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Confissões

Confissões

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Confissões

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4.5/5 (49 ratings)
Length:
578 pages
10 hours
Publisher:
Released:
Jul 28, 2014
ISBN:
9788534940054
Format:
Book

Description

Numa época em que estão na moda as biografias é mais do que atual a leitura desse clássico. Santo Agostinho faz uma autoacusação, sem atenuantes, ao contrário dos autores das biografias contemporâneas, que procuram se colocar em evidência e se comprazem no falar de si mesmo. Trata-se realmente de uma "confissão" no duplo sentido que o latim confere a esse termo: confessar a própria miséria e confessar a grandeza da misericórdia divina.
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Jul 28, 2014
ISBN:
9788534940054
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Top quotes

  • Diz Agostinho: se o homem é fei­to à imagem e semelhança de Deus, pode encontrar em si mesmo a presença de Deus, a sua verdade, estimulando o que de mais elevado existe na própria alma.

  • Portanto, já que eu de fato existo, porque tenho de pedir tua vinda a mim, a mim que não existiria se não exis-tisses em mim?

  • Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti.

  • Pois eu não existiria, meu Deus, eu de forma alguma existiria, se não estivesses em mim.

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Confissões - Santo Agostinho

Índice

Introdução

I LIVRO - DO NASCIMENTO AOS QUINZE ANOS

1. Invocação a Deus

2. Como e por que invocar a Deus?

3. Deus está em todas as coisas e nenhuma o contém

4. Deus é inefável

5. Desejo de Deus

6. Mistério da natureza humana e sua finitude. Deus é eterno

7. Agostinho recorda os pecados cometidos na infância

8. Como aprende a falar

9. Falta de interesse pelo estudo; castigo e zombaria dos educadores

10. Prefere o jogo e o teatro ao estudo

11. Adiamento do batismo

12. Deus tira o bem até do mal

13. Utilidade do estudo

14 . Dificuldade no estudo do grego

15. Oferecimento de tudo a Deus

16. Literatura e mitologia corruptoras

17. Inteligência desperdiçada em coisas vãs

18. Um erro de gramática é mais grave que uma falta contra o homem ?

19. Os primeiros pecados da infância

20. Tudo é dom de Deus

II LIVRO - OS DEZESSEIS ANOS

1. Por qual motivo Agostinho relembra suas culpas

2. Necessidade de amor e de seus ilusórios sucedâneos

3. O ócio favorece o desencadeamento das paixões

4. O furto das pêras

5. A causa do pecado

6. As paixões dão satisfações ilusórias; somente Deus pode saciar as exigências do espírito humano

7. A bondade de Deus preserva-nos das culpas e nos perdoa as culpas cometidas

8. A atração do pecado

9. A influência das más companhias

10. Aspiração à paz interior

III LIVRO - JOVEM ESTUDANTE

1. Amores sensuais

2. O teatro alimenta a sede de sensações

3. Agostinho não segue os companheiros em todos os seus excessos

4. O Hortênsio de Cícero desperta em Agostinho o amor à sabedoria

5. Primeira aproximação às Sagradas Escrituras

6. Adesão ao maniqueísmo

7. Os desatinos dos maniqueus. O problema da moralidade

8. Fundamentos naturais da moral

9. É difícil julgar os homens

10. Estranhas doutrinas dos maniqueus

11. Pranto e sonho de Mônica

12. Resposta de um bispo

IV LIVRO - O PROFESSOR

1. Seduzido e sedutor

2. O professor de retórica. O amor de uma mulher

3. Interesse pela astrologia

4. A morte de um amigo: desconsolo de Agostinho

5. Pranto consolador

6. Desgosto da vida e medo da morte

7. Necessidade de mudar de ambiente: Agostinho deixa Tagaste

8. A vida recomeça

9. Feliz quem ama a Deus

10. Destino efêmero das criaturas

11. Só Deus é estável

12. Exortação à procura da felicidade em Deus

13. Do belo e do harmonioso

14. Homenagem a Hiério

15 . Complacentes elucubrações de Agostinho; Deus resiste aos soberbos

16. As dez categorias de Aristóteles

V LIVRO - DA ÁFRICA À ITÁLIA

1. Louvor ao Deus das misericórdias

2. Presença de Deus consolador

3. Encontro com Fausto, bispo maniqueu

4. Ciência humana e fé divina

5. Manés se apresenta como pessoa divina

6. Personalidade de Fausto

7. O maniqueísmo começa a desiludi-lo

8. Partida para Roma

9. Chegada a Roma. Mônica reza de longe

10. Entre o maniqueísmo e o ceticismo acadêmico

11. Os maniqueus e as Sagradas Escrituras

12. Comportamento dos estudantes romanos

13. Encontro com Ambrósio em Milão

14. Afastamento do maniqueísmo

VI LIVRO - AGOSTINHO AOS TRINTA ANOS

1. Mônica encontra-se com o filho em Milão

2. Mônica e Ambrósio

3. Figura de Ambrósio

4. Descoberta da verdade

5. Prefiro agora a fé católica

6. Miséria da ambição

7. A amizade de Alípio

8. Alípio fascinado pelos espetáculos sangrentos do circo

9. Alípio aprende à própria custa a não julgar apressadamente os homens

10. Retidão de Alípio e sede de verdade em Nebrídio

11. Perplexidades de Agostinho

12. O problema do matrimônio

15. Noivado de Agostinho

14. Projetos de vida em comum

15. Escravo do prazer

16. Discute com os amigos o sumo bem e o sumo mal

VII LIVRO - A BUSCA DA VERDADE

1. Dificuldade em conceber a essência de Deus

2. Objeção de Nebrídio aos maniqueus

3. A origem do mal

4. Deus é incorruptível

5. Ainda o problema da origem do mal

6. Refutação da astrologia

7. Em busca da origem do mal

8. A misericórdia de Deus o socorre

9. Primeira leitura dos neoplatônicos

10. A leitura dos platônicos leva Agostinho a buscar no próprio íntimo a verdade

11. As criaturas existem e não existem

12. Tudo que existe é bom o mal não é uma substância

13 . Bondade de todas as criaturas

14. Rejeição do dualismo maniqueísta

15. Todas as coisas devem a Deus a própria existência

16. O mal como perversão da vontade

17. Gradual ascensão na descoberta de Deus

18. Agostinho ainda ignorava Cristo mediador

19. O mistério encerrado nas palavras: o verbo se fez carne

20. A fé provém da humildade e a humildade não se aprende em livros de filósofos

21. Benéfica leitura de são Paulo

VIII LIVRO - A CONVERSÃO

1. Encontro com Simpliciano

2. Simpliciano narra a conversão de Vitorino

3. A alegria por um pecador que se converte

4. Alegria pela conversão de Vitorino

5. Agostinho dilacerado entre duas vontades contrastantes

6. Descoberta a beleza da vida monástica

7. Reações no espírito de Agostinho

8. Agostinho hesita

9. Por que razão a vontade é ineficaz?

10. Contra os maniqueus

11. Árdua caminhada na senda da virtude

12. Toma e lê!

IX LIVRO - O BATISMO E A VOLTA PARA A ÁFRICA

1. Oração de agradecimento

2. Agostinho decide abandonar a cátedra de retórica

3. Verecundo e Nebrídio

4. Em Cassicíaco escreve e medita sobre os Salmos

5. Deixa o ensino e se prepara para o batismo

6. Batismo em Milão com Alípio e Adeodato

7. Uso do canto litúrgico em Milão

8. Educação de Mônica

9. Virtude de Mônica

10. Em Óstia: contemplação de Agostinho e Mônica

11. Morte de Mônica

12. Funerais de Mônica

13. Preces de Agostinho pela mãe

X LIVRO - AGOSTINHO REFLETE NÃO MAIS SOBRE O PASSADO, MAS SOBRE O PRESENTE

1. Deus, única esperança e amante da verdade

2. Confissão diante de Deus e dos homens

3. Sentido de uma confissão, não só do passado, mas do presente

4. Agostinho se confessará também aos homens, para que com ele agradeçam a Deus

5. Só Deus conhece verdadeiramente o homem

6. Deus procurado e amado antes e acima de todas as coisas

7. Para chegar a Deus, é preciso ir além do mundo dos sentidos

8. Maravilhas da memória

9. A memória é a sede de todas as noções apreendidas

10. Aquisição das noções pela memória

11. Significado do verbo cogitar

12. A memória dos números

13. Lembro-me de ter lembrado…

14. Na memória estão também os sentimentos da alma

15. Lembrança através da imagem?

16. A memória se lembra do esquecimento

17. A busca de Deus para além da faculdade da memória

18. Como encontrar o objeto perdido?

19. Não se pode procurar o que está completamente esquecido

20. Ao buscar Deus, procuramos a felicidade

21. O que significa recordar a felicidade

22. Só em ti se encontra a felicidade, Senhor

23. Todos desejam a felicidade

24. Presença de Deus em nossa memória

25. Lugar de Deus na memória

26. O conhecimento de Deus

27. Tarde te amei! . . .

28. Miséria da vida humana

29. Deus nos impõe a continência

30. A concupiscência da carne

31. As tentações do paladar

32. As tentações do olfato

33. As tentações do ouvido

34. A tentação do olhar

35. A tentação da curiosidade

36. A tentação do orgulho

37. O prazer do louvor

38. A tentação da vanglória

39. O amor de si mesmo

40. Em busca de Deus

41. Deus é Verdade e não pode coexistir com a mentira

42. Falsos mediadores entre Deus e os homens

43. O verdadeiro mediador é Jesus Cristo

XI LIVRO - MEDITAÇÃO SOBRE O PRIMEIRO VERSÍCULO DO GÊNESIS: NO PRINCÍPIO DEUS CRIOU...

1. Finalidade da confissão de Agostinho a Deus

2 . Agostinho quer fazer a meditação sistemática da Sagrada Escritura

3. Prece para compreender as palavras da Sagrada Escritura

4. Existência e criação do mundo

5. Criação de Deus e trabalho do homem

6. As palavras humanas passam, a palavra de Deus permanece eternamente

7. Eternidade do Verbo

8. A palavra de Deus dirige-se a nós no Evangelho

9. Deus fala no nosso íntimo

10. Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?

11. Diferença entre tempo e eternidade

12. Antes de criar, Deus nada fazia

13. O tempo começou com a criação

14. O conceito de tempo

15 . Passado, presente e futuro

16. Pode-se medir o tempo?

17. A existência do passado e do futuro

18. Como se faz para falar do passado ou para predizer o futuro?

19. O mistério da profecia

20. Só de maneira imprópria se fala de passado, presente e futuro

21. A medida do tempo

22. Agostinho deseja ardentemente entender esse problema

23. O tempo e o movimento dos astros

24. O tempo não é o movimento dos corpos

25. Confissão e invocação

26. Será o tempo simplesmente extensão?

27. A medida do tempo realiza-se em nossa mente

28. Expectativa do futuro, atenção ao presente, lembrança do passado

29. Aspiração ao eterno, depois da dissipação do tempo

30. Inutilidade da pergunta: Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?

31. Ciência humana e ciência divina

XII LIVRO - MEDITAÇÃO SOBRE O PRIMEIRO VERSÍCULO DO GÊNESIS: NO PRINCÍPIO DEUS CRIOU O CÉU E A TERRA

1. Pobreza do homem que procura: mas Deus está com ele

2. Que é o céu do céu?

3. Que são as trevas e o abismo

4. Que significa terra invisível e informe

5. A inteligência pesquisa...

6. Evolução do conceito de matéria

7. A origem da matéria

8. A matéria informe é o fundamento da criação

9. Intemporalidade dessas criaturas

10. Invocação à verdade

11. Eternidade de Deus

12. Duas criaturas estão fora do tempo

13. Criações fora do tempo

14. A palavra de Deus é admiravelmente profunda

15 . Argumentos sobre os quais existe acordo com os adversários

16. Os interlocutores de Agostinho

17. Opiniões diversas sobre o sentido de céu e terra

18. Várias interpretações das Sagradas Escrituras

19. Verdades deduzidas da leitura do Gênesis

20. As várias interpretações das primeiras palavras do Gênesis

21. As várias interpretações do segundo versículo do Gênesis

22. Silêncio da Escritura sobre algumas obras do Criador

23. Duas espécies de dissensão

24. É possível conhecer o pensamento de Moisés?

25. Palavras de advertência a quem soberbamente presume entender

26. Se eu estivesse no lugar de Moisés

27. O que pensam algumas almas simples

28. Outras interpretações das primeiras palavras do Gênesis

29. A primeira obra criada foi a matéria

30. Sobre a diversidade das opiniões triunfe o amor

31. Multiplicidade de significados nos escritos de Moisés

32. Ó Deus, revela-nos a verdade!

XIII LIVRO - MEDITAÇÃO SOBRE OS SIGNIFICADOS ALEGÓRICOS DA CRIAÇÃO

1. Invocação a Deus

2. Nossa existência é dom de Deus

3. Criando a luz, Deus iluminou a criatura espiritual

4. Que significado tem a expressão: o espírito pairava sobre as águas

5. A Trindade na criação

6. Por que o Espírito Santo é mencionado por último?

7. O Espírito de Deus nos eleva e conforta

8. Queda e elevação das criaturas espirituais

9. Transportados pelo amor

10. A felicidade dos anjos

11. A imagem humana da Trindade

12. Nós nos convertemos a ti, e a luz se fez

13. Como será seu esplendor quando o virmos?

14. A força da alma está na fé e na esperança

15. Significados simbólicos do firmamento

16. Perto de ti está a fonte de vida

17. Mar e terra: obras más e obras boas

18. Significado simbólico dos astros

19. Exortação aos eleitos

20. Significado simbólico dos répteis, dos cetáceos e das aves

21. Significado simbólico da alma viva e dos animais

22. Significado simbólico do homem feito à imagem de Deus

23. O homem espiritual tem o poder de julgar

24. Significado simbólico da multiplicação das espécies

25. Significado simbólico das ervas e das árvores

26. O valor da oferta está na intenção

27. As boas obras de quem não tem fé

28. A obra da criação é boa

29. Eternidade da visão e da palavra divina

30. Erros dos maniqueístas a respeito da criação

31. Tudo o que existe é visto em Deus como coisa boa

32. Agradecimento a Deus por toda a criação

33. O conjunto da criação

34. Recapitulação dos símbolos das primeiras palavras do Gênesis

35. Senhor, concede-nos a paz!

36. O sétimo dia, dia do repouso

37. O futuro repouso final

38. Deus será o repouso e a paz

INTRODUÇÃO

Vida e obras

Aurélio Agostinho nasceu a 13 de novembro de 354 em Tagaste, importante cidade da Numídia (hoje Souk-Ahras). Seu pai, Patrício, era um africano romanizado, pequeno proprietário, decurião do município; pagão, ele se fez batizar na hora da morte. A mãe, Mônica, era mulher cristã e piedosa que educou cristã­mente o filho, que desde a infância demonstrava aptidão para a filosofia. Agostinho herdou do pai o temperamento sensual e impetuoso, e da mãe a ternura e a tendência para a contemplação mística. Dele se conhecem o irmão Navílio, e uma irmã.

Agostinho aprende os primeiros rudimentos na escola da aldeia; a disciplina é dura e ele é impaciente. Segundo o uso da época, ele não é batizado cedo. A idéia era que ele aproveitasse ao máximo o benefício de uma purificação tardia, que haveria de apagar todas as culpas, inclusive as posteriores.

Patrício desejaria fazer do filho um retórico, isto é, um professor de letras e eloqüência. Era esse o caminho normal para atingir os postos mais honrosos e lucrativos da vida. E mandou-o à vizinha cidade de Madaura, mais importante que Tagaste. Agostinho entrega-se aí com afinco ao estudo dos clássicos latinos; é menos entusiasta pelo estudo do grego, que de fato jamais conseguirá dominar.

No verão de 369, necessidades domésticas obri­gam-no a voltar a Tagaste, onde permanece no ócio durante um ano, e se entrega aos prazeres vulgares. Graças à ajuda do rico concidadão Romaniano, pode retomar os estudos e vai para Cartago, capital da África romana, que muito guardava do antigo esplendor. Aí estuda o que se ensinava então nas academias: retórica, dialética, geo­metria, música, matemática. Sente-se ao mesmo tempo empolgado pelo que constitui o centro da vida para jovens ardentes e apaixonados como ele: o teatro e os amores o subjugam. Começa a conviver com uma mulher, que amará de amor constante e da qual terá, em 372, um filho chamado Adeodato. Este amor durará mais de dez anos, mas Agostinho jamais se casará com ela, talvez por preconceitos familiares de casta.

A mãe o inscreve entre os catecúmenos da Igreja católica, cuja doutrina Agostinho considera irracional. Em 373, com 19 anos, lê Hortênsio de Cícero, diálogo que não chegou até nós, e que contém o elogio da filosofia como culto da sabedoria. É atraído pela verdade, mas também decidido a não sofrer influência de ninguém. Lê a Bíblia por curiosidade, porém as más traduções existentes não a deixam ser devidamente apreciada; não a entende. Aos vinte anos, entra na seita dos maniqueus, fascinado sobretudo por sua atitude racionalizante e por sua moral cômoda. Na realidade, a mistura de crenças por eles professadas cedo começa a não convencê-lo; segue-as contudo durante nove anos, para profunda amargura de sua mãe. Neste período, também a astrologia aparece no âmbito dos interesses do jovem africano.

A morte do pai ocasiona condições difíceis para a família. E Agostinho se dedica em Tagaste ao ensino da gramática. Entre os alunos, encontra-se Alípio, que se tornará seu grande amigo. Mas apenas por um ano exerce a profissão de professor em sua cidade. A essa altura, a mãe Mônica chega ao ponto de expulsar de casa o filho, culpado de heresia e libertinagem. Reaparece em cena o rico Romaniano, que o ajuda a voltar para Cartago; aí Agostinho abre uma escola de retórica. Não lhe faltam satisfações: muitos alunos o seguem e a ele ficarão ligados por muito tempo. É coroado num certame poético. Publica seu primeiro livro: Do belo e do conveniente. Começa a achar absurdas as doutrinas maniqueístas, sobretudo depois do malogrado encontro com o bispo Fausto, por muitos considerado um oráculo, com o qual desejou um colóquio pessoal. No entanto, em atenção aos amigos e também por cálculo, não pretende romper imediatamente relações com o ambiente maniqueu. Isto lhe serve para resolver tudo quanto ainda o inquieto retórico encontra de insatisfatório na escola de Cartago: os alunos são indisciplinados e a paga é modesta.

Em 383, depois de oito anos, numa noite de verão, Agostinho embarca para Roma, sem que a mãe saiba. Em Roma, os amigos maniqueus o hospedam e logo lhe obtêm, através de correligionários residentes em Milão, uma cátedra nesta cidade. Leciona aí de 384 a 386. Atravessa nesse período uma crise de ceticismo: a verdade se lhe apresenta como inacessível. É atraído pelo neoplatonismo, que lhe agrada sobretudo pela espiritualidade fundada no desprezo das paixões. De fato, sente agora profunda exigência de libertar-se da escravidão dos sen­tidos. Em sua ajuda vem a pregação do bispo Ambrósio, a quem começa a ouvir com freqüência. Além do mais, Ambrósio interpreta a Sagrada Escritura de um modo que torna aceitáveis, para a mente de Agostinho, mesmo as passagens até então para ele incompreensíveis.

Em julho de 386 a crise definitiva o atormenta: Agostinho tem 32 anos e é hóspede de um colega de professorado. É agora irresistível a decisão de voltar à fé materna. Durante a vigília pascal de 387, na noite de 24 para 25 de abril, o bispo Ambrósio lhe administra o batismo e também ao amigo Alípio e ao filho Adeodato, então com quinze anos. Os três passam sete meses de retiro em Cassicíaco, na Itália.

Agostinho deixa finalmente Milão e volta para a África, com o propósito de fundar uma espécie de comunidade religiosa em Tagaste. Em Óstia, porém, antes de embarcar, lhe morre a mãe. Os últimos momentos de Mônica são por ele imortalizados no capítulo 10 do livro IX das Confissões, quando descreve a hora de contemplação que passaram juntos. É realmente uma das páginas mais vibrantes das Confissões.

Agostinho deixa Roma no outono de 388 e realiza em Tagaste seu sonho de fundar uma comunidade de oração e contemplação. No ano seguinte morre seu filho Adeodato, ainda muito jovem.

Em Hipona, o velho bispo Valério tem necessidade de um padre que o ajude no ministério da pregação; o povo aclama Agostinho. Estamos em 391. Quatro anos depois, é ordenado bispo, e em 396 sucede a Valério na diocese de Hipona. O seu estilo de vida não sofre alterações: a vida comunitária prossegue como em Tagaste; muitos são os discípulos que o imitam, e para estes o bispo escreve a Régula ad servos Dei.

Os anos passam em atividade incansável: ministério e publicação de escritos dogmáticos, morais, exegéticos, pastorais, e outros.

A 28 de agosto de 430, morre com setenta e seis anos, no terceiro mês do assédio da cidade por Genserico e seus vândalos.

São estes, em resumo, os dados fundamentais da vida de Agostinho. É realmente impossível apresentar sua riquíssima personalidade em poucas linhas. Indicaremos alguns aspectos. Sabemos que sua saúde, sempre precária, não o impediu de desenvolver o volume de trabalho que produziu. Pelo contrário, a própria insônia facul­tou-lhe escrever muito. Rico de humanidade e enamorado da vida, amou sobretudo a verdade, em busca da qual despendeu suas melhores energias. Essa procura apaixonada o fez passar por experiências diversas: foi particularmente importante o maniqueísmo, que acompanhou durante muitos anos sua formação decisiva, e lhe dará mais tarde ocasião de estudar a fundo o tormentoso problema: por que o mal? A solução, porém, lhe virá do platonismo: o mal é a privação do ser, é limite, é carência. Através da filosofia platônica, atingiu outra idéia de fundo: o conhecimento de Deus somente pode ser atingido pela purificação que liberta de tudo o que pertence ao mundo sensível.

O cisma de Donato foi a ocasião que se apresentou para Agostinho examinar a fundo o problema da vida da Igreja e de suas relações com os poderes públicos. A polêmica com os cismáticos começou em 393 e durou mais de vinte anos. Em 411 realizou-se em Cartago uma grande conferência pública de bispos (279 donatistas e 286 católicos). Nela Agostinho desempenhou papel de primeiro plano. Ainda não estava terminada essa polêmica, e outra já se iniciava: o antipelagianismo, importante pela contribuição e colocação que lhe foram dadas pelo bispo de Hipona. De fato, partindo de sua experiência pessoal, sublinhou vigorosamente o caráter fundamental e a dramaticidade do problema da graça, combatendo todo o moralismo materialístico através da falta de con­fiança nas capacidades do homem, o que aliás caracteri­zará sempre o pessimismo agostiniano. É bem conhecida a influência dessa atitude e de toda a doutrina de Agostinho sobre o pensamento medieval. Dele se pode dizer que teve menos senso crítico do que Jerônimo: nem sempre foi clara em Agostinho a distinção entre verdades reveladas e verdades racionais, entre a natureza e a graça. Escreveu sempre ao sabor de circunstâncias bem precisas. Ainda nos últimos anos da vida, dedicou-se a re­futar o arianismo, porque a invasão dos vândalos havia renovado a difusão dessa heresia.

Quantas obras escreveu? Ele mesmo as enumera nas Retractationes: noventa e três tratados, em duzentos e trinta e dois livros; acrescentem-se a estes cerca de quinhentos sermões e duzentas e dezessete cartas.

As Confissões foram escritas provavelmente entre 397 e 398. Contêm uma parte autobiográfica (os livros I-IX), com acusação de culpas e também agradecimento a Deus pela misericórdia que lhe concedeu desde a infância.

No livro X, Agostinho analisa, com perspicácia psicológica, sua posição ético-religiosa no momento em que escreve. A terceira parte (os livros XI-XIII) traz o co­mentário dos primeiros versículos do livro do Gênesis, ou melhor, tais versículos são ocasião para ele fazer, através de uma série de interpretações alegóricas, profundas considerações sobre Deus e o mundo, sobre o tempo e a eternidade; e para tecer louvores à grandeza e bondade do Criador. Diz Agostinho: se o homem é fei­to à imagem e semelhança de Deus, pode encontrar em si mesmo a presença de Deus, a sua verdade, estimulando o que de mais elevado existe na própria alma. É claro que Deus não está onde está o pecado, a angústia, que deriva do pecado. Pelo contrário, Deus está onde se procura com sinceridade a própria salvação e a dos outros, isto é, onde se vive na graça de Deus. Portanto, conhecer realmente a si mesmo para chegar àquele que nos é mais íntimo que nós mesmos (Confissões III, 6).

É esse o tema central da obra agostiniana. Ele mesmo o diz, já com mais de setenta anos, ao fazer um reexame de todos os seus escritos, nas Retractationes (II, 6): "Os treze livros das minhas Confissões louvam o Deus justo e bom por meus males e bens, e elevam até ele a mente e o coração dos homens; senti esse efeito enquanto as escrevia, e torno a senti-lo cada vez que as leio". É, portanto, um livro de mística altíssima, e como tal é lido durante séculos. Era, antes da Imitação de Cristo, o mais difundido texto de espiritualidade. Mas é também um livro em que se espalham todos os temas da especulação agostiniana. Assim o sintetiza Care­na em seu comentário (Roma, 1965):

Primeiro, o problema da existência e natureza de Deus, verdade que transcende a natureza do homem e é constitutiva das verdades que o homem conhece. Em seguida, o problema da alma e do homem, aquele elemento e princípio vital deste, mas dele distinto enquanto rica de verdade e imortal, parte melhor do homem, cuja dignidade reside no livre-arbítrio. O mal moral nada mais é que um ato insuficiente da vontade, uma escolha corrupta: para não cair, e portanto para bem usar o livre-arbítrio, é indispensável a intervenção divina. Alcançar a Deus, isto é, conhecer e amar a verdade, é a única felicidade que pode satisfazer o espírito humano; toda satisfação nos bens terrenos, imperfeitos e caducos, está destinada a desiludir amargamente a aspiração inata do homem.

São esses os principais motivos filosóficos que se encontram nos primeiros dez livros das Confissões. O décimo apresenta longa reflexão sobre a memória, entendida no sentido mais amplo, quase de consciência. Por meio da memória, o homem caminha para Deus, o qual está em nossa memória, embora não totalmente notado: isso porque só podemos procurar o que conhecemos, e o que conhecemos reside em nossa memória, e nós procuramos a nossa felicidade, que é o próprio Deus. Nos três últimos livros da obra, a especulação é realmente a parte preponderante, juntamente com a exegese do Gênesis. Basta recordar a longa análise que o autor faz do conceito de tempo comparado ao conceito de eternidade.

Obra de mística muito elevada, e ao mesmo tempo de profunda especulação, as Confissões possuem também grande valor literário. Sob esse aspecto, sua originalidade está na capacidade de intuição e ressonância universal (Paratore), através da qual Agostinho sente e exprime o drama de uma alma que se redime. Encontramos aí o professor de retórica amante do estilo empo­lado e do rebuscado estilístico: mestre do virtuosismo — como o chamou Auerbach —, acrescentando, porém, que o máximo talento artístico pode muito bem servir à mais autêntica e profunda interioridade. E encontramos essa marca artística tanto nas breves e concisas reflexões como em inteiras páginas de um lirismo que nada tem a invejar aos mais celebrados autores latinos.

É claro que Agostinho não buscava o belo pelo belo. Ao contrário, desdenhava uma procura desse gênero. Sua finalidade é confessar-se pecador e proclamar a soberana misericórdia de Deus. Sua grandeza não consiste em ser filósofo ou literato, mas em ter escrito suas Confissões, como grande filósofo e literato que indubitavelmente era.

I LIVRO

DO NASCIMENTO AOS QUINZE ANOS

1. Invocação a Deus

1 Grande és tu, Senhor, e sumamente louvável: grande a tua força, e a tua sabedoria não tem limite.¹ E quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação; o homem carregado com sua condição mortal, carregado com o testemunho de seu pecado² e com o testemunho de que resistes aos soberbos;³ e, mesmo assim, quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação. Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti.⁴ Dá-me, Senhor, saber e compreender⁵ qual seja o primeiro: invocar-te ou louvar-te; conhecer-te ou invocar-te.⁶ Mas, quem te invocará sem te conhecer? Por ignorá-lo, poderá invocar alguém em lugar de outro. Ou será que é melhor seres invocado, para seres conhecido? Como, porém, invocarão aquele em quem não crêem? E como terão fé sem ter quem anuncie?⁷ Louvarão o Senhor aqueles que o procuram.⁸ Quem o procura o encontra,⁹ e, tendo-o encontrado, o louvará. Que eu te busque, Senhor, invocando-te; e que eu te invoque, crendo em ti: tu nos foste anunciado. Invoca-te, Senhor, a minha fé, que me deste, que me inspiraste pela humanidade de teu Filho, pelo ministério de teu pregador.

2. Como e por que invocar a Deus?

2 E como invocarei o meu Deus, ó meu Deus e meu Senhor? Pois, ao invocá-lo, eu o chamarei para dentro de mim.¹⁰ Que lugar haverá em mim, onde o meu Deus possa vir? Onde virá Deus em mim, o Deus que fez o céu e a terra?¹¹ Há, então, Senhor meu Deus, algo em mim que te possa conter? E o céu e a terra, que fizeste e nos quais me fizeste, são eles capazes de te conter? Ou então, visto que sem ti nada existe daquilo que existe, será que tudo que existe te contém? Portanto, já que eu de fato existo, porque tenho de pedir tua vinda a mim, a mim que não existiria se não exis-tisses em mim? Eu ainda não estive nas profundezas da terra e, no entanto, tu aí também estás. Pois, mesmo que eu desça às profundezas da terra, aí estás.¹² Pois eu não existiria, meu Deus, eu de forma alguma existiria, se não estivesses em mim.¹³ Ou melhor, eu não existiria se não existisse em ti, de quem tudo, por quem tudo, em quem todas as coisas existem?¹⁴ É assim, Senhor, é assim mesmo. Para onde te chamo, se já estou em ti? De onde virias para estares em mim? Para onde me afastaria, fora do céu e da terra, para que daí viesse a mim o meu Deus, que disse: o céu e a terra estão cheios da minha presença?¹⁵

3. Deus está em todas as coisas e nenhuma o contém

3 Portanto, cabes tu no céu e na terra, visto que os enches com a tua presença? Ou, enchendo-os, resta ainda alguma parte de ti, por não te conterem? Por onde difundes o que resta de ti, depois de repletos o céu e a terra? Ou não tens necessidade de ser contido em alguma coisa, tu que tudo conténs, visto que as coisas que enches, as ocupas contendo-as?¹⁶ Não são, pois, os vasos cheios de ti que te tornam estável porque, ainda que se quebrem, não te derramas; e quando te derramas sobre nós¹⁷ não és tu que te abaixas, mas nós que somos elevados a ti; não te dispersas, mas nos recolhes a nós.

Mas tu, que tudo enches, o fazes com todo o teu ser. E já que o universo inteiro não pode conter todo o teu ser, conterá somente uma parte? E todos os seres conterão a mesma parte, ou cada um conterá uma, os seres maiores a parte maior, os menores a menor? Mas há em ti partes maiores e partes menores? Ou estás inteiro em toda parte, e nada existe que te contenha inteiramente?¹⁸

4. Deus é inefável

4 O que és, portanto, meu Deus? O que és, pergunto eu, senão o Senhor meu Deus? Quem é, pois, senhor, senão o Senhor? ou quem é deus, senão o nosso Deus?¹⁹ Ó altíssimo, infinitamente bom, poderosíssimo, antes todo-poderoso, misericordiosíssimo, justíssimo, ocultíssimo, presentíssimo, belíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível, imutável que tudo muda, nunca novo²⁰ e nunca antigo, tudo inovando,²¹ conduzindo à decrepitude os soberbos, sem que disto se apercebam,²² sempre em ação e sempre em repouso, recolhendo e de nada necessitando; carregando, preenchendo e protegendo; criando, nutrindo e concluindo; buscando, ainda que nada te falte. Amas, e não te apaixonas; tu és cioso,²³ porém tranqüilo; tu te arrependes²⁴ sem sofrer; entras em ira,²⁵ mas és calmo; mudas as coisas sem mudar o teu plano; recuperas o que encontras sem nunca teres perdido; nunca estás pobre, mas te alegras com os lucros; não és avaro e exiges os juros;²⁶ nós te damos em excesso,²⁷ para que sejas nosso devedor. Mas, quem possui alguma coisa que não seja tua?²⁸ Pagas as dívidas, sempre sem que devas a ninguém, e perdoas o que te é devido, sem nada perderes.

Mas, que estamos dizendo, meu Deus, vida da minha vida, minha divina delícia? Que consegue dizer alguém quando fala de ti? Mas ai dos que não querem falar de ti, pois são mudos que falam.

5. Desejo de Deus

5 Quem me fará descansar em ti? Quem fará com que venhas ao meu coração e o inebries a ponto de eu esquecer os meus males, e me abraçar a ti, meu único bem? Que és para mim?²⁹ Tem misericórdia, para que eu fale. Que sou eu aos teus olhos, para que me ordenes amar-te e, se eu não o fizer, te indignares³⁰ e me ameaçares com imensas desventuras? Como se o não te amar já fosse desgraça pequena! Dize-me, por compaixão, Senhor meu Deus, o que és tu para mim? Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação.³¹ Dize de forma que eu te escute. Os ouvidos do meu coração estão diante de ti, Senhor; abre-os e dize à minha alma: Eu sou a tua salvação. Correrei atrás destas palavras e te segurarei. Não escondas de mim a tua face:³² que eu morra para contemplá-la e para não morrer!

6 Minha alma é morada muito estreita para te receber: será alargada por ti, Senhor. Está em ruínas: restaura-a! Tem coisas que ofendem aos teus olhos: eu o sei e confesso. Mas quem pode purificá-la? A quem, senão a ti, eu clamarei: Purifica-me, Senhor, dos pecados ocultos, e perdoa a teu servo as culpas alheias?³³ Creio, e por isso falo, Senhor:³⁴ tu o sabes. Não te confessei contra mim as minhas faltas, meu Deus, e não perdoaste a maldade do meu coraçao?³⁵ Não discuto contigo,³⁶ que és a verdade, e não quero enganar a mim mesmo, para que a minha iniqüidade não minta a si mesma.³⁷ Não discuto contigo porque, se te lembrares de nossos pecados, Senhor, quem suportará teu olhar?³⁸

6. Mistério da natureza humana e sua finitude. Deus é eterno

7 Deixa, no entanto, que eu fale diante de tua misericórdia, eu que sou pó e cinza;³⁹ deixa-me falar, já que à tua misericórdia me dirijo, e não a um homem pronto a escarnecer de mim. Talvez também tu te rias de mim.⁴⁰ Mas se olhares para mim, terás misericórdia. Que pretendo dizer, Senhor meu Deus, senão que não sei de onde vim para cá, para esta vida mortal, ou antes, para esta morte vital? Não sei. Mas fui acolhido pelas consolações de tua misericórdia; assim me disseram meus pais: de um me tiraste e de outro me formaste no tempo; eu de fato não me lembro. Acolheram-me, então, as doçuras do leite humano; mas não eram minha mãe nem minhas amas que enchiam os seus seios. Eras tu, Senhor, que me davas por meio delas o alimento da infância, segundo o plano pelo qual dispuseste todas as riquezas até o mais profundo das coisas. Fazias também com que eu não desejasse mais do que me davas, e às minhas amas que não me quisessem dar senão o que lhes concedias: movidas por afeição desordenada, davam-me aquilo de que tinham em abundância, graças a ti. O bem, delas recebido, era para elas igualmente um bem, do qual não eram elas a origem, mas intermediárias dele; porque de ti, ó Deus, me vêm todos os bens, e do meu Deus toda a minha salvação! Percebi isso mais tarde, quando bradaste através desses mesmos dons que interior e exteriormente concedes. Mas, então, eu nada mais sabia senão sugar o leite, aquietar-me com o que agradava aos meus sentidos, e chorar o que importunava a minha carne,⁴¹ e nada mais.

8 Em seguida, comecei também a rir, primeiro enquanto dormia, depois acordado. Destas minhas ações fui informado, e nelas acreditei pelo exemplo dado pelas outras crianças. Eu mesmo nada lembro daquele tempo. Pouco a pouco ia reconhecendo o lugar onde me encontrava, e queria manifestar meus desejos às pessoas que deviam satisfazê-los, mas não conseguia, porque eles estavam dentro de minha alma e elas estavam fora, e através de nenhuma percepção teriam podido penetrar no âmago de minha alma. E assim eu me debatia e gritava, exprimindo uns poucos sinais proporcionais aos meus desejos, como eu podia e de maneira inadequada. Se não me obedeciam, ou porque não me entendiam ou por medo de me fazerem mal, eu me indignava com essas pessoas grandes e insubmissas que, sendo livres, recusavam ser minhas escravas, chorando, eu me vingava delas. Assim são as crianças, como depois

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Reviews

What people think about Confissões

4.3
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Reader reviews

  • (3/5)
    Essential medieval/Christian philosophy.
  • (5/5)
    One of the great works in philosophy and religion.
  • (4/5)
    Confessions. Saint Augustine. 2d Translated by Frank Sheed. 1992. And I Burned for your Peace; Augustine’s Confessions Unpacked. Peter Kreeft. 2016. Confessions was a fall sections for our great books club, and I just finished it! Not that I it should have taken me this long; I just read most of the books listed above as I read a few pages in Confessions two or three times a week until I finished it. It is a beautiful book, and I am so glad that I read it. To be honest, I am not sure I would have finished it had I not read Kreeft’s book along with it. He certainly did a good job of explaining St. Augustine. It was sort of like reading the Bible. I really enjoyed most of it, but Augustine does belabor the points he makes! He takes a long time to say anything. This is a spiritual autobiography, not a typical autobiography. Anyone interested in early Christian thought would do well to read this. I expect I will return to read some of the many parts I underlined
  • (3/5)
    Powerful in its honesty, but also hard for me as a nonbeliever to read. The constant reference to God occurs not on the scale of once every page, but more like every other sentence. The effect is to make me skeptical of even the best parts, such as the brilliant discussion of the nature of time and the excruciatingly honest effort to understand the theft of the pears, when they end up being folded into Augustine's religious narrative. Yet the passion of Augustine's thought and the force of his writing is impossible to deny and those insights that do hold relevance beyond the Christian are presented powerfully here.
  • (4/5)
    The "Confessions" of Saint Augustine is a hard work to pin down--part conversion story, part apologetics text, part philosophical treatise, part Bible commentary. It is also a hard work to read. There are many points of interest within the text, but it is not something you just read straight through without a lot of stopping and thinking, and preferably some supplemental research. There were many times reading the book that I felt that my time would be better spent just reading hours of the Bible, and that I was trying to force myself to grapple with a seminary-level text without the prerequisite educational background. This is a vitally significant work in Christian history, to be sure; it lays out fundamental arguments against the Manichaeans, has been looked to by the Roman Catholic church in support of purgatory, and even influenced the philosophical writings of Descartes. However, this wide-ranging history is far beyond the scope of the book itself, and it almost needs its own commentary to be understood by the layperson. The Barnes and Noble edition contains a historical timeline, an introduction, endnotes, a brief essay on the Confessions' influence on later works (which I found to be the most helpful supplemental piece in the book and wish I had read it before the text), a selection of famous quotes responding to the text, and a few critical questions to consider in thinking about the work.
  • (3/5)
    Augustine reflects on his life before and after he committed it to God. He often quotes (or near quotes) entire passages of Scripture in doing so. I read the version translated by Pusey and published in the Modern Library. It's a Christian Classic which has endured for generations, but it is not the easiest read because Augustine's tendency to "ramble."
  • (4/5)
    Augustine's Confessions are his biography, and they contain a lot of his theological and philosophical thoughts, as well details of his surprisingly interesting life. He didn't become a Christian until later in life, first being a Manichean, an interesting gnostic religion which died out in the middle ages. He writes about the bad things he did, how he regrets them, and speculates on psychological reasons for human behavior.Augustine was fairly well educated, and the chapters where he muses over problems of time and memory are quite thought provoking. The book is notable for the frankness of the author, his perceptiveness, and his variety of internal struggles. The literary impact of this book has also been huge; as the reader progresses numerous phrases will stand out, either because they have entered the common idiom, or because there is something very poetical captured in them. This book is notable for so many reasons.
  • (3/5)
    Veelvormig: gedeeltelijk autobiografie, gedeeltelijk getuigenisliteratuur.Soms zeer moeilijk leesbaar, soms gewoon storend door zijn pathetiek en door het kinderachtige zondebesef.Geen regeling voor het probleem van het kwaad.Qua intellectueel is hij wel de eerste die in de buurt van Plato en Aristoteles komt, maar om een heel andere manier. Vooral literair wel onderdoend.
  • (3/5)
    A mixed collection of autobiography, spiritual reflection, prayers, allegorical interpretation. Confessions was not at all what I expected it to be — an autobiography through and through. Had I read this with a class or a guide it might have been better, but I wasn't particularly enthralled.
  • (5/5)
    Actually brings up the idea that some parts of the bible are to be understood metaphorically, rather than literally. Including Genesis. I always have big trouble with the way Augustine just "sent away" his mistress when he converted. Lots of agonizing over how much it hurt him, but not much on how it affected her. Seems to me he should have married her.
  • (5/5)
    What makes this such a popular testimonial and classic of Christian writing is the profound thinking he shares about the depth of his own spiritual life and his contemplation about creation and God. Most of the early chapters are about the wretchedness of his life and those of anyone before they find God. He starts at infancy and works his way through boyhood to the point where he was a young man of 30. Book 8, #13 includes a great description of his friend going to the gladiator events, intending not to watch but looking out of curiosity and becoming another bloodthirsty member of the crowd. St. Augustine's life was not that of a typical saint. After this passage: "my concubine being torn from my side as a hindrance to my marriage, my heart which clave unto her was torn and wounded and bleeding," he took on another mistress and kept with him the son by the first. He refers to Epicurus, remarking that he would have believed were it not for the tenet that there is nothing after death. This metaphysical debate shows the type of thought process that Augustine had to endure to reconcile current philosophy with early Christian beliefs: " that the body of an elephant should contain more of Thee than that of a sparrow, by how much larger it is, and takes up more room." In Book 7 #7, Augustine begins contemplating the nature of evil and how it "crept" into being. Did God create it? Again, we see reason guiding his spiritual thinking. He talks about the astrologers and how he rejected them based on a story of two men born at the exact same time, one a slave and the other a prince. Despite identical stars, they led very different lives. Hee first encountered John 1:1 by acquiring it among some books recorded by the Platonists. The Platonic concept of duality is entwined through much of Augustine's thinking. He considers the passage "and the word was made flesh" and appreciates the implication. He thinks about the meaning of an "incorruptible substance" and the effect on that which it touches. Book IX, #20 relates the strength and admonishment of women Christians at the time, and how they placed value in hearing the scripture in the home as a way of controlling abusive husbands. Book IX, #33 is the moving passage about how he came to understand his mother's death and how it brought him closer to God. Book X is the single most important and profound part of the Confessions. Having in the former books spoken of himself before his receiving the grace of baptism, in this section he admits what he then was. First, he inquires by what faculty we can know God at all, reasoning on the mystery of memory, wherein God, being made known, dwells undiscovered. Then he examines his own trials under the triple division of temptation, 'lust of the flesh, lust of the eyes, and pride.' The sins of the eyes is actually "curiosity." The sins of the flesh are all of those bodily pleasures and desires that take us away from the spiritual. Book X, #47: "Placed then amid these temptations, I strive daily against concupiscence in eating and drinking. For it is not of such nature, that I can settle on cutting it off once for all, and never touching it afterward, as I could of concubinage." Like many other great thinkers, Augustine considered the wonder of creation; in fact, just the nature of it alone to be proof of something greater than, i.e. God. There is much discussion about the nature of time, memory, the soul, and the how of God and man. In the closing books, he considers the immutable and eternal nature of God and the logical implication on creation, God's will, the past, the future, and the human frame of reference about these concepts.
  • (5/5)
    This book is very dear to me. I read "Confessions" in a very difficult personal time and quickly became overwhelmed by Augustines sincerity, intellect, and love for The Immutable Light. Augustine presents us with a very interesting time period in as where Christianity and Roman Paganism lie in juxtaposition. Besides Augustine's personal confessions, I enjoyed his examination of Genesis and his hefty discourse on time, or perhaps I should say the lack of the past and future. Rather than prattle on in the present, which has become past, I will urge you, reader, to introduce yourself to an author you most assuredly will hold very close to your heart.
  • (5/5)
    This is a master work of religious philosophy. This was one of the first things I read which made me understand religion in the deeper sense.
  • (4/5)
    I have read this book several times, both as part of the Basic Program of Liberal Education at the University of Chicago and most recently as one of the monthly selections of a reading group in which I participate. Like all classics it bears rereading and yields new insights each time I read it. But it also is unchanging in ways that struck me when I first read it; for Augustine's Confessions seem almost modern in the telling with a psychological perspective that brings his emotional growth alive across the centuries. From the carnality of his youth to the moment in the Milanese Garden when his perspective changed forever you the story is an earnest and sincere exposition of his personal growth. You do not have to be a Catholic or even a believer to appreciate the impact of events in the life of the young Augustine. His relations with his mother, Monica, are among those that still have impact on the modern reader. This is one of those "Great" books that remind you that true insight into the human condition transcends time and place.
  • (5/5)
    Has been called the greatest autobiography of all time.Exceedingly eloquent; the entire book is a prayer which reflects on the author's life and the work of God's grace within it.
  • (4/5)
    Considering that the style of Augie's work is completely and utterly impenetrable, this is actually a pretty decent read. Just come to it expecting circularity, meditation, rapturous theology and self-flagellation, and you'll come away impressed.
    Don't expect anything linear, and you'll be all the more impressed when he ends up, every now and then, out-Aristotling Aristotle with arguments of the (x-->y)&(y-->z)&(z-->p)&(p-->q); ~x is absurd; therefore q variety.
    Don't expect any modern 'you are a unique and special snowflake and your desires are good it's just that your parents/society/upbringing/schoolfriends/economic earning power have stunted you' self-help guff. It'd be nice to read someone more contemporary who's willing to admit that people do things wrong, all the time, and should feel really shitty for doing wrong things.
    Don't expect Aquinas. This is the hardest bit for me; if someone's going to talk about God I prefer that they be coldly logical about it. Augie goes more for the erotic allegory, self-abasement in the face of the overwhelming eternal kind of thing. No thanks.
    Finally, be aware that you'll need to think long and hard about what he says and why he says it when he does. Books I-IX are the ones you'll read as autobiography, and books X-XIII will seem like a slog. But it's all autobiography. Sadly for Augie, he doesn't make it easy for us to value the stuff he wants to convince us to value, which is the philosophy and theology of the later books. The structure, as far as I can tell, is to show us first how he got to believing that it was possible for him to even begin thinking about God (that's I-IX). X-XIII shows us how he goes about thinking about God, moving from the external world, to the human self in X and a bit of XI, to the whole of creation in XI and XII, to God himself in XIII. I have no idea if this is what he had in mind, but it roughly works out. That's all very intellectually stimulating, but it's still way more fun to read about his peccadilloes and everyday life in the fourth century.
  • (3/5)
    A classic work for its influence on Christian theology going forward, but hardly a pleasure read for anyone not a student of such or not keenly interested in early Christian lore. Non-religious at my best, I read it as an early example of autobiography and for the sake of its place in history; but the story of a man's search for himself and his quest for truth is something we all go through at some point in our quest for self-identity. In Augustine's case it is the story of an atheist brought to God, a journey that included the search for truth in many other directions before he resorted to religion. This was a very difficult read, a chore really, and it took me much longer than its page count warranted. I had to lean on Sparknotes quite a bit to help me navigate it. Merging neo-platonic philosophy with Christianity, Augustine argues that everyone and everything moves towards God, knowingly or not, as part of a quest to achieve near-perfect (only God is perfect) state of being. That is an essential message to be aware of and watching for if you've any hope of getting through this.The first nine parts are his biography, which serves as a sort of case study. This was the portion that satisfied my amateur interest. Augustine apologizes to God for every sin he can ever remember making, including some (e.g. crying incessantly as a babe) that he can't. Citing the evil sin of taking pride in his grammar lessons and rhetoric skills, etc. makes him sound almost a flagellant. Slightly more legitimate was the minor theft of fruit committed under peer pressure, and more philandering than was strictly warranted. Most peculiar to me was the supposed sin of taking pleasure in watching tragic drama, as he wonders where the pleasure came from to be entertained by tales of others' suffering, albeit fictional.The last four parts are increasingly obtuse as he lays out his theory of change that moves towards God. I could barely parse these chapters. The first explored memory, the next was on the nature of time, the next the biblical story of creation, and the last ... Sparknotes doesn't cover this one and it lost me so completely, I can't even hazard a guess at what it was addressing even though I read every word. The tenth chapter is also a discussion of temptations and gave me the sad impression that he had built a cage about himself, cutting himself off from every pleasure life has to offer and reducing his experience to mere survival. He writes that of course he knows he cannot permit anyone to dissuade him from this position. It's a typical tenet in any fundamentalist perspectives, this defining anyone who tries to talk you out of your beliefs as inherently evil, permitting your dismissal of their every argument without having to hear or consider (been there, done that, bought the Ayn Rand t-shirt - sold it back.) I have met a brilliant man, one who became deeply inhibited by the self-identity he arrived at.
  • (3/5)
    I know this is a "great" work of Christianity because I was told it was. But it did nothing for me. It seemed jumbled and erratic and hard to understand, despite the use of simple, easy language. It was more stream-of-consciousness that I excepted. I didn't enjoy reading about Augustine's life and struggles with sin. He was honest and that's rare from someone who because famous for their faith. I think this book can make a huge difference in many people's hearts - but for me, it was just not what I prefer to read. It was a bit too sentimental and full of angst for my rational tastes.
  • (5/5)
    One of the most excellent books I've every read. From start to finish I was captivated letter by letter, word by word and so on.You do not have to be a catholic, or even a christian to enjoy this mans tail of finding faith.
  • (5/5)
    Every time I start to get a little down on St. Augustine -- what with his invention of some pretty deplorable doctrines (ie original sin) -- I need to reread his Confessions. In fact, everybody should read his Confessions. It is an absolutely beautiful book! St. Augustine pours out his soul before God and all the world -- confessing his sins and telling the story of how he came to Christ, watching for the subtle movement of the Holy Spirit in all things and seeing God's guiding hand behind every event in his life. It's not often that you get to watch a sinner become a saint (literally!) -- read it!
  • (4/5)
    This book has been one of the slowest reads so far this year and took around 41 days to finish. My main struggle was with the language the book was written it. The underlying story was interesting, but there were so many extra words around everything. Especially in the first books, Augustine is constantly referencing back and forward between the past and the present and the relationship between his past actions and God. He regrets choices and actions that he took, but acknowledges that God was present in them and worked through them.
    The more I read, the more the underlying story of Augustine's journey became clear. It showed that his was a slow meandering journey to finding God.
    His mother, Monnica, is one of the main characters in the book, who is constantly praying to God to save her son. And her prayer is answered before her death, albeit not by many years.
    The last chapter ended by tying up the experience with an honest look at how Augustine was living in the present. He struggled with wanting to follow God in his heart, but also wanting to follow his own wills/passions. It is an encouraging insight into the life of such a well-known, influential Christian theologian and philosopher showing that he never attained perfection, but was reassuringly human.
  • (5/5)
    Gorgeously written, though I suppose Latin generally translates into very lovely prose. I loved the introspective wanderings into the human consciousness, and recommend the book to anyone, especially one who puts the saints on an unattainable pedestal--the holy have never seemed so human.
  • (5/5)
    If anyone struggles with desires within themselves and wonders why the struggle and if it can be overcome they need to read Confessions. The struggle has never changed and Augustine had to fight through his passions and his intellect to find trust and relief in Christ.
  • (2/5)
    I profoundly disagree with Augustine's conceptualization of God/spirituality and truly wish he had kept his macho guilt to himself (our world would be so very different if he had). But his influence on Christian (and so U.S.) culture is undeniable, and so this is a good book to have read.
  • (5/5)
    A wonderful book that at once balances a true confession of a life without God with the awe and wonder of knowing and seeking the Almighty. Augustine masterfully recognizes God's hand in every part of his life, and he makes his reader want to seek that hand as well. A masterpiece in both a religious and literary sense.
  • (5/5)
    Absolutely fantastic. I've read it several times and will wear it out eventually.l
  • (5/5)
    Chadwick's notes that accompany this version of Augustine's Confessions do the best job of understanding the deep Manichaean context of not only the book but Augustine's early (and, some would say, entire) intellectual life.
  • (5/5)
    I really felt my soul physically grow as I read this book.
  • (3/5)
    Well, I'm finished with this book at last!I originally became interested in reading Confessions when I saw a special twelve years ago about the beginnings of Christianity, because I thought "Confessions" sounded like a juicy book. It's really not juicy at all, so it's a good thing I approached it interested in theology and not scandal by the time I finally got around to reading it. This time around, I mainly felt like it was important for me to read firsthand the philosophy that is so much a basis of Catholic thought.Like most books written in the middle ages, St. Augustine's would have benefited from a good editor. There were a lot of times where I felt he repeated himself, which is fine for a spiritual seeker's personal musings, but a bit annoying for an outside reader hundreds of years later. And even though he wrote his Confessions both to strengthen his understanding/relationship with God and to further the same for others, a lot of it really did feel like naval-gazing. Still, I found myself appreciating a LOT of Augustine's theology, such as his insistence that people could come to diverse interpretations of Scripture without any of them being "wrong" (take that, fundamentalists!). Indeed, Augustine's perception of Christianity seems a lot more open than the Catholic Church of today would lead you to believe, although the hierarchy HAS kept his puritan perceptions of sexuality fully intact. Thank God for that.
  • (4/5)

    I began reading this once years ago, but it failed to engage me and I put it aside. When I started again I couldn't understand my previous lack of interest. The work ranges from philosophical speculation to personal memoir, and each kind has it's appeal. I was surprised by how must variety of belief and opinion late antiquity held on so many topics. Some of the debates and issues Augustine describes sound shockingly contemporary, though put in different terms. The passages covering Augustine's personal life can be poignant, especially those concerning death.

    The scholarly consensus is that the Confessions was meant to be a preamble to a longer work: a detailed exegesis of the entirety of Christian scripture. The last three books cover the first chapter of Genesis, with careful attention given to an allegorical interpretation of the creation story. This is apparently as far Augustine ever got, thus adding to the long tradition of great, unfinished masterpieces.