JEAN-PAUL BOURRE 
OS VAMPIROS
(1986) PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICAPRIMEIRA PARTE
O Vampirismo, uma doença de alma
 Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para aignomínia, para a reprovação eterna.
DANIEL (XII 1-3)
Segundo as lendas e as crenças o vampiro seria uma criatura da noite, um não mortoabsorvendo a vitalidade dos vivos para escapar ao túmulo. Construiria dessa forma uma espéciede imortalidade mágica na região das trevas, que separam a vida da morte.
Os vampiros existiram?Processos verbais e crônicas do século XVIII são explícitos. No decorrer de certasexumações, sob o controlo das autoridades locais, desenterraram-se cadáveres em perfeitoestado de conservação: «O corpo não libertava qualquer cheiro, tinha sim, pelo contrário,mantido o seu estado de frescura sem que apresentam-se o mínimo sinal de decomposição.O sangue que saía da boca do cadáver era tão fresco como se de uma pessoa sã se tratasse.O cabelo, a barba e as unhas tinham crescido e a pele começava a separar-se do corpo,enquanto uma nova se formava. O rosto, as os, os s, estavam igualmenteconservados.» (Asfeld, 1730.) Na maior parte dos casos; neste tipo de sepulturas (contrastando com as outras)registram-se tenebrosas vibrações. Fazem-se na aldeia o levantamento de muitas emisteriosas mortes, ocorridas na proximidade do cemitério. Animais degolados, homens emulheres exangues, crianças mortas por debilidade e outros tantos casos deenlouquecimento.Os agentes da polícia e os religiosos encarregados de fazer o inquérito dirigiram-se por fim ao cemitério, como era inevitável!
 
Os túmulos são abertos e o coração do cadáver é trespassado com o auxílio de umaestaca, a cabeça cortada à machadada e o caixão cheio de cal viva. Processos verbais, sãoredigidos e assinados pelos oficiais do rei e autenticados pelas autoridades locais.Em 1776, D. Agustin Calmet, padre beneditino e abade de Senóvia, redigiu o seu
Tratado sobre
as
aparições dos espíritos, reencarnações, anjos, demônios,
e
vampiros daSilésia
e
da Morávia,
dedicado ao príncipe Carlos de Lorena, Bispo d’Olmütz.Relata-nos ele: «Citam-se e ouvem-se testemunhas, examinam-se situações,observam-se os corpos exumados procurando sinais vulgares, como a mobilidade, aflexibilidade dos membros, a fluidez do sangue, a incorruptibilidade do corpo. Se tais pormenores forem na verdade observados concluir-se-á que são eles quem molesta osvivos, pelo que são entregues ao carrasco a fim de que ele os queime.» E mais adiante,adverte do perigo que paira: «Este mal que espalha o terror, castiga particularmente aHungria, a Polônia, a Silésia, a Morávia, a Áustria e a Lorena. Quem de- le nos livrará, poisnão deixará de aumentar caso não se puser cobro a tal situação?»E conclui por fim: «No meio de tudo isto, não vejo senão trevas e dificuldades, cujasolução deixo aos mais hábeis e ousados.»Superstições, alucinações, lendas ou presenças autênticas vindas de além túmulo? Acaça está aberta...Quando se estuda o vampirismo pode dizer':"se que se trata de uma via tenebrosa, deum culto da noite cuja divindade central seria o não morto visto que o vampiro cultiva a sua personalidade demoníaca. Ele ama o seu próprio corpo e tenta, por todos os meios mágicos,evitar a sua desintegração.Os adeptos deste culto mudam de nome segundo as regiões, os dialetos, os costumes.O jesuíta Gabriel Rzazcynsi explica em 1 721: «Há mortos que mesmo no túmuloconservam a avidez de devorar e que, à boa maneira dos espectros, fazem as suas vítimas pela vizinhança; os polacos dão-Ihe o nome especial de
Upiers
e
Upiercza.
A Europacentral foi, durante muito tempo, o feudo destes senhores da.noite, capazes de interromper o processo de decomposição do corpo, suspensos entre a vida e a morte nessas zonas deobscuridade que as antigas religiões povoavam de diabos, de demônios. Nas províncias da Alemanha, em Hasse, Wurtenberg, Brunswick, afirmava-se que ocadáver-vampiro, uma vez saído do caixão, tinha o poder de se transformar em ave noturnae voar durante a noite à procura das suas vítimas.Mais perto de nós, o professor Vukanovic assinalou danos causados pelos vampirosna Sérvia, nos anos de 1933,1940, 1947 e 1948, principalmente na província de Kosovo-Motohija.Em 1970, o feiticeiro inglês David Farrant foi condenado, sem apelo nem agravo, acinco anos de 'prisão por violação e profanação de sepultura. E no prosseguimento denumerosos testemunhos acerca de uma «presença» no cemitério de Highgate, no Norte deLondres, que Farrant e os seus adeptos tentaram um ritual de invocação do vampiro. Os jornais ingleses seguiram esta rocambolesca aventura durante várias semanas. Falou-se nocaso de um caixão arrombado, de um cadáver decapitado por Farrant, de símbolos mágicos pintados sobre as sepulturas, de obsessões, de pesadelos que apavoravam os habitantes deHighgate, de animais degolados pelas veredas do cemitério, etc.
 
Assim o vampirismo, que tem como figura principal a sombria e arrogante figura dofamoso príncipe Drácula – embora estejamos longe das epidemias vampirescas dos séculosXVIII e XIX –faz sempre os seus discípulos. Propõe um método para vencer a morte,utilizando o fascínio e o desejo, jogando com o medo e a obsessão. E uma espécie deespiritualidade contraditória que procura evitar a decomposição do corpo, mantendo osinstintos e os impulsos selvagens do homem para além túmulo. O oposto às espiritualidadeslibertadoras que partem as amarras e comunicam ao homem o sentimento de eternidade, aunião com Deus.A magia negra do vampiro permitiria obter uma eternidade fictícia, uma espécie deestado letárgico intermediário. O vampirismo seria uma doença da alma.Para Siméon le Nouveau Théologien – eremita do século X – só a perfeição espiritual permite vencer o túmulo e libertar-se do tempo e da morte, escreve ele nos seus
CapítulosTeológicos:
«Morre sem na verdade morrer todo aquele que atingir a perfeição, porque vivaem Deus, ao qual está unido, como que tendo deixado de viver em si próprio.»
Na outra extremidade, Stanislas de Guaita, esoterista e mestre da OrdemCabalística de Rosa-Cruz, declara: «Proceder aos ri tos sanguinários num túmuloentreaberto, agrava talvez a situação: é sugerir à alma embaraçada ainda nas peiasmagnéticas do cadáver a tentação de se manter assim, é estender-lhe o cálice doabominável vampirismo.»
As leis do sangue
O vampirismo está sempre associado a um drama, uma maldição, uma doença pquica herediria. Na epopéia negra e vermelha dos vampiros apareciam casaisamaldiçoados, homicidas megalômanos tais como o príncipe VIad Drakul, grandes famíliasatingidas por um mal misterioso, como os Bathory ou os Cillei na Romênia do século XV.Todos eles fascinados por uma escie de vontade rbida, rapidamentetransformada em neurose, em obsessão. Cultivam desejos dos mais perturbadores, taiscomo Bárbara Cillei e seu irmão partilhando da mesma cama ou VIad Drakul empalando osseus prisioneiros e fazendo-se servir de faustosas refeições, entre cadáveres suspensos delanças e piques.Vive-se febril e loucamente a sexualidade e a morte. O leito nupcial torna-se fúnebre pelas maldições e juramentos terríveis nele feitos. «Voltarei!...» Uiva Bárbara Cillei antesde morrer. Herman, seu irmão, invocará os demônios da antiga magia para que a irmãressuscite. As crônicas romenas da região da Transilvânia afirmam que o êxito teria sidocompleto. Bárbara Cillei saiu do túmulo visitando o castelo de Varazdin, onde tem a suasepultura. Coincidências ou epidemias diabólicas? Em 1936, na aldeia de Kneginecc –  perto de Varazdin – várias pessoas novas, rapariguitas, pereceram de maneira estranha.«Algumas morreram em poucas semanas, em dois ou três meses no máximo, sem se lhesconhecer qualquer doença. Todas tinham sobre a garganta duas ou três manchas azuladas.Muitos destes jovens acordavam durante a noite atormentados por horríveis pesadelos.»

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