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A mosca azul: Reflexão sobre o poder
A mosca azul: Reflexão sobre o poder
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A mosca azul: Reflexão sobre o poder

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A mosca azul é uma obra de impacto. No Palácio do Planalto, Frei Betto ocupou, em 2003 e 2004, as funções de Assessor Especial do Presidente da República e coordenador da Mobilização Social do programa Fome Zero. Aqui ele partilha com o leitor observações e reflexões de quem esteve dentro da esfera do poder. Numa narrativa lúcida, crítica e abrangente, rememora o processo social que levou Lula à presidência em 2002.
A partir de sua atuação política e social nas últimas décadas, o autor analisa a crise do regime democrático em tempos de neoliberalismo. À luz de Platão e Aristóteles, Maquiavel e Montaigne, Marx e Max Weber, Robert Michels e Hanna Arendt, e tantos outros, ele contextualiza, histórica e teoricamente, a crise da esquerda brasileira.
Escrita em linguagem clara, desprovida de academicismos e, por vezes, impregnada de poesia, A mosca azul convida o leitor a aprofundar sua visão dos fatores que levaram ao impasse um governo eleito para operar mudanças substanciais e refletir sobre a maior de todas as tentações do ser humano: o poder.
LanguagePortuguês
PublisherRocco Digital
Release dateFeb 1, 2006
ISBN9788581224411
A mosca azul: Reflexão sobre o poder
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    A mosca azul - Frei Betto

    Estudantes

    I

    Trata da euforia pela vitória de Lula. Os sinais dos tempos. As lutas do povo brasileiro.

    Ainda bem, meu pai partiu antes. Fico a pensar na sorte dos que deixam a cidade antes da chegada do furacão, ou sobem a montanha em busca de orquídeas sem perceber que, às suas costas, a água do rio entorna-se pelas margens e, engrossada de fúria, devasta ruas e casas, derruba muros e cercas, engole árvores e campos, ou no turista que chega atrasado ao aeroporto e contempla, desolado, seu avião decolar para o voo da morte. Com certeza, meu pai, entrado em anos, não suportaria ver tantos sonhos esgarçados, a esperança suplantada pelo medo de nutrir novas expectativas, a desdita de promessas esvoaçadas em mera retórica, o travo amargo no coração contraído.

    Gracias a la vida alçou tão solene idade, biblicamente saciado de anos, filhos, netos e bisnetos, sob as bênçãos de jamais haver enterrado um descendente e ter pautado a existência por conduta irretocável. Há qualquer coisa de torcida na prece incessante, uma energia que nos conecta com as fontes da vida, o empenho em pedir a Deus paciência, bastaria lhe conceder mais quatro meses de vida, tempo suficiente para que viesse a testemunhar, ainda que pela TV, a sagração da esperança.

    Aquela era a sua campanha, a campanha de 2002, toda a família envolvida na conquista da vitória, a caça aos votos de amigo em amigo, parente em parente, porta a porta, infindáveis discussões para derrocar preconceitos, argumentos históricos atestando a lógica da sensatez, a nação prenhe do inédito, mãe idosa a festejar, como Sara grávida de Isaac, o milagre de uma nova vida. Não se prestou atenção a alianças firmadas, interessava o carisma contagiante do candidato saído da fábrica, o discurso indignado frente às injustiças, a transparência ética, a promessa de reinventar o Brasil.

    Não fico a lamentar a ausência de meu pai. Não é isso. Sei que transvivenciar é inelutável, única certeza que se nos antecipa o futuro. Apenas esperei poder caminharmos juntos mais uns poucos passos, quatro meses; contudo as sandálias desfivelaram-se de seus pés, a bengala encostou-se a um canto do quarto, na biblioteca os óculos quedaram pousados sobre o livro inacabado e o organismo corroído estendeu-se num leito de hospital, onde seu invencível otimismo convenceu médicos e enfermeiras de que os pobres mereciam uma chance, a reviravolta estava ao alcance da mão, o voto como arma pacífica de alforria, deixassem eles de lado dúvidas elitistas, não dessem ouvidos às vozes do arbítrio, dos privilégios, dos que penhoram suas vidas em contas bancárias e confiassem no que dizia ele, amigo do candidato, tantas vezes entretidos os dois em torno de caminhos e descaminhos do Brasil. Lula foi a última pessoa com quem papai falou ao telefone, na manhã de 25 de agosto de 2002, pouco antes de as contrações se aguçarem e exigirem-lhe a internação definitiva.

    Tivesse sobrevivido mais quatro meses, seu entusiasmo teria se somado à incontida euforia disseminada pela Esplanada dos Ministérios na tarde de 1º de janeiro de 2003. A corrente invisível enlaçava a turba inflamada pela vitória. O futuro se fez presente. O fruto amadurecera. Fruto que ele ajudou a semear durante seis décadas, Belo Horizonte vazia frente às escaramuças imprevisíveis da Revolução de 30, o garbo de seu uniforme atraindo o olhar apaixonado de mamãe, a polaca de Francisco Campos solapando a legalidade, Vargas lacrando à baioneta a porta da Câmara Municipal para a qual meu pai fora eleito graças a seus colegas da Faculdade de Direito. Vargas montado na pátria como se na égua trazida de São Borja, a derruir resquícios de escravidão, introduzindo direitos trabalhistas, reprimindo fascistas, comunistas e quem se opunha ao Estado Novo. As prisões de papai, o exílio de seu irmão em Portugal, a resistência destemida, a assinatura dele, em caligrafia resoluta, no Manifesto dos Mineiros, benfazeja convicção de que a nova agremiação política seria de fato união, de fato democrática, de fato nacional, logo transmutada em áulica defensora de interesses escusos, estrangeiros, americanófilos.

    Ali na Esplanada o céu turvo prenunciava tempestades. Chovera na véspera, a meteorologia previa tempo incerto, sujeito a trovoada, sem que eu desconfiasse de que não passa de uma ciência metafórica para tratar de política, embora nem todos compreendam sua linguagem cifrada, exceto os que se mantêm atentos aos sinais dos tempos. Ao entardecer dizeis: ‘Vai fazer bom tempo, porque o céu está avermelhado’; e de manhã: ‘Hoje teremos tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio.’ O aspecto do céu sabeis interpretar, mas os sinais dos tempos não podeis! (Mateus 16, 1-4), recriminou Jesus àqueles sem olhos para ver, embora não fossem cegos.

    Nunca o sonho me parecera tão inconsútil ali transfigurado em realidade. O fruto despontara no cimo desta árvore nodosa de intrincados galhos – a história de várias gerações condenadas a provar a dolorosa insipidez de botas enlameando leis, fuzis desamados, cárceres atulhados, ecos lancinantes da carne triturada a ferros, eletrizada, condenada ao baile dos horrores na sucursal do inferno, vidas abortadas pelo arbítrio. A dor é indesmemorizável. Como apagar da lembrança o holocausto indígena, os pelourinhos erguidos nas praças das igrejas matrizes, o batalhão de despossuídos convocados como supostos voluntários da pátria prontos a enterrar suas vidas em terras paraguaias? Como ignorar o gesto prepotente de Rui Barbosa de negar a negros libertos terras e registro histórico? Venho de longe, de muito longe, lá de um povo oprimido no Egito, errante quatro décadas infindáveis nas areias do deserto, a busca incessante da Terra Prometida, os oráculos de preeminência salvífica, a antevisão messiânica dos Profetas contrastando com o corpo lanhado do Nazareno dependurado no madeiro. Venho da memória de mártires e confessores, sei ouvir o grito parado no ar, o suspiro agônico dos que clamam por um pouco de água, já não pedem justiça, liberdade, pão e paz, pedem apenas água para aplacar a sede insuportável e tentar aliviar as feridas do corpo, porque as da alma são incicatrizáveis.

    Brasília, tarde de quarta-feira, 1º de janeiro de 2003. Ali a resposta em corpo presente de tantos presságios, meu fio de Ariadne enfim percorrido até a ponta oposta, o torneiro-mecânico a moldar o protótipo de uma peça e dar corpo à ideia: por que a classe trabalhadora vota sempre em patrão? Por que não votar em si mesma e deselitizar o Congresso, pisar as alfombras do poder com solas gastas e chinelos de dedos? Classe em si, classe para si. Por que não criar o próprio partido, partir o bolo da democracia e repartir a renda nacional?

    Assim nasceu o PT (Partido dos Trabalhadores). Ganhou vida o embrião inseminado pela resistência indígena frente aos colonizadores portugueses, Henrique Dias, André Vidal de Negreiros, o índio Camarão, a revolta dos escravos nas senzalas, Zumbi demarcando em Palmares o território da liberdade, o alferes Tiradentes esconjurando o saque, Gonzaga das Virgens, Manuel Faustino, Lucas Dantas e João de Deus, Frei Caneca, Angelim, Cabanagem, Sabinada, Balaiada, Malês, Revolução Praieira, Antonio Conselheiro, Joana Angélica, o Almirante Negro, anarquistas e comunistas, o monge João Maria, Prestes, Olga Benário, Ligas Camponesas, Marighella, Lamarca, frei Tito... muita dor, mil ardores a justificar tanta euforia.

    A Esplanada transfigurava-se em praça vermelha. Havia fogos por todos os lados. Na grama, o verdor emergia apocalíptico, o céu irradiava um azul nublado promissor de benditas águas, o alvorecer de um novo ano prenunciava a irrupção de uma nova era. O gosto do travo na garganta, a emoção desbordando em lágrimas, um povaréu embriagado de tanta lucidez. O sertão virava mar, derramava-se por todos os beirais, sopitava temores. Subia a maré, subia no ondear de cinco séculos de gravidez, borbulhando alvíssaras; enfim o parto; e o sangue, que não foi pouco, transmutado em adubo, oferecia agora o buquê de primícias. Renascença.

    Uma indescritível energia a subverter todos os prognósticos dos senhores de escravos, dos pilotos de navios negreiros, dos capatazes enchicotados, dos nobres abrigados em berçária indiferença, dos mercadores de soberania, dos capitães de indústria, dos coronéis de engenhos, dos refestelados banqueiros, dos artífices da corrupção, dos semeadores de desesperanças.

    A regra fora quebrada, a exceção hasteada, a insensatez ofuscava a lógica do poder. O que outrora seria visto como um filho bastardo da democracia, agora se cobria de legitimidade sacramentada pela legalidade inconteste das urnas. Vi a menina cujos olhos ardiam gordos de alegria, e a boca desdentada do agricultor a exibir risonha e despudorada o grelo da garganta; vi saboreios, aleluias, júbilos, e ouvi o rumor de todas as lágrimas revertidas em águas bentas, dependuradas ciosas nos céus do cerrado. Era um choro sem dor, porque os primeiros males haviam passado – o longo tempo da incongruência, a fealdade disseminada pela força do privilégio, a prepotência arvorada em autoridade, cicatrizes abertas, espíritos solapados, ideias acorrentadas, palavras caladas, pão sonegado, tudo cessara. Duradouro alvorecer!

    Vi também olhos entre grades injetados de liberdade, gritos ecoando através das escarpas dos séculos, os mortos se reerguendo de seus sepulcros e bailando pelas páginas da história, alumbramento ascético, a luz esvaindo-se em cristais, o sol a despontar vazio de horas, como se a rotação terrestre cessasse por um dia, um único dia – a data da abolição nacional.

    Solerte, o menino que trago no íntimo se apoderou de mim. Fiquei ali extasiado, de mãos dadas com minha mãe a recordar-me de papai. Quantas vezes ele mergulhou na memória e, escafandrista inclemente, resgatou-nos o que a história oficial omite ou transmuta em versão acintosa à inteligência. Bandeirantes? Botas rasgando matos; espadas, corações; índias violadas diante de seus maridos, prenhadas pelo terror; filhos defuntos deitados em tapetes de sangue; noites de Vila Rica repletas de olhos e dentes e dissabores a espetar sonhos de soberania às barbas soberanas de soberbos nobres; a derrama derramada, inconclusa liberdade; Coimbra abortada, projetos esquartejados e, no madeiro, a cabeça pendente, decapitada ao peso da Coroa, silente, não inconfidente. Felipe dos Santos entregue aos demônios, esquartejado pelo galope cruel de cavalos ensandecidos; e ainda que extraíssem a frio todos os seus dentes, de Joaquim jamais arrancaram a menor palavra, dotado que era de dez vidas – o alferes redivivo naqueles que deram suas vidas para que a morte não continuasse a tragar precocemente tantos brasileiros.

    Brilhavam olhos naquele mareio de gente, multidão reduzida a uma só carne, um só espírito, o grito enfim desengasgado e, pleno, ecoando por toda a Esplanada. Excitadas e incitadas pela altivez gratificante da horda em festa, todas as figuras de Portinari abandonaram suas molduras e ali dançavam congraçadas com a Justiça, que já não puxava os próprios cabelos, antes os penteava refletidos nos espelhos de água, e havia um coro, um cantar coletivo, uma sinfonia ardorosa em que todos os clamores se afinavam numa só melodia, tão harmônica quanto a certeza que nos embalava.

    Antônio Conselheiro transmutara a fé em utopia, sonho em projeto, congregara a desvalidez numa turba triunfal onde vicejavam cidadania e direito, ainda que em brotos, logo esmagados pela prepotência castrense, mas o testemunho não mereceu sequer análise da parte de quem só enxerga fanatismo onde há coerência e rebelião onde floresce independência. Cavalos e canhões, a resistência, o reforço, o genocídio, até que a paz reinasse no cemitério. Canudos reduzida a um monte de escombros, afogada sob a nossa memória inaufragável, o pelourinho redivivo em suas dignas indignações.

    Se o medo perdura, a tortura se oficializa como recurso burocrático. Porém, o ideal não suporta a covardia e a morte jamais enterra aqueles que deram a vida pela vida. Sem tirar os olhos do velho relógio francês da sala, ali onde a roda do tempo fazia girar a progressão da história, meu pai desfiava narrativas com sabor de vitórias, o processo em curso, e um dia... Sentado à mesa, entretido em coçar a calvície como quem escarafuncha a memória, não dava trégua à desesperança, viajava pela história do Brasil passo a passo, do Império à República, como quem move as peças do xadrez, pacientemente, na certeza de que não há derrota quando se aprende a defender os peões.

    Ardia em chamas a Esplanada naquela tarde rubra. Todos os olhos flamejavam, o incêndio alastrava-se pelos corações, mesmo os empedernidos viam-se contaminados. Tudo era fragor, uma só alma, uma só nação. Voejava-se de euforia na certeza de que a página seria virada, um novo capítulo teria início, a reverência à vitória pacificamente esculpida. Talho a talho a vida emergia, a luz acudia, o riso aflorava. Ave, Brasil!

    Ele surgiu. Primeiro, o discurso. Mudança. Liturgia de confirmação. A partir daquele dia dom Sebastião já não seria uma saudade do futuro, as vinhas dariam frutos soterrando iras; as flores, néctar em abundância; e nos subúrbios correriam leite e mel, profusamente, engordando bebês raquíticos, dentando idosos, profissionalizando jovens, distribuindo direito como pão quente, à farta.

    Ora, a natureza não dá saltos, tece liames sutis nos subterrâneos subatômicos, as partículas desfiadas em ondas quânticas, as ondas disfarçadas de partículas e, no baile dos semens universais, ora se exibem em sua consistência material, ora na efervescência de pura energia, talvez prenunciando que em tudo mais, a política incluída, uma coisa são duas, eu sou eu e também as minhas circunstâncias, como dizia Ortega y Gasset, e por vezes sou o que não fui, como lamentou Fernando Pessoa, nessa indeterminação fundante da liberdade, o caso e o acaso, a imponderabilidade do amor, o paradoxo entre o discurso e a prática, a dessintonia entre a fina harmonia dos sonhos e a conflitiva aspereza do real.

    Aflorava-me à memória a alegria que motivara a militância nas ruas, as turmas de pichação a gravar nomes de candidatos nos muros, abaixo a ditadura, viva a classe trabalhadora!, o povo unido jamais será vencido, dividindo a garrafa térmica com café morno e sanduíches de mortadela, três ou quatro para dez ou quinze bocas, a kombi caindo aos pedaços, vidros tapados com a cara sorridente dos candidatos, quase todos barbudos, latas a derramar tinta no chão e as piadas noite adentro para espantar o sono e expressar essa apreensiva exultação que se nos antecede quando há certeza de vitória.

    Sobressaem nas recordações o companheirismo sem disputas, o trabalho voluntário em prol do partido, os núcleos de base reunidos em fundo de quintal, as assembleias em que todos falavam com plena liberdade, a despretensão, a energia emanada da motivação subjetiva, o idealismo. Tudo aquilo lavrara o terreno para que, agora, Luiz Inácio Lula da Silva – ex-retirante, ex-engraxate, ex-tintureiro, ex-metalúrgico, ex-preso político – fosse empossado presidente do Brasil.

    II

    Trata da formação política do autor. Recorda Sócrates, o golpe militar e conquistas inovadoras.

    A confluência é um dos predicados do destino. Em algum ponto, movidas por circunstâncias inesperadas, imprevisíveis, duas pessoas se encontram e a partir dali assumem uma trajetória comum. Um bar, uma festa, uma reunião, uma fila. Nenhum indício de que seus caminhos futuros haverão de se cruzar. É a lei da indeterminação, esse acaso que a fé chama de desígnio divino, a astrologia decifra no movimento dos astros, os mais otimistas qualificam de sorte. Sei apenas que outrora, ao ver-me metido em política, reinava em minha cabeça a aparente confusão de um emaranhado de vias de trânsito que se entrecruzam em viadutos, como é comum em São Paulo. Afinal, atraíram-me à vida religiosa o silêncio dos claustros, a erudita solenidade das bibliotecas conventuais, e sei o quanto isso abalou o anticlericalismo arraigado de meu pai a bradar à mesa que filho seu podia ser tudo, menos vestir saia, o que obviamente vinha carregado de duplo sentido.

    Predomina no consenso popular o axioma de que o jovem incendiário de hoje será o bombeiro de amanhã. No caso de meu pai, a sentença se inverteu. Tornava-se tanto mais jovem quanto mais envelhecia. Da aversão a padres evoluiu à profunda admiração pela Teologia da Libertação e, em especial, por dom Paulo Evaristo Arns, o cardeal que desafiou a ditadura, e dom Pedro Casaldáliga, profeta da Pátria Grande latino-americana. De reacionário convicto, idiopático diante do brilho estelar de Tio Sam, passou a crítico viperino da política da Casa Branca e consentiu que o seu apreço por Fidel Castro o levasse a sair uma única vez do país em seus 89 anos de vida – para visitar Cuba em 1985.

    A militância na Ação Católica imbuiu-me de vigorosa fé, não que fosse profunda, mas trazia o vigor das coisas novas, atraentes, e impeliu-me a um apostolado menos empenhado em ganhar adeptos, professar moralismos, varrer o pecado do mundo, e mais centrado na figura emblemática de Jesus a expulsar os vendilhões do Templo, revelando-se amorosamente à samaritana que tivera cinco maridos, e tratando Herodes Antipas, governador da Galileia, de raposa. Naquele frescor de adolescência, meu único pecado era o saudável despertar da sexualidade, o jorro de sêmen em homenagem às misses da revista O Cruzeiro metidas em maiôs Catalina, as putas da rua Guaicurus fingindo-se de mais novas enquanto eu me disfarçava de mais velho, nesse intercurso silente e cúmplice entre dois seres que se dão em intimidades, um em busca de prazer, outro de dinheiro, antípodas intransponíveis. Frei Mateus, frei Chico e frei Marcelo, o trio dominicano incutiu-me o sabor justiça da fé, a visão de que os pecados estruturais antecipam o inferno neste mundo ao dividi-lo em classes sociais. Nutri-me na leitura dos escritos sociais do padre Lebret, da filosofia de Maritain e Mounier, do ideal histórico do padre Vaz, enquanto refrescavam-me a cuca os filmes de James Dean e Marlon Brando, os trejeitos melódicos de Elvis Presley e a literatura, essa voracidade pelos livros que me fazia devorar clássicos nacionais e estrangeiros, encantado com a magia das palavras.

    Há coisas, muitas, não mensuráveis; substantivas, não imponderáveis. Assim os sentimentos que nos atam à política, matéria-prima da qual forjamos utopias. Sem elas o sonho carece de horizontes. Eduardo Galeano compara utopias a horizontes para os quais caminhamos; quanto mais próximos pensamos estar, mais se afastam de nós. José Saramago declarou, no Fórum Social Mundial de 2005, em Porto Alegre, não acreditar em utopias. Todas se incluem na esfera da necessidade. Erradicar a miséria, a pobreza, a desigualdade, e construir o socialismo são tarefas necessárias para se obter um mundo mais justo.

    Meu pai moldou em mim o gosto pela política. Constatara sob a ditadura de Vargas o que Trotski declarara em Brest-Litovsk: Qualquer Estado baseia-se na força. Justificada a euforia de meu pai em 1945, quando Vargas abandonou o Catete; cinco anos depois lhe abateu a desolação quando do retorno ao poder, pelo voto, do ex-ditador travestido de presidente. Quanto escárnio embutido entre as chamadas lides democráticas! No gênero feminino, não há nada nem ninguém mais aviltado que a democracia. Vargas, entretanto, surpreendeu com a sua política nacionalista ao criar a Petrobras e decretar o monopólio estatal na exploração do petróleo. Contudo, não resistiu à pressão e caiu morto na festa de meu aniversário. O tiro a furar-lhe o peito mandou também pelos ares o bolo que mamãe preparara à comemoração de meus 10 anos. O que seria uma festa para celebrar, inclusive a segunda queda do caudilho, transformou-se na consternação de uma nação enlutada. Bertula, cozinheira da família, chorou todas as desilusões de sua classe, órfã de quem lhe concedera salário, carteira de trabalho, direito de organização sindical e previdência social. Senti muita raiva ao ter minha festa abortada, sem me dar conta de que era a nossa frágil democracia a grande vítima dos algozes de Vargas.

    Dez anos depois seria a minha vez. Revólveres e cassetetes da polícia civil cederiam lugar a fuzis e metralhadoras das Forças Armadas; botas, tanques, a Constituição rasgada, atos institucionais; do outro lado da rua, barricadas, panfletos, palavras de ordem, o charme da rebeldia. Insistíamos em ter Opinião, lançar Manifesto, fazer Pasquim, mesmo depois que a ditadura empastelara o Binômio, em Belo Horizonte, e fechara o Brasil Urgente, em São Paulo. No Rio, abriguei-me da chuva de balas sob a marquise do cine Paissandu, e lá dentro entretive-me com Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Walter Lima Jr., Roberto Santos, Leon Hirszman, Nelson Pereira dos Santos, Visconti, Truffaut, Fellini, aprendendo a ver o Brasil e o mundo com olhos diferentes.

    No golpe, a elite apenas trocou o terno pela farda. Quartel de Abrantes, segundo a obra magistral de Lampedusa.

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