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Olhar Além

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Summary

A origem insular de Anna Fresu transparece nessa coleção de histórias que põem o olhar nos “esquecidos do mundo”. Histórias em que a “saudade” de sua ilha se mescla com a “saudade” portuguesa, a que a sua vida pessoal a acercou antes mesmo de chegar em Moçambique onde viveu por onze anos.

Foi naquela terra distante, massacrada da guerra, que se empenhou na ajuda humanitária através de projetos sociais de educação e cultura. Testemunha dessa experiência é o primeiro conto “A Judite ficou sozinha” onde Anna aparece junto às vendedoras do mercado as quais se dirige nos raros momentos de repouso de um pesado e cansativo trabalho cotidiano.Uma empatia com a terra e a gente africana que se traduz na capacidade literária de trazer uma vida na vida de cada um de nós; de refletir-se na solidão de quem te passa ao lado por acaso o de quem encontres todas as manhãs. São vidas diferentes, mas que tem em comum um destino de marginação: infâncias infringidas, histórias de amor eternas ou nunca começadas, solilóquios que tentam o dialogo. Protagonistas homens também, mas principalmente mulheres que enfrentam as dificuldades da vida com a inocência de quem se vê mãe antes ainda de virar mulher, com a dignidade de quem, pisoteado, usa as próprias forças interiores.

Os contos se desenvolvem em períodos curtos e ritmados ou se lançam em uma crónica amarga e desencantada, misturando mitos e velhas histórias narradas pelas anciãs das aldeias a pedaços de vida cotidiana. Eis então que emergem miseráveis internos de casas com os tetos de lata, sandálias de plástica e vestidos pobres, lavados e lavados ao infinito para manter um digno decoro da pessoa, cansativas horas de trabalho nos campos ou nas fábricas, aldeias dissipadas e ambientes destruídos, atitudes semi-coloniais, principalmente em relação às mulheres, mantidas por quem deveria contribuir à paz e ao desenvolvimento.Mas se notam também grandes locais e cafés cheios de gente onde se bebe, se dança e se ouve a música, panoramas e colores de tirar o ar pintados de laranja e saudade, mares e ressacas que cantam a eterna canção.

De vez em quando se insinuam os versos de Craverinha, poeta mito de Moçambique junto com o orco Xitukulmukumba, pesadelo das crianças ou as lágrimas da jovem Naika que chora a perdida do seu Nuamberi.

O tema do “sul do mundo” é presente também como o “sul do mundo que se move”: então aparece o verdureiro paquistanês, a garota africana fugida dos venenos da cultivação intensiva de rosa em Kenya, mas também o homem da Sardenha que passa o tempo nos bancos fingindo ler o jornal, que voltou em Itália depois de anos de emigrado em Argentina em busca de fortuna, a quem resultam incompreensíveis as atitudes xenófobas de alguns italianos.

A sua é uma prosa poética que sabe traduzir em imagens o desconforto dos “esquecidos”, dos pobres ricos somente de esperança, de quem sabe viver e esperar, dos desiludidos aos quais a vida parece não mais tolerável. A coleção vê nos últimos contos prevalecer a experiência pessoal da autora: a hospitalização, as  horas de imobilidade guardando uma cidade na verdade desconhecida, a figura da mãe morta evocada, a imagem da personificação da morte com os tratos de literatura visionaria e lírica tão querida à nossa escritora.

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