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Alister McGrath - A Estrutura Do Pensamento de Calvino

Alister McGrath - A Estrutura Do Pensamento de Calvino

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A ESTRUTURA DO PENSAMENTO DE CALVINO
Alister E. McGrathExtraído de
A Life of John Calvin. A Study in the Shaping of Western Culture
. Oxford, UK &Cambridge, MS: Blackwell, 1990, p.147-151.Traduzido por Carlos Ribeiro Caldas Filho.Calvino é geralmente considerado um sistematizador frio e sem paixão, mais uma mente queuma personalidade, uma figura reservada e socialmente isolada que sentia-se mais em casa nomundo das idéias que no mundo real de carne, sangue e relacionamentos humanos
1
. Aconcepção popular do pensamento religioso de Calvino é a de um sistema rigorosamentelógico, centrado sobre a doutrina da predestinação. Por mais influente que esta imagem popular possa ser, tem pouca relação com a realidade. Ainda que a predestinação sejaimportante para o calvinismo posterior, isto não se reflete na exposição de Calvino da idéia. Não obstante esta crença popular levanta uma questão importante. Pode-se falar do pensamento de Calvino como sendo em primeiro lugar um
 sistema
? A palavra “sistema”implica em suposições subjacentes de unidade
2
, e clama por coerência. Entretanto, Calvinocompartilhava o intenso desgosto da república humanista das letras pelos teólogosescolásticos, cujas palavras-chave poderiam ter sido “sistematização” e “coerência”. Falar deCalvino como um teólogo sistematizador implica em um grau de afinidade com oescolasticismo medieval que contradiz suas atitudes conhecidas. Também sugere umdeslocamento significativo entre Calvino e sua cultura, que não possuía os recursosintelectuais nem percebeu nenhuma razão particular para produzir obras de “teologiasistemática”
3
– um gênero literário que de qualqur modo estava firmemente identificado coma preservação do tão desprezado escolasticismo. É somente por considerar as
 Institutas
comoconsistente com, ao invés de uma exceção radical ao, o humanismo bíblico da época deCalvino que a significado da obra pode ser plenamente apreciado
4
.É certo que as
 Institutas
de 1559 tem sido freqüentemente comparadas à
Summa Theologiae
de Tomás de Aquino – com suas 512 questões, 2.669 artigos e mais de 10.000 objeções eréplicas - em sua abrangência e influência. Mas isto é confundir puro volume literário einfluência histórica com afinidade teológica. Como um estudo da evolução das
 Institutas
indica, Calvino originalmente concebeu a obra em termos modestos, sem qualquer pretensãoà abrangência metodológica. A reordenação do material entre as edições no período de 1536a 1559 reflete considerações mais pedagógicas que metodológicas. A preocupação deCalvino é mais humanista que escolástica – ajudar seus leitores, ao invés de impor-lhes ummétodo sobre o pensamento. As
 Institutas
de 1559 combinam as virtudes cardeais daeducação humanista – clareza e compreensividade – permitindo a seus leitores acesso a umaapresentação clara e completa dos principais pontos da fé cristã, que Calvino desejava quefossem entendidos. Em nenhum ponto qualquer evidência que sugira um princípio
1
Para uma discussão a respeito, consultar Selinger,
Calvin against Himself 
, 72-84.
2
Quanto ao problema geral dentro da história intelectual (e não simplesmente a teologia histórica) consultar H. Kellner, ‘Triangular Anxieties: The Present State of European Intellectual History’, in D. LaCapra e S. L.Kaplan (eds.),
 Modern European Intellectual History
(Ithaca, N.Y., 1982), pp. 16-31.
3
Um ponto fortemente enfatizado por Bouwsma,
 John Calvin
, 4-6.
4
Cf. Willis, ‘Rethoric and Responsibility in Calvin’s Theology”.
1
 
condutor, axioma ou doutrina – exceto a clareza de apresentação – que governasse a forma oua substância da obra. Isto é uma expressão da
eloquentia
, tão altamente apreciadas pelaRenascença, em sua estrutura e em sua prosa.O analista que, por qualquer razão, pressuponha um princípio unificador interno no pensamento de Calvino está naturalmente predisposto a encontrar um. A erudição sobreCalvino apresenta uma abundância de estudos que, presumindo haver um princípio unificador interno no pensamento de Calvino, tem tentado identifi-lo em sua doutrina da predestinação,
5
sua doutrina do conhecimento de Deus
6
 ou sua doutrina da igreja
7
. Umaabordagem mais modesta (e, deve ser dito, mais realista) envolve admitir o óbvio, ereconhecer que
não
há uma doutrina central no pensamento de Calvino
8
. A simples idéia deum “dogma central” tem sua origem no monismo dedutivo do Iluminismo, não na teologia doséculo dezesseis
9
. Podem-se localizar certos temas nuclearmente importantes, certasmetáforas fundamentais, que permitem
insights
no pensamento religioso de Calvino – mas anoção de uma doutrina ou um axioma central que o controle não pode ser sustentada. Não háum “núcleo”, nem “princípio sico” ou “premissa central”, nenhuma “essência” do pensamento religioso de Calvino.É entretanto evidente que em cada parte de sua discussão do relacionamento sobre Deus e ahumanidade, Calvino considera um paradigma simples como normativo. O paradigma emquestão é o que foi feito possível pela encarnação, a saber, a união sem fusão da divindade ehumanidade na pessoa de Jesus Cristo. Vez após vez, Calvino apelas à rmulacristologicamente baseada,
distinctio sed non separatio
. Neste ponto, duas idéias podem ser 
distintas
, porém não
 separadas
. Portanto o “conhecimento de Deus” e o “conhecimento denós mesmos” podem ser distinguidos; não podem entretanto estar um isolado do outro. Assimcomo a encarnação representa um exemplo paradigmático deste
complexio oppositorum
,então o mesmo padrão é repetido e pode ser discernido através de várias manifestações dorelacionamento entre Deus e a humanidade. A partir do fato que Calvino enfatiza que ateologia está centralizada sobre o “conhecimento de Deus e conhecimento de nós mesmos”(
 Institutas
I.1.I), este paradigma é nitidamente importante. Através de suas obras, Calvinoapresenta uma tendência de distinguir radicalmente os reinos divino e humano – não obstanteinsiste em sua unidade. Não há possibilidade de separar Deus e o mundo, ou Deus e os sereshumanos. Este princípio pode ser visto em operação através das
 Institutas
: a relação entre a palavra de Deus e as palavras dos seres humanos na pregação; entre o sinal e o objetosignificado na eucaristia; entre o crente e Cristo na justificação, onde uma real comunhão de pessoas existe, mas não uma fusão de ser. Entre o poder secular e espiritual. O pensamento deCalvino é profundamente cristocêntrico, não apenas pelo fato que se centraliza na revelaçãode Deus em Jesus Cristo, mas também em que esta revelação expõe um paradigma quegoverna outras áreas chaves do pensamento cristão. Onde quer que Deus e a humanidade
5
Schweizer,
 Die protestantischen Centraldogmen
, 1-18, 150-179. Mais genericamente, L. Boettner,
The Re- fomed Doctrine of Predestination
(Grand Rapids, 1968).
6
Dowey,
 Knowledge of God in Calvin’s Theology
, 41-49.
7
Milner,
Calvin’s Doctrine of the Church
, 1-5.
8
Partee, ‘Calvin’s Central Dogma Again’.
9
Um ponto enfatizado por Bauke,
 Die Probleme der Theologie Calvins
, 22, 30-31.
10
Milner,
Calvin’s Doctrine of the Church
, 2-3.
11
Cf. Niesel,
Theology of Calvin
, 247-250; Milner,
Calvin’s Doctrine of the Church
, 191.
2
 
estejam em conexão, o paradigma encarnacional ilumina sua relação. Se há um centro do pensamento religioso de Calvino, este centro pode razoavelmente ser identificado com JesusCristo mesmo
.Sugerir que não é inteiramente apropriado designar o pensamento religioso de Calvino comoum “sistema” não implica em afirmar que falta-lhe coerência ou consistência interna. Antes,é enfatizar a habilidade com que Calvino, aparentemente atuando como um teólogo bíblico, enão como um filósofo sistemático, foi capaz de integrar um número de elementos dentro daestrutura geral de seu pensamento. Ele pode não ter desenvolvido um “sistema teológico” nosentido estrito do termo; não obstante, ele foi inquestionavelmente um pensador sistemático,que plenamente reconheceu a necessidade de garantir consistência interna entre os várioscomponentes de seu pensamento.Após o tempo de Calvino, surge uma nova preocupação com método. Aconteceu umamudança significativa no clima intelectual, enquanto o novo interesse humanista em questõesmetodológicas se desenvolvia, com o resultado central que a sistematização não era maisconsiderada como propriedade particular dos desprezados teólogos escolásticos. Em parte,devido à crescente influência da escola humanista em Pádua, cuja ênfase na importância dométodo (e as contribuições de Aristóteles a esta ciência) ganhou uma simpatia crescente naRenascença posterior. Se fosse para manter respeitabilidade e credibilidade intelectual, ocalvinismo teria que reformar-se conforme o novo padrão sistemático. Os sucessores deCalvino no fim do século dezesseis, confrontados com a necessidade de impor um método aoseu pensamento, acharam que sua teologia era eminentemente adequada para estareformulação dentro de estruturas mais rigorosamente lógicas sugeridas pela metodologiaaristotélica favorecida pela Renascença italiana tardia. Isto talvez levou à conclusão que o pensamento de Calvino possui a forma sistemática e rigor lógica da ortodoxia reformada posterior, e tem permitido a preocupação da ortodoxia com a doutrina da predestinação ser lida nas
 Institutas
de 1559. Há uma diferença sutil entre Calvino e o calvinismo neste ponto,marcando e refletindo um ponto de mutação na história intelectual em geral. Se os seguidoresde Calvino desenvolveram suas idéias, foi em resposta a um novo espírito da época, queincluía sistematização e preocupação pelo método como intelectualmente respeitável edesejável. O luteranismo falhou em reconhecer a significância desta mudança decisiva noclima intelectual; quando os escritores luteranos adotaram os novos métodos, virtualmenteuma geração inteira tinha passado, e a superioridade intelectual do calvinismo pareciaassegurada.É útil identificar pelo menos das mais significativas influências sobre as idéias de Calvino.Em primeiro lugar, deve-se enfatizar que Calvino é um teólogo bíblico. A primeira e maisimportante fonte de suas idéias religiosas era a Bíblia. A obra de Calvino como umcomentarista bíblico serve para reforçar a impressão geral que se tem a partir de uma leituraatenta das
 Institutas
: ele considerava-se como um expositor obediente da Bíblia. Textos,entretanto, requerem interpretação. Calvino tinha acesso a, e teve pouca hesitação em usar as principais novas técnicas de teoria literária, crítica textual e análise filológica que a
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A sugestão de escritores antigos, tais como Ernst Troeltsch, que Calvino é menos cristocêntrico que Lutero, baseia-se em hipóteses então prevalecentes da erudição a respeito de Calvino – especialmente concernentes àcentralidade da predestinação – atualmente estas hipóteses estão há muito abandonadas.
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