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UMA LEITURA JUSFILOSÓFICA DO LEVIATÃ

UMA LEITURA JUSFILOSÓFICA DO LEVIATÃ

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PHRONESIS Revista do Curso de Direito da FEAD-Minas - volume 1, nº 1, Janeiro/20069
Thomas Hobbes, avatar do positivismo jurídico:uma leitura jusfilosófica do
 Leviatã
 Andityas Soares de Moura Costa Matos
1
“Se queres uma imagem do futuro,pensa numa bota pisando um rosto humano, para sempre”.
George Orwell
1.Introdão
 Leviatã ou maria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil
ousimplesmente
 Leviatã
é uma daquelas raras obras que, ao lado de
 A república
dePlatão,
 A política
de Aristóteles e
O príncipe
de Maquiavel, possivelmente nuncadeixará de ser lida pelos homens enquanto ainda se preocuparem com a melhorforma de se organizar a sociedade. Por isso mesmo, o livro de Hobbes merece serchamado de clássico. O clássico não envelhece nem se mostra ultrapassado; aindaque suas aparências possam denotar certo inevitável desgaste, sua essênciapermanece ativa, oferecendo respostas a questões que vêm ocupando freqüente-mente o pensamento humano.Contudo, o valor do tratado político-filosófico de Hobbes não reside, talvez, noconteúdo das idéias apresentadas. As principais teses do
 Leviatã
não eramdesconhecidas na época em que o autor lançou a obra, algumas delas representandoverdadeiros lugares-comuns do movimento jusracionalista. Outrossim, os princípiosbásicos que norteiam a teoria hobbesiana do Estado já haviam sido expostos demaneira embrionária pelo pensador inglês em estudos anteriores, tal como no
 Do cidadão
2
, que, inclusive, apresenta feição mais acadêmica e universalista: escrito emlatim, destinava-se à Europa culta, e não à ainda bastante rude e iletrada ilha ondenasceu o filósofo.
1
Mestre em Filosofia do Direito pela UFMG, Professor e Coordenador do curso de Direito da FEAD-Minas, autor de “Filosofia do direito e justiça na obra de Hans Kelsen” (Belo Horizonte: Del Rey, 2005).
2
Em sua tradução, Renato Janine Ribeiro refere-se ao estilo algo tortuoso e nervoso de
 Do cidadão
,encontrando a beleza do texto em seu desequilíbrio (2002, p. XXXVI), apreciação que poderíamosaplicar também ao
 Leviatã
.
 
PHRONESIS Revista do Curso de Direito da FEAD-Minas - volume 1, nº 1, Janeiro/200610
Na verdade, o impressionante no
 Leviatã
é o vigor e a elegância da argumenta-ção de Hobbes, a clareza de suas colocações e a honestidade intelectual que muitasvezes lhe custou caro durante sua inquieta existência
3
. Talvez influenciado por seusdotes matemáticos – indispensáveis à mente filosófica, como bem demonstraramautores tão diversos como Platão e Wittgenstein –, Hobbes buscou de maneirainsistente a expressão exata para dar forma a seus pensamentos, escrevendo, dessemodo, um tratado político-jurídico que, malgrado a temática aparentemente áspera,é saboroso e estimulante
4
. Assim, ainda que não concordemos com muitas das idéiasde Hobbes, o conhecimento de sua obra máxima, além de obrigatório para aquelesque pretendem não se ver absolutamente excluídos da
intelligentsia
ocidental,constitui excitante exercício intelectual, que, ademais, guarda algumas boassurpresas para o leitor.Parece-me óbvio que acrescentar outras variadas razões para a leitura dequalquer obra – à parte aquela acima aduzida da
boa
leitura – é algocompletamente supérfluo. Os livros devem se impor por si mesmos, comocertamente acontece com o
 Leviatã
. Nas linhas que se seguem apresentar-se-ãoalguns esclarecimentos que podem ser de alguma utilidade para o leitor não-especialista. Pretendeu-se também organizar os principais pontos tratados noextenso volume, buscando captar-lhe a proposta central, o que, afinal, constituiadequado subterfúgio para o desenvolvimento de algumas de minhas experiên-cias – ou hábitos – de leitura do
 Levia
, realidade subjetiva que, como éevidente, não posso e nem pretendo ocultar.
2. Breve esboço biobibliográfico
Nascido de parto prematuro – “por ansiedade da mãe”, explicou o filósofo – em Westport
5
, no dia 5 de abril de 1588, Thomas Hobbes era filho de um alvoroçadovigário anglicano, que abandonou a cidade após uma briga na porta de sua Igreja,tendo o jovem ficado sob a guarda de um de seus irmãos mais velhos. Após receber
3
Quentin Skinner enxerga no
 Leviatã
uma síntese do estilo racionalista – próprio da metodologiacientífica do séc. XVII – e da argumentação retórica característica do humanismo renascentista, dadoque, no desenvolvimento de sua argumentação, Hobbes raras vezes dispensa a ironia, a sátira, aeloqüência e outros recursos similares. De tal união, brotou uma maneira de escrever única queencanta e incomoda até os dias de hoje (Skinner, 1999, pp. 569-581).
4
Contudo, isso não significa que o texto do
 Leviatã
seja fluido e facilmente compreensível em todos osseus momentos. Há passagens obscuras, digressões e confusões que podem dificultar, e de fatodificultam, o entendimento da obra. Para Skinner, tal se deve ao uso de inúmeras figuras de retóricano
 Leviatã
, procedimento que a crítica tradicional desconhece ou nega, mas que parece ser bemrazoável: “[...] pensar na prosa hobbesiana como uma janela clara, através da qual podemos fitarininterruptamente seu pensamento, constitui um grave erro. O pensamento de Hobbes no
 Leviatã
émediado por uma prosa em que as técnicas do
 ornatus
são usadas para produzir um grande número deefeitos deliberadamente ambíguos. Não reconhecer esse fato equivale a não reconhecer o tipo detrabalho que temos nas mãos” (Skinner, 1999, p. 28).
5
Hoje parte de Malmesburry, a cerca de 140 km. a oeste de Londres.
 
PHRONESIS Revista do Curso de Direito da FEAD-Minas - volume 1, nº 1, Janeiro/200611
educação formal na escola de Malmesburry, Hobbes foi admitido em Magdalen Hall(Oxford), no ano de 1603. Formou-se cinco anos depois, não sem entrar em conflitocom os métodos escolásticos da Instituição, que não lhe pareciam suficientementecientíficos.Tornou-se tutor do filho de William Cavendish, conde de Devonshire, barão deHardwick, viajando com seu pupilo para o continente em 1610, quando tomoucontato com a nascente ciência nova e sua metodologia especulativo-racionalpropugnada por Galileu, Gassendi, Mersenne e Kepler, entre outros. Durante operíodo de 1621 a 1625, foi secretário de Francis Bacon, um dos pais da modernanoção de ciência. Tendo sempre acalentado o sonho de se apresentar ao mundo comoum grande físico ou matemático, é notável como seus estudos no campo das ciênciasexatas refletiram profundamente na sua obra político-jurídica, uma vez que Hobbesenxerga a natureza humana de forma mecanicista, e o Estado como simples artefato(Bobbio, 1999, p. 33), desprovido de significação ética. Após a morte do barão de Hardwick em 1628, ocasionada pela peste negra,Hobbes foi demitido pela viúva do falecido. Desde então, viveu em Paris trabalhandocomo tutor de outro jovem nobre, filho de
Sir
Gervase Clifton. Retornou aosserviços da família Cavendish em 1631, orientando os estudos do filho de seu antigopupilo. Nessa época, parece que Hobbes abandonou definitivamente seus interessespelas matemáticas e decidiu aprofundar seus conhecimentos filosóficos. A partir de1637, passou a se considerar, definitivamente, um filósofo.Em novembro de 1640, mudou-se para a França, uma vez que tomara o partidoreal na guerra civil entre puritanos e monarquistas que então abalava a Inglaterra eque culminou com o julgamento e a execução do rei Charles I, em 1649.Posteriormente, instaurou-se uma república na Inglaterra – a
Commonwealth
–, quelogo se degenerou na tirania do protetorado de Cromwell. Uma vez em territóriofrancês, Hobbes tomou contato com vários círculos científico-filosóficos, estudou opensamento de Descartes e deu à estampa alguns de seus principais escritospolíticos. O
 Leviatã
foi publicado em 1651, e, como Charles I tinha sido executado,frustrando assim todas as esperanças da causa realista, Hobbes tentou, no últimocapítulo da obra, comprovar a possibilidade de a Inglaterra submeter-selegitimamente a um novo soberano. Tais idéias o indispuseram perante a corteinglesa, que as enxergou como um flerte com a forma de governo republicana.Hobbes foi obrigado a deixar a França devido a seus ataques ao papado. Não lherestou então outra alternativa senão regressar à Inglaterra, após mais de onze anosde exílio. O retorno à pátria não foi fácil para o filósofo, pois teve que enfrentar aelite universitária tomista de Oxford, a qual provocara com a ousada proposta deintrodução de novos métodos científicos nas universidades inglesas. No entanto,com a restauração da monarquia inglesa em 1660, Hobbes foi readmitido na cortepor Charles Stuart II, a quem já conhecia desde 1645, quando, durante sua estadiaem Paris, foi convidado a ensinar matemática ao então príncipe de Gales. Mas nempor isso sua vida foi mais tranqüila. O vingativo clero, que inclusive tinha se opostoà reintegração de Hobbes na corte operada por Charles II, não apreciava as idéiasexpostas no
 Leviatã
. Por volta de 1666-1667, discutiu-se no Parlamento uma lei que

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