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Calendário do poder
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Calendário do poder

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Entre janeiro de 2003 e dezembro de 2004, Frei Betto serviu ao Governo Federal como Assessor Especial da Presidência da República. Sua incumbência era cuidar da mobilização da sociedade no Programa Fome Zero e favorecer a relação do Planalto com os movimentos sociais. Calendário do poder é o diário da atuação de Frei Betto durante aquele período. Documenta, em estilo conciso e cativante, o início do primeiro mandato de Lula, os planos e os projetos, as dificuldades enfrentadas, os bastidores do poder, as disputas políticas por cargos e ministérios, as mudanças de rumo e os motivos que levaram antigos companheiros do presidente Lula, inclusive o autor, a deixar o governo. Depois de uma vida inteira dedicada à militância e aos movimentos sociais, Frei Betto defendia a ideia de que o governo Lula não podia contar apenas com a sustentação política dos partidos se quisesse, realmente, promover as mudanças prometidas durante a campanha eleitoral. Precisava estreitar seus vínculos com a sociedade e os trabalhadores – representados pelo MST, sindicatos, movimento estudantil, comunidades eclesiais de base, associações e ONGs. Para o autor, as políticas sociais do governo só conseguiriam atingir seus objetivos com a participação direta da população em sua gestão e fiscalização. Sendo o PT um partido que nasceu dos movimentos sociais, de um governo eleito por ele esperava-se que valorizasse esses movimentos e lutasse para atender suas reivindicações, como a reforma agrária, a divisão mais justa das riquezas do país, a universalização da educação de qualidade e a preservação do meio ambiente. Com lucidez e perspicácia, Frei Betto aborda as implicações éticas do serviço público e analisa o governo, tanto do ponto de vista de quem está nas ruas lutando por melhorias, quanto de quem está dentro do Palácio do Planalto. Mais do que uma obra literária, este é um testemunho histórico imprescindível a quem se interessa em conhecer como funcionam as entranhas do poder.
LanguagePortuguês
PublisherRocco Digital
Release dateJul 1, 2007
ISBN9788581224657
Calendário do poder
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    Calendário do poder - Frei Betto

    Revolucionária

    Parte I

    ANTES DA POSSE – 2002

    OUTUBRO DE 2002

    Não se pense que Javé se lançou à obra da Criação com os próprios braços. Deitado eternamente em berço esplêndido, incumbiu serafins e querubins de executarem o projeto América Latina. Animados, os anjos puseram mãos à obra, convencidos de que da prancheta do Grande Arquiteto resultaria o melhor.

    Lá pelas tantas os serafins estranharam pequenos erros de cálculo. Ora, não fora tudo previsto pela Infinita Sabedoria? Perante desajustes evidentes, alguns anjos relaxaram no trabalho; aos olhos dos arcanjos, pareceu boicote ao projeto.

    Bom patrão, Javé dispôs-se a dialogar com os relapsos:

    – Por que têm faltado ao trabalho?

    – Porque o projeto não é justo – respondeu o líder dos serafins.

    – Como não é justo? – espantou-se o Sumamente Justo.

    – Veja, Senhor – argumentou o anjo –, o México é proporcional à Argentina; a Nicarágua, à Bolívia; o Panamá, ao Uruguai. Mas há um país demasiado grande na América do Sul. Por que não dividi-lo em cinco ou seis, e evitar no futuro queixas de que o Senhor privilegiou o Brasil?

    Irritado por duvidarem de Sua imparcialidade, Javé reagiu:

    – Sei muito bem o que faço. – E ordenou: – Prossigam a obra.

    Dias depois, Javé viu a Sua Infinita Paciência abalada pela notícia de que os querubins, mais politizados, organizados no sindicato angélico, haviam entrado em greve. Sem temer afrontas, compareceu à assembleia da categoria:

    – Por todos os santos, qual a reclamação agora?

    – Os serafins têm razão, Senhor – explicou o líder. – O projeto é realmente injusto. Não podemos prossegui-lo.

    – Ora, o que há de errado em criar países com dimensões distintas? – retrucou Javé. – A um continente quadriculado, prefiro a diversidade, como fiz com as espécies de vida.

    – Não se trata de proporcionalidade territorial – disse o anjo. – Preocupam-nos os fenômenos naturais destinados a cada país. Veja, Senhor: há desertos no Chile, no Peru e no México; no Brasil, nenhum. Vulcões na Nicarágua e furacões em Cuba; no Brasil, nenhum. Terremotos no Peru, na Guatemala, na Nicarágua, em El Salvador e no México; no Brasil, nenhum. Neve e geleiras em toda a região andina; no Brasil, apenas um neviscar, três noites por ano, em São Joaquim (SC), para atrair turistas.

    Outro completou:

    – Nós, da direção sindical, desconfiamos que, após o fracasso do Éden, o Senhor nutre a intenção de reeditar o Paraíso no Brasil.

    – Valha-me Deus! – exclamou Javé. – Expliquem melhor.

    – O Éden não faliu por causa de uma maldita árvore? Entre os países, o Brasil é dos raros com nome de vegetal. Dadas as suas dimensões continentais, a ausência de qualquer catástrofe natural e os imensos recursos a ele reservados, concluímos que o Senhor pretende reinaugurar ali o Paraíso, não é verdade? Ou como explicar o projeto de conferir ao Brasil um excelente clima tropical; a maior bacia hidrográfica do mundo; 8 mil quilômetros de costa; uma floresta que absorverá boa parte do dióxido de carbono da atmosfera; mais de 600 milhões de hectares cultiváveis e potencial para três safras por ano?

    Javé cofiou a longa barba e admitiu:

    – Sim, confesso, tive a tentação de abençoar o Brasil de modo especial. Mas sei, por Minha onisciência, que lá, por muitos anos, não será o Paraíso. Esperem só pra ver que tipo de políticos aquela gente haverá de eleger. O estrago, ao menos nos primeiros séculos após a chegada de Cabral, será muito grande: haverá miséria, desigualdade, discriminação, corrupção e violência. Crianças abandonadas andarão ameaçadoras pelas ruas e agricultores ficarão à beira de rodovias à espera de um pedaço de terra. Como não perco a esperança, pode ser que, um dia, os eleitores descubram que, ao votarem a favor da justiça social, o Brasil estará muito próximo de vir a ser um Paraíso.

    4 DE OUTUBRO DE 2002 – SEXTA

    Passado amanhã, mais de 115 milhões de eleitores brasileiros haverão de eleger o presidente e vice-presidente da República; governador e vice-governador; senadores; deputados estadual e federal. Ao digitar na urna eletrônica, o eleitorado entregará a poderosa máquina do serviço público aos eleitos e aos partidos que representam, aos interesses corporativos que defendem, às mãos de quem nomearem para funções de governo. Serão homens e mulheres com o poder de realizar e legislar; tornar o Brasil mais soberano ou prolongar-lhe a dependência; conservá-lo submisso ou altivo frente às potências estrangeiras; resgatar a produtividade desta nação ou mantê-la como cassino de especuladores; arruinar o nosso potencial de crescimento ou promover o desenvolvimento sustentável.

    Graças aos impostos que pagamos, os eleitos passarão a viver por nossa conta, acompanhados de imensa fieira de assessores, com direito a gabinetes bem equipados, transportes terrestre e aéreo, pronto atendimento de saúde, e o poder de abrir portas como se dissessem abracadabra.

    Não qualquer candidato merece o nosso voto. Não o merecem aqueles que, uma vez eleitos, disfarçam a prepotência com a máscara da autoridade; também os cínicos, que sorriem aos eleitores à cata de votos, e os hipócritas, cujo discurso jamais pousa em suas práticas; e os que lembram dos pobres apenas em época de eleição e se despem da coluna vertebral diante dos abastados, incapazes de tratar com respeito os subalternos.

    Negue-se o voto aos corruptos e a quem se cala em conivência com eles, e aos políticos que multiplicam miraculosamente seu patrimônio pessoal após ingressar na vida pública. Votar significa confiar em quem encarna os programas que defende, empenha-se na erradicação da miséria e na redução das desigualdades sociais, investe na melhoria da Saúde e da Educação, combate o desemprego e a fome, cuida do meio ambiente e da segurança pública, e preserva a soberania nacional.

    Voto é consagração. Desejar votos de boas-festas a alguém é augurar-lhe felicidade. Nos centros de romaria há salas de ex-votos, objetos depositados pelos fiéis em gratidão ao santo protetor. O prefixo latino ex não tem aqui o sentido de exclusão, e sim de realce, relevo, como em exposição, pôr em destaque. O braço de gesso ou o pé de barro cozido, depositado junto à santa ou ao santo, simboliza a graça alcançada.

    Em escrutínios terminados em empate há o voto de Minerva, deusa romana da sabedoria, cujo equivalente grego é Atena. Na Odisseia, Homero destaca-a como a deusa de olhos pulcros. Clarividente, a filha de Júpiter escolhia o mais justo.

    Há que digitar os números da urna como se o nosso voto fosse o de Minerva, de modo a arrancar o Brasil do impasse e do atraso, convictos de que, no futuro, não seremos decepcionados por aqueles que escolhemos. Do contrário, acima do peso de nossa frustração pessoal haverá o risco de ver este país abençoado por Deus resvalar ainda mais para a indigência, comprometendo a nossa frágil democracia.

    O primeiro turno das eleições majoritárias sinaliza mudanças, após oito anos (1995-2002) de governo FHC (Fernando Henrique Cardoso). Luiz Inácio Lula da Silva deve ganhar, apontam as pesquisas. A dúvida é se comemorará a vitória amanhã ou terá de aguardar o segundo turno.

    Quanta espera, quanta esperança! Lula concorre pela quarta vez. As chances agora se ampliam. Somam-se fatores: o desgaste da coligação PSDB-PFL; o arco de alianças partidárias em apoio ao candidato do PT; José Alencar (PL) como vice de Lula. Empresário bem-sucedido, do ramo têxtil, Alencar é senador por Minas, um dos maiores colégios eleitorais do país. Neste pleito pela Presidência não concorre nenhum mineiro. Minas, que prefere votar em seus filhos, consola-se com o vice.

    Muitos identificam na chapa Lula-José Alencar a dobradinha entre o trabalho e o capital, o peão e o patrão. Os mais otimistas a encaram como prenúncio de um pacto social. Exagero, alerta a minha desconfiada mineirice. Neste país, a desigualdade causa impacto social; e é demasiadamente abissal para que a ponte entre os extremos se apoie num acordo de cavalheiros.

    Na seara dos especuladores, Lula funciona como espantalho. Lá no Arizona, o pequeno investidor ouve dizer que a economia do Brasil haverá de piorar se ele for eleito. Trata de vender barato os seus papéis para, mais tarde, os especuladores revenderem-nos caro.

    O risco é o Brasil, mesmo com a vitória de Lula, permanecer refém da alta dos juros e, agora, do dólar; e tão endividado quanto bêbado cunhado de dono de boteco, e com índices sociais cada vez mais deteriorados.

    Meu voto é Lula, porque ele representa um projeto de nação, tem lastro político, partido consistente, programa viável e equipe respeitável. Prefiro postar-me ao lado da CUT, do MST, da CMP, dos movimentos sociais, e também de Antonio Candido, Alfredo Bosi, Maria Victória Benevides, Dalmo Dallari, Fábio Konder Comparato, Chico Buarque, Marilena Chauí, Luiz Pinguelli Rosa, Emir Sader, Paulo Nogueira Batista Júnior, Marina Silva, Eduardo Suplicy e tantas outras pessoas de bem.

    Se Lula não será a salvação da pátria, ao menos poderá arrancar o Brasil da condição de Belíndia (misto de progresso da Bélgica com a miséria da Índia) ou de Colombina (a violência da Colômbia com a quebradeira da Argentina). Enfim, reduzir consideravelmente a desigualdade social. Segundo o insuspeito Banco Mundial, 20% dos brasileiros mais ricos embolsam 64,1% da renda nacional, e a parcela 20% mais pobre fica com a migalha de 2,2%.

    Como trabalhador metalúrgico e sindicalista, Lula priorizará os investimentos produtivos, combaterá a especulação financeira, promoverá a reforma tributária e, com ela, os mecanismos de distribuição de renda. Se ao fim de seu mandato não assegurar a cada brasileiro e brasileira ao menos um prato de comida por dia, deixará seu eleitorado no mínimo desapontado. É impensável um governo Lula sem reforma agrária, tributação do capital especulativo e uma política eficaz de combate ao desemprego.

    Lula inverterá a pirâmide da Educação, hoje de cabeça para baixo. Basta dizer que 1/3 da população com mais de 10 anos de idade é analfabeta funcional ou não completou quatro anos de estudos. Dos recursos do MEC destinados ao ensino médio, só 8% vão para alunos oriundos da esfera dos 20% mais pobres da população. E dos recursos que chegam às universidades públicas, quase a metade é gasta com alunos que pertencem à casta dos 20% mais ricos da população. O governo Lula terá de injetar mais recursos na Educação, estratégia prioritária para arrancar o Brasil do atraso.

    Lula vai... Vai o quê? Sozinho, não vai nada. A menos que elejamos com ele um Congresso Nacional majoritariamente progressista. Ainda assim, não será o suficiente. Se eleito, terá condições de governabilidade caso haja mobilização permanente da sociedade. Será o primeiro a governar, não contra o povo, nem para o povo, mas com o povo, para transformar em real a nossa democracia formal. Esta a aliança que tornará viável o governo Lula: com o povo brasileiro.

    5 DE OUTUBRO DE 2002 – SÁBADO

    Anoitecia quando acompanhei José Alberto de Camargo à casa de Lula, em São Bernardo do Campo (SP). Discreto, avesso a holofotes, Camargo parece saído das páginas de Somerset Maugham. Porte aristocrático, tem a elegância de um gentleman sem a afetação de um dândi. Jamais eleva o tom de voz e, solícito, debruça-se interessado nos problemas dos amigos como o anjo das salvaguardas. Preside uma das mais bem-sucedidas empresas brasileiras, a CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), do grupo Moreira Salles, a maior produtora de nióbio do mundo, sediada em Araxá (MG). Somos vizinhos numa pequena rua ensombreada do bairro das Perdizes. De presente de aniversário ao candidato, nascido em outubro, levou uma tela de Tomie Otake.

    No apartamento encontramos José Dirceu, ex-líder estudantil que, sob a ditadura, militou na ALN (Ação Libertadora Nacional) de Carlos Marighella, e no Molipo (Movimento de Libertação Popular). Conheci-o na rua Maria Antônia, em São Paulo, na década de 1960. Mais que rua, a Maria Antônia era um estado de espírito. De um lado, a faculdade de filosofia da USP; de outro, a Universidade Mackenzie; pouco acima, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo; abaixo, a de Sociologia e Política. Era a nossa Sorbonne. Ali, estar na moda consistia em exibir inteligência, cultivar o espírito crítico e engajar-se na militância. Nutriam-nos a utopia revolucionária, a estética da rebeldia, os clássicos do marxismo. A revolução antecipava-se no descompromisso com os valores e as instituições de um sistema que, para perpetuar-se, exigira a supressão da democracia. Reinventava-se a sexualidade, agora liberta do parâmetro conjugal. Graças à pílula anticoncepcional, o machismo dissimulava-se, permitindo às mulheres apaixonarem-se definitivamente inúmeras vezes. Lia-se avidamente, menos para atender a exigências curriculares e mais para entender o Brasil e o mundo.

    Sob o regime militar, abria-se na Maria Antônia um espaço de liberdade, trincheira de resistência na qual, por vezes, se chocavam o esquerdismo da filosofia e da sociologia com o reacionarismo da Mackenzie, onde se aninhava o CCC – Comando de Caça aos Comunistas. Improvisada em quartel do movimento estudantil, na Maria Antônia se preparavam as passeatas, sobretudo o arsenal de enfrentamento com a repressão policial-militar – de bolas de gude, capazes de provocar o desengonçado balé dos cavalos, aos miguelitos, cujas pontas de metal perfuravam pneus de viaturas e camburões. Ali, onde à tarde eu atuava como repórter de jornal e, à noite, cursava antropologia, aproximei-me da liderança estudantil, incluindo Zé Dirceu, que frequentava o convento dos frades dominicanos. Em 1980, apresentei-o a Lula. Mais tarde, presidiu o PT nacional e, agora, é candidato a deputado federal.

    Na casa de Lula encontravam-se também Luiz Gushiken, ex-presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo e ex-presidente nacional do PT; Luiz Dulci, ex-presidente do SindUTE (Sindicato da União dos Trabalhadores do Ensino de Minas Gerais); e Antônio Palocci, ex-prefeito de Ribeirão Preto (SP) e coordenador da campanha do líder petista. O candidato contrariou-os ao se recusar a tratar da formação de governo, e advertiu-os:

    – O jogo só termina quando acaba – dizia Kafunga.

    Lula espera ganhar no primeiro turno. Previsão também de Zé Dirceu, otimista impetuoso, mormente no que concerne à esfera do poder. Mesmo na iminência de ser eleito, o candidato evita falar em cargos e nomeações. Acha graça nas especulações da mídia, como se fontes supostamente fidedignas pudessem afirmar, com segurança, quem será o presidente do Banco Central ou o ministro da Fazenda. Convém aguardar o resultado das urnas.

    6 DE OUTUBRO DE 2002 – DOMINGO

    Primeiro turno das eleições. Votei cedo na PUC, vizinha ao convento. Digitei PT na urna eletrônica: Lula, presidente; José Genoino, governador; Aloizio Mercadante e Wagner Gomes (PCdoB), senadores; meu compadre Vicentinho (Vicente Paulo da Silva), deputado federal; e José Zico Prado, deputado estadual. Aliviado, caminhei pelo Pacaembu com Camargo e seu belo cão, Black. Partilhamos expectativas frente à real possibilidade de Lula ser eleito. Assustará os investidores estrangeiros? Haverá de apurar as denúncias de corrupção no governo FHC, sobretudo no processo de privatização de empresas públicas? Fará a reforma agrária? Escolherá ministros comprovadamente competentes?

    Estamos ansiosamente apreensivos. É fácil criticar quem está no poder, mas na iminência de ocupá-lo há o temor de não corresponder aos anseios de mudanças alimentados durante anos. Temor atenuado pela convicção de que o PT é capaz de governar este país melhor que seus antecessores. Como diria Gramsci, ao pessimismo da razão se sobrepõe o otimismo da vontade. Axioma, aliás, cunhado por Romain Rolland.

    Banho tomado, compramos um bolo de massa folhada na Doceria Offner e voltamos a São Bernardo do Campo. Lula trazia o semblante cansado. Dormira mal, acordara com dor de cabeça devido ao desassossego que costuma se apossar de quem participa de uma disputa decisiva, como estudantes à véspera de vestibular. Cedo, Cristovam Buarque comunicou-lhe por telefone que vencera o pleito entre os brasileiros radicados na Nova Zelândia, os primeiros a votarem, devido à diferença de fuso horário. Após o café, saiu para votar e retornou. Acompanhamos o noticiário na TV. Sobre a mesa da sala, um grande bolo em forma de estrela, presente dos metalúrgicos do ABC.

    Terminado o almoço, Lula gravou cenas para filmes sobre a sua trajetória política: um dirigido pelo publicitário Duda Mendonça, marqueteiro da campanha petista, e outro por João Moreira Salles (gestava-se o documentário Entreatos, que chegaria às telas em fins de 2004). Havia ali um clima de já ganhou, embora mal as urnas começassem a ser abertas e as pesquisas revelassem que, se houvesse vitória no 1º turno, seria apertada. Contudo, a impaciência desarma a lógica e a corrida ao pote ignora acidentes de percurso. Por vezes, a sofreguidão da vontade oblitera a razão e auspicia o otimismo.

    Antes de cortar o bolo, sopramos vela para comemorar os 57 anos do candidato, oramos o Pai-Nosso e o Salmo 72 na versão de frei Carlos Mesters (O bom governante escuta os apelos dos pobres). Seis de outubro é a primeira das duas datas de aniversário de Lula. Segundo parentes, teria nascido vinte e um dias antes da data de seu registro civil, 27 de outubro, quando comemora seu natalício. Incerteza que dificulta previsões de astrólogos.

    No fim da tarde, dirigiu-se ao comitê de campanha, na Vila Mariana, na capital paulista. Aguardaria ali o resultado do pleito. Receberam-no centenas de repórteres, curiosos, militantes do PT. Vespeiro em ebulição, o ambiente impregnava-se de forte emoção frente à perspectiva de ele ser eleito no 1º turno. O anúncio da vitória poderia ocorrer ainda nesta noite. Pelos corredores, fotógrafos, câmeras, repórteres do Brasil e do mundo, e diplomatas – incluindo o padre Miguel D’Escoto, ex-chanceler da Nicarágua sandinista. Dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, ligou para o cumprimentar.

    Incomodados com a barafunda, Camargo e eu, acompanhados de José Carlos Bumlai, pecuarista de Mato Grosso do Sul, preferimos aplacar a fome num restaurante próximo. Toda aquela excitação nos causava enfado. Tínhamos certeza de que Lula haveria de suceder a Fernando Henrique Cardoso, e essa convicção não nos fazia adejar; a amizade que nos unia ao candidato impedia que o venerássemos como salvador da pátria.

    Barriga cheia, pé na areia. Findo o jantar, recolhi-me ao claustro. A votação se atrasou em várias regiões do país, urnas eletrônicas quebraram, houve quem esperasse até as nove da noite para votar num pleito que, em princípio, deveria ter se encerrado às 17h. No convento, acompanhei a apuração pela TV.

    Fui dormir às 11h da noite ao me dar conta de que Lula não venceria no 1º turno. Faltaram-lhe 3,5 milhões de votos. Teve pouco mais de 39 milhões ou 44,46% dos votos válidos. José Serra, candidato da situação pelo PSDB, acompanhou-o ao 2º turno.

    Nesta noite, Lula deitou-se saciado de votos. E nós, seus eleitores, grávidos de esperanças.

    19 DE OUTUBRO DE 2002 – SÁBADO

    Narra a Bíblia, no capítulo 16 do Primeiro Livro de Samuel, que, ao escolher um novo governante para o seu povo, Deus enviou a Belém o profeta Samuel. Um dos filhos de Jessé, apontado pelo profeta, seria o eleito.

    Primeiro apresentou-se Eliab. Javé alertou Samuel: Não se impressione com a aparência ou a estatura dele. Não é este que eu quero, porque Deus não vê com olhos humanos. O homem olha as aparências; Javé olha o coração (7).

    Jessé fez vir outros filhos: Abinadab, Sama... e mais quatro. Diante dos sete, o profeta admitiu: Nenhum desses Javé escolheu (10).

    Intrigado, indagou se ali estavam todos os filhos. Jessé respondeu: Falta o menor, que cuida do rebanho (11). Não imaginou que Deus fosse escolher o caçula, Davi, pastor, tocador de harpa e briguento, tanto que derrotou o gigante Golias (1 Samuel 17). Contudo, Davi era o escolhido e, entronizado, governou com sabedoria e competência.

    Na história política do Brasil, o PT pode ser comparado a Davi. Nasceu pequeno, desprezado pelos grandes, com fama de briguento. Graças à sua ética e ao sucesso na administração de centenas de cidades (hoje governa cerca de 50 milhões de brasileiros), passou a derrotar os Golias da política brasileira. Em muitos estados, a confiança do eleitor no PT expulsa da vida política velhos caciques, demagogos e corruptos.

    Os eleitores acabam de dar ao PT 14 senadores (incluídas 5 mulheres) e 91 deputados federais, entre os quais Zé Dirceu, que obteve em São Paulo cerca de 500 mil votos. Vicentinho, meu candidato, também se elegeu. Agora, para que se possam operar as mudanças urgentes que o Brasil exige, é preciso eleger Lula presidente. O PT fez ainda os governadores do Piauí e do Acre. Dia 27 poderá eleger também os de São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Amapá, Pará e Sergipe. Assim, Lula terá asseguradas as bases para bem governar o país, certo de que o dinheiro público priorizará as demandas sociais.

    20 DE OUTUBRO DE 2002 – SEGUNDA

    Entre o 1º e o 2º turnos, cumpro intensa agenda de reuniões e viagens em prol da campanha, muitas vezes acompanhado pelo teólogo e ambientalista Leonardo Boff e pelo cientista político Emir Sader, com os quais divido convicções ideológicas e a mesa em inúmeras palestras.

    O amplo arco de alianças partidárias arrefece-me o otimismo quanto ao futuro do governo. No 1º turno, Lula recebeu apoio da família Sarney e do PL, que indicou o vice-presidente. Em São Luís, encontrei o PT local desolado. Combateu por tantos anos a família Sarney e, agora, o jogo político leva o candidato petista a aliar-se a ela e escantear correligionários maranhenses. Assim é o poder, aproxima hoje inimigos de ontem. Ambiguidade que induz certos filósofos, como Maquiavel, a reservarem à moral política um nicho de exceção incompatível com os princípios éticos que regem a vida pessoal e social. Isaías exaltou o pagão Ciro como enviado de Javé para salvar os hebreus; Pilatos e Caifás olvidaram suas disputas ao apontar Jesus como inimigo de dois poderes; Churchill aliou-se a Stálin para derrotar Hitler; Prestes, após nove anos de prisão sob a ditadura Vargas – que entregou sua mulher, Olga Benário, à Gestapo –, apoiou o ex-ditador na eleição presidencial de 1950... A política é a arte do imprevisto e do improviso, movida pelo inescrupuloso paradoxo entre propósitos e exercício efetivo do poder.

    No 2º turno, Lula recebe o apoio de seus concorrentes na primeira fase do pleito: Ciro Gomes (PPS) e Leonel Brizola (PDT). Garotinho (PSB) permanece reticente.

    27 DE OUTUBRO DE 2002 – DOMINGO

    A democracia brasileira nunca foi, como pretendiam os gregos, um governo do povo para o povo. Com Lula presidente será a terceira vez que um homem de origem popular governará o Brasil. Filho de padeiro, Nilo Peçanha conheceu a pobreza. Vice-presidente na chapa de Afonso Pena, após a morte deste assumiu o governo do país, de junho de 1909 a novembro de 1910. Juscelino Kubitschek também nasceu pobre. Governou o Brasil de 1955 a 1961. Lula vivenciou a miséria; sobrevivente da grande tribulação do povo brasileiro, como diz Leonardo Boff, nesta noite de 27 de outubro de 2002, eleito com quase 53 milhões de votos (62% dos votos válidos; o adversário teve 38%), tem o direito de se orgulhar por ser um vencedor.

    No discurso da vitória, declarou que a maioria da sociedade brasileira votou pela adoção de outro modelo econômico e social, capaz de assegurar a retomada do crescimento, do desenvolvimento econômico com geração de emprego e distribuição de renda. Tem razão. O modelo neoliberal sofreu derrota nas urnas. A nação não suporta mais o desemprego, a deterioração do poder aquisitivo, o exíguo crescimento econômico, a corrupção. A esperança é gorda.

    Ao comemorar a vitória, Lula surpreendeu a opinião pública ao declarar, por sugestão de Ricardo Kotscho, seu assessor de imprensa, que, se conseguir assegurar, ao fim de quatro anos, três refeições diárias a cada brasileiro e brasileira, dará por realizada a missão de sua vida.

    * *

    Esperei o presidente eleito na entrada do Hotel Meliá, onde se hospeda com a família. Dei-lhe de presente – de aniversário e vitória –, num pequeno quadro, as palavras de Jesus sobre o poder: Os reis das nações as dominam e os que as tiranizam são chamados ‘benfeitores’. Quanto a vós, não deverá ser assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como o menor, e o que governa como aquele que serve (Lucas 22, 24-27).

    Até a posse o Brasil regurgitará especulações. Cada ministro mencionado e assessor indicado dará motivos a todo tipo de ilações. O coro se dividirá entre vozes contentes e descontentes, porque, em matéria de governo, os brasileiros repetem o fenômeno do futebol: todos se consideram técnicos e gostariam de escalar o time de sua preferência.

    A mim importa o comando do novo presidente pautado pelo Programa de Governo e os princípios que sempre regeram o PT. Quem paga a banda escolhe a música. E conheço a que soa bem aos ouvidos de Lula: a questão social.

    Muitas vezes, na prática, a teoria é outra. Acompanhei de perto o processo da Nicarágua. Estive com Lula nas comemorações do primeiro aniversário da Revolução Sandinista, em julho de 1980, quando conhecemos Fidel Castro. A vitória dos sandinistas livrou a Nicarágua de décadas de ditadura da família Somoza e despertou incontidas esperanças, como ocorre agora com a eleição de Lula. No entanto, aos poucos a miragem se dissipou por força da guerra terrorista patrocinada pelo governo Reagan, que não admitia outra nação do continente, além de Cuba, fora da órbita da Casa Branca. Com exceção da pátria de Martí, o bloco socialista se omitiu no apoio à Nicarágua. Seduzido, Gorbachev já andava de namoro com a esfera capitalista.

    Outra razão contribuiu para o fracasso do governo sandinista: alguns líderes, picados pela mosca azul, se afastaram das bases populares e adotaram, no poder, o salto alto. Desfrutavam acintosamente de mordomias, enquanto a população padecia a crise do abastecimento; cercavam-se de ostentações; acumulavam patrimônio; tratavam o povo, que lutara para que chegassem ao poder, como categoria abstrata. Criou-se, assim, o distanciamento entre governo e nação, reforçando a cunha enfiada pelos inimigos da Revolução.

    O poder inebria, seduz, embriaga. Como adverte Rousseau em seu Projeto de Constituição para a Córsega, a via mais geral e mais segura que se tem para satisfazer seus desejos, quaisquer que sejam, é o poder. Se os que o ocupam não se cercam de antídotos, correm o risco de, facilmente, criar asas e voar para os píncaros de seus egos inflados. Perdem o contato com as bases, não suportam críticas, rodeiam-se de bajuladores que sempre cuidam de adoçar a amarga realidade.

    Mas... um dia o palanque vem abaixo! A história é implacável. Seu julgamento revela a verdadeira face dos governantes. E por mais que os biógrafos oficiais se esforcem por enaltecer o grande líder, o tempo dirá se ele traiu ou não as expectativas, se abraçou o poder como altar de seu prestígio pessoal ou como ferramenta de serviço aos empobrecidos.

    Lula conhece bem erros e acertos da esquerda no poder. E a vaidade que robustece a postura de tantos companheiros. Queira Deus que seu governo não perca o senso de autocrítica e o contato com os movimentos populares. E que a participação do povo impeça-o de frustrar tantas esperanças que venceram o medo.

    * *

    No 2º turno, Zeca do PT (José Orcírio Miranda dos Santos) reelegeu-se governador do Mato Grosso do Sul. Amargam derrota os demais candidatos majoritários do PT.

    28 DE OUTUBRO DE 2002 – SEGUNDA

    O jornal O Dia, do Rio, publica na primeira página a carta de minha homenagem ao eleito, dirigida à mãe dele:

    Querida dona Lindu,

    Seu filho Lula toma posse dia 1º de janeiro de 2003 como presidente do Brasil. Lembro-me da senhora na casinha em que morava em São Bernardo do Campo. Fiz o seu enterro em 1980. Seu filho compareceu algemado, cercado de policiais do DEOPS, preso pela ditadura militar por liderar as greves do ABC. Temi pelo pior quando vi os metalúrgicos discutindo se convinha resgatá-lo das mãos da polícia.

    Dona Lindu, a senhora era analfabeta, pobre, retirante e de uma dignidade reverencial. Seu marido largou-a em Garanhuns e veio para São Paulo procurar trabalho. Mais tarde, a senhora juntou os filhos e, num pau de arara, seguiu o mesmo caminho atrás dele. Lula tinha 7 anos. Encontrou o pai com outra família. Diante do desamparo em que se depararam a senhora e os filhos, Lula trabalhou de engraxate, vendedor ambulante e tintureiro.

    Agora, dona Lindu, ele faz jus à herança que a senhora lhe deixou: a coragem diante dos desafios da vida. Apesar do dedo perdido no trabalho, não desanimou e seguiu a profissão de torneiro mecânico; nem ficou desesperado quando, por falta de atendimento de saúde aos pobres, morreram sua mulher e o bebê que ela trazia no ventre; não temeu também a ditadura ao denunciar a fraude nos índices salariais e levar os metalúrgicos do ABC a greves históricas.

    Seu filho venceu, dona Lindu. Não porque tirou diploma, ficou rico e famoso. Mas porque construiu o mais combativo e ético partido político do Brasil; foi o deputado constituinte mais votado do país; fundou a CUT; disputou quatro eleições presidenciais e levou esperança a milhões de brasileiros. Lula ensinou à nação que é possível fazer política com decência, vergonha na cara, tolerância nas relações pessoais e intransigência nos princípios.

    Obrigado, dona Lindu, por ter dado ao Brasil um presidente com capacidade de liderança, transparência ética e profundo amor ao povo, sobretudo àqueles que, como a sua família, conhecem na carne e no espírito o sofrimento e a pobreza.

    O Brasil merece um futuro melhor. O Brasil merece este fruto de seu ventre: Luiz Inácio Lula da Silva.

    Frei Betto

    (Durante dois anos a carta ocupou, em meu gabinete no Planalto, o lugar reservado à foto oficial do presidente da República.)

    29 DE OUTUBRO DE 2002 – TERÇA

    E agora, Lula? A campanha acabou, o eleitor votou, você ganhou. E agora a utopia se fará topia? Agora, aninha-se uma irrefreável expectativa no coração de milhões de brasileiros e brasileiras.

    Uma eleição não se faz apenas com programas de campanha. Quem os lê? Faz-se com entusiasmo e garra, sonhos e ambições. Mais emoção que razão, promessas que projetos, palavras que atos.

    Quem votou em você espera o melhor. E o melhor é como o bem: todos o querem, mas nem todos imprimem-lhe o mesmo significado aristotélico. Muitos eleitores confiam que seu governo honrará os acordos internacionais do Brasil. E há aqueles que têm certeza de que você jamais agradará aos credores estrangeiros em detrimento da cesta básica de 50 milhões de brasileiros com renda mensal inferior a R$ 100.

    E agora, Lula? O mercado espera que você anuncie, o quanto antes, os nomes da equipe econômica. Mas quem administrará o combate à fome, ao desemprego, ao analfabetismo? Quem conduzirá a reforma agrária, para tornar menos injusta a posse da terra no Brasil, e a reforma tributária, para livrar o país do vergonhoso título de vice-campeão de desigualdade social?

    E agora, Lula? Como agradar a tantos setores divergentes que o apoiaram, e partidos diferentes, e as tendências do PT? Quem governa para agradar faz do mandato um balcão de negócios e tende a curvar-se à ganância dos grandes e dar as costas à esperança dos pequenos. Governar é abraçar prioridades que aliviem o sofrimento da maioria, ainda que aliados de hoje se tornem opositores de amanhã.

    Agora, Lula, a festa acabou, o povo sumiu, e você terá que abusar de sua infinita paciência para administrar correligionários que, do alto de suas ambições, almejam funções de poder. Não ceda aos caprichos pessoais nem às pressões corporativas. Saiba que cada pessoa nomeada por você será julgada, não apenas pela competência e pelo currículo, mas também pela vida pregressa.

    Entre seus ministros e assessores não deverá figurar nenhum nome que, algum dia, tenha compactuado com a tortura, o arbítrio, a sonegação, o nepotismo, a malversação, o preconceito e a mentira.

    E agora, Lula? Cada um de seus gestos se tornará símbolo. Seu estilo de vida, paradigma. Jamais se lhe apague da memória a dignidade de sua mãe, dona Lindu, que não se sentia vexada por ser pobre e criou os filhos dando-lhes o que nunca teve, como o conhecimento das letras.

    Não esqueça dos 13 dias de viagem num pau de arara; do garoto vendedor ambulante na Baixada Santista; do peão mutilado na fábrica; do marido e pai órfão da mulher e do bebê mortos por descaso do sistema de saúde pública; do líder sindical preso durante 31 dias; do trabalhador onze meses desempregado.

    Agora, Lula, é mudar a gramática do poder. Não olvide jamais a multidão de empobrecidos.

    E agora, Lula? A noite esquentou, o dia já veio e bonde não há. Deus lhe deu os dons e você soube aprimorá-los. Resta fazer da política a mais perfeita obra de caridade. Com um prato de comida, posso, hoje, matar a fome de um pobre. Mas só a política pode erradicar a pobreza. E, para isso, se necessita de uma ferramenta: o poder.

    Em breve, a ferramenta estará em suas mãos de torneiro mecânico. Faça bom uso dela, em proveito de milhões de brasileiros e brasileiras.

    30 DE OUTUBRO DE 2002 – QUARTA

    Participei do encontro de Lula com um grupo de intelectuais que, coordenado por Paulo Vannuchi, reuniu-se periodicamente ao longo da campanha: Antonio Candido, Maria Victoria Benevides, Fábio Konder Comparato, Francisco de Oliveira, Maria Rita Kehl, Paulo Eduardo Arantes, Paul Singer e outros. O anfitrião recordou que, no lançamento da Consulta Popular, disseram-lhe que jamais teria acima de 30% de aprovação e, portanto, nunca seria eleito presidente... Na conversa com FHC, semana passada, em Brasília, o presidente sugeriu-lhe declinar, o quanto antes, os nomes de sua equipe econômica, sobretudo os do Banco Central, sujeitos ao aval do Congresso. Caso não sejam aprovados pela legislatura vigente, só poderão ser sabatinados em março de 2003, quando o parlamento volta a funcionar. Lula se recusou, quer evitar duplo comando de governo e divergências entre políticos da área econômica. Prometeu que o fará na última semana da atual legislatura.

    FHC indagou o que ele pensa da compra de aviões-caça no valor de R$ 1 bilhão. Está propenso a adquiri-los da França e não da Embraer, embora as aeronaves francesas tenham autonomia de voo inferior às brasileiras. Lula discordou da compra. O Brasil não está em guerra e, com tão pouca autonomia de voo, os caças só servem para proteger Brasília, que não sofre qualquer ameaça. O presidente eleito prefere canalizar os recursos às prioridades sociais.

    NOVEMBRO DE 2002

    1º DE NOVEMBRO DE 2002 – SEXTA

    A família Lula da Silva refugia-se em Araxá (MG) para descansar no feriado de Finados. A fim de embarcar sem atrair atenções, o presidente eleito logrou escapar da vigilância permanente da imprensa: fez Zé Dirceu sair do comitê em seu carro, o que mobilizou metade dos repórteres, e Luiz Dulci dar uma coletiva, ocupando o restante.

    Os pilotos, orientados a dirigir-se a Belo Horizonte, em pleno voo tiveram a rota desviada para Araxá. Na aterrissagem, as aeronaves taxiaram rumo ao hangar, onde duas vans sem chofer nos aguardavam. Tomamos a direção. Junto à pista um rapaz tirava fotos, o que nos inquietou. Chegamos a supor ter vazado à imprensa o nosso destino.

    Contornamos a cidade e nos dirigimos à Casa de Hóspedes do fundo de pensão dos funcionários da CBMM. Antônio Gilberto de Castro, superintendente administrativo da empresa, surpreendeu-se ao nos receber. Camargo o prevenira de que chegaria um grupo de bispos para um colóquio secreto...

    Benedita da Silva, derrotada por Rosinha Matheus (PMDB) na eleição para o governo do estado do Rio de Janeiro, ligou para Lula: Agora quero você cuidando de mim, suplicou. Ele comentou:

    – Pretendo aproveitá-la, reúne qualidades políticas, é mulher e negra.

    Olívio Dutra, que deixou o governo do Rio Grande do Sul – onde Tarso Genro não se elegeu, perdendo para Germano Rigotto, do PMDB –, também se colocou à disposição. Lula observou:

    – Quero perto de mim amigos em quem confio, mas não pretendo fazer um governo de derrotados. O único que não pediu nada até agora foi o (José) Genoino (derrotado em São Paulo pela reeleição de Geraldo Alkmin, do PSDB).

    Aloizio Mercadante teria recusado ocupar o Ministério da Fazenda. O neossenador paulista prefere não decepcionar seus 10 milhões de eleitores. Antônio Palocci, médico sanitarista, surgiu como segunda alternativa.

    (Lula não evitaria um ministério de derrotados. Nomeou Olívio Dutra para o Ministério das Cidades (derrotado nas prévias petistas ao governo do Rio Grande do Sul); Nilmário Miranda para os Direitos Humanos (derrotado para o governo de Minas); Tarso Genro para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (derrotado para o governo do Rio Grande do Sul); Jaques Wagner para o Trabalho (derrotado para o governo da Bahia); e Humberto Costa para a Saúde (derrotado para o governo de Pernambuco.)

    É anseio do presidente eleito em seis meses dotar todas as crianças do ensino fundamental de uniforme e mochila, e que aprendam a cantar o Hino Nacional, fazer fila e honrar a bandeira. O uniforme atenua as desigualdades sociais.

    – Fiquei comovido – confessou Lula – quando Eugenio Bucci me disse no comitê (na reunião dos intelectuais): Pessoalmente estou bem de vida, mas mesmo perdendo e ganhando menos pode contar comigo no seu governo.

    (Bucci seria nomeado para dirigir a Radiobras.)

    Lula estranhou Fidel ainda não ter ligado para cumprimentá-lo. George W. Bush se antecipou e o convidou aos EUA antes da posse.

    À noite, assistimos ao Globo Repórter sobre a trajetória do presidente eleito. Emocionou-se às lágrimas ao ver destacada a importância de dona Lindu em sua vida.

    Quanto à posse, descarta recepções do Itamaraty com traje a rigor; prefere um réveillon popular, animado por um show de artistas em plena Esplanada dos Ministérios.

    Sugeri que todos os presentes que receba como chefe de Estado sejam entregues a instituições de caridade e leiloados em benefício das obras.

    3 DE NOVEMBRO DE 2002 – DOMINGO

    José Alencar e a mulher, Mariza Gomes da Silva, passaram o dia conosco na Casa de Hóspedes. Um jornal de Caratinga (MG) tentou desmoralizá-lo; apresentou uma moça, com cerca de 50 anos, como se fosse sua filha. Ninguém na grande imprensa deu importância. Publicou-se ainda que teria dado um casaco de pele à amante...

    – Casaco de pele em Caratinga? Só se for para sufocar a mulher – ironizou o vice-presidente eleito. – E aí eu deveria ser processado por tentativa de homicídio.

    E ponderou:

    – Não podemos decepcionar o povo. A primeira qualidade do vice é a lealdade ao presidente.

    Lula criticou o Sucatão, avião presidencial fabricado em 1958:

    – Até uma turbina já caiu com o Marco Maciel.

    – Imagine conosco, que somos mais pesados – rebateu José Alencar.

    Nossa estada em Araxá virou segredo de Polichinelo. Um repórter da TV Globo se posta na entrada da casa, onde uma faixa, assinada pelo PT local, saúda a presença de Lula.

    José Alencar frisou a importância da fiscalização tributária:

    – O fiscal, como outrora, deveria ganhar uma porcentagem. – E comentou: – Na minha empresa (a Coteminas, de tecidos) não se vende um metro de pano sem nota fiscal. É uma questão de princípio.

    O PSDB enviou à Coteminas uma repórter para entrevistar quatro ex-funcionários com pendências trabalhistas na Justiça. Um dos quatro denunciou a presença da jornalista:

    – Nunca houve uma greve na Coteminas – gabou-se.

    Contou que FHC o convidou duas vezes para ser ministro. Recusou por discordar da política econômica.

    Aproveitei o ensejo para criticar a excessiva carga tributária:

    – Dos meus direitos autorais, pago 27,5% ao leão. É demais para uma pessoa física.

    SEGUNDA SEMANA DE NOVEMBRO DE 2002

    Lula reuniu-se no comitê com Zé Dirceu, Palocci, Gushiken, Dulci e Mercadante. Na pauta, a composição da equipe de transição chefiada por Palocci. Cogitaram nomes para o ministério, mas o presidente eleito preferiu evitar o tema.

    As especulações correm soltas. Um assessor próximo a Lula, com quem jantei, assegurou que José Sarney ocupará a pasta da Defesa, e Cristovam Buarque não será convocado para a Educação. Um repórter da Folha de S. Paulo veio perguntar que função ocuparei no governo:

    – A de capelão do Palácio da Alvorada – retruquei aborrecido.

    No dia seguinte, o jornal deu nota de que pretendo morar no Alvorada...

    A proximidade do poder destampa ambições pessoais. Há incontido apetite por cargos. Faz-me lembrar a infância em Belo Horizonte, capital dos bondes. Havia gosto de aventura ao subir no veículo em movimento. O risco exigia habilidade felina. Assim, a iminência de ocupar funções na República. Muitos se autocandidatam convencidos dos próprios méritos, e ficam atentos ao momento de dar o bote certeiro. Julgam-se credores da vitória e, portanto, merecedores de nomeações. Como sobram pretendentes a cada posto, desata-se um jogo nada sutil de empurra-empurra, temperado por intrigas e vaidades. Assemelha-se à dança das cadeiras.

    Lula surpreendeu Zé Dirceu, Mercadante e Gushiken discutindo que ministério cada um ocupará. Tentou acalmá-los:

    – Vamos fazer o seguinte: escolham entre vocês. O que cada um escolher, aprovo.

    Segredo de Estado, a data do Dia D – 6 de junho de 1944, quando os aliados invadiriam a Normandia, na Segunda Guerra Mundial – era conhecida por reduzido grupo de estrategistas empenhados na derrota de Hitler. De Gaulle, comandante francês, figurava entre os poucos que sabiam antecipadamente o momento do desembarque. Mordido pela curiosidade, um de seus auxiliares mais próximos perguntou-lhe quando seria o Dia D. Você é capaz de guardar segredo?, retrucou o oficial. Sem dúvida, jurou o subalterno. Eu também, encerrou De Gaulle.

    Lula sempre destoou do estilo adotado pela média dos políticos. Não age sob pressão e sabe que, em política, informação é poder. E para demonstrar que têm poder certos políticos adoram cometer inconfidências aos ouvidos de jornalistas... Por isso, Lula deixa muita gente arrancando os cabelos. Embora não seja mineiro, trabalha em silêncio. Monta a equipe de governo como um jogador de xadrez arma cautelosamente cada lance. Nada de precipitações. Nem de atiçar o fogo das especulações. Enquanto isso, diverte-se com a loteria ministerial publicada diariamente nos jornais. Assim, evita o duplo comando da nação. Não quer a mídia contrastando a opinião do ministro que sai com a do ministro que entra. Nem carregar nos ombros o ônus do governo FHC. Este é o responsável por desenjaular o dragão da inflação. Se Lula já tivesse revelado seu ministério, com certeza os maus humores do mercado lhe seriam atribuídos.

    Lula esperou 13 anos para chegar à Presidência da República. Se esperou tanto, por que os companheiros não podem aguardar algumas semanas? Não quer formar uma República de arrivistas. Aliás, o 13 marca-lhe a vida. A mãe vendeu a terra em que morava por 13 contos de réis. A viagem de pau de arara de Garanhuns a São Paulo levou 13 dias. O número do PT é 13. Ele foi eleito no 113º ano da República.

    Lula conhece a vaidade humana; costuma qualificá-la de carência. Acha graça ver companheiros e aliados à espera de um aceno, um cumprimento, uma palavra de consolo ou esperança, como sinal de que não estão esquecidos.

    Não é verdade que monta a equipe de governo sem consultar ninguém. Mas o faz de modo que nem sempre o interlocutor percebe que, na conversa, ele colhe impressões sobre uma lista de pessoas, como ocorreu na visita feita a Celso Furtado, a 5 de novembro, quando o sondou quanto a possíveis nomes para as áreas econômica e cultural.

    O ser humano padece de cinco grandes tentações: 1) o poder; 2) o poder; 3) o poder; 4) o dinheiro; 5) o sexo. Talvez Afrodite nem sempre encontre espaço no governo, mas Narciso se faz presente onde há poder. O poder infla o ego, eleva a autoestima, cria uma imantação que atrai todo tipo de agrados, bajulações e elogios.

    Raduan Nassar, que tudo entende dos secretos escaninhos da alma humana, e com quem troco, com frequência, dois dedos de prosa, compara o poder à caça ao macaco. Para capturar o animal sem um arranhão, fura-se um coco e coloca-se dentro um torrão de açúcar. O macaco sobe na árvore e, literalmente, mete a mão na cumbuca. Tenta tirá-la, porém a mão fechada sobre o torrão o impede de passá-la de volta pelo buraco. Como não larga a presa, e prefere a cobiça à liberdade, acaba na rede dos caçadores.

    Uma marola de vaidade deixa à deriva aqueles que, em torno de Lula, esperam ansiosos uma nomeação federal. Nem parlamentares com mandatos garantidos conseguem conter o estado de excitação que se apossa da noiva na véspera do casamento. O mais curioso é que certos candidatos de si mesmos se julgam talhados para determinadas funções, como se o presidente eleito não tivesse o direito de os decepcionar...

    Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, diz o primeiro versículo do Eclesiastes. Embora eu já esteja trabalhando na mobilização social do projeto Fome Zero, contratado pela FAO (Food and Agriculture Organization), a quem me pergunta que função ocuparei no próximo governo, respondo sem titubear: Ministro. Ministro? De quê?, reage o interlocutor ávido de curiosidade. Da eucaristia, completo.

    14 DE NOVEMBRO DE 2002 – QUINTA

    Ao visitar minha mãe, Maria Stella Libanio Christo, em Belo Horizonte, Lula leu a crônica em que meu pai, Antônio Carlos Vieira Christo, falecido em setembro passado, comenta o lema de campanha de Nilo Peçanha a presidente da República, em 1921 – Paz e amor. O mesmo adotado pelo PT na campanha presidencial deste ano. Peçanha, entretanto, não teve a mesma sorte que Lula. Foi derrotado por Artur Bernardes, de quem meu pai viria a ser secretário particular na década de 1930.

    O presidente eleito enfiou-se cozinha adentro, cumprimentou as empregadas, ergueu tampas de panelas para aspirar o vapor condimentado. Achou pouco gordurosa a rabada que mamãe lhe preparou:

    – Está na hora de você fazer um pouco de dieta para enfrentar o que vem aí – replicou a anfitriã.

    20 DE NOVEMBRO DE 2002 – QUARTA

    Oded Grajew, fundador do Instituto Ethos, e eu nos reunimos, no Rio, com o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, no Hotel Copacabana Palace. Pedimos ao homem de bochechas largas e cabelos encaracolados brancos US$ 1 bilhão para um fundo de combate à fome e à pobreza no Brasil. Qual velha raposa mineira, saiu pela tangente:

    – Acho que um fundo de US$ 1 bilhão não é o ponto central. O dinheiro é para mim o ponto menos importante no momento. Não podemos discutir na base de US$ 1 bilhão ou US$ 10 bilhões.

    Ficamos a ver navios. O dinheiro para nós era, sim, o ponto mais importante no momento. Era de esperar. O Banco Mundial não tem real interesse na redução da miséria. Lucra com a desigualdade social. Importam-lhe apenas políticas compensatórias; trazem alívio aos mais pobres sem, no entanto, erradicar a pobreza e a miséria. Seus projetos são pontuais, focalizados, nunca universais e centrados em mudanças estruturais. Não por acaso o principal eleitor do presidente do Banco Mundial é o homem que ocupa o Salão Oval da Casa Branca. Como o FMI, o Bird é uma eficaz ferramenta de segurança do sistema capitalista.

    26 DE NOVEMBRO DE 2002 – TERÇA

    Lula me convidou para Assessor Especial do Presidente da República e responsável, junto com Oded Grajew, pela mobilização social do Fome Zero. Convocado anteriormente a ocupar funções em administrações públicas, recusei. Há vinte e dois anos acompanho a trajetória política de Lula e, agora, não posso me negar a segui-lo também no Planalto. Sobretudo por querer-me atuando em favor dos mais pobres – os beneficiários do Fome Zero.

    Acolho como um dever pastoral e político.

    DEZEMBRO DE 2002

    8 DE DEZEMBRO DE 2002 – DOMINGO

    Amanhã o presidente eleito viaja aos EUA, convidado por George W. Bush.

    10 DE DEZEMBRO DE 2002 – TERÇA

    Palocci preferiria conservar Armínio Fraga no governo, já que o PT não encontrava um nome competente e confiável para colocar à frente do Banco Central. Alguém capaz de evitar que o dólar chegue a valer R$ 5. Pensou-se no economista Guido Mantega, assessor de Lula no Instituto Cidadania; talvez não conseguisse, por sua marca petista, evitar a ascensão do dólar e a desconfiança do mercado.

    Aloizio Mercadante propôs o nome de Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco de Boston, eleito deputado federal, em outubro, pelo PSDB de Goiás. Meirelles pertenceu, na adolescência, à JEC (Juventude Estudantil Católica) de Anápolis (GO), quando eu participava da direção nacional do movimento.

    Ao chegar aos EUA, Lula convocou Meirelles, que lá se encontrava. Convenceu-o a abdicar do mandato parlamentar e assumir o comando do Banco Central. Teremos um tucano em função estratégica do governo petista. Se positivo ou negativo, o tempo dirá.

    Ao receber o presidente eleito, Bush sondou-o a respeito da posição do Brasil caso os EUA intervenham no Iraque. Lula foi contundente:

    – Tenho um amigo que diz que a cabeça pensa onde os pés pisam. E os meus estão na realidade do Brasil. Lá a nossa guerra é outra. Não para tirar vidas, mas para salvá-las: a guerra contra a fome.

    16 DE DEZEMBRO DE 2002 – SEGUNDA

    No comitê de campanha, participei de reunião de preparação do

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