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Para a história do pluralismo na RTP: Análise de deliberações e estudos da AACSe da ERC
Francisco Rui Cádima
O comentário político e o pluralismo político-partidário na informação do serviço público de televisão (RTP) têm merecido por parte dos reguladores da comunicaçãosocial – AACS e ERC – alguma atenção nos últimos anos. Propomo-nos nestacomunicação fazer uma análise do conjunto das deliberações e estudos produzidos sobreesta matéria, a fim de concluirmos sobre a aplicação do conceito e sobre as práticas do pluralismo em Portugal por parte do serviço público, ao longo designadamente do período 2002-2008.
Pluralismo e concentração
É sabido que a noção tradicional de pluralismo nos remete, naturalmente, para o campoclássico dos media, numa leitura que todos concordaremos que está hoje ultrapassada. Aquestão não é tanto obter a concordância sobre se existiu ou não essa mudança de paradigma. É, sobretudo, caracterizar o conteúdo dessa mudança e, desde logo, a própria evolução do conceito de pluralismo. De facto, como definir hoje o pluralismo,no contexto de transição dos media clássicos para os novos media? É isso que vamostentar estruturar nesta introdução ao tema.Vejamos então como definir o conceito de pluralismo num quadro epistemológicocoerente, pensando ainda no exercício prático da sua monitorização e em funçãotambém do enquadramento legal. Num primeiro momento, o pluralismo é interpretadono contexto dos mercados de media e é associado à lei do controlo da concentração,controlo que é exercido pela Comissão Europeia para as operações a nível comunitárioe, a nível nacional, no caso português, por três entidades reguladoras, ou seja, pelosreguladores da concorrência, das comunicações e da comunicação social.A dita “preservação do pluralismo” é, nesta primeira instância, como que filtrada atravésde um conjunto de normas específicas para controlar a fusão de meios de comunicaçãonuma dimensão simultaneamente sectorial e intersectorial, e isto levando prioritariamente em linha de conta a função que os media desempenham, em particular na formação da opinião pública. Pelo que, dizer que se pretende salvaguardar o pluralismo nos media, corresponde vulgarmente a dizer, à partida, e segundo oinstituído, que está posto em prática um dispositivo normativo de “não-concentração”,como o legislador português prefere enunciar. No caso português, em termos mais recentes, foi aprovada na Assembleia da República,a 3 de Outubro de 2008, a “Lei do pluralismo e da não concentração nos meios decomunicação social”, proposta pelo Governo
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,procurando dar resposta ao preceito
*
Departamento de Ciências da Comunicação (FCSH-UNL)
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O diploma foi aprovado no Parlamento português a 3 de Outubro de 2008, com os votos favoráveis damaioria do Partido Socialista e os votos contra de todos os partidos da oposição, seguindo-se a suadiscussão na especialidade na18.ª Comissão da Assembleia da República, enviado depois ao Presidente da
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constitucional que advoga genericamente que é imperativo do Estado assegurar aindependência dos órgãos de comunicação social perante o poder político e económico eimpedir a concentração das empresas de media, bem como a divulgação da titularidadee dos meios de financiamento dos órgãos de comunicação social.
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É curioso constatar o factor “não meramente económico”, enunciado, ainda quetimidamente, nos “motivos” da proposta de Lei em apreço: assim, o executivo
“partindo da constatação de que o segmento dos meios de comunicação social, fundamental para o funcionamento da democracia, não constitui um mercadomeramente económico, carecendo de uma abordagem legislativa autónoma ecomplementar face às leis da concorrência, assume como objectivo central a defesa e promoção do pluralismo de expressão e da independência nos meios de comunicação social face ao poder político e económico.”
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Estamos, portanto, no centro da questão: defesa e promoção do pluralismo de expressãono quadro de um mercado que não é, claramente, tal como assumido pelo legislador,“meramente económico”. Vamos tentar ver como é que a proposta de Lei vai aoencontro desse desígnio maior, por assim dizer, e se é ou não consequente relativamentea esse princípio fundamental para a cidadania.Identifica-se, desde logo, que é à ERC que cabe a competência de monitorização das“fugas” ao sistema estabelecido: Será a ERC a
«participar, em articulação com a Autoridade da Concorrência, na determinação dos mercados economicamenterelevantes no sector da comunicação social; pronunciar-se, nos termos da lei, sobre asaquisições de propriedade ou práticas de concertação das entidades que prosseguemactividades de comunicação social; proceder à identificação dos poderes de influência sobre a opinião pública, na perspectiva da defesa do pluralismo e da diversidade, podendo adoptar as medidas necessárias à sua salvaguarda».
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Esta questão dos poderes de influência merece-nos um comentário específico, que nos parece decisivo não só para o quadro legal, como para o enquadramento e metodologiade monitorização. O facto é que há poderes de influência não somente quando há abusode posição dominante, mas também quando o não havendo se verificar existir discriminação das vozes autónomas e de elevada competência da sociedade civil e, portanto, não apenas quando haja distribuição equitativa de tempo de emissão entre asvozes do espectro político-partidário.Sabemos, pelos motivos da Lei em presença, que cabe à ERC estruturar 
“um conjuntode indicadores legais passíveis de aferir o risco da operação de concentração, ou deuma prática proibida, quando justificável, para o pluralismo ou independência”
no
República para promulgação, que não promulgou. Regressado à AR, o diploma seria finalmente aprovadocom algumas alterações em 15 de Abril de 2009, e na especialidade em 22 de Abril, pela comissão parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura (o texto aqui seguido é o da primeira aprovação, dado acomunicação ter sido apresentada ao VI Congresso da Sopcom a 17 de Abril).
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Cf. n.º s 3 e 4 do artigo 38.º e alíneas b) e c)
 
do n.º 1 do artigo 39.º da Constituição daRepública Portuguesa.
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“Proposta de lei do pluralismo e não concentração nos meios de comunicação social”- Exposição de Motivos. Proposta aprovada em Conselho de Ministros de 19 de Junho de 2008.
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Cf. alíneas o), p) e q) do n.º 3 do artigo 24.º dos Estatutos da ERC aprovados pela Lein.º 53/2005, de 8 de Novembro.
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sentido de aferir do eventual não cumprimento, pelas empresas, das suas obrigaçõeslegais em matéria de pluralismo e independência.Mas qual é exactamente, para o legislador, a “matéria de pluralismo e independência”.Vamos tentar perceber: poderão ser à partida questões relativas à
“identificação dos poderes de influência sobre a opinião pública”
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;
“consequências da eventual concentração de audiências em torno de um só grupo de comunicação”
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, que num período de seis meses, as quotas de circulação ou audiência não podem ser iguais ousuperiores a 50%; e em matéria de independência na área da informação, retomando princípios estabelecidos no Estatuto do Jornalista, referindo que
“a orientação dosórgãos de comunicação social deve ser definida de forma genérica através do estatutoeditorial, ficando vedada a intervenção ou intromissão de pessoa que não exerça cargode chefia ou direcção na área da informação nos conteúdos de natureza informativa”
.
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Digamos que estamos ainda longe do problema essencial, que é a própria definição doconceito. Realmente, face a esta “exposição de motivos” ficamos perplexos face a umaausência substantiva de definição de “Pluralismo”. E mais perplexos ficamos quando noArtigo 1.º - “Objecto e finalidade”, se diz que
“1 - A presente lei promove o pluralismo,a independência perante o poder político e económico, a divulgação da titularidade e anão concentração nos meios de comunicação social”
, sem que essa definição surja demodo taxativo. Mais perplexos ficamos quando no Artigo 2.º - ele próprio intitulado“Definições”, nada volta a constar especificamente sobre o conceito de “Pluralismo”.Há, entretanto, um ponto de grande relevância, neste novo quadro, que é exactamente odomínio do
online
.
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Como se pode ver, no Artigo 3.º- “Âmbito de aplicação”, diz-se queestão sujeitos às regras estabelecidas na presente lei as pessoas e empresas que
“editem publicações periódicas, independentemente do suporte de distribuição que utilizem”
, bem como os
“operadores de rádio e de televisão, relativamente aos serviços de programas que difundam ou aos conteúdos complementares que forneçam, sob suaresponsabilidade editorial, por qualquer meio, incluindo por via electrónica”
, bemcomo, ainda,
“as pessoas singulares ou colectivas que disponibilizem regularmente ao público, através de redes de comunicações electrónicas, conteúdos submetidos atratamento editorial e organizados como um todo coerente”
.
9
Onde aparece algo mais específico relativamente ao conceito de “Pluralismo” é naSecção II, intitulada “Da intervenção da ERC no âmbito da concorrência”, onde, noArtigo 18.º, sobre a questão do “Parecer vinculativo”, se diz que (1) tal parecer só évinculativo
“quando verifique existir fundado risco para o pluralismo ou para aindependência perante o poder político ou económico”
e (2) que a ERC deve proceder àverificação respectiva designadamente em matéria de
“a) Existência de expressão econfronto das diversas correntes de opinião; b) Respeito pelo direito de constituição deconselhos de redacção ou por outras formas legítimas de intervenção dos jornalistas na
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“Proposta de lei do pluralismo e não concentração nos meios de comunicação social”- Exposição de Motivos, p. 3.
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Idem, p. 4.
7
Ibidem, p. 4.
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De qualquer modo, de acordo com o Artigo 23.º, nº 4, “Quando as empresas destinatárias das medidasde salvaguarda ofereçam redes e serviços de comunicações electrónicas, a decisão final da ERC deve ser  precedida de parecer obrigatório, mas não vinculativo, por parte da autoridade reguladora dascomunicações.”
9
“Proposta de lei do pluralismo e não concentração nos meios de comunicação social”, p. 8.
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