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Criminalidade Cor

Criminalidade Cor

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Criminalidade
Criminalidade

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06/20/2012

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text

original

 
Observat
ó
rio da Cidadania 2004 / 45
Criminalidade e respostas brasileiras à violência
*
Gr
á
fico 1
 
Homicídios no Brasil: números absolutos e taxas por 100 mil habitantesde 1980 a 2001
60.00050.00040.00030.00020.00010.000
1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001
51015202530N
º
absolutoTaxa por 100 mil habitantes
Fonte:
Sistema de Informa
çã
o sobre Mortalidade
Datasus.
Por que jovens negros que moram em favelas ou na periferia das grandes cidades brasileiras correm maior risco deserem assassinados? Fatores como incremento do tráfico de armas de fogo, rentabilidade do comércio de drogas,corrupção, violência policial, ausência do poder público, cultura machista e falta de perspectiva de acesso aos bens deconsumo são algumas explicações. Poucas iniciativas governamentais têm surgido no sentido de associar políticassociais preventivas a políticas de controle e modernização das polícias. As boas perspectivas ficam por conta da aprovação do Estatuto do Desarmamento e das ações de jovens que buscam criar uma cultura alternativa ao tráfico
 
emáreas violentas.
Silvia Ramos e Julita Lemgruber
1
O Brasil n
ã
o est
á
em guerra, mas nossas ta-xas de mortes violentas nos principais cen-tros urbanos superam as de pa
í 
ses que vivemconflitos armados. An
á
lises comparativascom pa
í 
ses em guerra ou em situa
çã
o deconflito intenso conclu
í 
ram que na cidadedo Rio de Janeiro, tomados os mesmosper
í 
odos, morreram mais pessoas v
í 
timasde armas de fogo do que nos combates ar-mados em Angola (1998
2000); Serra Leoa(1991
1999); Iugosl
á
via (1998
2000);Afeganist
ã
o (1991
1999). Em todos essesconflitos, jovens s
ã
o as principais v
í 
timas.No munic
í 
pio do Rio de Janeiro, 3.937 ado-lescentes morreram por ferimentos causa-dos por balas entre dezembro de 1987 enovembro de 2001. No mesmo per
í 
odo, noscombates entre Israel e Palestina, 467 ado-lescentes morreram como resultado da a
çã
ode armas de fogo (Dowdney, 2003).Em 2001, no Brasil, mais de 47 mil pesso-as foram assassinadas. Entre os anos de 1980e 2001, houve 646.158 homic
í 
dios dolososno pa
í 
s, o que equivale a mais de 30 mil as-sassinatos por ano. Como se pode observarno Gr
á
fico 1,
2
a curva de homic
í 
dios cresce,sistematicamente, ao longo de duas d
é
cadas.A pequena queda observada entre os anos de1990 e 1992
é
atribu
í 
da a um problema noregistro dos dados (Soares, 1999). Nessesanos, teria havido um grande acr
é
scimo deregistros de
mortes por armas de fogo eintencionalidade desconhecida
que n
ã
o fo-ram contabilizados como homic
í 
dios, concen-tradamente no Rio de Janeiro.O Brasil passou de 11,7 para 27,8 ho-mic
í 
dios por 100 mil habitantes, respectiva-mente nos anos de 1980 e 2001. Pa
í 
ses daEuropa Ocidental t
ê
m taxas inferiores a tr
ê
smortes por 100 mil habitantes. Os EstadosUnidos encontram-se na faixa de cinco aseis mortes por 100 mil habitantes, e nossavizinha Argentina tem
í 
ndices semelhantesaos dos estadunidenses.Verificam-se importantes diferen
ç
as en-tre os estados brasileiros no que se refere ataxas de homic
í 
dio. Os
í 
ndices v
ã
o de 8,4mortes por 100 mil habitantes, em SantaCatarina, a 58,5 por 100 mil habitantes, emPernambuco, o
ú
nico estado que tem taxasconcorrentes com as do Rio de Janeiro, com50,5 homic
í 
dios por 100 mil habitantes (Gr
á
-fico 2).
É
importante observar, contudo, quea fragilidade dos dados com os quais setrabalha na
á
rea da criminalidade implica s
é
-rias limita
çõ
es para a an
á
lise. Problemas deconfiabilidade dos dados
alguns estadosproduzem informa
çõ
es mais qualificadas queoutros
sugerem que qualquer avalia
çã
odefinitiva sobre viol
ê
ncia letal em cada esta-do da Federa
çã
o deve ser considerada com
1Silvia Ramos e Julita Lemgruber s
ã
o, respectivamente,coordenadora e diretora do Centro de Estudos deSeguran
ç
a e Cidadania (Cesec) da UniversidadeCandido Mendes.2Os gr
á
ficos apresentados neste texto foramelaborados por Leonarda Musumeci e Doriam Borges,coordenadora e estat
í 
stico do Cesec.11,722,227,813.91031.98947.899
 
Observat
ó
rio da Cidadania 2004 / 46
Gr
á
fico 2
Taxa de homicídios por 100 mil habitantes nos estados brasileirose no DF – 2001
Fonte:
Sistema de Informa
çã
o sobre Mortalidade
Datasus.
cautela. Estudos da evolu
çã
o das taxas dehomic
í 
dio utilizam duas fontes: a Pol
í 
cia Ci-vil, cujos dados s
ã
o baseados nos registrosde ocorr
ê
ncias criminais (chamados de ROsou BOs) e o Sistema
Ú
nico de Sa
ú
de (SUS),com dados baseados nos certificados de
ó
bitos (ver Musumeci, 2002).
É
sempre re-comend
á
vel, para an
á
lises sobre din
â
micaslocais, cotejar as duas fontes.As compara
çõ
es entre os estados bra-sileiros indicam que vari
á
veis socioecon
ô
-micas, separadamente, n
ã
o explicam asdiferen
ç
as nos
í 
ndices de viol
ê
ncia letal nosestados. Estudos realizados por Cano e San-tos (2001) em
á
reas metropolitanas no Bra-sil mostram que o n
ú
mero de homic
í 
dios
é
mais alto nos bairros pobres e mais baixonas
á
reas favorecidas das cidades, sendoessa regi
ã
o intramunicipal a que revela maisforte influ
ê
ncia da vari
á
vel renda. No entan-to, ao comparar os estados brasileiros, osmesmos autores concluem que as vari
á
veisrenda, educa
çã
o e desigualdade t
ê
m impac-to menos significativo nas taxas de homic
í 
-dios do que a vari
á
vel urbaniza
çã
o, ou seja,as municipalidades com alta propor
çã
o depopula
çã
o urbana det
ê
m taxas muito maisaltas de homic
í 
dio.
Jovens negros são as maiores vítimas
Uma outra caracter
í 
stica muito intensa epreocupante no panorama brasileiro
é
aconcentra
çã
o dos homic
í 
dios na popula-
çã
o jovem. Na faixa et
á
ria dos 15 aos 24anos, as taxas s
ã
o extraordinariamente maisaltas do que as verificadas para a popula-
çã
o como um todo. A tend
ê
ncia, como seobserva no Gr
á
fico 3,
é
nacional, ocorren-do mesmo nos estados com taxas de vio-l
ê
ncia letal mais baixas. Quando examinamosalgumas
á
reas urbanas pobres, focalizan-do a popula
çã
o jovem, encontramos taxasde mais de 200 homic
í 
dios dolosos por100 mil habitantes.Paralelamente
à
idade, estudos recentest
ê
m identificado a exist
ê
ncia de uma dra-m
á
tica concentra
çã
o de mortes violentasna popula
çã
o negra (soma das pessoasclassificadas como pretas e pardas), indi-cando que a distribui
çã
o desigual de rique-zas e recursos sociais (educa
çã
o, sa
ú
de,saneamento) entre pessoas brancas e ne-gras, no Brasil, acaba por provocar outrotipo de desigualdade: a distribui
çã
o da mor-te violenta. Assim, s
ã
o as pessoas negrase, entre elas, as mais jovens, as v
í 
timas pre-ferenciais da viol
ê
ncia letal.As taxas de homic
í 
dios para pessoas ne-gras s
ã
o mais altas em todas as idades, em-bora muito mais acentuadas entre os 14 e 19anos, faixa em que os n
ú
meros aumentamsistematicamente. Enquanto a diferen
ç
a
é
de2,8% aos 13 anos de idade, ela sobe para10,3% aos 14 anos, e 17,2% aos 19 anos deidade. Em seguida, a diferen
ç
a come
ç
a a dimi-nuir, chegando a 6% depois dos 26 anos e amenos de 1% depois dos 48 anos de idade.
3
Em termos gerais, no Brasil, os riscos deserem assassinadas s
ã
o 86,7% maiores parapessoas negras do que para brancas.Nas regi
õ
es metropolitanas do pa
í 
s,como se sabe, a criminalidade violenta cres-ceu predominantemente em favelas e bair-ros pobres das periferias urbanas. Nessas
á
reas, especialmente a partir da d
é
cada de1980, instalou-se o tr
á
fico de drogas e comele, surgiram os conflitos entre fac
çõ
es ri-vais que disputam o controle de um merca-do altamente lucrativo. Tamb
é
m, ao longodos anos, cresceram a viol
ê
ncia e acorrup
çã
o policiais, umbilicalmente ligadasao tr
á
fico de drogas. Nesses territ
ó
rios po-bres e carentes de servi
ç
os p
ú
blicos, regis-tram-se os mais altos
í 
ndices de viol
ê
ncialetal. Nas cidades brasileiras mais violentas,
é
poss
í 
vel identificar uma geografia da mor-te, em que as maiores v
í 
timas s
ã
o jovensnegros e pobres.A Figura 1 ilustra a desigualdade na dis-tribui
çã
o da viol
ê
ncia letal entre os diversosbairros do munic
í 
pio do Rio de Janeiro. O
3Informa
çõ
es contidas no estudo
A cor da morte
, deGl
á
ucio Soares e Doriam Borges, originalmenteapresentado no semin
á
rio Viol
ê
ncia e Racismo,organizado pelo Cesec/Ucam, em 2002, e publicado narevista
Ci 
ê 
ncia Hoje 
(ver Soares e Borges, 2004).
 
Observat
ó
rio da Cidadania 2004 / 47
Gr
á
fico 3
 
Taxa de homicídios por 100 mil habitantes em diferentes estadosbrasileiros: jovens e total – 2001
Fonte:
Sistema de Informa
çã
o sobre Mortalidade
Datasus.300250200150100500Rio de JaneiroS
ã
o PauloPernambucoEspirito SantoMinas GeraisBahiatotaljovens de 15 a 24 anos
Gr
á
fico 4
 
Porcentagem dos homicídios no total de mortes segundo cor e idade no Brasil – 1997 a 2000
Fonte:
Sistema de Informa
çã
o sobre Mortalidade
Datasus.
mapa traz a divis
ã
o do munic
í 
pio em
Á
reasIntegradas de Seguran
ç
a P
ú
blica (Aisps).Como se pode perceber, as Aisps 2, 19 e 23,que englobam os bairros da Zona Sul dacidade (Copacabana, Ipanema, Leblon, La-goa, Jardim Bot
â
nico e Barra), nas quais seconcentram moradores e moradoras commaior poder aquisitivo, s
ã
o aquelas que apre-sentam as mais baixas taxas de homic
í 
dios.Nessas
á
reas, s
ã
o comuns taxas que variamde 4,7 a 10 homic
í 
dios por 100 mil habitan-tes, pr
ó
ximas dos padr
õ
es estadunidenses.J
á
as Aisps 27 e 9, situadas na Zona Oeste eno sub
ú
rbio, que re
ú
nem bairros pobres eregi
õ
es repletas de favelas, como Penha,Iraj
á
, Rocha Miranda, Acari e Santa Cruz,chegam a registrar taxas de at
é
84 homic
í 
-dios por 100 mil habitantes. Manchasterritoriais de concentra
çã
o de mortes vio-lentas nos bairros pobres e nos aglomera-dos de favelas tamb
é
m se evidenciam emcidades nas quais estudos sistem
á
ticos t
ê
msido desenvolvidos, como os do Centro deEstudos de Criminalidade e Seguran
ç
a P
ú
-blica (Crisp) sobre a viol
ê
ncia letal em BeloHorizonte, como mostra a Figura 2.Para analistas, est
á
em curso, no pa
í 
s,um verdadeiro genoc
í 
dio de jovens pobres,sobretudo da cor negra, decorrente da ex-pans
ã
o veloz das din
â
micas criminais e doacesso ilimitado
à
s armas de fogo (Soares,2003). Sem d
ú
vida, a combina
çã
o explosi-va entre armas e drogas foi determinantepara a escalada das taxas de criminalidadeviolenta nos grandes centros urbanos(Musumeci, 2002; Lemgruber, 2003). Em1980, as mortes causadas por armas defogo totalizavam 43,9% do total de homic
í 
-dios no pa
í 
s. No ano de 2000, o percentualhavia subido para 68%.Boa parte das din
â
micas da viol
ê
nciaque se estabelecem e se aprofundam nasduas
ú
ltimas d
é
cadas se engendra nas re-des de tr
á
fico e consumo de drogas il
í 
citas.O crescimento acelerado de mortes violen-tas em favelas e bairros pobres pode serexplicado por uma combina
çã
o de fatores: achegada da coca
í 
na aos centros urbanos
como Rio, S
ã
o Paulo, Vit
ó
ria, Belo Horizonte
e
à
s grandes cidades do interior, na d
é
ca-da de 1980, e sua extrema rentabilidade; oaumento de policiamento violento e repres-sivo; as lutas entre fac
çõ
es rivais pelo con-trole dos pontos de distribui
çã
o e venda dedrogas; e o emprego de armas de uso mili-tar. A aus
ê
ncia dos poderes p
ú
blicos (prin-cipalmente de uma pol
í 
cia eficiente e honesta)em tais
á
reas favoreceu o estabelecimento ea amplia
çã
o do controle territorial dessas
á
reas por grupos armados de traficantes.Nesses territ
ó
rios, o tr
á
fico exerce forte po-

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