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Jean Paul Sartre - A Engrenagem

Jean Paul Sartre - A Engrenagem

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A ENGRENAGEM Na periferia duma grande cidade, uma imensa exploração petrolífera. Poços, reservatórios, torres de , armazéns. Nenhum sinal de actividade. Os arruamentos da instalação estão desertos, as máquinas estão paradas. Nem um homem a trabalhar. Entre a cidade e a instalação, ergue-se um bairro operário. As suas ruas estão desertas. As lojas estão fechadas. Dum bico de gás pende, enforcado, um manequim cujo peito está atravessado por um cartaz de papelão sobre o qual se lê, em l
A ENGRENAGEM Na periferia duma grande cidade, uma imensa exploração petrolífera. Poços, reservatórios, torres de , armazéns. Nenhum sinal de actividade. Os arruamentos da instalação estão desertos, as máquinas estão paradas. Nem um homem a trabalhar. Entre a cidade e a instalação, ergue-se um bairro operário. As suas ruas estão desertas. As lojas estão fechadas. Dum bico de gás pende, enforcado, um manequim cujo peito está atravessado por um cartaz de papelão sobre o qual se lê, em l

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A ENGRENAGEM
Na periferia duma grande cidade, uma imensa exploração petrolífera. Poços,reservatórios, torres de <<cracking>>, armazéns. Nenhum sinal de actividade. Osarruamentos da instalação estão desertos, as máquinas estão paradas. Nem um homem atrabalhar.Entre a cidade e a instalação, ergue-se um bairro operário. As suas ruas estãodesertas. As lojas estão fechadas. Dum bico de gás pende, enforcado, um manequimcujo peito está atravessado por um cartaz de papelão sobre o qual se lê, em letrasgarrafais:
 Jean Aguerra, tirano.
 A COZINHA DUMA CASA OPERÁRIAUma velha está sentada numa cadeira ao lado do fogão de olhos perdidos novácuo, com um ar angustiado. Em pé diante da janela uma mulher nova, de rostoprematuramente cansado, escova um velho casaco de homem, olhando o manequimenforcado.Ouvem-se ao longe alguns estampidos, seguidos de rajadas de metralhadora. Amulher deixa cair a escova e aproxima-se ainda mais da janela, apurando o ouvido. Avelha levantou-se. Diz, com lassidão:-
 
Ainda estão a disparar. Quando acabará isto?Com a escova, a mulher aponta o manequim:-
 
Quando o tiverem enforcado a sério.UMA RUA DA CIDADEUma grande rua comercial ao fundo da qual se avista um enorme edifício dealvenaria: o palácio do governo.A rua está deserta. As portas onduladas da maior parte das lojas estão descidas.Outras lojas ficaram com os vidros partidos. No meio da rua, um carro eléctrico voltado.Junto duma parede, um cadáver, o dum operário em mangas de camisa, com o troncocingido por uma cartucheira. Está estendido com os braços em cruz, e a sua espingardaestá diante dele.Um tiro; depois, um momento de silêncio. Um insurrecto sai dum portão, deespingarda em punho. Corre, rente às paredes, na direção do Palácio do governo.Disparam contra ele uma rajada de metralhadora. O homem atira-se ao chão, de bruços,atrás do cadáver. O tiro cessa. O homem levanta-se, apanha rapidamente a espingardado morto e recomeça a correr. Some-se no portal dum prédio.O PÁTIO DUM PRÉDIOUma vintena de insurrectos, em armas, e algumas mulheres estão agrupadas nopátio. O chefe aproxima-se do insurrecto que já conhecemos e pergunta:-
 
Então?Toda a gente se reúne à volta do insurrecto, que responde:-
 
Apoderámo-nos da Central. Eles ainda ocupam o quartel Yapoul. A guerranão saiu do palácio.Ao longe, rajadas de metralhadora.NO PALÁCIO DO GOVERNO UMA ANTECÂMARA.
 
Uma grande sala nua. Um banco comprido forrado de veludo. Uma mesa decontínuo entre duas janelas enormes. Está aí reunida uma dúzia de grandes dignitários,de uniforme ou em traje civil. Um deles é o ministro da justiça, Mater. É umhomenzinho calvo, com um ar aterrorizado, que está sentado no barco. Os outros estãode pé, rígidos, calmos, e perfeitamente silenciosos. Têm a barba por fazer, as suas carasestão abatidas e os seus fatos amarrotados. Percebe-se que passaram a noite sem dormir.Não está nenhuma luz acessa, apenas o tênue bruxulear da madrugada ilumina a sala.Bruscamente, tiros muito próximos. Uma bala faz estalar um vidro e vai alojar-se no teto. Reybaz, O ministro dos negócios estrangeiros, alto, pesado, de fortearcaboiço, vai tranqüilamente à janela e inspeciona o exterior.A porta abriu-se e aparece um oficial esbaforido. Voltam-se todos para ele.Mater levanta-se. O oficial anuncia:-
 
Estão a avançar. É o último assalto.Os dignitários recebem a notícia sem que nada nas suas caras indique o quepensam, como se desconfiassem um dos outros. Reybaz diz simplesmente:-
 
Vou preveni-lo.O QUARTO DE JEAN AGUERRAÉ um quarto pequeno, duma simplicidade quase monacal: uma cama, duascadeiras, uma mesa e uma cômoda. Jean está de pé diante de um espelho. É um homemde uns quarenta anos, alto e corpulento. Um dos seus braços está meio paralisado.Calças de oficial e uma camisa escura. Um criado grave vestido de preto está a fazer-lheo nó da gravata. Batem à porta.-
 
Entre – Diz Jean.É Reybaz. Jean faz um sinal ao criado grave, que sai. Reybaz fecha a porta atrásde si.-
 
É o último assalto – diz.-
 
Bem – diz Jean, calmamente.Vai à janela, olha para fora e acrescenta:-
 
Estamos prontos.-
 
Pode ser que sim – diz Reybaz – mas há de ficar-lhes caro. Há metralhadorasem todas as janelas.Jean volta-se e dirige-se para Reybaz.-
 
Vais dar a Craver ordem de cessar fogo.-
 
Não.-
 
O que?-
 
Não farei isso – diz Reybaz – Talvez fiquem com a minha pele, mas quero quea paguem.-
 
Quem vai fazer o assalto é a rapaziada do petróleo.Reybaz encolhe os ombros e pergunta:-
 
E daí?-
 
São os melhores. Não é necessário mata-los.Como Reybaz não se mexe, Jean muda de tom.-
 
É uma ordem, entendeste?-
 
Reybaz fica parado diante de Jean, fita-o por um momento e baixa a cabeça,sem se mover. Jean dirige-se à campainha colocada à cabeceira da cama, e toca, dizendoReybaz:-
 
Vai-te embora!Reybaz sai, no momento em que torna a entrar o criado grave.
 
Jean, que está a olhar pela janela, diz sem se voltar:-
 
Whisky.O criado serve a bebida e traz-lhe um copo que Jean esvazia num trago. Depois,Jean ordena:-
 
O meu grande uniforme.O criado vai abrir o guarda-fato. Enquanto ele está de costas, Jean olha-o e diznegligentemente:-
 
Para mim acabou. Ceder-te-ei ao meu sucessor.A ANTECÂMARAOs dignitários estão às janelas. Silêncio total. De repente, um imenso clamor sobas janelas, depois, novamente, o silêncio.-
 
Entraram – diz Reybaz.A porta do gabinete de trabalho abre-se. O criado grave aparece e inclina-se:-
 
Sua excelência pede o favor de entrarem.O GABINETE DE TRABALHO DE JEANUma sala imensa. Uma grande secretaria, maciça, coberta de livros e de pastas.Num canto da secretaria, uma bandeja: whisky, um sifão e copos. Nas paredes,prateleiras carregadas de livros e de pastas. Um divã e poltronas. Jean está sentado àsecretaria, de grande uniforme. Os dignitários entram no gabinete com um passohesitante. Aproximam-se de Jean que se levanta e os olha de sobrolhos franzidos.-
 
Pelo menos metade de vocês são traidores. Vou tentar adivinhar. Daqui a umquarto de hora saberei se me engano.Os dignitários pararam em semicirculo. Jean observa-os cuidadosamente,passeando muito levemente diante deles, como se os passasse em revista.-
 
Tu é garantido... Tu és menos garantido, mas é possível... Tu, com essa cara...Jean passa diante de Reybaz.Ao lado de Reybaz está Darieu. Jean sorri-lhe amavelmente e põe-lhe a mão noombro. Darieu responde com um sorriso um pouco crispado.-
 
Tu também não, evidentemente. Gostava muito de ti, Darieu.Ouvem-se passos e gritos do lado de lá da porta. Jean volta-se e ocupa o seulugar à secretária. A porta abre-se bruscamente e um grupo de insurrectos em armasaparece no limiar. Reybaz puxa o seu revólver e atira: um dos insurrectos cai. Outrotiro: Reybaz cai por sua vez. Jean vem colocar-se rapidamente entre os dignitários e osinsurrectos.-
 
Que mais ninguém atire. Entrem.Produz-se uma barafunda à porta. As pessoas entram no gabinete. Homens emulheres, com armas, de camisas rasgadas, caras sujas e braços nus. Jean encara amultidão que se cala a parece hesitar um momento. Um dos dignitários agrupados atrásde Jean começa lentamente a andar para ir juntar-se à multidão. Os outros seguem-seum a um, evitando os olhos de Jean, que os contempla sorrindo e diz:-
 
Todos? É ainda melhor do que eu pensava.-
 
Darieu é o último a juntar-se à multidão.Também tu, Darieu? – Pergunta Jean.Darieu não responde. Jean acrescenta:-
 
Suponha que gostavas de mim.-
 
Sim, gostava de ti – diz Darieu duramente. – E daí?

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