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O serviço público de televisão numa perspectiva de fim de século
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(Textode 1989)
Francisco Rui Cádima
Importantes ensinamentos têm sido colhidos nos laboratórios que dãopelo nome de sistema audiovisual italiano e de sistema audiovisual francês. Defacto, o conhecimento da forma como têm evoluído os sistemas italiano efrancês, bem como os dados que nos o chegando relativos a outrossistemas, como por exemplo o inglês e, de um modo menos relevante, oespanhol, conduzem-nos a conclues de alguma forma inesperadasrelativamente às expectativas que tinham vindo a ser geradas: veja-se, por exemplo, a crise existente nas diversas paisagens audiovisuais públicas e asnecessárias medidas de emagrecimento do sector que m vindo a sepropostas. Veja-se ainda a forte concorrência que se avizinha com os sistemasde compressão de sinal, que permitirão a entrada na espaço europeu decentenas de canais, provenientes dos Estados Unidos da América... Vejam-se,finalmente, as propostas de liberalização dos sectores do audiovisual e dastelecomunicações, algumas delas com origem na própria Comissão Europeia,que poderão reconfigurar as grandes estratégias previstas no início da décadapara a Europa, nomeadamente no que se refere à questão "proteccionista" dasquotas de programas europeus.Vejamos, para já, como têm evoluído, no essencial, os serviços públicosde televisão da Europa do Sul, na tentativa de caracterizar, de uma forma maisaproximada à realidade histórica, um processo de mudaa sobre cujacomplexidade é imperioso reflectir.
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Publicado inicialmente na RCL nº 9 (1989), foi posteriormente actualizado como capítulo do livro
O Fenómeno Televisivo
, Lisboa, Círculo de Leitores, 1995.1
 
Em primeiro lugar, o caso francês. Poder-se-ia pensar que a questão dasestratégias público/privado é algo que se tem vindo a verificar apenas na fasede declínio da televisão enquanto monopólio de Estado, e nomeadamente empaíses da Europa do Sul como a Itália e a França. Nada mais falso.Considerando o caso francês, por exemplo, datam dos anos 20 as primeiraspolémicas em torno da questão dos estatutos dos então chamados postos deTSF. Os debates eram, por essa altura, bem mais intensos e calorosos... Mas,indo um pouco mais atrás na história, seria possível ver, quer no serviço postal,quer nas primeiras gazetas, quer no telégrafo, modelos de organismos com umestatuto típico de monopólio de Estado.A primeira lei publicada em França relativa à radiodifusão, com data de 3de Março de 1917, apoiava-se sobre legislação de 1837 e de 1851 para justificar a obrigatoriedade dos particulares requererem autorização parapostos radioeléctricos, não estando sequer em dúvida que o monopólio datransmissão de sinais continuaria sob a alçada do Estado. Mas as autorizaçõesacabavam por ser dadas e, no princípio dos anos 20, três estações de rádioprivadas difundem já com uma certa regularidade as suas emissões na regiãode Paris, muito embora os anos subsequentes trouxessem constantesdificuldades aos proponentes de novos postos.Outra questão não menos importante, no caso francês, era o eternoproblema da apropriação que as forças políticas dominantes de então faziamdas rádios nacionais: em 1932, por exemplo, o então presidente do Conselho,André Tardieu, de centro-direita, era acusado por Léon Blum de manipular arádio em seu benefício, em plena campanha eleitoral para as legislativas:
«OSr. Tardieu, através de um insensato golpe arbitrário que, num outro país queo a França provocaria um esndalo insustentável, apropriou-se domonopólio da rádio (...). Não tendo nós um posto de emissão, é-nos interditode nos servirmos da telefonia: em França, a rádio pertence ao governo e à
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reacção»
1
. Pouco depois, no entanto, era a Frente Popular a receber o mesmotipo de críticas, nomeadamente o ministro dos PTT, Robert Jardillier, dogoverno socialista de então...Uma panomica mais pida, no entanto, sobre a queso daliberalização em França, levar-nos-ia a concluir que algumas datas são derefencia inevitável para nos interrogarmos se de facto se assistiuposteriormente «
à atenuação progressiva da dominação aparente do Estado eà desagregação por etapas da estrutura unitária do serviço público
», comodefendeu Jean Autin
2
. De qualquer modo, em 1935, as nomeões, poexemplo, dos comentadores políticos e ecomicos ainda são feitas peloministro da tutela; e, em 1938, Jardillier impõe o controlo governamental dainformação radiofónica. Durante o período da guerra, obviamente que ascondições de controlo seriam agravadas: em 1941, os postos privados sãoautorizados mas submetidos ao controlo dos seus conteúdos; e, em 1944, sãorequisitados os locais, instalações e materiais das empresas privadas deradiodifusão. Com o final da guerra, todas as autorizações anteriores de postosprivados são revogadas.No que diz respeito à televio propriamente dita, a guerra tinhainterrompido as primeiras experiências do estúdio da Rua Grenelle, com cercade quinze horas de programas por semana para cerca de 100 receptores, boaparte deles instalados em lugares públicos. No pós-guerra, regressam asemissões experimentais e, a partir de Outubro de 1947, a programação passaa ser regular com 12 horas de programas por semana. Em Outubro de 1949, oJT - Jornal Televisivo passa a diário e a década de 50 começa sem que hajaainda um emissor regional, e com um parque de receptores de 3794 unidades.
1
Jean-Noel Jeanneney,
 Échec a Panurge - L'audiovisuel au service de la différence
, Paris, Éditions duSeuil, 1986, p. 62.
2
Jean Autin, "Les organismes français de service publique face a l'avenir",
 Revue de l'UER
, vol. XXXV,nº 5, Septembre, p.37.3
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