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É
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IDEAS
Resumo:
 Neste
 
texto se procede ao exame de algumas idéias deTobias Barreto, para, a partir delas, aferir a possibilidade de seafirmar existente um pensamento constitucional autenticamente brasileiro. Constata-se a influência de idéias alienígenas noâmbito do pensamento local, que tem, não obstante, criatividadee autonomia, seja para adaptá-las à realidade local, seja para,independentemente ou antes de pensadores de outros países,criar soluções para problemas observados na realidade brasileira.
Palavras-chave:
Pensamento constitucional brasileiro. TobiasBarreto.
Abstract:
The purpose of this paper is to analyze some of Tobias Barreto´s ideas, and, from them, verify the existence of an authentic Brazilian constitutional thought. Theoriesconstructed in other countries have some influence on localtheories, which are, nevertheless, independent and autonomous,sometimes to adapt these ideas to local reality, or to create newsolutions to problems observed in Brazilian reality.
Keywords:
Brazilian constitutional thought. Tobias Barreto.
Hugo de Brito Machado Segundo
*
1. Introdução
 Não é raro, nem é de hoje, no Brasil, o gosto pelo que vem de fora. Talvez herança dostempos coloniais, em que as novidades da “civilização” vinham da metrópole,
1
essa realidade pode ser confirmada na preferência de muitos por produtos importados, sejam carros, queijos, bebidas, médicos, remédios, professores, músicos, poetas, escritores ou artistas. E o mesmotem sido observado em relação a teorias jurídicas, leis e decisões judiciais.
*
Advogado em Fortaleza. Mestre em Direito pela UFC. Doutorando em Direito Constitucional pelaUniversidade de Fortaleza – Unifor. Membro do ICET – Instituto Cearense de Estudos Tributários. Professor deProcesso Tributário da pós-graduação da Unifor. Professor de Direito Tributário da Faculdade Christus e daFaculdade Farias Brito. Conselheiro Seccional da OAB/CE (triênio 2007/2009). Email:hugosegundo@machado.adv.br .Blog: www.direitoedemocracia.blogspot.com.
1
Não se comporta nos limites deste texto, nem é o seu propósito, a perquirição de cunho histórico-sociológico arespeito das origens dessa preferência pelo alienígena. De qualquer sorte, a circunstância de virem as novidadesda metrópole não deve ser a sua verdadeira causa, eis que os Estados Unidos da América do Norte, igualmentecolonizados, revelam marcante preferência pelo que lá é feito, pensado e produzido, muitas vezes até ignorandoo que lhe é exterior.
 
Essa característica presente em nossa sociedade suscita, eno, o seguintequestionamento: pode-se falar em um pensamento constitucional brasileiro? Haveria, noBrasil, reflexão autêntica em torno dos problemas nacionais, e de como resolvê-los através doDireito, ou nosso pensamento jurídico seria apenas reflexo de idéias e pensamentos havidosno exterior? Neste texto, busca-se uma resposta para essa questão. Para isso, traçam-se algumaslinhas, inicialmente, a respeito da possibilidade, ou não, do surgimento de uma idéiainteiramente auntica e original. Em seguida, analisam-se algumas idéias de uma personalidade do cerio judico nacional, Tobias Barreto, que viveu no peodocompreendido entre a independência e a proclamação da república. Apenas ele é examinadonão porque sejam poucas as personalidades disponíveis para um exame frutífero, mas porquea amostragem por ele permitida pode já ser suficiente para que se responda à questão proposta.
2. A questão da originalidade das idéias
Antes de iniciar exame a respeito da existência, ou não, de idéias originais no Brasil, é preciso lembrar algo relacionado, de certa forma, com a questão do
livre arbítrio
e do
determinismo.
É o homem inteiramente livre, representando verdadeira exceção e quebra dasrelações de causa e efeito que dirigem o mundo, ou ele é inteiramente determinado – inclusiveem suas mais diversas condutas, aparentemente livres – pelos fatores que o cercam?Essa questão pode parecer não ter, mas tem, total pertinência com a indagação de se é possível falar-se em um pensamento constitucional brasileiro. Afinal, está relacionada com a possibilidade de, no Brasil, não obstante as “causas” representadas pelas teorias trazidas daEuropa e dos Estados Unidos, os “efeitos” delas resultantes serem diversos. Está ligada,também, ao fato de o homem, sendo – no todo ou pelo menos em parte – o produto do meioem que vive, ser conseqüentemente um produto tanto das teorias surgidas em outros lugares,que influenciam seu pensamento, mas também de outros fatores que interagem com essascausas para lhes atribuir efeitos diversos dos que teriam onde surgiram inicialmente. Na verdade, o homem é o único ser – observa Ernst Cassirer (1963:90) – quediferencia o real e o possível. Em suas palavras,
 Ni para los seres por debajo del hombre ni para los que se hallam por encima de él existe diferencia entre ‘lo real’ y ‘lo posible’. Los seres por debajo delhombre se hallan confinados dentro del mundo de su percepción sensible, sonsusceptibles a los estímulos físicos presentes y reaccionan a estes estímulos, pero no pueden formar la Idea de cosas ‘posibles’. Por otra parte, el intelecto sobrehumano,la mente divina no conoce distinción entre realidad y posibilidad.
A faculdade de distinguir o real e o possível, vale dizer, de pensar nos planosontológico e deontológico, diferencia o homem dos animais em geral, pois lhe confere aoportunidade de tentar, quando isto lhe é interessante, tornar 
real 
o
 possível.
Também é essa aorigem do livre-arbítrio, que decorre da circunstância de existirem várias possibilidades,cabendo ao homem, que as antevê, a escolha de uma delas. É o que Pontes de Miranda(2002:97) explica, por outras palavras, quando põe na
representação do futuro
a distinçãoentre o homem e os outros animais.2
 
Mais recentemente, o tema foi revisitado por Searle, em livro cuja edição espanholaconta com prefácio de Miguel Candel, (2005:19) para quem justamente
...esa combinatoria de impulsos que se abre ante la conciencia (ante ciertostipos de conciencia constructiva y capaz de anticipar experiencias
 posibles,
como laconciencia humana) consiste precisamente lo que llamamos libertad.
O fato de essa escolha ser influenciada por fatores externos à vontade não significaque ela não seja livre. Como há muito observa Tobias Barreto (2000:15), toda ação tem seusmotivos, e se se pretender que a liberdade só exista na razão inteiramente desprovida demotivos, somente reconhecerá livre aquele que nenhuma liberdade tem, que é o desprovido desanidade mental. Não se há de exigir, portanto, que uma idéia seja algo inteiramente divorciada de tudoo que já se disse e escreveu durante toda a História para que seja considerada autentica.Tratar-se-ia, nesse caso, não de algo decorrente da livre inteligência autóctone, mas, provavelmente, de verdadeira insanidade.Aliás, considerando-se que o conhecimento é, necessariamente, uma empreitada
coletiva,
é realmente muito difícil, para não se dizer impossível, que alguém tenha uma idéia,ou construa uma teoria, sem basear-se, no todo ou em parte, em noções, idéias e conceitos previamente estabelecidos por outras pessoas. A maior parte das idéias podem ter sua origemapontadas na Grécia antiga (VILLEY, 2003:65), sendo raras aquelas, pelo menos no campoda ciência política, como o federalismo e o sistema de freios e contrapesos, que podem ser consideradas verdadeiras contribuições da modernidade (BONAVIDES, 1995:180).Dessa forma, estando o jurista brasileiro, de hoje e de ontem, inserido em umarealidade, será, por natural, influenciado por ela. Nessa realidade, diga-se, estão as idéiaseventualmente colhidas em outros países e em outras épocas, mas também aqueles problemasda realidade local que podem fazer surgir novas idéias.Só isso já seria suficiente para sugerir, com bastante ênfase, a existência de um pensamento constitucional autenticamente brasileiro. Mas não só. Em se tratando do Direito,que se exprime atras de normas que o fruto da valoração de fatos, a atenção a peculiaridades locais faz-se ainda mais inafastável. Mas essa sugestão poderá eventualmenteser confirmada com o exame de um jurista brasileiro do Século XIX, que viveu no Nordeste enão fazia parte da elite de então. É do que cuida o item seguinte.
3. Tobias Barreto e o pensamento constitucional brasileiro
A personalidade que elegemos para análise um tanto mais detida, neste artigo, éTobias Barreto, sergipano nascido em Vila de Campos do Rio Real, em 7/6/1829 e falecidoem Recife, em 26/6/1889. E isso se deu por duas razões. A primeira foi a de que este autor foi bastante criticado por supostamente cultuar excessivo
 germanismo,
que para alguns – ele próprio o afirma – beirava a patologia, o que pode sugerir a importação, por parte dele, detudo o que se disse e produziu na Alemanha, sem maior originalidade. A segunda foi acircunstância de que, com ele, surgiu talvez a primeira “escola” jurídica no Brasil, a escola jurídica do Recife, que formou autores como Clóvis Beviláqua e Pontes de Miranda,exercendo inegável influência sobre o pensamento jurídico brasileiro no século subseqüente, oque merece ser analisado para que se verifique se nela havia algo de original e peculiar.3
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