Find your next favorite book

Become a member today and read free for 30 days
Sozinho: Ao redor do Mundo

Sozinho: Ao redor do Mundo

Read preview

Sozinho: Ao redor do Mundo

ratings:
5/5 (1 rating)
Length:
390 pages
13 hours
Publisher:
Released:
Apr 9, 2020
ISBN:
9786586079357
Format:
Book

Description

Sozinho ao redor do Mundo, "Sailing Alone Around The World", é o livro de memórias de Joshua Slocum que narra a sua fabulosa aventura de circunavegação do mundo, realizada no final do século IX. Slocum foi a primeira pessoa a realizar a façanha navegando sozinho.  O livro, lançado em 1900, foi um sucesso imediato e influenciou muitos outros aventureiros a também tentar realizar proezas semelhantes. Os destaques da viagem, narrados por Joshua, incluem os perigos do oceano como neblina, vendavais, colisão, solidão, crise, navegação, fadiga… Incluem também os riscos da navegação costeira com piratas, ataques de 'selvagens', enseadas, cardumes e recifes de coral, encalhamento e naufrágio. Sozinho ao Redor do Mundo é um delicioso livro de aventuras, daqueles que odiamos ter que interromper e que,ao final, nos deixa com vontade de também navegar pelo mundo. 
Publisher:
Released:
Apr 9, 2020
ISBN:
9786586079357
Format:
Book

About the author


Related to Sozinho

Related Books

Book Preview

Sozinho - Joshua Slocum

cover.jpg

Joshua Slocum

SOZINHO

AO REDOR DO MUNDO

Alone around the world

1a edição

img1.jpg

Isbn: 9786586079357

LeBooks.com.br

A LeBooks Editora publica obras clássicas que estejam em domínio público. Não obstante, todos os esforços são feitos para creditar devidamente eventuais detentores de direitos morais sobre tais obras. Eventuais omissões de crédito e copyright não são intencionais e serão devidamente solucionadas, bastando que seus titulares entrem em contato conosco.

Prefácio

Sozinho ao redor do Mundo, Sailing Alone Around de World, é um livro de memórias de Joshua Slocum que narra a sua fabulosa aventura de circunavegação do mundo, realizada no final do século IX. Slocum foi a primeira pessoa a realizar a façanha navegando sozinho.

O livro, lançado em 1900, foi um sucesso imediato e influenciou muitos outros aventureiros a também tentar realizar proezas semelhantes.

O capitão Slocum era um navegador e construtor de barcos altamente experiente e para realizar sua façanha ele reconstruiu um saveiro abandonado denominado Spray num período de 13 meses. Entre 24 de abril de 1895 e 27 de junho de 1898, Slocum, a bordo do Spray, atravessou o Atlântico duas vezes (para Gibraltar e voltou para a América do Sul), Estreito de Magalhães e atravessou o Pacífico. Ele também visitou a Austrália e a África do Sul antes de cruzar o Atlântico (pela terceira vez) para retornar a Massachusetts após uma viagem de 46.000 milhas.

Slocum atraiu considerável interesse internacional por sua jornada, principalmente depois que ele entrou no Pacífico. Ele era aguardado na maioria dos portos de escala e dava palestras e apresentações de slides em corredores bem cheios. Seu diário foi distribuído em episódios antes de ser publicado em forma de livro em 1900. Slocum conta sua história como uma sequência de aventuras, subestimando sua própria parte e sempre dando crédito ao Spray.

Os destaques da viagem incluíam os perigos do oceano como neblina, vendavais, perigo de colisão, solidão, crise, navegação e fadiga. Incluíam também os riscos da navegação costeira com piratas, ataques de 'selvagens', enseadas, cardumes e recifes de coral, encalhamento e naufrágio. Numa passagem curiosa, Joshua conta que ao atracar na Terra do Fogo, foi avisado de que poderia ser atacado pelos índios Yahgan durante a noite, por isso jogou tachinhas no convés. Ele foi acordado no meio da noite por gritos de dor dos visitantes.

Joshua Slocum era um habilíssimo navegador e criou um sistema de amarração da roda que era uma espécie de piloto automático, tecnologia que seria desenvolvido somente muitos anos depois. Ele se orgulhava do fato de o Spray ter navegado 2000 milhas a oeste através do Pacífico sem que ele tocasse o leme.

Sozinho ao Redor do Mundo é um delicioso livro de aventura, daqueles que odiamos ter de interromper a leitura e que, ao final, nos deixa invejosos das proezas realizadas.

Uma excelente e agradabilíssima leitura.

LeBooks Editora

Introdução

Esta minha construção literária vai fazer-se ao mar, no modelo e armação originais, carregada com a narração dos estranhos acontecimentos ocorridos em um lar flutuante.

O construtor, marinheiro há muitos anos, poderia ter carregado o barquinho, por assim dizer, com uma carga de sal, em vez de tão ousadamente se intrometer nos domínios dos navegadores da borda de água.

Pudesse ao menos o autor e construtor virar de bordo, à maneira dos velhos lobos do mar, ai de mim! e esperar que o perdoassem!

Que importa que a corrente nos seja contrária?

Se estiver a favor, somos por ela levados, mas para onde, ou para quê?

A rota de toda a viagem é tão insignificante que pouco interessa, talvez; e afinal, onde quer que se vá, o que importa é a felicidade de se viver mais um dia no mar!

É isso que torna feliz o velho marinheiro, mesmo na tempestade; e que o mantém cheio de esperança, ainda que agarrado a uma tábua no meio do oceano.

Sem dúvida, é só isso! porque a beleza espiritual do mar, que conquista a alma do Homem, não admite infiéis nas suas extensões sem limites.

Joshua Slocum

Sumário

1ª PARTE - A Viagem do Liberdade

I - O navio

II - Montevideu

III – Salvamento dum carregamento de vinho

IV - A decisão da Ilha Grande

V - No Rio

VI - O Motim

VII - De novo na barca em Montevideu

VIII - Nova equipagem

IX - A Construção Do Liberdade

X - Saindo a barra

XI - Largando do Rio

XII - Largando do Cabo Frio

XIII - Na Baía

XIV - Da Bahia à Pernambuco

XV - Em Barbados

XVI - Correntes marítimas

2ª PARTE – Sozinho ao redor do mundo

I - Uma família da Nova Escócia com tendências yankees

II - Insucesso como pescador

III - Adeus à costa americana

IV — Mau tempo nos Açores

V — Largando de Gibraltar

VI - Largada do Rio de Janeiro

VII — Levantando ferro de Buenos Aires

VIII – Do Cabo Pilar para o Pacífico

IX — Reparando o pano do Spray

X -Tempestade de neve

XI - Os ilhéus de Juan Fernandez

XII - Setenta e dois dias sem ver terra

XIII — Monarquia Samoana

XIV — Homenagem de uma senhora

XV - Chegada a Port Denison, na Queenslândia

XVI - Necessidade de navegação cuidada

XVII - Revista de saúde na Maurícia

XVIII - A passagem do Cabo das Tormentas

XIX — Na ilha-exílio de Napoleão

XX — No Cabo de S. Roque, Brasil

XXI - Pronto para o regresso

Apêndice

Conheça outros títulos da coleção Aventura Histórica

1ª PARTE - A Viagem do Liberdade

I - O navio

 A tripulação - Um furacão - Ilhas de Cabo Verde – Cabo Frio - Uma confusão.

Para começar a singrar: foi em 28 de Fevereiro de 1886 que a barca Aquidneck, carregada de tambores de petróleo, largou de Nova Iorque para Montevidéu, capital do Uruguai, essa faixa de território que confina a Nascente com o Rio da Prata e é chamada pelos naturais Banda Oriental.

O Aquidneck era um elo navio de 326 toneladas de arqueação, procedente de Baltimore, porto célebre pelos seus clipes, e ele próprio era famoso entre os demais pelo andamento veloz e ganhara bela reputação em muitos mares.

A tripulação era de dez homens, no total, mas a lotação, no tempo dos bons fretes, tinha sido de doze homens. Além do pessoal com lugares certos na faina, havia um petiz, de uns 6 anos de idade, e sua mãe (cuja idade não vem ao caso) que se distinguiam dos restantes por estarem dispensados de fazer quartos. O imediato, Victor, que ainda teria de passar por muitas aventuras antes de regressar a Nova Iorque, nascera e criara-se no mar. Tinha uma saúde de ferro e era forte como um cabrestante. Quando pela primeira vez viu a luz e começou a dar ordens, estava em São Francisco a bordo do paquete Constitutivos, o navio que se perdeu na tempestade, em Samoa, pouco antes do grande desastre naval que ali ocorreu no ano de 1889 Garfield, o petiz de que já falei, irmão do Victor, nascera no porto de Hong Kong, na velha barca Amethyst; embora nascido em porto estrangeiro, era cidadão americano de pleno direito. O Amethyst tinha desafiado o vento e as vagas ao longo de 58 anos, mas, pelo que sei, nunca havia experimentado vento tão rijo como o que desabou sobre os seus velhos madeiros naquele memorável dia 3 de Março de 1880.

A bordo do Aquidneck, a gente da proa era de seis homens oriundos de outros tantos países, estranhos para mim e estranhos uns para os outros; só o cozinheiro, um negro, era americano pelo menos de nascença. Mesmo assim, ter tantos americanos em um navio era considerada coisa rara.

Mas, por muito ou pouco que interesse esta história da família e a descrição da tripulação: o dia em que zarpamos estava gelado e tempestuoso, não pressagiando nada de bom para a viagem que íamos iniciar e que havia de ser, na verdade, a mais memorável da minha vida de mais de trinta e cinco anos de mar. Estudando o boletim meteorológico da manhã, antes de largar, vimos que se previa um temporal do Nordeste e que outro se aproximava do Sudoeste ao mesmo tempo. A perspectiva — diziam os jornais de Nova Iorque — não é animadora. Apesar disso, como estávamos ansiosos por largar, tendo a tripulação a bordo e tudo pronto, fizemo-nos ao mar, um pouco contra o bom senso. O Noroeste, que soprava então com uma velocidade de quarenta milhas por hora, subiu para oitenta ou noventa milhas em 2 de Março. O furacão manteve-se por todo o dia 3 e fez-nos recear seriamente pelo barco e pela gente que levava.

Em Nova Iorque, nesse dia, o vento soprou do Norte com o centro ciclônico algures no Atlântico — como disseram os sábios marinheiros do serviço meteorológico, a quem, diga-se de passagem, os homens do mar muito devem, hoje em dia, pela previsão, por vezes com dias de antecedência, de tempestades que se aproximam. O prognóstico era correto, como pudemos verificar. Ao largo, no Atlântico, não podia a nossa barca levar mais que uma vela de tempo à proa, pouco maior que uma toalha de mesa, e com este pano corria com o tempo fazendo uma bela bigodeira¹ e ganhando muito caminho. Montanhas de água galgavam o navio na sua corrida desenfreada, cobrindo o convés até ao cimo da borda falsa e sacudindo tudo de alto a baixo.

Os homens tinham-se amarrado cada um no seu posto; e toda a peça de mastreação de reserva que não se ligou devidamente no seu lugar foi levada pela borda fora juntamente com outras peças partidas e arrancadas das pregadoras pelo temporal.

A cozinha sofreu a sua parte no desastre e o próprio cozinheiro safou-se, por pouco, de um acidente grave quando uma vaga avançou rugindo pelos conveses, levando consigo portas, vigias, fogão, panelas, caçarolas à mistura com o artista culinário, acabando os destroços por ir aterrar nos embornais de sota-vento, mas, muito felizmente, com o mestre por cima. Um desastre assim faz-se sempre… sentir. Molha-nos a boa disposição, por assim dizer. Significa comida fria durante algum tempo, ou preço ainda pior.

O dia seguinte, porém, já não foi tão mau. As vagas gigantescas que mais tarde começaram a alcançar o navio, prenunciavam boa mudança: quebrada a sua velocidade com o amainar do tempo, podia agora o mar alcançar a barca muito grande e lançado.

Largou-se logo mais pano e fomos dando velas à medida que o temporal amainava, porque o navio não pode seguir ronceiro com um grande mar a correr atrás dele. E assim voava, como nuvem impelida pelo vento, içando vela após vela e, no dia 5 de Março, abertas todas as suas asas brancas, alegremente caminhava pelas águas como uma coisa viva. Tivemos então, durante vários dias, vento bastante, mas não demais, e o nosso barco veloz ria-se para as vagas, tentando alcançá-las.

Navegamos, assim alegremente, durante dias e dias empurrados pelo vento de feição e, como íamos ganhando em cada dia quatro graus de longitude, todas as manhãs encontrávamos o Sol um bom bocado mais cedo. Chegou à altura, durante estes dias ensolarados, de nos precavermos com roupas secas contra o mau tempo que estivesse para vir. Trouxeram-se para o convés arcas e sacas, e o pessoal de folga ocupou-se em enxugar e remendar, enquanto os homens do quarto se mexiam na faina de pôr o navio em ordem. Chips — o carpinteiro, reparou a cozinha; puseram-se cataplasmas nas canelas do cozinheiro; e, em poucos dias, estava tudo de novo em boas condições.

E os marinheiros que se azafamavam, prazenteiros, nas suas roupas remendadas de várias cores, faziam-me lembrar pombos malhados debicando à procura de alimento; mas os pombos, pensava eu, eram os que levavam melhor vida. Um caldeiro de café ou chá quente, um biscoito e um naco de carne de salmoura, regalaram a tripulação e restituíram-lhe a voz. Fez-se então ouvir na brisa a toada do Reuben Ranzo e a amura do grande foi tesada ao som do Johnny Boker. Durante os quartos da noite faziam-se ouvir outras maravilhosas canções a condizer com aquele belo tempo.

Depois, esgotadas as cantigas e as histórias, os homens falavam do que fariam e do que não fariam no próximo porto.

Aguenta, marinheiro, aguenta o socairo e dá volta!, ou a jaqueta nova que resolveste comprar para ti, irão usá-la os engajadores de Montevidéu enquanto tu vai andar ao largo do Cabo Horn cantando o Haul out to leeward com uma meia molhada em volta do pescoço e com o mesmo pelico velho que, desde há muito sem pelo e gasto até ao fio, já não é pelico senão de nome; quer dizer, se não rondas o brando das tuas ideias e se não amarras tudo a ficar vai continuar a usar a mesma roupa de algodão que agora trazes, enquanto os engajadores dividem entre si os teus magros proveitos.

Ao cabo de dez dias de navegação encontramos os alísios do Nordeste. Por baixo da proa brincavam toninhas, como só as toninhas o sabem fazer; ao longo do costado corriam golfinhos e a toda a volta viam-se peixes voadores. Era, na verdade, uma alegre mudança; parecia que se tinha entrado em um mundo novo. Esqueceram-se todas as fadigas passadas, porque o mar lava todas as misérias dos homens.

Mais uma semana de bom velejar, com tudo em boa ordem a bordo, e as ilhas de Cabo Verde estavam à vista. E que vista admirável! Todos gritaram, terra firma! Como é bom ver-te de novo!

Ao meio-dia tínhamos as ilhas pelo través, e o alísio fresco da tarde levou-nos para fora da sua vista antes do escurecer.

É admirável navegar assim, sentindo a barca galear as vagas em um balanço compassado, largo, com o vento numa alheta a impeli-la para avante até ela saltar alegremente de crista em crista, como a tentar competir com os próprios peixes voadores, seus acompanhantes. Se uma vaga se lhe opõe, arremete-a com a proa airosa, lançando para a luz miríades de partículas de espuma que brilham como numa auréola de glória. Anda-se agora no convés com mais leveza, e o pequeno mundo a bordo sente-se alegre.

A aterragem seguinte seria o Cabo Frio. Ao atingirmos este ponto, tínhamos atravessado o Atlântico duas vezes. Seguimos primeiro uma rota para Cabo Verde, para irmos aí buscar os alísios de Sudeste que nos levassem de feição até ao Cabo Frio, segundo o rumo Sudoeste. Esta última derrota foi uma direitura fácil, sem qualquer acontecimento digno de registro. Seguimos daqui para diante com ventos variáveis até ao Rio da Prata, onde nos caiu em cima um pampeiro, que soprou muito duro, assobiando, como uma corneta, no aparelho do navio.

Os pampeiros (ventos das Pampas) costumam soprar com fúria, mas dão aviso, com largo tempo, da sua aproximação. O primeiro sinal foi um período belíssimo, com nuvens pequenas, em flocos, flutuando tão levemente no Céu que mal se lhe distinguia o movimento; e, no entanto, elas lá corriam, como um imenso rebanho que deslizasse, imperturbável, no grande prado azul. Assistimos a tudo isto e tomamo-lo em boa conta. Depois, gradualmente, e sem qualquer motivo aparente, as nuvens começaram a acastelar-se em grandes grupos; os elementos confirmavam o primeiro sinal dado. De trás das suas massas acasteladas saiu então um clarão de fogo e, depois, um rugido longínquo. Aí estava o aviso, e um aviso que nenhum navio podia deixar passar em claro. Ferra tudo! foi a ordem. Colher todo o pano quando estes visitantes temíveis andam pelo mar a fazer tropelias, e recebê-los em árvore seca, é a manobra mais segura, a não ser, é claro, que se tenham envergadas as melhores velas de tempo; e mesmo assim é mais seguro carregar as gáveas pelo meio da esteira, antes das primeiras rajadas chegarem. E enquanto não amaina a fúria do temporal, o navio não pede pano, porque só então começa o mar a crescer e é preciso dar velas para evitar o balanço.

As primeiras rajadas do temporal, arrasando o mar na sua passagem e fazendo voar as pretensas vagas em lençóis, lençóis de marinheiro, se assim lhes quisermos chamar, davam ao mar um aspecto selvagem e aterrador; mas não havia o temor de uma terra a sota-vento, porque o vento, como o próprio nome indica, da terra soprava.

Depois do aguaceiro seguiu-se uma calma e, depois desta, ventos de feição, que nos levaram ao porto de destino Montevidéu onde largamos ferro no dia 5 de Maio e, depois da visita da Alfândega, fizemos preparativos para a descarga. A carga foi transbordada para batelões, que a transportaram para os cais, e daqui levada para os armazéns, onde termina a responsabilidade do navio para com o proprietário dos bens. Mas só então cessa a responsabilidade do navio, ou os cuidados do capitão com a mercadoria que lhe foi confiada. Não há dúvida de que o capitão tem dores de cabeça no mar e em terra.

II - Montevideu

- Mendigos - Carga de mate em Antonina - "De Antonina a Buenos Aires - A bombelia.

Montevidéu, cidade irmã de Buenos Aires, é, das duas, a mais bela de ver do mar, pela sua posição mais elevada e, como Buenos Aires, faz gala nas suas lindas vivendas, mulheres airosas, escolas, e um cemitério pomposo.

É em Montevidéu que o mendigo cavaleiro é uma realidade (os cavalos são baratos); dirige-se para nós ao galope e, lamentoso, implora: Pelo amor de Cristo, amigo, dê-me uma moeda para comprar pão.

De Montevidéu fomos a Antonina, no Brasil, para meter um carregamento de mate, uma espécie de chá que, como bebida, é agradável e refrescante. Os naturais bebem-no em comum, de um modo particularmente cativante, por um tubo metido na beberagem quente em um bule de prata ou numa cabaça, conforme o que estiver à mão quando amigos sedentos encontram outros amigos todos eles chupando, deliciados, pelo mesmo tubo que vai passando de boca em boca. Por muitas bocas que haja, a bombelia, como lhe chamam, deve chegar para todos. Pode suceder ter de se encher de novo para a bebida fazer a roda, e mesmo por mais que uma vez, se a companhia é numerosa, mas a operação faz-se sem perda de tempo. Deitando-se no bule ou na cabaça uma colherada da erva, duas colheradas de açúcar e meio litro de água que se despeja a ferver por cima daquela, fica pronta a bebida. Para se lhe der mais um aroma fantasista, deitasse eles para dentro uma brasa acesa (carbo vegetable). Depois da operação retoma-se a rodada a partir do último que se serviu. Feliz daquele a quem, sendo um estranho, cabe ser o primeiro a chupar o tubo, mas o iniciado não tem preconceitos. Enquanto estive nesta terra participei com frequência nestas rodadas sociais de mate, e por fim deleitei-me com uma bombelia só minha.

A gente de Antonina (e, na verdade, todo mundo que vimos no Brasil) era amável, extremamente hospitaleira e delicada; geralmente sóbria, poucos desejos tinha para além dos seus recursos. O cenário da montanha, visto da baía, era de deleitar quem o olhava; mas não vi no Mundo lugar mais grandioso e atraente. Também o clima é saudável. O único médico do sítio, na altura em que lá estivemos, trazia o casaco roto nos cotovelos, por falta de clientela. Que desejável porto é Antonina!

Houve entretenimentos musicais a bordo, enquanto aqui estivemos. Fazia bem à alma de um marinheiro maltratado pelo mar, ouvir cantar as doces cantoras brasileiras, mostrando seus belos dentes alvos. Uma ninfa dedicou ao autor, uma canção que fez todos rir muito. Como cantava na língua local, não a entendia, mas é claro que me ri com os restantes o que os fez contorcer-se em gargalhadas, do que conclui que a graça era à minha custa. Mas também apreciei isso, tanto ou mesmo mais que se tivesse saboreado areitos em meu louvor.

Seguimos com o mate para Buenos Aires, onde o processo de descarga era o mesmo que em Montevidéu em barcaças.

Mas em Buenos Aires ficamos ao quádruplo da distância de terra; cerca de quatro milhas.

A erva, ou erva mate, é metida em barricas, caixas e sacas de pele de bezerro cosidas com fortes tiras de couro. O conteúdo, fortemente comprimido, quando a erva está verde e elástica, torna-se duro como uma bala de canhão pela contração que sofre à medida que vai secando. O pequeno Garfield viu a chegada da primeira carga de coroes como lhe chamam, no porto de embarque. Em pilhas na barcaça, bem acima do alcatrate, com o lado do pelo para fora, tinham, na verdade, um aspecto curioso. Oh, papai — disse o petiz — vem ali um carregamento de vacas! Aguenta aí, ó gente, e metam-nas a bordo!.

III – Salvamento dum carregamento de vinho

 - Marinheiros felizes – Cólera na Argentina – Morte em terra – O Harry Holandês - Pete o Grego – Engajadores famosos – Perda de uma embarcação — Rumo à Ilha Grande — Expulsos do porto — Sérias tribulações. Rumo à Ilha Grande Expulsos do porto Sérias tribulações.

De Buenos Aires, subimos o Rio da Prata até perto da confluência dos rios Paraná e Paraguai, para salvar um carregamento de vinho do brigue Neovo San Pascual, vindo de Marselha, que encalhara.

As águas do grande rio, neste ponto, fora da ação das marés, correm para jusante com força, formando quase um mar, e um mar perigoso de navegar; daí, a perda do San Pascual e de muitos outros antes deste.

Se já alguma vez qualquer de nós tinha gritado, como o velho marinheiro água, água em todo o redor, e nem uma gota para beber! esquecemo-nos disso agora neste rio generoso. E vinho, também o tínhamos sem restrições. O agente dos Seguros, para não deixar pretexto para interferir com a carga, puxou para fora um barril do melhor e, como um verdadeiro Hans Breitmann partiu-lhe o batoque. Depois, durante a faina também se partiram algumas caixas cujo conteúdo ensopou, de alto a baixo, os marinheiros que as transportavam à cabeça.

Ah! a diversidade da vida dum marinheiro! Quem sabe se uma experiência como a do Dana e da sua tripulação, carregando peles secas à cabeça, numa costa queimada do Sol, não nos estará reservada; ou mesmo uma pior nos diríamos, nadando agora em delícias água e vinho à vontade. Embora a esta boa sorte se pudesse seguir dias menos alegres, preferíamos contá-la, dizíamos, como compensação de infortúnios passados, acentuando bem que nunca chove, só cai água.

O carregamento de vinho foi, na devida altura, descarregado em Rosário apenas com ligeiras perdas, e a tripulação, excetuando um só caso, manteve-se bastante sóbria para ajudar a manobra, mesmo no difícil Paraná. Mas um pecador empedernido o tal caso de que falei um antigo pescador do Labrador, deu em um borracho inútil a despeito de tudo quanto pudemos fazer. E digo pudemos porque a maioria da tripulação estava do meu lado, partidária de negócio limpo e abastecimentos regulares.

Trancou-se e fechou-se o porão a cadeado e não houve sítio que não fosse logo revistado; mas o Dan continuava perdido de bêbado. Por fim levantou-se o colchão e dele rolaram umas doze ou mais garrafas do melhor néctar. Seguiu-se uma grande zaragata, mas foi toda feita pelo Dan, que jurava terrível vingança contra o homem se algum dia o pudesse descobrir que tinha metido a pinga no seu beliche para o meter em sarilhos; alguns daqueles rapazinhos haviam de se arrepender! Descarregado o vinho, fretei para carregar luzerna em fardos para o Rio de Janeiro. Entretanto, terrivelmente súbitas, começavam a registrar-se muitas mortes, e depressa ficamos a saber que a cólera nos olhava a todos de frente e alastrava rapidamente pelo país, mergulhando aldeias e cidades na doença e na morte.

Aproximando-se aterradoramente de nós, levou-nos o piloto; a sua mulher enviuvava no dia seguinte àquele em que ele levou a nossa barca até ao ancoradouro de carga. E o jovem que nos tinha começado a entregar o carregamento foi prostrado um dia depois. O seu navio tinha chegado!

Sucumbiram à peste muitos homens válidos e muitas, muitas mulheres e crianças; tivemos, no entanto, a ventura de atravessar a nuvem negra sem perdermos um ente querido, enquanto à nossa volta a doença ceifava pessoas aos milhares, no meio da desolação e da dor. Houve um momento em que parecia estarmos no centro da nuvem que vinha serpenteando pelo país, envenenando todos os que tocava e deixando a morte na sua esteira. Era a cólera, na verdade, e na sua forma mais terrível!

Um pobre homem, sentado à porta do hotel da Viúva Lacina, dizia-me desorientado: Há dois dias, podia-me sentar-se na minha própria casa com a mulher e três filhos ao meu lado. Hoje estou só no Mundo! Até a minha casa, pobre como era, veio abaixo. Compreendi a aflição do homem; sem dúvida, a casa dele veio abaixo.

Não havia forma de se combater o veneno ou evitá-lo, a não ser por meio de desinfetantes e conservando o organismo a funcionar com regularidade. O mal tinha alastrado a todo o país e o ar estava impregnado dele. Os remédios vendiam-se por tal preço que muitas pessoas devem ter morrido sem experimentar uma droga com que combater a doença. Levantaram-se protestos contra os droguistas sem escrúpulos que especulavam com os medicamentos, mas não se tomaram medidas para pôr cobro à sua avidez. A cânfora chegou a vender-se a quase nove dólares o quilo, e um droguista que tivesse para vender uns poucos centos de gotas de laudano e outro tanto de clorodine podia depois vir passear pela Europa à custa dos lucros do negócio.

Foi em Rosário, e por esse tempo, que levamos a enterrar o nosso jovem amigo, estimado por novos e velhos, o Capitão Speck. Os amigos não perguntaram se foi ou não de cólera que ele morreu, e tomaram parte na derradeira manifestação de amizade, como competia a homens de coração e de sentimentos. O ministro não pôde comparecer naquele dia, mas o pequenino amigo do Capitão Speck, o Garfield, disse: Içou-se o sinal para virem os anjos e levarem o Capitão para o Céu!

Que mais era preciso dizer? E as bandeiras estiveram desfraldadas todo o dia.

Depois, exigimos-lhe uma lápide na campa e o mais difícil de tudo • escrevemos à viúva e aos órfãos. Foi uma mensagem muito simples, lá para tão longe, em Santa Fé, mas escrita com o coração a doer.

Depois disto, sucederam-se em Rosário, dias tristes, que se arrastaram por semanas e meses; o pensamento fugia-nos constantemente para os felizes dias passados. Preferíamos abalar daqui para outras regiões, ainda que apenas em imaginação. Mas havia entre nós uma alma feliz a criança, cujo rosto era um raio de sol que brilhava sempre com bom ou mau tempo, feliz na sua ignorância dos males que atormentavam os homens.

Chegou, finalmente, o dia de zarpar de Rosário; e, com a impressão de que eram grilhetas que quebrávamos, soltamos as amarras e largamos rio abaixo com o navio completamente carregado.

Mas em vez de nós fazermos de vela para o Rio, conforme o contrato de fretamento, por ordem do cônsul brasileiro tivemos de seguir para a Ilha Grande, o porto de quarentena do Brasil, que fica a umas sessenta e duas milhas do Rio, para o navio ser aí desinfetado e descarregado.

Antes de largar, tinha contratado e embarcado nova equipagem, mas enquanto eu estava tratando dos papéis, por volta do meio-dia, os marinheiros roubaram-me uma das embarcações do navio e desapareceram, fugindo para jusante o mais depressa que podiam. Nunca mais os vi. Desertaram, levando, além da embarcação, um mês de vencimento adiantado por um tal Sr. Harry Holandês um engajador que me tinha roubado a primitiva equipagem porque podia, gabou-se ele depois embarcar nova gente no seu lugar". Considerando que quem perdera o dinheiro fora o tal Harry, o mais vil dos engajadores, quase desculpei aos bandidos o roubo da embarcação. (O navio é usualmente responsável pelos ordenados vinte e quatro horas depois de zarpar, desde que o pessoal siga nele para o mar). Além disso, sendo da espécie que eram, indignos do nome de marinheiros, o meu navio ficava muito melhor sem eles e era bem empregado o custo de se ver livre de tais homens, ainda que esse custo fosse o preço da embarcação.

Tenho, no entanto, de me retratar de ter chamado o mais vil dos engajadores ao Harry Holandês. Chegou a Rosário um ainda pior, um tal Pete o Grego que tinha cortado as orelhas a um engajador rival, em Boca, e depois de as deitar ao rio fugiu para Rosário, distante de Boca umas 160 milhas, e aqui se estabeleceu no negócio, em concorrência com o Harry Holandês a quem, pouco depois, narcotizou e fez meter a bordo de um navio como marinheiro; e a partir daí reinou pacificamente nos domínios do outro.

Um capitão vítima, como eu, desta súcia famosa, contou-me mais tarde, deleitado, ter visto o Harry a bordo de uma barca italiana que saía a barra com um carregamento de ossos já quase fora da barra. A última vez que o meu amigo capitão lhe pôs a vista em cima, estava ele entre o arvoredo, com uma corda em volta do pescoço naturalmente tinha-o enforcado; não sei para que outra coisa seria a corda, nem quem mais merecia ser enforcado. O capitão berrava deliciado: vai ter sopa de ossos, pelo menos durante algum tempo, em vez das boas febras de borrego de Santa Fé, que comia à nossa custa".

A segunda equipagem foi-me fornecida pelo Sr. Pete, de quem já falei, e no dia 17 de Dezembro fizemo-nos à vela para longe desta terra de revoluções. As coisas a bordo voltaram à normalidade e vi que tinha motivo para me sentir satisfeito com a mudança do pessoal. Deslizamos calmamente rio abaixo, desejando nunca mais voltar a ver Rosário nas circunstâncias penosas porque acabamos de passar.

No dia seguinte, enquanto deslizávamos ao sabor da aragem, vimos na água um cão que se debatia entre os fortes remoinhos, impotente para se safar, e já exausto. Demos-lhe a proa, carregou-se a gávea para o mastaréu, e quando passamos pelo pobre bicho, um marinheiro, suspenso por um tais de guia, amarrou um cabo em volta do cachorro, outro homem içou-o para bordo cuidadosamente, e assim terminou a operação de salvamento. Era um cão de caça, ainda novinho, e as suas manifestações de agradecimento por o termos salvo de morrer afogado pouco menos eloquentes eram que a linguagem humana. Este agradável incidente ocorreu numa sexta-feira, o que sugeriu, naturalmente, o nome que havíamos de lhe dar. O seu novo dono, é claro, passou a ser o Garfield que disse logo: "Julgo que não me vão conhecer quando chegar a casa com o meu fato novo e

You've reached the end of this preview. Sign up to read more!
Page 1 of 1

Reviews

What people think about Sozinho

5.0
1 ratings / 0 Reviews
What did you think?
Rating: 0 out of 5 stars

Reader reviews