensagem da mãe da minha fi-lha informando-me que estavam de férias eque estava tudo bem. Ela não tem, ainda ho- je, capacidade para se confrontar comigo. Até que uma vez lhe liguei, e ela me disse queeu ia ter de responder à polícia – um mês de-pois soube que ela me acusava de abuso se-xual da minha filha, abuso que teria ocorridono último fim-de-semana em que eu tinha estado com a menina.» Indagada sobre o fim-que se recusa a tirar o alimento da sua boca para dar aos filhos – porque é isso que é su-posto eles fazerem: tirar da boca deles para dar aos filhos! Mas o que acontece é que a leipermite que um dos pais tome todas as deci-sões, e o outro apenas tem o direito de vigiarde longe. Faz algum sentido, isto?»
Formação parental
Não deveria ser obrigatório algum tipo deformação para futuros pais – que pudesseprepará-los para uma condição que jamaisdeveria ser assumida com a ligeireza co-mum às coisas da paixão amorosa entre uma mulher e um homem? A paixão dissipa-se,tal como por vezes a união, deixando filhos,com necessidades afectivas que as pessoasdescuram em virtude da habitual falta dediscernimento que marca o momento da se-paração de um casal. «Para tudo é necessária uma licença, incluindo a carta de conduçãode velocípedes para andar de bicicleta. Já para ter filhos, toda a gente pode tê-los», iro-niza Jaime Roriz. «No momento da separa-ção pai e mãe estão em sofrimento, indepen-dentemente de quem tem mais ou menosculpa. Aliás, a culpa é uma ideia judaico-cris-tã que não leva a lado algum, e ainda bemque este governo decidiu retirar esse con-ceito do texto legal do divórcio. Bom tam-bém que tenham mudado a expressão “po-der paternal” para “responsabilidades pa-rentais”, porque é disso que se trata.» JaimeRoriz está a candidatar-se a uma tese de dou-toramento sobre a síndroma de alienaçãoparental, no âmbito da qual pretende cons-truir um modelo jurídico passível de ajudara mudar o estado das coisas.po com a mãe, que contudo impôs que eu medeslocasse a casa dela para estar com a mi-nha filha. Não penso que tenha feito isso porachar que eu não era capaz de cuidar da me-nina. Mas as alegações da mãe, no processoque está a decorrer, são bastante agressivas,acusatórias. Foi feita por exemplo referên-cia ao facto de eu não ter sido, segundo ela,capaz de lhe limpar o umbigo sem ser comviolência, fazendo sangrar a bebé (mesmodepois de a pediatra dizer que essa situaçãocostuma acontecer). Fui acusado de lavar osbiberões com detergente. Mas nunca foi fei-ta referência ao facto de eu me ter demons-trado capaz de fazer tudo o que respeita aoscuidados com a menina. No final do dia, a se-guir ao trabalho, ia todos os dias dar banho à minha filha. Penso que o objectivo da mãe éficar com a guarda da menina. Até porque osfilhos costumam ser entregues às mães –simplesmente porque é hábito fazê-lo. Para mim há aqui um egoísmo das mães, porquetêm uma noção de propriedade sobre os fi-lhos, e vão para tribunal à partida favoreci-das, usando isso contra os pais.»Este pai culpa-se por «erros de análise»relativamente à evolução daquela mulherenquanto mãe. Erros tão-somente decor-rentes da sua fé no facto de um ambiente fa-miliar estável poder ajudar a atenuar as in-seguranças da mãe. Luís refere inseguran-ças maiores do que a conta, fala de alguémpouco independente, talvez demasiadoimatura. Alguém que não dialoga, antes im-põe – regimes e horários de visita, valores depensão de alimentos («absurdos e numa perspectiva exploratória»), como se fossenatural ser a mãe a tomar esse tipo de deci-
Vantagem
«Os filhos são entregues às mãessimplesmente porque é hábito fazê-lo.Há aqui um egoísmodas mães,que vão à partida favorecidas para tribunal»,Luís.
das crianças a ter um pai. A regulação do po-der parental não é a mesma coisa que a ven-da de um andar. Em processo civil, como é ocaso, que tem uma jurisdição voluntária eem que os juízes têm autonomia processual,no âmbito dos quais podem tomar iniciati-va, as coisas deviam correr melhor. Por ve-zes os juízes tomam boas decisões, mas de-pois não conseguem fazer cumpri-las, por-que esbarram no poder das mães de fechara porta aos pais, impedindo-os de ver os fi-lhos. Penso que a solução passa por uma me-diação familiar musculada, em que haja umcontrolo objectivo dos movimentos dasmães. As pessoas não podem dizer uma coi-sa e fazer outra. Os juízes não podem aceitarque um pai em incumprimento possa dizer

Share & Embed

More from this user

Add a Comment

Characters: ...