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É
APROPRIADO
 
FALAR 
-
SE
 
EM
 
UMA
DOGMÁTICA
 
JURÍDICA
”?
Hugo de Brito Machado Segundo
*
Introdução
Textos escritos em torno do Direito, no Brasil e no exterior, utilizam com alguma freqüênciaa expressão
dogmática,
 para com ela designar o estudo do Direito, ou de parte dele. É curioso que amesma expreso o seja empregada pelos que escrevem a respeito de outras áreas doconhecimento, como a biologia, a química ou a física. Só em textos dedicados à fé religiosa o seuuso se verifica com igual habitualidade.
1
Dos muitos que o empregam, contudo, poucos autores explicam o seu significado, ou arazão pela qual sua utilização seria necessária. Por outro lado, os que dizem estar se ocupando dadogmática jurídica, ou do conhecimento da dogmática do direito (constitucional, civil, penal,tributário etc.), reclamam para suas reflexões, e para suas conclusões, o
 status
de científicas.Por essas razões, e tendo em vista a idéia contemporânea do que seja o conhecimentocientífico, parece adequado dedicar alguma atenção ao assunto. No curso de Doutorado em Direitoda Unifor, fomos incentivados pelo Professor Arnaldo Vasconcelos a examinar o tema, chegando a produzir pequeno estudo a respeito,
2
cujas principais idéias compõem este artigo. São idéias que, porque contrárias ao que tem irrefletidamente prevalecido na maior parte dos estudos de Teoria doDireito, talvez mereçam ainda maior difusão e debate, o que justifica seu trato, mais uma vez, aqui.
1. O que se entende por dogmática jurídica?
Do grande número de obras jurídicas que se reportam à dogmática jurídica, muito poucas se preocupam em explicar a razão de ser do uso dessa expressão. Talvez considerem que o seusignificado seja de todos conhecido, não sendo, por isso mesmo, submetido a uma análise crítica.Pelo contexto em que a invocam, contudo, pode-se deduzir que cuidam do conhecimento dasnormas jurídicas em vigor, que as descreve, em contraposição à chamada Teoria Geral do Direito,que se trataria de conceitos comuns aos vários ordenamentos jurídicos de diversos tempos e lugares,
*
Advogado, Mestre em Direito pela UFC. Doutorando em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza(Unifor). Membro do Instituto Cearense de Estudos Tributários. Professor de Processo Tributário da pós-graduação daUnifor, da Faculdade Christus e da Faculdade Farias Brito.
1
Cf.,
v.g.,
SCHNEIDER, Theodor. (org.).
Manual de dogmática,
2.ed., Petrópolis: Vozes, 2002, vols. 1 e 2.,
 passim.
2
MACHADO SEGUNDO, Hugo de Brito.
 Por que dogmática jurídica?
Rio de Janeiro: Forense, 2008.
 
sem ocupar-se de nenhum em particular, e especialmente à Filosofia do Direito, que trataria dequestões fundamentais ligadas à própria idéia de Direito. É o que se percebe nas palavras R 
AFAEL
 H
ERNÁNDEZ
M
ARÍN
, para quem “el estudio del Derecho desde el punto de vista
interno
es realizado por dos disciplinas jurídicas: una, la
dogmática jurídica
, en el plano científico; otra, la
teoría general del Derecho,
en el plano filosófico.”
3
Quanto ao sentido do termo dogmática como sendo o mesmo de ciência do Direito, M
ANUEL
 A
TIENZA
o confirma, ao dizer que “la dogmática viene a constituir algo así como el núcleo de laexpresión ‘ciencia del Derecho’.”
4
Através dela, se “parte de las leyes, de las normas jurídicas, emcuanto realidad ya dada para, sobre esta base, abordar problemas conectados con la interpretación yaplicación.”
5
Em resumo, o uso da expressão dogmática jurídica, quando é justificado, geralmente o écom a afirmação de que, como se trata da descrição de normas postas, o estudioso teria que delas partir necessariamente, não as podendo modificar. Seu papel seria descrever o direito que
é,
e nãoaquele que
deveria ser,
daí porque as normas seriam “dogmas” que não se poderiam modificar.
6
Os autores anteriormente mencionados, contudo, não fazem reflexão mais detida sobre osmotivos da eleição da palavra “dogmática”, que não é utilizada pelos que se ocupam de outras áreasdo conhecimento científico. R 
OBERT
A
LEXY
, em nota ao
Teoria da Argumentação
, reconhece que,“em vez de começar com a terminologia predominante e aquelas matérias designadas pelasexpressões ‘dogmática jurídica’ ou ‘dogmática legal’, poderíamos começar com uma análise dotermo ‘dogmática’, uma investigação sobre sua história e sua aplicação em outras disciplinas, particularmente a teologia.”
7
Logo em seguida, contudo, decepciona o leitor mais curioso,afirmando que “essas investigações só têm sentido quando são feitas em suficiente profundidade.Isso não pode ser feito aqui.”
8
Frise o leitor este aspecto: A
LEXY
não cuidará das razões pelas quais emprega o termo
3
MARÍN, Rafael Hernández.
 Introducción a la teoría de la norma jurídica,
2.ed., Madrid: Marcial Pons, 2002, p. 18.
4
ATIENZA, Manuel.
Contribución a una teoria de la legislación,
Madrid: Civitas, 1997, p. 16.
5
ATIENZA, Manuel.
Op. cit.
, p. 17. Muito semelhante é a explicão de A
LEXY
, para quem, na terminologiageralmente aceita, “‘juristic dogmatics’ or ‘legal dogmatics’ is taken to mean legal science in the narrower and proper sense, as it is actually pursued by them.” (ALEXY, Robert.
 A Theory of Legal Argumentation – The Theory of Rational  Discourse as Theory of Legal Justification
, tradução de Ruth Adler e Neil MacCormick, Oxford: Clarendon Press,1989, p. 250).
6
Nesse sentido, na doutrina brasileira: REALE, Miguel.
 Filosofia do Direito,
19.ed., São Paulo: Saraiva, 2000, p.160/161; FERRAZ JR. Tércio Sampaio.
 Introdução ao Estudo do Direito – Técnica, decisão, dominação,
3.ed., SãoPaulo: Atlas, 2001, p. 47/48; ADEODATO, João Maurício. A – 
 Ética e retórica – Para uma teoria da dogmática jurídica,
2.ed., São Paulo: Saraiva, 2006, p. 142/142.
7
ALEXY, Robert.
Teoria da Argumentação Jurídica – A Teoria do Discurso Racional como Teoria da Justificação Jurídica,
tradução de Zilda Hutchinson Schild Silva, São Paulo: Landy, 2001, p. 283.
8
ALEXY, Robert.
Teoria da Argumentação Jurídica – A Teoria do Discurso Racional como Teoria da Justificação Jurídica,
tradução de Zilda Hutchinson Schild Silva, São Paulo: Landy, 2001, p. 283.
2
 
“dogmática”, por serem elas muito profundas e impossíveis de serem feitas em seu livro. Esse dadoé relevante em face das justificativas – que adiante serão vistas – que outros autores dão paratambém tangenciar o assunto. De forma ousada, talvez até atrevida, tentaremos, nos itens seguintes,fazer a investigação à qual A
LEXY
se recusou. Pensamos que, mesmo sem a profundidade que eledecerto consideraria suficiente, o exame do assunto é necessário, e tem sentido: na pior dashipóteses, o de incentivar alguém mais capaz a fazê-lo melhor.
2. Análise crítica da dogmática jurídica
2.1. O que é ciência?
Pela pequena amostra trazida no item anterior, viu-se que os textos que empregam aexpressão
dogmática jurídica
reclamam para si, não raramente, a alcunha de
científicos.
Como estamos tratando, neste estudo, da adequação da expressão dogmática jurídica paradesignar a ciência jurídica, ou parte dela, talvez seja pertinente verificar no que consiste oconhecimento designado como científico. Trata-se, em suma, de um problema ligado à essência daciência jurídica, pelo que devemos começar a nossas indagações em torno dela.Quando se perquire a respeito de ciência, cogita-se de uma espécie ou modalidade doconhecimento humano, que pode decorrer simplesmente do senso comum, sendo chamadoconhecimento comum, ou pode ser científico. No primeiro caso, é “eminentemente prático eassistemático”, essencialmente empírico, regendo, como nota A
GOSTINHO
AMALHO
M
ARQUES
N
ETO
, a“maior parte das nossas ações diárias.”
9
O mesmo autor observa que o conhecimento científico, emcontrapartida, seria dotado de maior sistematicidade, consistência teórica e – esse dado é essencial – 
caráter autoquestionador 
.A epistemologia contemporânea não mais considera como características do conhecimentocientífico a objetividade, a neutralidade, a clareza e a certeza. De fato, hoje se entende que a ciênciaé essencialmente provisória, composta de teorias e enunciados considerados verdadeiros até que sedemonstre o contrário.Isso porque se reconhece, hoje, que o conhecimento se estabelece no âmbito de uma
relação
entre o sujeito que conhece, ou cognoscente, e o objeto a ser conhecido.
 Ao examinar o objeto, osujeito o faz através da imagem que vê dele, através de seus sentidos, e filtrada por sua pré-
9
MARQUES NETO, Agostinho Ramalho.
 A Ciencia do Direito – Conceito, Objeto, Método,
2.ed., Rio de Janeiro:Renovar, 2001, p. 44.
10
HESSEN, Johannes.
Teoria do Conhecimento.
7.ed., Tradução de Antonio Correia, Coimbra: Armênio Amado, 1978, p. 26.
3
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