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Hugo de Brito Machado Segundo
*
Sumário: 1. Introdução. 2. Idéias fundamentais de “UmaTeoria da Justa”. 3. Amartya Sen e a crítica aoutilitarismo. 4. A igualdade e o papel das liberdades. 5.Conclusões.
Resumo:
Este trabalho visa a examinar o acolhimento de pontos do pensamento de John Rawls por parte deAmartya Sen. Não obstante adote a idéia de uma teoriamaterial da justa, inspirada na justa distributivaaristotélica, Sen procede a importante aperfeiçoamento nasidéias de Rawls, quando propõe a alteração do critério“rendaou “utilidades”, no julgamento do grau dedesigualdades de uma sociedade, pelo critério “liberdade”.
Palavras-chave:
Liberalismo igualitário. Liberdade. JohnRawls. Amartya Sen.
Abstract:
The aim of this paper is to analise the adoptionof John Rawls ideas by Amartya Sen. Although embraces amaterial theory of justice, inspired by Aristoteliandistributive justice, Sen perform an importantenhancement in Rawls' ideas, when propose themodification of the standard used to avaluate theinequality of a society. Instead of the income, property,goods or utilities, Sen uses liberty.
Key-words:
Egalitarian liberalism. Liberty. John Rawls.Amartya Sen.
1. Introdução
John Rawls exerceu e ainda exerce grande influência no âmbito da Teoria do Direito eda Teoria Política, inicialmente nos países anglófonos, e, em seguida, em muitos outros, por haver proposto uma teoria da justa de cunho substancial e normativo que veiculaimportantes críticas ao utilitarismo.
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 Substancial, porque preconiza não apenas formas ou procedimentos a serem adotados na construção das instituições de uma sociedade, mas indica
*
Advogado. Mestre em Direito pela UFC. Doutorando em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza(Unifor). Membro do ICET – Instituto Cearense de Estudos Tributários. Professor de Processo Tributário da pós-graduação da Unifor. Professor da Faculdade Christus, e da Faculdade Farias Brito.
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RAWLS, John.
Uma teoria da justiça.
Tradução de Jussara Simões. São Paulo: Martins Fontes, 2008,
 passim.
1
 
os resultados a que devem conduzir. E normativa, porque não se limita a descrever asinstituições tal como são, preconizando, ao revés, como devem ser.Como invariavelmente acontece com teóricos do Direito – ou de qualquer outro ramodo conhecimento – que se destacam, Rawls teve suas idéias examinadas por autores de todo omundo, o que lhe propiciou um importante grupo de seguidores fiéis, e de críticos acerbos,havendo entre eles uma diversidade de variações compostas por aqueles que acolhem em parte as idéias expostas em
Uma teoria da justiça
(TJ), propondo-lhes, contudo, modificaçõesou aperfeiçoamentos.Um dos autores que talvez esteja nessa zona intermédia, de críticos que acolhem parcialmente as idéias de Rawls, é Amartya Sen, economista indiano laureado com o premio Nobel de economia em 1998. No presente texto, serão examinadas algumas idéias de Sen,naquilo em que podem ser consideradas como o acolhimento ou o aperfeiçoamento do pensamento de John Rawls.
2. Idéias fundamentais de “Uma Teoria da Justiça”
 Não é o propósito deste artigo oferecer uma síntese ou uma resenha do pensamento deJohn Rawls. Entretanto, para que se compreenda como algumas idéias de Amartya Senconvergem com o pensamento rawlsiano, às vezes o aperfeiçoando, é importante que seconheça um pouco das premissas sobre as quais se funda o TJ.Ao abordar o tema da justiça, Rawls não parece especificamente preocupado comcomportamentos individuais, aferindo se esta ou aquela conduta seria ou não contrária aimperativos éticos ou morais. A tônica de sua teoria está nas instituições, por entender que
o objeto principal da justiça é a estrutura básica da sociedade, ou, mais precisamente,o modo como as principais instituições sociais distribuem os direitos e os deveresfundamentais e determinam a divisão das vantagens decorrentes da cooperaçãosocial.
2
Para que se saiba se uma sociedade é justa, Rawls propõe a idéia de um contratosocial, hipotético, que seria firmado pelos membros da sociedade em uma posição original. Nessa posição original, os membros da sociedade não teriam conhecimento das posições queocupariam na sociedade a ser constituída, ou das habilidades e das preferências que teriam,
2
RAWLS, 2008, p. 8.2
 
encobertos por um “véu de ignorância” destinado a fazer com que suas escolhas fossem omais imparciais e objetivas possíveis.
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Rawls considera que, em tal posição original, pessoas racionais não escolheriamorganizar a sociedade a partir de idéias utilitaristas, vale dizer, não organizariam a sociedadecom a preocupação ou o propósito de maximizar a felicidade ou a satisfação dos prazeres deum maior número de pessoas. Neste ponto, TJ faz forte e bem fundada crítica ao utilitarismo,que, segundo ali se demonstra, pode conduzir a resultados absurdos.Um dos problemas destacado por Rawls no utilitarismo reside na dificuldade de semensurar a felicidade ou a satisfação, pois as pessoas têm idéias diferentes a respeito do queas faz felizes ou lhes dá satisfação ou prazer.
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Daí porque Rawls afirma que “o utilitarismonão leva a sério a distinção entre as pessoas.”
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O maior defeito do utilitarismo, como se aponta em TJ, é que, para quem o adota, nãohá, em princípio “por que os ganhos maiores de alguns não possam compensar as perdasmenores de outros; ou, o que é mais importante, por que a violação da liberdade de poucosnão possa ser justificada pelo bem maior compartilhado por muitos.”
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Assim, se, para trazer uma maior felicidade para um grande número de pessoas, for necessário tornar infeliz oumesmo sacrificar inteiramente um pequeno número, isso seria legítimo, fazendo com que outilitarismo, em princípio atraente, torne-se doutrina perigosa e atentatória à dignidadehumana. Por essa razão, “um homem racional não aceitarua uma estrutura básica só porqueeleva ao máximo a soma algébrica de vantagens, fossem quais fossem as conseqüências permanentes dessa estrutura sobre seus próprios direitos e interesses fundamentais.”
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Como alternativa ao utilitarismo, Rawls propõe que a sociedade e as suas instituiçõessejam organizadas de sorte não a propiciar felicidade ou satisfação ao maior número, mas sima distribuição das vantagens sociais e econômicas, calcada nos seguintes princípios, queseriam aqueles escolhidos por pessoas racionais situadas no âmbito da mencionada“posição original”:
Primeiro: cada pessoa deve ter um direito igual ao sistema mais extenso de iguaisliberdades fundamentais que seja compatível com um sistema similar de liberdades para as outras pessoas.
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RAWLS, 2008, p. 14.
4
RAWLS, 2008, p. 30.
5
RAWLS, 2008, p. 33.
6
RAWLS, 2008, p. 32.
7
RAWLS, 2008, p. 17.3
of 00

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