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MATAR UMA CRIANÇA

MATAR UMA CRIANÇA

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Published by: José Fernandes da Silva on Dec 22, 2008
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MATAR UMA CRIANÇA
Stig DagermanTradução a partir do sueco por José Fernandes da SilvaÉ um dia suave e o sol espalha sua luminosidade pelos campos. Logo os relógios vãosoar, pois é domingo. Entre algumas plantações de centeio duas crianças acharam umcaminho por onde jamais haviam passado e nos três povoados as vidraças das janelas reluzem.Um homem barbeia-se frente a um espelho na mesa da cozinha e uma mulher cantarolantecorta o pão para o café e uma criança senta-se no piso e abotoa sua jaqueta. É uma manhãalegre num dia mau, pois nesta manhã uma criança será morta por um homem feliz no terceiro povoado. A criança ainda senta no piso e abotoa sua jaqueta e o homem que se barbeia diz quehoje eles vão dar umas remadas pelo riacho e a mulher que cantarola coloca o pão fresconuma bandeja azul. Não há nenhuma sombra sobre a cozinha e no entanto o homem que vai matar umacriança está ao lado de uma bomba vermelha de gasolina no primeiro povoado. É um homemcontente que olha numa câmera e no écran vê um pequeno carro azul e ao lado do carro umamulher que ri. Enquanto a mulher ri e o homem capta a bela imagem o vendedor de gasolinafecha a tampa do tanque e diz que eles tenham um belo dia. A mulher senta-se no carro e ohomem que vai matar uma criança tira sua carteira do bolso e diz que eles vão viajar para omar e à beira mar vão alugar um barco e remar para longe longe.Em meio a tortuosas ruas a mulher ouve no banco da frente o que o homem diz e fechaos olhos e quando fecha os olhos vê o mar e o homem a seu lado no barco. Não é um homemmau, é alegre e feliz e antes de entrar no carro fica um momento frente ao radiador que brilhaao sol e aprecia a vidraça e o cheiro de gasolina e cerejas. Não há nenhuma sombra sobre ocarro e o brilhante pára-choque não tem nehum amaçado e tampouco está vermelho desangue.Mas ao mesmo tempo em que o homem no carro no primeiro povoado bate outra vez a porta à sua esquerda e torce a chave da partida a mulher na cozinha no terceiro povoado abreo armário e não encontra nenhum açúcar. A criança que acabou de amarrar os seus sapatosestá de joelho sobre o sofá e olha o riacho que serpenteia entre árvores de folhas amareladas eo negro barco estacionado entre os arbustos. O homem que vai perder a sua criança terminoude barbear e agora guarda cuidasosamente o espelho. Sobre a mesa estão os copos de café, o pão, o creme e as moscas. É apenas o açúcar que falta e a mãe diz para a criança que corra aLarsson e tome de empréstimo alguns tijolinhos. E enquanto a criança abre a porta de saída ohomem grita para ela dizendo que se apresse, pois o barco espera na praia e eles vão remar  para tão longe quanto jamais remaram. Quando depois a criança corre pelos campos ela pensao tempo todo no riacho e no barco e nos peixes que lutam e não há sequer um cochichoavisando que restam apenas oito minutos para se viver e que o barco vai continuar ali ondeestá e alí estará durante todo o dia e continuará por muitos outros dias. Não é longe até Larsson, é apenas do outro lado da estrada e enquanto a criança corre pela estrada o pequeno carro azul roda no segundo povoado. É um pequeno povoado comcasas também pequenas e avermelhadas e pessoas sonolentas que sentam em suas cozinhascom copos de café alevantados e olham o carro que passa em disparada pelo outro lado doajardinado e vai deixando atrás de si uma nuvem alta de poeira. Vai muito rápido e o homemvê as macieiras e os postes telegráficos recém-pichados passarem-se velozes como sombrascinzentas. O vento sobra sobre o pára-brisa e eles precipitam-se para fora do povoado,sentem-se seguros na estrada e estão sozinhos – ainda. É agradável viajar sozinhos por umaassim ampla e lisa estrada e pela planície é ainda mais apreciável. O homem é feliz e forte e

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