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Caio Fábio - Confissões de Um Pastor

Caio Fábio - Confissões de Um Pastor

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Por que escrevi estas confissões? Talvez apenas porque nunca as tivesse escrito antes. Pode ser,
entretanto, que as tenha escrito a fim de poder usufruir do direito de andar o mais perto possível
de um desejado estado de nudez pelo qual meu ser sempre almejou. E quem dera pudesse eu me
despir por completo. Mas isto só seria possível se eu fosse um ser numa ilha deserta e, então, não
haveria razão nenhuma para desejar tão intensamente tirar a roupa, pois a nudez só é percebida
na presença de outros. Além disto, jamais poderei me desnudar por completo neste mundo, pois
esse exercício sempre expõe outras almas, visto que não existo em concubinato com meu eu
apenas, mas com a multiplicidade de outros amores e vínculos humanos, todos tendo o direito de
não desejar se despir, apenas porque hoje eu assim o quero. Esta é a razão pela qual várias pessoas
que andaram ao meu lado nesta jornada, todos personagens reais, tiveram seus nomes alterados.
E aquelas histórias que mesmo “cobrindo os nomes verdadeiros”, ainda assim delatavam os seus
personagens de modo inconveniente, deixei de lado. Somente usei os nomes dos seres históricos
que a mim se aliaram ou em mim encontraram desprazer, se tais ocorrências e fatos a eles
relacionados foram inegavelmente públicos.
Por que escrevi estas confissões? Talvez apenas porque nunca as tivesse escrito antes. Pode ser,
entretanto, que as tenha escrito a fim de poder usufruir do direito de andar o mais perto possível
de um desejado estado de nudez pelo qual meu ser sempre almejou. E quem dera pudesse eu me
despir por completo. Mas isto só seria possível se eu fosse um ser numa ilha deserta e, então, não
haveria razão nenhuma para desejar tão intensamente tirar a roupa, pois a nudez só é percebida
na presença de outros. Além disto, jamais poderei me desnudar por completo neste mundo, pois
esse exercício sempre expõe outras almas, visto que não existo em concubinato com meu eu
apenas, mas com a multiplicidade de outros amores e vínculos humanos, todos tendo o direito de
não desejar se despir, apenas porque hoje eu assim o quero. Esta é a razão pela qual várias pessoas
que andaram ao meu lado nesta jornada, todos personagens reais, tiveram seus nomes alterados.
E aquelas histórias que mesmo “cobrindo os nomes verdadeiros”, ainda assim delatavam os seus
personagens de modo inconveniente, deixei de lado. Somente usei os nomes dos seres históricos
que a mim se aliaram ou em mim encontraram desprazer, se tais ocorrências e fatos a eles
relacionados foram inegavelmente públicos.

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 Apresentação
E
ra uma vez um jovem rebelde, arruaceiro e dissoluto que amava “alucinadamente” asmulheres e fumava maconha e cheirava cocaína no mesmo ritmo que dirigia sua moto — mais doque uma alma perdida, era a promessa de um legítimo cafajeste.Um dia, esse moço acordou aos gritos achando que estava com uma cobra sucuri enrolada nocorpo, mordendo-lhe o braço e inoculando-lhe veneno. Era uma visão, claro, não uma cena real,mas foi como se fosse. Caio Fábio tinha então 19 anos, já estivera perto da morte por acidente ousuicídio, e aquela foi a última vez que, simbolicamente, se sentiu possuído pelo demônio.No dia seguinte, decidiu, iria nascer de novo: “Vou viver com Jesus e ser um homem de Deuspara o resto da minha vida.” Convertido, o jovem acabou se tornando pastor protestante, assimcomo seu pai, um agnóstico que certo dia, lendo a Bíblia, também se convertera e abandonaratudo, inclusive um próspero escritório de advocacia do qual era sócio o senador Bernardo Cabral,ex-ministro e presidente da CPI dos precatórios. As memórias que Caio Fábio lança agora encerram mais do que a conversão de uma almadesgarrada que escolheu como referência não um presbiteriano como ele, mas um santo, Santo Agostinho, cujas
Confissões
pontuam como epígrafes os capítulos do livro, criando um curiosocontraponto católico a essa saga protestante.Encerram mais do que isso. As
Confissões
são também a emocionante aventura de uma vocação pastoral sem temor e sem preconceitos, que sobe os morros, entra nos presídios,freqüenta palácios, catequiza traficantes, batiza governador, é perseguida politicamente, e nadaabala a sua crença de que o Evangelho é imbatível, de que tem o poder de “mudar bichos,monstros e pervertidos”.No livro, como na vida, pode-se encontrar esse pastor tão pouco ortodoxo em Bangu Iconvertendo Gregório, o Gordo, o maior ladrão de carros da história do Brasil e estrategista doComando Vermelho. Ou batizando o perigoso traficante Isaías do Borel, contaminado pelo vírusdo HIV: “Isaías, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” E pode estartambém, algumas páginas depois, na casa da maior autoridade do Estado: “Em maio de 1994,batizei o governador do Estado, Nilo Batista, e sua esposa, Vera Malagute Batista.”Que outro líder espiritual seria capaz de uma ação pastoral tão arriscada, eclética eecumênica? As incursões de Caio Fábio, ou melhor, sua imersão permanente no mundo profano, na vida
 
real, lá onde mora o pecado, custaram-lhe incompreensões e inimizades, não só de adversários decrença e de ética como de autoridades políticas e administrativas. O governador Marcello Alencar, por exemplo, abriu contra ele e sua principal obra social, a Fábrica de Esperança, umaguerra que incluiu pesadas denúncias, uma ocupação branca, auditorias e ameaça de interdiçãodo espaço sob a alegação de que ali havia tráfico de drogas.Também com César Maia houve mal-entendidos e bate-bocas públicos. O então prefeitochegou a apelidar Caio Fábio de “Pastor do pó” — pelo menos até visitar a Fábrica e se convencerda importância social do projeto, que passou então a respeitar e apoiar.Como se vê, o livro não é apenas a aventura de um pecador e sua conversão. É também umpouco da história do Rio de Janeiro dos anos 90 — com os episódios que se inscreveram em nossamemória recente: a violência urbana, a criminalidade, a delinqüência, o escândalo do jogo-do-bicho, a ocupação das favelas pelo Exército, a criação da Casa da Paz de Vigário Geral, astrapaças do bispo Macedo, o Viva Rio, a campanha do Desarme-se, e muito mais.Há na primeira parte do livro uma intenção edificante que incomoda pelo menos os que nãotêm muita fé. Será que a ênfase posta na perdição, naquela fase de juvenil entrega ao pecado não éum processo retórico para valorizar e engrandecer a conversão? A credulidade com que essemissionário investe nos pecadores barra-pesada também pode parecer meio ingênua? Valerá apena converter bandidos? Não será uma opção preferencial pelo algoz mais do que pela vítima?Essas dúvidas, que costumam ser levantadas por sua ação pastoral, não abalam as convicçõesdo pastor. Ele acredita na conversão — na sua e, por conseqüência, na dos outros. Muitas vezesrecorre a Jesus para explicar algumas de suas posições: “Jesus morreu entre ladrões, mas não oslivrou da execução.” A sua
ingenuidade
pode se transformar em frio realismo. “A vida de vocês é burra”, écapaz de dizer para um traficante. “Tenho visto vocês morrerem todos os dias. Quem não morre vai para Bangu I, o que é morte também. Vocês são instrumentos úteis nas mãos de um pessoalque nunca é apanhado e que mantém essa porcaria funcionando.”Lições como essas — muito antes de ficar evidente que a conexão internacional do tráfico,essa, sim, milionária, passa longe desses
pés-de-chinelo
cuja alma Caio Fábio tenta salvar, jáque não pode fazer o mesmo com a vida — demonstram que esse pastor sabe onde pisa. Conversacom Deus, não abandona o Evangelho, vive distribuindo bênçãos mas, por via das dúvidas,conhece tudo o que se passa na vida terrena. O espiritual sem o social é um círculo vicioso quenão ajuda a virtude. É mais fácil ser pecador com a barriga vazia.
 Z
UENIR
 ENTURA
  escritor, jornalista e editor especial do
 Jornal do Brasil
 
 
 

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