/  6
 
Álbum de Memórias(Carolina Simionato)Ela abriu seu álbum na primeira página.Há algum tempo pegava-se contemplando sua infância. A única épocaque considerava boa de sua vida, portanto tinha certa urgência em lembrá-la.Esta urgência que consumia-lhe o peito nunca havia sido tão forte comonaquele dia. Sentada em sua residência de frente para o mar, ainda que o marfosse lindo, sentia a necessidade de lembrar da fase mais feliz e ingênua quetivera.Envelhecera rápido. E este envelhecimento, de certa forma precoce,trouxera-lhe coisas que preferia simplesmente ignorar. Com a idade, dizia suamãe, vem a teimosia. Mas não gostava de lembrar esta frase. Remetia-na paraas lembranças pertencentes a sua mãe.Sua mãe morrera havia alguns anos, porém nunca curara-se do mal queaquilo a fizera. Morrera num mês que as duas haviam brigado. Não poderiahaver momento pior para esta tragédia, que deixou marcas profundas em suapersonalidade.Tentou se livrar desses pensamentos avulsos, que sempre vinham juntoà sua infância. Esvaziou a mente e continuou a ver o álbum.Na sua época, meados do século XX, não havia álbuns tão modernos.Era pobre, ainda, mas nem os ricos imaginariam um dia ligar uma máquinaligada em uma tomada para ver os momentos que se passaram, as fotografias,cartas... Sempre fora chamada de antiquada, pois era isso que era – o queesperavam de uma mulher nascida no começo do século passado?A primeira foto que podia ver, ainda que sua vio embaçada oajudasse muito, era de si mesma em um berço humilde, feito de uma madeiranão tão nobre, mas que tinha valor de ouro para ela. Sorria, o que não eranormal entre fotos de sua família...Na próxima foto, via-se, em uma foto velha e com a parte de cimaqueimada, ela e seu amigo de infância, amigo que sempre a acompanhou, eque amou. Morrera, também. Naquela casa sobrara só ela mesma e suaempregada, Joana, a quem tinha grande afeição; acreditava que esta tambéma gostava.- Senhora? Chamou-me? Joana sabia muito bem que sua senhora não ahavia chamado. Mas, de dez em dez minutos, ia verificar como ela estava. Eravelha, a coitada. Não se podia descuidar nem por um minuto.Ignorou-a, a velha. Esperou, pessoalmente, que Joana não a viessevigiar por algum tempo, uma hora, talvez. o queria que suas docesmemórias fossem atrapalhadas por uma preocupação tola – tola, era isso queachava da preocupação dos outros para com ela. Sou uma velha, dizia alto, aqualquer momento posso morrer e ninguém poderá mudar isso!, gritava maisalto ainda. Achava hipocrisia a grande esperança de vida longa – se é quechegar aos setenta anos não era ter uma vida longa o bastante – que seusfilhos diziam ter.Seu álbum contava com apenas vinte fotos. Sua inncia fora bempobre, mas seus pais sempre fizeram questão de fotografar alguns momentos.
 
A terceira foto a mostrava formando-se na quarta série. Foi a época emque conheceu coisas que nunca esqueceria. Coisas importantes, queconsiderava lições: como a traição do pai, que considerava ultrajante para aépoca. Esboçava o mesmo sorriso da primeira foto, um sorriso ingênuo demenina, de menina que não sabia o futuro que a esperava.Viu-se, então, em uma foto de quando iniciou no “ginásio”, ao lado deseu futuro marido, Márcio. Naquela época já sentia-se diferente quanto a ele, eachava que ele também. Márcio morrera havia seis meses, na cama. Todos quea cercavam estavam morrendo.Ela, sentada em uma cadeira acolchoada e macia virada para a área, viao u, onde achava que seu marido estaria a olhando. E desejava ointensamente que pudesse morrer naquele instante. O amou tanto, ah, como oamou, e ainda o amava. Foi o único a quem respeitara integralmente, emtodos os dias de sua vida conjugal, apesar das inúmeras e infinitas brigas.As próximas fotos mostravam coisas que ela o queria lembrar.Lágrimas molharam seus olhos e a pele enrugada que os cercavam.- Senhora, precisa de ajuda? Era Joana novamente.- Não, Joana, não, estava se irritando com ela. Sentiu um impulso, eseguiu-o. Joana, disse, volte aqui.A empregada, sorrindo, voltou.- Sim, dona. Diga.- Gostaria de dizer-lhe algumas coisas, sorriu brevemente, coisas queuma velha gagá algum dia tem de dizer a alguém.- Toda ouvidos, senhora.- Fui uma pessoa ruim, Joana. Não tão ruim, mas ainda sim má, fixouseu olhar em algum ponto no horizonte.- Não diga isso, dona!- Ah, Joana, digo. Tu és moça, não conheceu-me na flor da idade.Porém, Joana, juro-te que nunca fiz nada que pudesse ferir meu marido, aomenos não moralmente! Se é que me entende.- Claro. Sempre foste da maior bondade com “seu” Márcio.- Que bom que sabes, Joana. Porém não fui a mãe que esperava ser aobrincar com minhas bonecas. E isso me dói, Joana, sabes disso?- Imagino. Prossiga, se quiseres.- Ah, querida, claro que quero. Sinto-me feliz por te ter aqui, sabias? É,sinto-me sim. Ao menos tu me ouves.- Sempre, sempre a ouvirei.Riu-se um pouco.- Não será difícil, disse com um sorriso singelo, o meu sempre nãodurará muito mais.- Não digas isso, d-, fora interrompida por sua senhora.- Digo, e sabes que é verdade. Sem mais delongas, continuarei comminha melancólica narração. Minha infância foi a melhor que minha condiçãopoderia conhecer, e foi melhor ainda atribuindo-se o fato de que conheci Márcionela. Minha juventude, ah, curti-a com Márcio, e foi boa, também. Minha faseadulta, não foi tão boa, mas, como dizem... “deu pro gasto”.Joana riu.- Dona, se me permite dizer... Qual é o propósito disso?
 
- Meu tempo não será longo, Joana. Um ano, no máximo! Quero contar-lhe um pouco de mim, não tenho forças nem para escrever. Quer que pare?Não tens a necessidade de ouvir a conversa de uma gagá.- Tenho um imenso prazer em ouvir o que me contas, dona.- Eno prosseguirei, rapidamente, sem delongas! Como disse-lheresumidamente, não tenho o direito de reclamar muito de minha vida. Deveria,sim, ter dado mais amor às pessoas que amo. Meus filhos. Irmãos. Família. Tu,Joana, não te dei o que merecias! E ainda faço-te ouvir essas confissões.- Já disse que é um prazer para mim! Continue.- Bem, Joana, é simples. Não quero que minha existência passe tãovagamente por tua mente, apenas como “a velha que serviste quando estaestava no leito de morte”, prosseguiu. Minha infância, em minha mente, foi amelhor época que tive. Conto-lhe amanhã os detalhes de minha infância. Masprossigamos com o resumo... Sinto-me culpada por tantas coisas, tantascoisas que não tive coragem o suficiente para pedir perdão, ah! Meus filhos...Temo que, com a correria de seu cotidiano, não os volte a ver.- Senhora, para o Natal não falta muito. Estamos já em Outubro, nãodemora e eles vêm!- Ah, claro! Ainda tenho a esperança de os ver. O Natal... Confesso-lheque ele serviu para matar as saudades que sentia dos familiares, pois nuncaachei a proposta do Natal muito verdadeira. Raramente ganhei presentes emnatais, minha família não poderia comprar presentes para quatro filhos, noentanto, sempre foram memoráveis – tanto por serem bons, quanto por seremdesastres a parte.Natal lembra-me, também, que nunca dei o que meus filhos mereciam.Não, Joana, não em termo de presentes! Minha família ficou consideravelmenterica com o passar dos anos, os natais eram sempre fartos para nós depois deenriquecermos. Mas amor, Joana, é disso que te falo! Para meu julgamento,não acho que os dei o suficiente. E de mais a mais, ah, querida, fiz tanta coisaerrada na vida... Talvez seja assunto para amanhã, também. Mas fiz, enfim.Quando minha mãe morreu, então, ah, que martírio! Estava brigada com ela,por bobagem, mas estava. Ela tinha oitenta e dois anos. Tu não tens idéia decomo isso partiu minha alma! Foi o doloroso, Deus... Meus filhos oentenderam meu desespero, assim como imaginei que seria. Segurava-me emMárcio, até que, aos oitenta e dois anos, como minha mãe, ele tambémdeixou-me aqui, sozinha. Ah, claro, claro, Joana, lembro-me de meus filhos!,reagiu a careta que Joana fez, mas eles não contam tanto quanto meu amadoMárcio, quero dizer, não me entendem como ele entendia. Ele era perfeito paramim, é até espantoso.Conheci-o numa tarde de verão, enquanto ia à Mercearia do amigo deminha família, Joaquim, comprar alguns condimentos para minha mãe. Eleestava lá, sentado na porta da mercearia, olhando para o nada. Quando o vi,disse-me “Olá, estava esperando por você!”, sem ao menos me conhecer.Espantei-me, respondi “mas nem te conheço!”, no que ele rebateu “nunca étarde, podemos nos conhecer!”. E olha que éramos crianças, riu de novo, aoque lágrimas molharam seus velhos e cansados olhos.Ele me deu tudo o que queria, minha jovem. Espero que um dia sintas oamor que sentia, e ainda mantenho, por ele. Deu-me os filhos que tanto amo.

Share & Embed

More from this user

Add a Comment

Characters: ...