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E Daí?! Desmitificando A Farsa Bolsonaro

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E Daí?! Desmitificando A Farsa Bolsonaro

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3/5 (2 ratings)
Length:
213 pages
3 hours
Released:
Oct 19, 2020
ISBN:
9786599077555
Format:
Book

Description

A elaboração do livro “E daí!? Desmitificando a farsa Bolsonaro” é fruto do engajamento de milhares de pessoas no canal no YouTube. As colaborações com comentários, pontos de vistas diferentes e compartilhamentos, trazendo novos agentes de mudança para o canal, proporcionaram este instrumento de reflexão e politização. As principais ideias que des
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9786599077555
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E Daí?! Desmitificando A Farsa Bolsonaro - Leonardo Maso Nassar

PRÓLOGO

O PAPEL DA ESQUERDA NO BOLSONARISMO

Em 2018, durante um comício do PT, o rapper Mano Brown fez duras críticas ao partido, dizendo: Não gosto do clima de festa. O que mata a gente é o fanatismo e a cegueira. Deixou de entender o povão já era. Se somos o Partido dos Trabalhadores tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar entender. As minhas ideias são essas. Fechou [4] . Brown percebeu e entendeu o distanciamento do PT com as suas bases fundamentais.

Outro que percebeu o distanciamento do PT foi Cid Gomes, irmão de Ciro Gomes, candidato à presidência em 2018. Em comício do PT, nas eleições de 2018, Cid provocou uma enorme confusão ao dizer que Haddad perderia feio, sendo merecido pelos erros cometidos pelo partido enquanto esteve no poder. O irmão de Ciro falou que era preciso fazer uma mea-culpa e reconhecer as besteiras feitas pelo PT. [5]

Em 2019, quando saiu da prisão em Curitiba, Lula não endossou diretamente o discurso de Mano Brown, mas mostrou um ponto de dúvidas sobre o papel da esquerda. O ponto principal do discurso de Lula foi esse: Depois que eu fui preso, depois que eles roubaram do Haddad, o Brasil não melhorou. O Brasil piorou, o povo está desempregado, o povo está trabalhando de Uber, de bicicleta para entregar comida [6] .

Já em 2020, Tarso Genro, um dos nomes mais fortes da história do Partido dos Trabalhadores, disse que o partido ficou obsoleto. Diferentemente de Lula e Mano Brown, Tarso foi mais contundente na sua crítica, pois entendeu perfeitamente a obsolescência social do partido. O ex-governador do Rio Grande do Sul foi preciso ao dizer: nós temos um discurso e um programa ancorado na época em que o partido foi fundado e ainda agimos como se existisse uma classe trabalhadora nas fábricas que teria potencial hegemônico na sociedade. Operamos como se o nosso trabalho fosse organizar esta classe de pessoas para lutar por uma utopia. Isto mudou radicalmente. Não adianta, por exemplo, o PT prometer se renovar e pregar a restauração da CLT. Os processos de trabalho foram fragmentados e hoje temos autônomos, horistas, PJs, precários, intermitentes. Trata-se, neste caso, de organizar um outro sistema público protetivo que envolva estes excluídos das legislações trabalhistas, que irão aumentar. Acho que o partido não acompanhou estas mudanças. E, a esta nova organização do trabalho, soma-se a tensão social resultante de questões de gênero, cultura, preconceito racial e condição sexual. Precisamos absorver as suas demandas e oferecer propostas concretas. [7] . Tarso foi perspicaz e sua interpretação pode ser entendida para toda a esquerda.

Para falar de Bolsonaro como um líder político relevante no Brasil, é necessário também abordar o papel da esquerda para o surgimento do mito. Bolsonaro pode ter conseguido canalizar para si vários sentimentos existentes na sociedade nacional que eram esparsos até o início dos anos 2010, mas a esquerda contribuiu de maneira contundente com a sua eleição em 2018.

Muitos dirão que a esquerda elegeu Bolsonaro por ter traído o povo em 2005 com o Mensalão e com o Petrolão em 2014. Alguns eleitores sentiram-se iludidos com os problemas de corrupção dos governos petistas. Alguns acreditavam que o PT iria fazer um governo diferente e honesto, sem escândalos de corrupção. É a ideologia da classe média que sempre reduz a política entre honestos e desonestos, a mesma ideologia elegeu Collor, o Caçador de Marajás, em 1989.

Porém, a decepção com o PT é apenas uma parte da equação, a menor talvez.

O problema da esquerda que acabou elegendo Bolsonaro é uma obsolescência social. A esquerda não conseguiu compreender como está constituído o novo contexto social laboral.

A esquerda não percebeu que o contexto social mudou desde a fundação do PT nos anos 80. A dinâmica laboral de hoje é completamente distinta da existente há 40 anos. As relações de trabalho foram modificadas, o neoliberalismo avançou assim como a pós-modernidade e o capitalismo financeiro foi gradativamente substituindo o capitalismo industrial.

Os trabalhadores que a esquerda conheceu na época da fundação do PT são figuras em extinção. As novas relações laborais e a tecnologia modificaram os postos de trabalho. Atualmente, a linha de montagem é feita pela robótica. Os sindicatos estão enfraquecidos pela individualidade do neoliberalismo. E o patrão deixou de ser patrão para ser cliente do antigo funcionário.

Para reduzir custos operacionais, muitas empresas adoraram a estratégia de transformar seus empregados em Pessoas Jurídicas com cada um tendo o seu próprio CNPJ. Assim, da noite para o dia, cada trabalhador passou a ser um empresário, dono de sua própria empresa com apenas um único funcionário, ele mesmo.

Esse funcionário já não se enxerga mais como um empregado, mas como um empresário disposto a ficar rico com seu próprio esforço meritocrático neoliberal. Como o sonho e o esforço são individuais, o coletivo deixa de ser necessário. Na verdade, ele até atrapalha, pois, se cada colega de trabalho é também um empresário, todos são concorrentes batalhando pelo mesmo cliente, o antigo patrão.

Quando uma grande empresa contrata um renomado escritório advocacia para resolver um problema jurídico, ninguém vai pensar que os advogados são funcionários desta empresa. Isso ocorre porque a relação entre ambas é pelo CNPJ. A grande empresa contrata o escritório advocacia para uma ação específica. Portanto, a grande empresa é um cliente do escritório.

Com exceção do tamanho e do tipo de trabalho, a relação estabelecida entre empresa e um MEI é a mesma do escritório de advocacia. Portanto, o patrão é um cliente do MEI. Se as relações patronais já eram desiguais, as relações de clientelismo são ainda piores. A frase o cliente tem sempre razão também serve para esse contexto.

Essa relação de clientelismo entre patrão e trabalhador parece que ficou um pouco obscura para a esquerda. A esquerda sabe dialogar com o trabalhador em grupos sindicalizados, mas não sabe como se comunicar com novos pequeniníssimos empresários. Eles não estão mais em grupos, estão individualizados. E também não são trabalhadores, são empresários.

Esse novo tipo de empresariado, por ser um empresário apesar tudo, vai ser atraído pelo discurso político aderente aos interesses do mercado, ou seja, o da direita liberal. Como a esquerda fala sobre o trabalho, e esse indivíduo não se vê mais como um trabalhador, essa comunicação não significa mais nada para ele.

Sem os sindicatos, a organização do trabalho perde o caráter coletivo. Se antes bastava um líder da esquerda ir até uma organização sindical para dialogar com centenas de indivíduos, atualmente, deixou de ser assim. Com os MEIs, cada interesse precisa ser tratado de modo individual, sendo muito mais difícil.

Com essa complicação de interação e comunicação para manter a relevância com a classe trabalhadora, a esquerda concentrou seus esforços na sua vertente adquirida ao chegar à América, o identitarismo.

Na Europa, a esquerda surgiu como um elemento da classe trabalhadora. Um movimento que buscava melhores condições para o operariado. Ao desembarcar nos EUA, os ideais da esquerda também foram absorvidos pelos operários americanos. Entretanto, os trabalhadores americanos eram os imigrantes, o chamado americano hifenado.

Nesse grupo de ítalo-americanos, afro-americanos, latino-americanos e anglo-americanos, todos separados por hífen e por isso o nome americano hifenado, as ideias da esquerda tiveram contato com as minorias sociais. Foram com os trabalhadores americanos que os ideais da esquerda foram adaptados para o trabalho e também para o direito das minorias, como é conhecido contemporaneamente [8] .

Sem saber como lidar com a nova dinâmica social do trabalho, a esquerda brasileira ficou reduzida às minorais, uma pauta extremamente necessária e importante. A redução da desigualdade social e a melhora nas condições das minorias é essencial para o desenvolvimento econômico brasileiro. Armínio Fraga, presidente do Banco Central no governo FHC, declaradamente de direita e liberal, defende tal pensamento [9]

Porém, uma parcela da esquerda não soube abordar de modo apropriado o assunto das minorias, tornando-se radical em demasia, afugentando várias parcelas da sociedade e prestando um desserviço para as causas que levantam. Os termos com sufixos ismo foram amplamente utilizados de modo irresponsável, desgastando o seu sentido. Quando a esquerda utilizada uma palavra termina em ista, como machista, para rotular alguém de modo inapropriado, ela provoca uma revolta naquele indivíduo, pois há uma injustiça de fato.

Muitos militantes de esquerda acreditam que suas bandeiras devam ser absorvidas pela sociedade pela imposição ao invés do convencimento. A população se sente oprimida e acuada por essa parcela da esquerda. Para piorar, alguns militantes não possuem a responsabilidade necessária para militarem por suas causas e acabam tendo atitudes hipócritas, provocando revolta da sociedade e distanciando-a de suas legítimas e imprescindíveis bandeiras.

O termo patrulha do politicamente correto surge por conta desse patrulhamento das atitudes alheias por esses militantes de esquerda. O politicamente correto é essencial para o capitalismo e surge com ele. No capitalismo, as relações comerciais precisam da suavização das relações pessoais, para que trocas comerciais sejam efetuadas com êxito. São por esses movimentos que pessoas contrárias ao politicamente correto surgem e Bolsonaro é um deles.

Bolsonaro emergiu como sendo alguém que publicamente se opôs a essa opressão por parte da esquerda. Como alguém que se opôs, Bolsonaro foi massivamente atacado pela esquerda, dando-lhe mais espaço na televisão e possibilidade de transmitir sua mensagem para mais pessoas.

Como essa pauta do identitarismo é cara para alguns grupos, como os cristãos evangélicos, por conta das propostas de mudança de costumes, muitos sentiram-se seduzidos pela fala de Bolsonaro e embarcaram na sua retórica, alinhando-se com a direita.

Bolsonaro embarcou em vácuo de poder deixado pela esquerda incapaz de aglutinar as pautas sociais com a do trabalho. Ao deixar o trabalhador escanteado, mesmo sem a intenção, a esquerda perdeu a sua ligação com a maior parcela da população nacional. Na atualidade, muitos enxergam a esquerda como sendo exclusivamente identitária.

A esquerda perdeu o trabalhador brasileiro e deu o caminho para o surgimento de alguém como Bolsonaro. Para entender esse complexo, e ao mesmo tempo simples, fenômeno político e social, fique com os próximos capítulos.

INTRODUÇÃO

Antes de iniciar qualquer entendimento sobre Bolsonaro, é necessário uma breve explicação e diferenciação conceitual entre república e democracia, pois muitas pessoas confundem os dois conceitos e acham que são praticamente sinônimos. Sem entender a diferença entre as duas, haverá sempre um enorme erro conceitual ao tratar o governo Bolsonaro.

É muito comum leigos, figuras políticas e até analistas renomados dizerem que Bolsonaro é uma ameaça à democracia. Entretanto, todos estão errados, pois Bolsonaro não ameaça a democracia. Como o presidente seria uma ameaça à democracia, se teremos eleições em 2020, se o presidente teme o impeachment, se o Congresso e o Senado estão abertos, se a imprensa é livre, se a oposição está atuando e se Lula, teoricamente seu principal opositor político, está solto após ser liberado da prisão? Ora, se Bolsonaro fosse uma ameaça à democracia, apenas como exemplo, Lula nunca teria sido solto. Bolsonaro não temeria tanto sofrer um impeachment a ponto de negociar alianças com partidos do Centrão, para barrar qualquer movimento à sua saída. Portanto, é importante saber que há um erro conceitual com a verdadeira ameaça promovida pelo presidente: Bolsonaro ameaça a república e não a democracia.

Faço essa breve diferenciação, logo na Introdução, para evitar qualquer tipo de erro conceitual, porque entender e diferenciar bem as expressões é de fundamental importância para o entendimento e eventual luta política. Em 2016, o PT insistiu em caracterizar o impeachment de Dilma Rousseff como um golpe. Se fosse de fato um golpe, Dilma deveria ter acionado as Forças Armadas para intervirem e prenderem os golpistas. Porém, Dilma e PT não fizeram os ritos políticos previstos em um golpe, mas aceitaram os ritos políticos de um impeachment.

Ao tratar o impeachment como golpe, o PT enfraqueceu a palavra impeachment dentro do próprio dicionário petista, ficando impossibilitado de pedir o impeachment de Bolsonaro. Não haveria hipocrisia maior no Brasil na visão da população do que o PT, que tanto chamou o impeachment de Dilma de golpe, protocolar um impeachment de Bolsonaro. A população pensaria: por que agora é impeachment e antes foi golpe? Assim, o PT, o maior partido de oposição a Bolsonaro, enfraqueceu suas chances de exercer uma prerrogativa prevista na Constituição por misturar conceitos distintos.

O exemplo da confusão entre impeachment e golpe promovida pelo PT é importante para entender que conceitos políticos devem ser compreendidos pela sua concepção e jamais misturados. Portanto, é fundamental saber que democracia e república são termos muito diferentes, inclusive nas suas origens.

A origem da democracia é grega e significa demos (povo) e kratos (poder) [10] . Ou seja, o poder é do povo ou todo o poder vem do povo. No sistema democrático grego, uma parcela da população da cidade poderia influenciar as decisões do governo com seu poder de convencimento oral e voto [10] . Para discutir um assunto de relevância comunitária, ocorriam as discussões na ágora, um local edificado público onde a população se reunia para, dentre outras coisas, debater o futuro da pólis.

Naquela época, apenas homens poderiam participar do jogo democrático, sendo rotativa a presença de cada indivíduo [10] . A participação daqueles que iriam debater e votar era definida por eleições e sorteios a depender do grupo que indivíduo fazia parte [10] . A variação das pessoas que periodicamente eram trocadas provocava alterações no modo de interpretar e votar os temas a serem deliberados. Portanto, um mesmo assunto poderia ter interpretações e desfechos diferentes a depender do grupo de pessoas que o discutiam.

Um bom exemplo a ser dado do caráter interpretativo e múltiplo presente na democracia grega eram os julgamentos. Naquela época, não havia júri formal e leis escritas universais em Atenas [10] . Os casos eram julgados por júri escolhido por sorteio dentre um grupo de cidadãos que se candidatavam para a função. Obviamente, o julgamento do acusado dependeria da interpretação e do poder de convencimento dos presentes no júri naquele momento, possibilitando que casos semelhantes pudessem ter desfechos completamente diferentes, pois as decisões eram definidas pela interpretação dos participantes momentâneos.

Um código de leis mais formalizado é encontrado em Roma. Diferentemente dos gregos, notabilizados por uma vocação especulativa, os romanos possuíam um senso prático maior, que criou um ordenamento jurídico da sociedade, respeitando às autoridades divinas e humanas [11] . As normas vigentes em Roma foram sendo desenvolvidas até aproximadamente o século VI d.C., quando Justiniano codifica o Direito Romano [12] .

O direito é um elemento essencial da república romana, constituída por volta de 500 a.C., com a expulsão do rei Tarquínio, o Soberbo [13] . O governo monárquico de um indivíduo passa para uma composição governamental formada por um corpo coletivo [14] . O conceito de república vem do latim res publica, ou seja, a coisa pública ou coisa do povo, possuindo ênfase no comum, nos interesses comuns em oposição aos interesses privados.

A noção do bom líder, preocupado com à promoção do coletivo, emerge com o surgimento da república [15] . É também com a república que surge uma definição maior das responsabilidades e atribuições públicas, como as Magistraturas, o Senado

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