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Macunaima

Macunaima

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Published by: Ricardo Do Amaral Catete on Jun 25, 2012
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06/25/2012

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MACUNAÍMA
MÁRIO DE ANDRADE
 
 
IMacunaíma
No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossagente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momentoem que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo doUraricoera, que a índia, tapanhumas pariu uma criança feia. Essacriança é que chamaram de Macunaíma.Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou maisde seis anos não falando. Sio incitavam a falar exclamava: If 
 — 
Ai!que preguiça!. . . e não dizia mais nada."] Ficava no canto da maloca,trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros eprincipalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguêna força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva.Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandavapra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomarbanho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dandomergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dosguaimuns diz-que habitando a água-doce por lá. No mucambo sialguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaímapunha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspiana cara. Porém respeitava os velhos, e freqüentava com aplicação amurua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas dançasreligiosas da tribo.Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre seesquecendo de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo doberço, o herói mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem.Então adormecia sonhando palavras-feias, imoralidades estrambólicase dava patadas no ar.Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto eram sempreas peraltagens do herói. As mulheres se riam muito simpatizadas,falando que "espinho que pinica, de pequeno já traz ponta", e numapagelança Rei Nagô fez um discurso e avisou que o herói erainteligente.
 
Nem bem teve seis anos deram água num chocalho pra ele eMacunaíma principiou falando como todos. E pediu pra mãe quelargasse da mandioca ralando na cevadeira e levasse ele passear nomato. A mãe não quis porque não podia largar da mandioca não.Macunaíma choramingou dia inteiro. De noite continuou chorando.No outro dia esperou com o olho esquerdo dormindo que a mãeprincipiasse o trabalho. Então pediu pra ela que largasse de tecer opaneiro de guarumá-membeca e levasse ele no mato passear. A mãenão quis porque não podia largar o paneiro não. E pediu pra nora,companheira de Jiguê que levasse o menino. A companheira de Jiguêera bem moça e chamava Sofará. Foi se aproximando ressabiadaporém desta vez Macunaíma ficou muito quieto sem botar a mão nagraça de ninguém. A moça carregou o piá nas costas e foi até o pé deaninga na beira do rio. A água parará pra inventar um ponteio de gozonas folhas do javari. O longe estava bonito com muitos biguás ebiguatingas avoando na estrada do furo. A moça botou Macunaíma napraia porém ele principiou choramingando, que tinha muita formiga!...e pediu pra Sofará que o levasse até o derrame do morro lá dentro domato, a moça fez. Mas assim que deitou o curumim nas tiriricas, tajáse trapoerabas da serrapilheira, ele botou corpo num átimo e ficou umpríncipe lindo. Andaram por lá muito.Quando voltaram pra maloca a moça parecia muito fatigada detanto carregar piá nas costas. Era que o herói tinha brincado muitocom ela. Nem bem ela deitou Macunaíma na rede, Jiguê já chegava depescar de puçá e a companheira não trabalhara nada. Jiguê enquizlou edepois de catar os carrapatos deu nela muito. Sofará agüentou a sovasem falar um isto.Jiguê não desconfiou de nada e começou trançando corda comfibra de curauá. Não vê que encontrara rasto fresco de anta e queriapegar o bicho na armadilha. Macunaíma pediu um pedaço de curauápro mano porém Jiguê falou que aquilo não era brinquedo de criança.Macunaíma principiou chorando outra vez e a noite ficou bem difícilde passar pra todos.No outro dia Jiguê levantou cedo pra fazer arma-ilha e enxergandoo menino tristinho falou:
 — 
Bom-dia, coraçãozinho dos outros.

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