Enjoy this title right now, plus millions more, with a free trial

Free for 30 days, then $9.99/month. Cancel anytime.

Recurso Extraordinário e Especial

Recurso Extraordinário e Especial

Read preview

Recurso Extraordinário e Especial

ratings:
5/5 (1 rating)
Length:
460 pages
5 hours
Released:
Jan 1, 2018
ISBN:
9788577894000
Format:
Book

Description

A presente obra jurídica é constitutiva de título inédito na literatura nacional. Essa afirmativa resulta de que os recursos extraordinário e especial são meticulosamente examinados em três aspectos: constitucional, processual e sumular, o que possibilita ao leitor ter uma visão ampla no que tange às interpretações resultantes dos mencionados tópicos. Ainda, de maneira inusitada, a matéria recursal, que é o objeto desta monografia, é abordada nos campos civil e penal, o que não ocorre com outras obras nesse setor. O estudo, levado a efeito para fins doutrinários, está rigorosamente consubstanciado nos novos regramentos postos no vigente Código de Processo Civil, que ostentam aplicabilidade e adequação, quer no campo civil, quer no criminal, posto ser a única legislação em vigor que disciplina ordinariamente esses meios impugnativos de diretriz constitucional.
Released:
Jan 1, 2018
ISBN:
9788577894000
Format:
Book

About the author


Related to Recurso Extraordinário e Especial

Related Books


Inside the book

Top quotes

  • Di- reito constitucional formal, dissemos, porque só nesse caso adquirem a supremacia própria da Constituição, pois de natureza constitucional mate- rial o serão sempre, como o são todas as normas sobre direitos humanos.

  • Tendo por escopo critério de metodologia, os aspectos processuais serão examinados conjuntamente para o recurso extraordinário e o especial, fazendo- se a respectiva individualização quando essa se revelar necessária.

  • Vencidas essas colocações preliminares, é importante observar que a “lei local” a que faz alusão o permissivo autorizador do recurso extraordinário é aquela de cunho municipal ou estadual.

  • São evidentes os matizes recursais em nível processual do extraordinário, eis que, a exemplo de qualquer modalidade impugnativa, funciona como instru- mento provocador da instância recursal.

  • Devido a seu feito constitucional, o recurso especial guarda uma similitude com o recurso de cassação no direito comparado.

Book Preview

Recurso Extraordinário e Especial - Heráclito A. Mossin

REMISSIVO

Capítulo 1

Aspectos Constitucionais

1.1 Recurso extraordinário

1.1.1 Antecedentes

¹

Analisando contexto histórico envolvendo a Corte Máxima, lembra José Afonso da Silva que:

No império existia o Supremo Tribunal de Justiça, de que Pimenta Bueno disse que era uma instituição mista de caráter político e judiciário, e em que o primeiro predominava mais, por isso mesmo que era o que mais garantias oferecia à ordem social. e acrescentava: A Justiça é uma religião social e o Supremo Tribunal é o grande sacerdote dela, é o guarda de sua pureza, de sua igualdade protetora, o espírito conservador de seus decretos" (Direito Público Brasileiro e Análise da constituição do Império, pp. 336 e 339). Em verdade, não era um órgão de tanta expressão, até porque sua competência era limitada (Constituição do Império, art. 64). Compunha-se de juízes provenientes da Relação, que a ele tinha acesso por antiguidade. Veio a República e o que fez? Trocando, na denominação desse Tribunal, o predicativo de ‘Justiça’ pelo qualificativo de ‘federal’, não lhe tirou o caráter de Tribunal de Justiça, inerente, sobre todos, à sua missão constitucional; senão que, pelo contrário, o ampliou, constituindo o grande Tribunal da Federação (…).²

Embora de maneira passageira, não se pode deixar de enfatizar que o Supremo Tribunal Federal é uma instância de superposição em termos hierárquicos, relativamente a todos os juízes de tribunais do país. Sua posição é de proeminência.

Disso resulta, como consequência, que o recurso extraordinário eleva-se à condição do mais eminente meio impugnativo registrado na legislação brasileira, mesmo porque, por questão de seletividade, está a seu cuidado a guarda dos mandamentos constitucionais, ou seja, da maior legislação nacional.

O atual Supremo Tribunal Federal foi criado no período republicano, através do Decreto nº 848, de 11 de outubro de 1890, que organizou a Justiça Federal.

A Corte era composta por 15 juízes, que poderiam ser tirados dentre os juízes secionais ou dentre cidadãos de notável saber e reputação, que possuam as condições de elegibilidade para o Senado" (art. 5o).

Na esteira do normatizado no art. 9º, do predito Decreto, essa Suprema Corte tinha competência originária ratione personae e materiae e recursal em sentido amplo, abrangendo matéria de direito constitucional e infraconstitucional.

Na área criminal, no que diz respeito à competência funcional vertical do Supremo Tribunal Federal, preceituava o art. 9º, inciso II, alínea c, do predito Decreto: Compete ao Tribunal: julgar em grau de recurso e em última instância: as causas criminais julgadas pelos juízes de secção ou pelo júri federal (art. 9º, inc. II, alínea c").

Por outro lado, esse mesmo Diploma legislativo continha os seguintes regramentos jurídicos:

Haverá também recurso para o Supremo Tribunal Federal das sentenças definitivas proferidas pelos tribunais e juízes dos Estados: a) quando a decisão houver sido contrária à validade de um tratado ou convenção, à aplicabilidade de uma lei do Congresso Federal, finalmente, à legitimidade do exercício de qualquer autoridade que haja obrado em nome da União - qualquer que seja a alçada; b) quando a validade de uma lei ou ato de qualquer Estado seja posta em questão como contrária à Constituição, aos tratados e às leis federais e a decisão tenha sido em favor da validade ou do ato; c) quando a interpretação de um preceito constitucional ou de lei federal, ou da cláusula de um tratado ou convenção, seja posta em questão, e a decisão final tenha sido contrária à validade do título, direito e privilégio ou isenção, derivado de preceito ou cláusula. (parágrafo único, do art. 9º).

Verifica-se pelos termos do art. 9º, inciso II, letra a, do Decreto encimado, que à Colenda Corte competia julgar em grau de recurso – que embora inominado, era na terminologia de hoje ordinário -, as decisões dos juízes de secção, sendo certo que cada Estado, assim como o Distrito Federal, formava uma secção judicial, tendo como sede a respectiva capital e com um só juiz do Tribunal do Júri federal, onde esse órgão jurisdicional funcionava como verdadeira instância de segundo grau, porquanto reexaminava ele toda a matéria fática e de direito submetida à sua apreciação judicante.

Atualmente, em nível de Justiça Federal, as decisões sobreditas comportam recurso para os Tribunais Regionais Federais (art. 108, inciso II, da CF).

Também lhe competia o reexame de matéria exclusivamente de direito, quando afrontasse tratado, convenção, legislação constitucional e infraconstitucional, o que corresponde hodiernamente aos conteúdos do recurso extraordinário, a cargo do Supremo Tribunal Federal e especial de competência do Superior Tribunal de Justiça. O recurso em espécie também era inominado.

A designação recurso extraordinário é de criação pretoriana, eis que assim era o recurso chamado pelo Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, de 08 de agosto de 1891:

"Os recursos extraordinários interpostos das sentenças proferidas em última instância pelas justiças dos Estados ou do Distrito Federal, nos casos expressos nos arts. 59, III, § 1º, e 61 da Constituição, art. 9º, II, letra b, e parág. único, IV, e art. 16 do dec. nº 848, de 11 de outubro de 1890, serão julgados pelo modo atualmente prescritos no art. 221 do dec. nº 1030, de 14 de novembro de 1890, para as revistas manifestadas para o extinto Supremo Tribunal de Justiça."

O art. 59, inciso III, § 1º, da Constituição de 24 de fevereiro de 1891, manteve o recurso, embora com outra redação, porém mantendo seu campo de abrangência:

Das sentenças das justiças dos Estados em última instância haverá recurso para o Supremo Tribunal Federal: a) quando se questionar sobre a validade, ou a aplicação de tratados e leis federais, e a decisão do tribunal dos Estados for contra ela; b) quando se contestar a validade de leis ou de atos dos governos dos Estados em face da constituição, ou das leis federais, e a decisão do tribunal do Estado considerar válidos estes atos, ou essas leis impugnadas.

Por outro lado, a reforma constitucional levada a efeito em 1926, conforme publicação inserta no Diário Oficial da União, de 7 de setembro do ano anteriormente citado, alterou a norma transcrita, dando-lhe a seguinte redação:

"Das sentenças das justiças dos Estados em última instância haverá recurso para o Supremo Tribunal Federal: a) quando se questionar sobre a vigência ou a validade das leis federais em face da Constituição e a decisão do Tribunal do Estado lhes negar aplicação; b) quando se contestar a validade de leis ou de atos dos governos dos Estados em face da Constituição, ou das leis federais, e a decisão do tribunal do Estado considerar válidos esses atos, ou essas leis impugnadas; c) quando dois ou mais tribunais locais interpretarem de modo diferente a mesma lei federal, podendo o recurso ser também interposto por qualquer dos tribunais referidos ou pelo procurador geral da República; d) quando se tratar de questões de direito criminal ou civil internacional.³

Em termos de legislação ordinária, a expressão recurso extraordinário apareceu na Lei nº 221, de 20 de novembro de 1894: Só tem efeito devolutivo (o recurso extraordinário) e a forma de seu julgamento é determinada no Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal.

Convém deixar patenteado, mesmo que seja exclusivamente para efeito histórico, que o Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, de 08 de agosto de 1891, previa hipóteses de não conhecimento do recurso extraordinário, se constituindo, portanto, em óbice regimental:

no julgamento destes recursos o Tribunal verificará preliminarmente se o julgado recorrido se compreende em alguma das espécies definidas nos artigos da Constituição e do dec. nº 848, a que se refere o art. 99 deste capítulo. Decidida a preliminar pela negativa, não tomará conhecimento do recurso; se pela afirmativa, julgará o feito, sem que, todavia, a decisão, confirmatória ou revogatória da sentença recorrida envolva questão diversa ou independente daquela, em que a mesma sentença for contrária à aplicação invocada de lei ou tratado federais, à validade de alguns dos seus preceitos ou cláusulas, à de título, direito, privilégio ou isenção que deles se derive, à legitimidade do exercício de autoridades investidas em funções federais, ou em favor da validade de leis ou atos dos governos dos Estados que tenham sido impugnados por ofensivos à constituição, lei, ou tratado federais. (art. 102).

A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 16 de junho de 1934, em seu art. 76, nº 2, inciso III, deu uma amplitude maior ao recurso extraordinário, ao qual cabia das decisões das justiças locais em única ou última instância:

a) quando a decisão for contra literal disposição de tratado ou de lei federal, sobre cuja aplicação se haja questionado; b) quando se questionar sobre a vigência ou a validade de lei federal em face da Constituição, e a decisão do tribunal local negar aplicação à lei impugnada; c) quando se contestar a validade de lei ou ato dos governos locais em face da constituição, ou de lei federal, e a decisão do tribunal local julgar válido o ato ou a lei impugnado; d) quando ocorrer diversidade de interpretação definitiva de lei federal entre Cortes de Apelação de Estados diferentes, inclusive do Distrito Federal ou dos Territórios, ou entre um destes tribunais e a Corte suprema, ou outro tribunal federal.

A Constituição dos Estados Unidos do Brasil, decretada a 10 de novembro de 1937, durante o chamado Estado Novo, reproduziu praticamente os permissivos do recurso extraordinário previstos na carta Política Federal de 1934, inovando no que diz respeito à divergência de interpretação da mesma lei federal entre os tribunais de Apelação de Estados diferentes, do Distrito Federal ou dos Territórios e o Supremo Tribunal Federal.

A matéria sobre recurso extraordinário encontrava-se insculpida no art. 101, inciso III, dessa Magna Carta, in integrum:

Ao supremo Tribunal Federal compete: julgar, em recurso extraordinário, as causas decididas pelas justiças locais em única ou última instância: a) quando a decisão for contra a letra de tratado ou lei federal, sobre cuja aplicação se haja questionado; b) quando se questionar sobre a vigência ou validade de lei federal em face da Constituição, e a decisão do tribunal local negar aplicação à lei impugnada; c) quando se contestar a validade de lei ou ato dos governos locais em face da Constituição, ou de lei federal, e a decisão do tribunal local julgar válida a lei ou o ato impugnado; d) quando decisões definitivas dos Tribunais de Apelação de Estados diferentes, inclusive do Distrito Federal ou dos Territórios, ou decisões definitivas de um destes Tribunais e do Supremo Tribunal Federal derem à mesma lei federal inteligência diversa.

No fluir da Constituição de 18 de setembro de 1946, a matéria sobre o apelo extremo basicamente ficou sendo a mesma, somente simplificando o legislador constituinte as redações das alíneas a e c da Carta revogada:

Ao Supremo Tribunal Federal compete: julgar em recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância por outros tribunais ou juízes: a) quando a decisão for contrária a dispositivo desta Constituição ou a letra de tratado ou lei federal; b) quando se questionar sobre a validade de lei federal em face desta Constituição, a decisão recorrida negar aplicação à lei impugnada; c) quando se contestar a validade de lei ou ato de governo local em face desta Constituição ou de lei federal, e a decisão recorrida julgar válida a lei ou o ato; d) quando na decisão recorrida a interpretação da lei federal invocada for diversa da que haja dado qualquer dos outros tribunais ou o próprio Supremo Tribunal Federal. (art. 101, inciso III).

Nos passos da Legislação Máxima de 24 de janeiro de 1967, o recurso extraordinário ficou consubstanciado diante dos seguintes pórticos:

Compete ao Supremo Tribunal Federal: julgar mediante recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância por outros tribunais ou juízes, quando a decisão recorrida: a) contrariar dispositivo desta Constituição ou negar vigência de tratado ou lei federal; b) declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal: c) julgar válida lei ou ato de governo local contestado em face da Constituição ou de lei federal; d) dar à lei interpretação divergente da que lhe haja dado outro tribunal ou o próprio Supremo Tribunal Federal (art. 114, inciso III).

O Ato Institucional nº 6º, de 1º de fevereiro de 1969, deu ao inciso III, do art. 114, acima transcrito, a seguinte redação:

Julgar, mediante recurso extraordinário, as causas decididas, em única ou última instância, por outros Tribunais, quando a decisão recorrida: a) contrariar dispositivo desta Constituição ou negar vigência a Tratado ou Lei Federal; b) declarar a inconstitucionalidade de Tratado ou Lei Federal; c) julgar válida Lei ou Ato do Governo local, contestado em face da Constituição ou de Lei Federal; d) dar à Lei Federal interpretação divergente da que lhe haja dado outro Tribunal ou o próprio Supremo Tribunal Federal.

Na Constituição da República Federativa do Brasil de 5 de outubro de 1988, a matéria enfocada ficou inserida no texto constitucional com os seguintes dizeres:

Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição cabendo-lhe: julgar mediante recurso extraordinário, as causas decididas em única ou última instância, quando a decisão recorrida: a) contrariar dispositivo desta Constituição; b) declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal; c) julgar válida lei ou ato de governo local contestado em face desta Constituição.

Como se observa, à eloquência, os contornos do recurso extraordinário foram substancialmente reduzidos, servindo-lhe de conteúdo, exclusivamente, matéria relativa à questão constitucional, em função da criação do Superior Tribunal de Justiça e por via de consequência com o surgimento do recurso especial, ancorado no art. 105, inciso III, da Carta Política Federal, o qual contém em seu bojo questão de direito federal infraconstitucional.

1.1.2 Recurso assemelhado no direito comparado

Provém de Florêncio de Abreu a assertiva segundo a qual,

"o recurso extraordinário foi inspirado no writ of error Americano: "posto se encontre, sob certos aspectos, acentuada analogia entre o antigo recurso de revista e o recurso extraordinário, filia-se ele, não àquela, mas ao remédio (writ of error) instituído nos Estados Unidos da América do Norte pelo Judiciary Act, seção 25, de 24 de setembro de 1789. O art. 9º do dec. nº 848, de 1890, que organizou a Justiça Federal, adotou o texto relativo ao writ of error da citada lei norte-americana, com o acréscimo da expressão aplicabilidade ao termo vality, expressão que depois foi substituída pelo vocábulo aplicação na Constituição de 24 de fevereiro de 1891."

Na mesma esteira se posiciona José Afonso da Silva:

"Mas sua fonte mais remota foi o writ of error que se interpõe para Suprema Corte dos Estados Unidos contra decisões dos Tribunais Estaduais contrárias à Constituição. Trata-se de um juízo de controle de constitucionalidade que conota o método difuso. Mas seu ingresso no ordenamento jurídico brasileiro não teve apenas essa característica, porque, além da supremacia constitucional ferida por decisões de juízos inferiores, cumpria também o papel de proteger a incolumidade e a uniformidade de interpretação do direito objetivo federal (…)."

Em passagem anterior restou transcrito o parágrafo único do art. 9º, do Dec. nº 848, de 1890, tornando-se aconselhável, agora, fazer-se colocações dos permissivos do writ of error, para que se observe de forma real e efetiva seu aproveitamento na legislação nacional.

A lei norte-americana de 24 de setembro de 1789 (Judiciary Act), seção 25, declara que todo o julgamento ou decisão (decree) definitivo proferido pelo mais alto Tribunal de Justiça de um dos Estados da União pode ser reexaminado e revogado ou confirmado pela suprema Corte, mediante recurso de erro (writ of error): quando se questionar sobre a validade de tratado ou de lei da União, ou de autoridade exercida por essa (an authority exerciced the United States), e a decisão da justiça local for contrária à validade; quando se questionar sobre a validade de lei, ou de ato emanado da autoridade de algum Estado, em face da Constituição, ou de lei ou tratado da União, e a decisão for favorável à validade; quando se questionar sobre título, direito, privilégio ou isenção reclamados com apoio em interpretação de preceito da Constituição, de tratado, lei ou concessão de direitos da União (of any clause of the Constitution, or of a treatry or Statute of, or commission held under the United States), e a decisão for contrária ao título, direito, privilégio ou isenção reclamados pelos litigantes.

Como devidamente ponderado por Adalberto José Q. T. de Camargo Aranha, relativamente ao Judiciary Act transcrito ipisis verbis et virgulis,

o objetivo era um só: a obediência ao princípio da hierarquia das leis, assegurando a autoridade e a unidade das leis federais quando de sua aplicação pelos tribunais locais. Tal objetivo, aqui em nossa terra, foi alcançado com o advento da República, através do Decreto nº 848/80, que organizou a Justiça Federal, criou o Supremo Tribunal Federal e a ele deu, entre outras, a competência de conhecer e decidir um recurso especial (nascido inominado), idêntico ao norte-americano.

1.1.3 Natureza jurídica e definição

Linguisticamente extraordinário, é tudo aquilo que foge do usual ou do previsto; que não é ordinário, fora do comum.

A frase que não é ordinário parece a mais adequada para sintonizar a natureza jurídica do meio impugnativo estudado.

Na legislação brasileira, os recursos classificam-se de maneira múltipla, distinguindo-se, basicamente, em ordinário, extraordinário e regimental.

No âmbito do tema jurídico alinhavado, interessa mais de perto extremar o recurso ordinário do extraordinário.

Na visão da doutrina,

"a denominação recurso ordinário, numa primeira acepção, pode indicar, entre nós, aquele que tenha por objeto próximo a proteção do direito subjetivo do recorrente, enquanto que o recurso extraordinário se aponta aquele que vise a proteger, antes de mais nada, o direito subjetivo, e só mediatamente o do recorrente. Nesse sentido, são extraordinários tanto o recurso extraordinário, para o Supremo Tribunal Federal, quanto o recurso especial. para o Superior Tribunal de Justiça. Todos os demais são ordinários."

Nessa linha de entendimento, o recurso extraordinário assume múltiplas facetas jurídicas.

É um meio impugnativo constitucional, mais propriamente dito de direito processual constitucional, posto que sua previsão encontra-se inserida na Carta Política Federal (art. 102, inciso III).

Apresenta-se ele com características de excepcional, porquanto não se presta, como acontece com os recursos ordinários, a reexaminar questões de fato e de direto, mas, unicamente, as iuris. Logo, para simples reexame de provas não cabe o extraordinário. (Súmula, 279, do STF).

Com efeito,

"entre nós, o recurso extraordinário, dirigido ao Supremo Tribunal Federal, e o recurso especial, para o superior Tribunal de Justiça, constituem impugnações extraordinárias exatamente em função das características acima apontadas: são meios de impugnação que estão à disposição das partes, mas que visam na verdade à tutela do próprio direito federal; prestam-se somente ao reexame de questões de direito, excluída a análise de matéria de fato (…)."¹⁰

De forma indubitável, do ponto de vista constitucional e até mesmo processual, a característica mais marcante do reclamo nobre é que ele, como meio impugnativo, somente se converge à questão de direito, não incidindo, de maneira alguma, em questão de cunho fático, que deve ficar a critério da via impugnativa ordinária. Assim é que se constitui pressuposto para o conhecimento do apelo extremo o exaurimento dos recursos ordinários.

Não bastasse isso, se distingue ele também das impugnações comuns, porquanto para interpô-lo não basta singularmente a existência de gravame, mas sim devem ser observados os permissivos constitucionais a ele inerentes. (art. 102, nº III, letras a, be c).

Além disso, sua admissibilidade pressupõe o vencimento de determinados óbices jurisprudenciais, como exemplificadamente acontece com as Súmulas do Supremo Tribunal Federal relativas à interpretação razoável da lei federal (400), esgotamento prévio das instâncias ordinárias (281), prequestionamento (282), a exigência de embargos declaratórios sobre os pontos omissos do julgado para efeito de prequestionamento (356), deficiência de sua fundamentação (284), quando a decisão recorrida se assentar em mais de um fundamento suficiente e o recurso não tenha abrangido todos eles (283).

É um recurso processual, eis que se coloca "à disposição do sucumbente, em relação ao qual exerce a função de provocar o reexame de decisões em que se controverte uma questão federal. Ao Supremo Tribunal Federal se devolve o conhecimento da questão federal controvertida e, decidindo-a, decidirá concomitantemente a lide que nela se comporta. Conhecendo do recurso e dando-lhe provimento o Supremo Tribunal Federal, em resguardo mesmo da autoridade e unidade da Lei Fundamental, proferirá nova decisão sobre a causa, aplicando a lei ao caso concreto."¹¹

São evidentes os matizes recursais em nível processual do extraordinário, eis que, a exemplo de qualquer modalidade impugnativa, funciona como instrumento provocador da instância recursal. Sem ele haverá a preclusão das vias impugnativas. Assim, contém ele todos os aspectos de reexame, que é o fim último de todo recurso.

O atual recurso extraordinário, tendo em vista seus permissivos constitucionalmente estabelecidos, objetiva de forma primária salvaguardar a supremacia da Constituição Federal, não permitindo que seja ela maculada por decisões provindas de outros Juízos, quer em matéria de competência originária, quer recursal.

Em linhas gerais, é função do recurso extraordinário manter inviolável a autoridade da Magna Carta, cuja tarefa jurisdicional fica a cargo do Supremo Tribunal Federal.

Tanto isso se constitui em uma verdade inquestionável, que o próprio legislador constituinte afirma competir à Excelsa Corte a guarda da Constituição (art. 102, caput).

Não resta a menor dúvida, por outro lado, que o recurso extraordinário não se eleva unicamente à condição de instrumento de índole processual capaz de provocar a atividade judicante do Supremo Tribunal Federal com o fim último de reexaminar questão de ordem constitucional, mas também é um poderoso mecanismo de caráter político, eis que por seu intermédio essa Corte restabelece a ordem jurídica constitucional diretamente infringida, bem como limita a legislação local frente à constitucional e os direitos e interesses da União frente às relações internacionais. Enfim, sua função política é manter a unidade, a coesão entre a União e os Estados da federação no que concerne às normas de caráter constitucional.

Assim sendo, é de constatação segura que o recurso extraordinário tem seu caráter político:

"Do exame dos pressupostos do recurso extraordinário, e mui especialmente do referente à questão federal controvertida, ressalta que sua função é tutelar a autoridade e unidade da Lei Maior. E exerce essa função, assegurando a inteireza positiva, a validade, a autoridade e a uniformidade de interpretação da Constituição. Assim, a finalidade do recurso extraordinário é eminentemente política, o que mais se evidencia ao considerar-se que o recurso tem assento na Constituição, que disciplina a sua incidência e o torna insuscetível de extensão ou restrição por lei ordinária."¹²

Diante dos elementos apontados, pode-se afirmar que o recurso extraordinário tem, como a natureza jurídica, os traços de um recurso constitucional (direito processual constitucional), processual e de caráter político.

Essas suas características elementares são fatores suficientes para defini-lo como sendo um recurso constitucional, processual e de caráter político, cujo fim último é assegurar a autoridade e unidade da Magna Carta Política Federal, função institucional da Excelsa Corte.

1.1.4 Base normativa

¹³

Preceitua o art. 102, inciso III, letras a, b e c da Constituição Federal: Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente a guarda da Constituição, cabendo-lhe julgar, mediante recurso extraordinário as causas decididas em única ou última instância, quando a decisão recorrida: contrariar dispositivo desta constituição; declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal; julgar válida lei ou ato de governo local contestado em face desta Constituição.

1.1.4.1 Considerações

Em nível de pressupostos constitucionais, verifica-se, pelo texto magno transcrito, que seu legislador faz menção às causas decididas em única ou última instância. Desta forma, o recurso extraordinário incide sobre a decisão prolatada em única ou última instância, que tenha causado sucumbência ao sujeito processual recorrente e que tenha violado a Lei Fundamental da República.

Etimologicamente, causa, na técnica processual, confunde-se com demanda, empregam-se como vocábulos equivalentes. E essa acepção vem de que a causa é o fundamento legal do direito que se quer fazer valer perante a autoridade judiciária.

Assim, causa, a razão, extensivamente, passou a designar o processo judicial que, por ela, a causa, a razão, o motivo é intentado, sendo, pois, equivalente a litígio. Nesse sentido também se consagrou.

Na área penal, essa causa pode advir de processo de competência originária do tribunal ou de sua competência recursal; enquanto que, no cível, pode essa demanda provir tanto em processo de jurisdição contenciosa como de jurisdição voluntária.

Outrossim, consoante se dessume do comando normativo copiado, o apelo excepcional é permitido quando a decisão provier de única ou última instância. Portanto, para que o extraordinário seja admitido indeclinável, torna-se que o decisum seja de última instância, ou seja, que tenha ocorrido o exaurimento dos recursos ordinários. Enfim, que esteja preclusa a instância comum, in casu, a de segundo grau.¹⁴ Entretanto, a interpretação que deve ser conferida à última instância deve compreender em seu bojo os pronunciamentos das turmas recursais de juizado especial civil e criminal, proferidos em decorrência de recurso ordinário de apelação (art. 82, caput, Lei n. 9.099 de 26.09.1995), que são, inexoravelmente, de primeiro grau de jurisdição.

Por sua vez, o termo "única" deveria ser empregado quando do julgamento de pedido contido em ação que se procedimenta diretamente junto ao tribunal de segundo grau, em nível de competência originária, logicamente com inclinação à matéria criminal. Todavia, estão incluídas na expressão única as decisões de juiz singular em nível de alçada.

O que está sendo discorrido e afirmado assenta-se daquilo que se encontra vertido no Verbete 640 da Colenda Corte, prevendo que o apelo extremo tem adequação tratando-se de decisão proferida por juiz de primeiro grau nas causas de alçada ou por turma recursal de juizado especial civil e criminal.

Sob outro ângulo analítico, a decisão a que faz alusão o legislador constituinte pode ser aquela dimanada dos colegiados judicantes togados de segundo grau (Tribunal de Justiça, Regional Federal, Tribunal de Justiça Militar) e Tribunais Superiores (Superior Tribunal de Justiça, Superior Tribunal Militar, Tribunal Superior Eleitoral), bem como aquelas relativas à alçada e de juizados civil e criminal.

Aliás, o texto constitucional de regência não distingue se a decisão impugnada via extraordinário é singular ou colegiada togada, mas refere-se unicamente à última e única instância, diferentemente do que acontece relativamente ao recurso especial em que o legislador constituinte faz menção expressa a tribunais (togados) (art. 105, inc. III).

Em circunstâncias desse matiz, essa decisão há de receber o nome de acórdão, o qual se constitui na denominação técnico-processual de julgamento proferido por tribunal, enquanto que sentença é a decisão prolatada pelos órgãos jurisdicionais monocráticos de primeiro grau.

Outrossim, exsurge da norma constitucional sob consideração que outro pressuposto que informa o recurso extraordinário é a existência de uma questão federal, "como tal se entendendo uma quaestio iuris sobre a Constituição. A questão federal será a consistente numa das questões de direito abrangidas nas várias alíneas do item III do art. 102 da Constituição. Caberá recurso extraordinário de acórdão que ofenda a autoridade ou a unidade de incidência ou inteligência da Constituição."¹⁵

De forma incontroversa,

"tratando-se, como já afirmado, de remédios recursais de cunho sobretudo político, que visam primordialmente à tutela do próprio direito objetivo editado pela União, é natural e intuitivo que somente a discussão a respeito

You've reached the end of this preview. Sign up to read more!
Page 1 of 1

Reviews

What people think about Recurso Extraordinário e Especial

5.0
1 ratings / 0 Reviews
What did you think?
Rating: 0 out of 5 stars

Reader reviews