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Escritos de Solidao Urbana - Caio Fernando Abreu

Escritos de Solidao Urbana - Caio Fernando Abreu

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05/25/2012

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Caio F. - Escritos de solidão urbana
"Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis." No Em Revista dessa edição, revisitamos a obrado escritor gaúcho Caio Fernando Abreu. ( Leia completo)ÌNDICEPág. 01 - Textos parte 1Pág. 02 - Textos parte 2Pág. 03 - Textos parte 3Pág. 04 - Biografia/ BibliografiaAlentoQuando nada mais houver,eu me erguerei cantando,saudando a vidacom meu corpo de cavalo jovem.E numa louca corridaentregarei meu ser ao ser do Tempoe a minha voz à doce voz do vento.Despojado do que já não hásolto no vazio do que ainda não veio,minha boca cantarácantos de alívio pelo que se foi,cantos de espera pelo que há de vir.( Extraído do livro Caio Fernando Abreu- Caio 3D, O Essencial da Década de 1970, p.144)Uma história de fadasEra uma vez o País das Fadas. Ninguém sabia direito onde ficava, e muita gente (a maioria) até duvidava que ficasseem algum lugar. Mesmo quem não duvidava (e eram poucos) também não tinha a menor idéia de como fazer parachegar lá. Mas, entre esses poucos, corria a certeza que, se quisesse mesmo chegar lá, você dava um jeito eacabava chegando. Só uma coisa era fundamental (e dificílima): acreditar.Era uma vez, também, nesse tempo (que nem tempo antigo, era, não; era tempo de agora, que nem o nosso), umhomem que acreditava. Um homem comum, que lia jornais, via TV (e sentia medo, que nem a gente), era despedido,ficava duro (que nem a gente), tentava amar, não dava certo (que nem a gente). Em tudo, o homem era assim que nema gente. Com aquela diferença enorme: era um homem que acreditava. Nada no bolso ou nas mãos, um dia ele resolveusair em busca do País das Fadas. E saiu.Aconteceram milhares de coisas que não tem espaço aqui pra contar. Coisas duras, tristes, perigosas, assustadoras, Ohomem seguia sempre em frente. Meio de saia-justa, porque tinham dito pra ele (uns amigos najas) que mesmochegando ao País das Fadas elas podiam simplesmente não gostar dele. E continuar invisíveis (o que era o de menos),ou até fazer maldades horríveis com o pobre. Assustado, inseguro, sozinho, cada vez mais faminto e triste, o homemque acreditava continuava caminhando. Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E semninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava.Um dia, chegou à beira de um rio lamacento e furioso, de nenhuma beleza. Alguma coisa dentro dele disse que do outrolado daquele rio ficava o País das Fadas. Ele acreditou. Procurou inutilmente um barco, não havia: o único jeito eraatravessar o rio a nado. Ele não era nenhum atleta (ao contrário), mas atravessou. Chegou à outra margem exausto,mas viu uma estradinha boba e sentiu que era por ali. Também acreditou. E foi caminhando pela estradinha boba, emdireção àquilo em que acreditava.Então parou. Tão cansado estava, sentou numa pedra. E era tão bonito lá que pensou em descansar um pouco, coitado.Sem querer, dormiu. Quando abriu os olhos — quem estava pousada na pedra ao lado dele? Uma fada, é claro. Umafadinha mínima assim do tamanho de um dedo mindinho, com asinhas transparentes e tudo a que as fadinhas têmdireito. Muito encabulado, ele quis explicar que não tinha trazido quase nada e foi tirando dos bolsos tudo que lherestava: farelos de pão, restos de papel, moedinhas. Morto de vergonha, colocou aquela miséria ao lado da fadinha.De repente, uma porção de outras fadinhas e fadinhos (eles também existem) despencaram de todos os lados sobre ospobres presentes do homem que acreditava. Espantado, ele percebeu que todos estavam gostando muito: riam semparar, jogavam farelos uns nos outros, rolavam as moedinhas, na maior zona. Ao toquezinho deles, tudo virava ouro.Depois de brincarem um tempão, falaram pra ele que tinham adorado os presentes. E, em troca, iam ensinar umcaminho de volta bem fácil. Que podia voltar quando quisesse por aquele caminho de volta (que era também de ida)fácil, seguro, rápido. Além do mais, podia trazer junto outra pessoa: teriam muito prazer em receber alguém de que ohomem que acreditava gostasse.Era comum, que nem a gente. A única diferença é que ele era um Homem Que Acreditava.De repente, o homem estava num barco que deslizava sob colunas enormes, esculpidas em pedras. Lindas colunas
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cheias de formas sobre o rio manso como um tapete mágico onde ia o barquinho no qual ele estava. Algumas fadinhasesvoaçavam em volta, brincando. Era tudo tão gostoso que ele dormiu. E acordou no mesmo lugar (o seu quarto) de ondetinha saído um dia. Era de manhã bem cedo. O homem que acreditava abriu todas as janelas para o dia azul brilhante.Respirou fundo, sorriu. Ficou pensando em quem poderia convidar para ir com ele ao País das Fadas. Alguém de quegostasse muito e também acreditasse. Sorriu ainda mais quando, sem esforço, lembrou de uma porção de gente. Esseconvite agora está sempre nos olhos dele: quem acredita sabe encontrar. Não garanto que foi feliz para sempre, mas osorriso dele era lindo quando pensou todas essas coisas — ah, disso eu não tenho a menor dúvida. E você?O Estado de S. Paulo, 30/11/1988 ( In Pequenas Epifanias)Que coisas são essas que me dizes sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer?Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza éque de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço.Não sinto nenhuma alegria além de ti.Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar: Quero beber tuaágua. Não te negues, minha sede é clara.( Extraído do livro Caio Fernando Abreu- Caio 3D, O Essencial da Década de 1980, p.186)Vai passarVai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? Overão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso àsvezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para omar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderáspensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para,dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucosfomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nemcometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fataiscomo "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o maiseficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitastomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua voltaa paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essacoisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformaránuma espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessaráso dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importantea fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que develevar embora memórias e cansaços.Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamentetalvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teusombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditarque no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmenteirreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja nalargatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudescomo voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para umnúmero qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti ecorra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, comoquem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:- ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ...( In Dispersos)Dois ou três almoços, uns silênciosFragmentos disso que chamamos de "minha vida".Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presenteambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. Evocê sabe a que me refiro.Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava ládentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que vocêcertamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos dissoque chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente
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cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão ecinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabecomo: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal meaconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outrapessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ahvocê não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateandotraços difusos, vagas promessas.Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é teruma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto decada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação"na cabeça estonteada de encanto: Mas ambos estavam comprometidos.Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala noencontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passaacorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras.Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber,eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou —descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhosatentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eutrouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome.Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguémveria.Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frenteaos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E seestendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Comcorpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentirfome.(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)Triângulo em Cravo e Flauta DoceEla disse que não tinha certeza de nada, que podia mesmo ser uma alucinação, um pesadelo, uma projeçãosubconsciente ou qualquer outra coisa assim. Enumerou suposições, os olhos preocupados evitando os meus, e dissetambém que preferia não contar, que sabia que eu ficaria preocupado e iria falar com ele, que talvez fosse agressivo enegasse tudo, ainda que o que ela havia visto e escutado fosse verdade.Acrescentou que apesar de tudo nada tinha a ver com a vida dele, nem com a minha, e falou ainda em voz baixa quetalvez também não tivesse nada a ver com sua própria vida.Foi então que seus olhos se apertaram um pouco e por um momento pareceram cheios de lágrimas. Achei que fosseilusão minha e não falei nada, até que ela começou a roer as unhas e afundou a cabeça na mesa.Afastei o copo e a garrafa de vinho para tocar sua cabeça, mas interrompi o gesto em meio e fiquei com a mão suspensasobre seus cabelos. Ela pareceu perceber, pois ergueu os olhos assustada, sem fazer nenhum outro movimento.Cheguei a pensar então em não insistir mais, disse para mim mesmo repetidas vezes que talvez fosse melhor para nóstrês que eu saísse imediatamente dali para não voltar nunca mais. Mas qualquer coisa me obrigava a permanecer.Esperei sem dizer nada até que ela recomeçasse a falar. Depois de algum tempo olhando as mãos, disse que meu irmãonão dormia há várias semanas, passava a noite inteira fumando, levantando da cama para ir à cozinha, ao banheiro, ouentão à sala, onde colocava sempre aquela mesma música medieval em cravo e flauta doce, enquanto escrevia até demadrugada. Ela não chegou a dizer - mas percebi que não suportava mais aquela melodia nem aqueles cigarros nem obarulho da máquina nem aquele escuro roendo o corpo e a mente dele. Andava magro, disse, nervoso, tinha olheirasfundas, às vezes ficava muito pálido e apoiava-se no primeiro objeto à vista como se fosse cair. Fiquei ouvindo, massoube que não era só isso. E não insisti, apenas continuei olhando para ela enquanto falava.Então ela disse devagar que estava grávida, e que contara a ele. Passou sem sentir os dedos de unhas roídas sobre oventre ainda raso, depois disse que ele jurara matá-la se não tirasse a criança.Perguntei se essa seria a causa do desespero dele, daquela música, das noites em branco, dos cigarros, das tonturas.Evitando me encarar, ela disse apressada que não, mas pouco depois tocou no copo cheio de vinho e disse que sim,pelo menos, acrescentou, pelo menos antes de saber aquilo ele andava mais calmo. Ficou calada de repente para
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