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Treinamento Corporal Humano: Fundamentos Para a Prática de Exercícios e de Esportes

Treinamento Corporal Humano: Fundamentos Para a Prática de Exercícios e de Esportes

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Treinamento Corporal Humano: Fundamentos Para a Prática de Exercícios e de Esportes

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1/5 (1 rating)
Length:
502 pages
7 hours
Publisher:
Released:
Nov 19, 2018
ISBN:
9788547323776
Format:
Book

Description

Com foco no papel pedagógico necessário a todos os professores e professoras de educação física, além de atender aos estudiosos e interessados no treinamento, este livro reúne os conteúdos clássicos do treinamento esportivo apresentados agora por uma visão contemporânea, estabelecendo relações diretas entre o científico e a vida cotidiana do profissional que trabalha com atletas profissionais e amadores, ou não atletas. É a perspectiva de atuação para a busca do treinamento corporal humano, muito mais abrangente e, ao mesmo tempo, seletivo aos objetivos específicos de cada pessoa. Uma obra completa, moderna e atualizada. Imprescindível na biblioteca de quem atua na escola ou nos ambientes esportivos e de práticas corporais saudáveis.
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Nov 19, 2018
ISBN:
9788547323776
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Treinamento Corporal Humano - Anselmo José Perez

Editora Appris Ltda.

1ª Edição - Copyright© 2018 dos autores

Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.

Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98.

Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores.

Foi feito o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nºs 10.994, de 14/12/2004 e 12.192, de 14/01/2010.

COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO EDUCAÇÃO FÍSICA

Por ser uma obra acadêmica e educativa, dedico a dois personagens marcantes, seres humanos, mestres, conselheiros e amigos: Prof. Dr. Manoel José Gomes Tubino (in memoriam), que me permitiu ingressar na vida acadêmica por meio da disciplina Treinamento Esportivo; e Prof. Walter Figueira Junior, que me possibilitou trabalhar e me apaixonar pela natação e pelo treinamento. Mais do que técnico, é um grande educador.

Além disso, dedico àqueles que me permitiram a vida: meu pai, Dorival Perez, e minha mãe, Maria Conceição Boratto.

Gratidão a todos os meus alunos e alunas, e aos que me ajudaram a crescer nesta vida: minha irmã Regina; meus filhos Lucas e Tomás.

Ao meu presente e futuro: Kamilla.

O essencial é o mesmo para todos. É aquilo que não pode não ser, aquilo que dá sentido à minha vida na dupla acepção do termo, significado e direção, ou seja, amizade, lealdade, religiosidade, sexualidade, felicidade, fraternidade, honestidade. Precisamos de sentido para o que fazemos enquanto não morremos, para que a vida não seja vazia e desperdiçada. Difere do fundamental, que apoia o essencial, como carreira e dinheiro.

(Mário Sérgio Cortella – filósofo)

O passado é para ser lembrado, o presente para ser vivido e o futuro para ser planejado.

(Anselmo José Perez)

APRESENTAÇÃO

Não é de hoje que o rendimento dos atletas que competem em alto nível, incluindo competições como Jogos Olímpicos, campeonatos mundiais, Copa do Mundo de Futebol, entre outras, chama a atenção e leva milhões de pessoas a se interessarem pelos esportes. A busca de um novo recorde, de uma vitória, de uma superação de desempenho pessoal ou coletiva emociona, intriga e estimula homens e mulheres a praticar esportes ou qualquer movimento corporal que proporcione essas reações.

Os atletas contemporâneos não surgem do nada, e as competições, por sua vez, envolvem profissionalismo, recursos econômicos e geram empregos e renda. Por outro lado, como se trata de um fenômeno social, é um processo sujeito aos problemas sociais e exige também uma visão educativa na sua análise, somando-se às competências de aplicação dos conteúdos técnicos e biológicos.

Considerando a necessidade de ampliação do enfoque e do trato pedagógico ao treinamento esportivo, este livro é apresentado aos professores de Educação Física sob um novo olhar que poderá reforçar paradigmas ou ajudar a revê-los, por exemplo, a necessidade de treinar somente para competir, ou só para atingir altos desempenhos. Isso permitirá a atuação de um novo treinador e, consequentemente, de um novo atleta, com maior compromisso e responsabilidade social para rever valores humanizadores, como diria Rubem Alves (CERVANTES-ORTIZ, 2005).

Do ponto de vista da educação, valores humanos e humanizadores serão foco do conteúdo pensando no exercício do ato de educar. Dessa forma, a ética pedagógica tem como objetivo a formação de cidadãos participativos e conscientes, pessoas responsáveis e solidárias com o coletivo, com autonomia intelectual, cientes de seus direitos e deveres no seu ambiente social, enfrentando o desafio de instalar, no processo de ensino e aprendizagem que se realiza em cada uma das áreas de conhecimento, uma constante atitude crítica, de reconhecimento dos limites e possibilidades dos sujeitos e das circunstâncias, de problematização das ações e relações e dos valores e regras que os norteiam.

Além disso, por se tratar de uma obra acadêmica, o conhecimento a ser estimulado para a aplicação do processo pedagógico neste livro será o científico, mesmo sabendo que alguns assuntos estarão apoiados em fatos empíricos e descrições de vivências daqueles que já praticaram o treinamento esportivo com ética pedagógica nas diversas formas de manifestações do movimento corporal na sociedade: esportes, jogos, danças etc. Algumas informações terão a citação, outras não.

O treinamento esportivo será aqui tratado como treinamento corporal humano e como conteúdo específico da ação do professor de Educação Física para a educação, independente do ambiente em que ocorra o seu trabalho.

Por sua complexidade, assim como todas as ações humanas, o treinamento corporal humano deve ser compreendido a partir das diversas ciências que contemplam a sua análise, seja no âmbito biológico, seja no social (social como a abrangência da participação de homens e mulheres na produção cultural, econômica e política). Assim, entende-se que se trata de um fenômeno sociocultural e biológico abrangente e complexo que, como conteúdo da Educação Física, poderia ser denominado não simplesmente de treinamento esportivo, mas de treinamento corporal humano, como forma mais abrangente e em respeito às diversas dimensões e manifestações corporais. Nessa acepção, torna-se uma proposta de livro inédita, não pelos pressupostos éticos e educativos que serão descritos, mas pela forma de explorar esses pressupostos na sua abordagem pedagógica.

Esta publicação não poderia se iniciar de forma diferente a não ser pela apresentação de qual é esse corpo humano que se pretende treinar e educar, considerando que a essência de convivência social é, exatamente, a corporeidade da pessoa, e não conceitos, métodos, conteúdos e meios de treinamento, que devem atender aos significados e sentidos das pessoas. Assim, no primeiro capítulo, discorre-se sobre como o ser humano se expressa por meio do movimento corporal em nossa sociedade. No segundo, apresenta-se a construção do conhecimento sobre o treinamento esportivo como produção histórica e educativa necessária à didática dos professores de Educação Física, o conceito de treinamento e de treinamento esportivo, além dos componentes que fazem parte do treinamento de alto rendimento e que precisam ser ensinados e não, necessariamente, treinados, possibilitando o treinamento corporal humano como meio de educação. Para aproveitar os conhecimentos já apreendidos por homens e mulheres em seguida, o terceiro capítulo esclarece quem poderá aplicar esses conhecimentos como atleta ou na condição de não atleta, evitando equívocos e informações ainda distorcidas. No quarto capítulo, expõem-se os princípios do treinamento, divididos em biológicos e organizacionais, que são a base de toda aplicação das preparações do treinamento além de sua periodização. Os capítulos seguintes, do quinto até o nono, são apresentados, em detalhes, os conteúdos relacionados com os componentes de um treinamento, ou seja, as preparações técnico-tática, física e psicológica, o controle do treinamento e as variáveis influenciadoras e condicionantes, permitindo um aprofundamento para ir além do estudo teórico em direção às aplicações. Com o intuito de ampliar a apropriação do conhecimento sobre o assunto para instrumentalizar pedagogiamente o professor de Educação Física, o décimo capítulo discorre sobre como estruturar um plano de treinamento de alto rendimento e sua organização, contando com uma discussão sobre planejamento e exemplos de periodizações do treinamento, além de discutir a adequação e aplicação a não atletas também, como direito do cidadão aos benefícios. No sentido da busca de descrição da realidade brasileira, enfatizando a necessidade de se ensinar esse conteúdo para os alunos, o capítulo seguinte apresenta o tema formação do atleta e planejamento em longo prazo, com modelos utilizados no Brasil e sugestões sobre essa organização. Por fim, no último capítulo, há uma proposta de como ensinar os conteúdos do treinamento esportivo, aqui treinamento corporal humano, nas diversas etapas do ensino. Não é um modelo e nem uma finalização do assunto, mas é, com certeza, uma proposta a ser analisada. Permitam-se e apreciem.

PREFÁCIO

Para iniciar, quero dizer que a vida é feita de momentos e escolhas. Cada um tem as suas características e peculiaridades. Não nascemos prontos e vamos construindo a nossa história com a ajuda daqueles com quem convivemos. O que apresento como conteúdo neste livro é exatamente o fruto de todo o aprendizado que fui obtendo durante esses anos de vida em relação ao treinamento esportivo. Esta obra representa todo o meu esforço para a compreensão do conteúdo analisado e colaboração, dentro dos meus limites, a partir não só das influências dos autores dos livros e artigos que estudei, mas também das vivências enriquecedoras com as pessoas com as quais convivi até o momento, principalmente meus atletas e alunos. Isso continuará porque a gente sempre aprende no transcurso da vida.

Portanto, além dos meus pensamentos, dos meus diálogos com os diversos autores, das citações acadêmicas e das ideias nas entrelinhas, você, leitor, poderá perceber a minha trajetória de vida.

Quando criança, eu sempre gostei de correr, saltar, lançar e descobri a bola que me permitia, por meio do jogo, fazer tudo isso: brincar e movimentar o corpo cheio de energia e alegria. É claro, como a maioria dos garotos brasileiros, queria ser jogador de futebol. Até a fase da adolescência esse era o meu sonho. Nunca aceitei injustiça e violência e, no futebol, vivia muito isso. Eu vi colegas com poucos recursos financeiros, quase desnutridos, esforçando-se para tentar realizar um sonho. Tive outro colega com o apelido de Zé Gato, em referência às ações de roubo que ele cometia nos mercados. Meninos de pés descalços que abriam mão do horário de ir à escola para ficar em filas de peneiras de clubes. Exploração de jovens em todos os sentidos. Muita inveja, individualismo, egoísmo, valorização do ter e não ser.

Mas convivi também com pessoas humanas e sérias, jogadores e professores/técnicos, que discordavam de tudo isso. E também lutavam contra as injustiças e eram contra a violência. O estopim para eu desistir do sonho de menino de ser jogador de futebol, aos 16 anos, foi perceber que muitos adolescentes eram levados ao mundo das drogas ilícitas para conseguir tal oportunidade, a grande chance e outras promessas que permitiriam riqueza e status social. Aí não deu mais. Tudo que eu havia pensado sobre o esporte era que seria um meio saudável de vida, e não de morte. Ao mesmo tempo, percebi que gostava de ensinar, o que me remetia à ideia de ser professor para corrigir os erros e não permitir, por meio do meu trabalho, as injustiças e violências. Tive exemplos de professores de Educação Física que agiam assim e fui me encantando com a possibilidade de trabalhar com a educação. Achava que, se eu fosse um jogador famoso, poderia ajudar as pessoas com o meu exemplo. Então mudei a ideia de ser profissional de futebol para ser treinador competente e bem-sucedido.

Nesses anos de vida de adolescente para adulto, aprendi e treinei as modalidades: futebol, futsal, karate-do, handebol, natação e corrida de rua. Vivenciei ser técnico de natação e de corrida de rua. Pesquisei sobre essas duas modalidades. Sou professor desde 1980 e, nessa sociedade injusta e desigual, a educação não é prioridade. Ser professor é uma mistura de sentimentos e, no final, ainda sobram os sonhos e a esperança. Vou envelhecer. Como idoso espero ainda ter sonhos. Ter sido professor de tantos alunos e alunas incríveis me fez crescer. Ser professor é estimulador e gratificante.

Pois bem, não fiquei famoso, até mesmo porque aprendi com as leituras do filósofo Rajneesh Chandra Mohan Jain, conhecido por Osho, que devemos ser simples, quem somos, não havendo necessidade de ser importantes e que a única necessidade é ser real. Ser real é existencial. Ser importante é viagem do Ego. Porém penso que ajudei e ensinei muitas pessoas nessa minha trajetória e isso me permite, hoje, apresentar a minha visão sobre o treinamento esportivo. Acredito ser uma forma de ajudar as pessoas por meio de um conteúdo específico nesse imenso mar de conhecimentos para a educação.

Para você, leitor, eu espero que goste da proposta e aproveite minhas explanações de alguma forma para a sua vida profissional e pessoal. Como disse, não nascemos prontos; o que somos hoje é fruto do que vivemos pelo caminho. Por isso, o texto do livro será apresentado no modo impessoal, considerando que não são coisas novas ou inventadas por mim. O máximo que farei será mostrar o conteúdo com uma lente diferente daquela que costumeiramente é apresentada em outros livros de treinamento esportivo que servirão de referencial teórico para esta minha descrição. São anos acumulados e experiências vividas com os milhares de alunos e alunas que tive a oportunidade de conviver. Foram eles e elas, juntamente com os colegas de trabalho, que me inspiraram e me motivaram escrever essa obra. Apresentarei sugestões e propostas que ainda não foram apontadas em outras obras e reunirei conteúdos científicos adequados ao trabalho prático do profissional de educação física.

Durante o texto isso ficará claro. Por exemplo: a Bioquímica é a base do conhecimento dos estudos a respeito do gasto energético durante o exercício. Sabe-se que é necessário aproximadamente 125 kcal para se correr uma milha e que o sistema da glicólise anaeróbica pode fornecer apenas de dez a vinte por cento disso; sendo assim, para não haver acúmulo de ácido lático, o sistema aeróbico precisa ser treinado suficientemente. Simples assim. O conhecimento do treinamento em seus aspectos biológicos já está muito bem descrito. Acontece que esse conhecimento nem sempre é estudado de maneira suficiente pelo profissional da área de Educação Física para diferenciá-lo de um aplicador prático de exercícios corporais.

E não é só isso. Há uma tendência na Educação Física de se seguir modismos e rótulos, tanto no consumo de informação, no qual o que vale são os artigos bombásticos que resolvem os problemas imediatamente ou apresentam novos métodos de treinamento. Um exemplo do que estou falando é a moda do treinamento intervalado de alta intensidade (high intensity interval training (HIIT)) (LAURSEN; JENKINS, 2002), que a maioria dos profissionais não sabe utilizar, pois desconhece o que é necessário para permitir que o aluno/atleta chegue às condições mínimas para realizar esse tipo de treinamento e aproveitar os seus benefícios, sem os desconfortos e malefícios que ele pode causar. Aí, saem repetindo o que ouvem e o que veem. Além disso, não há fórmulas milagrosas ou soluções e caminhos únicos. O que é bom para uma pessoa, para um grupo, pode não ser para outra, ou para outros.

Assim, saber filtrar as informações chamadas científicas também é importante. As produções de dissertações e teses estão sendo estimuladas a serem publicadas em revistas científicas quase que de forma industrial. Não é incomum se deparar com pesquisas de difícil aplicação e compreensão de seu verdadeiro significado sociocultural. Há falta de pesquisas para respostas a problemas práticos, inclusive na área do treinamento esportivo.

A minha formação de pesquisador permite lembrar que as inferências de informações científicas devem ser feitas com cautela. Por isso, em alguns momentos, darei preferência às referências de livros com conhecimentos já devidamente sabatinados pelas regras acadêmicas, como descritas pelo Colégio Americano de Medicina do Esporte (CAME, 2003, 2005), denominado/abreviado em nosso país pela sigla em inglês de AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE (ACSM). Por vezes, poderão se perguntar: mas não existe coisa mais recente? As pesquisas não evoluem rapidamente? É claro que a reposta é um sim, porém cada pesquisa isolada deve ser replicada para ampliar a sua capacidade de inferência e, após um conjunto de ensaios clínicos randomizados, formando um abundante grupo de dados, é que se pode, responsavelmente, aplicá-la à população. Não abrirei mão do conhecimento científico (FOSTER; ANHOLM; BEST et al., 2016), mas, para aprofundar cada um dos temas aqui apresentados, seriam necessárias milhares de páginas. Por isso, convido o leitor e a leitora a ficar atentos aos termos-chave de cada capítulo para busca constante de novas descobertas científicas. As palavras-chave estão baseadas nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), mas os termos utilizados nos capítulos podem também ser pesquisados nos mecanismos de buscas disponíveis na internet, como: Google Acadêmico, Pubmed, SciELO, entre outros.

Apesar do apelo científico ao conhecimento do treinamento sugerido para este livro, a diversidade social, por outro lado, não significa que os fundamentos éticos e os valores sociais nos quais acreditamos devam ser deixados de lado durante a atuação profissional. Ao contrário, as nossas convicções e os nossos objetivos, como seres humanos em busca de uma vida saudável, devem superar os apelos consumistas e reprodutivistas já exemplificados. Ações mais bem planejadas de educação de jovens poderiam auxiliar na formação de cidadãos mais bem educados em relação aos conhecimentos sobre o treinamento, preparando-os melhor para serem atletas ou adultos ativos em busca da saúde e de opções de apropriações de vida por meio dos gestos corporais.

Se ainda há problemas de interpretação dos sentidos e significados que o esporte e a atividade física regular têm para a saúde das pessoas, se ainda a população não consegue diferenciar a emoção da razão que os eventos esportivos proporcionam, tendo como exemplo os últimos desastrosos grandes eventos realizados na cidade do Rio de Janeiro (Copa do Mundo de Futebol e Jogos Olímpicos) e a situação de falência esportiva e sociocultural nesse Estado e em certas regiões do País, isso pode ser efeito ou estar relacionado, de algum modo, com a lacuna deixada pelos professores de Educação Física para educar crianças e adolescentes por meio das aulas dessa disciplina nas escolas e outras formas educativas que podem ser efetivadas pelo treinamento esportivo (escolas de esportes, academias, centros esportivos e comunitários, entre outros ambientes favoráveis à atuação desse profissional).

Não é uma questão de culpabilização, mas de identificação de responsabilidade e compromisso. Treinar não é somente preparar o físico. Não é somente preparar uma equipe ou pessoa para vencer uma competição. Assim, o processo de treinamento não se basta na preparação física, em seus aspectos biológicos, e muito menos em ações individuais dos professores envolvidos nesse trabalho. Também é uma questão de políticas públicas que devem valorizar a educação e os profissionais que trabalham nela. O esporte e o fitness não podem ser usados para ludibriar os problemas sociais.

Também não é um livro escrito para a aplicação dos conteúdos do treinamento às doenças. É claro que isso é compatível, o treinamento auxiliando a evitar as doenças. Dessa forma, o conteúdo aqui apresentado deve ser visto com restrições e cautela quando for direcionado a cardiopatas, obesos ou pessoas que manifestam vigorexia, entre outros. Todos os sintomas citados são de doentes que precisam ser atendidos por equipes composta por multiprofissionais. Os cardiopatas e os obesos serão encontrados nas clínicas, hospitais, academias etc. e necessitam de projetos específicos de intervenção. Já os vigorexos (pessoas que apresentam transtorno dismórfico corporal) estarão nas academias e, geralmente, não serão atletas profissionais, mas poderão estar junto a outras pessoas, passando-se por atletas amadores ou não atletas e, às vezes, nem sabendo que estão doentes. São indivíduos acometidos pela Síndrome de Adônis. Mesmo fortes fisicamente, ao verem a sua imagem em espelhos, por exemplo, veem-se como fracos, de maneira similar aos acometidos de anorexia que, ao se visualizarem, sempre se consideram gordos (CHOI; POPE; OLIVARDIA, 2002). Portanto, o conteúdo de treinamento deste livro pode não atender a esse público. O professor então deverá identificar esses grupos especiais para uma análise mais detalhada e, com mais propriedade, aplicar os conteúdos do treinamento corporal humano.

Uma visão mais ampla e educativa do treinamento durante esses anos me permitiu crescer profissionalmente e achar soluções para a injustiça e violência, em busca de uma sociedade fraterna e democrática, com respeito à dignidade da pessoa humana. Isso não acontece por um passe de mágica, mas pela formação e educação das pessoas. Nesse sentido, nós, professores de Educação Física, temos que assumir o compromisso de quebra do paradigma que a própria Educação Física brasileira criou de achar que nossa ação educativa é só biológica. Minha concepção é que nunca existiu separação entre a utilização dos conhecimentos biológicos e os socioculturais, mas momentos de miopia e briga pela hegemonia de certos profissionais em dizer quem estava certo nas questões do conhecimento e aplicação desses saberes para o ensino da Educação Física, do treinamento.

Como fazemos parte de um país que sempre foi invadido e explorado, acostumamo-nos a importar muitas coisas e, nesse processo histórico, fomos infestados de influências de outros países, de outras culturas e, nessa situação de nação dependente, também ficamos copiando ideias sem a devida leitura crítica. Não que a diversidade cultural e a troca de experiências não sejam boas. Não se trata disso. Vivemos por muito anos em uma ditadura, com restrição dos direitos individuais, e com consequências socioculturais e econômicas avassaladoras para toda a poupulação, principalmente a maioria desprovida de recursos mínimos para sobrevivência.

A partir do final dos anos 1980, com outra postura política, a sociedade brasileira e a educação brasileira, por meio de seus profissionais, muda de atitude e reconhece que não é mais possível continuar sem identidade. Por causa disso, penso que é preciso que nos apropriemos das propostas lançadas pelas tendências socioculturais verdadeiramente humanas e humanizadoras, oferecendo uma proposta pedagógica do treinamento esportivo inserida no currículo de todos os professores de Educação Física para aplicação em suas práticas pedagógicas. É isso que proponho e que só será válido ou exequível se transformado em ação por aqueles que lerem os capítulos que se seguem.

Assim, o objetivo deste livro é apresentar a importância do conhecimento sobre o treinamento esportivo contemporâneo como conteúdo fundamental para o professor de Educação Física agir pedagogicamente na escola e em outros campos de atuação profissional. Os conceitos de treinamento são descritos desde a visão restrita a atletas até a sua ampliação para não atletas, destacando a importância da valorização do conhecimento produzido historicamente e o atual momento do treinamento esportivo em seus aspectos biológicos e metodológicos, além de considerações pedagógicas para a utilização dos conteúdos do processo de treinamento, objetivando educar ou reeducar as pessoas em busca de uma postura crítica em frente ao desempenho corporal humano, quer seja por meio dos esportes, quer seja por outras formas de movimentos corporais.

Sumário

1 – O SER HUMANO E O MOVIMENTO CORPORAL

2 – CONCEITO DE TREINAMENTO, TREINAMENTO ESPORTIVO E

OS SEUS COMPONENTES

2.1 CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO SOBRE O TREINAMENTO ESPORTIVO: PRODUÇÃO HISTÓRICA E EDUCATIVA

2.2 CONHECIMENTO E EDUCAÇÃO: AVANÇAR DE ESPECTADOR

INGÊNUO E SENSO COMUM PARA REFLEXIVO E CRÍTICO

2.3 CONCEITO DE TREINAMENTO

2.4 CONCEITOS DE TREINAMENTO ESPORTIVO

2.5 COMPOSIÇÃO DO TREINAMENTO DE ALTO RENDIMENTO E SUA APLICAÇÃO PARA ATLETAS E NÃO ATLETAS

3 – IDENTIFICAÇÃO DO ATLETA E DO NÃO ATLETA

4 – PRINCÍPIOS DO TREINAMENTO

4.1 PRINCÍPIOS BIOLÓGICOS DO TREINAMENTO CORPORAL HUMANO

4.1.1 Princípio da adaptação

4.1.2 Princípio da individualidade biológica

4.2 PRINCÍPIOS ORGANIZACIONAIS DO TREINAMENTO CORPORAL HUMANO

4.2.1 Princípio da sobrecarga

4.2.2.Princípio da especificidade

4.2.3 Princípio da continuidade

5 – PREPARAÇÃO FÍSICA

5.1 CONCEITO DE PREPARAÇÃO FÍSICA

5.2 ETAPAS DA PREPARAÇÃO FÍSICA

5.3 QUALIDADES FÍSICAS E SUAS DIVISÕES

5.3.1 Preparação cardiovascular/orgânica ou cardiorrespiratória

5.3.1.1 Resistência anaeróbica alática

5.3.1.2 Resistência anaeróbica lática

5.3.1.3 Resistência aeróbica

5.3.2 Qualidades físicas neuromusculares

5.3.2.1 Força

5.3.2.2 Flexibilidade

5.3.2.3 Velocidade

5.3.2.4 Agilidade

5.3.2.5 Equilíbrio

5.3.2.6 Coordenação

5.3.2.7 Ritmo

5.3.2.8 Descontração

5.4 MÉTODOS DE TREINAMENTO PARA A PREPARAÇÃO FÍSICA

5.4.1 Treinamento contínuo

5.4.2 Treinamento intervalado

5.4.3 Treinamento em circuito

5.4.4 Musculação

5.4.5 Treinamento de flexibilidade

5.4.6 Treino por execução do gesto motor (TEGM)

5.4.7 Métodos e formas especiais de preparação física

5.4.8 Métodos e técnicas para recuperação do treinamento

6 – PREPARAÇÃO TÉCNICO-TÁTICA

6.1 CONCEITO DE PREPARAÇÃO TÉCNICA E TÁTICA

6.2 PREPARAÇÃO TÉCNICA

6.3 PREPARAÇÃO TÁTICA

7 – PREPARAÇÃO PSICOLÓGICA

8 – CONTROLE DO TREINAMENTO

8.1 CONTROLE DAS CARGAS DE ESTÍMULOS NAS SESSÕES DE TREINAMENTO

8.2 CONTROLE DE DOENÇAS

8.3 CONTROLE ALIMENTAR

8.4 CONTROLE DE HÁBITOS DE VIDA

9 – VARIÁVEIS INFLUENCIADORAS E CONDICIONANTES

9.1 VARIÁVEIS INFLUENCIADORAS: O MATERIAL ESPORTIVO E O AMBIENTE DA COMPETIÇÃO

9.2 VARIÁVEIS CONDICIONANTES: CONDIÇÕES CLIMÁTICAS E GEOGRÁFICAS DO LOCAL DA COMPETIÇÃO

10 – ESTRUTURA DO PLANO DE TREINAMENTO DE ALTO RENDIMENTO E SUA ORGANIZAÇÃO

10.1 CONCEITO DE PLANEJAMENTO E ORGANIZAÇÃO DAS ETAPAS

DE UM PROGRAMA DE TREINAMENTO

10.2 ETAPAS PARA ELABORAR UM PLANO DE TREINAMENTO

10.3 PERIODIZAÇÃO DO TREINAMENTO

10.3.1 Conceitos de periodização do treinamento

10.3.2 As ideias mais antigas sobre periodização

10.3.3 Limitações do modelo tradicional e novas abordagens

10.4 ESTRUTURA DO PLANO DE TREINAMENTO

10.4.1 Terminologias dos microciclos e mesociclos

10.4.1.1 Microciclos e os seus tipos

10.4.1.2 Mesociclo e os seus tipos

10.5 EXEMPLOS DE APLICAÇÃO DO PLANEJAMENTO E

PERIODIZAÇÃO

10.5.1 Cenário 1: atleta amador de corrida de rua treinando para maratona

10.5.2 Cenário 2: não atleta de uma academia

10.5.3 Cenário 3: equipe competitiva de handebol

10.5.4 Cenário 4: não atleta que pratica o futsal como lazer e saúde

11 – FORMAÇÃO DO ATLETA E PLANEJAMENTO EM LONGO

PRAZO

11.1 A FORMAÇÃO DO ATLETA

11.1.1 Modelos de formação de atletas

11.1.2 Treinamento em longo prazo (TLP)

12 – ENSINANDO OS CONTEÚDOS DO TREINAMENTO NA

ESCOLA

REFERÊNCIAS

1

O SER HUMANO E O MOVIMENTO CORPORAL

Neste capítulo você terá:

a.  a importância da compreensão e dos estudos sobre o corpo humano como complexidade funcional, formado pelos aspectos biológicos que permitem o seu movimento e a sua identidade sociocultural, proporcionando o diálogo inteligível e linguagem;

b.  o movimento corporal de um ser uno, sem dualismo;

c.  o corpo humano com significado social para as ações corporais treinadas para a convivência do cidadão;

d.  a constatação de que treinar o corpo não é adestrá-lo, mas educá-lo.

Palavras-chave: Corpo humano. Movimento. Educação. Comunicação. Educação Física e treinamento. Filosofia.

Questões para orientação de estudo:

a.  O corpo humano pode ser dividido em corpo e mente? Explique.

b.  Que corpo deverá ser treinado? Explique.

c.  Analise e explique a Figura 1.

É inegável que o ser humano vem explorando o meio ambiente desse planeta por meio do movimento corporal e isso ele não faz sozinho, faz em grupo, considerando a sua condição de convivência. Movimento corporal deve ser entendido em toda sua complexidade funcional, originalmente intelectível e voluntário (QUEIRÓZ, 1983), incluindo desde o aspecto biológico até sua identificação como fenômeno sociocultural. Sendo assim, a compreensão de corpo é imprescindível para os estudos dos profissionais de Educação Física.

Esse corpo que se movimenta por possuir estrutura biológica capaz de permitir diversas manifestações reflexas e aprendidas é o mesmo corpo que possibilita convivência em sociedades e manifestações culturais, capaz de caracterizar civilizações, povos, estados, países, desde o micromundo menos explorado e desconhecido até as grandes ações humanas já descritas como história.

Em toda a sua dimensão, o corpo é energia que a ciência procura explicar e entender. Por isso mesmo, às vezes, é chamado de espírito, ou de alma, palavras que remetem para além, ou distante de um corpo considerado somente físico, mas se voltando para uma visão transcendente. A energia do corpo é o maior mistério da humanidade. Socialmente, esse corpo é gente, é sujeito, é pessoa, é indivíduo humano que vive e convive. Segundo Medina (1987, p. 86),

O corpo humano não pode ser independente de suas relações. O corpo compreendido isoladamente da sociedade e da natureza é um corpo abstrato, distante da realidade concreta em que se faz distante, enfim, de suas circunstâncias.

Não é o intuito deste texto apresentar uma discussão extensa sobre o conceito de corpo e toda a história do ser humano, tampouco reduzir a complexidade do tema. Contudo o treinamento corporal não pode cuidar somente de aspectos biológicos e maltratar o corpo, muito menos descontextualizá-lo das significações sociais e culturais. Nem o professor deve tratá-lo como objeto, negócio ou simplesmente corpo físico. Ainda de acordo com Medina (1987, p. 63),

É preciso superar a visão do corpo como um simples objeto, um utensílio cuja preocupação básica é o rendimento e a produtividade tecida pelo lucro. [...] não deve ser uma peça que cumpre a sua função (de produtor, reprodutor ou consumidor) dentro da engrenagem social de um capitalismo periférico, dependente e selvagem que tem como meta a lucratividade a qualquer custo.

As discussões a respeito do capitalismo podem ter caído em desuso para algumas pessoas, mas do corpo lucrativo e produtor de renda não, até mesmo porque, em pleno século XXI, ainda existem pessoas que são exploradas e até escravizadas com o uso dos seus corpos produtivos para o trabalho.

A mercantilização do corpo humano se confunde com a de bens de produção nas mãos dos inescrupulosos que não medem esforços para explorar as pessoas, por isso o corpo humano será tratado antes de tudo pela abordagem social.

Entendendo o corpo como composição biológica (necessidade primária para a vida), que se expressa de forma sociocultural, deve-se pensar no movimento corporal como possibilidade de ação, na maioria das vezes voluntária, desde que todos os órgãos envolvidos estejam preservados. Esse movimento permite diálogo do indivíduo com o meio ambiente em que ele vive e os com outros seres.

Para tornar possível esse diálogo, é necessário conhecer a linguagem utilizada, que é cheia de significado. Portanto não há movimento corporal sem sentido e significado, mesmo não identificado ou interpretado conscientemente pelo corpo que está em ação, ou para as pessoas que o veem movimentar-se.

Para que esse corpo esteja consciente de suas ações, de seus sentidos e significados, é necessário adquirir informação, conhecimento, saber, concretizados pelo ser educado. Aqui fala-se de um corpo educado por uma pedagogia dialética (RIBEIRO; RODRIGUES, 2001).

Como descrito por Gomes (2001, p. 30), o interesse sociológico no corpo desportista justifica-se pelo fato de ele

[...] refletir a emancipação de um ator social autônomo e individualizado, ao contrário dos servos e escravos dos tempos anteriores, cujos corpos (físico, emocional e mental) pertenciam ao rei, ao senhor feudal ou a Deus.

Vê-se, assim, o corpo como unidade/totalidade, sem dualidade de suas possíveis, mas não verdadeiras, partes (corpo e mente). Possíveis no transgredir da própria natureza do corpo, que supõe a separação de mente, espírito e corpo físico. Para Medina (1990, p. 41),

[...] a redução do corpo a uma de suas áreas de concentração – fato comum nas Ciências Humanas - é, ao mesmo tempo que esclarecedora de certas particularidades, perigosa, na medida que nos distancia dessa compreensão do todo harmonioso em que deveríamos viver.

Além disso, esse mesmo autor afirma que o dualismo corpo-alma é um exemplo de inculcação, do qual o resultado tem sido uma imagem distorcida do corpo na cultura ocidental. Para afastar esse problema, utiliza-se o termo corporeidade, na visão de Pierre Vayer (TUBINO; TUBINO; GARRIDO, 2007). Pensar de forma holística sobre o corpo não é difícil. Difícil é abandonar o aforismo de Juvenal que se tornou jargão: Mens sana in corpore sano.

Este vem do poeta satírico Juvenal, que no século II em Roma combatia os vícios com suas sátiras. No

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