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Biogeografia
Ciência que estuda a origem, distribuição, adaptação e associação das plantas e dos animais nasuperfície da Terra.Constitui verdadeiro traço de união entre a geografia física e a geografia humana. Implica noconhecimento não só da distribuição atual das plantas e dos animais, mas também das causas efatores que a presidem, no tempo e no espaço; e na observação da forma pela qual se processou aadaptação dos seres vivos ao meio e os indícios dessa acomodação. Como nada existe isoladamentena natureza, procura-se conhecer as causas que originaram determinadas associações de espécies, bem como apreciar os diferentes aspectos sob os quais se apresentam. Procurando atender a todosesses objetivos é que Dansereau em Biogeography, an ecological perspective (A Biogeografia, uma perspectiva ecológica) estabeleceu os denominados planos ou níveis de integração que "representamas várias limitações que o meio impõe, sucessivamente, aos seres vivos, no tempo e no espaço".Tais níveis são os seguintes:
Nível histórico:
Estuda-se a origem, evolução e causas do declínio ou desaparecimento, dosdiferentes grupos de plantas ou animais. Foram os grandes acontecimentos geológicos (glaciações,
 
transgressões marinhas, separação de continentes, formação de montanhas) os responsáveis pelaatual distribuição dos elementos da flora e fauna. A tabela organizada por R. J. Russell estabeleceuma comparação entre o tempo geológico e um ano do calendário, assinalando a diversidade deduração de cada era, e dentro de cada uma os grupos que, sucessivamente, surgiram, evoluíram edesapareceram. Assim é que os invertebrados precederam os vertebrados e os mamíferos são posteriores aos répteis, enquanto que, no reino vegetal, às algas seguiram-se os fetos arborescentes,os ginospermas e os angiospermas. Variando as condições, sobretudo climáticas, de cada era, osorganismos sofreram sucessivas adaptações. Muitas vezes, foram essas tão especializadas que,modificando-se as condições ambientes, os organismos desapareceram, por se acharem por demaisrestritos a determinadas condições.A atual distribuição dos grupos de plantas e animais resulta de longa sucessão de fatos, e o estudodas áreas dela resultante constitui um corolário lógico. Entende-se por área a extensão geográfica deum grupo, quaisquer que sejam as limitações ecológicas; nesta subdivisão do nível histórico(areografia) são analisadas as descontinuidades existentes e as causas que as originaram. Do pontode vista estritamente geográfico, podem-se distinguir: (1) grandes áreas contínuas (as gramíneasexistem no mundo inteiro); (2) grandes áreas descontínuas (as magnoliáceas têm uma extensadistribuição geográfica, pois existem nos dois hemisférios, mas ocupam regiões limitadas);(3) áreaslimitadas a um hemisfério (cactáceas restritas ao hemisfério ocidental; araucariáceas ao meridional);(4) a um continente; (5), (6) e (7) às regiões tropicais, temperadas ou glaciais; (8) áreas regionais e(9) grupos endêmicos. Da análise de todas essas áreas, verifica-se que, geralmente, as ordens maisaltas da escala biológica (famílias) podem ser cosmopolitas, enquanto as mais baixas (espécies)restringem-se a habitats bem definidos, por serem muitos os seus fatores limitativos.A origem e dispersão dessas áreas constitui outro ponto importante, embora ainda não solucionadosatisfatoriamente. Dentre os muitos critérios para o estabelecimento do centro da área de um grupo(centro de dispersão ou de origem) destacam-se os seguintes: ( 1 ) onde há o maior número deespécies; (2) onde há o maior número de indivíduos; (3) onde o desenvolvimento dos indivíduos émaior; (4) onde é menor a dependência a um determinado habitat etc. Ligado a esse problema dedeterminação do centro de origem e dispersão, acha-se o de vicariância, apresentado pelas espéciesque, tendo origem comum, hoje se acham em áreas geográficas diferentes, por vezes, mesmo, muitoafastadas.Há a analisar ainda o fato de serem as áreas primitivas (onde a espécie considerada é realmenteindígena) ou secundárias (invadidas recentemente devido à ação humana), distinguindo-se, nestasúltimas, diferentes graus de invasão. Há os elementos estrangeiros plantados e conservados pelohomem e a cujos cuidados se acha subordinada sua propagação (o eucalipto no Brasil) e há os quese naturalizam: dentro das habitações (moscas), nas cidades (pardal), nus lugares abandonados(agaves), nos campos de cultura etc. Em geral, não oferecem competição aos elementos indígenas,regredindo quando cessa a intervenção humana. O mesmo não acontece quando o elemento éindígena ou, mesmo, alguns naturalizados que se propagam espontaneamente, invadindo áreasdevastadas (Tibouchina estrellensis [quaresma]).Critérios biológicos são utilizados para a compreensão dos deslocamentos das áreas de vegetação: aforma de seu contorno (quando descontínuas e irregulares indicarn, quase sempre, regressão); avitalidade dos componentes (sabendo-se as exigências da planta, poder-se-á constatar o progressoou recuo de sua área); as características do limite das árvores (timberline), que mostrarão, pelo seuavanço ou recuo, se está havendo um aumento ou decréscimo de umidade. Todos esses movimentosacham-se ligados às flutuações climáticas e, no Brasil, por exemplo, a presença do gêneroAraucária, em pontos das serras do Mar e da Mantiqueira, indica a penetração para o N de umantigo clima mais frio, e a existência de Melastomatáceas (gênero Microlicia e Lavoisiera) a deoutro mais seco.
 
Nível bioclimatológico:
Nesse nível são estudadas as limitações devidas aos fatores do clima. Aação desses fatores (latitudes, distribuição dos continentes, relevo, depressões barométricas,correntes marinhas) faz-se sentir, principalmente, sobre as plantas, através de seus elementos(temperatura, precipitações, ventos). Assim, a latitude, condicionando a temperatura, acarreta adivisão da superfície da Terra em grandes zonas, nas quais o comportamento biológico é bemdiversificado equatorial, tropical, temperada e fria, com as respectivas subdivisões. A cada umadelas, em função também da umidade, correspondem diferentes faixas de vegetação. Quando aaltitude introduz modificações climáticas, também se estabelece um escalonamento (agora vertical)da vegetação, passando estas faixas a constituir os denominados andares de vegetação. Latitude ealtitude são, assim, os dois fatores que mais influenciam sobre a distribuição das espécies.Constitui objeto deste nível o estudo dos principais tipos de biócoros (floresta, savana, formaçõesherbáceas ou grassland e deserto), bem como a análise da distribuição da vegetação com base nasformas biológicas. Estas foram criadas por Raunkiaer, que procurou classificar as plantas de acordocom a localização dos órgãos regenerativos, o que lhes confere diferentes graus de defesa contra asintempéries. Estabelecendo, em várias áreas, a percentagem de cada uma dessas formas, verificouque, enquanto nas regiões tropicais úmidas predominavam as fanerófitas (com brotos altos e sem proteção), nas secas dominavam as terófitas (que produzem sementes que caem ao solo e ficaminativas durante a estação adversa) e nas temperadas úmidas as hemicriptófitas (nestas a parte aéreamorre até o nível do solo, onde fica o broto regenerativo). Além dessas formas, existem ainda ascaméfitas (cujos brotos estão perto do solo, sendo próprias dos climas secos ou frios; nestes últimos,a neve protege os brotos no inverno) e as geófitas (nas quais a parte aérea morre anualmente,ficando apenas o broto abaixo do solo, inteiramente protegido).Para os bioclimatologistas, uma das grandes preocupações é o estabelecimento dos isófenos (linhasque unem pontos onde determinada espécie tem igual periodicidade biológica: época de floração deuma planta, reprodução de um animal etc.). Pelo traçado dos isófenos poder-se-á ter uma idéia maisexata do clima do que pelos simples dados meteorológicos, pois as plantas, reagindo ao meio,servirão de índices. A melhor caracterização do clima é dada, porém, pelo clímax: tipo de vegetaçãoexpontânea (floresta, pradaria, etc.) que, sem a intervenção humana, vai atingir, de maneira estável,os seus próprios limites.Tendo em vista que os climas apresentaram grandes variações através dos tempos, o exame dessasalterações é do maior interesse. Pode ser feito pela análise dos varvitos, pelos exames dos anéis decrescimento das árvores e, sobretudo, pelo exame das turfeiras. Compõem-se estas, na maior partede musgos do gênero Sphagnum, que têm a propriedade de conservar o pólem das plantas que orodeiam. Com a interrupção vegetativa ocasionada pelo inverno, formam-se camadas bem distintase através da analise do pólen nelas contido, é possível chegar até a identificação de gêneros oumesmo de espécies. As glaciações, que assinalaram diferentes épocas geológicas, tiveramimportante papel na distribuição da vida na Terra e os estudos das flutuações pós-glaciais também pertence ao nível bioclimatológico. De diversas maneiras, fazem-se notar esses efeitos e os daúltima glaciação (que abrangeu no Pleistoceno, extensa área) são os mais sensíveis. Os principaisforam: (1) destruição de alguns gêneros (o Sequóia desapareceu completamente da Europa); (2)restrição (esse mesmo gênero Sequóia, que durante o Plioceno existia em quase toda a América do Norte, acha-se hoje limitado à Califórnia); (3) isolamento de grupos: em algumas áreas, que nãoforam cobertas pelos gelos, mas apenas cercadas, mantiveram-se determinadas espécies, que passaram a constituir relíquias; esse isolamento foi por vezes muito acentuado (nas ilhas que nãoforam glaciadas, por exemplo); e (4) endemismo, que constitui o último grau na restrição geográficadas espécies; é nas ilhas e nas altas montanhas que apresenta as mais altas percentagens.
Nível sinecológico:
Neste nível são estudadas a composição, estrutura e dinâmica dos ecossistemas
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