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O JOGO DO PAU EM PORTUGAL - Ernesto Veiga de Oliveira (1984)

O JOGO DO PAU EM PORTUGAL - Ernesto Veiga de Oliveira (1984)

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Ernesto Veiga de Oliveira - “Festividades Ciclicas em Portugal” 1984
Ernesto Veiga de Oliveira - “Festividades Ciclicas em Portugal” 1984

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O JOGO DO PAU EM PORTUGAL
Ernesto Veiga de Oliveira - “Festividades Ciclicas em Portugal” 1984 O jogo do pau na área nortenha:O jogo do pau na área do Sul.O Pau O jogo do pau é uma técnica de luta. em que a arma é um simples pau direito eliso, da altura aproximada de um homem, empunhado e manejado adequadamentepor cada um dos contendores. que com ele procuram por um lado atingir o ou osadversários, e por outro defender-se dos golpes por este ou estes desferidos. O jogo do pau, nestes termos genéticos, foi conhecido em muitas partes.nomeadamente no Extremo Oriente — India, China, Japão, Tailândia, Vietname, Afeganistão — e em vários países europeus, como por exemplo Portugal. Espanha.França e Inglaterra. Neste último, tal jogo — que era próprio da gente e da culturacampesinas — levava o nome de quarterstaff. que designava também a sua armaespecífica — um pau robusto. com cerca de 2 m de altura, que se empunhava emanejava. com duas mãos: e. tal como veremos com o jogo português, ele revestia adupla forma de um combate e de um desporto. Em Portugal. esse pau, ou varapau. não é porém apenas o elemento específico de tal jogo ou luta: ele faz — e sobretudo fazia — parte da indumentária normal do homemdo campo, associado essencialmente às suas deslocações a pé e também a cavalo,como companheiro e apoio, e sobretudo como arma elementar para se defender deeventuais agressões, de gente c de animais. Como arma, de ataque ou defesa, o pau é uma forma tão simples que a etnologia emgeral não o inclui na categona das «armas que se seguram com as mãos».. Contudo,em Portugal. Desenvolveu-se uma técnica tão rica e tão perfeita do seu manejo, quese pode dizer que o pau sobreleva todas as demais armas daquela categoria, e queum bom jogador de pau não receia a luta com qualquer adversário que use outrasarmas. Põe-se assim o problema de saber se o uso do pau como arma representaapenas um aspecto do uso do pau como implemento de carácter geral, ou se, pelocontrário, o uso do pau em geral representa a ampliação a outras funções daquilo queprimeiramente e basicamente era unicamente uma arma. Na Galiza (onde o pau e o jogo do pau se conhecem em termos semelhantes aos queaqui vemos, parecendo mesmo terem ali sido levados por portugueses), o varapau,nas palavras de Lorenzo Fernandez, era «o companheiro dos moços rondadores,dos viandantes ao longo dos caminhos, dos pastores no alto dos montes: o seu oficioera múltiplo, no caminho era uma ajuda, ora a subir as encostas ora a descê-las,descansando-se nele o peso do corpo: quando um regato cortava a vereda, saltava-se por cima dele apoiando-se no varapau. O pastor no monte e o feirante na ferracarregavam nele o seu peso, aliviando assim deste as pernas, também o pastor tangiacom ele o gado, e, quando era preciso, afugentava o lobo, tanto em defesa própriacomo na do gado que lhe estava confiado»: e «só se largava de mão enquanto omoço conversava com a sua moça na lareira da casa desta, então o pau ficava àporta, para indicar aos outros que nada tinham que fazer ali.» 
 
O pau era de uso exclusivamente masculino e na Galiza «o rapaz tinha-se por moçoquando arranjava o seu varapau, e ia de ronda com os outros: era assim como ser armado cavaleiro». O jogo do pau teve em Portugal uma expansão e uma importância muito grandes atétempos recentes. Distinguimos duas áreas principais ern que ele se praticava: umaárea nortenha, compreendendo as províncias de Entre Douro e Minho, Beira Altae Beira Litoral, e outra ao Sul, compreendendo o Ribatejo e pane da Estremadura,incluindo Lisboa. Por outro lado, sob o ponto de vista da sua natureza e significado culturais, e contextogeral em que se integrava, o jogo do pau apresentava-se sob duas formas totalmentediversas, ás quais correspondem. sob alguns aspectos, outros tantos tipos de jogo: I)o jogo-combate, que é uma luta propriamente dita e auténtica, tendo em vista dominar ou inutilizar efectivamente o ou os adversário, e 2) o jogo-desporto, torneio atlético etema de espectáculo, combativo mas sem quaisquer intuitos agressivos, em que sepretende apenas pôr à prova e exibir dotes ginásticos e apuros de técnica e estilo aver quem joga melhor. Estas duas formas não eram exclusivas de quaisquer das áreas que apontá-mos(exceptuando Lisboa, onde só se jogava o pau como desporto): e, pelo contrário, tantona área nortenha como no Sul o pau jogava-se como forma de combate a sério ecomo torneio competitivo amigável, conforme as circunstâncias. Mas é fora de dúvidaque enquanto na área nortenha o jogo-combate era uma forma normal e corrente,e aquela que dava verdadeiro sentido ao jogo do pau, na área do Sul predominamarcadamente o jogo-desporto ou o torneio de exibição. Dentro de cada uma destas áreas e categorias, porém, notam-se certas diferençasde estilo e maneira de jogar, conforme as várias regiões ou o jeito próprio de cada umdos «mestres» ou jogadores. 
O jogo do pau na área nortenha:
Como dissemos, o jogo do pau. na área nortenha, tem a feição predominante do jogo-combate. mais forte, duro e rude, e com características acentuadamente rurais; e os jogadores são os próprios homens do campo envolvidos em questão. Nessa área.o jogo-combate relaciona-se com as estruturas tradicionais da vida e da sociedadecampesina, e corresponde ao período clássico e «heróico» desse tipo de vida, emque as diversas comunidades viviam fechadas nos seus valores locais próprios, ossentimentos possuiam uma violência que mal acatava entraves, e o policiamentodos costumes era pouco operante. As posições e rivalidades vicinais, produto develhas querelas entre a gente de aldeias próximas, a partir de motivos mais ou menosgraves, por vezes insignificantes -mulheres, águas, cães - e exacerbadas por umsociocentrismo indiscriminado: os agravos e desavenças pessoais e familiares: osantagonismos Políticos, espicaçados por um caciquismo fanático — cristalizavam emrancores que perduravam ao longo dos anos e se transmitiam às novas gerações. eque reclamavam desforço ou vingança, a dirimir pelos próprios interessa-dos (ou, por vezes, por «matadores» ou «caceteiros» assoldadados, que assaltavam «a matar»,por conta alheia). Vivia-se assim num estado em que as agressões e os ataques eram sempre derecear, e a isso acrescentava-se ainda, em tempos mais antigos, um banditismo àmão armada que infestava os lugares solitários e ermos por onde era mister passar-
 
se. Convinha por isso andar-se sempre preparado para essas eventualidades. O homem do campo, na sua generalidade. não possuía armas de fogo. E. nessaatmosfera de violência e perigo latente, o pau era — atém de companhia e apoio,como dissemos — a sua arma, que quase todos aprendiam a manejar, melhor ou pior,e pode dizer-se que, por todo esse Norte, um homem não saía de casa sem levar oseu pau, mormente quando ia de jornada para um ponto mais longe, na previsão deencontros fortuitos ou propositados, em traiçoeiras «esperas» nos caminhos, para sedefender dos seus adversário, ou para os atacar em satisfação dos seus propósitoslegítimos ou ilegítimos, em combates individuais, de homem para homem ou de umou poucos mais contra vários, num jogo de «quingosta» ou «quelhote», próprio deespaços reduzidos, e portanto fechado e apertado, com os contendores próximos,quase corpo a corpo. Mas era sobre-tudo quando ia sozinho ou em rancho com agente da sua aldeia, a feiras ou romarias da região, que ele nunca deixava de levar oseu pau, porque a essas feiras e romarias comparecia normalmente gente de outrasaldeias, e era sempre de recear que entre umas e outras se desencadeassem rixas,por razões do momento ou em nome de desavenças antigas. Era mesmo corrente, em certas partes, duas aldeias rivais compareceremtradicionalmente a determinadas romarias, para desforras sucessivas e encadeadas,das quais não raro a causa primária da dissidência já se diluíra. Nesses casos, as pessoas iam já dispostas ou mesmo com a intenção do combate,que se desencadeava ao menor sinal, pretexto ou provocação. Então, um levantavao pau, o adversário respondia, saltavam os demais de um e outro lado, aos gritosde «eh amigos! é agora!», «é uma, é duas, é três» ou outros incitamentos, grupocontra grupo, às vezes, também aqui. um ou poucos contra muitos - são conhecidosos casos de dois «costas com costas» contra vários - conforme a maestria, o fôlegoou a valentia dos jogadores. E era o «varrer» da feira ou do terreiro, refregas épicas,verdadeiras lutas campais, de paus que se cruzam no ar no furor das pancadas, num jogo largo de feira ou «varrimento» - O jogo do meio ou de varrer feira (Buços) - entrenuvens de pó, no meio da gritaria das mulheres que fugiam espavoridas em todas -asdirecções. E afinal, havia sempre profusão de cabeças rachadas, e por vezes ali ficavaum ou outro homem morto ou a agonizar. Não cremos errar supondo mesmo que.muitas vezes, o domínio do pau era menos o resultado do que um obscuro estímulodesses sentimentos de violéncia, rivalidade e ódio, que se cultivavam a fim de existir uma razão para na próxima vez, se voltar ao combate, numa plena expansão dastendéncias lúdicas e agressivas, pessoais ou institucionais, dessa gente. Por outrolado, o jogo era um elemento potencial de intimidação, real ou efabulado, tornado maispoderoso ainda pela aura heróica de que se rodeavam os jogadores. 

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