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Programa Ciência e Realidade. Epistemologia Aplicada
 – 
 
MARTINS Jr. P. P. (cord.), VASCONCELOS, V. V.
 – 
Cap. 2:
Sucinta Abordagem Histórica sobre a Evolução do Pensamento
(43 p.)
in “Epistemologia Fundamental, Tomo I”,
Universidade Corporativa Petrobrás, 2005.
 
 
22
 
 _________________________________________________________________________
SUCINTA ABORDAGEM HISTÓRICA SOBRE AEVOLUÇÃO DO PENSAMENTO
 __________________________________________________________________ 
O CONHECIMENTO para os GREGOS
Os primeiros filósofos não se preocupavam se poderiam ou não conhecerefetivamente a realidade. Pressupunham que, com o devido empenho e atenção,pode-se, sem dúvida, conhecer a
Natureza
(
physis 
), o
Ser
e o
mundo
(
kosmos 
).Através da
Aletheia 
 
(
revelação
), os objetos do mundo se manifestavam paranossos sentidos, e podíamos então entender a realidade. A verdade eraconsiderada como a
Aletheia 
, que em grego significa o não-oculto, não escondido,não-dissimulado. Portanto,
o
 
verdadeiro
é apresentado aos olhos e ao espírito doindivíduo, como manifestação direta e não dubitável das coisas. É uma concepção
de verdade ligada diretamente ao “
ver-perceber
”. Do lado oposto, o falso era
identificado com o termo
Pseudos 
, que representava o ato do universo de seesconder dos olhos humanos, e se referia à dissimulação e às aparências. Averdade exige que nos libertemos da aparência das coisas, para que conseguimosir além das opiniões (
doxa 
) comuns e de ilusões perceptivas.Hoje, na filosofia contemporânea, a verdade não se refere mais às próprias coisasou fatos, tomados em si, como o faziam os gregos no caso da
Aletheia 
. A verdadepassa a se referir à linguagem, ou seja, ao que é relatado por um enunciado. Acorrespondência do enunciado com as evidências empíricas garante a verdade,que passa a ser encarada como correspondência entre enunciado e mundo.Os gregos consideravam que o mundo era racional, ao que chamavam de
Logos 
,do qual a razão particular dos homens participavam, o que legitimava acognocibilidade do universo. Inclusive, o Logos é considerado como princípioantecedente do qual precede toda a racionalidade do Homem e da Natureza, ou
formulado de outra maneira, é “um princípio disseminado no mundo, comofundamento de todo pensar, de todo dizer e de todo ser” [Gonçalves, (19
96), p.
 
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197]. Conjugando a racionalidade do mundo com o sentido da
Aletheia 
, oconhecimento pode ser considerado como a percepção intelectual, ou racional, daverdade que está nas próprias coisas ou na realidade
PRÉ-SOCRÁTICOS:
Essa estreita ligação do conhecimento humano à racionalidade do mundo (
Logos 
),pode ser observada no seguinte fragmento de Heráclito de Éfeso:
 Fragmento DK 50
(
HIPÓLITO
.
 Refutação de todas as heresias
.)
"Não de mim mas do lógos tendo ouvido ésábio homologar tudo é um".
Neste fragmento, Heráclito teria pretendido expressar que, através da percepçãoda estrutura (racional) do universo, chegou à conclusão de que o universo comoum todo pode ser entendido como um objeto único. Também é importante atentarque o verdade não está no q
ue Heráclito diz (pois ele anucia “não de mim...”), e
sim no próprio Logos que fala aos homens.O valor do conhecimento pode ser auferido do seguinte fragmento:
DK 112 
(
ESTOBEU
.
Florilégio 
. I, 178):
“Pensar sensatamente (é) virtude máxima e sabedoria
é dizer (coisas) verídicas e
fazer segundo (a) natureza, escutando.”
 Neste fragmento também pode-se perceber a importância do conhecimento estarcoerente à natureza, e que a natureza deve ser imitada tanto na estrutura doconhecimento quanto nas ações humanas.Ao longo de seus fragmentos, é constante a referência de que o Logos estásempre conectável, disponível para que as pessoas o ouçam. Todavia, Heráclitocritica diversas vezes que a maioria da população não consegue compreendercorretamente o universo, ou mesmo se esquece rapidamente de seusensinamentos, como podemos ver no seguinte fragmento:
 Fragmento
 DK 1
(
SEXTO EMPÍRICO
.
Contra os matemáticos
. VII, 132):
 
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"Deste
lógos 
sendo sempre os homens se tornam descompassados quer antes de ouvirquer tão logo tenham ouvido; pois, tornando-se todas (as coisas) segundo esse
lógos 
, ainexperientes se assemelham embora, experimentando-se em palavras e ações tais quaiseu discorro segundo (a) natureza distinguindo cada (coisa) e explicando como secomporta. Aos outros homens escapa quanto fazem despertos, tal como esquecemquanto fazem dormindo."
Em outras palavras, Heráclito expõe como as pessoas perdem sua adequação emrelação à racionalidade do universo (incluindo aí a adequação do conhecimento),pois fecham-se em si mesmos e não se atentam para a estrutura do universo.Heráclito os compara as pessoas que estão dormindo, evidenciando o fato de quelhes escapa o que está a sua volta.Quanto à sua concepção da Natureza, Heráclito interpreta o mundo como um fluxodinâmico, onde tudo está em eterna mudança; e apesar disso, pode no fim serconsiderado com uma unidade, quando encarado como um todo. Esse aspectodinâmico do mundo não é pacífico, pois Heráclito vê em cada coisa um conjuntode potências e tensões contrárias, que estão lutando entre si. Somente através daluta entre os divergentes é que pode emergir a harmonia do mundo, e casocontrário, se tudo ficasse parado, significaria a morte. O Fogo é o elementomarcante, eleito para representar essa natureza dinâmica conflituosa do mundo.ARISTÓTELES,
Meteorologia,
II, 2. 355 a 13 
 
“O sol não é apenas novo a cada dia, mas continuamente novo.”
 ARISTÓTELES,
Ética a Nicômaco,
VIII, 2. 1155 b 4 
 
“O contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela ha
rmonia, e tudo
segundo a discórdia.”
 CLEMENTE DE ALEXANDRIA,
Tapeçarias,
V, 105 
 
“Este mundo, o mesmo de todos os (seres), nenhum deus, nenhum homem o fez,
mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-
se em medidas.”
 HIPÓLITO,
Refutação,
 
IX, 9 
 
“Não compreendes como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia detensões contrárias, como de arco e lira.”
 
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