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Filhos de um Deus menor
A estranha situação dos docentes do ensino superior politécnico
A 1 de Julho de 2009 o Governo aprovou, por proposta do Ministério da Ciência, Tecnologia e EnsinoSuperior (MCTES), a versão final do Estatuto da Carreira do Pessoal Docente do Ensino SuperiorPolitécnico (ECPDESP) faltando apenas a sua promulgação pela Presidência da República para que entreem vigor. O ECPDESP era há muito aguardado por ser necessário revogar o estatuto anterior, obsoleto,que rege o Ensino Superior Politécnico (ESP) há cerca de 30 anos.O novo ECPDESP na sua versão actual contém de facto avanços significativos relativamente aosanteriores estatutos, mas apresenta problemas muito graves. Destes, destaca-se o regime de transiçãocujas disposições urge alterar, sob pena de se penalizar fortemente o ESP, os seus docentes e os seusalunos.Quanto ao processo negocial, referir-se-á apenas que o diploma mereceu o acordo de 7 organizaçõessindicais: FNE, FESAP, SINTAP, SINDEP, SINAPE, SPES, SNPL. Contudo, o governo sabe bem que estasorganizações têm um número muito reduzido de associados no ensino superior. Pelo contrário, as duasorganizações sindicais – SNESup e FENPROF - que representam mais de 90% dos docentes sindicalizadosdo ESP não assinaram este acordo.
O regime de transição – o fulcro da questão
 
Existem vários aspectos que poderiam e deveriam ser melhorados no ECPDESP. Mas é o regime detransição previsto para os "docentes equiparados" - os que são contratados a prazo - que causa umaprofunda indignação.Actualmente, cerca de 50% dos docentes que estão a tempo inteiro no ESP não faz parte dos quadrosdas instituições e tem por isso vínculos precários. Os seus contratos são sujeitos a eventual renovaçãode 2 em 2 anos, ou mesmo ano após ano, sendo necessário que o Conselho Científico da escolaapresente uma proposta de renovação de contrato com uma apreciação de "bom e efectivo serviço" .São cerca de 4.000 os docentes do ESP nestas condições. Muitos deles têm 10, 20 e, por vezes, mais de30 anos de serviço e estão de facto a suprir necessidades permanentes das escolas. Até hoje não foigarantido pelo Estado Português (ao contrário do que recentemente tem feito para outras classesprofissionais) um tratamento, no mínimo, semelhante aos demais trabalhadores por conta de outremque, desde que necessários e com avaliação positiva, ingressam na carreira ao fim de 3 anos.
 
Apesar do estatuto ainda em vigor não exigir o grau de doutor para acesso à carreira, um númerosignificativo de docentes já o obteve muitas vezes sem qualquer apoio das instituições, isto é, semdispensa de serviço docente e pagando do seu próprio bolso as respectivas propinas.Com o novo estatuto, para aceder à carreira, o docente terá que ter experiência profissional relevante(certificada pelo título de especialista), ou doutoramento. Mas com que legitimidade se exige umadeterminada qualificação sem se proporcionar as condições mínimas para a obter? Na primeira ediçãodo programa PROTEC, para formação de docentes do ESP, foram concedidas aproximadamente 5centenas de bolsas e um financiamento claramente insuficiente, pois permite a dispensa de apenas 50%do serviço docente. Logo, não há qualquer tipo de garantia que as edições seguintes deste programacriem uma real oportunidade de formação aos restantes docentes que dela necessitam (cerca de 3600).O novo ECPDESP determina que, no prazo de 5 anos, todos os docentes equiparados a tempo inteiro -independentemente da sua qualificação - devem concorrer a um lugar na carreira através de umconcurso público internacional. As escolas esgotarão os seus recursos na organização de concursos, júris, avaliação de processos, reclamações, etc.E se um docente tem a qualificação exigida pelo actual estatuto de carreira mas não tem a possibilidadede a melhorar para atingir o que é requerido no novo estatuto, ou se o resultado do concurso atribuir olugar a outro candidato, então, mesmo que há longos anos a prestar serviço e a suprir necessidadespermanentes, será simplesmente dispensado e não receberá qualquer indemnização compensatória.O que o docente já fez pela sua escola, não interessa. É descartável, independentemente do seu mérito,experiência e formação!Que benefícios se esperam para os alunos e para a qualidade do ensino nestas condições?Que tempo restará para ensinar e investigar?Que caos criará este estado de coisas?
Filhos de um Deus menor 
Simultaneamente com a redacção do ECPDESP, decorreu também a redacção do Estatuto da CarreiraDocente Universitária (ECDU). Ora, neste caso, um docente universitário que obtenha o doutoramentodurante o período de transição passa automaticamente à categoria de Professor Auxiliar, sem ter de sesujeitar a qualquer concurso público.Até hoje, na sua maioria, os doutoramentos dos docentes do ensino universitário decorreram comdispensa total de serviço e sem qualquer pagamento de propinas. Porquê esta discriminação nascondições de obtenção dos doutoramentos entre docentes do ESP e do Ensino Superior Universitário?
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