As políticas de saúde, os movimentos sociais e a construção do Sistema Único de Saúde
Nina Rosa Ferreira Soares*Manoel Francisco Vasconcelos da Motta
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Neste século, a Política de Saúde no Brasil passou por profundas alteraçõespassando de simples assistência médica a direito à saúde. Madel Therezinha Luz apresentauma periodização para a história da República no Brasil, assim estabelecida: PrimeiraRepública (1890-1930), Período Populista (dos anos 30 aos anos 50), PeríodoDesenvolvimentista (anos 50 e 60), do Estado Militar (1964-1984) e da Nova República (1985-1989). A partir desta caracterização tentaremos mostrar como se deu a participação popular frente às mudanças ocorridas nestes períodos.Os serviços de saúde emergiram no Brasil, ainda no século XIX, apresentandouma organização precária, baseada na
polícia médica
,onde as questões de saúde eram aindade responsabilidade estritamente individual, cabendo ao indivíduo a atribuição de garantir suasaúde através do "bom comportamento", e às políticas públicas de saúde cabiam o controledas doenças epidêmicas, do espaço urbano e do padrão de higiene das classes populares.As três primeiras décadas deste século podem ser definidas como um período dehegemonia das políticas de saúde pública: "
modelo de atenção em saúde orientada predominantemente para o controle de endemias e generalização de medidas de imunização",
tida como ideologia campanhista, contextualizada pelas extensas repercussões sociais daspolíticas de defesa da renda do setor exportador cafeeiro, e pela pressão financeira do Estadosobre a circulação monetária, objetivando o controle das contas públicas.Ao analisarmos as políticas de saúde deste período percebemos que o modelo deatenção concentrava fortemente as decisões, em geral tecnocráticas e, também, adotava umestilo repressivo de intervenção, favorecendo o surgimento e a consolidação de uma estruturaadministrativa centralista, tecnoburocrática e
corporativista
,
dificultando a participação dapopulação nas questões pertinentes à política de saúde.Paralelamente às medidas repressivas as ações sanitárias recorreram a meiosdissuasórios, através de
Conselhos ao Povo
, publicados na imprensa e em folhetos avulsos,sobre os meios de evitar a doença. Ao mesmo tempo foi constituída a brigada contra osmosquitos transmissores de febre amarela, dentro de características paramilitares.A execução da campanha dentro de tais características foi recebida com granderesistência pelas camadas populares e setores da classe dominante. Esta resistência obteveamplo apoio na luta contra a vacinação obrigatória, servindo como desaguadouro natural dascontradições acumuladas desde o início do poder republicano.Não apenas os parlamentares se opuseram à lei que permitia regulamentar avacinação, como também setores da sociedade civil (grupo de positivistas e camadaspopulares) e grupos do aparato militar estatal, além da grande imprensa procuraram impedir que as diretrizes da polícia sanitária fossem concretizadas. Em pouco tempo, esta resistênciaaparentemente difusa se transformou em conspiração aberta contra o poder dominante.
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