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EURICO, OPRESBÍTERO
  Alexandre Herculano
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Eurico, o Presbítero [1844]Alexandre Herculano [1810-1877]Versão para eBookeBooksBrasil.comFonte Digital Original:A Biblioteca Virtual do Estudante BrasileiroA Escola do Futuro da Universidade de São Paulowww.bibvirt.futuro.uspDigitalizado por Paula Regina Cícero YortCapa: Estátua de Palayo em CavadongaMontagem eBooksBrasilCopyrightDomínio Público
 
ÍNDICE
O Autor
 
Prólogo do Autor
 
I – Os Visigodos
 
II – O Presbítero
 
III – O Poeta
 
IV – Recordações
 
V – A Meditação
 
VI – Saudade
 
VII – A Visão
 
VIII – O Desembarque
 
IX – Junto de Crissus
 
X – Traição
 
XI – Dies Irae
 
XII – O Mosteiro
 
XIII – Covadonga
 
XIV – A Noite do Amir
 
XV – Ao Luar
 
XVI – O Castro Romano
 
XVII – A Aurora da Redenção
 
XVIII – Impossível!
 
XIX – Conclusão
 
Notas
 
 
O Autor
 
ALEXANDRE HERCULANO
de Carvalho e Araújo [1810-1877], escritor português, foi partidário doliberalismo, tendo que se exilar na França em 1831, durante o reinado de D. Miguel. Em 1832, voltou aPortugual, para combater, ao lado de D. Pedro pela causa liberal.Com Almeida Garret e Castilho, inaugurou o Romantismo em Portugal.Os estudos, iniciou-os com os oratorianos, tendo que interrompê-los por falta de recursos, o quenão o impediu de, como autodidata, ser um dos maiores intelectais de sua época.Casou-se aos 57 anos de idade, quando afastou-se das atividades políticas, recolhendo-se à suaquinta de Vale dos Lobos, onde faleceu dez anos depois. Seus restos mortais jazem no Mosteiro dosJerônimos.Iniciou suas atividades literárias em 1833, colaborando com periódicos.Em 1836, pubicou
 A Voz do Profeta
, livro de prosa político-poética. Seu primeiro livro de poesiasfoi
 A Harpa do Crente
, publicado em 1838.Intenso pesquisador da História de Portugal e, crítico que foi das lendas de cunho religioso àsquais contrapunha a verdade histórica, não raras vezes entrou em conflito com o clero.Dentre suas obras, destacam-se
 A História de Portugal
[1846/1853 – 4 volumes],
 História daOrigem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal
[1854/59 – 3 volumes],
Estudos Sobre oCasamento Civil
[1866],
Eurico, o Presbítero
[1844],
O Monge de Cister 
[1848],
O Bobo
[1878] e
Portugaliae Monumenta Historica
, compilação de textos medievais, publicados a partir de 1856.
Eurico,o Presbítero
Alexandre Herculano
Prólogo do Autor
Para as almas, não sei se diga demasiadamente positivas, se demasiadamente grosseiras, o celibatodo sacerdócio não passa de uma condição, de uma fórmula social aplicada a certa classe de indivíduoscuja existência ela modifica vantajosamente por um lado e desfavoravelmente por outro. A filosofia docelibato para os espíritos vulgares acaba aqui. Aos olhos dos que avaliam as coisas e os homens só pelasua utilidade social, essa espécie de insulação doméstica do sacerdote, essa indireta abjuração dos afetosmais puros e santos, os da família, é condenada por uns como contrária ao interesse das nações, comodanosa em moral e em política, e defendida por outros como útil e moral. Deus me livre de debatermatéria tantas vezes disputada, tantas vezes exaurida pelos que sabem a ciência do mundo e pelos quesabem a ciência do céu! Eu, por minha parte, fraco argumentador, só tenho pensado no celibato à luz dosentimento e sob a influência da impressão singular que desde verdes anos fez em mim a idéia dairremediável solidão da alma a que a igreja condenou os seus ministros, espécie de amputação espiritual,em que para o sacerdote morre a esperança de completar a sua existência na terra. Suponde todos oscontentamentos, todas as consolações que as imagens celestiais e a crença viva podem gerar, e achareisque estas não suprem o triste vácuo da soledade do coração. Dai às paixões todo o ardor que puderdes,aos prazeres mil vezes mais intensidade, aos sentidos a máxima energia e convertei o mundo em paraíso,mas tirai dele a mulher, e o mundo será um ermo melancólico, os deleites serão apenas o prelúdio dotédio. Muitas vezes, na verdade, ela desce, arrastada por nós, ao charco imundo da extrema depravação
 
moral; muitíssimas mais, porém, nos salva de nós mesmos e, pelo afeto e entusiasmo, nos impele aquanto há bom e generoso. Quem, ao menos uma vez, não creu na existência dos anjos revelada nosprofundos vestígios dessa existência impressos num coração de mulher? E por que não seria ela na escalada criação um anel da cadeia dos entes, presa, de um lado, à humanidade pela fraqueza e pela morte e, dooutro, aos espíritos puros pelo amor e pelo mistério? Por que não seria a mulher o intermédio entre o céue a terra?Mas, se isto assim é, ao sacerdote não foi dado compreendê-lo; não lhe foi dado julgá-lo pelos milfatos que no-lo têm dito a nós os que não juramos junto do altar repelir metade da nossa alma, quando aProvidência no-la fizesse encontrar na vida. Ao sacerdote cumpre aceitar esta por verdadeiro desterro:para ele o mundo deve passar desconsolado e triste, como se nos apresenta ao despovoarmo-lo daquelaspor quem e para quem vivemos.A história das agonias íntimas geradas pela luta desta situação excepcional do clero com astendências naturais do homem seria bem dorolosa e variada, se as fases do coração tivessem os seusanais como os têm as gerações e os povos. A obra da lógica potente da imaginação que cria o romanceseria bem grosseira e fria comparada com a terrível realidade histórica de uma alma devorada pelasolidão do sacerdócio.Essa crônica de amarguras procurei-a já pelos mosteiros quando eles desabavam no meio dasnossas transformações políticas. Era um buscar insensato. Nem nos códices iluminados da Idade Média,nem nos pálidos pergaminhos dos arquivos monásticos estava ela. Debaixo das lájeas que cobriam ossepulcros claustrais havia, por certo, muitos que a sabiam; mas as sepulturas dos monges achei-as mudas.Alguns fragmentos avulsos que nas minhas indagações encontrei eram apenas frases soltas e obscuras dahistória que eu buscava debalde; debalde, porque à pobre vítima, quer voluntária, quer forçada aosacrifício, não era lícito gemer, nem dizer aos vindouros: – “Sabei quanto eu padeci!”E, por isso mesmo que sobre ela pesava o mistério, a imaginação vinha aí para suprir a história. Daidéia do celibato religioso, das suas conseqüências forçosas e dos raros vestígios que destas achei nastradições monásticas nasceu o presente livro.Desde o palácio até a taberna e o prostíbulo, desde o mais esplêndido viver até o vegetar dovulgacho mais rude, todos os lugares e todas as condições têm tido o seu romancista. Deixai que o maisobscuro de todos seja o do clero. Pouco perdereis com isso.O
 Monasticon
é uma intuição quase profética do passado, às vezes intuição mais dificultosa que ado futuro.Sabeis qual seja o valor da palavra monge na sua origem remota, na sua forma primitiva? É o de –só e triste.Por isso na minha concepção complexa, cujos limites não sei de antemão assinalar, dei cabida àcrônica-poema, lenda ou o que quer que seja [1] do presbítero godo: dei-lha, também, porque opensamento dela foi despertado pela narrativa de certo manuscrito gótico, afumado e gasto do roçar dosséculos, que outrora pertenceu a um antigo mosteiro do Minho.O
 Monge de Cister 
, que deve seguir-se a
Eurico
, teve, proximamente, a mesma origem.
 Ajuda – novembro de 1843.
 
I – OS VISIGODOS
A um tempo toda a raça goda, soltas as rédeas do governo, começou a inclinar o ânimo para a lascívia esoberba.Monge de Silos –
Chronicon
, c. 2.A raça dos visigodos, conquistadora das Espanhas, subjugara toda a Península havia mais de umséculo. Nenhuma das tribos germânicas que, dividindo entre si as províncias do império dos césares,tinham tentado vestir sua bárbara nudez com os trajos despedaçados, mas esplêndidos, da civilizaçãoromana soubera como os godos ajuntar esses fragmentos de púrpura e ouro, para se compor a exemplode povo civilizado. Leovigildo expulsara da Espanha quase que os derradeiros soldados dos imperadoresgregos, reprimira a audácia dos francos, que em suas correrias assolavam as províncias visigóticasd’além dos Pireneus, acabara com a espécie de monarquia que os suevos tinham instituído na Galécia eexpirara em Toletum [2], depois de ter estabelecido leis políticas e civis e a paz e ordem públicas nosseus vastos domínios, que se estendiam demar a mar e, ainda, transpondo as montanhas da Vascônia,
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