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TRANSCRIÇÃO ENTREVISTA COM O PROF. OLIVAL FREIRE - 18/11/2008DENISE: Hoje a gente está fazendo o fechamento da primeira etapa do nosso projetoPibic 2008/2009 e, já falei isso para Olival, é uma tentativa de recuperar algumas obrasde epistemólogos do século 20 que propuseram elementos para uma epistemologia nãocartesiana. O primeiro autor é Feyerabend, e para isso a gente leu o
Discurso doMétodo
(Descartes), lemos a autobiografia dele, alguns textos: o
Diálogo sobre oConhecimento
,
Contra o Método
e alguns textos que a gente encontrou na internet, basicamente duas dissertações, não é Sidarta? E o texto de Olival. [...] Então, nesse projeto, a gente tem dois alunos, depois vou pedir que vocês se apresentem. Mas antesde tudo, eu gostaria de agradecer a presença do professor Olival conosco. O professor Olival Freire é professor associado do Instituto de Física, tem graduação em física,mestrado em epistemologia das ciências e o doutorado na USP em história das ciências,realizou dois programas de pós-doutorado, tanto em Paris VII e Harvard, eu vi no seuLattes essa semana que tem um
 fellowship
do MIT em Harvard, que é uma coisa muito prestigiosa. E ele faz parte também do Programa de Ensino, História e Filosofia dasCiências que é uma dobradinha UFBA/UEFS, envolvendo também várias unidades daUFBA.Então, quando eu propus esse projeto e perguntei lá em filosofia quem conhecia a obrade Feyerabend, o nome indicado foi o seu e a gente ficou super-contente, porque eu játive a oportunidade de levar Olival em dança, inclusive na turma de Nora. E arepercussão foi a melhor possível. Foi um encontro muito proveitoso para a gente. Eusou professora da Escola de Dança e do Programa de Artes Cênicas, e vocês seapresentam.SIDARTA: Eu sou Sidarta Rodrigues, estudante de psicologia, faço pesquisa no grupoCONES - Modelagem da complexidade em humanidades, artes e saúde. Atualmente, no8° semestre de Psicologia.ELEONORA: Eu sou Eleonora, sou formada em Direito, graduada no curso deLicenciatura em Dança na UFBA e acabei de concluir meu mestrado em Dança e agoraestou galgando a seleção para o doutorado em artes cênicas...DENISE: Ela é quase uma doutoranda, porque já passou nas duas fases mais difíceis daseleção...
 
ELEONORA: E acho que essa continuidade de estudos, principalmente nessa temáticavai ser realmente interessante para mim, porque a minha proposta para o doutorado eacompanhar o desenrolar dos Bacharelados Interdisciplinares no aspecto das disciplinasde artes. Um dos objetivos é discutir sobre outros métodos, outro viés epistemológico para a pesquisa acadêmica em artes.ISA : Meu nome é Isa Sara, também de faço licenciatura em dança. Estou muitoempolgada, muito feliz de estar aqui. Também faço parte do grupo CONES.CECÍLIA: Eu sou Cecília, sou graduada em Licenciatura em Dança aqui, estougalgando o mestrado em artes cênicas...DENISE: Também já passou nas fases mais difíceis da seleção...CECÍLIA: Conheci muito recentemente o autor... procurei dar uma estudada sobrequem é ... o histórico...DENISE: Então o formato é bem livre, que a gente faça uma conversa e que vocês perguntem coisas livremente sobre o que vimos na bibliografia.ELEONORA: A gente tinha pensado em propor a você que começasse falando sobre oe-mail quando você retornou o convite e falou assim: como é interessante retomar 
ODiscurso do Método
de Descartes para falar desse autor, Feyerabend. Então, talvez sejaum bom início, falar dessa relação, da posição de Feyerabend em relação à obra deDescartes, ao Método, para a gente começar.OLIVAL: Eu gostei de vocês voltarem a Descartes, porque veja que até no título dasobras há um contraponto:
O Discurso do método
e
Contra o método
. Entretanto, eunão tenho certeza se o alvo, digamos assim, de Feyerabend era o claramenteDescartes, a obra de Descartes, ou a fortuna que essa obra teve, nesses três séculos queseparam uma obra da outra. Então, me explicando melhor, não tenho dúvida de que aobra cartesiana é uma obra fundadora da racionalidade da ciência moderna, é a obrafundadora, concorrendo somente com uma outra tradição filosófica que faz parte dafundação da ciência moderna que é a tradição do empirismo. Mas esses mais de trêsséculos entre a obra de Descartes e a segunda metade do século 20, porque nós temos delocalizar que Feyerabend é um pensador da segunda metade do século 20, sofrendotodas as influências culturais desse período. Então a minha percepção é a seguinte: no
Contra o método
de Feyerabend, o alvo imediato dele é menos a epistemologiacartesiana, enquanto doutrina, e mais uma certa crença corrente num certo meio, que eu
 
vou chamar de um meio s-positivista, na cultura da ciência anglo-sa, que basicamente é o meio que vem do Círculo de Viena, do positivismo lógico, para oscríticos do Círculo de Viena, com todas as nuances, com Popper meio crítico, meio emadesão e os outros mais críticos , Kuhn, Lakatos, o próprio Feyeranbend.DENISE: Ele foi aluno de Popper.OLIVAL: Foi aluno de Popper, na verdade ele e Lakatos, na verdade Lakatos não foiexatamente aluno, terminou convertendo-se numa espécie de discípulo. De todo modo,todos dois muito próximos de Popper, na Inglaterra. Então é nesse ambiente em queFeyerabend escreve
Conta o Método
e a minha leitura é a seguinte:
Contra o método
éuma rebelião contra um certo projeto que era comum tanto ao Círculo de Viena quanto aPopper e, em certa medida, ao próprio Lakatos. Então qual é esse projeto? Eu diriaassim que é um projeto que está muito expresso no Círculo de Viena, está presentetambém nas obras posteriores, que é um projeto de você estabelecer um critério dedemarcação entre a ciência e a não ciência, ou entre a ciência e a pseudo-ciência. Entãoo Círculo de Viena tinha, digamos assim, essa pretensão, mas em que pese toda a críticade Popper ao Círculo de Viena, crítica do uso inadequado da lógica, segundo Popper,mas Popper faz essa crítica preservando esse projeto: encontrar um critério dedemarcação, o critério da falseabilidade popperiana é exatamente isso, um critério que permita distinguir o que é ciência da não-ciência.Bom, nesse momento, então, digamos assim, esse projeto, eu diria, a minha leitura, éque esse projeto tem em seu seio certa arrogância que é herdeira das ciências naturais,física, química, da matemática, uma arrogância construída historicamente pelo sucessoinicial dessas disciplinas com o título de ciência. Então o que eu chamo de arrogância, éque você pode discutir, digamos, qual é a característica dessas ciências. Se você olhar quase todas as pessoas que refletem sobre as características dessas ciências estãorefletindo sobre a física ou sobre a física e a matemática. Sobre a química, quase nãoexiste. Sobre a Biologia, menos ainda. Mas essas pessoas, o projeto do positivismo,mesmo se remontamos a Comte, não é um projeto de fazer uma ontologia da física, éum projeto de fazer ontologia da ciência. O critério de demarcação que o Círculo deViena pros é um cririo para demarcar a ciência da pseudo-ciência. Então aarrogância é porque se trata, no fundo, de você enquadrar todas as outras disciplinas,nesse momento não quero usar a expressão científica, todas as outras formas deconhecimento que têm uma igual aspiração de racionalidade, uma igual aspiração de
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