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BNDES, EMPRESARIADO E INTERESSE PÚBLICOFábio Wanderley ReisA sociologia do empresariado no Brasil, em que figurou com destaqueo nome do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, tem um de seus temassalientes na avaliação das relações entre os empresários e o Estado. Adivulgação das conversas gravadas entre o ministro Mendonça de Barros eAndré Lara Resende, colocando em foco a atuação do BNDES na conduçãodas privatizações, traz o tema de novo à tona em circunstâncias em que,curiosamente, Fernando Henrique passou a ser o representante máximo doEstado brasileiro.A confusão é grande a respeito do assunto. Em diferentes momentosou, às vezes, ao mesmo tempo, os empresários surgem quer como liderança potencial de um processo de desenvolvimento nacionalista, quer comoirremediavelmente dependentes perante o Estado ou marcados por deficiências de ordem psicossocial ou ideológica que negariam viabilidade aum projeto de “hegemonia burguesa”; quer como integrados num processode desenvolvimento dependente e prestando apoio ao autoritarismo políticoem função dos proveitos que dele extrairiam, quer como opondo-se, emnome do liberalismo, a um Estado que se valia das formas politicamenteautoritárias para expandir-se na esfera econômica e invadir o que seria aseara própria da iniciativa privada.A atuação do BNDES no passado e no presente ilustra o que há deequívoco e escorregadio nas avaliações em questão. São fato notório, que pesquisas acadêmicas têm documentado com clareza, as autênticas (evolumosas) doações de recursos públicos a poderosos setores empresariaisem que redundaram reiteradamente os empréstimos a juros reais negativosdo banco. Naturalmente, a justificativa pretendida para tais empréstimos,referindo-se ao fomento da atividade econômica, apelam para o interesse público. Eles podem ser vistos, não obstante, como exemplo da freqüenteassimilação entre o interesse público e o interesse empresarial privado queresulta ser uma característica do capitalismo como tal. Se a imagem doEstado provedor de recursos que se liga com essa face tradicional do
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BNDES permite, talvez, que se pretenda ver o Estado como mentor de umempresariado dependente, é bem clara a afinidade que ela apresenta tambémcom a idéia contida na clássica fórmula marxista do Estado como comitê para a administração dos negócios da burguesia. Nas circunstâncias atuais, certamente não há razão para maioresênfases na idéia de nacionalismo ou de um empresariado propriamentenacional. De qualquer forma, as gravações divulgadas nos mostram oEstado, personificado pelo presidente do BNDES, o ministro dasComunicações e outros burocratas de alto nível, às voltas com um interesseempresarial que é plural – não há “o interesse empresarial”, há interessesempresariais diversos, que competem uns com os outros. O Estado é, então,“autônomo”. Para começar, são dele as normas que regulam a competição.Mas as fitas revelam, naturalmente, algo mais: no embate dos interessesempresariais, os agentes tecnoburocráticos do Estado sabem, ou reclamamsaber, onde está o interesse público, ainda que as normas fixadas pretendamque o interesse público esteja resguardado sobretudo pela isenção eimparcialidade do Estado.Sentem-se, assim, aqueles agentes à vontade para manipular os termosem que se há de dar a competição e eventualmente o seu resultado. De novo,como é próprio da perspectiva tecnocrática, temos a suposição de que os fins(no caso, aquilo que cabe tratar de obter com os leilões de privatização) sãoclaros e inequívocos, sendo presumivelmente o objeto de um consensolatente entre todos os cidadãos de boa vontade que viessem eventualmente aocupar a posição em que os tecnocratas se acham eles próprios. Talsuposição se conjuga com outra: a de que a informação especial de que ostecnocratas dispõem, seja em sua condição de peritos ou em decorrência da posição que ocupam, pode legitimamente ser usada em sigilo (denuncie-secom veemência o ilícito contido na gravação e divulgação das fitas!) paraassegurar que o interesse público tal como definido prevaleça.Resta outro aspecto que a questão da administração tecnocráticasempre suscita: qual é a relação com a chefia política do governo, no caso o presidente da República? As fitas mostram Fernando Henrique reagindo positivamente, em nome do adequado atendimento da população, ao relato
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