- Meu tempo não será longo, Joana. Um ano, no máximo! Quero contar-lhe um pouco de mim, não tenho forças nem para escrever. Quer que pare?Não tens a necessidade de ouvir a conversa de uma gagá.- Tenho um imenso prazer em ouvir o que me contas, dona.- Então prosseguirei, rapidamente, sem delongas! Como disse-lheresumidamente, não tenho o direito de reclamar muito de minha vida. Deveria,sim, ter dado mais amor às pessoas que amo. Meus filhos. Irmãos. Família. Tu,Joana, não te dei o que merecias! E ainda faço-te ouvir essas confissões.- Já disse que é um prazer para mim! Continue.- Bem, Joana, é simples. Não quero que minha existência passe tãovagamente por tua mente, apenas como “a velha que serviste quando estaestava no leito de morte”, prosseguiu. Minha infância, em minha mente, foi amelhor época que tive. Conto-lhe amanhã os detalhes de minha infância. Masprossigamos com o resumo... Sinto-me culpada por tantas coisas, tantascoisas que não tive coragem o suficiente para pedir perdão, ah! Meus filhos...Temo que, com a correria de seu cotidiano, não os volte a ver.- Senhora, para o Natal não falta muito. Estamos já em Outubro, nãodemora e eles vêm!- Ah, claro! Ainda tenho a esperança de os ver. O Natal... Confesso-lheque ele serviu para matar as saudades que sentia dos familiares, pois nuncaachei a proposta do Natal muito verdadeira. Raramente ganhei presentes emnatais, minha família não poderia comprar presentes para quatro filhos, noentanto, sempre foram memoráveis – tanto por serem bons, quanto por seremdesastres a parte.Natal lembra-me, também, que nunca dei o que meus filhos mereciam.Não, Joana, não em termo de presentes! Minha família ficou consideravelmenterica com o passar dos anos, os natais eram sempre fartos para nós depois deenriquecermos. Mas amor, Joana, é disso que te falo! Para meu julgamento,não acho que os dei o suficiente. E de mais a mais, ah, querida, fiz tanta coisaerrada na vida... Talvez seja assunto para amanhã, também. Mas fiz, enfim.Quando minha mãe morreu, então, ah, que martírio! Estava brigada com ela,por bobagem, mas estava. Ela tinha oitenta e dois anos. Tu não tens idéia decomo isso partiu minha alma! Foi tão doloroso, Deus... Meus filhos nãoentenderam meu desespero, assim como imaginei que seria. Segurava-me emMárcio, até que, aos oitenta e dois anos, como minha mãe, ele tambémdeixou-me aqui, sozinha. Ah, claro, claro, Joana, lembro-me de meus filhos!,reagiu a careta que Joana fez, mas eles não contam tanto quanto meu amadoMárcio, quero dizer, não me entendem como ele entendia. Ele era perfeito paramim, é até espantoso.Conheci-o numa tarde de verão, enquanto ia à Mercearia do amigo deminha família, Joaquim, comprar alguns condimentos para minha mãe. Eleestava lá, sentado na porta da mercearia, olhando para o nada. Quando o vi,disse-me “Olá, estava esperando por você!”, sem ao menos me conhecer.Espantei-me, respondi “mas nem te conheço!”, no que ele rebateu “nunca étarde, podemos nos conhecer!”. E olha que éramos crianças, riu de novo, aoque lágrimas molharam seus velhos e cansados olhos.Ele me deu tudo o que queria, minha jovem. Espero que um dia sintas oamor que sentia, e ainda mantenho, por ele. Deu-me os filhos que tanto amo.
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