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02.NOV.2008
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técnica do instituto eu disse que não aguen-tava mais aquele sofrimento. Alguém tinha de ter juizo e acabar com aqueles momen-tos de sofrimento insuportável para a crian-ça, que não percebia nada do que se passava e se sentia culpada por aquelas cenas da mãe. Isto passou-se há três anos.»Entretanto, Jaime mudou de casa, ondepela primeira vez não fez um quarto para a filha, por se recusar a olhar para ele semprevazio. Inúmeras vezes pediu à mãe que fi-zesse algum tipo de trabalho interior, uma psicoterapia por exemplo, passível de a aju-dar a lidar melhor com a situação. Em tribu-nal, solicitou uma avaliação psicológica à mãe, que nunca aconteceu porque o tribu-nal não tinha meios coercivos para o fazer.
Mediação familiar musculada
Jaime luta contra o estereótipo que dita queos filhos devem sempre ficar com a mãe, emfavor da teoria da psicóloga (e autora de vá-rios livros sobre a alienação parental emPortugal) Maria Saldanha Pinto Ribeiro,que defende que os filhos devem ficar com oprogenitor mais flexível – aquele que seja considerado o mais equilibrado do ponto devista do superior interesse das crianças. So-bre o poder das mães, Jaime pensa que cabeaos legisladores e aos juízes cerceá-lo,nosentido de se manterem de acordo com asnecessidades das crianças. Este pai sabe quea sociedade não se muda por decreto. «Os juízes vêem a guarda conjunta como um fac-tor de conflitualidade, mas é preciso nãoperder de vista as questões filosóficas, as da doutrina. Porque se trata aqui de um valorque não pode ser posto de lado: o do direito
Bebés pertencem às mães?
Luís (nome fictício), 36 anos, separou-se da mulher com quem teve uma filha ao fim decerca de três anos de relação – quando a criança, que tem neste momento poucomais de um ano, contava apenas três meses.Tratou-se de uma separação de comumacordo, e a mãe ficar na altura com a guarda da menina não representou qualquer pro-blema para Luís, que concordou para ela continuar a ser amamentada pela mãe.O conflito entre estes pais surgiu no fim da amamentação, altura em que o pai pediu pa-ra partilharem a guarda, «embora não numa perspectiva rígida», esclarece Luís, «tendoeu aceitado que ela continuasse (por ser ain-da muito pequenina) a maior parte do tem-sões. Há um desequilíbrio da mãe ao níveldas exigências feitas, que não saberei dizer a que corresponde, mas talvez a mágoas queela tem. Todos saímos magoados disto, in-cluindo a nossa filha. Felizmente conseguievitar que a mãe a pusesse num infantário,porque não havia justificação para essa de-cisão, já que a minha mãe está disponível pa-ra tomar conta da menina. É uma situaçãode grande desgaste emocional, claro. Uma coisa sei: os filhos não têm de pagar pelos er-ros dos pais. Eu não abdico da minha filha.»
Pai afastado da vida da filha
Luís queixa-se: a comunicação com a mãe da sua filha está a ser muito difícil: «Quando a amamentação terminou, eu pedi para estarcom a minha filha em minha casa, mas a mãerecusou-se (alegando que era muito peque-nina e podia estranhar), e foi então que pusuma acção em tribunal. Desde então, as coi-sas pioraram, penso que ela ficou magoada,mas eu não podia fazer outra coisa, porquenão havia diálogo possível. Eu não prescindodo direito de participar na vida da minha fi-lha. O tempo está a passar, sem que esteja com ela ou tenha sequer uma palavra a dizersobre a sua vida. A minha filha está a crescersem mim – posso ter todos os defeitos massou o pai dela. É muito frustrante ter este ti-po de contacto com a minha filha, que se re-sume às minhas horas de almoço, ao banhoque lhe dou às quartas-feiras ao final do dia e,desde a última conferência de pais, a uma noite por semana em minha casa.»
Em defesa da guarda conjunta
Luís sabe que é melhor manter as expectati-vas baixas, o que diz bem da falta de esperan-ça na justiça da Justiça. «É claro que gostava de uma guarda conjunta, e estaria disposto a que fosse exercida de forma flexível, por aten-ção para com a sensibilidade da mãe (e reco-nhecer que a mãe tem tanto direito em estarcom a filha quanto eu, e a flexibilidade é ele-mento-chave porque a maior beneficiada é a nossa filha), pelo menos enquanto a menina é bebé. Não vejo nenhum impedimento para a guarda conjunta, mesmo na versão mais co-mum, em que a criança vive em duas casas,porque acredito que a única coisa que ascrianças vêem, e sentem, é a dedicação, oafecto dos pais. Para elas ter duas casas não re-presenta um problema. Mas a justiça, en-quanto instituição, tem outro entendimento. A justiça limita-se a aplicar a “chapa 5” para este tipo de casos. O que sinto, e vejo, à minha volta é desinteresse em saber por exemploqual o progenitor que reúne melhores condi-ções, do ponto de vista do equilíbrio da crian-ça, para ficar com a guarda. Saber por exem-plo qual é a pessoa que tem mais disponibili-dade para favorecer o contacto com o outropai. Eu pedi a guarda conjunta, mas a mãe nãoaceitou e pediu a guarda única, porque querdeter o controlo exclusivo da criança. Nãosendo possível, reclamo a guarda para mim,para fazer uma guarda conjunta. Tenho di-vergências com a mãe a vários níveis, mas ela é ainda assim a melhor mãe que a minha filha pode ter, porque é a dela!»
Quando a família toma o poder
A filha de António (nome fictício), 43 anos,nasceu de uma união que durou cerca de trêsanos, e que este pai considera ter sido «de iní-cio boa, com alguma harmonia. A nossa filha nasceu um ano e meio depois de estarmos a viver juntos, e a partir desse momento passá-mos a ter imensos problemas. A avó materna é uma pessoa com um comportamento umpouco obsessivo, um pouco estranho em re-lação à minha filha. Eu explico: a mãe da mi-nha filha tinha uma irmã, que morreu com16 anos, e de alguma forma a avó materna fezuma projecção na neta dessa filha que per-deu. E por isso, a partir do nascimento da me-nina, a nossa vida de casal passou a ser de cer-to modo comandada pela avó materna, por-que a minha então companheira não era capaz de fazer o que quer que fosse sem con-sultar a mãe, que mandava em tudo e toma-va todas as decisões. A nossa relação termi-nou por causa disso. Era muito difícil lidarcom essa situação. Tentei várias vezes cha-mar a mãe da minha filha à razão, mas ela nãoassumia. Quando nos separámos, a nossa fi-lha tinha um ano e meio. Não foi pacífico,porque a mãe não queria essa separação, eagia como se a nossa situação estivesse ópti-ma, como se a relação não estivesse a degra-dar-se diariamente, muito devido àquela cir-cunstância familiar nada saudável.»
Acusação de abuso sexual
A partir da separação, há cerca de cinco anos,várias peripécias marcam o percurso de An-tónio enquanto pai. Desaparecimentos da mãe, tentativas goradas de chegar a um acor-do em termos de regulação das responsabili-dades parentais, constante intervenção da família da mãe, desemprego temporário de António, chantagens «inaceitáveis» da mãe(«para veres a tua filha tens de pagar»), ten-tativa de afastamento da família de Antónioda vida da criança (agressões verbais à avópaterna, por exemplo) e, finalmente, «a cere- ja»: acusação de abuso sexual. «Eu tinha es-tado vários meses impedido de ver a minha filha, e tinha consultado um advogado, queme aconselhou a ser mais afirmativo e a im-por o meu direito de visita. Acabou por resul-tar, e vi-a durante alguns fins-de-semana.Mas depois da acusação de abuso sexualnunca mais consegui vê-la. Antes disso ligueivárias vezes à mãe, mas ela não atendia. Assemanas desfilaram sem que eu pudesse es-tar com a minha filha. Vários meses depoisrecebi uma mensagem da mãe da minha fi-lha informando-me que estavam de férias eque estava tudo bem. Ela não tem, ainda ho- je, capacidade para se confrontar comigo. Até que uma vez lhe liguei, e ela me disse queeu ia ter de responder à polícia – um mês de-pois soube que ela me acusava de abuso se-xual da minha filha, abuso que teria ocorridono último fim-de-semana em que eu tinha estado com a menina.» Indagada sobre o fim-que se recusa a tirar o alimento da sua boca para dar aos filhos – porque é isso que é su-posto eles fazerem: tirar da boca deles para dar aos filhos! Mas o que acontece é que a leipermite que um dos pais tome todas as deci-sões, e o outro apenas tem o direito de vigiarde longe. Faz algum sentido, isto?»
Formação parental
Não deveria ser obrigatório algum tipo deformação para futuros pais – que pudesseprepará-los para uma condição que jamaisdeveria ser assumida com a ligeireza co-mum às coisas da paixão amorosa entre uma mulher e um homem? A paixão dissipa-se,tal como por vezes a união, deixando filhos,com necessidades afectivas que as pessoasdescuram em virtude da habitual falta dediscernimento que marca o momento da se-paração de um casal. «Para tudo é necessária uma licença, incluindo a carta de conduçãode velocípedes para andar de bicicleta. Já para ter filhos, toda a gente pode tê-los», iro-niza Jaime Roriz. «No momento da separa-ção pai e mãe estão em sofrimento, indepen-dentemente de quem tem mais ou menosculpa. Aliás, a culpa é uma ideia judaico-cris-tã que não leva a lado algum, e ainda bemque este governo decidiu retirar esse con-ceito do texto legal do divórcio. Bom tam-bém que tenham mudado a expressão “po-der paternal” para “responsabilidades pa-rentais”, porque é disso que se trata.» JaimeRoriz está a candidatar-se a uma tese de dou-toramento sobre a síndroma de alienaçãoparental, no âmbito da qual pretende cons-truir um modelo jurídico passível de ajudara mudar o estado das coisas.po com a mãe, que contudo impôs que eu medeslocasse a casa dela para estar com a mi-nha filha. Não penso que tenha feito isso porachar que eu não era capaz de cuidar da me-nina. Mas as alegações da mãe, no processoque está a decorrer, são bastante agressivas,acusatórias. Foi feita por exemplo referên-cia ao facto de eu não ter sido, segundo ela,capaz de lhe limpar o umbigo sem ser comviolência, fazendo sangrar a bebé (mesmodepois de a pediatra dizer que essa situaçãocostuma acontecer). Fui acusado de lavar osbiberões com detergente. Mas nunca foi fei-ta referência ao facto de eu me ter demons-trado capaz de fazer tudo o que respeita aoscuidados com a menina. No final do dia, a se-guir ao trabalho, ia todos os dias dar banho à minha filha. Penso que o objectivo da mãe éficar com a guarda da menina. Até porque osfilhos costumam ser entregues às mães –simplesmente porque é hábito fazê-lo. Para mim há aqui um egoísmo das mães, porquetêm uma noção de propriedade sobre os fi-lhos, e vão para tribunal à partida favoreci-das, usando isso contra os pais.»Este pai culpa-se por «erros de análise»relativamente à evolução daquela mulherenquanto mãe. Erros tão-somente decor-rentes da sua fé no facto de um ambiente fa-miliar estável poder ajudar a atenuar as in-seguranças da mãe. Luís refere inseguran-ças maiores do que a conta, fala de alguémpouco independente, talvez demasiadoimatura. Alguém que não dialoga, antes im-põe – regimes e horários de visita, valores depensão de alimentos («absurdos e numa perspectiva exploratória»), como se fossenatural ser a mãe a tomar esse tipo de deci-
Vantagem
«Os filhos são entregues às mãessimplesmente porque é hábito fazê-lo.Há aqui um egoísmodas mães,que vão à partida favorecidas para tribunal»,Luís.
das crianças a ter um pai. A regulação do po-der parental não é a mesma coisa que a ven-da de um andar. Em processo civil, como é ocaso, que tem uma jurisdição voluntária eem que os juízes têm autonomia processual,no âmbito dos quais podem tomar iniciati-va, as coisas deviam correr melhor. Por ve-zes os juízes tomam boas decisões, mas de-pois não conseguem fazer cumpri-las, por-que esbarram no poder das mães de fechara porta aos pais, impedindo-os de ver os fi-lhos. Penso que a solução passa por uma me-diação familiar musculada, em que haja umcontrolo objectivo dos movimentos dasmães. As pessoas não podem dizer uma coi-sa e fazer outra. Os juízes não podem aceitarque um pai em incumprimento possa dizer
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