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Debray 12 Teses Port

Debray 12 Teses Port

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05/28/2012

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Doze teses sobre a ordem nova e uma última questãoRégis Debray
Se o homem às vezes não fechasse deliberadamente osolhos acabaria por não ver o que merece ser olhado.René Char,
Feuillets d’Hipnos
 
1Toda a cultura se define pelo que decide ter por real. Há cerca de um
século que chamamos “ideologia” a esse consenso que cimenta cada grupo
organizado. Nem reflexivo nem consciente, tem pouco a ver com as ideias. É
uma “visão do mundo”, e cada uma leva consigo o seu sistema de crenças.
 Em que acreditar? Cada mediasfera produz os seus critérios deacreditação do real, e por conseguinte de descrédito do não-real. Permanente é
a questão de confiança: “em que confiar?”; as respostas variam segundo o
estado dos saberes e das máquinas. Platão respondia pela logosfera:
“Sobretudo não no que é óbvio, e apenas nas Ideias inteligíveis”,
Mito da 
Caverna” 
. Descartes pela grafosfera: “Nos objectos visíveis, mas com a
condição de construí-los com ordem e proporção e de formular bem as suas
equações”,
Discurso do Método 
.
 A videosfera: “Sobretudo não nas Ideias e
 
pouco importa o método, a régua e o compasso, sempre que as vossas imagens
sejam boas”. Uma foto será mais “credível” que uma figura, e uma cassete de
vídeo mais do que um bom discurso. Em gostos e cores, em métodos e ideias,cada um tem a sua opinião. Mas em frente ao aparelho de visualização calamo---
nos. Visualizar é explicar. Em língua corrente, “eu vejo” substituiu o “eucompreendo”. “Já está visto” significa que não há nada a acrescentar. Ontem:“isso é verda
de, li-
o no jornal”. Hoje: “acredito, porque o vi na televisão” (disse a
vítima de um curandeiro televisivo). Já não é possível opôr um discurso a umaimagem. Uma visibilidade não se refuta com argumentos. Substitui-se por outra.
O que é apresentado como “digno de ser visto” por cada idade do olhar 
apresenta-
se como incontestável. No regime do “ídolo”, correspondente às
teocracias 
, posso contestar as aparências visíveis, mas não que exista um “maisalém” do visível e que eu deva focalizar na sua direcção o
meu olho espiritual.
No regime de “arte” que anuncia as
ideocracias 
, posso dúvidar dos deuses e dosídolos mas não da verdade, e de que ela deva ser decifrada no grande livro domundo, transferindo os fenómenos visíveis às leis invisíveis. No regime visual,ou
videocracia 
, podemos ignorar os discursos de verdade e de salvação,contestar os universais e os ideais mas não o valor das imagens. O seuincontestável pressuposto é o lugar-comum de uma época. Governa tanto maisos espíritos quanto não é reflectido enquanto tal. Cada regime de autoridade dá-se como evidente. O que nos faz ver o mundo é também o que nos impede de o
ver, a nossa “ideologia”. Esta última, que nunca é tão virulenta como nodispensar das ideias, ocupa o lugar de “a menina dos nossos olhos”. Em vez de
 
nos deixar estupefactos, transforma-nos em medusas, petrificamos em lugares-comuns o que vemos.2As imagens, ao contrário das palavras, são acessíveis a todos, em todasas línguas, sem competência e aprendizagem prévias. E a programaçãoinformática une todos os andares da Torre de Babel, Pequim, Nova Iorque e aCidade do Cabo. Mas uma vez apagado o ecrã, resta-nos aceder aos olharesinteriores que regem cada universo visível. Este acesso só pode ser feito com alinguagem e as traduções simbólicas. Mas a promoção universal dos ícones eda sagração planetária do olho que disso se deduz não constituem um augúriotão bom como se crê para a comunicação mundial dos espíritos.Todas as culturas podem ser definidas como mais ou menosobscurantistas, porque não podemos projectar luz sobre o seu princípio devisibilidade. Como ver o que nos cega? Mas todas cultivam a virtude intelectuale física da clarividência, pois têm por ideal ver, através daquilo que aparece,aquilo que é (ainda que possam negar essa faculdade aos nossos olhos decarne). É mais fácil fazer dialogar as filosofias do que as luzes, as bocas do queos olhos. Os espíritos podem falar-se, de um extremo ao outro da terra, pelamediação de intérpretes e tradutores. Mas não há um dicionário
do visível. “Oolho escuta”, mas não ouve o olho do outro.
 

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