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Length:
377 pages
4 hours
Released:
Feb 1, 2019
ISBN:
9781547567454
Format:
Book

Description

Toda família guarda segredos, mas alguns são muito mais obscuros, penetram muito mais fundo e magoam muito mais do que outros.

De Telavive aos becos de Praga, a busca implacável de Vanessa para solucionar o mistério do diário que o pai manteve durante a guerra, e do que ele e o avô faziam durante a ocupação nazista na Tchecoslováquia, revela um segredo obscuro de 70 anos.

Vanessa Neuman é filha de sobreviventes do Holocausto e sua infância na familiaridade caótica do sul de Telavive é obscurecida pelas experiências não mencionadas dos pais durante a guerra. Para ela, o passado era um livro fechado… até o pai morrer e o livro cair literalmente aberto. Vanessa agora tem que solucionar o mistério do diário que recebeu – e do estranho símbolo dentro dele –, custe o que custar.

Ambientado contra o pano de fundo da ocupação nazista e do Museu Judaico de Praga – O Museu de uma Raça Extinta de Adolf Eichmann –, Galeria é um suspense de ficção histórica nos moldes do livro A Chave de Sarah, de Tatiana De Rosnay. Do centro de pesquisa sobre o Holocausto, Yad V’Shem, em Jerusalém até as ruelas de Praga, e depois para dentro do antigo “gueto paradisíaco” de Theresienstadt, a jornada de entendimento de Vanessa revelará um passado familiar mais obscuro do que ela jamais imaginaria – um segredo mantido vivo por mais de meio século.

Released:
Feb 1, 2019
ISBN:
9781547567454
Format:
Book

About the author

Briefly…. I am a professional writer, as well as a full-time cook, cleaner, chauffeur, and work-at-home single Dad for three amazing teenagers. Born in Texas and raised in Fort Wayne, Indiana, I emigrated to Israel only months before the first Gulf War, following graduation from Indiana University in 1990. In 1996, I was drafted into the Israel Defense Forces, where I served for 12 years as a Reserves Combat Medic. Since 2002, I’ve worked as an independent marketing writer, copywriter and consultant. More than You Asked for…. I am a writer by nature. It’s always been how I express myself best. I’ve been writing stories, letters, journals, songs, and poems since I could pick up a pencil, but it took me 20-odd years to figure out that I could get paid for it. Call me slow. After completing my BA at Indiana University - during the course of which I also studied at The Hebrew University of Jerusalem and Haifa University - I emigrated to Israel only months before the first Gulf War, in August 1990. In 1998, I was married to the wonderful woman who changed my life for the better in so many ways, and in 2001, only a month after the 9/11 attacks, my son was born, followed by my twin daughters in 2004. In late 2017, two weeks before my 50th birthday, my wife passed away after giving cancer one hell of a fight. Since 2002, I’ve run SDG Communications, a successful marketing consultancy serving clients in Israel and abroad.


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Book Preview

Galeria - Steven Greenberg

Publishing

GALERIA de Steven Greenberg

DIREITOS AUTORAIS

www.EvolvedPub.com

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GALERIA

Direitos Autorais © 2015 Steven Greenberg

Direitos Autorais da arte da capa © 2015 Mallory Rock

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Editor Sênior: Lane Diamond

Editora Assistente: Michelle Barry

Arredatore d'interni: Lane Diamond, com imagem de D. Robert Pease

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Observações da licença do e-book:

Não é permitido o uso, a reprodução ou a distribuição de nenhuma forma ou de nenhuma parte deste livro sem a permissão expressa do autor, exceto no caso de citações breves usadas em artigos críticos e análises ou de acordo com as leis federais vigentes. Todos os direitos reservados.

Este e-book é licenciado apenas para o entretenimento pessoal, não podendo ser revendido ou distribuído para outras pessoas. Se você quiser compartilhar este livro com outras pessoas, por favor, adquira uma cópia adicional para cada uma delas. Se você está lendo este livro e não o comprou ou ele não foi adquirido apenas para seu uso, por favor, entre em contato com o distribuidor do e-book e adquira sua cópia. Obrigado por respeitar o trabalho árduo do autor.

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Ressalva:

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos são produtos da imaginação do autor ou foram usados de modo fictício.

LIVROS DE STEVEN GREENBERG (em inglês)

Enfold Me

Galerie

Moon Path [chegando em 2019]

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www.StevenGreenberg.info

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O que os outros estão dizendo sobre Galeria (em inglês):

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...dark and gritty...the story and writing lift it up to the point of being nearly sublime. Buy this book and say goodbye to your family for the weekend, because you will not want to put it down once you get started. ~ Eric W. Swett

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"Galerie is a gripping read, rich with intrigue from beginning to end. As much a thriller as a Holocaust novel." ~ BookWormNZ

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"Imagine Stephen King wrote Schindler’s List.... Galerie manages to break away from the accepted treatment of Europe’s darkest hour and explore the horror from an unexpected point of view." ~ Nikki

DEDICATÓRIA

Para Segev—o melhor companheiro de viagem, pesquisador, editor, consultor e filho que qualquer homem poderia ter.

SUMÁRIO

Capa

Direitos Autorais

Livros de Steven Greenberg

Dedicatória

PRÓLOGO

LIVRO I

Capítulo 1 – Doçura

Capítulo 2 – Bem-vinda a Praga

Capítulo 3 – Uma estudante de Kladno

Capítulo 4 – Persistência

Capítulo 5 – Moe

Capítulo 6 – Desalmado

Capítulo 7 – Plano B

Capítulo 8 – Zvi

Capítulo 9 – Algo se quebrou

Capítulo 10 – O Golem

Capítulo 11 – Confirmação

Capítulo 12 – Terezin

Capítulo 13 – A mentira

Capítulo 14 – Os barracões

BOOK 2

Capítulo 15 – Comportas

Capítulo 16 – Respeito

Capítulo 17 – Silêncio pegajoso

Capítulo 18 – Todos ganham

Capítulo 19 – Resignação

Capítulo 20 – Arte

Capítulo 21 – A estrada de tijolos amarelos

Capítulo 22 – Plano X

Capítulo 23 – A própria vida

Capítulo 24 – Interesse mútuo

Capítulo 25 – Traição

Capítulo 26 – Galeria

Capítulo 27 – Sem perguntas

EPÍLOGO

Guia para Clube do Livro

Agradecimentos

Apêndice

Bibliografia

Sobre o Autor

Mais de Evolved Publishing (traduzido para o português)

PRÓLOGO

Praga, 1943

Embora o porão estivesse úmido por causa do frio de novembro, o garoto estava coberto de suor. A respiração ofegante saía condensada numa névoa enquanto ele se balançava para frente e para trás com o rosto escondido entre os joelhos magricelos que espreitavam através das calças rasgadas como duas lâmpadas de rua difusas em um beco escuro. Ele se fechara em uma bola, abraçando as pernas com os braços finos como galhos com tanta força que as pontas dos dedos sujos ficaram brancas.

Já testemunhara muito mais do que um menino de doze anos deveria ter testemunhado, muito menos processado.

Relembrou cada um dos detalhes da cena, muitos deles já familiares: a mesa, a única lâmpada bruxuleante balançando no teto como se fosse um cordão umbilical e as variadas ferramentas afiadas do pai.

Eram visões bem conhecidas, mas quando o pai se movera para o lado, não mais bloqueando a visão do menino, foi que o todo se tornou incompreensivelmente maior do que a soma das partes. Foi naquele momento que seu coração quase saiu do peito magrelo, ordenando aos pés calçados com sapatos desgastados de couro que corressem, corressem, CORRESSEM!

E eles correram. Correram de volta ao porão vazio, onde as paredes de pedra se inundavam de suor no verão e irradiavam frio no inverno. Ele passava cada vez mais tempo lá, enquanto chovia e o clima esfriava, tornando-se mais sombrio, porque não era mais possível brincar do lado de fora no pátio pequeno e sujo do prédio. Ele transformara quase toda a edificação em seu playground particular, desde esconderijos iguais a este abrigo subterrâneo em que estava, até cômodos no sótão, cujas pequenas janelas no teto, que apontavam igualmente para um ponto, forneciam um vislumbre dos transeuntes ocasionais que passavam na rua estreita lá embaixo – o menino conhecia o lugar de trás para frente e de frente para trás.

Ele aconchegou-se no encanamento do esgoto principal do prédio que lhe provia apenas um calor fraco, mas que sempre o reconfortava, contanto que não ficasse apoiado muito tempo no mesmo lugar. Não deveria ter chegado nem perto da oficina do pai embaixo do porão, o que equivalia a vários andares abaixo do seu refúgio atual.

— Nunca ultrapasse esta porta, entendeu? Prometa-me.

O pai o fizera prometer em voz alta. E ele nunca atravessara a porta pesada de metal com o símbolo esculpido que levava à escada íngreme bem iluminada que se curvava abruptamente para baixo. Mas aos 12 anos de idade e sem ninguém por perto, ele se sentia solitário e entediado, sem mencionar inevitavelmente curioso. Não levara muito tempo para que encontrasse os dutos amplos de ventilação que o permitiam se mover por todo o prédio sem que ninguém percebesse, descer até o porão onde se escondia agora e mesmo até o enorme porão embaixo do porão. Hoje, a porta da oficina fora deixada aberta – tão irresistível – apenas o suficiente para um que olhinho espiasse pela abertura...

Sua respiração se abrandara e ele levantara a cabeça de cachos castanhos aos poucos, abrindo primeiro um olho, depois o outro e checando a segurança do ambiente. O pequeno cômodo de pedra estava vazio e ele estava sozinho. Por enquanto.

Também estivera sozinho nos primeiros meses. O pai não tinha tempo para ele porque passava longas horas na oficina, tendo que lidar constantemente com o homem que vinha várias vezes ao dia, magnífico e aprumado, usando um sobretudo de lã preto, chapéu de feltro, luvas de couro e um broche de prata na lapela que ostentava o mesmo símbolo estranho da porta. O pai sempre demonstrava respeito e gratidão pelo homem, o que levava o menino a fazer o mesmo, pois, se eles fossem educados e trabalhassem duro, o homem traria a mãe de volta. Ela fora deixada para trás em Terezín, onde permanecia confortável e segura.

O esboço de um sorriso surgiu nos lábios secos e rachados do menino. Pelo menos, logo ele não estaria mais sozinho, mais pessoas iriam chegar, elas sempre chegavam. Gostava de conhecê-las, aquelas pessoas diferentes. Elas eram gentis e cheias de esperança, contavam histórias com sotaques engraçados, que às vezes ele não conseguia entender, usavam roupas estranhas e tinham cheiros também estranhos. Levantou-se em toda sua altura, limpou a poeira dos fundilhos da calça e foi em direção à porta.

Ao deixar o cômodo, virou-se e olhou para trás. A luz de sua curiosidade infantil apenas começava a ofuscar a aparência sombria do lugar. Imaginou o cômodo preenchido novamente por vozes, cheiros e esperança. Sim, pensou, sorrindo largo, pessoas diferentes fariam o lugar parecer tão melhor.

LIVRO 1

CAPÍTULO 1 – DOÇURA

Praga, dezembro de 1991

Um bonde depauperado passou se balançando e com o teto de metal sem pintura destoando das paredes forradas por lambris vermelhos. Quando o bonde apareceu de trás do prédio e passou rugindo por Vanessa Neuman, seus dois faróis dianteiros perscrutavam como olhos tortuosos através da escuridão matinal. Do seu lugar, à sombra das quatro colunas da Igreja do Santo Salvador, Vanessa ouviu o som agudo das rodas do bonde, atenuado pelo cair crocante da neve, rapidamente se desvanecer após sua passagem, deixando apenas o cheiro aguçado de eletricidade vindo da confusão de fios acima, como se para preservar sua memória.

Na Praga de 1991 isto era uma memória, ela me contara antes de deixar Telavive – mas não uma memória boa. Nunca fora à cidade e nunca pretendera ir, ouvira tudo que precisava ouvir do pai, sabia o que precisava saber e não sentira, nem mesmo uma vez, a necessidade de aprender mais sobre a cidade. Por toda sua vida ouvira sobre a beleza de Praga, o misticismo de Praga, a rica história de Praga, a arquitetura estonteante de Praga, a traição insidiosa de Praga e sua lenta espiral de declínio, começando pela discriminação, passando pela perseguição e terminando nas esferas desumanas da miséria, da dor e da morte.

Não, obrigada, ela pensou. Não preciso ver este lugar.

Ainda assim, aqui estava ela e, maldição, ele estava atrasado. Deveria estar no lugar certo porque havia apenas uma Igreja do Santo Salvador em Praga, na rua Krizovnicka, em frente à icônica Ponte Carlos. Ele deveria encontrá-la exatamente aqui, ao abrigo das imensas colunas da igreja, às cinco em ponto. Os olhos impassíveis das seis estátuas de mármore acima de Vanessa, cobertas pelo branco da neve recém-caída, olhavam desdenhosamente para ela. Já eram cinco e meia e estava quase totalmente escuro. Ainda assim, ela e as estátuas esperavam.

Pedestres circulavam bem aconchegados dentro de seus casacos e cachecóis. As luzes da rua tremulavam, assim como as decorações natalinas brilhantes penduradas entre os postes de luz, lançando sombras perigosas no caminho dos carros Skodas que passavam.

Vanessa encolheu-se ainda mais debaixo do abrigo escasso que as colunas propiciavam. Elas agigantavam-se acima dela, pesadas, uma ameaça que não diminuía nem mesmo com o verniz de alegria das festas que tomava conta da cidade. Puxou o longo casaco de lã mais para perto do corpo delicado e o chapéu mais para cima das orelhas, fazendo os cachos escuros se sobressaírem em ângulos estranhos. Novamente, ela estremeceu, batendo os pés calçados com botas no chão numa tentativa fútil de aquecê-los.

Nunca experimentara frio de verdade. Por ter passado a vida inteira sob o sol de Telavive, que persistia quase o ano todo, frio – pelo menos frio cortante como o de Praga em dezembro – era um produto desconhecido. O frio de Telavive mordiscava apenas de leve. O frio das Colinas de Golã, que experimentara durante o serviço militar, te agarrava pelo queixo, adormecia os lóbulos das orelhas e os dedos dos pés. O frio úmido de Jerusalém podia penetrar de verdade nos ossos. O frio de Praga, no entanto, te entorpecia completamente e corroía suas entranhas, como uma piranha perseguindo a ponta dos dedos de quem os mergulhava no aquário.

Não queria ir, ela me contara, para esta terra onde as famílias de seus pais viveram por mais de quinhentos anos, para esta terra na qual 85% dos judeus foram exterminados em lugares sobre os quais ela lera ou ouvira falar em sussurros abafados em tcheco quando o pai conversava com amigos ou clientes da loja.

— É claro que eu me lembro de Luba! — ele ou o amigo diriam em um arroubo, confrontados pela familiaridade mútua recém-descoberta. Esta euforia era inevitavelmente seguida por uma piscadela de compreensão, um aceno sutil em sua direção e olhos sendo abaixados, assim como um ou o outro sussurrando algumas palavras – geralmente Auschwitz, mas outras vezes Maly Trostenets, Sobibor, Izbice ou simplesmente os transportes.

Viera para Praga não porque queria, mas porque precisava – uma necessidade que a levara a esperar nesta esquina congelante para se encontrar com um homem que conhecia somente através de tio Tomas e cuja voz, autoritária e grave, ela ouvira apenas brevemente numa ligação internacional cheia de ruídos. Precisava entender o último desejo do pai e preencher o grande espaço vazio que fora sua vida durante a guerra, precisava colocar algum tipo de personalidade no homem que a criara depois que a mãe morrera – uma personalidade que não se iluminava pela luz berrante do sol de Telavive, mas que, com certeza, se iluminaria por esta mesma luz pálida do inverno boêmio cinzento que neste momento iluminava seu rosto.

89>Suspirou. Seu primeiro contato em Praga seria com alguém que não apareceria, deixando-a como a única participante de uma cena de rua que se extinguia lentamente.

Um bonde passa pesadamente, narrou para si mesma, tentando aliviar o tédio e esquecer o frio. Uma luz defeituosa em um dos postes, pisca. Turistas deixam a Ponte Carlos, seguidos de perto por artistas carregando mercadorias em carrinhos engenhosamente projetados. Outro bonde passa, este com uma das rodas rangendo. Mais carros passam. Pedestres passam. Aparece um garoto numa bicicleta escorregando na neve irregular. Agora, cada vez menos pedestres. Finalmente, seguindo um anoitecer agonizante e vagaroso, todos os lugares escurecem e a rua se torna silenciosa. A cortina desce.

Às seis e quinze ela desiste e vira-se para caminhar o meio quilômetro de volta ao hotel próximo à Praça da Cidade Velha. Na metade da rua Platnerska, já conseguia ver as espirais gêmeas mal emparelhadas da Catedral de São Nicolau, espreitando lá de cima os prédios e as árvores sem folhas. Seus passos, que ocasionalmente rangiam nos buracos das pegadas deixadas na neve, haviam começado a ecoar na rua deserta.

Diferente dos filmes, ela me contou mais tarde, nunca chegou a escutar nenhum outro som de passos diferente dos seus, nunca avistou um vulto sombrio seguindo-a, nunca viu um carro suspeito com uma figura usando um chapéu escuro olhando de soslaio em sua direção ao passar devagar. Num segundo, estava simplesmente caminhando e, no outro, estava sendo puxada para dentro de um beco.

Dois homens, ambos carecas, ambos usando botas pretas de cano longo em estilo militar, agarraram-na. Um fedia a alho e o outro cheirava a álcool, provavelmente vodca. Uma vez fora da rua, Alho segurou-a por trás, prendendo seus braços nas costas e com a respiração rançosa em seu pescoço. Vodca colocou uma das mãos frias sobre sua boca. Eles ignoraram suas tentativas de resistência, admiráveis, mas fúteis, puxando-a mais para os fundos do beco e através de uma porta baixa, entrando no que deveria ser um cômodo para guardar lixo, por causa do mau cheiro entranhado. Uma porta de grade de metal ressoou ao bater, isolando abruptamente qualquer vestígio dos sons da cidade mais audíveis do que a luta silenciosa de Vanessa.

Quando o pai lhe contara que a mãe havia morrido sozinha durante a noite, no Centro Médico Sourasky estéril e verde pálido de Telavive, Vanessa não chorara. Nem no funeral, nem durante a shiva – o tradicional período de sete dias de luto. Nunca fora uma garota emotiva, ela me contou, porque sempre soubera – e fora frequentemente lembrada – que quaisquer que fossem suas tribulações no momento, elas não eram nada se comparadas às experiências dos pais. Que direito ela tinha, uma garota que sempre tivera roupas para usar e comida no prato, de reclamar para dois sobreviventes do Holocausto... sobre qualquer coisa? Quem era ela para lamentar a perda de um brinquedo, a ponta do dedão do pé arrancada, um insulto ou até mesmo uma simples morte, quando suas memórias de infância eram povoadas pelos fantasmas do passado dos pais, por almas vivas?

— Então, desde a tenra idade, lutei batalhas épicas contra as lágrimas — ela contou. Vencera, mas, para ela, fora uma vitória a um preço alto. As lágrimas, uma vez engolidas, eram propensas a não voltar, mesmo quando se precisava delas.

Apenas tio Tomas conseguira trazer à tona alguns resquícios de lágrimas saídas de uma Vanessa de doze anos totalmente seca. Tio Tomas, com seu sobretudo de lã, que naqueles anos sempre cheirava vagamente a cadáver, e o número azul escuro meio desbotado tatuado no antebraço que há muito tempo ela decorara – A-25379. Seu jeito germânico era, segundo ela acreditava, apenas um exoesqueleto congelado que o sol do Mediterrâneo ainda não conseguira descongelar. O pai parecia desprezar e admirar tio Tomas ao mesmo tempo. De má vontade, sempre o mantinha a uma curta distância e nunca longe demais. Apesar da sua posição na família como o parente vivo mais próximo, tio Tomas não era nem mesmo um parente de verdade, mas sócio do avô, coproprietário da loja apertada na rua Nahalat Binyamin no sul de Telavive, na vizinhança de classe trabalhadora do bairro Florentina.

As lágrimas também não haviam voltado por conta própria quando o avô Jakub morrera quatro anos atrás. Ele fora encontrado caído sobre a bancada no quarto sujo nos fundos da loja. Uma única lâmpada refletia sua luz no aço inoxidável da raspadeira que ele ainda segurava em uma das mãos, a testa repousava de leve na outra.

Novamente, apenas no conforto do abraço firme de tio Tomas ela conseguira se entregar ao pranto, como se ele guardasse algum segredo que era a chave para os transbordamentos de seu luto. Felizmente, ele sempre fora cuidadoso em seus deveres como o guardador dessas comportas.

Se os pais haviam sido livros fechados, para Vanessa, o avô fora uma biblioteca trancada, uma seção proibida, isolada por uma malha de aço vistosamente pintada, que era decorativa na superfície, mas sinistra em seu âmago. Vanessa nunca conhecera uma pessoa mais calada, ainda que sempre sorrisse com doçura quando ela entrava rodopiando na loja depois da escola, a caminho de casa, o apartamento da família ficava exatamente no andar de cima. Ele desviaria o olhar do que quer que estivesse raspando, esticando ou aparando e daria um sorriso distraído, como se tivesse se esquecido de alguma coisa e a chegada dela o fizera alegremente se lembrar. Este seria o momento de um vago aha!

Então, ele abaixaria a cabeça, viraria-se em silêncio, voltando ao trabalho, deixando-a circular pela loja até encontrar a barra de caramelo escondida em um lugar diferente a cada dia.

— Foi assim que aprendi, tanto na loja quanto na minha vida, a olhar além do silêncio e encontrar a doçura — ela me contou.

Mas nenhuma doçura poderia ser encontrada no que Vodca e Alho fizeram a Vanessa naquele quarto escuro de Praga, assim como não houvera doçura nenhuma na morte prematura do pai aos sessenta anos há apenas alguns meses.

Nenhuma doçura e, ainda assim, nenhuma lágrima.

CAPÍTULO 2 – BEM-VINDA A PRAGA

Praga, dezembro de 1991

Eles jogaram Vanessa no chão frio de concreto. Ela deslizou de costas sobre uma camada de dejetos de lixo até que a parte de trás da cabeça bateu na parede de tijolos imunda com um baque tão forte que fez seus dentes chacoalharem.

Sua cabeça desanuviou-se devagar e um silêncio sinistro se seguiu. Seus olhos se ajustaram à semiescuridão, vislumbrando fragmentos de luz flutuando através da porta enferrujada de metal.

As duas silhuetas grandes e toscas que agigantaram-se sobre ela eram suficientemente iluminadas por trás para que pudesse ver a suástica tatuada no pescoço de um deles quando ele se virou sem fazer qualquer esforço para esconder o rosto. Eles encararam-na, como se impressionados com o que haviam realizado até agora, mas inseguros sobre como prosseguir. Finalmente, Alho tomou a liderança, falando num tcheco sem sotaque.

— Então, sua puta, senhorita... — Olhou para a palma de uma das mãos como se lesse o que estava escrito, mas depois decidiu não ler o que tinha lá. Olhou de soslaio para Vodca procurando por encorajamento, virou-se de novo para Vanessa, sorriu – mostrando alguns dentes pretos repugnantes – e adotou um tom de oratória quase formal. — Ah... bem-vinda a Praga, a joia da Boêmia. Como parte do pacote de boas-vindas à nossa cidade para vadias como você, gostaríamos de esclarecer que temos certas regras e costumes locais. A primeira regra é que curiosidade demais pode irritar certas pessoas. — Ele cuspiu nela, virando-se novamente para Vodca, procurando por apoio.

Vodca assentiu, querendo parecer inteligente, esfregando uma mão na outra sem tentar disfarçar a expectativa.

Vanessa pressionou o corpo firmemente contra a parede de tijolos fria e úmida, o que lhe deu uma confiança fraca, apenas devido ao fato de que não era o alto, musculoso e com a tatuagem de suástica que se aproximava.

Alho começou a desafivelar o cinto, olhando para Vodca com uma satisfação maldosa. Com a resistência dela agora suplantada pelo medo visível, ele se sentiu satisfeito consigo mesmo e continuou.

— ...e, como deve saber, historicamente, irritar pessoas em Praga tem provocado algumas consequências desagradáveis.

Prosim — ela gaguejou, em tcheco. — Por favor...

Quando os dois homens se aproximaram mais de Vanessa, o último resquício sombrio de luz deixou o cômodo fétido como um derradeiro suspiro solene.

Wisconsin, 1981

Quando conheci Vanessa Neuman, ela tinha mais perguntas do que respostas e uma clara disposição para fazê-las. Uma vez, cheguei a brincar que a curiosidade insaciável dela fazia-a ser um pouco como um sumidouro intelectual inexaurível, absorvendo qualquer coisa que lhe fosse lançada. Vivia sua vida inquisidora em uma espécie de diálogo interior, onde uma pergunta, inevitavelmente, levava a outra. Uma discussão sobre pintura descascando poderia, com facilidade, descambar para a Alegorias das Sombras, vagar para a vida secreta das abelhas, mudar para os méritos da comida do jantar da outra noite e, depois de tudo, terminar nas ramificações da falcoaria na Mongólia.

Com o passar dos anos, a proporção de perguntas e respostas de Vanessa diminuiu de forma considerável. Em meio a fanáticos, tecnocratas, motoristas de táxi e aqueles clinicamente insanos, ela recebia de volta respostas demais ou eles ignoravam suas perguntas, como se seu depósito intelectual tivesse uma capacidade limitada. Assim, ela afastava-se cada vez mais de mim.

Contudo, o toque de algumas pessoas que cruzam sua vida nunca desaparece completamente. No verão de 1981, mais de uma década antes que eu até mesmo tivesse ouvido a palavra Galeria, Vanessa se tornou uma dessas pessoas.

Eu era um estudante universitário de 19 anos do tipo –Oh, eu sou tão sério –, trabalhando como orientador de crianças com idade entre 15 e 17 anos em um acampamento em meio a uma floresta, duas horas ao norte de Chicago. O terreno amplo do acampamento ficava aninhado às margens de um bairro tranquilo e arborizado que se tornava cada vez mais urbanizado e que surgira ali sem ser convidado. Do outro lado, estendia-se um bosque denso, em cujas profundezas nem mesmo o campista mais aventureiro teria a ousadia de se embrenhar. A leste, a propriedade abarcava um lago com o fundo enlameado e uma praia cuja areia fora trazida de outro lugar. O lago ostentava uma lancha e um catamarã pequeno, sem mencionar várias canoas e barcos a remo conhecidos por proporcionar apenas a ilusão de movimento.

Donna, diretora da região lacustre, controlava o lago. Sua palavra, obrigatoriamente reforçada por um apito de estourar os tímpanos, era absoluta – tão absoluta, e corriam boatos grosseiros, quanto seu traseiro exorbitante que diziam ter, certa vez, esmagado um gatinho errante que fizera uma escolha de vida lastimável ao cochilar na cadeira do salva-vidas.

Vanessa

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