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Rancho Do Jatoba Modercin

Rancho Do Jatoba Modercin

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Published by: Isabel Bel Froes Modercin on Jun 18, 2012
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11/22/2012

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INTRODUÇÃO
O presente trabalho trata da relação do povo indígena Pankararé, habitante das TerrasIndígenas Pankararé e Brejo do Burgo, com o ambiente em que vivem. A análise baseia-senuma etnografia focada no manejo de recursos naturais, na percepção nativa sobre o territórioe atribuição de significados aos elementos
naturais
do mesmo pelo grupo indígena. Paratanto, adentrei a investigação por meio de duas categorias presentes nas expressões nativas
“viver do mato” e “viver de roça”.
Sendo assim, realizei uma revisão bibliográfica acrescidade dados de campo sobre os usos (inclusive o uso simbólico) e conhecimentos associados aoterritório e ao manejo dos recursos ambientais. No que diz respeito à agricultura
, ou o “viver da roça”,
os dados são principalmente oriundos da observação participante, uma vez que aindanão havia sido feita uma pesquisa etnoecológica desse sistema. Desse modo, busquei sabercomo, quando e onde eles decidem estabelecer suas roças de milho, feijão, melancia emandioca; qual o conhecimento envolvido nas práticas agrícolas; que variedades cultivam;
quais as definições nativas de “roça”, “capoeira”, “mata” e quais as implicações disto tudo no
entendimento da relação Pankararé-
ambiente. Ou seja, o que significa “viver de roça” na
visão Pankararé?Conheci a área indígena Pankararé em abril de 2004, aos 21 anos de idade quandoainda era estudante do curso de Ciências Biológica na Universidade Federal da Bahia. Era aminha primeira experiência numa área indígena e também o meu primeiro contato direto como bioma da caatinga. De forma que todo o cenário e a vivência eram novos para mim e meimpressionaram. Enquanto estudante de Biologia tinha como motivação a preocupação acercadas problemáticas ambientais, conjugada a uma busca incessante por soluções para elas. E oProjeto de Gestão Etnoambiental Pankararé (GEAP), o qual me levara para lá, justamentebuscava promover a conservação da caatinga da área indígena, levando em consideração omodo de vida Pankararé e os saberes destes índios sobre o ambiente, um aspecto novo paramim.Cheguei à área para realizar um trabalho de Educação Ambiental com professores eprofessoras das aldeias. Atividade esta que integrava o Projeto GEAP, executado pelaUniversidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), sob coordenação do professor Dr. FábioBandeira, e financiado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente do Ministério do Meio
 
 
17Ambiente (FNMA/MMA). Além desta, outras atividades estavam previstas pelo projeto comoa implantação de criatórios de emas e cutias; apiários e meliponários; realização de estudossobre manejo do solo e da água; além de diversas oficinas em gestão de projetos,associativismo, cooperativismo e temas afins.O projeto GEAP aconteceu em duas etapas. A primeira consistiu do DiagnósticoEtnoambiental quando se realizou o levantamento dos saberes e usos que os índios fazem doambiente circundante acompanhado de um etnomapeamento das terras indígenas
1
. Já asegunda etapa, realizada em parceria com as associações indígenas (duas associações das duasfacções políticas existentes na época), previu a implantação de algumas atividadesconsideradas prioritárias no diagnóstico. Paralelo a isso, realizaram-se inúmeros estudos sobreo conhecimento tradicional Pankararé que resultaram em produções acadêmicas e técnicas.Tanto o Projeto GEAP como estes estudos abarcaram muitos aspectos da inter-relação entreos índios e a caatinga sem, no entanto, aprofundar as investigações sobre a agriculturapraticada por eles.Em 2007, um projeto executado pela UEFS sob coordenação da professora Drª MarinaSiqueira de Castro, e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia(Fapesb), propunha a
transição agroecológica
da aldeia da Serrota. A principal atividade doprojeto era a implantação de um sistema experimental de policultivo, ou seja, uma roça debases agroecológicas. As atividades não alcançaram maior êxito devido a um ruído nacomunicação entre pesquisadores e indígenas no que tange à agricultura e à visão de meioambiente, em minha opinião. Deste momento em diante, comecei a me interessar pelo temadas roças indígenas cada vez mais.
Descobri que para entender o que está por trás da expressão “viver de roça” deveria aomesmo tempo compreender o que significa “viver do mato”. Considerei necessári
o discorrer
sobre a “roça” em associação ao “mato” como duas categorias ecológicas, espaciais e sociais
complementares. Sendo assim, revisei os estudos etnobiológicos (monografias de graduação edissertações de mestrado) desenvolvidos entre os Pankararé voltados para os aspectos do
conhecimento tradicional relacionado ao “mato” e ao “raso”
tais como os saberes sobre caça,classificação e manejo de abelhas nativas, classificação e uso de plantas, percepções sobre ageomorfologia, além de rever outros trabalhos sobre outros temas, mas igualmenteimportantes para se ter uma visão geral sobre a relação entre os índios e seu ambiente. Os
1
Encontre alguns desses mapas nos ANEXOS.
 
 
18trabalhos pioneiros de Bandeira (1993) sobre etnobiologia, o de Maia (1992) sobre política eetnicidade e o de Luz (1985) acerca da história oral Pankararé foram tomados como base parao desenvolvimento deste estudo. Sobretudo, os resultados da monografia
 EtnobiologiaPankararé 
(Bandeira, op cit) são explorados e desenvolvidos ao longo da dissertação.O primeiro capítulo visa contextualizar o leitor nas opções teórico metodológicas queorientam esse trabalho. Nele apresento meu ponto de vista e de partida para estudar a relaçãodos Pankararé com a caatinga. Justifico o afastamento dos estudos sobre campesinatoindígena e a aproximação dos estudos sobre os índios das terras baixas da América do Sul(TBAS), a chamada etnologia clássica, na medida em que me inspirei no conceito deperspectivismo ameríndio (Viveiros de Castro, 1996b) enquanto abordagem metodológica eoutras teorias sobre a relação cultura-natureza mais comumente utilizadas para se estudar ospovos indígenas das TBAS (Descola, 2000) para descrever (entender) a inter-relação dosPankararé do Raso da Catarina com o ambiente nos seus próprios termos. Assim, procureidemonstrar de que maneira, como Bióloga e ambientalista pude me afastar da ideia de
natureza
enquanto recurso ambiental e compreender o que seria
recurso ambiental
para osPankararé, ou o que significaria a caatinga para eles enquanto para nós é um bioma a serpreservado. Finalizo esse capítulo situando meu estudo num panorama mais amplo daantropologia e da etnobiologia.Isto posto, apresento um resumo histórico da área e da sociedade estudados no capítulo2. Este esboço ajudará o leitor a entender transformações no uso dos recursos ao longo do
tempo e principalmente como e porque os “cabocos” passam a ser reconhecidos como “índiosPankararé”, por meio de vários acontecimentos que levam à construção das categorias“índios”
vesus “
 posseiros”. Uma vez que os resultad
os desta dissertação são permeados pormemórias do passado e processos de transformação presentes nas falas dos índios, éindispensável ao leitor compreender um pouco desta história. O esboço foi elaborado combase na análise de Maia (1992) sobre a constru
ção da oposição categórica entre “cabocos” e“posseiros”
e o estudo de Luz (1985) sobre a percepção Pankararé da história.Transformações nas roças, no uso dos recursos em geral e nos discursos dos índios sobre oRaso da Catarina e a caatinga são reflexos deste processo.Antes de entrar na discussão sobre a inter-relação dos Pankararé com seu território,situo o leitor na área, fazendo uma descrição geral das terras indígenas e das aldeias, no

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