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Poesia_Luís Fontinha

Poesia_Luís Fontinha

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Published by: Francisco Luís Fontinha on May 01, 2012
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01/25/2013

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1 de novembroÉ-me difícil ser euO eu defeituoso que vive numa caixa de sapatosCom uma tampa de vidroE paredes de papel,É-me difícil ser eu,Duzentos e seis ossos e uma cabeça de aboboraDois braços finos como um pincelE nas pernas as raízes apodrecidas do desassossego,E tenho de ser eu,É-me difícil ver-me ao espelho da noiteE pela tampa de vidroDa caixa de sapatos onde vivo…Descem tentáculosQue se enrolam aos meus duzentos e seis ossosE levam as minhas mãos…Os tentáculos comem as minha mãos,E fico proibido de abraçar O mar e o Tejo,Em seguida,Os tentáculos comem-me os olhos…E deixo de ver as gaivotasE deixo de ver o meu corpo seminuEmbrulhado nos lençóis da manhãE deixo de ser eu,É-me difícil ser euO eu defeituoso que vive numa caixa de sapatosCom uma tampa de vidroE paredes de papel,O eu sem braçosO eu sem olhos
 
O eu sendo eu não sou o eu…E as paredes de papel começam a arder,A noite esconde-se na Ajuda,E procuro o meu corpoDentro do estômago do TejoE vejo um outro eu com o meu corpo,É-me difícil ser euDentro desta caixa de sapatosCom tampa de vidro…E paredes de papel,E hoje vivo sem corpo…À procura dos meus braçosÀ procura dos meus olhos,Dentro de uma caixa de sapatos com uma tampa de vidro e paredes de papel…
 
 1988 Nesta distante esplanadaA minha sombra de fim de tardeEmerge numa espécie de túnel,Tenho em frente a mim o museu dos coches,De um lado os Jerónimos,O enorme jardim de Belém- … E o CCB também…Ainda não é nascidoÉ apenas lixo,E ao fundoO eterno rioQue suas margens me alimentamDão-me forças para voar Trazem-me versos teusPor favor… um café e uma águaSem gásObrigado.Hoje não tenho fome, Não vou lanchar E cada segundo passadoO túnel fica mais estreito,Mais apertado, Na minha sombra de fim de tardeAmanhã não sei o que vou fazer,Se trabalhar Olhar o teu rosto na esplanada de BelémOu… simplesmente nada fazer,- Nem dormir  Nem acordado,E… até lá ainda posso morrer,Ir até Cacilhas,Embebedar-me em cais de sodré,Deitar-me na relva de BelémOlhar o céuEu olhava o céu escuro da vidaOs silêncios corriam pela calçada da ajudaQue nunca me ajudou em nadaQue nunca me deu nadaApenas… chatices,E vontade de fugir.