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Reflexões sobre o racismo

Reflexões sobre o racismo

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Cornelius CASTORIADIS
encruzilhadas do labirinto IIIencruzilhadas do labirinto III
O mundo fragmentadoO mundo fragmentado
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992 [Paris: Seuil, 1990]
REFLEXÕESSOBRE ORACISMOREFLEXÕESSOBRE ORACISMO
 
*
Estamos aqui, é evidente, porque queremos combater o racismo, a xenofobia, o bairrismoe congêneres. Isso em nome de uma posição primeira: reconhecemos que todos os sereshumanos têm valor igual na qualidade de seres humanos, e afirmamos que a coletividade tem odever de lhes conceder as mesmas possibilidades efetivas, quanto ao desenvolvimento de suasfaculdades. Longe de poder estar confortavelmente assentada sobre pretensa evidência ounecessidade transcendental dos «direitos do homem», essa afirmação gera paradoxos de primeiragrandeza, e sobretudo uma antinomia, por mim muitas vezes sublinhada, e que pode ser definidaabstratamente como a antinomia entre o universalismo relativo aos seres humanos e ouniversalismo relativo às «culturas» (instituições imaginárias da sociedade) dos seres humanos.Voltarei ao assunto no fim.No entanto, em nossa época, esse combate, como todos os outros, vem sendo desviado edestorcido de maneira incrivelmente cínica. Para dar apenas um exemplo: o Estado russoproclama-se anti-racista e antibairrista, enquanto o anti-semitismo, estimulado por baixo do panopelos poderes instituídos, está no auge na Rússia, e enquanto dezenas de nações e etniaspermanecem, à força, na grande prisão dos povos. Continua-se a falar – e com todo o direito –daexterminação dos índios da América. Nunca vi alguém perguntar como uma língua, que há cincoséculos só era falada de Moscou a Nijni-Novgorod, pôde alcançar o litoral do Pacífico; nem viperguntar se isso aconteceu sob os aplausos calorosos dos tártaros, buriatas, samoiedos e outrostungus.Aí está um primeiro motivo pelo qual devemos ser extremamente rigorosos e exigentesem nossa reflexão. O segundo, de igual importância, é que aqui, como em todas as questõesreferentes a uma categoria social-histórica geral – a Nação, o Poder, o Estado, a Religião, aFamília etc. o escorregão é quase inevitável. Para cada tese que possamos enunciar, édesconcertantemente fácil encontrar contra-exemplos; e o costume dos autores, nesses domínios,é a mesma falta do reflexo que prevalece em todas as outras disciplinas: o que eu digo não écontestado por um contra-exemplo possível? A cada seis meses, lemos grandiosas
*
 
Conferência pronunciada no colóquio da ARIP «Inconsciente e mudança social», em 19 de maço de 1987.Publicada em
Connexions
, n° 48, 1987.
 
CASTORIADIS.
 Reflexões sobre o racismo
.
teorias estruturadas sobre esses temas, e é surpreendente que ainda nos espantemos: como,então, esse autor nunca ouviu falar da Suíça, ou da China? De Bizâncio, ou das monarquias cristãsibéricas? De Atenas, ou da Nova Inglaterra? Dos esquimós ou dos kung? Após quatro, ou vinte ecinco séculos de autocrítica do pensamento, continuamos a ver florescer generalizaçõessimplórias, nascidas de uma idéia que passou pela cabeça do autor.Uma historieta saborosa, divertida talvez, leva-me a um dos cernes da questão. Comovocês viram no cartaz de anúncio do colóquio, meu nome é Cornelius – em velho francês, e paraos meus amigos, Corneille. Fui batizado na religião cristã ortodoxa, e para ser batizado, eranecessário que houvesse um santo epônimo; e, com efeito, havia um
aghios
 
Kornélios
,transliteração grega do latim Cornelius – da
gens
 
Cornelia
, que dera nome a centenas de milharesde habitantes do Império – esse
Kornélios
foi santificado graças a um episódio, narrado nos
 Atosdos Apóstolos
(10-11) e que passo a resumir. Cornelius, centurião de uma coorte itálica, vivia naCesaréia, dava esmolas generosas ao povo e temia a Deus, orando incessantemente. Depois davisita de um anjo, Cornelius faz um convite a Simão, cognominado Pedro, para ir à sua Casa.Durante o caminho, Pedro também tem urna visão, cujo sentido significa que não há maisalimentos puros e impuros. Chegando à Cesaréia, Pedro janta na casa de Cornelius — segundo alei, jantar na casa de um
goy 
uma abominação – e lá, durante a sua fala, o Espírito Santo descesobre todos os que ouviam as suas palavras, o que deixa totalmente estupefatos os companheiros judeus de Pedro presentes à cena, já que o Espírito Santo derramara o seu dom também sobre osnão-circuncisos, que passam a falar em línguas e a glorificar a Deus. Mais tarde, de volta aJerusalém, Pedro tem que responder às amargas críticas dos seus companheiros circuncisos. Paraacalmá-los, justifica-se dizendo que Deus outorgou também às «nações» o arrependimento, a fimde que elas vivam.Esse episódio tem, evidentemente, múltiplas significações. É a primeira vez que o NovoTestamento afirma a igualdade das «nações» diante de Deus, e a não-necessidade da passagempelo judaísmo para se tomar cristão. O que importa ainda mais é a reação a essas proposições. Oscompanheiros de Pedro «abalam-se totalmente» («
exéstésan
», diz o original grego dos
 Atos
:
ex-istamai 
,
ek-sister 
, sair de si) pelo fato de o Espírito Santo dignar-se a se difundir sobre todas as«nações». Por quê? Porque, evidentemente, o Espírito Santo até então só tinha que se ocupar com judeus e, melhor ainda, com a seita particular de judeus que invocava em seu favor otestemunho de Jesus de Nazaré. Mas essa história nos remete, igualmente, e por implicaçãonegativa, a especificações da cultura hebraica – aqui, começo a ser desagradável – das quais omínimo que se pode dizer é que não são evidentes para os não-judeus. Não aceitar comer entre os
goïm
, quando se sabe o lugar que a refeição em comum ocupa na socialização e na história dahumanidade? Releia-se, então, atentamente o Antigo Testamento, sobretudo os livros relativos àconquista da Terra Prometida, e se verá que o povo eleito não é simplesmente uma noçãoteológica, mas eminentemente prática. As expressões literais do Antigo Testamento são, aliás,pode-se dizer, belíssimas (infelizmente, só posso lê-lo na versão grega dos Setenta, um pouco
 
CASTORIADIS.
 Reflexões sobre o racismo
.
posterior à conquista de Alexandre; sei que há problemas, mas não creio que afetem o que voudizer). Vemos no Antigo Testamento que todos os povos que habitam o «perímetro» da TerraPrometida são passados pelo «fio da espada» (
dia stomatos romphaias
), sem discriminação desexo ou idade, sem que qualquer tentativa para «convertê-los» seja feita: seus templos sãodestruídos, seus bosques sagrados devastados. E tudo por ordem direta de Yahvé. Como se issonão bastasse, são abundantes as interdições relativas à adoção de seus costumes (
bdelygma
,abominação,
miasma
, mancha) e as relações sexuais com eles (
 porneia
, prostituição – palavraobsessivamente recorrente nos primeiros livros do
 Antigo Testamento
). Por motivo de simpleshonestidade, sinto-me obrigado a dizer que o
 Antigo Testamento
é o primeiro documento racistaescrito que possuímos na história. O racismo hebreu é o primeiro de que temos vestígios escritos– o que, por certo, não significa que seja o primeiro, de forma alguma. Para ser mais preciso, tudolevaria a supor o contrário. Simplesmente, e felizmente, se assim posso dizer, o Povo Eleito é umpovo como os outros
1
.Se parece-me necessário lembrar isso é, entre outras coisas, porque a idéia de que oracismo, ou de que o ódio do outro, é uma invenção específica do Ocidente é uma das asneirasmuito difundidas atualmente.Sem poder me ater aos diversos aspectos da evolução hisrica e da sua enormecomplexidade, notarei apenas que:a) entre os povos de religião monoteísta, os hebreus tiveram, apesar de tudo, essaambígua superioridade: uma vez conquistada a Palestina (há três mil anos – não sei nada dos diasde hoje) e seus habitantes anteriores de uma forma ou de outra «normalizados», os hebreusdeixam o mundo em paz. Eles são o Povo Eleito; a sua fé é boa demais para os outros; não hánenhum esforço de conversão sistemática (mas
tampouco há recusa
da conversão)
2
;b) as duas outras religiões monoteístas, inspiradas no
 Antigo Testamento
, que «sucedem»historicamente ao hebraísmo, infelizmente não são tão aristocráticas: seu Deus é bom para todos;se os outros não o aceitarem, serão obrigados a engoli-lo à força, ou serão exterminados. Nessaótica, considero inútil demorar-me sobre a história do cristianismo – ou, antes, é impossível fazê-lo: pelo contrário, seria não somente útil como urgente refazer essa história, pois, desde o fim doséculo XIX e desde os grandes «críticos», tudo parece esquecido, e correm versões açucaradassobre a divulgação do cristianismo. Parece esquecido que, na época em que se apoderam doImpério Romano,
via
Constantino, os cristãos eram uma minoria que só vem a se constituir emmaioria por força das perseguições, da chantagem, da destruição maciça dos templos, estátuas,locais de culto e manuscritos antigos – e, finalmente, por meio de disposições legais (Teodósio, oGrande), que proíbem que os não-cristãos residam no Império. Esse ardor dos verdadeiroscristãos em defender o verdadeiro Deus, a fogo e sangue, está constantemente presente nahistória do cristianismo, tanto oriental como ocidental (heréticos, saxões, cruzados, judeus, índios
1
Ver
Êxodo
23, 22-33; 33, 11-17. Levítico, 18, 24-28;
 Josué
, 6, 21-22; 8, 24-29; 10, 28, 31-32 etc.
2
Alguns esforços de proselitismo judeu no Império Romano são tardios, marginais e sem futuro.

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