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O olhar do filho

O olhar do filho

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O olhar do filho

Length:
194 pages
Publisher:
Released:
Sep 16, 2021
ISBN:
9781547546688
Format:
Book

Description

Paula é uma professora de jardim de infância que não pode ter filhos. Ela e o marido adotam Daniel, um bebê ruivo. Após alguns anos, aparece a mãe biológica nesse cenário idílico, destruindo a paz que reinava até então. Por meio de diferentes etapas, desde a chegada do menino ao lar até que ele se torne adulto, O olhar do filho mergulha em personagens como a avó, uma mulher de idade com uma predileção especial por esse neto; ao mesmo tempo, ela e Paula são um exemplo de relações problemáticas entre mãe e filha. Ou Sophie, a jovem que aparece durante o despertar da adolescência.
Com um fundo de dança clássica, assistimos à história de um amor que será um divisor de águas e em que todos terão muito mais em comum do que parece.

"Sua leitura é muito interessante e não nos deixa indiferente, pois é um convite à reflexão em um mundo onde a banalidade exerce seu império." – L'Ull crític, 17-18

"O leitor depara-se com uma narrativa instigante, que se abre para os sentimentos de diferentes personagens e que exige sensibilidade para compreender cada uma das vidas que se movem na narrativa." – Dra. Alexandra Santos Pinheiro, Resonancias Literarias no. 153

“Uma literatura intimista, quase surrealista, que fala mais dos personagens e seus estados de espírito do que das coisas.” – Justo Sotelo, Professor

“Busca por identidade, sentimentos de culpa ocultados – e às vezes nem tanto –, a angústia permanente diante da possibilidade da perda e o amor que vai além dos laços sanguíneos são alguns dos assuntos que o leitor encontrará neste romance. [...] Fatos aparentemente subentendidos, e que o romance revela consistentemente no momento exato, dão a impressão de se estar lendo uma história escrita em camadas, nas quais os acontecimentos vão se sobrepondo até formarem um panorama geral. [...] O Olhar do Filho é um romance que não o deixará indiferente, que o levará a se fazer perguntas e deixará outras em suspense para que você reflita sobre os assuntos de que trata. Uma obra completa, clara, cuja leitura não hesitamos em recomendar.” – Letralia, Tierra de Letras

Publisher:
Released:
Sep 16, 2021
ISBN:
9781547546688
Format:
Book

About the author

Núria Añó (1973) is a Catalan/Spanish novelist and biographer. Her first novel "Els nens de l’Elisa" was third among the finalists for the 24th Ramon Llull Prize and was published in 2006. "L’escriptora morta" [The Dead Writer, 2020], in 2008; "Núvols baixos" [Lowering Clouds, 2020], in 2009, and "La mirada del fill", in 2012. Her most recent work "El salón de los artistas exiliados en California" [The Salon of Exiled Artists in California] (2020) is a biography of screenwriter Salka Viertel, a Jewish salonnière and well-known in Hollywood in the thirties as a specialist on Greta Garbo scripts.Some of her novels, short stories and articles are translated into Spanish, French, English, Italian, German, Polish, Chinese, Latvian, Portuguese, Dutch, Greek and Arabic.Añó’s writing focus on the characters’ psychology, most of them antiheroes. The characters in her books are the most important due to an introspection, a reflection, not sentimental, but feminine. Her novels cover a multitude of topics, treat actual and socially relevant problems such as injustices or poor communication between people. Frequently, the core of her stories remains unexplained. Añó asks the reader to discover the deeper meaning and to become involved in the events presented.Literary Prizes/ Awards:2020. Awarded at International Writing Program in China.2019. Awarded at International Writers’ and Translators’ House in Latvia.2018. Fourth prize of the 5th Shanghai Get-together Writing Contest.2018. Selected for a literary residence in Krakow UNESCO City of Literature, Poland.2017. Awarded at the International Writers’ and Translators’ Center of Rhodes in Greece.2017. Awarded at the Baltic Centre for Writers and Translators in Sweden.2016. Awarded at the Shanghai Writing Program, hosted by the Shanghai Writer’s Association.2016. Awarded by the Culture Association Nuoren Voiman Liitto to be a resident at Villa Sarkia in Finland.2004. Third among the finalists for the 24th Ramon Llull Prize for Catalan Literature.1997. Finalist for the 8th Mercè Rodoreda Prize for Short Stories.1996. Awarded the 18th Joan Fuster Prize for Fiction.


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O olhar do filho - Núria Añó

O Olhar do Filho

Núria Añó

Traduzido por Mariana Baroni

O Olhar do Filho

Escrito por Núria Añó

Copyright © 2018 Núria Añó

Título original La mirada del fill © 2012

www.nuriaanyo.com

Todos os direitos reservados

Distribuído por Babelcube, Inc.

www.babelcube.com

Traduzido por Mariana Baroni

Design da capa © 2018 Núria Añó. Fotografia de Anna Jurkovska. Desenhos Gordon Johnson

Babelcube Books e Babelcube são marcas comerciais da Babelcube Inc.

Tabla de Contenido

Title Page

Copyright

O olhar do filho

Primeira parte

Segunda parte

Terceira parte

Sobre a escritora

Outras obras da autora

A escritora morta

Nuvens baixas

O Salão dos Artistas Exilados na Califórnia

Sobre a tradutora

O Olhar do Filho

Núria Añó

PRIMEIRA PARTE

Amulher de cabelos vermelhos partia e deixava para trás uma série de pegadas na neve. Por mais que da janela do primeiro andar, para onde aquele menino tinha subido com toda pressa, já não se podia distinguir aqueles passos do restante. Abaixo seguia Paula, com os braços cruzados, sua jaqueta grossa abotoada pela metade; provavelmente no dia mais difícil de sua vida. Quando já era tarde e olhando para cima, encontrava Daniel, até o cumprimentava com sua mão energética, como se não tivesse acontecido nada. E então, o olhar do filho foi se perdendo, seu corpo se afastando do cristal… Como se estivesse escrito que um dia, não muito distante, se sentaria à mesa onde costuma fazer os deveres e desenharia uma figura a lápis, traçando aquele rosto ligeiramente arqueado, acrescentando o vermelho àqueles cabelos que viu um dia do outro lado da porta… Enquanto Daniel brincava com uma bola de borracha que, quando tirava de seu bolso já lhe escapava da mão, quicava e frequentemente tinha que descer as escadas; só que, naquela tarde, perdia o rumo por culpa de uma cor de cabelo… Ou ela, em vez de tocar a campainha, se ajoelhava e metia um envelope por baixo da porta, com aquela ponta que, de repente, nem ia nem para frente nem para trás. Um envelope sem destinatário, grosso, que mal entrava. E de repente, as mãos de um e de outro ficavam muito próximas, como duas peças de tamanhos diferentes que se encaixavam com perfeição por algum fio invisível, ativando-as como remetente e destinatário. É lógico que, quando Daniel se levantava e abria a porta, a ruiva também levantava o olhar e assentia com olhos muito expressivos, assombrada por aquele mesmo pretexto. Sim, o que entreabria a porta diante dela, e ela, visualizando ainda a penumbra, fazia um gesto, com aquela inesperada lucidez em que sua boca se unia à bochecha dele e não o teria soltado. E não o teria soltado jamais.

Pelo contrário, Daniel tinha sonhado em tê-la tão próximo que às vezes ficava desesperado e, durante um bom tempo, só pensava nela. Não tanto na pessoa, mas em leves fragmentos que apareciam daquele estado meditativo em que se encontrava imerso. Como uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela, sua mão pálida a ajeitando, e podiam-se distinguir sardas até nas orelhas. Ela não percebia que a observavam, ainda quando sua juventude e inexperiência entravam em acordo sobre girar um envelope, tentando repetidamente cada ponta para ver se entrava. E então o tempo pareceu que parava, assim que o vapor do inverno que aparecia em sua boca e se chocava contra o cristal evidenciava um avanço. Podia nascer a qualquer momento do peso das árvores o mínimo desequilíbrio de um ramo e logo a neve caía de algum lugar, lenta como um segundo, mas ao mesmo tempo transparente e brilhante como um olhar que já se iniciava. Partia do chão, do meio daquela dança giratória de papéis e mãos em que se permitia fazer uma armadilha, ou bem podia acontecer de um dos dois provocar isso. Enquanto Daniel abria a porta e lá aparecia o rosto dela olhando para cima, com tudo o que pressupunha a beleza espontânea das coisas. Bem então foi entrando, inoportuna, a bola, continuava descendo de degrau em degrau; lógico, não importava isso, mas o quão perto aquilo estava de ser concluído.

Mamãe!, tinha chorado, desorientado, em algum momento da noite, e lá aparecia ela. Se Daniel tivesse sorte, chamava sua mãe e lá estava já de pé, Paula, que ascendia a luz da mesinha de cabeceira e dava mais vida, se é que era possível, aos brinquedos e àquela sanefa de cores pastel que deveria deixar a vida mais leve, mesmo que fosse apenas pelo monte de trens de madeira que havia pintado um dia… Um dia? Muitos dias, tempo demais esperando, tanto que o trânsito era já muito espesso; uns iam, outros vinham e o choque frontal era evidente. Mas não aqui, não entre essas paredes. E muito menos nesse quarto, onde havia uma colcha azul celeste de toque muito suave e agradável, que Paula subia enquanto Daniel fechava os olhos e voltava a dormir. Então, o que dizer daquele momento? Poda-se apenas acrescentar a tranquilidade e o silêncio. A noite trazia essas coisas, e algum livro sobre o criado-mudo que muitas vezes ela virava para ela. De fato a verdadeira importância de tudo o que relatava recaía em sua voz, que se abria como uma rosa de cor rosa e se ativava modularmente quando a dirigia a seu receptor, Dani, que fazia com que suas pálpebras se abrissem e se fechassem de prazer, que provocava vez ou outra o brilho do seu olhar, o culpado de tanta felicidade! Ainda quando havia dias que a felicidade chamava à porta pouco antes de ir embora e não sabia mais nada, se voltaria, se não, se seria rápido ou se não regressaria jamais… Talvez a felicidade não pudesse ser exprimida como tinha feito Paula, consumida tão depressa que até a pintava em todos os lugares, de onde tirava um pincel – e olhem a quantidade de luz nesse quarto!; não se pode negar. E aqui está o culpado, o verdadeiro culpado, que estava abrindo a porta e a deixando partir, a felicidade! Primeiro, desatando o nó, desfazendo as voltas, deixando-a voar como faria um lenço ondulando e brincando no ar, até apagar-se à distância. Em Paula crescia um nó na garganta só de pensar nisso, antes ou depois de expressar: e a partir de agora ficaremos bem! Nesse dormitório em que aguçava seu olfato e cheirava à madeira, mesmo assim os olhos de Daniel se abriam e se fechavam por instinto, como se não houvesse uma faísca de esperança. Aqui, onde não há muito tempo se liam histórias em voz alta, que passavam diante do olhar atento de Daniel enquanto ele escutava e retinha informação com a testa franzida, como se duvidasse de tudo e tivesse que pronunciar de tempos em tempos: não pode ser. Então, Paula baixava a guarda ao virar a página e, de repente, ele abria os olhos para dizer: ah, tá!. Enquanto isso, seu olhar produzia um excesso de líquido insignificante quando dizia: o que mais?. De tal modo que ela o ignorava e passava furtivamente por aquela mente e ficava imaginando o que ele estaria pensando. Esse era seu prêmio, o conhecimento quase absoluto daquela peça pequena, não maior de estatura que qualquer um dos vasos de porcelana que decoravam a entrada. Em troca, o que acontecia nessa noite? O silêncio de Daniel a feria. Nem passando uma mão por sua cabeça podia fazê-lo descer de onde quer que se encontrasse. Não sabia exatamente onde, mas com certeza estava envolto com alguma mecha ruiva pela qual continuava deslizando de costas, mas ou menos como tinha visto em alguma ocasião seus primos descendo com as pernas entreabertas pelo corrimão da escada. Sim, enquanto ele continuava disperso, perdendo-se, se fosse necessário, por onde indicasse a bola segundo o quique, e podia chamá-lo; ele não escutava. Por outro lado, nessa tarde, por acaso a mulher de cabelos ruivos não o teria soltado? E o que teria acontecido se Paula não estivesse lá, se ela o tivesse levado? Enfim, lá estava aquela impressão, brincando com o lenço que voltava, mas não parecia o mesmo. Além de um arrepio que lhe gelava a espinha e chegava quando menos se esperava.

Obviamente, ela o esperava… Tão logo saía de casa, Paula já olhava para os dois lados, com um movimento de pescoço semelhante a um cisne, primeiro para a esquerda, depois para a direita. De alguma coisa tinham lhe servido as aulas de balé. Já faz muito tempo; no entanto, por seu olhar vivo ainda poderia se intuir que nem chegou a roçar o nível daquilo que tanto lhe pediam, a ela ou a sua mãe. O que importa qual das duas? O dano nunca cicatriza bem. E às vezes acontecia de Daniel imitar isso. A mãe se movia para a esquerda, direita, e logo expirava ar aliviando parte da tensão acumulada, e ele, para prestar atenção e escutar, podia fazer o mesmo um dia. Vai saber? Quando precisasse, em alguma das visitas que fazia a avó pela cidade, depois de lhe dar dois beijos, enchê-lo de presentes e tê-lo debaixo da saia por um tempo. Antes de se cansar dele. Quando Daniel ficava chato com aquela bola batendo e quicando contra o chão, como se não houvesse mais nada no mundo além daquele som que entrava na cabeça; se pudesse, a teria jogado longe. Ainda que, evidentemente, ficar sem essa brincadeira não seria o pior, mas se sentir isolado e novamente rejeitado.

Então, do nada, a respiração de Daniel parecia que falhava, como se seus pulmões se fechassem, como se em todo aquele tempo não tivessem aprendido nada, além do movimento de cabeça da mamãe para esquerda e direita, esquerda e direita, um e dois. E dava o primeiro passo assim: as costas esticadas como se fosse uma rainha de marionete, depois relaxava, olhando para cima como se alguém tivesse cortado os fios do alto e não tivesse onde se agarrar, algo em que se segurar. Assim se sentia às vezes o filho quando se esparramava no tapete e analisava como a bola saía de seu bolso enquanto tossia. Apesar de continuar a lançá-la diante da vista da avó, ainda que fosse apenas para alertá-la com aquele movimento repetido para cima. Assim tinha tentado várias vezes, sem êxito, com papai, que não estava longe da sala. E como de repente aquele homem encostava a porta de seu escritório e esticava o fio do telefone, abaixando através de um vidro translúcido, com a seriedade de sempre, e tão perdido quanto se observava no instante em que sussurrava para a outra. Com que está falando?, perguntava a avó, sem esperar resposta. Assim, aquele homem, antes de amadurecer sua decisão, antes que se formasse um redemoinho devastador que deixaria apenas os restos. Muito antes, quando tudo era bonito de se ouvir e as palavras saíam sem que se abalasse: Dani! Meu Dani, não há ninguém que eu ame mais nesse mundo!. E ergue o menino, como um troféu. Mas um dia aparecia algo do nada, tinha um rebolado suave e contido que fazia qualquer um perder o fôlego e a paciência. Menos o papai. Ele já parecia aflito antes de tê-la, talvez por aquilo de Aquele que persevera sempre consegue!. Mesmo quando conseguir não seria a palavra, tampouco tê-la ou possuí-la; era tão impreciso o que era! Nem sequer sabia o que era. O que fazia ela no meio do corredor, de pé? E ele também, ainda que com os ombros um pouco encurvados, como se por um momento não confiasse nela. Muitas curvas e, além disso, muito bem colocadas, pois logo dirão como se lida com algo assim; de maneira nenhuma. Não estou sozinho, expunha logo o pai, com a porta que fechava distraído e dali descia para a garagem. Naquele lugar em que se intuía algo úmido, logo ele acendeu um interruptor, mas então sua virilidade recobrava o vigor como um mar alvoroçado, como se tivesse que torná-la sua torcendo-lhe a roupa, fazendo uma sucção em sua pele, arrebentando a tira do seu sutiã, mordendo seus seios, descendo para entre suas pernas, pouco depois de baixa-la à altura do membro e então, sim, entrar e entrar, prová-la por todos os lados, marcá-la com uma mão no quadril, como faria se tivesse uma vaca, colocando nela a marca da casa e, em seguida, puxando seu cabelo, fazendo-a gemer e sacudir até que não tivesse mais nada para acrescentar, a não ser que foda!.

De repente, aquele silêncio espectral. Não demorou a se escutar o carro dela arrancando e já não contavam as palavras, apenas os olhares e a avó tinha o seu um pouco baixo. Por sua vez, papai voltava da garagem e por um segundo pareceu que estava subindo as escadas mais animado, pois aquela mulher era todo o contrário de Paula e ele era um homem de contrastes. Nada a ver com a caixa de música de mamãe, que repetia uma melodia enquanto a bailarina dava voltas, só o ritmo se acelerava com a corda que lhe davam. E era agradável observar aquela postura da bailarina, como faria para equilibrar todo o seu peso sobre uma perna, nunca se cansava, nem sequer abaixava os braços da forma oval em que girava e girava e nada a alterava: c'est magnifique! Essa era a atitude, a mesma que falhava nessa família e era tão simples; só exigia prática, prática, prática. Dava para ver até no gesto da avó cada vez que voltava. Muitas vezes, quando ela chegava, parecia que não se lembrava de Daniel, aquele que se estivesse em casa, costumava se esconder atrás das escadas. Só que às vezes se cansava, e também a avó de carregar a bolsa com algum presente enquanto falava com o genro na entrada e sua mala ficava esperando, a mesma que o genro entrava e carregava até o quarto de hóspedes. Então ela dava o primeiro passo, não antes sem espiar entre aqueles dois degraus onde encontrava o olhar do neto, muito atento, e como se ao mesmo tempo chegasse o momento de sair do esconderijo. Da mesma forma Daniel se sentava no sofá para diverti-la, algo que aprendia com os adultos, com seu pai, por exemplo, que naquele dia passava sigiloso diante dos dois e procurava algum livro técnico e, ali, brincando com a cabeça, cumprimentava sem se abalar. A avó e o neto também cumprimentavam em uníssono, mas aquilo não significava que outros tivessem avós como a de Daniel; não, como aquela era impossível. E Daniel se agarrava à saia dela. Fazia isso como se a amasse muito; de qualquer forma, era mais do que recebia. Evidentemente, a avó tinha mais netos, outros mais próximos que Daniel, mas ele tinha algum mecanismo errante que o diferenciava do resto. Alguém podia observá-lo e não ver nenhum menino nele. Podia até observar Paula e não ver além desse menino, o seu, seu menino. E por mais que se aproximasse do pai por puro prazer de observá-lo, era na verdade seu Daniel, motivo de orgulho insubstituível.

Paula, essa mulher de boca pequena e nariz um pouco afinado que tinha aprendido a conviver com o marido. Se bem que às vezes era vista correndo a cortina, baixando a persiana; ela não dormiria se tivesse que ficar sempre preocupada… Todos sabiam e todos se calavam. E naquela noite, voltava Paula, sua pasta que deixava ao lado do sofá; então olhava, e seu olhar encontrava a mesa posta. Às vezes se reúne às pessoas por força, de um lado ele e ela, marido e mulher, mesmo sem fome, suas carnes, não muito distantes, passam o vinho e o sal. Depois mãe e filha, unem pontos de sutura, assim por cima, se costura e se costura e pode acontecer que não se saiba onde acaba uma, onde começa a outra, e há aqui uma e outra costuradas por alguma extremidade; unidas de novo pelo desastre. Mas ao mesmo tempo, a voz de Paula resmungando: mamãe, o que você está dizendo? Sempre falando em voz baixa…. Podia se dizer tanto, tantas coisas, e por outro lado não há muito que falar. Nada além do gesto da avó e do genro, quando ela o observa enquanto esmigalha o pão

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