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A vara do demônio

A vara do demônio

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05/29/2013

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A Vara do Demônio
Ao contrário de sua vida, a morte de Anna Pappenheimer foi um eventopúblico. Milhares de habitantes de Munique se apinharam na colina paraassistir a ela, formando um círculo fora do portão principal da cidade.Meninos forçavam passagem pelos cavalos que resfolegavam e que propiciavamao magistrado superior e a outros dignitários uma posição no alto, acimada multidão alvoroçada. Batedores de carteiras faziam seu trabalho, eempreendedores mais íntegros vendiam panfletos citando os crimes eblasfêmias que levaram a esposa de um limpador de latrinas itinerante aser condenada à morte que agora a aguardava. A morte provavelmente foibem-vinda para Pappenheimer: minutos antes, a mulher de 59 anos, mãe detrês filhos, havia sido arrastada de sua cela na cadeia, local de suaconfissão, até a praça em frente à prefeitura, onde dois rapazes cuidavamde uma tina de carvão em brasa. Um homem mais velho, usando um capuz pretoe luvas de couro, avançou e pegou as tenazes que haviam sido enfiadasnessa massa causticante. Rasgou a blusa de Pappenheimer. Usou as pinçasfulgurantes para arrancar seus seios. Enquanto a multidão ofegava, amulher, gritando, era jogada em uma carroça usada normalmente paratransportar estrume. Anunciado pelos sinos da igreja, o cortejo fúnebre dePappenheimer partiu em direção à colina além dos muros da cidade. Ali, seucorpo claudicante, ensangüentado, foi amarrado a uma cadeira e erguido aoalto de uma grande pira. Nosso Senhor Jesus Cristo, por vós eu vivo ,disse um padre. Nosso Senhor Jesus Cristo, por vós eu vivo , ecoaram osfiéis. O homem encapuzado lançou tochas acesas na fogueira. Fumaça ecinzas levantaram-se. Cachorros, excitados pelo cheiro, começaram a latire a pular. A multidão recebeu os gritos de Pappenheimer com aclamações. Delonge, parecia carnaval.Anna Pappenheimer foi uma das milhares de mulheres mortas durante a caçaàs bruxas que atingiu seu ápice mais espantoso entre os séculos XIV eXVII. Algumas das mulheres mortas foram acusadas de provocar a safra ruim,outras de realizar abortos. Mas havia um crime que praticamente todas asmulheres confessavam depois de sofrerem torturas, começando com a primeirabruxa documentada a ser executada publicamente, a francesa Angela de laBarthe, em 1275. O crime era o conhecimento do pênis do Diabo.A educação de Pappenheimer deu-se em um campo de cevada na Baviera. Umestranho, vestido de preto, aproximou-se dela, tirou o chapéu e tratou amulher pobre com cortesia. Que belo dia, senhora , disse ele. Logo seráprimavera, não acha? Pappenheimer olhou à distância. Não finja que não meconhece , disse o homem. Sou Lúcifer, às vezes chamado de O Maligno . Masposso ser um bom amigo para aqueles que confiarem em mim. Acaricioudelicadamente a face de Pappenheimer; não demorou e ela sentiu umalascívia diferente de qualquer outra que já sentira. Estremeceu quando seu
 
pênis a penetrou. Era, contou depois ao inquisidor, tão frio quanto umpedaço de gelo .O pênis do Diabo era a obsessão de todo inquisidor e o astro de quase todaconfissão de bruxas. As mulheres, invariavelmente, diziam que era frio,mas discordavam em outros detalhes. Algumas localizavam o pênis em seutraseiro. Outras diziam que ele tinha dois, e, ainda outras, que erabifurcado. A maioria relatou que era preto e coberto de escamas. Váriasdisseram que não havia nada onde deveriam pender o escroto e os testículos. Uma comparou o pênis do Diabo ao de um mulo, que o Maligno expunhaconstantemente, de tão orgulhoso que era de seu tamanho e forma. A suaejaculação, diziam, excedia a de mil homens. Mas outras alegavam que seupênis era menor do que um dedo, e nem mesmo tão grosso. Isso levou uminquisidor francês a conjeturar que Satã servia a algumas bruxas melhor doque a outras.Essas confissões denotam algo sobre as fantasias das mulheres, mas revelammuito mais sobre as ansiedades dos homens, especialmente as relacionadascom seu órgão definidor. Cinco séculos atrás, as mulheres não eramconsideradas meramente insaciáveis sexualmente; acreditava-se que eramcapazes de tornar um homem impotente e, até mesmo, de fazer seu pênisdesaparecer. O Malleus Maleficarum, o guia definitivo dos caçadores debruxas publicado em 1486, menciona uma mulher que roubou dezenas de pênise os escondeu em uma árvore onde viviam como pássaros em um ninho. Acrença do homem, nessa época, em sua integridade fálica era tão vacilanteque alguns ostentavam a braguilha sobreposta no gancho de seus calções,geralmente de cor viva e acolchoada, moldada na forma de uma ereçãopermanente. A primeira peça na armadura de um guerreiro , disse Rabelais.A lacuna entre o que esses soldados na batalha dos sexos anunciavam e querealmente existia revela muito a respeito da questão capital desseconflito que, através da História, foi freqüentemente fatal para asmulheres. Em 1536, o rei Henrique VIII, dono da braguilha mais volumosa daInglaterra, decapitou sua segunda esposa, Ana Bolena, antes cortesã, queele denunciou como feiticeira depois de perder o interesse sexual por elaou terá sido a capacidade de ereção?O que explica o sacrifício de Ana Bolena, de Anna Peppenheimer e de outrasmulheres, de classe social alta e baixa igualmente, que sofreram comoelas? A misoginia, em suas expressões sutis e bestiais, provavelmentefornece, de modo geral, a resposta. Porém, uma lente mais focada nospossibilita perceber em suas mortes a predominância de uma das forçasmotrizes a permanente obsessão cultural com o pênis, as inseguranças quegerava e o mal que poderia fazer. Percebemos como se tornou, através damistura da fantasia exaltada e da insegurança obsessiva, o agente datransferência do mal. Resumindo, a vara do demônio.Como o pênis passou a ser tão demonizado? Hoje, quando até mesmo homens do
 
clero casados tomam drogas para ereção prescritas por seus médicos, édifícil dar crédito à idéia de que o homem percebia o seu órgão definidorcomo uma ferramenta do Diabo. Ninguém nasceu acreditando nisso. Mas háalgo na mente do homem ocidental, um desconforto em relação ao seu pênisuma palavra aqui definida não meramente como a haste e a glande, masabrangendo os testículos, o esperma e outras partes e produtos dagenitália masculina que o torna receptivo a essa distorção. Para contarcomo essa relação passou a ser vista como corrupta, temos de conversar comos mortos. Um diálogo só é possível se percebermos o mundo como elespercebiam.Os sacerdotes e políticos que perseguiram Anna Pappenheimer não viam ocorpo como um templo. Para eles, era um vasilhame insignificante para umagororoba de processos vis sexo, defecação, urina e vômito que estavamconstantemente em erupção. O mais obsceno desses eflúvios era o sêmen; opênis era a gargaleira poluída através da qual emergia. Essas idéias,propagadas pelos pais da Igreja, foram concebidas mais de mil anos antesde os cientistas compreenderem a fisiologia da ereção, mais de mil anosantes de uma célula de espermatozóide ser vista por um microscópio, maisde mil anos antes de qualquer compreensão detalhada da biologia do sexo. Omesmo abismo também aguardava uma discussão da libido ou do inconsciente,inveja do pênis ou ansiedade da castração. Todo comportamento sexualparecia um mistério. No centro desse enigma estava o pênis e, como muitosmistérios, este era considerado sinistro.A idéia cristã da gargaleira poluída foi um esforço para definir o que nãopodia ser definido, para entender a lei universal por trás da relação dohomem com o seu pênis e as questões de controle que levantava. Um homempode manter a virilidade em suas mãos, mas quem está, de fato, segurando oquê? É o pênis o melhor no homem ou o bestial? É o homem que controla oseu pênis ou seu pênis o controla? Como deve usá-lo? E quando esse uso setorna abuso? De todos os órgãos físicos, somente o pênis obriga o homem aenfrentar tais contradições: algo insistente, ainda que relutante,ocasionalmente poético, outras vezes patético; uma ferramenta que cria,mas também destrói; uma parte do corpo que, com freqüência, pareceseparada do corpo. Este é o enigma que torna o pênis herói e vilão em umdrama que molda todo homem. E a humanidade.Agostinho, o bispo de Hipona, encontrou a sua resposta, 16 séculos atrás,na falta de controle do homem. Uma prova da alienação do homem com relaçãoao sagrado, e um castigo pelo insulto de Adão a Deus no Éden, era o fatode o pecado original passar de uma geração a outra através do sêmen. Emuma cultura em que a Virgem simbolizava tudo que era puro, o pênisrepresentava tudo que era maléfico. O que definiu a santidade de Maria foia sua falta de contato com um pênis.Por mais desagradável que o órgão masculino pudesse ser, não era

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