Entre improvisação e indeterminação: as zonasexperimentais
Luiz Carlos Garrocho
Há todo um trânsito, nas artes da performance, operando entre
improvisação
e
indeterminação
: são as
zonas experimentais
[
ZnExs
], regiões intensivas deatravessamento e troca, de mobilidade fronteiriça e deriva, conexõesheterogêneas e produção de estados mentais alterados. As
ZnExs
resultam denovos agenciamentos em criação e recepção, em termos de apropriação dasvias sensíveis, da
poiesis
e das forças do acontecimento. Invoco, para tanto, opensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari
, entre outros, para compor osplanos de uma
ZnEx
.Para pensar junto ou em ressonância com as
ZnExs
é necessário tomá-lascomo questões concernentes mais às velocidades e lentidões do que aosenquadramentos ou classificações. Não se definem, portanto, como gênero,formato, modelo ou tipologia artística, coexistindo antes com as misturas e atémesmo com os contrários. No entanto, deflagram experiências estéticas, tantono plano do observador-criador quanto no plano do criador-encenador.O plano do observador-criador é aquele no qual se dá a ocorrência mínima deuma
zona de experimentação
: nossos corpos, percepções e afectos. Tal planoincide essencialmente sobre o processo de individuação do humano e do seudevir outro: sobre o estoque de forças que o compõem como ser de percepçãoe de afecção, e sobre a variação infinita de uma vida. Daí sua radicalidadeainda não mensurada nos rastreamentos institucionais: o que seria umaestética do observador-criador? Porém, cada vez mais, pessoas e mais pessoasadentram nessa brecha existencial e micropolítica do observar-criador,habitando paisagens e durações. Em outras palavras: reivindicam para (e por)si o direito à invenção e fruição estética no plano de suas vidas. Por isso, uma
ZnEx
ressoa com a
Taz
, a
zona autônoma temporária
, de Hakim Bey
: olevante no lugar da revolução. Daí o surgimento de novas conexões entrepolítica e desejo, entre arte e resistência. John Cage
dizia que, se você quer ter uma experiência teatral, sente-se numbanco de praça e faça um recorte. O compositor experimental trazia para amúsica a idéia de
teatralidade
: tudo o que há para ser visto e ouvido nomomento. Você fará um enquadramento compositivo. Isso quer dizer que
não precisamos mais
esperar a arte para viver a arte.
No entanto,
“
a arte é o quefaz a vida ser mais interessante que a arte”, para lembrar Robert Filiou
, domovimento
Fluxus.
Não se trata, portanto, de qualquer idéia mórbida sobre o
1
Artigo publicado originalmente em Letras: periódico cultural – n. 27 – Ano III, dezembro 2008 –Café com Letras,Belo Horizonte.
2
Add a Comment