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O Gebo e a Sombra, Raul Brandão - Texto Integral

O Gebo e a Sombra, Raul Brandão - Texto Integral

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07/11/2013

 
 
 
NOTA INTRODUTÓRIA
 «Ou a vida é um acto religioso, ou um acto estúpido e inútil»
Esta frase de Raul Brandão resume bem a tensão que percorre toda a sua obra, marcada por umametafísica pessimista. Há nela uma necessidade absoluta de procurar uma razão para a dor e sofri-mento intrínsecos da condição humana. Se a humanidade vive desde sempre com a dor (revoltando-seou resignando-se, tanto faz), tem de haver algo que justifique a existência: a vida tem de ter um signi-ficado.É este pressuposto que se contrapõe constantemente à constatação de que a vida é feita de mentiras,de ilusões, de gestos sem significado que escondem a outra vida que é forçoso que exista: cadahomem, como o Gebo, tem a sua sombra.Toda a obra de Raul Brandão repete este problema e as suas personagens — nas suas dívidas e inquie-tações, nos seus gritos — são sempre o próprio Brandão e a sua angustia suprema «ânsia de com-preender, de chegar a compreender, antes de exalar o ultimo suspiro»; angústia de quem procura algoque justifique o enigma e o absurdo da existência.
O Teatro,
em que se inclui
O Gebo e a Sombra,
saiu a público já depois de o autor se notabilizar com A
Farsa, Os Pobres, Húmus, El-Rei Junot
e o primeiro volume das
 Memórias.
À sua obra dramatúrgica viriaapenas a acrescentar, depois disso o episódio dramático
O Avejão.
 É uma obra representativa de uma época que, como diz, vagueia «sem tecto, entre ruínas»: uma gera-ção que deixou de acreditar, mas que também ainda não crê, que oscila entre o cristianismo e Nietzs-che, que procura um sentido, para fazer da vida um acto religioso.O teatro foi um sonho constante ao longo da vida de Raul Brandão. Mas entre
O Arraial,
revista repre-sentada em Mafra, no fim do estágio para oficial, e
O Avejão,
publicado em 1929, há um intervalo detrinta e cinco anos, durante os quais surgirão apenas O
Triunfo
e
O Maior Castigo,
que se perderam, omonólogo dramático
Eu Sou Um Homem de Bem,
e aquele que deveria ser o primeiro de três volumesde
Teatro,
em que se inclui
O Gebo e a Sombra, O Rei Imaginário
e
O Doido e a Morte.
Isto, se exceptuar-mos as duas peças que escreveu de parceria com Júlio Brandão e
 Jesus Cristo em Lisboa,
tragicomédiaescrita em colaboração com Teixeira de Pascoaes. Ou seja, no total, cinco peças: umas escassas cem pá-ginas.De todo o conjunto,
O Gebo e a Sombra
sobressai como a peça mais ambiciosa O Gebo, com a sua vidade sacrifícios inúteis, é a mais acabada expressão do pessimismo angustiado de Raul Brandão. É umatragédia que acusa as desigualdades sociais e a injustiça, mas que transcende esse nível para chegar auma metafísica do sofrimento, ao vislumbre do «outro», do «fantasma» - a Sombra -, o que «há para ládo homem que todos nós somos».É verdade que a obra de Raul Brandão é repetitiva na temática, nas personagens e, até nas palavrasque ressurgem frequentemente: grito, alma, sombra, espanto, vida e morte... Mas é esta coerência glo-
 
 bal que faz dessa obra um grito imenso e comovente, um grito suscitado por uma consciência ator-mentada.As personagens — e sobretudo o Gebo — andavam já dispersas pelas outras obras de Raul Brandão:personagens grotescas, de quem todos se riem, desajeitadas, que ninguém sabe por que vivem. É o
clown
de
 História de um Palhaço,
e o protagonista de
Noite de Natal.
 O teatro de Brandão é um teatro tchekoviano — houve quem dissesse que ele era um eslavo queescrevia em português, elogio que, ao mesmo tempo, muito o apouca — um teatro feito da ausênciade acontecimentos, intímista. O autor do
 Húmus
põe em cena um momento, uma fatia de vida, gizan-do por vezes num curto monólogo
(O Rei Imaginário)
o balanço de uma vida presa às conversações, fei-ta de mentiras, mas em que a dúvida persiste enquanto recusa da inutilidade dessa mesma vida. OGebo concluirá que «Foi tudo inútil! Foi tudo inútil!» — e espanta—nos essa vida feita de humilha-ções, de sacrifícios inúteis, desperdiçada: verdadeira negação da própria vida.Be fazer nada da vida!» E é a partir deste pensamento que surge
O Avejão,
que, também por isso,assume um significado especial: a personalidade e a própria vida de Raul Brandão são inseparáveis daobra singular que nos deixou, tal como o Gebo personificava as suas dúvidas e o seu «fantasma»,
O Avejão
prefigura já o balanço de uma vida perante o pressentimento da aproximação da morte, quehavia de o levar dois anos depois:«Não vivi com medo à desgraça, não fugi com medo à desgraça, não conheci o amor com medo à des-graça. E só agora, que é tarde, me arrependo de não ter ouvido a voz esplêndida do amor e da desgra-ça. Perdi a vida! Dá-me outra vida.»Em
O Avejão,
o momento da morte é o momento de um balanço; a velha grita ainda no seu leito demorte: «És o diabo? És a consciência? És talvez a dúvida?» É que a protagonista vê desfilar, como osnáufragos, toda a sua vida e tem de concluir que, afinal, não viveu, que a sua vida foi inútil e que jánão pode voltar atrás.Em Setembro de 1910, Raul Brandão registou estas palavras, que reproduziu depois nas
 Memórias:
«Hoje acordei com este grito: eu não soube fazer nada da vida!» E é a partir deste pensamento quesurge O
 Avejão
, que, também por isso, assume um significado especial: a personalidade e a própriavida de Raul Brandão são inseparáveis da obra singular que nos deixou, tal como o Gebo personifica-va as suas dúvidas e o seu “fantasma”, o
 Avejão
prefigura já o balanço de uma vida perante o pressen-timento da aproximação da morte, que havia de o levar dois anos depois:«Não vivi com medo à desgraça, não fugi com medo à desgraça. E só agora, que é tarde, me arrependode não ter ouvido a voz esplêndida do amor e da desgraça. Perdi a vida! Dá-me outra vida.»

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Maria Alda Carmo added this note
O filme! é um filme de que gostei bastante. Excelente a interpretação do Gebo.Será que Manuel de Oliveira quer pôr em evidência «o homem honrado»? Baseado no livro com o mesmo nome, levou-me à sua leitura que muito apreciei. Raúl Brandão devia ser mais lembrado, para nosso enriquecimento.

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