1996-1997 by Neil Gaiman 2007 by Conrad Editora do Brasil Ltda. TÍTULO ORIGINAL: Neverwhere CAPA E DIAGRAMAÇÃO: Ana Solt EDIÇÃO: Mateus Potumati e Lígia Azevedo PREPARAÇÃO: Ricardo Liberal REVISÃO: Lucas Carrasco e Otacílio Nunes PRODUÇÃO GRÁFICA: Alberto Gonçalves Veiga e Ricardo A. Nascimento

NEIL GAIMAN LUGAR NENHUM
Tradução: Juliana Lemos

Para Lenny Henry, meu amigo e colega, que tornou tudo possível, e para Merrilee Heifetz, minha amiga e agente, que sempre deixa tudo melhor.

NUNCA ESTIVE EM ST. JOHNS WOOD. NÃO OUSO IR ATÉ LÁ. Teria medo da noite infinita da floresta de abetos, medo de me deparar com uma taça vermelha de sangue e o bater de asas da Águia. — The Napoleon of Notting Hill, G. K. Chesterton If ever thou gavest hosen or shoon Then every night and all Sit thou down and put them on And Christ receive thy soul This aye night, this aye night Every night and all Fire and fleet and candlelight And Christ receive they soul If ever thou gavest meat or drink Then every night and all The fire shall never make thee shrink And Christ receive thy soul — The Lyke Wake Dirge1

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  Estrofes de “The Lyke Wake Dirge” (Balada ao Velar um Defun‐ to), uma tradicional canção folclórica inglesa que fala sobre a pas‐ sagem  da  alma  pelo  purgatório.  É  uma  advertência  para  que  os  vivos  sejam  generosos  com  os  pobres  e,  assim,  evitem  o  sofri‐ mento após a morte. Uma possível tradução: “Se já deste meias e  sapatos/Então  todas  as  noites/Senta‐te  e  calça‐os/E  Cristo  rece‐ berá tua alma/Nesta noite, nesta noite/E em todas as outras noi‐ tes/O calor do lar e a luz das velas/E Cristo receberá tua alma/Se já  deste  de  beber  ou  comer/Então  todas  as  noites/O  fogo  nunca  te  consumirá/E Cristo receberá tua alma”. (N. T.) 

PRÓLOGO
RICHARD MAYHEW NÃO ESTAVA SE DIVERTINDO MUITO NA NOITE anterior à sua viagem para Londres. Tinha começado bem. Ele gostou de ler os cartões de despedida e de ser abraçado por algumas jovens que conhecia, não desprovidas de atrativos. Gostou quando as pessoas o advertiram dos males e dos perigos de Londres, e de ter ganhado um presente, fruto de uma vaquinha feita pelos amigos: um guarda-chuva branco, com o mapa do metrô de Londres estampado. Gostou de tomar as primeiras garrafinhas de cerveja, mas com as seguintes descobriu que estava aproveitando bem menos, até ficar como estava agora, tremendo de frio e sentado na calçada em frente ao pub de uma cidadezinha na Escócia, comparando em sua cabeça as vantagens de estar ou não passando mal, sem se divertir nem um pouco. Dentro do pub, os amigos de Richard continuavam a celebrar sua despedida com um entusiasmo que, para ele, começava a parecer meio macabro. Estava sentado na calçada, segurando bem firme seu guarda-chuva fechado, e ficou pensando se ir para Londres seria mesmo uma boa idéia. — Melhor você tomar cuidado — alguém disse. — Eles vão te superar num piscar de olhos, ou até mesmo te passar pra trás, isso não me surpreenderia. Dois olhos penetrantes em um rosto narigudo e sujo o observavam. — Você está bem? — Sim, obrigado — respondeu. Richard parecia um

menino, com cabelos escuros, um pouco encaracolados, e grandes olhos castanho-claros. Tinha também aquela aparência meio desleixada de quem acabou de acordar, o que o tornava mais atraente para o sexo oposto, embora ele não entendesse nem acreditasse muito nisso. O rosto sujo adotou um semblante mais gentil. — Toma, coitadinho — disse ela, colocando uma moeda na mão de Richard. — Há quanto tempo você está na rua? — Eu não sou mendigo — explicou Richard, constrangido, tentando devolver a moeda à velha. — Por favor... tome o seu dinheiro de volta. Eu estou bem. Só saí para tomar um pouco de ar. Vou para Londres amanhã. Ela olhou para ele, desconfiada. Pegou de volta sua moeda e a fez desaparecer entre as camadas de casacos e xales que a envolviam. — Eu já fui pra Londres — confidenciou. — Me casei lá. Mas ele não prestava. Minha mãe sempre me disse pra não casar com alguém que eu mal conhecia, mas eu era jovem e bonita, embora não pareça hoje em dia, e segui meu coração. — Tenho certeza que sim — observou Richard. A sensação de que ia passar mal começou a desaparecer, devagar. — Não adiantou nada. Eu vivo na rua, então sei como é — comentou a velha. — Por isso achei que você vivesse aqui também. Está indo pra Londres pra quê? — Consegui um emprego lá — respondeu ele, orgulhoso. — Pra fazer o quê? — Hã... Na área de títulos e finanças. — Eu era dançarina — contou a velha, e fez uns passinhos estranhos na calçada, cantarolando para si mes-

ma, desafinada. Cambaleou de um lado para outro, como um peão que está deixando de girar, e finalmente parou, encarando Richard. — Estende a mão. Vou ler o teu destino. Ele obedeceu. Ela colocou sua velha mão sobre a dele e segurou firme. Piscou algumas vezes, como uma coruja que acabou de engolir um rato e está começando a achar que foi má idéia. — Você tem um longo caminho a percorrer... — disse, confusa. — Londres. — Não só Londres... — Ela fez uma pausa. — Pelo menos não a Londres que eu conheço. Uma chuva rala começou a cair. — Desculpa — disse ela. — Começa com portas. — Portas? Ela assentiu com a cabeça. A chuva engrossou, ressoando sobre os telhados e no asfalto. — Se eu fosse você, teria cuidado com portas. Richard se levantou, meio cambaleante. — Certo — disse, sem saber muito bem como receber aquela informação. — Terei. Obrigado. A porta do pub se abriu, e as luzes e o barulho vazaram para a rua: — Richard? Tá tudo bem? — Sim, tudo bem. Eu já vou. A velha já descia a rua com seus passos instáveis, na chuva intensa, molhando-se toda. Richard achou que precisava fazer algo, mas não tinha como lhe dar dinheiro. Correu atrás dela pela rua estreita, a chuva fria molhando seu rosto e seu cabelo. — Toma — disse. Remexeu com dificuldade o guarda-chuva, tentando achar o botão para abri-lo. Ou-

e a sensação de passar mal tinha sumido com aquela situação estranha. Richard ficou imaginando. certeza — retrucou ele. é a sua festa! Você tá perdendo a diversão toda. uma forma redonda e branca coberta pelos nomes das estações de Londres — Earl’s Court. — . Segurou firme o guarda-chuva quando uma rajada ameaçou levá-lo embora ou virá-lo do avesso. cada linha de uma cor. Marble Arch. — Tem sim. White City. mulheres bonitas e animais perigosos. Ela abraçou o cabo e quase se dobrou ao meio para enfrentar a tempestade. com um suspiro. — Mas nem sempre.. — Richard. meio bêbado. — Toma isso aqui. como se alguém tivesse colocado o botão de volume no máximo. — Você tem um bom coração. Angel. Oxford Circus. — Você nunca viu um pato molhado — respondeu. A porta do pub se abriu mais uma vez: uma explosão de barulho. e então surgiu um grande mapa branco da rede de metrôs de Londres. Às vezes isso já salva a pessoa. Outra pessoa lhe entregou uma grande dose de uísque.. Ele voltou para o pub. com palhaços. Gotas d’água de seu cabelo caíam dentro do copo.viu-se um clique. se havia mesmo um circo em Oxford Circus: um circo de verdade. Victoria. seu otário. E foi desaparecendo na noite. Vai te aquecer. seja lá onde ela estiver — balançou a cabeça. Blackfriars. A velha pegou o guarda-chuva e sorriu como agradecimento. com as estações indicadas. — Você tá parecendo um pato molhado — disse alguém. Você sabe que não tem uísque de verdade em Londres.

Sua mãe preparara um pequeno bolo de nozes e uma garrafa térmica com chá para a viagem. Depois. onde nada fazia. ele só conseguia se lembrar da sensação de estar deixando um lugar pequeno e racional — um lugar onde tudo fazia sentido — e indo para outro. . como se fosse um pequeno besouro redondo. e de uma forma branca. de vomitar sem parar num bueiro transbordando de água. Pancras Station.Tem de tudo em Londres. e a noite ficou embaçada e fragmentada. Richard virou a bebida. Alguém trouxe mais uma. cheia de símbolos de cores estranhas. velho e grande. nas primeiras horas do dia. sentindo-se um lixo. pegou o trem para a viagem de seis horas que o levaria até as estranhas torres e arcos góticos da St. E Richard Mayhew foi para Londres. afastando-se dele na chuva. Na manhã seguinte.

encontrou um esconderijo: uma pequena toca de pedra perdida no mundo.UM ELA CORRIA HAVIA JÁ QUATRO DIAS. um canário. *** O senhor Croup havia contratado Ross no último Mercado Flutuante. mais como um canário que é levado para uma mina de carvão. O senhor Vandemar assentiu com a cabeça. — Ele passou a mão em seu cabelo ruivo e liso e continuou: — Não. Sentia fome e estava exausta. Ele era enorme — quase tão grande quanto o senhor Vandemar —. O cansaço era maior do que seu corpo conseguia suportar. E então dormiu. eu estava pensando em termos metafóricos. extremamente sujo. e cada nova porta se mostrava mais difícil de abrir que a anterior. compreendendo com lentidão: sim. Finalmente. Isso divertiu o senhor Croup e o . — Ele canta? — Duvido. quase careca e falava muito pouco. meu caro amigo. UMA FUGA SEM RUMO E DESORDENADA. De resto. através de passagens e túneis. onde ficaria segura (ou assim esperava). — Pense nele como um canário — disse o senhor Croup ao senhor Vandemar. embora tivesse feito questão de lhes dizer que gostava de matar e que o fazia bem. que acontecera na Abadia de Westminster. o senhor Ross não se parecia em nada com um canário. Duvido muitíssimo.

— Não fique assim — consolou o senhor Croup. — Sempre há mais ratos. Além disso. Ele foi até ela e segurou-a pelo punho. com sua camiseta imunda e seus jeans enlameados. — Rabudo. Um vulto na escuridão do túnel. enquanto a vida se esvaía. — Eis um rato que não é lá muito rabudo — disse o senhor Croup.senhor Vandemar. Existem quatro dicas simples para que uma pessoa consiga discernir o senhor Croup do senhor Vandemar.. Quarta: o senhor Croup gosta de palavras e o senhor Vandemar está sempre faminto. — Deixe disso! O senhor Vandemar guardou a faca. Entendeu? O senhor Vandemar retirou o rato da lâmina e começou a mastigá-lo. entraram atrás dele. A faca do senhor Vandemar estava em sua mão e em seguida não estava mais: tremulava levemente a quase dez metros de distância. O senhor Ross entrou primeiro. eles não são nem um pouco parecidos. E a- . começando pela cabeça. Primeira: o senhor Vandemar é duas cabeças e meia mais alto que o senhor Croup. Croup e Vandemar. pensativo.. abrindo e fechando a boca debilmente.. Mas ele era o canário e não sabia. rato. Vandemar esmagou seu crânio com o polegar e o indicador. Segunda: o senhor Croup tem olhos cor de porcelana azul desbotada. Havia um rato cinzento espetado na lâmina. Ele riu de sua própria piada. em um tom de encorajamento. ao passo que os olhos do senhor Vandemar são castanhos. trajando elegantes ternos pretos.. e o senhor Croup não usa nenhuma jóia aparente. O senhor Vandemar não respondeu. O senhor Croup deu um tapa na mão dele e fez o rato cair. Terceira: o senhor Vandemar fez os anéis que usa na mão direita com os crânios de quatro corvos. meio chateado.

até mesmo enegrecido. restaurantes e residências. de monumentos ignorados e palácios que em nada lembravam palácios. Nela. uma cidade de centenas de distritos com nomes estranhos e estranhamente distintos — Crouch End. ônibus vermelhos e grandes táxis pretos. que se alimentava de turistas e precisava deles tanto como os desprezava. por causa das fotos que havia visto. Earl’s Court. escritórios. Gente para machucar. definitivamente incompreensível. Ficou surpreso ao descobrir que Londres era cheia de cores. a dar-lhe um resquício de ordenação. achara-a grande. depois de 500 anos de alargamentos intermitentes das avenidas e tentativas frustradas de encontrar um meio-termo entre as necessidades do tráfego (seja ele com carroças ou. costumes e tipos. sem constrangimento ou respeito. Ele a imaginara um lugar cinzento. mais recentemente. alegre. *** Depois de três anos em Londres. Era uma cidade de tijolos vermelhos e pedras brancas. Era uma cidade de lojas. Temos muita coisa a fazer. uma cidade repleta de pessoas de todas as raças. de parques e igrejas. motorizado) e as dos pedestres.gora vamos indo. uma cidade suja. caixas de correios de um vermelho vivo e parques e cemitérios com gramados verdes. Chalk Farm. estranha. a cidade na qual a velocidade média de transporte não havia aumentado em 300 anos. Richard ainda era o mesmo. aquela elegante exposição topográfica multicolorida. Marble Arch. o que era muito antigo e o que era estranhamente novo se esbarravam. ele se deu . Ao chegar a Londres. Aos poucos. embora sua visão da cidade tivesse mudado. cheia de problemas. com apenas o mapa do metrô.

a cidade de Southwark. Era um bom lugar. só que mais útil). e um preço que todos . Dois mil anos antes disso. Londres era uma pequena vila celta à margem norte do rio Tâmisa. Battersea e Lambeth ao sul. mais ou menos mil anos depois. orgulhoso de seu raciocínio. uma ótima cidade. mas que nada tinha a ver com o formato da cidade acima do subsolo. no leste. onde os romanos se estabeleceram. ao tentar explicar a semelhança entre ambos para um grupo de estranhos perplexos numa festa. mas há um preço a pagar pelos bons lugares. indo de Aldgate. até. por um processo de osmose e “conhecimento de fundo” (que é como o ruído de fundo. e depois. deixando para trás nada além de seus nomes. as florestas e o pântano desaparecendo devagar sob a cidade que florescia.conta de que o mapa era uma útil fantasia que tornava a vida mais fácil. com os campos. alcançou a pequena Cidade Real de Westminster a oeste e. Camden e Islington ao norte. do outro lado do Tâmisa. Ela crescera com lentidão até que.5 km2. Hammersmith e Shepherd’s Bush a oeste. decidiu que no futuro deixaria o comentário político de lado. do outro lado do rio. assim que a London Bridge fora construída. no oeste. absorvendo todas elas — como uma poça de mercúrio absorve gotículas menores da substância —. agora lar das instituições financeiras de Londres. Era o mesmo que pertencer a um partido político. E foi lá onde tudo começou. um pequeno distrito. Encontrou outras vilas e vilarejos. Continuou devagar. o que ficou mais rápido quando se deu conta de que a verdadeira Londres não tinha mais que 2. como Whitechapel e Deptford a leste. Continuou a crescer. a Fleet Street e os tribunais de Old Bailey. pensou ele. Londres cresceu até se tornar uma coisa enorme e contraditória. a compreender a cidade.

e aí tentou desculpar-se em francês por ter que se desculpar em inglês. — Eu devia ter pedido uma torta de cereja. — Um desses Tintorettos aí seria mais barato. Tentou desculpar-se em francês. quando sua tia Maude veio visitar a cidade num fim de semana e Richard. não há nenhum Tintoretto na Tate. — Não precisa exagerar — respondeu Jessica. em fins de semana que do contrário seriam normais. até perceber que Jessica era a mais inglesa das pessoas. que os grandes tesouros da arte mundial acabam parecendo iguais depois de um tempo.os bons lugares devem pagar. dois anos antes. Ele a descobriu no Louvre. teve que ser seu guia). em uma viagem de fim de semana até Paris. — Aliás. Ele acabou tendo que acompanhá-la. de grande importância histórica. mas desistiu e começou a se desculpar em inglês. ela . Mas Jessica mudou tudo isso. Richard percebeu que não ligava mais para a cidade. Aí eles poderiam comprar mais um Van Gogh. quando tentava achar seus colegas de escritório. Richard conheceu Jessica na França. e que está quase além da compreensão humana o preço que os cafés dos museus têm a cara-de-pau de cobrar por uma fatia de bolo e uma xícara de chá. A essa altura. em tom alegre. que admirava um diamante enorme. Dera alguns passos para trás enquanto observava uma escultura imensa e acabou esbarrando em Jessica. Depois de um tempo. a lugares como a National Gallery e a Tate Gallery. contrariado. Seu chá e sua bomba de chocolate — disse ele. Passou a sentir orgulho de não ter visitado nenhum de seus pontos turísticos (com exceção da Torre de Londres. — Tome. onde descobriu que andar demais em museus deixa os pés doloridos. língua que não falava. que tinham formado o grupo e organizado a viagem.

Richard ficou admirado com ela. ela escolhia as roupas que ele deveria usar — e ele as usava durante a semana. na Corporate Accounts. quando não iam a galerias de arte ou a museus. — Tenho medo dela. quase sempre engraçada e sem dúvida tinha um futuro. Richard nunca conseguiu convencer Jessica de que não era freqüentador de galerias de arte. Richard a acompanhava em seus passeios a lojas enormes e ameaçadoras. que ficava a uma pequena distância a pé (e uma distância ainda menor de táxi) de seu valioso apartamento em Kensington.já tinha decidido que ele. e. E então ela lhe deu livros com títulos como Vestindo-se para o Sucesso e 125 Hábitos dos Homens de Sucesso. Richard seguia Jessica enquanto ela fazia compras — em geral. Exatamente um ano depois que se conheceram. para se desculpar. Richard agradecia. como a Harrods e a Harvey Nichols. bom. deveria comprar-lhe um sanduíche francês muito caro e um suco de maçã com gás que custava os olhos da cara. Ela é . Jessica viu em Richard um enorme potencial — algo que. — Por que você namora essa garota? — perguntou Gary. sempre com a intenção de lê-los. além de coisas de supermercado. e outros que ensinavam a administrar os negócios como uma campanha militar. desde jóias a livros. se fosse domado pela mulher certa. Richard balançou a cabeça: — É porque você não a conhece de verdade. um ano e meio depois. ela lhe disse que havia chegado a hora de comprar um anel de noivado. onde ela encontrava de tudo. faria dele um grande partido. murmurava Jessica para si mesma. no opulento bairro de Knightsbridge. Na seção de moda masculina da Harvey Nichols. Ah. Nos fins de semana. que era bonita. se ele fosse um pouco mais determinado. foi aí que tudo começou.

Gary pôs de volta sobre a mesa o trasgo de plástico que tinha pegado. Na verdade. Havia um post-it amarelo grudado na foto. Era. Richard havia percebido que os acontecimentos são seres covardes. em uma vã tentativa de dar um pouco mais de personalidade à sua mesa. colocou-o sobre o monitor do computador. como Jessica tinha lhe dito pelo menos umas dez vezes no último mês. pulando juntos sobre alguém ao mesmo tempo. — Nunca tratamos desse assunto — contou Richard. Era sexta-feira à tarde. Na época. Ele achara um na calçada em frente ao escritório e. Eles nunca acontecem sozinhos: vêm numa matilha.um doce. como a coleção de anjos do senhor Stockton. chegaram outros trasgos. Nos meses seguintes. essa sexta-feira em particular. Mas haviam tratado do assunto. O boneco tinha cabelo laranja fosforescente e uma expressão meio confusa. — Eu nem acredito que ela deixe você ter esses bonequinhos. sim. ao lado dos telefones e do porta-retrato com a foto de Jessica. dados por colegas que perceberam o gosto de Richard pelas feias criaturinhas. Então sem dúvida foi um grande azar que ele tivesse se esquecido do compromisso. Richard não colecionava trasgos. como se estivesse perdido. apesar do . Vejamos. por exemplo. ela organizava uma exposição itinerante para ele e chegou à conclusão de que os grandes homens sempre colecionavam alguma coisa. Ele pegou os presentes e os dispôs estrategicamente em volta da mesa. Jessica convenceu-se de que a coleção de trasgos de Richard era um sinal saudável de excentricidade. pegando uma das criaturas da mesa. o dia mais importante da vida dele.

milagre dos milagres. senhor. Ele ligou o viva-voz. Olhou para a fotografia de Jessica em busca de uma luz. lendo o post-it ao mesmo tempo. que já tinha passado do prazo e ocupava grande parte de sua atenção.. Às sete. Richard verificou mais uma fileira de números e percebeu que a página 17 tinha desaparecido. Além disso.. aqui é a Jessica. se ninguém o perturbasse. — Mais cinco minutinhos. Dick. Jess. Não. havia o relatório Wandsworth. e a luz que surgiu tinha o formato de um post-it amarelo. “a enfermeira do chefe” e tinha aquele ar de pura eficiência. no Ma Maison Italiano. Ele sabia que. o telefone não tocasse. Você não se esqueceu. Richard. . Está quase pronto. mas o telefone tocou de novo. Sylvia. grudado à testa da namorada. O telefone tocou. um segundo depois. — Desculpe. Ele olhou para o relógio. Ele desligou o viva-voz. né? Me esqueci? Ele tentou lembrar o que poderia ter esquecido. não esqueci. — Depois do que aconteceu da última vez? Não. — Richard? Fala comigo. — Alô? Richard? O diretor precisa saber quando o relatório vai ficar pronto. — Ela fez uma pausa. Depois viu que havia outra página faltando.. Não “Jess”.. então a imprimiu novamente. Só preciso colocar a projeção do Financeiro.post-it que havia deixado na porta da geladeira em casa e do outro colado na fotografia de Jessica em sua mesa. — Richard — disse a voz —. — Obrigada. Vou descer para pegar com você. como ela mesma gostava de explicar. Te encontro lá? — Jessica. Ele pegou o telefone. se. Sylvia era.

Jess. era tão divertido quanto andar em qualquer uma das tais galerias até os pés doerem). — Eu te encontro na sua casa — disse Jessica. vamos beber? Lembra? Você disse que a gente podia falar sobre a conta Merstham. — Jessica. Ele havia escrito o lembrete para si mesmo. espera só um segundinho. semanas antes. Sylvia agora estava de pé a seu lado.. na opinião dele. em tom solene. — Você confirmou mesmo a nossa reserva. Mas os acontecimentos sempre vêm era matilha. — Certo.. Olha. mas havia tantas coisas a fazer.. Gary se sentava a algumas mesas de distância de Richard. Dick? — Quase pronto. — E o relatório Wandsworth. Ele acenou com a mão e continuou: — E aí. e desligou o telefone. olha.. E tinha feito a reserva. Sylvia. Richard pensou em dizer que qualquer pessoa confundiria a National Gallery com a National Portrait Gallery. — Oi.Você consegue se perder no seu próprio quintal. — Podemos ir para lá a pé. Claro que está de pé. era quase certeza. eu. Jessica. Gary. Aqui é o Gary. e sabia que daria tempo. juntos. Richard atendeu a outra linha. né? — Confirmei — mentiu ele. Ele sempre pensava em confirmar.. Desculpe. Dick. Havia um número de telefone no rodapé do post-it. tá? Ele terminou de teclar os números e soltou um suspiro de alívio quando alguém respondeu do outro lado da . — Ótimo — disse ela. mas se segurou. Richard desligou. e que não era ela quem passara o dia inteiro tomando chuva (o que. Mas não havia confirmado. A outra linha do telefone começou a tocar. — Larga esse telefone..

Se o papa. E quanto a reservar uma mesa... A pessoa já tinha desligado. mas o tom de voz usado por quem deu a informação. Eu sei que deveria ter ligado antes. Era impossível achar uma mesa para hoje. Se fiz. Pois não? — Por favor.. — Richard? O chefe está esperando. pelo jeito. sua irmãzinha. — Você acha que eu teria chance de conseguir a mesa se ligasse de volta e oferecesse dinheiro? *** No sonho. Acho que fiz reserva. Uma mesa para hoje sem dúvida precisaria ter sido reservada muito tempo atrás — talvez. Nem de Bartram (o sobrenome de Jessica). Sua mãe fez que não com a cabeça: não. No sonho. sua mãe. Door riu e disse que já sabia. eles não tinham nenhuma reserva para aquela noite em nome de Mayhew.. E se não fiz. Não. com aquele escárnio bretão típico. ela corria perigo naquele instante.linha: — Ma Maison. seu irmão. Todos tão pálidos. Estavam de pé no salão. será que você não poderia. uma mesa para três. Não foram as palavras que Richard achou desagradáveis.. gostaria de saber se posso reservar agora. pelos pais de Richard. por favor.. não. estou confirmando. o primeiro-ministro e o presidente da França chegassem sem reserva confirmada. tão sisudos. São só três pessoas. olhando para ela. . todos estavam juntos dentro da casa — seus pais. Nem de Stockton. para hoje à noite. boa tarde. tocou seu rosto e disse que ela corria perigo. — Mas é para o chefe da minha noiva. até mesmo eles seriam postos para fora. Portia. por favor.

pensou. Será que ele consegue ouvir meu coração batendo? Os passos se aproximaram.. ora — disse uma voz na escuridão. sob uma pilha de trapos e jornais. enquanto engasgava e chorava. ou tanto desespero para fazer aquilo. Mas agora estava a salvo. Ela prendeu a respiração. Os passos pararam. Abriu os olhos. Suas últimas energias se foram. e a lâmina da faca. Ela sabia que estava bem escondida. cortou-lhe o braço. ela nunca pensara que conseguiria. senhor Vandemar. O ombro começou a pulsar. recuperou o fôlego. que deu um sorriso perverso. — Ora. — Nem eu.Agora. Ela rolou e se contorceu. mas tinha medo. Uma chama se acendeu e tremu- . E então pensou. Estava esgotada. Talvez ele não me veja. Arrastando-se. Ouviu passos sobre o chão de pedra. e ela olhou para cima: um rosto inexpressivo. A porta se abria. pronta para atingir seu peito. — Ela sobreviveu ao senhor Ross. senhor Croup — respondeu uma voz monótona à sua esquerda. A voz escorria. ou tanto medo. Talvez vá embora. Do lado de fora. completamente sem pêlos. Door sabia o que precisava fazer. Nunca achou que pudesse sentir tanta coragem. à sua direita. Sua mão estava molhada. desesperada: Estou com fome. A faca. Até aquele momento. ora. escorregadia. Ele arfou e caiu sobre ela. apoiada na parede. havia um túnel estreito e baixo. bem devagarinho. pensou. ela saiu de baixo do homem e fugiu aos tropeços daquele lugar. Ali. Uma mão puxou as coisas que a cobriam. Soava gotejante e desagradável. morna. Mas ela ergueu uma mão até o peito dele e abriu. Eu nunca imaginaria uma coisa dessas. E talvez o intruso não quisesse lhe fazer mal. como muco cinzento..

sim. — Gary. se desorganização virasse esporte olímpico. E correu. ele poderia competir pela Inglaterra. Enquanto saía. já são seis e meia. — Seja como for — continuou o senhor Croup. — E como vai o Monstro da Lagoa Negra? — Na verdade. canetas. Gary repetiu: — Dick.lou. com a mão direita sobre o ombro esquerdo.. Só mais um minutinho. *** — Dick? Richard fez um sinal com a mão para que a pessoa não o interrompesse. ela continua sendo o amor da minha vida. então? Richard parou um instante. planilhas e trasgos caídos sobre a pasta de Richard. Gary. A vida já estava quase de volta aos eixos. não sobreviverá a nós. Ele a fechou e saiu correndo. Desceram correndo pela escada.. Vamos jantar com o chefe dela. Obrigado pela aten- . E. Gary o seguia. Jessica é de Ilford. — O senhor Stockton? Da Stocktons? O senhor Stockton em pessoa? Richard assentiu com a cabeça. desculpe. mentindo. Door lhe deu uma joelhada bem forte na virilha e pulou para a frente. Pensou que. — Você vai se divertir — disse Gary. agora. Mancada minha. pegou o casaco. Preciso ver a Jessica hoje. com os olhos brilhando na escuridão —. — A gente vai tomar aquela. — Quê? Havia papéis.

segunda está ótimo. Ele vigiava aquelas portas com um cuidado que beirava a loucura. e mal conseguiu sobreviver à noite em que os computadores de um andar inteiro tiveram que ser enviados para cima. né? — Desculpe. correndo. — Você precisa assinar aqui. vaso de palmeira ou tapete. — Era só o que me faltava — resmungou Richard. Corria o boato de que tinha uma coleção enciclopédica de pornografia light. o senhor Croup se ajoelhava e procurava a mancha . Quando chegavam a uma encruzilhada. A gente se vê. Os dois chegaram à entrada. O senhor Figgis tinha um leve cheiro de ungüento. Pode ser na segunda? — Claro. Atrás dela vinham calmamente o senhor Croup e o senhor Vandemar. *** O subsolo se dividia cada vez mais. Pressionou o botão sob a mesa e a porta se abriu. senhor Mayhew — disse o senhor Figgis. e Richard correu para a porta automática. — Mesmo. — Não vamos mais beber. segurança do prédio. Ela escolhia o caminho a esmo. tropeçando. O senhor Figgis checou as assinaturas e ficou satisfeito por eles não carregarem consigo nenhum computador. esgueirando-se.ção. que se recusava a abrir. tão serenos quanto dois vitorianos ilustres visitando a grande exposição de 1851 no Crystal Palace. andando abaixada pelos túneis. Gary. — Essas portas! — reclamou Richard. — Já passa das seis. junto com dois vasos de palmeiras e o tapete Axminster do diretor.

Tinham todo o tempo do mundo. Sempre esperava por ele ali. Agiam como hienas. Jessica era muito bonita. A pasta voou pela sala e caiu sobre o sofá. Richard. por ruas que ele nunca vira antes. deixou uma gorjeta e sua pasta. Havia sempre a possibilidade de achar uma cueca em algum canto. tagarelando (Richard descobrira que todos os taxistas de Londres desembestavam a falar se houvesse alguém no carro que respirasse e falasse inglês) sobre os problemas do trânsito da cidade. *** Por milagre. — Ah. Ela não gostava do apartamento de Richard: era feminina demais para o lugar. Ele pegou as chaves do bolso e as colocou estrategicamente sobre a mesinha da entrada. — Richard? É a Jessica. Pegou um táxi preto dirigido por um homem idoso. Estou descendo. que o levou para casa por uma rota incomum. batendo a porta atrás de si. pegou de volta a pasta e subiu correndo as escadas de seu apartamento. Voou para o banheiro. tanto que às vezes Richard a . sim. isso sem falar nos pedaços de pasta de dente endurecida sobre a pia do banheiro.de sangue cujo rastro seguiriam. Eles podiam esperar. como lidar com o crime e os delicados assuntos políticos do dia. Jessica estava esperando lá embaixo. correu para atender. Richard desceu do carro. não era o tipo de lugar que ela apreciava. na escada. Richard estava com sorte. O interfone tocou. Espero que já esteja pronto. cansando a presa. Já chegou tirando as roupas. Pegou um casaco e saiu apressado. para não esquecê-las. Conseguiu pará-lo antes que saísse rua afora. já quase todo dentro de seu melhor terno. Não.

no luxuoso bairro de Kensington. senhor Croup. em uma cama de bronze com lençóis de linho (os pais de Jessica diziam que edredons eram decadentes) —. senhor Vandemar. Richard? — Nada. Um clique: o som de um canivete se abrindo. *** — O que você está fazendo. Ela está ficando mais lenta. né? — Não. uma entidade . e ambos acreditavam que aquilo era verdade. — Bastante sangue. senhor V. daqui a pouco. tenha em mente que ele não é apenas um homem muito importante. Um som vazio. ela o abraçava bem forte no escuro. Jessica. — Bom. e seus longos cachos castanhos caíam sobre o peito dele. Ela sussurrava o quanto o amava. por si só. úmido. senhor C. escuro. pra ficar comigo? À noite. Jessica. e ele dizia que a amava e que queria sempre ficar com ela. — Ela deve estar perdendo muito sangue. solitário.olhava e pensava o que deu nela. — Falta pouco. — Você não esqueceu as chaves de novo. quando você conhecer o senhor Stockton. — Bem mais lenta. Um sangue belo. Richard parou de bater nos bolsos do casaco e enfiou as mãos neles. *** — Puxa vida. depois do sexo — que acontecia no apartamento dela. Ele é.

Jessica viu as horas em seu relógio e começou a andar mais rápido. bastava olhar para ele. Richard. Nem era preciso uma placa. São tão degradantes. que começava a exalar uma aura de algo que. escuros. Richard? — Mal posso esperar — repetiu. A testa de Jessica se enrugou e ela o abraçou por um instante: — Ah. Richard. vamos rápido — pediu ela. Você sabe disso. — Não podemos deixá-lo esperando. estava pendurada uma placa escrita a mão. — Mal posso esperar — suspirou ele. — Olha. — Dá um trocado? Era um homem sentado na entrada de uma loja. presa a um barbante desgastado. É vital que um futuro marido deixe uma boa imagem. a gente não tem tempo para isso — disse Jessica. Todos que tivessem olhos para ler saberiam que ele não tinha onde morar e estava com fome. em uma mulher inferior. Richard. que ficava apoiada em seu peito. Ele sabia. os olhos eram fundos. procurou uma moeda. né? Richard assentiu com a cabeça. — Por favor. Tinha uma barba grisalha e amarelada. — Não mesmo. já com a mão no bolso. que fazia doações e era ética em seus investimentos.empresarial. — Não me chame assim. eu quero que você cause uma boa impressão como meu noivo. Richard jogou escondido uma moeda de uma libra na direção do homem. agora com entusiasmo. que a pegou com sua mão . Detesto apelidos. — Como assim. Jess. Eu te amo de verdade. pareceria nervosismo. No seu pescoço. — Richard.

. sentia-se fraca. mas estava tão cansada.. Deviam estar mais perto do que ela tinha pensado. Algum lugar. acima dela. De toda a dor e medo que sentia no fundo da alma.. com vontade: Alguém. em silêncio. próxima. sua mão esquerda. dormente. Não tinha para onde ir.. a menina extraiu o resto de força que tinha. aquilo não a faria parar. — O chefe ficará encantado.. — Não houve nenhum problema com a reserva. Estava cansada. Tinha vontade de parar. Em circunstâncias normais.. Quando começou a desmaiar.suja. não tinha tempo. tão faminta. — Creio estar vendo uma coisinha que. certo? — perguntou ela. Richard. senhor Croup — disse a voz monótona. que não sabia mentir muito bem quando lhe faziam uma pergunta direta. — . ao Arco. e então pensou. sentindo a aspereza dos tijolos contra o rosto.. sentia tanta dor. Mesmo que seja a última porta que eu abra. deitar e dormir mil anos. — Pela minha negra alma. exausta. *** Ela fizera a escolha errada — o corredor terminava numa parede. Qualquer lugar. Seu braço estava frio. senhor Vandemar! O senhor está vendo o mesmo que eu? — A voz era suave. soluçava. chorava... Seguro. esgotada. pediu... rogando ao Templo. Não podia continuar e o mundo parecia cada vez mais distante.. respondeu: — Hã. Apoiou-se na parede. tentou abrir uma porta.. .estará mortinha daqui a pouco. Resfolegava..

— Olhe. Jessica suspirou. caiu no concreto. Ela andava o mais rápido que seus sapatos de salto alto permitiam. Você disse que era uma mesa para o senhor Stockton? — Sim. Jessica lhe deu um puxão para que não parasse. Quando ele fizer uma piada. nem discorde dele. — Aposto que vão nos colocar perto da cozinha. enquanto uma porta se abriu no muro. — É sério que precisou prometer cinqüenta libras a mais para conseguir uma mesa? Você é um idiota. e ele se apressava para a acompanhar. quando você estiver conversando com o senhor Stockton. Richard estremeceu e parou de andar. Ele não gosta de ser contrariado. cambaleando por um longo e terrível momento. alguns metros à frente deles. As luzes da rua e das fachadas das lojas iluminavam o caminho. ou da porta. Se estiver em dúvida se é ou não . E disseram que todas as outras mesas estavam reservadas.No momento em que a escuridão a engoliu. pôde ouvir a voz distante do senhor Croup: “Com mil demônios!”. envoltos por um muro alto de tijolos. Por fim. de braços dados. você ri. Alguém saiu por lá e ficou em pé. Passaram por alguns edifícios grandes e imponentes. *** Jessica e Richard seguiam pela calçada. Seus passos ecoavam no muro alto de tijolos. Continuou a puxá-lo. em direção ao restaurante. — Eles perderam a minha reserva. não o interrompa de jeito nenhum. Richard — disse Jessica. seus olhos escuros faiscando de raiva. abandonados e solitários.

tenho certeza. E completou. envolta em roupas largas. tem razão. tá.. apoiando-se em um dos joelhos. Era mesmo uma moça. Depois que dormir bastante. está ferida. nervosa e confusa.. Jessica se virou para ele. vou bater o dedo de leve na mesa. Se eu fizer isso. como se fosse um obstáculo. — Continuando: eu falei para o senhor Stockton que nós. Ela? Richard olhou. ela vai ficar bem. — Ela está ferida. — Richard? O que você está fazendo? — Ela não está bêbada. na verdade. radiante: — Já sei! Se ele fizer uma piada. hum. Richard... — Jessica? Ele não conseguia acreditar que ela simplesmente ignorava a pessoa caída à sua frente. A pessoa estava com o rosto para baixo. eles logo querem o braço. — Quê? Jessica não parecia feliz com a interrupção de seu devaneio. — Ah. Richard parou. Richard se abaixou. você sabe como é esse povo: se você dá a mão.. olhe para mim.. Eles chegaram até a pessoa caída na calçada. — Olhou para seus próprios dedos. ele pode achar que estou entediada — disse ela. — Nós vamos nos atrasar. vou tocar o lóbulo da orelha. .uma piada. Eu. — E está sangrando. Jessica pegou o braço de Richard e o puxou para perto dela. — Olha! Ele apontou para a calçada. — Jessica? — É. Jessica passou por cima do corpo amarfanhado. Todos eles têm casa.

Ele perguntou mais uma vez: — Por que você não quer ir para um hospital? Mas dessa vez não houve resposta. me ajude — sussurrou a menina. Com voz fraca. Jess. — Vou levá-la para casa. — Richard. Em seguida. — Quando você chamar a ambulância.Jessica olhou para a moça deitada na calçada. muito brancos no rosto coberto por sujeira e sangue. — Richard! — gritou ela. — Ela está ferida — repetia ele. Eles vão me achar. e aí vamos nos atrasar. abrandou a voz um pouco e resolveu fazer um acordo. Vai. Me leve pra algum lugar seguro. nós vamos chegar tarde. Richard? O que você está fazendo? Ele tinha pegado a garota no colo. em tom de ameaça. sem nenhuma entrada ou saída. Por favor. Voltou os olhos para o corpo imóvel no chão e perguntou: — Por que não um hospital? — Por favor. Não posso deixá-la . aninhando-a nos braços. Outra pessoa vai ajudá-la. Talvez eles queiram que você preste depoimento ou coisa do tipo. O rosto da moça estava sujo. apenas. mas o muro de tijolos estava intacto. não diga seu nome. Richard não tinha prioridades. rápido! De repente os olhos da menina se abriram. — Então ligue para a emergência e chame uma ambulância. Ficou surpreso ao perceber como era leve. Outra pessoa vai aparecer. as roupas. Ele tentou ver de onde ela tinha surgido.. fechando os olhos. — Mas você está sangrando — respondeu Richard. por favor. Prioridades. Seu rosto tinha uma expressão que Jessica nunca vira antes. ela disse: — Pro hospital não. molhadas de sangue..

Mas Richard apenas colocava um pé à frente do outro e. — Richard Oliver Mayhew — disse Jessica. A menina levou uma mão suja até a porta. que ele estava arruinando seu único terno decente. Diga ao senhor Stockton que sinto muitíssimo. que ele tinha irritado Jessica de verdade. Estou avisando. — Ponha essa garota no chão e volte aqui agora mesmo. Ele não tinha nenhum controle sobre aquilo. Ele sentiu o sangue morno e pegajoso ensopando sua camisa. já tinha chegado ao andar térreo de seu prédio. mas era uma emergência. Depois de certo tempo.. ignorando os olhares das outras pessoas. e ela se abriu. de pé na calçada. que ele teria que dormir no sofá aquela noite. que a menina cheirava muito mal. continuava a andar. friamente. ou uma ambulância. alguém — um Richard Mayhew normal e sensato — dizia-lhe o quanto estava sendo ridículo.aqui. Foi embora. Tenho certeza de que ele vai entender.. Ela ficou lá. Subiu a escada e estava à porta de seu apartamento. lá dentro. deixando Jessica para trás. que deveria apenas ter chamado a polícia. levando a menina para dentro e batendo a porta atrás de si com o pé. na parte sensata de seu cérebro. Às vezes. *** Richard não parou para pensar em momento algum. Colocou-a . Em algum lugar. que era perigoso levantar uma pessoa ferida.. com câibra nos braços e dores nas costas. os olhos cheios d’água. quando se deu conta de que havia deixado as chaves na mesa da sala. ponderou. Ou nosso noivado acaba neste instante.. não há alternativa. pensou Richard. Nunca pensei que fosse ficar feliz ao perceber que não tinha fechado a casa direito.

.. Está me ouvindo? Os olhos dela se abriram. — Eu vou ficar bem. Só preciso dormir.. Richard tirou o casaco de couro que ela usava. e ficou pensando que diabo havia feito. fechando a porta atrás de si. Com a sanidade voltando. — Mas o seu braço. o seu ombro. que ia até o ombro. vou chamar um médico. Suas pálpebras estavam fechadas. Ela parecia semiconsciente. Ele recuperou o fôlego e disse.. Amanhã. Richard pegou um velho cachecol em seu armário e o amarrou bem apertado sobre o braço e o ombro dela — não queria que ela sangrasse até morrer em sua cama antes de chamar um médico. Não está tão ruim quanto parece.. então — concordou Richard. com voz calma: — Olha. Mas ela tinha adormecido.. grandes e assustados. Nada de médico. em frente à TV. — Não. Acho que tudo bem. — Hum. Sentou-se no sofá. mas trêmulas. . perguntou: — Olha. Sua camisa estava ensopada de sangue. Na parte superior do braço havia um corte comprido. por favor! Eu vou ficar bem. Saiu do quarto na ponta dos pés... Por favor? Ela falava quase em um sussurro. será que você pode me dizer.sobre a cama.

de um boi. mas só consegue respirar lama. mas já é tarde demais: sente as presas afiadas rasgarem seu flanco. Ele tenta gritar. e a TV. .. água. Correm pelo esgoto.. Parece um tipo de javali. as unhas são quase garras. e mais expõe a escuridão do que a dissipa. Ele vira uma esquina e vê o animal à sua espera. olha para sua própria mão e percebe que não é sua mão: seu braço está coberto por pêlos escuros. a luz. Segurando-a. embora não consiga ver o rosto delas. que vai ficando vermelha com as espirais do sangue sufocante. e desligou a TV.DOIS ELE ESTÁ EM ALGUM TALVEZ NUM TÚNEL OU NO ESGOTO. ofegante. ele pensa. LUGAR NO SUBSOLO: A luz é trêmula. Há outras pessoas caminhando a seu lado. Richard se sentou no sofá. O animal corre para atacá-lo. muito nítidas na escuridão. Tem o tamanho de um touro. seu pêlo está arrepiado. que tinha escorregado para atrás dele durante a noite. Preenche todo o espaço do canal do esgoto: sua imensa cabeça está abaixada. Ele não está só. Sente que caiu de rosto na água. mas se dá conta de que nenhum javali podia ser tão grande. por causa da luz pálida que entrava pelas frestas. e enquanto isso ele levanta sua lança. de um tigre. acordar. Gotas de água caem devagar pelo ar. As cortinas ainda estavam fechadas. Procurou no sofá o controle remoto. sangue. — Pesadelo? — perguntou a moça. só consegue sentir dor. acesa. mas ele sabia. é possível ver sua respiração quente naquele ar frio. Ele joga a lança. faz uma pausa que parece durar cem anos. O animal o olha. sente sua vida se esvair na lama. que já era de manhã. pisando na água lamacenta e suja. ligada. É enorme.

de diferentes estilos. Esfregando os olhos. os ônibus e as poucas lojas lá embaixo — uma padaria. Little Comden Street. em voz baixa. envolto em sangue ressecado. quê? Ela olhou em volta. Ela tinha aberto as cortinas e piscava à luz fria da manhã.. — Sim.. A menina de rua não dizia nada. veludo sujo. Para Richard.— É.. Em cima do quê? perguntou-se. livrou-se do que restava de sono e averiguou seu próprio estado: ficou feliz em perceber que pelo menos tirara os sapatos e o paletó antes de adormecer. Vestia várias roupas. Ela não parecia bem: seu corpo pálido e pequeno estava imundo. Seus cabelos curtos estavam emporcalhados. — Estou na Londres-de-Cima — disse ela. rendas enlameadas. — Acho que você entrou em . — Você acordou — disse Richard. Mais ou menos — respondeu. uma por cima da outra — peças estranhas. A frente de sua camisa estava coberta com sangue ressecado e sujeira. rasgões e buracos através dos quais era possível ver outras roupas. A garota contemplava admirada a vista absolutamente comum da janela de Richard.. mas pareciam ter uma cor avermelhada e escura por baixo de toda aquela sujeira. era como se ela tivesse assaltado a seção de História da Moda do Victoria and Albert Museum durante a madrugada e estivesse usando tudo que conseguira roubar. — A quem pertence esta baronia? Quem é o senhor destas terras? — Ahm. você está em Londres — respondeu Richard. Ele parou de falar. observando com olhos arregalados os carros. uma drogaria e uma adega. — Onde estou? — Newton Mansions. desconfiada.

— Não se preocupe — ela disse. esperou a água descer e encheu-a novamente com água limpa. talvez. No banheiro. No kit de primeiros socorros. só precisa segurar as ataduras e amarrar as pontas onde eu não conseguir alcançar. — Eu não tenho muita prática com primeiros socorros. mas não conseguia lembrar exatamente o que era. meu Deus — Jessica. Está com um corte bem feio aí no braço. E então ele entrou no banheiro e trocou de roupa. Examinou o corte e fez uma careta. formando uma mis- . sim. Tem ataduras aí. Puxou a tampa da pia. mas logo voltou aos ônibus e às lojas. Richard continuou: — Eu. te encontrei na calçada. — A maior parte do sangue não era minha.choque ontem à noite. agora coberto de sangue ressecado. Começou a desenrolar o cachecol do braço. Você estava toda ensangüentada. Esperou que ela respondesse ou explicasse alguma coisa. séria. cobrindo a janela. — Bom. Esforçou-se. era de outra pessoa. ou algo assim. Ela teria um ataque se visse aquilo). Me ajuda? Richard começou a se sentir meio incompetente. hã. algum sonho que tivera. embaixo da pia. Ela deixou a cortina cair. não tem? — Ah. — Acho que preciso cuidar disso. um presente de — ai. pensando se seria possível remover toda aquela sujeira da camisa (sua melhor camisa. à qual acrescentou uma gota de água sanitária. *** A água com sangue o lembrou de algo. se você for muito fresco. Ela olhou de relance para ele.

A campainha tocou. Ele ficou imaginando que idade ela teria. Mas. Redução de danos. Dick. você espera aqui. A moça se esforçou para não fazer caretas. eram dois. como.tura turva: o cheiro pungente e anti-séptico tinha algo de sisudo e terapêutico. A moça se debruçou sobre a pia. murmurando coisas como “Me avise quando terminar”. como seria por baixo daquela sujeira toda. Não era Jessica. dando-se conta da situação. um pouco sujos e rotos. e ele jogou água morna no braço e no ombro dela. — Redução de danos. meu Deus — disse ele.. Richard nunca era tão enjoado quanto pensava ser. ele sentia enjôo quando via sangue em filmes: um bom filme de zumbis ou até mesmo um seriado de hospital com cenas fortes era capaz de deixá-lo encolhido num canto. — Richard. — É a Jess! Ela vai me matar. Mórmons? Testemunhas de Jeová? Policiais? Ele não fazia idéia. Ele fechou a porta do banheiro atrás de si e caminhou pelo corredor. Richard olhou para a bagunça do banheiro e para a garota.. Eram. O que quer que fossem.. e imaginou o que alguém de fora pensaria sobre aquilo. ele apenas agia. por exemplo. dor de verdade. ofegante. — Escuta. quando o assunto era sangue real. que se considerava disléxico em termos de .. Na verdade.. as mãos sobre os olhos.. Limparam o corte (que era bem menos profundo do que ele se lembrava da noite anterior) e colocaram uma atadura. Richard Mayhew. Usavam ternos pretos. — Qual o seu nome? — perguntou ela. — Ai. como se estivesse memorizando as palavras. por que estava morando na rua e. Era um remédio para curar a estranheza da situação e de sua hóspede. Ela balançou a cabeça. Abriu a porta da frente e soltou um profundo suspiro de alívio. e até mesmo Richard.

ele deu um largo sorriso. imponente. alguns segundos mais tarde do que seria o esperado. pensou. sem nunca ter visto um. — Estamos fazendo uma busca pessoal. era um pouco mais baixo do que Richard. . somos apenas cidadãos comuns.. e este cavalheiro é o meu irmão.. só uma vez. apático. não estava nas cartas que a Dama da Fortuna deu a mim e a meu irmão. sem querer. Quando Richard abriu a porta. — Hã.moda. Estava um pouco atrás do primeiro. E então riu. Importa-se se adentrarmos vosso recinto? — Bom. e a pele pálida. As linhas e os detalhes eram bastante estranhos. embora sem dúvida atraente.. Havia algo doentio naquela risada. Tinha cabelo liso. Seus dentes lembravam um acidente num cemitério. E acrescentou: — Vocês são da polícia? O outro homem. Não. digamos. — A polícia? Ai de nós! — exclamou o homem mais baixo.. Eu sou o senhor Croup. cortado bem curto. de natureza delicada. de uma cor laranja surreal. Pareciam ter sido feitos há 200 anos. de porta em porta. oleoso. — Não temos tal felicidade. senhor Vandemar. Ele não falara nada até aquele momento — apenas esperara. Uma raposa e um lobo. a raposa. segurando uma pilha de papéis contra o peito. um riso baixo e imoral. por um alfaiate que se baseou na descrição de um terno moderno. que Richard achou parecido com um lobo. Uma carreira no ofício da lei. achou que havia algo de estranho no corte dos paletós. O homem à frente. meu bom homem — disse ele —. Permita que nos apresentemos. Olá — respondeu Richard. alto. tinha cabelo grisalho. agora não é a melhor hora — disse Richard. — Um belo dia para o senhor. nesta manhã tão linda.

ficando na ponta dos pés até chegar à altura de seu rosto — que até poderiam se cortar acidentalmente. Seria pouco dizer que é um cavalheiro de inteligência sagaz. — Ela é meio. não se pareciam com nada que Richard já tivesse visto. Richard deu um passo involuntário para trás. . estranha — acrescentou. obstinada e teimosa. — Mas então vocês não deveriam ter o mesmo sobrenome? — Estou impressionado. calmo. enquanto chegava mais perto de Richard. onde estava escrito: VOCÊ VIU ESTA MOÇA? Abaixo da frase havia a fotografia (acinzentada pela cópia) de uma moça que pareceu a Richard uma versão mais limpa e com cabelos mais compridos da que estava em seu banheiro. no gesto que todos usam para indicar problemas mentais. Então disse: — Estamos procurando nossa irmã. Uma criança excêntrica. liam-se as palavras: ELA SE CHAMA DOREEN.. — Seu irmão? — perguntou ele. Sob a foto. de raciocínio afiado. Richard olhou para o papel. FUGIU DE CASA. que quase partiu o coração de nossa querida mãe. — O que vocês querem? O senhor Croup suspirou de uma forma que lhe pareceu muito melancólica.. girando o dedo perto da têmpora. MORDE E CHUTA. senhor Vandemar. entrar? — perguntou o senhor Croup. — Poderíamos.Eles não pareciam irmãos. Algumas pessoas são tão afiadas — comentou ele. por obséquio. Na verdade. — Ela fugiu — explicou o senhor Vandemar. Colocou uma das folhas de papel na mão de Richard. uma viúva. Que cérebro.

havia também uma moça suja e ensangüentada. O senhor Vandemar. Sem dúvida era a moça que estava no banheiro. um vaso. — Não. entrando no apartamento. Richard esperava que a moça — Doreen? — tivesse a presença de espírito de trancar a porta. E. uma pia. Richard lhe devolveu o papel. Havia uma banheira.. E não havia lugar onde a moça pudesse ter se escondido. seguiu-o. Ele entrou. entrou e olhou ao redor. alguns minutos antes. uma pia mais ensangüentada ainda e um kit de primeiros socorros aberto. um número de telefone. não estava prestando atenção: esticando o pescoço. Não era um banheiro grande. farejava o ar como alguém que tenta descobrir de onde vem um cheiro ruim. Richard correu atrás. sentindo-se como um pequeno e inofensivo cão que late aos pés de um carteiro. O homem foi direto para o banheiro. mas vou chamar a polícia se os dois não saírem do meu apartamento neste exato momento! . — O que você pensa que está fazendo? Pare com isso! Saia! Olha. abriu a porta do quarto de Richard. Agora. O senhor Vandemar saiu do banheiro. você não pode entrar aí.INFORME-NOS CASO A TENHA VISTO. NÓS A QUEREMOS DE VOLTA. PAGA-SE RECOMPENSA. alguns frascos de xampu. Não vi essa moça. Mas ela se escancarou com um empurrão do senhor Vandemar. o banheiro estava completamente limpo. mas o homem o empurrou e simplesmente passou por ele. como um lobo farejando a presa. — Não sei o que você acha que está fazendo. Richard olhou de novo a foto. e Richard. abaixo de tudo isso. no entanto. um sabonete e uma toalha. Quando Richard saíra dali.. Sinto muito.

o que houve com você. disse: — Ora. O senhor Vandemar não dizia nada. Espero que possa perdoar os maus modos e a indelicadeza de meu irmão. meu robusto camarada? Eles já estavam fora do apartamento de Richard. Pela primeira vez desde que se mudara. Não é mesmo. e também com nossa irmã. — Adeus — respondeu Richard. Mas o senhor Croup. senhor Vandemar? Imagino que a tristeza causada por nossa doce irmãzinha o tenha deixado meio desequilibrado. sem cuidados. o tenha deixado um tanto perturbado. virou-se para ele. *** . que no exato momento em que confabulamos deve estar andando sozinha pelas ruas de Londres. colocou também a corrente de segurança. — Achei que precisasse usar o banheiro. descendo as escadas. o que parecia uma raposa. Desculpe. Peça desculpas ao cavalheiro. Acredito que a preocupação com nossa pobre e viúva mãe. Richard constatou que nunca sentira tanto medo de uma pessoa em sua vida. Mas apesar disso ele é um bom sujeito. empurrando o senhor Vandemar. cuja companhia é valiosa. O lobo meneou a cabeça e pensou por um instante. O senhor Croup começou a andar pelo corredor. desamparada. — Pronto. Mas não precisava. Croup se virou para Richard e ensaiou outro sorriso de raposa. — Avise-nos se a vir — disse. E trancou a porta. que estava examinando a sala de estar de Richard. Não parecia transtornado pela tristeza.Então o senhor Vandemar.

Virou-se e seguiu pelo corredor. Pena você não estar em casa. e eu queria falar diretamente com você. Eu senti o cheiro dela. começou a imaginar se tinha cortado o fio certo. Pegou uma das cópias com Vandemar e apoiou-a sobre uma das paredes da escada. Correu de volta e atendeu. *** Richard esperou perto da porta até ouvir o portão de entrada do prédio bater. e a voz de Jessica surgiu da secretária eletrônica ao lado do telefone. dando-lhe um susto. . Nele lia-se: VOCÊ VIU ESTA MOÇA? O senhor Croup virou-se para o senhor Vandemar: — Você acredita nele? Viraram-se e desceram as escadas. O senhor Croup o pressionou bem forte contra a parede. que havia cortado o telefone de Richard assim que ele ameaçara chamar a polícia. — Alô? Alô? Não havia som algum. — Acredito coisa nenhuma. Vandemar puxou um bocado de catarro do fundo da garganta e deu uma cusparada certeira no verso do papel. em direção ao banheiro. O papel ficou imediatamente grudado. — Richard? Aqui é a Jessica. — Cuspa! — ordenou. vários andares abaixo.O senhor Croup. quando o telefone tocou muito alto. A tecnologia da telecomunicação do século XX não era o seu forte. Em vez disso. porque essa seria a nossa última conversa. ouviu um clique. perto da porta de Richard.

Ela estava em pé logo atrás dele.. — Ah. simplesmente. Seguiu o fio uns trinta centímetros. Aceita leite e açúcar? Ele estava completamente confuso. — Não interessa — respondeu ela. Você já fez mais do que deveria. Não serviria para nada. Problemas bem graves. Richard — continuava a voz na secretária. desculpe se eu. nosso noivado acabou. Não tenho intenção de devolver o anel nem de vê-lo novamente. Só Richard. Adeus. Doreen? Ela fez que não com a cabeça. Quando pegou a caneca. Ela ergueu uma sobrancelha. Havia água fervendo na chaleira. — Eu me chamo Door. Richard. Ele foi até ela e deu-lhe o cartaz que dizia VOCÊ VIU ESTA MOÇA? — É você. o que aconteceu com você? Door derramou a água fervente nas canecas. — Problemas? — perguntou a garota. Ela retirou os saquinhos e lhe entregou a caneca com chá. até que encontrou um corte entre o gancho e o aparelho. houve outro clique e a luzinha vermelha começou a piscar. pegando saquinhos de chá e os colocando nas canecas. Olha. — Você me envergonhou muito na noite passada.. ele se deu conta de que ainda .. sim. — Não..Ele se deu conta de que o telefone não estava funcionando. não te interessa. bom. Sem açúcar. se não for uma pergunta muito íntima. Richardrichardmayhewdick. A fita parou de girar. — Sim. não é? — perguntou. — É uma foto minha. — E você se chama. Disse: — Richard. — Por mim. na cozinha. De verdade. com o braço bem enfaixado.

e a frase VOCÊ VIU ESTA MOÇA? aparecia com destaque na vitrine. não existe algum lugar para onde você possa ir? Alguém para quem possa ligar? Ela pegou o telefone mudo da mão dele. virada para uma área onde se viam telhados e calhas. onde você estava até agora há pouco? — Estava aqui. olhou para o fio solto. — Meus amigos não têm telefone. Door subiu na cama de Richard. e ele ficou lá. Ela se encostou na parede e espiou pela janela. — E então. precisamos enviar uma mensagem para. — Poderia. Colocou o fone de volta no suporte. Então ela sorriu. — Eles são mesmo seus irmãos? — Ah. eu não poderia ter te deixado caída no chão. um sorriso rápido e travesso: — Migalhas! — Hã? Havia uma pequena janela no fundo do quarto. — Bom. — ela fez uma pausa. Do outro lado da rua. .. — Para alguém que possa ajudar. e fez que não com a cabeça.. o senhor Croup e o senhor Vandemar estavam saindo da padaria. — Não estou entendendo — disse Richard. Não posso sair daqui.. solitário e inútil. abriu a janela e espalhou as migalhas de pão. com esses dois andando por aí.. — Bom. claro que não! Ele tomou um gole do chá e tentou fingir que tudo estava normal. mas não deixou. sei lá. Richard foi até lá e olhou também. Olha.estava segurando o fone.

— Agora. que Richard até então usara para manter as contas de luz juntas. com seus olhos redondos e negros. nem castanhos. e fez um barulho que parecia o sibilar dos pombos.. O pombo inclinou a cabeça para um lado e a olhou de volta. mas não se debateu. — Pronto. mas não totalmente emaranhado. ele não é um pombo-correio. quieto. Sentaram-se na cama. nem cinzentos. — Não vejo sentido nisso. Pareciam opalas brilhantes: havia aqui e ali um tom de verde e azul. é só um pombo comum de Londres. — Boa menina. A ave ficou ciscando as migalhas. É muito importante.. Entendeu? A pomba respondeu com outro sibilar. Richard percebeu que não saberia dizer de que cor eram.— Claro que não está — concordou ela. Não eram azuis.. — a pomba a interrompeu com um ruído que soava . nem verdes. Ele não ficava muito entusiasmado com a idéia de segurar pombos. e até tons vermelhos e amarelos. A bochecha dela estava esfolada. daqueles que fazem cocô na estátua de Lord Nelson. A pomba olhou para ela com curiosidade. que desapareciam e cintilavam quando ela se mexia. — Pronto — disse ela.. e logo em seguida um brilho roxo-cinza-esverdeado confirmou a chegada de uma pomba. — Isso mesmo — respondeu Door. Ouviu-se um bater de asas. Crrpllrr. e Door a agarrou. Door pediu a Richard que segurasse o pássaro enquanto ela amarrava uma mensagem em sua perna. utilizando um elástico de azul intenso. e seu cabelo avermelhado e sujo estava embaraçado. mesmo nos melhores dias. Quer dizer. E os olhos. procure o marquês de Carabas. Door pegou o pássaro das mãos dele com cuidado e olhou em seus olhos. então é melhor você.

nós esperamos. — Uma resposta. Richard testemunhou tudo aquilo com certo espanto. — Não. Richard pegou o controle remoto e ligou a televisão. então disse: — Mas que tipo de nome é esse. Só Door mesmo. Bom. — Então é um apelido para “Doreen”? — perguntou ele. Ela caminhou até a estante de livros que ficava no canto do quarto. agora.impaciente. e foi para a sala. — Ele precisava dizer alguma coisa. ela retrucou: — É o meu nome. sabia? — disse. Que nem “porta”. achou uma edição de Mansfield Park. enquanto a pomba diminuía no céu e desaparecia entre os telhados. Mudou o canal. — E como se escreve? — D-o-o-r. — Que tipo de resposta? . Mudou de novo. Não olhou para ele. — Ah. que Richard ignorava possuir. — Quase acreditei que ela entendeu você. Richard a seguiu. Suspirou. — Desculpe — continuou Door. Door se acomodou no sofá e abriu o livro. “Door”? Encarando-o com seus olhos de cor estranha. E voltou a ler Jane Austen. — Pois é. — E aí? O que estamos esperando? Door virou uma página. Então levou o pássaro até a janela e o soltou. — É claro que você sabe o que está fazendo. Mudou mais uma vez. — O quê? — O seu nome.

No entanto. — Deus do céu! — exclamou Richard. Não havia nenhum lugar no apartamento onde ela pudesse ter se escondido. agora que parte do sangue e da sujeira tinha saído. Reparou que a pele dela era muito branca. duas pernas. — Eu estava aqui. hã. Talvez o grandalhão tivesse sido sincero ao dizer que ela era louca. — Está tudo bem. uma cabeça. e um vulto escuro.. Mas não havia sinal do vulto. Mas ela não tinha saído de lá. onde você estava? Ela lambeu o dedo e virou outra página. rindo um pouco e depois concordando com a cabeça. maior do que um camundongo. se não saía muito ao sol. embora parecesse nova demais para isso.Ela encolheu os ombros.. Ficou imaginando se era daquela cor porque estava doente. — Quando eles vieram aqui. saiu correndo do meio das fitas de vídeo embaixo da TV.. porque tinha perdido muito sangue. jogando o controle remoto na coisa com toda a força. — ele não tinha o que dizer. — Acho que podemos chamá-los de homens. Talvez ela tivesse passado um tempo na prisão. Richard continuou a falar. Tá — disse Richard... — Croup e.. aqueles homens que vieram aqui. — Hum... — Richard! — gritou Door. — Mas.. — Escuta. Ouviu-se o barulho de algo raspando no chão. Acho que era só um rato ou algo . O controle caiu no meio das fitas com um estrondo.. — Homens? Os olhos cor de opala cintilaram.. Cada um tem dois braços. ou se era anêmica.. — Vandemar — corrigiu ela. Vanderbilt.

O animal subiu até se abrigar na dobra do braço. — Ei! — chamou ela. coitadinho. — É um rato! — disse Richard. — Sim. Door o acariciou com o dedo. Ela o fuzilou com o olhar. Talvez fosse ele o louco. seguidos do resto da cabeça. com uma voz suave. — Oi! — disse Door. — Você está bem? Ela estendeu a mão. assoviando de leve entre os dentes da frente. e o rato examinou tudo ao redor. — ameaçou. disse para a sala em geral: — Desculpe. é um rato. — Xiu! Tem alguém aí? Um nariz rosa e dois pequenos olhos negros apareceram embaixo do sofá. Havia algo parecido com um pedaço de papel dobrado preso a seu corpo. alegre. — Pedir desculpas a um rato? Door não respondeu nada. — Ah. e então. se você o machucou... Ele era marrom-escuro e tinha um longo rabo cor-de-rosa. — Ei! Ela voltou os olhos para Richard. Talvez ele não tivesse ouvido direito.assim. — Claro que era um rato! Agora você o assustou. Ele é um idiota. Alguém aí? — Eu não sou idiota. Door procurou pela sala. Ajoelhou-se no chão. deixando Mansfield Park abandonado. desconfiado. mas seu silêncio dizia tu- . Richard teve certeza de que era grande demais para ser só um camundongo. Você não vai pedir desculpas? — Quê? — Peça desculpas.

Estava preso com algo que. com caligrafia angulosa. — É uma mensagem do marquês de Carabas — disse ela. Leia. — Obrigada — disse ao rato. dobrado diversas vezes. e mesmo naquela hora as calçadas estavam cheias de turistas e compradores. olhou Richard por um instante e desapareceu nas sombras. segurando um pedaço de papel. Richard já tinha ouvido falar naquele nome. com o outono chegando. parecia um elástico de azul intenso. O rato olhou para Door. O bicho disparou para o sofá. descendo a Oxford Street. — Não. para Richard. com ar muito digno. Door abriu o papel: tinha as bordas gastas e estava escrito em tinta preta. *** Era fim de tarde no centro de Londres e. já estava ficando escuro. ele está pedindo desculpas de verdade.do. E então? O que você trouxe para mim? Ela passou os dedos pelo corpo do rato e puxou um pedaço de papel marrom. Richard pegou o metrô para a Tottenham Court Road e agora estava caminhando na direção oeste. dando-lhe o papel. — Obrigada por tudo. — Legal. — Tome. — Desculpe se o assustei — disse Richard para o rato. Ela leu e meneou a cabeça. A Oxford Street era o centro comercial de Londres. Não está dizendo só por dizer. A garota chamada Door passou o papel para Richard. Mas ele não podia ter mandado um cartão-postal? .

Ele estava errado. Passou pela barulhenta e iluminada megastore da Virgin. Apreensivo. Richard não se recordava de uma Orme Passage. Tente não ser seguido — ela suspirou e completou: — Eu não devia te envolver nisso desse jeito. esquecida: uma rua escura e estreita. a Hanway Place era um beco sem saída. você vai sair da minha casa mais rápido? — Sim. — Vire à direita na Hanway Street. A única luz vinha dos bares meio escondidos nos andares superiores dos prédios. Embora tivesse dado apenas alguns passos além do burburinho iluminado da Oxford Street.. Pare no primeiro poste. Richard virou na Hanway Street. pela lanchonete que servia pizza em pedaços e virou à direita. — Você precisa obedecer às instruções escritas. cheia de lojas de discos sombrias e restaurantes fechados. .. depois à esquerda na Hanway Place e depois à direita de novo. muito iluminada. Virou à esquerda e. na Orme Passage. ele manteve seu percurso. O restaurante se chamava The Mandeer. — Tem certeza de que isso está certo? — Tenho.. quase um beco. embora já tivesse ido à Hanway Place: lá havia um restaurante indiano no subsolo.. a escada o instigando a descer até o subsolo.— Assim é mais rápido. Até onde conseguia se lembrar.. era como se ele estivesse em outra cidade.. um lugar de que seu amigo Gary gostava muito. — Se eu seguir as instruções. Ele passou pela porta do restaurante. pela loja que vendia chapéus de policiais londrinos e pequenos ônibus vermelhos como suvenires. De fato havia uma Orme Passage. A Hanway Street estava vazia.

sentindo-se idiota. — Não é bobagem. Alguém? Não. — Isto é meu. — Tem alguém aí? Sou amigo de Door. vai? — e ela sorriu para ele. expandiu-se e ficou de pé em um movimento suave. Só uma lata de lixo de metal ao lado de algo que parecia uma pilha de trapos. por que eu preciso fazer tudo isso só para ver o seu amigo? Digo. Ele sorriu com dentes .. widdershins? — Widdershins significa no sentido anti-horário. Seus olhos eram muito brancos e seu rosto. Amassou o papel numa bolinha e jogou na direção da lata de lixo. — Olá — chamou Richard. por baixo do casaco. sob a luz intermitente de uma lâmpada a gás. De verdade. Agora ele podia ir para casa e explicar à moça que nada havia acontecido. ele percorreu as palavras. suponho — disse o marquês de Carabas. bem alto na parede. Ele chamaria as autoridades competentes. — E aí dê três voltas. Ele vestia um enorme casaco negro. Richard. Ninguém.. Não havia ninguém. Richard. mas lhe conferia um toque dândi. tenta me agradar um pouco. muito escuro. Só. essa bobagem toda. Nada. Ele deu três voltas. Não se vê mais esse tipo de lâmpada por aí. Richard ficou aliviado. que não era um sobretudo nem uma capa de chuva. — Escuta.Havia uma placa com o nome. Segurando o papel com as instruções perto da luz. O que Richard julgara ser uma pilha de trapos se desdobrou... Richard parou de girar e desceu a ruazinha até o fim. Usava também botas pretas de cano alto e. e elas resolveriam o problema. pensou Richard. roupas em farrapos. ORME PASSAGE Wl É claro que ele não notara a passagem antes: era pouco mais do que uma viela estreita entre as casas. Uma mão apanhou a bolinha de papel no ar.

E você se chama. como se tivesse lembrado de algo engraçado. Como ela está agora? — Hã.. Quer dizer. como um grande felino. Deitado no chão. derrubando-o de costas na calçada. Ela está bem... meu jovem. A família dela tinha um fantástico poder de se curar.. dizendo: — De Carabas.. Richard já tinha percebido que ele era o tipo de pessoa que está sempre em movimento. não acha? O homem que chamava a si próprio de marquês de Carabas caminhava para lá e para cá na viela. nunca faço nada de graça. — Você é Richard Mayhew. — Ela me pediu para lhe pedir que a acompanhe até a casa dela. . Meu preço é alto.. Richard encolheu os ombros o máximo que sua posição permitia. o braço ainda está meio. O marquês pôs a mão no ombro dele e o empurrou. Hum... — Door sabe que meu preço não é baixo. inquieto. O que exatamente ela oferece em troca? — Como? — Qual é o acordo? Ela o enviou aqui para negociar. seja lá onde isso for.alvos por um instante. É. não é mesmo? — disse o marquês. e arranje um guarda-costas. a seu dispor. — Alguém matou a família de Door? — Não chegaremos a lugar nenhum se você ficar repetindo tudo o que eu disser.? — Hã. e fez uma reverência a Richard. o jovem que resgatou Door quando ela se feriu. agora de frente para Richard... — Sua rápida recuperação sem dúvida nos deixará surpresos. Impressionante que alguém tenha conseguido matá-los. Richard olhou em volta em busca de algo onde pudesse se sentar.. — Sente-se — ordenou..

Os olhos dele brilharam.. como uma pantera faminta que acabou de avistar uma criança perdida no campo. — Sem dúvida que não. avaliando. Não saia nunca do caminho. — Que tipo de favor. seus olhos nunca paravam de se mexer — para cima. Richard voltou a ficar de pé. para baixo. como se ele estivesse procurando algo ou pensando em algo. — E o que ela oferece em troca? — Bom.. ela não falou em dinheiro. Nem . — Posso fazer uma pergunta? — disse Richard. — Nada. Parecia ofendido. em círculos. Nem obterá respostas. nada. Em seguida. exatamente? — Um enorme favor.Mesmo quando o marquês estava quieto. Ela não está me oferecendo nada. — Bom. adicionando. virou para Richard e disse: — E você a deixou sozinha? Com Croup e Vandemar à solta? Ora. Ela disse que ficaria te devendo um enorme favor. pegou no bolso um pequeno objeto metálico e o encaixou na tampa de um bueiro. Girou. Você não fará perguntas. o que está esperando? O marquês se ajoelhou. no canto da viela. O marquês soprou as unhas e as poliu na lapela de seu belo casaco. E então deu as costas a Richard. A tampa saiu com facilidade. Colocou de lado o objeto metálico e pegou algo em outro bolso que pareceu a Richard um rojão ou sinalizador. subtraindo. fazendo surgir uma chama vermelha em sua extremidade. Richard se perguntou se ele não seria meio louco. De Carabas segurou o objeto com uma mão e alisou-o com a outra. De Carabas sorriu para si mesmo. apenas disse que ficaria te devendo um favor.

impassível. Ou para. Ele apontou na direção das profundezas reveladas pelo bueiro aberto. Richard correu para alcançá-lo. com medo de bater o pé em algo. tropeçar e quebrar o tornozelo. . E o tempo é muito valioso. hum. eu ia perguntar onde nós estamos.. parecendo não se importar se Richard o seguia ou não. — Bom. se não me falha a memória. Sentiu-se numa situação tão bizarra que perdeu a vontade de fazer perguntas. é claro. Talvez fosse um túnel para cabos de telefone ou trens muito pequenos. descendo a escadinha de metal acoplada à parede do buraco. Chega de perguntas. e. dois dias. — Mercado? — O Mercado Flutuante. *** Richard ficou se perguntando onde estariam. alguma outra coisa. O próximo vai acontecer em... ela nunca falha. Entendeu? — Mas.. — Vejamos.. — O mais importante de tudo: nada de “mas”. Caminhava nervoso.pense sobre o que está acontecendo com você agora.. — disse de Carabas. Não parecia o esgoto.. Posso escondê-la enquanto isso. A chama vermelha lançava enormes sombras sobre as paredes do túnel.. De Carabas andava a passos largos na frente. Mas imagino que não vá me responder. Mas não te interessa.. — Precisarei levá-la ao Mercado. Deu-se conta de que não sabia muito a respeito do que havia sob as ruas de Londres. Richard obedeceu. Richard olhou em volta. Vamos andando..

não era?) e. ele podia enxer- . perguntou baixinho uma voz no fundo de sua mente. e começou a subir degraus de metal soldados na lateral do túnel. — Isso mesmo — disse. mas estava na parte de dentro. — Estamos voltando para encontrar Door? — Em breve. como garantia. pelo Templo e o Arco! Um telefone é o menor de seus problemas.. onde ele continuou a cuspir sua luz.. *** Era dia (mas como era dia?. Não era quase de noite quando ele entrou na ruazinha há. mas o seguiu. — Ah. — Por que não? Foi quando a luz do dia atingiu seu rosto. E. — Minha noiva me deixou. uma hora?). Richard hesitou por um instante. sei lá.O marquês sorriu mais uma vez. e eu talvez precise comprar um novo telefone. Ele conseguia sentir o material áspero se desfazendo nas mãos enquanto subia. apoiando-o na parede. enferrujados. e pedacinhos de metal enferrujado caíam em seus olhos e sua boca. Preciso fazer uma coisinha antes. e ele olhou para baixo. Eles continuaram a subir. Os degraus estavam frios. em tom de aprovação. na total escuridão. e ele estava se segurando a uma escada de metal que percorria a lateral externa de um prédio muito alto (há alguns segundos ele subia a mesma escada. quando vir a luz do dia. — Você já tem problemas demais. lá embaixo. De Carabas colocou o sinalizador no chão. — Nem me fale — suspirou Richard. A luz vermelha lá embaixo tremeluziu e apagou. não olhe para baixo.

Pequenos prédios. silenciosamente gritante — de que. — Eu. Suas mãos estavam suando. se não conseguir. uns trezentos metros lá embaixo. — Não consigo me mexer. . se chegasse muito perto da beirada. Pessoas diminutas. odiava a sensação e a si mesmo. Lá embaixo. Londres. Era como se Richard não confiasse totalmente em si próprio. — a garganta de Richard não funcionava. Sentia dor em algum ponto atrás dos olhos. E se elas suassem demais e ele simplesmente escorregasse para o vazio? — Claro que consegue.. fazendo-o seguir até a borda e caminhar para o espaço. suas pernas cederem e você cair para uma morte horrível.. e isso o assustava muito mais do que o simples medo de cair. Mas. Richard odiava ficar no topo de uma montanha ou de um prédio alto: em algum lugar dentro de si ele sentia o medo — o mais perfeito terror. Suas mãos seguravam os degraus com firmeza. algo se apossaria dele. não é? — disse uma voz acima dele. Carros minúsculos. tentando umedecê-la. Richard ficou imóvel na escada. Caminhões em miniatura. mas isso não daria uma medida exata da situação. elas surgiam e desapareciam de foco. Ônibus e táxis minúsculos. em tom jocoso. — Pelo jeito alguém aqui não estava me ouvindo. você pode ficar aqui. Ele engoliu seco. Estaria certíssimo dizer que Richard Mayhew não lidava muito bem com a altura. e nunca ia a lugares altos.gar. Então ele dizia que tinha vertigem. Começou a respirar de maneira muito rápida e profunda.. pendurado na escada até suas mãos congelarem. Árvores..

obrigado. Quando viu que Richard estava olhando para ele. O corpo a que pertencia o rosto. depois. em sua direção.Richard olhou para o marquês. Você quer? É de estorninho. sentindo a estrutura sólida embaixo de si. Nisso ouviu passos em sua direção e sentiu um dedo o cutucando de leve nas costelas. onde não estava coberto por penas. soltando a mão direita do degrau e movendo-a uns quinze centímetros. olhava para ele acima das penas. A certa distância. Avançou a perna e. de Carabas. Percebeu que o marquês andava a passos largos no telhado. Vá embora. viu que estava na beira de um telhado horizontal. Ele olhava para baixo. Passado algum tempo. Richard abriu os olhos. Richard ouviu de Carabas responder: — Old Bailey! Mas você está com uma aparência ótima. moço? Estou fazendo um ensopado. uma capa ou algum tipo de cobertura estranha sem nome — o que quer que fosse estava completamente coberto por uma camada espessa de penas. Pisou nele e desabou. até achar o degrau de cima. Seu coração estava disparado. esta- . e ainda sorria. com suíças. a mão esquerda. Primeiro viu as penas. afastando-se dele. Richard sentiu uma onda de vertigem tomar conta dele. — Não. Um rosto gentil e enrugado. — Tudo bem com você. Não sabia se era um casaco. Dê o fora. Richard apalpou o chão. soltou ambas as mãos dos degraus e agitou os dedos na sua direção. — Desgraçado — disse em voz baixa. uma voz grosseira gritou: — Você não é bem-vindo aqui.

Richard podia ouvir lá embaixo uma sirene de polícia e o barulho emudecido do trânsito. Ele remexeu nos óculos velhos que estavam presos ao pescoço por um barbante e os colocou. um grande favor. na sombra da torre. — Eu fui um tolo — murmurou o velho. pestanejando. membros — e em alguns casos até sem cabeça —. observando Richard através deles. — Um velho tolo é o maior dos tolos — concordou . sem asas. Richard abriu a boca para se apresentar ao velho. meu jovem — disse o homem. Richard se lembrou de uma apresentação teatral de Robinson Crusoé que vira quando criança — Robinson Crusoé teria aquela aparência se estivesse preso num telhado em vez de perdido numa ilha deserta. — Me chamam de Old Bailey. Estavam sobre o telhado de um prédio velho. cale a boca! Não diga mais uma palavra! — ordenou o marquês de Carabas. — Não o reconheço. — Pois bem. Gárgulas envelhecidas pelo tempo. uma velha cabana marrom bastante remendada. com manchas brancas de cocô de pássaros. Virando-se para Old Bailey. projetavam-se de forma melancólica dos cantos da torre. A que baronato você deve lealdade? Qual seu nome? Richard se sentou. estalando os dedos com um barulho alto debaixo do nariz do velho. com uma torre acima deles. construído com pedras marrons.va envolto por cordas. — Você aí. Old Bailey. continuou: — Quem põe o nariz onde não é chamado às vezes acaba ficando sem ele — disse. Do outro lado do telhado. que se assustou. você me deve um favor há vinte anos. E agora vim cobrá-lo. havia algo que parecia ser uma cabana.

— Quem era aquele homem? — perguntou Richard.o marquês. Tudo que fizer. disser e ouvir só vai piorar as coisas. O velho do telhado pegou a caixa prateada e a segurou de um jeito estranho. Não prestou atenção em nada que eu te disse. Pôs a mão no bolso interno de sua casaca e de lá tirou uma caixa de prata. — Você não tem escolha. a- . É melhor irmos andando. tentando enxergar na luz fraca. Richard tropeçou enquanto buscava os últimos degraus com os pés e descobriu que não havia mais nenhum. com ambas as mãos. — Mas não quero. não? Atravessou o telhado a passos largos. — Bom. maior que uma caixa de rapé e menor que uma cigarreira. O marquês empurrou Richard de levinho com o bico quadrado de sua bota preta. Richard ficou de pé e o seguiu. É melhor rezar para que não tenha ido longe demais. todas muito juntas. Os passos dos dois ecoavam e reverberavam na escada de metal. como se fosse algo que pudesse explodir a qualquer momento. — Quem me dera não saber. mantendo-se bem longe da beirada. — Cuidado com a cabeça — avisou o marquês. não é? Você já tem problemas demais. e eles desceram uma escada em espiral mal iluminada. mas bem mais ornamentada que qualquer uma das duas. entre várias chaminés altas. — Você sabe o que é isto aqui? — perguntou ao velho. — Humpf. — Você vai guardá-la para mim. O marquês abriu uma porta na lateral da torre. Agora a escuridão era absoluta.

Ele não via nenhuma escada no fundo daquele armário. O marquês de Carabas se ajoelhou numa perna e a- . Richard se perguntou que idade ela teria. Richard bateu a cabeça em algo duro e disse “ai”. Ela colocara o casaco de couro marrom que usava quando Richard a encontrara. Lá dentro havia vassouras. Ficou bastante aliviado ao ver. — Richard! Você conseguiu! — exclamou Door. um esfregão velho e uma grande variedade de produtos de limpeza. sabão em pó e cera. que era grande e a envolvia inteira. destrancou a porta da frente e entrou em casa. como um casaco de aviador. Ele a fazia parecer menor do que já era. Quinze? Dezesseis? Não saberia dizer. Protegendo os olhos da luz. e até mais frágil. viu que estava do lado de fora de uma porta pequena.brindo uma porta. O cabelo. — É. sem razão para estar ali — a não ser que o ano de 1979 fosse acontecer de novo. Esfregou a testa e depois os olhos. depois de lavado. que era noite de novo. Richard fechou a porta do armário de vassouras. — Não é o melhor ângulo dela — observou. através das janelas da cozinha. e as camadas de roupa que a cobriam davam a entender que pelo menos tentara tirar o grosso da sujeira e do sangue. somente uma parede enfeitada por um calendário velho e manchado. pegou as chaves no bolso de trás. tinha um tom vermelho-escuro. Ela havia tomado banho enquanto ele estivera fora. As crostas de sujeira no rosto e nas mãos haviam desaparecido. O marquês examinava o cartaz com a frase VOCÊ VIU ESTA MOÇA? que estava grudado do lado de fora da porta de Richard. com reflexos cor de bronze e cobre. pois é — respondeu Richard. A porta por que tinham passado era do armário que ficava na escada do seu prédio.

e acrescentou. — Não entre. E logo olhou para frente de novo. meio constrangido. levante-se. E. meio inseguro: — Foi divertido. Pelo menos por um tempo. Mas não havia ninguém. — Richard. — Olha. — Para onde você vai? Door sorriu suavemente e balançou a cabeça. Espero que sim.. Fico muito agradecida por tudo que fez. eu sinto muito.. de Carabas. Obrigada. Fico feliz que tenha vindo.baixou a cabeça. Em conjunto. — ela fez uma pausa. — Milady — disse. Queria retribuir o favor de algum jeito. Ela parecia constrangida. — Ah. — Pelo que sei. . — Agora ficarei segura. — Não há por que se desculpar — respondeu ele. Com um movimento suave. — Nada disso.. Ou quase. ele se pôs de pé. — Mais tarde.. — Se eu precisar entrar em contato com você. Vou sair da sua vida. Você foi um anjo. como amigos beijam amigos. Eu troquei o lençol da sua cama. Nunca. Ela foi até Richard e pegou suas mãos. por favor. tá? Richard olhou para baixo.. para seus pés. Ela ficou na ponta dos pés e o beijou no rosto.? — começou Richard.. — Você já está indo embora? Ela fez que sim com a cabeça. as palavras favor e enorme foram pronunciadas.

pegou o telefone com formato de Batmóvel (presente de Natal dado há muitos anos pela tia Maude) e o conectou à parede. se quisesse. cada um a sua maneira. A mãe foi morrendo devagarinho depois disso. Real era a mensagem deixada por Jessica em sua secretária eletrônica. RICHARD ABRIU A ÚLTIMA GAVETA DO ARMÁRIO. Na verdade. em outras o chamava pelo nome do pai de Richard. Ele ouviu o recado diversas vezes naquele domingo. a mãe de Jessica certa vez mencionou casualmente o quanto eles estavam desapontados com o noivado. e não tinha vontade nenhuma de telefonar para lá. Às vezes ela o reconhecia. pensativo. Richard estava sentado em seu sofá. sentado à sua cabeceira em um pequeno hospital. ela simplesmente começou a definhar: seis meses depois de sua mudança para Londres. Imaginou que ela tivesse voltado para a casa dos pais no interior. O pai teve um enfarte repentino quando ele ainda era criança. Nenhum dos dois o aprovava inteiramente como genro. o celular também. Tentou ligar para Jessica. esperando sempre que a voz fosse ceder. A secretária dela estava desligada. Quando Richard saiu de casa. mas não conseguiu. que ele conseguiria ouvir certa afeição nela. Os pais dela intimidavam Richard.TRÊS NA MANHÃ DE DOMINGO. mais inverossímeis. dizendo que não queria vê-lo mais. Tinha convicção de que Jessica poderia achar alguém bem melhor. Mas não con- . ele pegou o trem de volta à Escócia para fazer companhia à mãe em seus últimos dois dias de vida. Os pais de Richard estavam mortos. Os acontecimentos dos últimos dois dias ficavam cada vez menos reais.

era dono de todos os periódicos de domingo que Rupert Murdoch não conseguira adquirir. ignorando-o por completo. à tarde. Richard começou a xingar baixinho e resolveu correr para a estação de metrô mais próxima. Ele saiu às pressas. O chefe de Jessica. Tirou um monte de moedas do bolso. comeu alguns sanduíches e bebeu várias xícaras de chá. mas desistiu. Suspirou aliviado quando viu um grande carro preto descendo a rua. Desta vez ele foi até o meio da rua sinalizar para o carro. *** Na manhã de segunda-feira. Virou uma esquina e foi embora. a pasta chacoalhando em sua mão. em sua direção. com o sinal de “táxi” amarelo aceso. Então. eles se abraçavam e faziam sexo de um jeito selvagem. assim como os outros.seguiu. O táxi passou suavemente ao lado dele. dando a entender que estava disponível. furioso. e ensaiou conversas com Jessica em sua cabeça. Richard suspeitou que ler só o faria lembrar o jantar a que não comparecera na noite de sexta. apaixonado. Outra luz amarela. às dez para as nove. Seus próprios jornais falavam dele. Acenou e gritou. ele tomou um demorado e quente banho de banheira. em vez disso. olhando para os dois lados da rua como um maluco e rezando para que um táxi aparecesse. Arnold Stockton — a perfeita caricatura do homem de queixo quadrado que subiu na vida —. Ao término de cada diálogo imaginário. Viu um pouco de TV. o despertador de Richard não tocou. Outro táxi. e tudo ficava bem. Na máquina . O motorista o contornou e continuou seu rumo. Pensou em sair e comprar o jornal de domingo. cheio de lágrimas.

em vez disso. no momento em que o metrô estava chegando. E mais outra. não importava o que fizesse. mas. suando. apesar de Richard gritar “Ei!” e “Com licença!” (ou por causa disso) e de bater desesperadamente na divisória plástica com uma moeda. Toda moeda que ele colocava atravessava direto a máquina e ia parar. tropeçando. Começou a se sentir assim quando as pessoas se espremeram à sua frente. A manga se rasgou e ele caiu para a frente. mas a manga de seu casaco ficou presa.de passagens. Começou a gritar e bater com força na porta. e foi aí que as portas começaram a se fechar. foda-se — praguejou Richard. Ninguém o impediu. tilintante. por mais barulho que fizesse. até alcançar a plataforma. até quase conseguir entrar no trem — um de seus braços já estava do lado de dentro —. Nada de bilhete. empurrado para lá e para cá por gente que saía e entrava. ninguém o notava. Richard tinha sonhos nos quais ele simplesmente não existia — pesadelos em que. Ele insistiu. — Ah. ralando a mão no . Mas. ninguém parecia se importar. Quando criança. o homem continuava impassível ao telefone. Tentou outra máquina. sem fôlego e suando. pela escada rolante. pressionou o botão de bilhete unitário para Charing Cross e colocou as moedas na fenda. Foi esmurrado pela multidão. esperando que o condutor ao menos a abrisse um pouco para ele tirar a manga de lá. e ele teve que correr pela plataforma. sobre a bandeja de troco. O vendedor de bilhetes estava falando ao telefone quando Richard foi até ele reclamar e comprar sua passagem. pulando por cima da catraca. o trem começou a se mover. cada vez mais rápido. Derrubou a pasta no chão e puxou desesperadamente a manga com a mão livre. com o mesmo resultado. Puxou a mão. Correu. empurrando e se enfiando também. lotada.

— Vocês nem acreditam no quanto foi difícil chegar aqui. tudo. um pouco confusa. a mão machucada e as calças rasgadas. Estava faltando alguma coisa — aliás. conversando com dois cavalheiros bastante corpulentos. — Onde estão as minhas coisas? — perguntou para a sala.piso e rasgando a calça na altura do joelho. Richard se levantou e voltou até onde sua pasta havia caído. Ele jogou a pasta numa cadeira e enxugou o suor do rosto com um lenço. — Cadê meu telefone? E os meus trasgos? Verificou as gavetas da mesa. Subiu as escadas e saiu da estação. O relógio na parede marcava 10h30. — Minha mesa! Para onde é que estão levando? Sylvia ficou olhando para ele. — O senhor é quem mesmo. enquanto fazia um gesto para que os homens corpulentos levassem a mesa. Richard foi até ela. — Com cuidado — advertiu Sylvia. Olhou para a manga danificada.? . Ninguém lhe pediu o bilhete na saída. Olhou para sua mesa de trabalho. Cada um pegou o móvel de um lado e ele foi sendo carregado para fora do escritório. um pouco mais alto. Um pesadelo — continuou. — Sylvia? O que está acontecendo? — Pois não? — respondeu ela de maneira educada. Sylvia vinha em sua direção... Cambaleando. Estavam vazias também: não havia nem uma embalagem de chocolate ou um clipe de papel retorcido para mostrar que ele estivera ali. *** — Desculpe o atraso — disse Richard para ninguém específico no escritório cheio de gente.

não tem graça. o que está acontecendo? Isso é uma brincadeira? Gary olhou em volta.. Richard continuou: — Se eu fui despedido. sexualmente explícito. — Gary. balançou a cabeça. — Escuta aqui. sarcástico. como se tivesse escutado alguma coisa. Richard Mayhew — respondeu. e os seguiu enquanto levavam a mesa de Richard.Era só o que me faltava. e saiu do escritório. — Richard.. Richard foi para o outro lado da mesa. Richard olhou para a tela: o e-mail. ativou o protetor de tela com hipopótamos dançarinos. Por meio do teclado. Constrangido. pegou o telefone e começou a discar. como se quisesse se livrar de algum pensamento. deixando a pasta para trás. para seu grande alívio. Mas ficar fingindo que não estou aqui. Posso ajudá-lo? — Acho que não — respondeu Richard com frieza. Gary sorriu e disse: — Opa! Meu nome é Gary Perunu. O que é que vocês estão tramando? Afinal. A atenção dela se desviou de Richard como a água se desvia de um pato coberto de óleo: — Não. Depois caminhou pelo escritório até chegar à mesa de Gary. por aí não. . é só me dizer. pensou Richard. Ele ficou olhando enquanto ela ia embora. — Ah. Gary olhou para ele. não era endereçado à namorada do colega. cortando a linha. pelo amor de Deus — pediu Sylvia aos carregadores. que estava respondendo um e-mail. Richard bateu o fone no gancho com a mão de Gary junto.

— Preciso falar com Jessica Bartram — disse Richard. Quinze minutos a pé dali. no centro de Londres. — Jessica. Preciso falar com ela.. Chegou ao edifício Stockton em dez minutos. Após um som melódico. Deus do céu. cada um com uma imagem de um anjo diferente. rasgados. Ela se virou quando ele entrou e sorriu de forma amigável. uma criatura elegante e cheia de compostura. Olha. Ela não ergueu o olhar quando ele se aproximou. ele estava horrível. antigo. — É importante. Tudo começou quando eu não . Estava lendo uma revista Cosmopolitan.. Preocupada com as próprias unhas. o casaco e as calças. Ela estava de pé em frente a três grandes pôsteres. desarrumado e suado. acho que estou ficando louco ou algo assim. que aparentava ganhar muito mais do que Richard. O andar em que Jessica trabalhava era opulento. o cabelo. nos quais se lia “Anjos pela Inglaterra — Uma Exposição Itinerante”. recoberto de espelhos cristalinos. mas de um jeito meio despojado. Ficou se observando nos espelhos enquanto subia. Graças a Deus. do outro lado da Strand. a recepcionista o ignorou. Havia uma recepcionista perto do elevador. passou direto pelos seguranças uniformizados do térreo. Jessica trabalhava mais ou menos no andar do meio de um prédio alto. Sua gravata estava torta e meio frouxa. entrou no elevador e subiu. a porta do elevador se abriu...*** O escritório de Richard ficava no terceiro andar de um edifício grande. Richard caminhou pelo corredor até o escritório de Jessica. Ele subiu correndo a rua. Abriu a porta e entrou.

. Estava quase no elevador quando ela chamou seu nome. Era mesmo uma brincadeira. desculpa. E. A loucura daquele dia era real. Jessica assentiu com a cabeça e continuou a sorrir com ar solidário. Richard soube que era tudo verdade. encorajando-o a continuar. já me lembro de você. — Richard. Não era nenhuma brincadeira ou piada.. — Tudo bem — disse. Sentiu um vazio horrível no fundo do estômago. Algum tipo de vingança mesquinha. está tudo uma loucura. saiu pela porta e caminhou pelo corredor. Virou-se.. — Esquece.. Ele continuou: — Olha. Ela sorriu para ele mais uma vez.consegui pegar um táxi hoje de manhã.. entrando no elevador. eu nem sei o que fazer. Maybury? — ela parecia estar orgulhosa por ter se lembrado ao menos daquilo. me desculpa pelo que aconteceu na noite passada.. e depois o metrô e o escritório e. Então disse: — Você vai me achar péssima. — Mayhew — corrigiu Richard. É como se eu tivesse virado uma não-pessoa — disse. Me dê só um segundinho. As portas emitiram um som melódico e triste quando se fecharam atrás dele. Algo que tinha explicação. Não pelo que eu fiz. olha. afinal. naquele momento. mas por ter deixado você chateada e. mostrando a manga rasgada. *** . — Richard! Ele se virou. resignado. mas sou um fracasso com fisionomias. seja lá o que fosse.

chateado. Mas gosto de pensar nisso como uma qualidade. mas temos uma lista enorme de pessoas interessadas. sentou-se de novo. Como estava nu. Quando chegou ao apartamento. Seus pés doíam e os olhos ardiam. Um tanto desesperado. Em seguida. . deixou as roupas sobre a cama e. Richard ficou em pé na banheira. ouviu o barulho da porta abrindo e fechando. Engraçado. — Alguém esqueceu uma toalha na cadeira. mas não tinha nenhuma esperança de que eles fossem parar — e nenhum parou. — Ah. confuso. — É compacto. Você não tinha dito isso? Está bastante decorado pro meu gosto. olha.Richard voltou a pé para o apartamento. Ele era a única pessoa que morava ali. Às vezes acenava para os táxis. afinal. acompanhado de uma voz masculina suave: — Claro que vocês são os primeiros a ver o apartamento hoje. Uma voz masculina mais rouca disse: — Achei que não fosse decorado. George — observou a mulher no corredor. — O inquilino anterior deve ter deixado algumas de suas posses. — Não é tão grande quanto parecia na descrição que a corretora nos mandou — comentou uma mulher. nu. não me informaram nada a respeito. procurou em volta por uma toalha. Estava quase cochilando quando ouviu uma chave virar na fechadura. Richard não havia se preocupado em trancar a porta do banheiro. caminhou pelo corredor e entrou na água relaxante. mas ele sabia que aquele dia acabaria logo e ele acordaria numa segunda-feira normal. e as pessoas poderiam entrar ali a qualquer momento. revoltado. sem dúvida. encheu a banheira com água quente. um dia decente e verdadeiro.

— Acho que já vimos tudo — disse o homem de meia-idade. A conversa continuou em um tom mais baixo. — Fácil de limpar. Richard agarrou a toalha de rosto e a esticou na frente dos quadris. Três pessoas entraram: um jovem com casaco de pêlo de camelo e um casal de meia-idade. com frio. — Como é o banheiro? — perguntou a mulher. preparando-se para ficar com muita vergonha. e todos saíram do banheiro. — Ou será. A mulher passou o dedo na lateral da pia e torceu o nariz. Viu a toalha sobre a cadeira no corredor e inclinou-se para pegá-la. — É exatamente o que a gente quer — explicou ela. sentindo a água pingar do seu corpo e envolto pela toalha. sem dúvida — comentou a mulher. Amanhã tiramos toda esta tralha daqui. — Seria bem prático. Richard saiu da banheira e foi até a porta.Richard avaliou e rejeitou alguns péssimos substitutos para a toalha: uma bucha vegetal de banho. — Vamos ficar com ele — anunciou a mulher. com as costas para a parede. assim que o deixarmos mais aconchegante. — É meio pequeno — opinou a mulher. levantou-se. Na quarta-feira já estará pronto? — Claro. Richard. Em seguida. lançou um olhar furioso da . gentilmente. sem problema algum. um frasco de xampu pela metade e um pequeno pato amarelo de borracha. — Compacto — corrigiu o pêlo de camelo. Alguém abriu a porta do banheiro. — Sério? — perguntou o pêlo de camelo. Richard se perguntou se estariam tão constrangidos quanto ele.

— Senhor Mayhew? Richard Mayhew? — Sim — respondeu. — Ei! Eu moro aqui! — disse Richard. Richard ficou de pé no corredor do que costumava ser seu apartamento. O Batfone tocou e as luzes piscaram. A voz do outro lado não era desconhecida. e continuou.porta do banheiro.. então. e então a porta se fechou atrás deles. — Não é tralha! São as minhas coisas — gritou. Eu moro aqui.. — Ninguém. no silêncio. — Senhor Mayhew. senhor Mayhew. com frio. Tremeu. Passaram por ele ao sair pela porta da frente. O senhor disse que Door não . Quem está falando? — Eu e meu parceiro o conhecemos no sábado. Você. — A gente pega as chaves no seu escritório. em tom queixoso. — Alô? A linha fazia ruídos e chiados como se a chamada fosse feita de uma longa distância. — Isto — anunciou ele para o mundo. desafiando os indícios que seus cinco sentidos lhe davam — não está acontecendo.. — Foi um prazer negociar com vocês — disse o sujeito com casaco de pêlo de camelo.. Lembra-se? O tom de voz era oleoso e traiçoeiro. — Ah. temeroso.. Richard atendeu. maravilhado: — Você pode me ouvir! Graças a Deus.. Eu perguntei sobre o paradeiro de uma certa jovem. — Se você enviar os detalhes do contrato pro fax do meu escritório. Lembrava uma raposa. sim. — dizia o homem de voz rouca. nenhum de vocês está me ouvindo? Este apartamento é meu.

— Senhor Mayhew. Temos motivos para acreditar que o senhor estava floreando a verdade mais do que o necessário. dos chiados e dos ecos. através da estática. Você não pode me ameaçar desse jeito. O senhor pode chamar quem quiser. E desligou. Ele prosseguiu: — Porque o senhor Vandemar me prometeu que irá pessoalmente cortar o seu e colocá-lo na sua boca antes de degolar a sua pobre pessoa. — E sabemos onde o senhor mora. o senhor sabe qual o gosto do seu próprio fígado? Richard ficou em silêncio. para ser muitíssimo franco. — Todos somos irmãos. senhor Mayhew (estou certo de que o senhor prefere que eu seja franco. olhando . Nem eu nem o senhor Vandemar fazemos ameaças. Mas o senhor vai descobrir onde ela está. senhor Vandemar? — Não? Então que diabo você está fazendo agora? — Estamos fazendo uma promessa — disse o senhor Croup. E não sei onde está agora. não é mesmo. e eles não chegam a ter dois dígitos. Estamos plenamente cientes de ambos os fatos. E. Os dias dela estão contados. em tom prestativo —. não é mesmo? — Vou chamar a polícia. Mas odiaria que o senhor pensasse que o estamos ameaçando. — Por que você está me ligando? — Senhor Mayhew — continuou o senhor Croup. não?). — Bom.. Richard segurava o telefone com firmeza. — Ela não está mais aqui. não me preocuparia mais com a jovem. senhor Mayhew. — Já sabemos disso. se eu fosse o senhor. senhor Mayhew. e você disse que era irmão dela.estava na sua companhia..

pegou sua mala preta de ginástica debaixo da cama e colocou meias nela. pegou algumas frutas da fruteira e colocou-as na mala.para ele. foi para o quarto e se vestiu.. Algumas camisetas. e então pressionou a tecla 9 três vezes: bombeiros. assustado e com frio. Ele vestia jeans. *** O caixa eletrônico engoliu seu cartão com um som . e não havia nada que pudesse fazer. Alô? Alguém na linha? Alô? E então Richard pôs o fone no gancho. a voz disse: — Serviço de Emergência.. Houve uma pausa. Fechou o zíper e saiu para a rua escura. Ele esperava que estivesse sendo transferido para a polícia. depois de pensar um pouco. e eu não acho que ele esteja brincando. polícia e ambulância. da pausa que fizera. tênis e um suéter grosso. por favor? Um homem acaba de me ameaçar de morte. porque estava nu. *** Finalmente. A carteira. de como havia dito que sentia muito. sabia que isso ia acontecer. Depois de alguns instantes. O passaporte. Cuecas. — Qual o serviço desejado? — Pode me ligar com a polícia. Lembrou-se de como a moça que dizia chamar-se Door tinha se despedido. — Emergência — disse a telefonista. — Você sabia — disse para o apartamento vazio —. Foi até a cozinha.

Tem mais ou menos 1. DIGITE SUA SENHA. Richard pegou a mala. Havia um homem baixinho. — Tem um trocado aí? — perguntou uma voz cansada atrás de Richard. foi atrás do homem e disse: — Ei. Richard deu ao homem seu cartão. CARTÃO INVÁLIDO. Vestia um casaco imundo sobre a ruína do que fora um suéter cinza-escuro. Seus olhos também eram cinzentos e gelatinosos. POR FAVOR ENTRE EM CONTATO COM O BANCO.. com barba desgrenhada e embaraçada. — Toma.. Ele devolveu o cartão e começou a descer a rua. Ele se virou. Uma moça chamada Door. olhou. Algo nas entranhas da máquina roncou e rugiu. Com isto aqui e mais uns 60 pence eu posso comprar uma xícara de café. AGUARDE.500 libras.. apareceu na tela. — virou o verso e agradeceu.. amarelada e cinzenta. Pode ficar com ele. desinteressado: — Ah. se você conseguir sacar. POR FAVOR. claro. A tela ficou em branco. — Você já ouviu falar de um lugar chamado Mercado Flutuante? Preciso ir para lá. Você consegue me ver. E ficou novamente em branco. As rugas em seu rosto estavam cheias de sujeira. velho e calvo.de “rrrrr”. O homem pegou o cartão com suas mãos enegrecidas de sujeira. Richard digitou sua senha secreta (D-I-C-K). POR FAVOR. espere aí. Mas o homem começou a dar passos para trás. Ouviu-se um barulho metálico e o caixa eletrônico cuspiu de volta o cartão. apre- . — Não tem nada de errado com os meus olhos — retrucou o homem.

eles caminharam por aquele lugar escuro. assando pequenos animais em .ensivo. em uma parede. Ouviu-se um som de algo raspando e o ruído da chama consumindo um fósforo: o homem o levou até o pavio de uma velha lamparina. Assim. cuja luz era um pouco menos intensa que a do fósforo. — Ei! — sussurrou o homem.. Ele esperou até Richard a atravessar e fechou-a. Chamas queimavam aqui e ali pela sala. — Vem aqui. para que ela não balançasse. com ritmo. — Olha. Seu guia fez “xiu!”. começou a descer a High Street. — Tá bem. Houve uma pausa e em seguida ela se abriu. que foi aberta pelo homem. Richard foi cegado pela luz repentina. rápido! O homem desceu correndo uma pequena escada nas casas abandonadas do lado da rua — degraus cheio de lixo. Virou-se para ir embora e. Chegaram a outra porta. eu realmente preciso da sua ajuda. cheio de fogueiras e de fumaça. de umidade e tijolos molhados. Ele estava acenando para que o seguisse. Por favor. subterrâneo. O homem olhou para ele sem piedade nos olhos. Richard suspirou. Ficaram na completa escuridão. Richard olhou para trás.. — Onde estamos? — sussurrou Richard. segurando bem firme as alças da mala com ambas as mãos. Havia no ar um cheiro de mofo. de podridão e escuridão. que levavam a prédios de apartamentos abandonados. O homem bateu nela. No fim da escada havia uma porta. Richard foi atrás dele. Desculpe se te incomodei. Durante um segundo. Ele estava de pé num enorme salão abobadado.

espetos. Agora havia várias pessoas com casacos com detalhes em pele em volta deles. . — Quem você nos trouxe. as mãos próximas do peito. — Quê? O que é? O que que foi? — perguntou ao guia de Richard. Enrolada na parte inferior. de uns vinte centímetros.) — Ele me perguntou sobre a senhora Door e sobre o Mercado Flutuante. Lorde Falante de Ratês. mulheres e homens. Pessoas corriam de fogo em fogo. depois vinham rápido na direção de Richard. O Lorde Falante de Ratês enfiou a mão na roupa puída e puxou de lá um pedaço de vidro comprido e fino. Então uma centena de olhos se viraram e o observaram fixamente: uma centena de olhos que não piscavam nem pareciam muito amistosos. uma barba castanha irregular e suas roupas puídas tinham uma pele de animal costurada nas mangas e na gola — uma pele laranja. O lugar lembrava o Inferno — ou melhor. A fumaça irritava seus pulmões. O Lorde Falante de Ratês a encostou na garganta de Richard. como ele achava que deveria ser o Inferno quando era criança. como se fosse de um gato malhado. os dedos juntos. e ele tossiu. Eles se moviam com passinhos ligeiros e pequenos: ficavam parados alguns instantes. Imaginei que o senhor saberia o que fazer. A luz do fogo resplandecia na lâmina. e até mesmo algumas crianças. uma tira de couro mal curado formava um cabo improvisado. Então eu trouxe ele pro senhor. branca e preta. (Iliaster?. Ele talvez fosse mais alto do que Richard. Tinha cabelos compridos. mas caminhava bastante encurvado. Iliaster? Fala-fala-fala! — Ele vem lá de cima — respondeu o guia. Um homem foi até eles com passos rápidos. pensou Richard.

— Ah. sim! Sim-sim-sim — disse. — Sei exatamente o que fazer com ele. animado. . com voz chilreante.

chuveiros e vasos sanitários entupidos e sem água. ano após ano. desapareceram logo após o hospital ter sido fechado — e então ele ficou lá. O telhado estava podre. se a pessoa descesse por ali. caía. Se uma pessoa descesse as escadas do hospital até o fim. ela chegaria a uma escada de ferro pequena e enferrujada. passasse pelos lavabos com chuveiros abandonados. e em outra. algumas vazias. Em uma delas havia uma enorme e pesada fornalha de metal. cuja tinta branca. vazio. com tábuas nas janelas e cadeados nas portas. O mundo do porão que ficava abaixo das alas hospitalares vazias tinha mais de uma centena de salinhas pequenas. que refletia a escuridão e a deterioração dos tetos apodrecidos. deixando-a aberta para as escadas acima).QUATRO O SENHOR CROUP E o SENHOR VANDEMAR SE ESTABELECERAM NO porão de um hospital vitoriano que estava desativado há dez anos por causa de um corte no orçamento do Ministério da Saúde. atravessasse as poças no fim da escada e empurrasse uma porta de madeira meio apodreci- . amarelada pelo tempo. Grande parte do piso do porão estava coberta por uma fina camada de água oleosa de chuva. que emitia uma luz cinzenta e um tanto sinistra. E. que anunciaram sua intenção de transformá-la em um magnífico edifício de luxo. Ele fora construído ao redor de um poço. cinzento. descascando-se em longas tiras úmidas. outras com material abandonado. Os responsáveis pela propriedade. um elefante branco. pelos banheiros dos enfermeiros e por uma sala cheia de vidro quebrado (onde todo o teto tinha caído. e goteiras de chuva espalhavam umidade e deterioração pelo prédio inteiro.

— Se o senhor puder desviar um pouco sua atenção. deixando fincadas as giletes. o senhor Vandemar olhou para o amigo. uma enorme sala na qual 120 anos de lixo hospitalar acumulavam-se. Ele retirou a mão. O senhor Vandemar não ficou impressionado. dê uma olhadinha nisto aqui.da. As paredes eram úmidas e água caía do teto em goteiras. criavam fungo nos cantos. observando enquanto ela se enroscava entre seus dedos. Era como uma apresentação de um grande atirador de facas. O senhor Croup colocou sua mão esquerda apoiada na parede. Pegou cinco giletes na mão direita. e virou-se para ser aplaudido pelo parceiro. Ele encontrara. num canto. uma caixa que deveria ter uns cinqüenta anos. Coisas estranhas. com os dedos afastados. Segurando a cabeça da centopéia com delicadeza entre um enorme polegar e um grosso indicador para fazê-la parar de se mexer. e estava pensando no que fazer com elas. mirou com cuidado e jogou-as em direção à outra mão. que delineavam o local onde estiveram seus dedos. senhor Vandemar — disse ele —. O senhor Croup brincava com lâminas de barbear. Cada uma delas ficou presa na parede entre seus dedos. Os dois estavam só matando tempo. que um dia já tinham sido vivas. com quase vinte centímetros e horríveis presas venenosas — e a deixava correr sobre suas mãos. desaparecendo numa manga e aparecendo na outra alguns instantes depois. estaria em um andar abaixo do porão. abandonados e esquecidos. só que em miniatura. . O senhor Vandemar arranjou em algum lugar uma centopéia — uma criatura de um laranja avermelhado. Era lá que o senhor Croup e o senhor Vandemar estavam morando por um tempo. cheia de lâminas envoltas em papel.

O senhor Croup fez uma careta. a mão ainda presa à parede. que não era usado no hospital desde a década de 1920. — Por que o senhor não me mostra como deve ser? O senhor Vandemar assentiu. Também oferecemos serviços de odontologia. eliminamos chateações. Havia um velho telefone no canto do sala. O senhor Vandemar olhou para Croup. tendo antes atingido e penetrado a sua mão. e as deixou cair sobre a mesa de madeira. — Removemos obstáculos. O senhor Croup levantou o fone. mas não conseguia soltá-la da parede. A pessoa do outro lado da linha disse algo. — Ah. que tinha um longo fio coberto por tecido. — Você não cortou nenhum dedo. afiada e equilibrada com perfeição. um aparelho antigo de duas peças.. — Não cortei? Ora. o senhor tem razão. senhor. Sem dúvida. Depois apoiou a mão esquerda contra a parede e afastou o braço direito. — Croup e Vandemar Associados — disse. suavemente. macacos me mordam. Um telefone começou a tocar. A faca voou pelo ar e atingiu com um barulho o gesso úmido da parede. Apertou os olhos e atirou-a.— O que há demais nisso? — perguntou. Como posso ter sido tão tolo? Puxou as lâminas da parede. Colocou sua centopéia de volta no pote de geléia vazio onde ela ficava. Permita-me dizer o quanto esta conversa telefônica ilumina e anima um dia . e falou no receptor. feito de madeira e baquelita. O senhor Vandemar puxava a mão esquerda. O senhor Croup suspirou. — É assim que se faz — disse ele. Sim.. satisfeito. cuja mão segurava sua faca. preso à base. uma por uma. cortamos membros irritantes.

.. O senhor Croup ficou olhando para o fone por alguns instantes. Ficou em silêncio. paciente e pensativo. Mas a pessoa já havia desligado. Comprimiu forte os lábios e completou: — Não temos nenhuma intenção de violar a trégua que estabeleceram no Mercado.. Outra pausa. depois o colocou no gancho. O senhor Croup enfiou o dedo no nariz. fazendo que “sim” com a cabeça de vez em quando. Mais uma interrupção. nós vamos fazer isso. O senhor Vandemar balançou a mão esquerda e flexionou os dedos.. Vamos esperar até que a moça saia de lá para acabar com ela. E. e colocou-a sobre a mesa. retirando-a do dorso da mão do parceiro. Não vou mais ficar adulando ou rastejando..que do contrário poderia ser horrível e tedioso. o que sabemos? Bom. claro. Fico feliz por fazer sua vontade. sabemos que. mas ela estava bem presa. — Quero dizer.. É uma honra e. — Sim.. e continuou: — Não. podemos fazer — disse o senhor Croup. — Você se acha tão esperto — sussurrou ele... Mas não precisamos saber. O senhor Vandemar tentava tirar a faca da parede com sua mão livre. meu senhor. — Sim.. Sim. não sabemos onde ela está neste exato momento. E então percebeu o apuro era que se encontrava o senhor Vandemar: — Pare com isso. Depois limpou os restos de gesso úmido da lâmina. Eu sei. Inclinou-se. Claro.. Ela vai estar no Mercado hoje à noite e. puxou a faca da parede. talvez nós possamos falar sobre.

Estava com fome. — E daí. Mas parece que a senhorita Door anunciou que vai contratar um guarda-costas. saboreando o som das palavras. Vestiu-o. Nunca somos feridos. Que bom. — disse ele. A carne se fechou. — “Se alguém nos corta.— Quem era? — Nosso chefe. senhor Croup. O senhor Croup pegou do chão seu velho casaco. Também vestiu seu casaco. Parece que a outra não vai servir. O senhor Croup apagou as luzes. — E daí? O senhor Vandemar cuspiu no dorso e na palma da mão. como costumava saborear o som de todas as palavras. Nós ferimos pessoas. com o cuidado de um anatomista que disseca o corpo de seu único e verdadeiro amor. Seria mais ou menos esse o resumo da ópera.. Hoje à noite. pesado. senhor Vandemar. cicatrizada: a mão estava curada. de fato. onde a faca tinha entrado e saído.. que deveríamos contratar um guarda-costas para nós também. Esfregou o cuspe com seu grosso polegar. Precisa ser a Door. nós não sangramos?” . negro e brilhante de tão velho. não? O senhor Vandemar deslizou a faca de volta para o estojo que ficava em sua manga. senhor Vandemar. Não tem idade suficiente. E. — Então não podemos mais matá-la? — Isso. enfiou as mãos bem fundo nos bolsos e ficou agradavelmente surpreso por encontrar lá um camundongo quase inteiro. No Mercado. Então pensou na última frase do senhor Croup. dando-se conta da falha no raciocínio do parceiro. — Ah. senhor Vandemar. concluiu: — Mas nós não precisamos de um guarda-costas.

. hein? Eu deveria rasgá-lo da garganta à barriga e adivinhar o futuro com suas entranhas — disse o Lorde Falante de Ratês. Posso provar quem eu sou. Um monte de coisas — acrescentou.... Ela chegou até o grupo que estava em volta de Richard. em reverência. ei.. — disse Richard. certeiro: — Não. — Acho que se vocês pensarem um pouco vão perceber que é tudo um grande engano — disse Richard. Richard percebeu. As pessoas na sala continuavam no chão. no escuro. E então respondeu. cartões de crédito. — Olha. enquanto falasse. Um pequeno vulto negro vinha na direção deles. enquanto a pequena coisa se aproximava. *** — Um espião do Mundo de Cima. pelo menos não estava morto. desesperado. Meu nome é Richard Mayhew. Ele não tinha nenhuma idéia do que estava falando: sabia apenas que palavras saíam de sua boca e. embora ninguém tivesse perce- .O senhor Vandemar pensou por um instante.. que do outro lado da sala as pessoas estavam se jogando no chão. essa mala aí é minha! Esta última frase foi dita para uma adolescente magra e desgrenhada que havia pegado a mala de Richard e estava jogando tudo o que ele tinha no chão. com as costas contra a parede e a lâmina de vidro pressionada contra seu pomo-de-adão. — Então por que você não põe isso pra lá e. Tenho meu cartão da biblioteca aqui. de forma muito rude. com a clareza impassível que só surge quando um lunático está prestes a cortar sua garganta com um pedaço de vidro. — Acho que vocês estão meio enganados.

A menina magricela o puxou pelo cotovelo. O roedor balançou a cauda com languidez enquanto examinava seus traços. que mais lembravam gotas de petróleo. . — Talvez sim — admitiu. fazendo “qüi-qüi” e chiando. O rato subiu (com o que parecia ser um certo ar de desdém) na mão suja do Lorde Falante de Ratês. o mendigo. de forma respeitosa. — Ele está dizendo que seu rosto lhe é bastante familiar e deseja saber se já o encontrou antes. Richard era o único que continuava em pé. na frente do rosto de Richard. mostrando os dentes. — murmurou Richard.bido. e ele também se abaixou. Em poucos instantes. Era um rato. — Quieto! — ordenou a magricela. e o homem o segurou. como se ele mesmo fosse um enorme rato. — Este é o senhor Caudalonga. curioso. — Será que alguém pode me dizer.. enrugando o nariz. Olhou para Richard. — Ele diz que estava despachando uma mensagem para o marquês de Carabas. do clã Cinza — explicou o Lorde Falante de Ratês. Todos estavam olhando para ele. Ele teve a impressão bizarra e momentânea de que o bicho piscou para ele com um de seus pequenos olhinhos. depois de hesitar um pouco e com menos jeito. O homem com a adaga de vidro se ajoelhou. Ele guinchou de volta ao rato. que chamavam de Iliaster. Assim também fizeram as pessoas ao redor deles e. O Lorde Falante de Ratês fazia tamanha reverência que seu longo cabelo roçava o chão.. E então o rato guinchou alto. Richard olhou para o rato. O rato olhou para Richard.

O Lorde Falante de Ratês ficou de pé. Grudado em suas roupas esfarrapadas havia um grande adesivo vermelho de papel. Richard nem ligava. nós já nos encontramos. — Quem é que está virando os espetos. — É aquele rato? Sim. Pelo menos havia um rosto conhecido naquela loucura toda. para o Povo do Esgoto. e então pulou do ombro do homem para o chão e desapareceu em algum dos muitos buracos nas paredes. debruçados ao lado das fogueiras. horrorizada. meio manchado. entre algo que parecia um gritinho e o ato de engolir seco. eu joguei o controle da TV nele. O homem pareceu desolado. — Não sei o que vocês estão olhando — gritou. Havia cerca de cem olhos fixos nele. O rato fez “qüi-qüi”. — Ele? — perguntou. O Lorde Falante de Ratês moveu a adaga de vidro de um jeito ameaçador. A magricela até soltou um gritinho. Algumas das pessoas que estavam em volta do grupo pareciam chocadas.. Na verdade. E se eu só cortar o pescoço dele e mandá-lo lá pra baixo. É bom vê-lo de novo.Richard observou o animal mais de perto. dando uma ordem. — Olá. Você sabe onde Door está? — “Ratinho”! — exclamou a garota. O rato guinchou mais uma vez. olhando Richard com desdém. senão por meu intermédio. — Você não deve dirigir a palavra ao senhor Caudalonga. ratinho. num tom imperativo. — Mas não posso poupar ninguém. hein? Vocês querem .. na direção de Richard. do tipo que vem preso aos cartões de aniversário. em letras amarelas: TENHO 11 ANOS. Virou as costas para a parede e olhou para seus súditos. Nele estava escrito.

e ele tentava reativar a circulação massageando-a. Não mesmo. Vocês sabem disso. E o seu? A menina (que. O Lorde Falante de Ratês assentiu. Continuem! Sumam da minha frente! Richard se levantou. eu sei — respondeu Richard. só o suficiente para não serem ouvidos. — Sabe. Vocês falantes de ratês sempre foram bons para mim. — Meu nome é Richard. isso aí ia ser o meu café-da-manhã. É uma viagem muito perigosa. — Você não sabe a sorte que teve. — Sei sim. ansioso. Ela lançou para ele um olhar de culpa. eu é que não vou levá-lo. zombeteiro: — “Ratinho”! O Lorde Falante de Ratês pegou Iliaster pelo braço e os dois se afastaram um pouco. ele percebeu. deu um meio sorriso e disse algo que se parecia bas- . — Bom. A magricela estava engolindo uma das bananas de Richard na demonstração menos erótica que ele jamais vira de alguém comendo uma banana. não sabe. — Ele precisa ser levado ao Mercado. Sua perna esquerda estava formigando. — Sim. — Não. lançando olhares para Richard enquanto conversavam. Iliaster fez que não com a cabeça e cuspiu no chão. já tinha comido grande parte de suas frutas) engoliu o restante da banana e hesitou.que essa gororoba queime? Não há nada para ver aqui. mas eu não posso voltar lá. Então. Guardou a adaga em seu robe e então sorriu para Richard com seus dentes amarelados. e começaram a falar. Ordens do senhor Caudalonga. Então balançou a cabeça e disse para si mesmo. O Lorde Falante de Ratês olhou para Iliaster.

— Eu também — disse Richard. seguida do marquês de Carabas. E se voltou para Richard. A porta estava lacrada sem cuidado. Fiapos de névoa pairavam como fantasmas lívidos no ar. Ele cruzou os braços. — E aí? Diga “Abre-te Sésamo”. Ela assentiu. com tábuas. Gosto. — Uma delas. A menina parecia aliviada com a resposta. Ela lançou um olhar para as pequenas fogueiras ao longo do salão. — Então a entrada é aqui? — perguntou. mas o céu já começava a clarear. ou sei lá o que você . vielas e becos como aquela em Londres. cheia de tábuas. Mesmo o cheiro de mijo ali era o mesmo da época de Pepys. pregos e pôsteres. Os dois pararam e o marquês olhou a porta. Havia mais uma centena de pequenas praças. assumindo uma cor cinzenta e lúgubre. e coberta com pôsteres manchados de bandas esquecidas e casas noturnas há tempo fechadas. e não pareceu muito impressionado — mas ele nunca se impressionava com nada mesmo. Continuou: — Você prefere peito ou coxa? *** A moça chamada Door caminhou pela praça. — Sim. Ainda faltava uma hora para o amanhecer. — Você gosta de gato? — perguntou. três séculos antes. imutáveis há trezentos anos. pequenas ramificações de um tempo antigo.tante com “Anestesia”. sorrindo de novo. — Eu estava com fome.

costuma dizer. . Door o pegou pelo braço. pessoas que preciso encontrar. Fechou os olhos. — Você vai me abandonar? Assim. com a direita. Ela soltou sua manga e mordeu o lábio inferior. mas receio que você não viva o suficiente para ter um futuro. — Você é um caso sério. Ela voltou até a porta e disse: — Bom. mas sem bom humor. Seus pequenos dedos estavam entrelaçados nos grandes dedos dele.. Vou abrir. — Espera um pouco. — Só isso? — Bom. Pronto. — Claro. — Muito bem — disse o marquês. para ele. Sou um homem muito ocupado. pegou a grande mão morena do marquês. Door colocou a mão esquerda sobre a porta e. — Será que devo? Não sei se estamos fazendo a coisa certa. Não precisa mais explicar. o rosto pálido e élfico à luz do alvorecer.. Continuou: — Na última vez em que eu estive aqui. Vamos lá. você viu sua família morta. Deu meia-volta e começou a retornar pelo caminho por onde vieram. então. descruzando os braços. Se não entrarmos. sem mais nem menos? Ele sorriu. — Vejo você por aí. Ela olhou para cima. — e sua voz sumiu. eu poderia desejar toda a sorte do mundo para o seu futuro.. Tenho coisas pra ver. não poderei te ajudar. — Na última vez em que esteve aqui.. não? Ele não respondeu.

estremeceu. feita de mármore e ferro fundido. na Londres-de-Cima. . de estrutura vitoriana. aquela sala tivesse sido demolida e esquecida. Foi quando olhou para baixo.. Seu avô a construíra pegando uma sala ali. abandonada e prestes a ser destruída.. Caminhou pela lateral da velha piscina. rodeado por duas nuvens de sangue. e seu pai adicionara mais aposentos. em toda a Londres. Door não tinha a menor idéia de onde ficavam os aposentos de sua casa no mundo físico.. mas ninguém respondia. mas intrigada pela ausência de sua família. Talvez no mundo exterior. algo sussurrou. O pai dela encontrara a piscina quando era mais jovem. A piscina era interna.. *** — Isso doeu — disse o marquês. aquela cidade à parte e sem portas. Os olhos dele estavam abertos.. e a porta se despedaçou na escuridão. Door percebeu que sua própria boca estava aberta. Era seu irmão. *** A cena ainda estava fresca na memória. — As memórias — explicou ela — estão impregna- . outra acolá. como se estivesse tentando aliviar um torcicolo repentino. mas não enxergavam nada. e então a entrelaçou à Casa Sem Portas. satisfeita por estar em casa. da virilha. Arch. Ele esfregou a testa com força e virou o pescoço. Ela passava suavemente da ante-sala para a sala de jantar... pois acontecera havia poucos dias: Door movia-se pela Casa Sem Portas dizendo “Cheguei!” e “Tem alguém em casa?”. transformou-se. suspensas na água — uma saindo do pescoço e outra. Foi até outro aposento. a sala de estar. Ela podia ouvir-se gritando. a biblioteca. Havia alguém flutuando.

— Eu não o conheci. A quilômetros de distância. — Você podia ter me avisado. O marquês conseguira percorrer toda a sala com vários passos largos e apressados. Todas as paredes tinham diversos quadros. Ela engoliu em seco e continuou. Muito criativo. então. . cada um retratando uma sala diferente. — Vamos começar pelo escritório. falando mais para si mesma do que para ele. Uma casa associativa. Os dois estavam em uma grande sala branca. — A idéia era que ficássemos seguros aqui. Ela fez que sim e disse: — Ele costumava ir para o escritório e manter as ligações entre os cômodos fechadas até terminar de ditar. em que cada aposento está em outro lugar. Ele ergueu uma sobrancelha. — Onde estão os outros aposentos? Ela balançou a cabeça. Door. Por onde começamos a procurar? Door encolheu os ombros. Estão todos ligados. — Você tem certeza de que ele tinha um diário? — continuou ele. A sala branca não tinha portas: nenhuma abertura de nenhum tipo. Estão todos espalhados pelo Submundo. — Espero que o diário do seu pai nos dê alguma pista. — Decoração interessante — reconheceu o marquês. Ninguém poderia nos machucar. imagino. Seu avô era um homem de grande visão. Só minha família era capaz de circular por aqui.das nas paredes. — Notável. — Este é o salão de entrada. Podemos ir daqui para qualquer aposento na casa. — Não sei.

sua silhueta delineada na sala branca cheia de quadros de aposentos. era uma ordem. Procurei em todos os lugares. num tom grosseiro. abraçando a si mesma. que o rato — o senhor Caudalonga — nada dissera sobre devolver as coisas de Richard. que pareciam estar sendo arrancados de dentro dela. soluços baixos. Ele fez que sim e foi até o outro canto da sala. O Lorde Falante de Ratês se mantinha impassível... Os olhos de Door. Era só levá-lo ao Mercado. *** Richard continuava chateado por não ter mais sua mala. só para garantir: — Calma.. ele estaria em apuros. de uma cor estranha. Quando olhou. Mesmo.. o visse de novo. estavam cheios d’água. — Será que. Ele não era muito bom em confortar os outros. sozinha.— Mas eu já procurei lá. Acrescentou mais um. Afirmou. sem jeito. Door ainda estava lá. você pode me dar licença um instantinho? Eu vou ficar bem.. em pé. violentos. tremendo e chorando como uma menininha. sim. calma — disse o marquês. dando leves tapinhas em seu ombro. Quando eu estava limpando o corpo. Reiterou que Richard não tinha idéia da própria sorte e. ignorando os pedidos para que devolvesse suas coisas (ou pelo menos sua cartei- . E para ela parar de choramingar e ir logo. Nisso Door começou a chorar. — Calma.. Então o Lorde disse a Anaesthesia que ela estava incumbida de fazer isso e que. o Lorde Falante de Ratês. Disse a Richard que se ele.

trancou-a. Ele ficou surpreso com a rapidez com que seus olhos se acostumaram à escuridão. levou-os até uma porta. — Não é muito alto — respondeu ela.ra). A grade cedeu subitamente. Quando ele a abaixou. mas. Ela fez um gesto para que Richard passasse por ali. ele achava que via algo se mover nos cantos das salas. — Toma — disse. — Me dá aqui a lamparina. sentado na beirada do buraco. Quando deu mais um passo. — Pode continuar. foi? O rosto dela estava um pouco abaixo dos pés de Richard. tem um buraco aqui. feita com uma vela. Richard e Anaesthesia caminhavam lado a lado na escuridão. A menina-rato se agachou de repente. dando a ele a pequena lamparina. Quando Richard e a menina a atravessaram. Não foi difícil. deixando a menina estatelada no chão. sempre sumia quando chegavam ao local onde o vulto estivera. — Pronto. rato. — Ei — sussurrou —. Anaesthesia atravessou a parede e fechou a abertura atrás de si com a grade. ela só fazia “xiu!”. Se tentava falar com Anaesthesia sobre o assunto. Ela levava uma lamparina improvisada. Sentiu uma brisa fria no rosto. uma lata. Ele se agachou e passou. fosse humano. colocou no chão a lamparina improvisada e puxou com força uma grade de metal que estava numa parede. Então desceu pela abertura e caiu na escuridão. ela teve que pular para pe- . uns fios e uma garrafa de vidro de boca larga. viu que não havia mais chão. Estava perto demais de Richard. Às vezes. ou algo completamente diferente. Parecia que estavam atravessando uma sucessão de salas e porões subterrâneos.

não. Não. Nada aconteceu.. essas coisas... Se você quiser. — Agora podemos falar — disse ela. não tenho tanta sorte... Obrigado. Quer dizer. Quem me dera. Nós falamos com os ratos. Ele ouviu vozes ao longe. — Ah. Richard tremia. — Então. Quando não podiam ouvir mais nada. Você é um rato. — Ah. Espera. — Então. esperou um instante e se soltou.. polegares.. eles não têm dedos. Nós fazemos coisas por eles. Algumas pessoas passaram por eles. ficou bem na beirada. Richard foi um pouco mais para a frente. — Agora desça — sussurrou.. Anaesthesia tirou a mão da boca de Richard. cobrindo o rosto com as mãos. acendeu a vela de novo.gá-la. sou uma falante de ratês. e eles . Então soprou a chama da vela. mas podemos.. certo? Ela deu uma risada de japonesinha. na escuridão e no frio. coberto por uma lama fofa e úmida. meio nervoso. sabe? Quer dizer.. vocês só conversam com eles? — Ah. Mais alguns passos à frente. Anaesthesia abria outra porta. hã. — e o tom de voz dela parecia indicar que aquilo era algo que Richard jamais poderia imaginar se ninguém lhe tivesse dito — existem certas coisas que os ratos não conseguem fazer. — Não em voz alta. Ele não conseguia pensar em nada para dizer. Limpou as mãos no suéter. Os dois ficaram imóveis. Pousou sobre as mãos e os pés no chão. cobrindo sua boca com uma mão suja. Atravessaram e ela fechou a porta atrás deles. falando baixo. Ela pressionou Richard contra a parede de repente.

Também havia as luzes da rua. que cobria o sistema de drenagem e a recém-criada District Line do metrô. pensou ele. Podemos passar por um trecho da Londres-de-Cima. Caminharam e aproximaram-se de um banco de madeira. Richard teve a sensação de que aquele banco era o que ele mais queria na vida. substituindo as bordas lamacentas e malcheirosas que apodreceram em volta do rio nos quinhentos anos anteriores. É um mundo encantado. Todo fogo queima.continuaram a andar. a longa via construída pelos vitorianos ao longo da margem norte do rio Tâmisa. Subiram alguns degraus e a menina empurrou uma porta. e as dos prédios e das pontes. confuso. Assim que os dois passaram. — Sei lá — respondeu. sim. Eu conheço um atalho. Estavam no Embankment. aquele fogo também queimava. — Quem eram? — perguntou Richard. mas o céu era uma festa de estrelas brilhantes e claras de outono. Ele não sabia ao certo quanto tempo tinham andado no escuro. ela se fechou atrás deles. Certeza. Anaesthesia soprou a vela. Richard perguntou: — Tem certeza de que este é o caminho certo? — Sim. Assim que pôs os olhos nele. Confie no que a mamãe diz. Ainda era noite — ou talvez fosse a noite do dia seguinte. que pareciam estrelas terrestres — seu reflexo brilhava e cintilava na água do rio. no subterrâneo. Richard olhou em volta. — Então por que a gente se escondeu deles? Ela o olhou com um ar triste. como uma mãe que tenta explicar para o filho que. A lua não aparecia. Ela encolheu os ombros. sim? — Vamos. .

Um casal que andava lentamente de mãos dadas pelo Embankment chegou ao banco e sentou-se entre Richard e Anaesthesia.. Sentaram-se cada um em uma ponta. — É porque você não existe — explicou Anaesthesia... movimentando-se com entusiasmo. — Certo.. lambendo o rosto dele.. — Na sexta-feira eu trabalhava para uma das melhores firmas de análise de investimento de Londres. E. A mulher e o homem começaram a se beijar com paixão. — Ah. A mão do homem estava dentro do suéter da mulher. Ontem. rindo mais.. satisfeita. — Foda-se ela nada! — retrucou a mulher. foi como se eu não existisse mais para ninguém aqui em cima. Ela assentiu com a cabeça. — respondeu ela. — Ei. só isso. — O que é uma firma de análise de investimento? — Era onde eu trabalhava. como se fosse um viajante solitário descobrindo um continente inexplorado. — Vamos embora — disse Richard para Anaesthesi- .— Posso sentar? Só um pouquinho? Ela deu de ombros. só estou lembrando. — Mas a sua mulher.? — Ah. com uma risadinha meio bêbada. — Eu quero a minha vida de volta — disse Richard ao casal. com licença — disse Richard para eles. — Foda-me você! E colocou a mão no meio das pernas dele. — Eu te amo — murmurou o homem para a mulher. foda-se ela.

Eu tive que ficar com a minha tia. Richard não disse nada.a. — Você quer mesmo saber a minha história? Richard percebeu. que queria muito saber. — disse ela. a minha mãe teve a mim e minhas irmãs. pelada e quebrando tudo. Mas ela não machucou a gente.. quase surpreso. Levantaram-se e saíram caminhando. Pode falar. Mas ela recomeçou: — Bom. — Bom. E quando ela saía de casa. No fim eu contei pra minha tia e ela começou a me bater. Um dia eu voltei da escola e ela estava chorando muito. Anaesthesia olhou para trás. Ela nunca machucava a gente.. Ela remexeu com os dedos as contas rústicas de quartzo do colar que tinha no pescoço e engoliu em seco. está tudo bem. Disse que ia me entregar pra polícia. De verdade. Você sempre morou lá embaixo? — Não. Mas eu não estava . curiosa. Eu não gostava dele. mas aí ficou meio maluca. de qualquer maneira. De verdade. A menina assentiu com a cabeça.. A menina fez uma pausa tão longa que Richard pensou que ela havia parado de falar. Comprimiu os lábios. — Continue. para o casal no banco. A moça do serviço social veio e levou as gêmeas embora. Eu nasci aqui em cima — contou ela. Ela morava com um homem. minha mãe e as gêmeas. Disse que eu estava mentindo. — Nada bem. — Quero sim. — Tudo bem? — perguntou Anaesthesia. — Éramos eu. cada vez mais na horizontal.. os olhos fixos no chão. tudo. e parou de falar. Respirou fundo e recomeçou. ele me machucava. e hesitou. sentindo que o banco tinha se tornado um lugar não muito aprazível. Pratos. Fazia outras coisas também. sem olhar para ele.

pra tudo isso? — perguntou ele.. Morava embaixo de um viaduto em Notting Hill. Todo fogo queima. então comecei a pegar as maçãs e as laranjas podres que as pessoas jogavam fora nas feiras. ponte que vai de um lado ao outro do Tâmisa. Os ratos tinham me achado. E estava tão frio — Anaesthesia fez outra pausa. ligando Battersea e a extremidade do Embankment que fica em Chelsea — uma ponte com milhares de luzinhas brancas. meio hesitante. — Eu não tinha pra onde ir.mentindo. Carros. brincando de passar algumas moedas e ossos velhos que tinha em um dos muitos bolsos de sua casaca . — Não dá. o marquês havia se distraído. Mas aí fiquei muito doente. quando estava um pouco mais quente. Seus olhos estavam vermelhos e ela tinha cara de quem há pouco estivera assoando o nariz bem forte e esfregando as lágrimas dos olhos e das bochechas. estava na Londres-de-Baixo. Odiava fazer aquilo. É um ou o outro. Eles passavam pela Albert Bridge. Era o meu aniversário. e ficava andando de noite. Eu roubava leite e pão que deixavam na porta das casas pra comer. — Você já tentou voltar pra cá. fazendo um gesto para indicar o mundo ao redor. Você vai aprender.. *** — Desculpa — disse Door. Quando acordei. Então eu fugi. Enquanto esperava ela se recuperar. habitadas. — Dormia na rua. Ninguém tem as duas coisas ao mesmo tempo. Casas calmas. de dia. filho. Tinha 11 anos. aquecidas. Ela balançou a cabeça. O mundo real. só pra me movimentar.

E se orgulhava dele. *** Estavam na estufa. Ele lançou um olhar frio. Era igualzinho ao da mãe. direcionando o fluxo de água para a terra na base da planta. feito de aço e pintado de um verde bem brilhante.para lá e para cá sobre os nós dos dedos.a realidade se contorceu. Daí Ingress começou a rir. Quando sua mãe terminava de molhar as plantas. Primeiro vinha Portia.. O marquês colocou as moedas e os ossos de volta no bolso. — Você primeiro — disse ele. *** — Oi. Eu ando correndo. baixinho. regando as plantas. — Mesmo? Ela mordeu o lábio inferior. . Ela colocou uma mão sobre a pintura do escritório de seu pai e pegou a enorme mão morena do marquês com a outra. Essa foi minha primeira chance de. “Molhe os sapatos”. num tranco repentino... Ele a seguiu até uma das paredes com quadros. Não estou triste. me escondendo e fugindo tanto que. Ingress as molhava com seu pequeno regador. “Nos sapatos”. disse ela à mãe. ... até que o astuto senhor Croup puxou o cabelo dela. “Nunca as roupas.” Ingress tinha seu próprio regadorzinho. dizia ela à filha mais nova.. e cortou sua pálida garganta de orelha a orelha. não de verdade. protegendo as folhas e as flores. uma risada espontânea de menininha.. — e parou de falar.. E a mãe riu também. — Não. papai — disse Door.

— Sua mãe.) . pensou o marquês de Carabas.. seu pai. pelo menos. Eu tinha saído para explorar por uns dias. eu acho. acariciando a lateral do rosto. Havia um pequeno retrato da família de Door sobre a mesa. Ela fez uma pausa e engoliu em seco. — Tive sorte. E. Você sabia que ainda há soldados romanos acampados perto do rio Kilburn? O marquês não sabia. Os olhos cor de opala se encheram d’água. Já era um avanço. Eram desertores da 19a Legião. percorrendo com os olhos todos os detalhes. Ingress e Door. O crocodilo empalhado pendurado no teto. Meu latim é meio ruim.Tocou o busto do pai com os dedos.. (N. Como você conseguiu escapar? Ela abaixou a mão. Havia mapas nas paredes.. contemplativo. Quantos? Ela encolheu os ombros. — Algumas dezenas. A última imagem doera. Arch. Um homem fino. quase careca. seus irmãos.. e uma mesa cheia de cartas escritas a mão. um astrolábio. — Pre2 Os nomes de todos os membros da Casa do Arco estão relacionados à  idéia de “entrada”: Portico. Mas. instrumentos científicos estranhos. ele estava no escritório de Lorde Portico2.. Sentia-se meio mal. De qualquer maneira. — Componha-se — disse ele.. espelhos côncavos e convexos. abruptamente. A parede branca atrás da mesa estava manchada de marrom avermelhado. sua irmã. quando eu voltei pra cá. e isso o irritou. O marquês observou a sala. Todos mortos. os livros com capa de couro. César como Próspero. Portia. O marquês olhou para ele. de terras e cidades das quais de Carabas jamais ouvira falar. — Hum.

Parecia confusa. Enquanto isso.cisamos do diário do seu pai. o marquês examinava os objetos sobre a mesa de Portico. Começou a caminhar pelo escritório. Uma pequena estátua de um javali. Door abaixou a mão que estava no rosto. Interessante. um urso acocorado. Temos que descobrir quem fez isso. — Eles são só braços. — Está aqui — ela respondeu. mas ele não sabia o quê exatamente. fechou seus dedos sobre ela. Tanto as visíveis como as ocultas.. Há uma cabeça por trás.. ou talvez um touro. virando a cabeça para um lado e para o ou- . O marquês olhou em volta. e que quer ver você morta também. Não são só esses dois.. que ordenou a coisa. como quem não quer nada. mãos. Ela o fitou com raiva. Um tinteiro. Era difícil dizer. pelo escritório entulhado de coisas. — Não está aqui. Pegou-a. revirou-a. e fora esculpida de modo meio grosseiro em obsidiana. perturbada. — Eu achava que a sua família era hábil em localizar portas. Então fechou os olhos e colocou o indicador e o polegar nas laterais do osso do nariz. várias penas e. A estátua lembrava algo. Ela contraiu o rosto. — Mas nós sabemos quem fez isso. — E o diário dele? — perguntou. — O que houve? — perguntou o marquês. Croup e Vandemar. uma peça de xadrez. um dado feito de osso. dedos. Eu procurei. eu te disse. um relógio de bolso de ouro.. olhando para ele. Ele abriu uma mão e sacudiu os dedos enquanto falava. Tinha o tamanho de uma peça grande de xadrez.

E agora. Door enfiou a mão naquele local escuro e tirou de lá algo que parecia uma pequena bala de canhão. — Não sei como não consegui ver antes. O marquês odiava admitir a própria ignorância sobre qualquer coisa. Passou-a para o marquês. — Ali — disse. Desceram alguns degraus.tro. e depois desceu com ele alguns degraus de pedra. Ele pegou o objeto. E quase nunca me engano. — Existe uma moça chamada Door. mas teve que perguntar: — Como isso funciona? *** Anaesthesia levou Richard para um pequeno parque do lado sul da ponte. Ela parecia séria. Reacendeu a vela na garrafa. Ela é um pouco . — Você estava triste — consolou o marquês. A luz refletia sobre o vidro polido e resplandecia sobre o latão e o cobre. — Eu tinha certeza de que estava aqui. Ela esticou a mão: ouviu-se um clique e um pequeno painel na lateral do armário se abriu. na lateral de um muro.. adornada com cobre polido e lentes de vidro. Ergueu o globo de madeira. — É isto? Ela assentiu com a cabeça. — Muito bem. na escuridão. Door parou em frente a um armário alto. abriu uma porta de marcenaria e a fechou atrás deles. Com discrição. o marquês fez a estátua escorregar para um de seus bolsos internos.. Era uma esfera feita de latão envelhecido e madeira envernizada.

Um rato passou por eles.. — ela hesitou por um instante. não. E para chegar ao local onde vai acontecer hoje.. hã. — Oi — disse Richard. Ela é da Casa do Arco. toda a Londres-de-Baixo cairia sobre o culpado como uma tonelada de esgoto. Para falar a verdade. em um gesto nervoso — . Richard lembrou que o marquês havia dito algo a respeito. não. — Meu senhor — disse ela ao roedor. Anaesthesia parou e fez uma profunda reverência. eu estou com um pouco de medo. — ela mexeu nas contas de quartzo em volta do pescoço. Anaesthesia hesitou por um momento e virou para a esquerda. Você vai rir de mim. — Ah. — Não vou — disse Richard. o que é esse Mercado Flutuante? — É bem grande. Ele se movimenta. O rato também parou. O rato olhou para eles por um segundo e seguiu correndo escada abaixo. — Ah. Tem uma trégua no Mercado.. — Era? Por que não é mais? — Porque alguém os matou. — Bom — continuou a menina —.mais nova que você. A família dela era bem importante. a que baronato ela pertence? — Nenhum. Sei quem ela é. Conhece ela? — Lady Door.. — Medo? Do Mercado? Chegaram ao fim da escada. — Então. — Então está com medo de quê? — De chegar até lá.. — Então — continuou Richard —. sendo sincero. Mas os falantes de ratês raramente precisam ir lá. Se alguém fosse ferido lá. a .. O Mercado acontece cada vez num lugar diferente.

Richard reprimiu a vontade de colocar seu braço em volta dela. ou então queimado. os beliches continuaram nos túneis. A administração municipal fechou aqueles túneis em definitivo no começo da década de 1990. Varney morava no mais profundo dos túneis. As tropas ficavam alojadas ali. *** Os túneis do subsolo tinham sido cavados no começo da Segunda Guerra Mundial. papéis — os segredos mais desinteressantes do mundo. — E onde vai ser? — perguntou. guardados bem abaixo do solo. — Viu? Eu disse que você ia rir. e começou a rir discretamente. Seu conteúdo foi escaneado e gravado em computadores. onde os soldados dormiam. arquivos. E então de- . Foram feitos planos para fundir os túneis e transformá-los num trecho de alta velocidade do sistema de metrô. e sobre seus estrados de arame ficaram caixas de papelão. Empilhara beliches de metal abandonados em frente à única entrada. Anaesthesia parecia estar com medo mesmo. que ficava muito acima. passado por picotadeiras. e seus dejetos precisavam ser impulsionados por ar comprimido para o esgoto. Quando a guerra acabou. Ela se virou para ele. A moça saiu andando. cheias de cartas. — Knightsbridge — repetiu Richard.gente vai ter que passar por um lugar bem terrível. tirou o cabelo que caía nos olhos e lhe disse onde seria. bem abaixo da estação Camden Town. mas nunca deram em nada. As caixas repletas de segredos foram levadas embora. esquecidos. Ambas as laterais dos túneis tinham beliches de metal. milhares de homens.

Fazia suas próprias armas com o material que conseguia encontrar. ameaçadoras. Varney já segurava a espada e estava de pé quase antes de abrir os olhos. pegar ou roubar — peças de carro ou pedaços de maquinários.corou o lugar. Ele dormia sobre uma pilha de trapos. bestas ou balistas. e seus dentes estavam completamente destruídos. Varney deu um passo para trás. espadas e cassetetes. aparecendo na luz. que transformava em ganchos ou canivetes. o que foi um erro. — Hã? — disse Varney. Uma voz fez “Psiu!”. Havia uma faca em sua têmpora. A maioria dos acidentes ocorre dentro de casa. — Senão pode haver algum acidente com a velha faca de matar sapos do senhor Vandemar. não é mesmo. manganelas e trabucos para arrebentar paredes. ao lado da mão. porretes. Ficavam expostas nas paredes ou distribuídas pelos cantos. Começou a baixar a espada. Uma mão enluvada saiu de trás . Tinha o corpo coberto de tatuagens. e a ponta da lâmina estava perto de seu olho. — Surpresa! — exclamou o senhor Croup. — Não é recomendável fazer mais nenhum movimento — observou o senhor Croup. A lamparina a óleo que ficava perto de sua cabeça estava no nível mínimo. com uma espada caseira de dois cortes no chão. senhor Vandemar? — Não confio nas estatísticas — disse a voz monótona do senhor Vandemar. Piscou. roncando e fungando. Olhou em volta. Ele gostava de armamento. Alguém aumentou a intensidade da luz da lamparina. Varney tinha a aparência de um touro sem pêlos e chifres. Não havia ninguém: a pilha de beliches que bloqueava a porta permanecia intacta. com ar prestativo.

longe da faca que estava perto de seu olho. Seus olhos buscavam algo na parede. E disse . acima do senhor Croup. presa a uma corrente. esparramando lascas de concreto e tijolos. Não se virou. e a morning-star passou por ele e foi bater no chão. Ele simplesmente mexeu a cabeça. Dizem que sou o melhor desde a época de Hunter. — É pra machucar? — perguntou ao parceiro. — Responda alto. Varney se jogou no chão. devagar. Era seu Dom. A morning-star voou na direção da cabeça do senhor Croup.. esmagou sua espada e jogou o metal retorcido no chão. Depois disse: — Varney é o melhor assassino e guardião do Submundo. O senhor Croup não olhou para cima. no canto mais distante da sala. — Estão dizendo que uma certa mocinha vai procurar um guarda-costas esta noite. Sim... Varney pegou a morning-star. Primeiro ele esmagaria o crânio dele.. lá estava: a morning-star. Varney? — perguntou o senhor Croup.... imagino. — Bem.. uma bola de madeira cheia de espinhos feitos de pregos. — Como vai você.de Varney. com uma rapidez absurda. Você já pensou em se candidatar? — indagou o senhor Croup. Em forma. O senhor Vandemar levantou Varney com apenas uma mão. leve e faceiro para o Mercado hoje à noite? Você sabe quem somos? Varney fez um gesto que se aproximava ao máximo de assentir com a cabeça sem na verdade mover nenhum músculo. Ele sabia quem Croup e Vandemar eram. tirando sujeira dos dentes (que mais pareciam túmulos) com o dedo. O senhor Croup balançou a cabeça: ainda não. Tirou-a do gancho e a levantou até o teto do túnel. Ele posicionou a morning-star nas sombras. e então cuidaria de Vandemar. Com cuidado. Com o poder da mente.

para Varney: — Nada mau. *** Era uma máquina de porte considerável. vidro. é isso? — Sim. E então. Clinc. cobre. — Ótimo — respondeu o senhor Croup. mas quando nós dois a quisermos. não se esqueça de uma coisa. Entendeu? Varney percorreu seus cacos de dentes com a língua. — Sem problema. queremos que você vá ao Mercado hoje à noite. Então. com a mão livre. Você pode protegê-la do resto do mundo. “melhor assassino e guardião”... se você não fizer o que o senhor Croup mandou. — Ah. Queremos que faça o que for preciso para ser o guarda-costas dessa tal moça. feita de nogueira e carvalho polidos. mas elegante. e jogando os pedaços de metal retorcido no chão. Estava despedaçando a corrente. — Então vou trabalhar para vocês. latão. marfim esculpido. mas não temos nenhuma qualidade boa para compensar. antes de — clinc — te matar. elo por elo. prismas de quartzo e roldanas. — Clinc — Nós estamos te intimidando. — Bem-vindo ao clube. espelhos. é isso — disse o senhor Croup. — Você está me chantageando? O senhor Vandemar pegou a morning-star do chão. vamos pegá-la. — Clinc — E. — respondeu Varney. nós vamos — clinc — te machucar — clinc — de um jeito horrível. quando conseguir o emprego. molas e engrenagens de latão. — É uma pena. A coisa era bem maior que . — Não — respondeu o senhor Vandemar.

“e ainda assim tão distantes. “. E há aqueles. dizia. Ela começou a girar. dizia o pai dela..” — Você não pode acelerar? — perguntou o marquês. Sua voz parecia vir de séculos atrás. Mexeu em uma alavanca de marfim na lateral: a imagem se desfez em . Door olhava fixamente para a tela. mesmo assim”.uma televisão grande.. que habitamos o mundo subterrâneo e o intermediário.. que duas cidades pudessem estar tão próximas”. não de dias ou semanas... nós. que habitamos as fendas e as fissuras”. “Não estou sozinho nessa crença. A geringonça parecia uma mistura de televisão e videocassete. Outros querem que a situação piore. E era mais ou menos isso mesmo. uma voz falha saía da corneta: “. Uma lente de aumento colocada sobre ela ampliava a imagem. os que possuem tudo acima de nós e os que nada possuem. com cores vívidas. Há aqueles que vêem as coisas como elas são. — Observe — disse Door. Ele tossiu. O sistema de baronatos e feudalismo é sectário e tolo”. Um rosto aristocrático surgiu na pequena tela. Luzes brilharam da máquina para dentro da bola. se essas coisas tivessem sido inventadas trezentos anos antes por Isaac Newton. “acredito que o problema do nosso povo — os habitantes do Submundo — são nossas picuinhas partidárias. embora sua tela não tivesse mais de seis polegadas. — Achar a última gravação? Door fez um gesto positivo com a cabeça. o rosto inescrutável.. Meio fora de sincronia. Lorde Portico estava usando um smoking gasto e um solidéu. Ela colocou a bola de madeira sobre uma plataforma. Havia uma enorme corneta de latão saindo de uma das laterais — daquelas que adornavam os antigos gramofones.

Havia um corte profundo na lateral de sua cabeça. Procure Islington. E então um arco de sangue vívido espirrou. Vingue sua família. Sem limpar o rosto. — Obrigada.. Dessa vez Portico estava sem solidéu e vestia um longo casaco.?” E saiu do recorte da câmera. Door torceu de leve uma maçaneta na lateral da máquina. nervoso... Ela limpou o rosto e assoou o nariz com força. “O que. ouvindo suas palavras. Falava num tom apressado. Por um instante.. passando-lhe um lenço. Crack. quem quer que seja.” O gramofone fez um barulho alto. as coisas estão péssimas. Ele o limpou com a mão. Crack. — Tome — disse o marquês.fragmentos e reapareceu em seguida. leve-a para minha filha. e ele não estava mais sentado à sua mesa.. Ela parecia não se dar conta de que estava chorando. Sangue caía de sua testa para seus olhos. “Não sei quem verá esta mensagem ou quem vai achá-la. Você precisa confiar nele. brilhando enquanto escorriam pela face. diferente. você pode confiar em Islington. O som e a imagem começaram a piorar... Não sei quanto tempo tenho antes que eles encontrem esta sala. a parede branca atrás dela. Zip.” A imagem saiu de foco. O marquês lançou um olhar para Door. a imagem permaneceu igual: a mesa. A voz continuou: “Door? Filha. Mas... O rosto dela estava molhado: as lágrimas brotavam de seus olhos. “Escute o que estou dizendo. desligando a tela. por favor. manchando a parede.” Um pouco de estática surgiu na tela e abafou o som. e virou-se. ficava apenas olhando a imagem do pai. Portico virou a cabeça para o lado. “Door? Nos vingue. em voz baixa.. se ela sobreviver. Ficou . confuso. Lady Door. Acho que sua mãe e seus irmãos estão mortos”.

Ele se inclinou sobre a mesa. — Era do meu pai. E o senhor Tempo não está do nosso lado.. O marquês observou as emoções percorrerem o rosto de Door: uma raiva contida seguida de resignação.. deixou-o deslizar para dentro do bolso.olhando o vazio. — Não há ninguém desde Hunter que teria a mínima chance. — foi tudo o que ela disse. os olhos de cor estranha muito brilhantes. Ela assoou o nariz mais uma vez e enfiou as mãos nos bolsos de seu casaco de couro. — Belo objeto — observou. — Pensei que fosse só uma lenda. ajustando a corrente de ouro. — O que você está fazendo? Esse é o relógio do meu pai. Fica bem elegante. Prendendo o gancho da corrente do relógio em seu colete. seu delicado rosto contorcido. — Pronto. pegou o relógio de bolso dourado e o abriu com o dedo. Não. — É melhor irmos. — Você acredita mesmo que podemos achar um guarda-costas capaz de dar conta de Croup e Vandemar? O marquês sorriu. mostrando seus dentes brancos. Virou-se para ele. — É hora de ir para o Mercado. até que disse: — Islington. Logo vai começar. — De jeito nenhum. não é? — ele respondeu. O marquês fechou o relógio com um “clique”. — Ele não vai mais usá-lo. Ela assentiu. É melhor apostarmos em alguém que pelo menos lhe dê tempo para fugir. — Eu nunca negociei com ele — comentou o marquês. .

É assim que se vive aqui embaixo. Richard ficou se perguntando quem a teria construído. A gente ficou lá dentro. Mas não havia nenhum céu acima nem água abaixo — ela se erguia na escuridão. — É. alguma coisa. O último a que eu fui aconteceu naquela torre grande com o relógio. — Mas você disse que já foi até esse Mercado — disse ele. Ele ficou impressionado com o fato de ainda estarem sob Londres — tinha a impressão de já terem andado até o País de Gales.. intrigado. e sua luz dava um aspecto assustador às paredes.. onde estavam todas as engrenagens. Eu já falei. — Estou morrendo de medo — continuou ela. A terceira vela já queimava.*** — A Ponte não está muito longe — comentou Anaesthesia. — É o Mercado Flutuante. A passagem parecia ser interminável.. Foi caro? — Eu troquei por algumas coisas. Viraram uma esquina e viram uma ponte. Ficou pensando como algo . pensou Richard. Richard esperava que fosse verdade. E o outro foi no. — Nunca atravessei essa ponte. ele se mexe. — É lindo. Ela ergueu seu colar. — Big Ben? — sugeriu ele. levando para o vazio da noite. e foi lá que eu consegui isto. feito criança. bobo. Ela sorriu. e quando. Poderia ser uma daquelas que existiam sobre o Tâmisa há quinhentos anos.. A gente troca coisas. Era uma enorme ponte de pedra sobre um grande abismo negro. Big. pode ser. A luz da vela jogou um brilho amarelo sobre o quartzo cintilante. Fica em lugares diferentes. — Você acha legal? — perguntou.

Atrás estavam dezenas de homens e mulheres: pessoas que pareciam estar indo para uma festa a fantasia com roupas improvisadas. — Como é que é? Isso é absurdo! Uma coisa pode estar ou não num lugar. mostrando os dentes e sibilando como um ratinho zangado e encurralado. pulando e sibilando. com tatuagens grosseiras. então. Richard encontrara um rato numa vala perto da rua. Ouvia-se um murmurinho atrás dele. — Tem alguém no meu caminho — reclamou Varney. Sentiu um frio na boca do estômago. e Anaesthesia fez que não com a cabeça. vestido com roupas improvisadas feitas de couro e borracha. Deu-se conta. e alguém empurrou Richard para o chão. Anaesthesia estava entre Richard e Varney. surpreso com o fato de que um ser tão pequeno tivesse tamanha disposição para enfrentar algo muito maior do que ele. Varney deu um passo para trás e cuspiu nos . Ela balançou a cabeça. que pareciam ser restos de interiores de automóveis. Ponto final. Ele olhou para cima: um homem grande. mas mesmo assim o encarou com coragem. Agora. de que estava morrendo de medo da ponte. Quando o rato o viu. — Alguém precisa ver por onde anda. olhava para ele. impassível. — A gente pode chegar ao lugar onde vai ser o Mercado. Richard recuou. mas ele não estaria lá. Certa vez. voltando da escola quando era criança. que não estava de muito bom humor. ergueu-se sobre as patas traseiras.assim poderia existir sob Londres sem que ninguém soubesse. — Não dá para ir por outro caminho? Eles já estavam numa das extremidades da ponte. Ela parecia uma verdadeira anã perto daquele homem enorme. o que deixou o garoto muito assustado. — A gente precisa atravessar essa ponte? — perguntou.

— Meu nome é Richard Mayhew. — Quanto mais gente. Sua mente estava muito confusa para entender que lugar era aquele. Até eles estavam com medo. levando consigo a multidão. A mulher vestida de couro olhou para Richard de alto a baixo: — Você vem da Londres-de-Cima. mais seguro. Richard não conseguiu identificar o sotaque. É ela quem sabe o que temos que fazer. até sumir no escuro. eu vou junto — disse uma voz feminina. Você é bem-vinda. — Eu não sou corajosa de verdade. a mulher mais linda que Richard vira na vida. se quiser — disse ele. em pé. mas pelo menos era capaz de seguir as regras. saborosa como mel. ainda tenho medo da ponte. — Tudo bem? — perguntou Anaesthesia. Esta é a Anaesthesia. depois de hesitar um instante. Tinha ainda um cajado. com cabelos castanhos compridos e pele cor de caramelo. Usava roupas de couro colorido. A menina-rato se encheu de orgulho. encabulada. uma mulher alta. atravessou a ponte. uma faca no cinto e uma lanterna presa ao pulso. ajudando Richard a se levantar. — Se vocês forem atravessar a ponte.sapatos de Richard. Carregava uma surrada bolsa de couro em um ombro. Virou-se e. Ela era. ele pelo menos estava aprendendo a jogar de acordo com as regras. sem a menor dúvida. — Estou viajando com uma falante de ratês. — Tudo. atrás deles. ou por que estava ali. Palavra . Ela olhou para baixo. É por isso que foram todos juntos. Virou-se e viu ali. — É. Por mais perdido que se sentisse naquele estranho mundo. É mais seguro com mais gente. malhado de cinza e marrom. Você foi bem corajosa.

A cada passo que davam a luz da vela ficava mais fraca. — Obrigado. e sim como se a escuridão estivesse 3 No original. real. Anaesthesia deu a Richard a lamparina feita de vela.) . deve ser divertido. movendo-se. Escorregou por sua boca. Sentia a escuridão tocar sua pele. Eles colocaram os pés sobre a Ponte da Noite. explorando. Ele a segurou firme. Ele se deu conta de que o mesmo acontecia com a lanterna da mulher.. (N. não? Andaram na direção da ponte.  Night’s Bridge. Richard olhou para a mulher vestida de couro e perguntou: — Existe mesmo algo a temer na ponte? — Só a escuridão. — Bem — continuou a mulher —.de honra. muito mais do que a simples ausência de luz.. Por isso Richard confundiu o lugar para  o  qual caminhavam com o pacato bairro londrino de Knightsbridge. Não era exatamente como se as luzes estivessem se apagando. por trás de seus olhos. para dentro de seus pulmões. e Richard começou a entender a escuridão como algo sólido. E. de um jeito meio desafiador. Ela sorriu para ele. A pequena mão de Anaesthesia procurou a de Richard. — Quem é você? A quem deve lealdade? A mulher sorriu. deslizando por sua mente. Algum de vocês já cruzou a Ponte da Noite3 antes? Anaesthesia fez que não. apertando mais sua mão. — Não devo lealdade a ninguém. — Toma. — Sou a guardiã dele — disse Anaesthesia. menina-rato.

algo se contorcendo. Richard piscou e abriu bem os olhos. pedir desculpas. Sons. Um passo depois do outro. — O que está acontecendo? — murmurou Richard. quando os homens ficavam amontoados juntos. embaixo da ponte. Colocou as mãos para cima: não havia nada lá. em busca de segurança e calor. — O que foi isso? — gritou Anaesthesia. Um som de algo correndo pelo chão. Richard tinha impressão de que estava ouvindo vozes. Todos os pesadelos surgidos quando o sol se punha. *** Ele viu um vulto vindo em sua direção na escuridão da noite. mas não fazia diferença para o que ele sentia ou via. olhando para o nada — nada além da mais completa escuridão. Ele queria gritar. Os sons ficavam mais terríveis. cegado pela noite. Ele era criança. Jessica olhou-o com desprezo. estão acontecendo. Sua mão puxava a de Richard.. Ele piscou. desde o tempo das cavernas. à noite. as asas e os cabelos em chamas. Fechou os olhos. Richard sabia que algo estava prestes a tocar seu rosto. como se viessem de uma multidão de trasgos deformados. por uma es- .se acendendo. indo da escola para casa. queimando. Algo deslizou por eles no escuro. E agora é a hora de ter medo do escuro. A noite havia chegado por completo. — Silêncio! — sussurrou a mulher.. mais famintos. — A escuridão — respondeu a mulher de couro. — Não o atraia para cá. Foi aí que as alucinações começaram. — A noite está acontecendo.

trada escura. Não importava quantas vezes passasse por ali — nunca ficava mais fácil, nunca ficava melhor. Estava nas profundezas do esgoto, perdido num labirinto. A Besta aguardava por ele. Podia ouvir uma goteira pingando lentamente. Sabia que ela estava à espera. Pegou sua lança... E então ouviu um rugido ensurdecedor, bem do fundo da garganta, atrás de si. Virou-se. Devagar, devagarzinho, a Besta partia para o ataque na escuridão. E atacou. Ele morreu. Continuava a andar. Devagar, devagarzinho, a Besta corria em sua direção, repetidas vezes, no escuro. *** Uma faísca e um brilho tão claro que doía na vista surgiram. Richard Semicerrou os olhos e cambaleou um pouco. Era a chama da vela dentro da garrafa. Nunca imaginara que uma única vela pudesse emitir uma luz tão forte. Ergueu a lamparina improvisada, tossindo e tentando recuperar o fôlego, trêmulo de alívio. Seu coração batia feito um tambor. — Parece que conseguimos — disse a mulher vestida de couro. O coração de Richard batia tão forte que, por alguns instantes, ele não conseguiu falar. Forçou-se a respirar lentamente, a se acalmar. Estavam numa grande ante-sala, exatamente igual àquela que havia do outro lado. Richard tinha a estranha sensação de que era a mesma sala que tinham acabado de deixar, mas a escuridão era mais forte. Havia imagens flutuando nas suas retinas, como as provocadas por um flash de câmera fotográfica.

— Acho que não passamos por nenhum perigo real... Foi como um trem fantasma. Alguns ruídos no escuro... e a imaginação fez o resto. Não havia nada de verdade a temer, certo? — perguntou ele, hesitante. A mulher lhe lançou um olhar quase de pena, e Richard se deu conta de que ninguém segurava sua mão. — Anaesthesia? Na escuridão, do topo da ponte, veio um ruído suave, como um suspiro. Várias contas irregulares de quartzo rolaram até eles. Richard pegou uma delas. Era uma das contas do colar da menina-rato. Abriu a boca, mas não conseguiu emitir som nenhum. Então reencontrou sua voz. — É melhor... A gente precisa voltar. Ela... A mulher ergueu a lanterna, iluminando a ponte. Richard pôde ver toda sua extensão. Não havia ninguém. — Onde ela está? — perguntou Richard. — Ela se foi — respondeu a mulher, sem emoção na voz. — A escuridão a levou. — Precisamos fazer alguma coisa — disse ele, agoniado. — Como o quê? Richard abriu a boca de novo. Só que, dessa vez, ele não tinha palavras. Fechou a boca. Mexeu na conta de quartzo com o dedo, olhou para as outras no chão. — Ela se foi — repetiu a mulher. — A ponte faz suas vítimas. Agradeça por não ter te levado também. Agora, se você quer ir ao Mercado, é por aqui, subindo. Ela apontou para uma passagem estreita e escura à frente deles, mal iluminada pelo feixe de luz da lanterna. Richard não se mexeu. Sentia-se entorpecido. Não conseguia acreditar que a moça-rato havia desaparecido (que estava perdida, fora capturada, perambulava por aí, ou...) e menos ainda que a mulher vestida de couro agia

como se nada de anormal tivesse acontecido — como se aquilo fosse completamente comum. Anaesthesia não podia estar morta... Completou o raciocínio. Anaesthesia não podia estar morta porque, se estivesse, seria culpa dele. Ela não tinha pedido para acompanhá-lo. Segurou a conta de quartzo bem firme na mão, tão firme que machucou a palma, pensando no orgulho com que Anaesthesia mostrara o colar para ele, no quanto ele tinha se afeiçoado a ela nas poucas horas que passaram juntos. — Você vem? Richard ficou ali na escuridão, ouvindo seu coração bater por alguns segundos, e então colocou a conta de quartzo com cuidado no bolso da calça jeans. Seguiu a mulher, que estava alguns passos à frente. Enquanto a seguia, percebeu que não sabia o nome dela.

CINCO
AS PESSOAS PASSAVAM COMO SE DESLIZASSEM PELA ESCURIDÃO QUE as envolvia, segurando lamparinas, tochas, lanternas e velas. Richard se lembrava daqueles documentários sobre cardumes de peixes brilhando e nadando rápido nas águas profundas do oceano, habitadas por seres que já não precisavam de olhos. Ele subiu uma pequena escada, seguindo a mulher de couro. Os degraus eram feitos de pedra e enfeitados com metal. Estavam numa estação de metrô. Juntaram-se a uma fila de pessoas que esperavam para passar por uma abertura de uns trinta centímetros em uma grade onde havia uma porta que levava até a calçada. Bem na frente deles havia dois meninos, cada um com um barbante preso no pulso. Um homem careca, pálido e cheirando a formol segurava os fios. Logo atrás deles estava um homem de barba cinzenta, com um gatinho preto-e-branco sobre o ombro. O gato ora se lambia, ora lambia a orelha do dono. Depois, aconchegou-se e dormiu. A fila andava devagar, enquanto as pessoas passavam, uma a uma, pelo buraco na grade e saíam para a noite. — Por que você está indo para o Mercado, Richard Mayhew? — perguntou a mulher de couro, em voz baixa. Richard ainda não sabia de onde era seu sotaque, mas começava a suspeitar que fosse da África ou da Austrália — ou talvez a mulher viesse de um lugar ainda mais exótico e sombrio. — Espero encontrar alguns amigos meus lá. Bom, na verdade, só uma amiga. Não conheço muita gente deste mundo. Estava começando a conhecer a Anaesthesia, mas...

— parou de falar. E fez a pergunta que não ousara fazer até aquele momento: — Ela morreu? A mulher encolheu os ombros. — Sim. Ou algo do tipo. Mas acho que sua ida ao Mercado vai fazer com que essa perda tenha valido a pena. Richard estremeceu. — Acho que não. Sentia-se vazio e completamente sozinho. Estavam chegando ao primeiro lugar da fila. — O que você faz da vida? — perguntou ele. Ela sorriu. — Vendo serviços físicos particulares. — Ah. Que tipo de serviços físicos? — Alugo o meu corpo. Ela não deu mais detalhes. — Ah. Ele estava cansado demais para pressioná-la a explicar o que queria dizer com aquilo, mas fazia uma idéia do que era. Quando saíram na noite, Richard olhou para trás. A placa na estação dizia KNIGHT’S BRIDGE. Ele não sabia se sorria ou ficava triste. Parecia ser o começo da madrugada. Richard olhou para seu relógio de pulso e não ficou surpreso ao perceber que o mostrador digital estava completamente apagado. Talvez a bateria tivesse acabado, pensou ele, mas era mais provável que o tempo na Londres-de-Baixo tivesse somente uma leve semelhança com o tempo a que estava acostumado. Mas ele não se importou. Tirou o relógio do pulso e jogou-o na lata de lixo mais próxima. Aquelas pessoas estranhas atravessavam juntas a rua e passavam pelas portas duplas à sua frente. — Ali? — perguntou Richard, com receio. A mulher assentiu.

— Ali. O prédio era grande, coberto de milhares e milhares de luzes acesas. Brasões ostensivos na parede anunciavam com orgulho que ali se vendia todo tipo de Mercadoria, por recomendação de diversos membros da Família Real Britânica. Richard, que já tinha passado vários fins de semana com os pés doloridos, seguindo Jessica por todas as lojas sofisticadas de Londres, reconheceu o lugar imediatamente, mesmo sem a grande placa que o identificava como... — Harrods? A mulher fez um gesto com a cabeça. — Mas só esta noite. O próximo Mercado pode ser em qualquer lugar. — Mas... mas... é a Harrods — balbuciou Richard. Parecia quase um sacrilégio ir àquele lugar à noite. Entraram pela porta lateral. O local estava escuro. Passaram pelo bureau de change, pela seção de pacotes, por uma sala com óculos de sol e chegaram à Sala Egípcia. As cores e as luzes atingiram Richard como uma onda atinge a praia. Sua companheira se virou para ele. Ela bocejou, tapando o rosa vivido da boca com o dorso da mão cor de caramelo. E então sorriu: — Bom... aqui estamos. Mais ou menos sãos e salvos. Eu preciso fazer umas coisas. Tchau. Fez um gesto cortês e solene com a cabeça e desapareceu na multidão. Richard ficou lá parado, sozinho em meio às pessoas, tentando entender. Era uma completa loucura, disso não havia a menor dúvida. A multidão falava alto, impetuosa, insana — e tudo aquilo era, em muitos aspectos, uma maravilha. As pessoas discutiam, pechinchavam, gritavam, cantavam. Apregoavam e mostravam seus produtos, proclamavam alto o quanto suas Mercadorias eram superiores às

outras. Havia música — dezenas de tipos diferentes, tocadas de dezenas de modos diferentes, com diversos instrumentos, a maioria deles improvisados, impossíveis, impagáveis. Richard sentia cheiro de comida. Vários tipos de comida — o cheiro de curry e outros temperos parecia predominar, mas era possível sentir carnes e cogumelos sendo grelhados. Havia vendinhas erguidas em toda a loja, perto de balcões (ou até mesmo sobre eles) que durante o dia expunham perfumes, relógios, pedras de âmbar ou echarpes de seda. Todo mundo comprava. Todo mundo vendia. Richard podia ouvir os gritos assim que começou a perambular pela multidão. — Sonhos fresquinhos, maravilhosos! Pesadelos de primeira classe! Aqui você acha! Pesadelos maravilhosos só aqui! — Armas! Tenha sua própria arma! Defenda seu porão, sua caverna, seu buraco! Quer acertar alguém? Temos a solução! Venham, venham! — Lixo! — gritou uma mulher velha e gorda, perto da orelha de Richard, enquanto ele passava pela barraca fedorenta. — Porcaria! Nojeiras! Sobras! Dejetos! Podem vir que aqui tem! Nada inteiro, tudo com defeito! Restos, entranhas, montes de bagulho inútil! Você sabe que precisa! Um homem de armadura batia em um pequeno tambor e cantava: — Bens perdidos. Venham ver, venham ver com seus próprios olhos! Objetos perdidos! Não temos nenhum achado. Garanto que são objetos perdidos! Richard andava pelas grandes salas da loja como se estivesse em transe. Ele nem sequer conseguia imaginar quantas pessoas havia ali no Mercado. Mil? Duas mil? Cinco mil? Uma barraca tinha garrafas cheias e vazias, de todas

as formas e tamanhos, desde vasilhames de bebida até uma grande e de brilho fosco que só poderia ter sido o lar de um gênio. Outra vendia lamparinas com velas feitas de vários tipos de cera e gordura animal. Um homem enfiou à frente de Richard, enquanto ele passava, o que parecia ser uma mão de criança decepada segurando uma vela, e resmungou: — Mão da Glória, senhor? Põe qualquer um para correr até chegar em Bedfordshire. Garanto que funciona. Richard se afastou dele bem rápido, sem querer saber o que era nem como funcionava a Mão da Glória. Passou por uma tenda que vendia jóias brilhantes de ouro e prata, outra que comercializava jóias feitas com o que parecia ser válvulas e fios de rádios antigos. Havia barracas que vendiam todo tipo de livros e revistas; outras expunham roupas — velhas roupas remendadas, costuradas e estranhas; diversos tatuadores; algo que (ele tinha quase certeza) era um pequeno mercado de escravos (e saiu logo dali); uma cadeira de dentista, com uma broca de operação manual e uma fila de pessoas infelizes ao lado dela, esperando para ter seus dentes arrancados ou obturados por um jovem que parecia estar se divertindo muitíssimo; um homem velho e curvado vendendo coisas inimagináveis, que poderiam ter sido chapéus ou até artigos de arte moderna; algo que se parecia muito com um chuveiro portátil... A cada barraca por que passava, sempre havia alguém vendendo comida. Em algumas as pessoas cozinhavam sobre fogueiras improvisadas: curry, batatas, castanhas, enormes cogumelos, pães exóticos. Richard ficou se perguntando como toda aquela fumaça não acionava o sprinkler do prédio. Depois se pegou imaginando por que ninguém estava roubando os artigos da loja. Por que montavam suas próprias barraquinhas? Por que simplesmente não pegavam as coisas que já existiam na Harrods? Aquela altura ele es-

concluiu Richard.. portanto. não se podia confiar. vestindo ternos e luvas pretas que lhes davam um ar ameaçador. pessoas albinas em roupas cinzentas e óculos escuros. indivíduos de cabelo desgrenhado que provavelmente moravam no esgoto e tinham um cheiro horrível. iam embora. desculpavam-se por não saber a resposta. Ele tentou delimitar os grupos mais distintos: havia aqueles que pareciam ter saído de uma peça de teatro de época. Richard ficou se perguntando como a Londres normal — a sua Londres — seria vista por um estrangeiro. e centenas de outros tipos. estou procurando um homem conhecido por marquês de Carabas e uma moça chamada Door. homens chiques.tava esperto o suficiente para não perguntar isso a ninguém.. Seus dentes tinham sido lixados para ficar pontudos. Você sabe. Ou ficaria sempre marcado como um homem que vinha da Londres-de-Cima e em quem. Richard foi levantado por uma mão que era do tamanho da cabeça de uma ovelha e seu rosto ficou tão próximo daquela boca que ele quase vomitou.. . — Estou procurando uma moça chamada Door. desviavam os olhos. Richard deu um passo para trás e pisou no pé de alguém. mulheres enormes e quase idênticas que andavam juntas em grupos de duas ou três e se cumprimentavam com a cabeça sempre que se viam. os que lembravam hippies.... A coisa media mais de dois metros de altura e estava coberta de tufos de pêlo arruivado. Começou a perguntar às pessoas que passavam: — Com licença. Sabe onde posso encontrá-los? As pessoas balançavam a cabeça. e isso o fez adotar uma postura mais ousada. Existia algo muito tribal naquela gente. — Desculpe — balbuciou.

— Tenho gralhas.Mas a coisa o jogou no chão e continuou andando. mastigando os biscoitos lentamente. não queria ou apenas não ia falar. para fazê-la durar. — O senhor precisa de um pássaro? — perguntou uma voz alegre. quando ele pegou a comida. Inteligentes e saborosos. Uma maravilha. A mulher de cabelo escuro da barraca de comida a que ele se dirigiu não chegava à sua cintura. Quando terminou o último. e Richard. Outra brisa cheirando a comida passou por ali. bem próxima. uma música que tinha a letra de “Greensleaves” com o ritmo de “Yakkety-Yak” —. Decidiu ir mais devagar. — Não. sabe-se lá por quê. ela balançou a cabeça e colocou um dedo sobre os lábios. ouvindo a música — alguém cantava. A refeição lhe custou uma caneta esferográfica e uma caixinha de fósforos de hotel. corvos e estorninhos. A placa pintada à mão sobre a barraca anunciava: . Quando Richard tentou falar. Richard teve então que negociar com sinais uns sanduíches de alface com queijo cottage e um copo do que parecia ser limonada. deu-se conta de que não tinha a menor idéia do gosto do que acabara de comer. Tomou a limonada em pequenos goles. Pássaros ótimos e inteligentes. Richard ficou parado no meio da multidão. ela acrescentou alguns biscoitos pequenos de nozes. da qual ele nem se lembrava mais. observando aquele bazar bizarro se desdobrar à sua frente. que tinha conseguido esquecer a fome desde que recusara carne de gato de primeira (não saberia dizer há quantas horas isso ocorrera). e virou-se. estava com água na boca e sem conseguir raciocinar direito. obrigado — respondeu Richard. Ela não podia. enquanto comia seus sanduíches. A mulherzinha deve ter achado que levou grande vantagem na troca. porque.

Lembra de mim? Ergueu a mão para cumprimentá-lo em um aperto vigoroso. Eu te conheço. — Puxa.OLD BAILEY — PÁSSAROS E INFORMAÇÕES Havia outras placas menores espalhadas: A GENTE SABE QUE VOCÊ QUER E NÃO VAI ACHAR EM LUGAR NENHUM UM ESTORNINHO TÃO GORDINHO! e também QUANDO CHEGOU A HORA DE TER UMA GRALHA. Observou-o atentamente. na verdade eu estou procurando o marquês. Talvez eles estejam juntos — disse Richard. ovos. O velho ainda usava o casaco com penas. — Deseja informações.. vestindo uma daquelas placas de homem-sanduíche pintadas à mão. carne. — Espere aí. satisfeito com sua própria voz de vendedor. Piscou para Richard.. então? — continuou Old Bailey. . Pássaros pulavam e batiam as asas em pequenas gaiolas. — Mapas de telhados? História? Conhecimentos secretos e misteriosos? Se eu não sei. E uma moça chamada Door. colocando os óculos pendurados no pescoço com um barbante. então é porque a coisa se perdeu no tempo. CHEGOU A HORA DE FALAR COM OLD BAILEY! Aquilo fez Richard lembrar o homem que vira na primeira vez que fora a Londres: ele ficava de pé do lado de fora da estação Leicester Square. No telhado. Você estava com o marquês de Carabas. que pareciam ter sido feitas com antenas de TV retorcidas. queijo e evitando ficar muito tempo sentado”. com o seguinte conselho: “Sinta menos volúpia comendo menos proteína. ainda estava envolto em cordas e cordões. Lembra? Hein? Eu sou o Old Bailey. Palavra de honra. feijão.

Eles estão fazendo testes. por aquela porta. Elas têm gosto de sapato. Disso ele tinha certeza absoluta. — Informação! Informação! — anunciou ele para a sala apinhada de gente.O velho deu uma dançadinha. Fora um presente da tia Maude no seu último aniversário. tentando manter o ritmo do raciocínio louco do velho. E acabo de trocar minha caneta. Old Bailey pegou o lenço e o agitou sobre a cabeça. — Não é da tua conta — disse Old Bailey para a . — O que você vai me dar? — perguntou Old Bailey. triunfante. O velho começou a puxar o que havia no bolso de Richard. — Sua busca chegou ao fim. maliciosa. feliz. O cozido fica grosso feito mingau. Old Bailey apontou para a enorme praça de alimentação da Harrods. É preciso diversificar. Não tem como não achar os dois. — Ahá! Isto aqui! — Meu lenço? Não era um lenço muito limpo. Vá por ali. — Como? — Richard sentia-se como se estivesse pulando de lá para cá. Uma gralha grasnou. fazendo com que várias penas se soltassem do casaco. O que você me dá em troca? — Não tenho dinheiro. meu amigo — cantou ele. — Viu? Bem que eu disse. — Se eu te der a informação. Diversificar! Não dá para vender gralhas para fazer cozido o resto da vida. Você já comeu gralha? Richard fez que não com a cabeça. — Não se acanhe. Isso provocou um coro de desaprovação ruidosa por parte dos diversos pássaros em volta dele.

Todos tinham um Dom de algum tipo e estavam ansiosos para mostrá-lo ao mundo. alguém que. cada um segurando uma mala cheia de banha de porco. pintados de vermelho. outros guarda-costas e gente curiosa. Seu rosto estava branco de pó de arroz. Não importava: sua busca. o oponente. sacudindo o lenço para lá e para cá. Caminhou em direção à praça de alimentação. O marquês de Carabas bateu com os dedos de leve no ombro de Door e apontou.gralha. Ninguém movia nem um músculo sequer. para os guarda-costas. havia chegado ao fim. maravilhado. E sorriu. E para Richard: — Obrigado pela bandeirinha. um de frente para o outro. sem desviar os olhos. *** O estilo. Estavam em pé. parecia ser o mais importante. Fazendo testes?. Os dois se encaravam. e seus lábios. E dançou em volta da sua barraca. O Dândi era mais ou menos uma cabeça mais alto que Ruislip. pensou Richard. Ruislip estava de frente para o Dândi Sem Nome. sem as roupas de Casanova. como dissera o velho maluco do telhado. O Dândi Sem Nome parecia um libertino do começo do século XVIII. Naquele momento. no meio de um círculo de espectadores. de cabelo rastafári. teve que se virar com o que conseguira achar na loja do Exército da Salvação. Algo estava prestes a acontecer. Ruislip. e lembrava um grande e obeso bebê. Era um sujeito enorme. . Por outro lado. este parecia ter o peso de quatro Dândis. parecia saído do pesadelo de alguém que tivesse dormido assistindo a lutas de sumô na TV com um disco do Bob Marley tocando.

— Meu nome é Varney — disse. — Ha — exclamou ele. O Dândi se contorceu e cuspiu. Tinha a cabeça raspada e sorria com dentes podres e desprezo para o mundo. A multidão cochichava. Os espectadores aplaudiram. Sangue começou a escorrer dos lábios do Dândi. e caiu. Estava coberto de tatuagens e vestia roupas que pareciam remendadas com partes de assentos velhos e tapetes de borracha de carro. apenas se olhando. como se alguém tivesse lhe dado um chute bem forte na barriga. ambos carregando uma única mala de banha de porco entre eles). Ele cambaleou. Um pequeno machucado vermelho apareceu na sua bochecha. — Próximo! — chamou o marquês. estalou os dedos e mandou beijos para os espectadores. em uma macabra imitação de sorriso. como se tivesse sido forçado a ir para o chão. . Ele se sacudiu abruptamente. como se ele tivesse sido golpeado no rosto. Ruislip parecia triunfante. Ruislip cambaleou e se dobrou ao meio. O outro aspirante a guarda-costas era também mais magro que Ruislip (e tinha o tamanho de apenas dois Dândis e meio. Sem mais nem menos. fazendo tremer os cílios. deleitando-se. em reconhecimento. e esticou seus lábios pintados.Em um momento. o Dândi Sem Nome ficou de joelhos. reforçando seu ataque mental. O Dândi fez um movimento. — Não é tão impressionante quanto parece — sussurrou o marquês para Door. desajeitado. Seu olho esquerdo já estava inchado. Ele comprimiu os lábios e piscou. O Dândi Sem Nome sorriu de modo afetado e escandaloso. e ergueu os braços. Foi levado para um canto por alguns amigos e vomitou. e então a cabeça do Dândi foi para trás. impassíveis. Ruislip o olhou com raiva. havia dois homens em pé. agarrando o estômago.

— Mas ele não parece ser uma pessoa muito legal. Seguindo a multidão. do tipo que se ouve na Inglaterra em tardes monótonas e ensolaradas de domingo. em seguida. senhor — disse ele. O sangue caía do nariz e molhava sua boca e seu peito. Pessoas sussurravam na platéia em aprovação e. — Esse aí promete — comentou o marquês em voz baixa. — Muito bom. Cuspiu algo esverdeado e caminhou para o meio do ringue. — Anda. um. Os espectadores se calaram e houve um aplauso desanimado. Um pequeno corte apareceu sobre a testa de Varney e o sangue começou a cair em um de seus olhos. Ruislip se levantou devagar. Ergueu-o devagar. Ele aspirou o ar com dificuldade e caiu no chão com o som de meia tonelada de fígado jogada em uma banheira. enfiando seu pé envolto em couro nos testículos do adversário. como um lutador de sumô — um. — Assim que estiverem prontos. Parecia estar concentrado em seu braço direito. dois —.exibindo-se. Varney deu uma risadinha. cavalheiros — avisou o marquês. Varney deu um golpe muito rápido e doloroso em Ruislip. Batendo os pés nus no chão. Door ergueu uma sobrancelha. como quem está lutando contra uma enorme pressão. Ruislip encarava o adversário. dois. o marquês também bateu palmas. — Um guarda-costas “legal” é tão útil quanto um que regurgite lagostas. seu gordo. . Me acerta de novo — disse. de modo educado. Varney limpou o sangue da testa e mostrou sua horrível dentição para o mundo em um sorriso pavoroso. em um jogo de críquete de rua. Ele ignorou o ferimento. pingando sobre a serragem. e deu um violento murro no nariz de Ruislip. que começou a cuspir sangue. Ele parece ser perigoso.

marrom.Varney olhou para Door e piscou. todos tão escuros quanto a noite. quando fez isso. com dreadlocks no cabelo. sentados sobre o tampo de vidro de um balcão onde se vendia salmão defumado. Trajavam longos vestidos feitos de veludo. usando quase as mesmas roupas. mas então a multidão se dividiu. vestida de preto. abaixo da escultura de peixe da Harrods. Cinco jovens pálidas. verde. completamente nu. exibiam jóias de prata e estavam impecavelmente arrumadas e maquiadas. passaram por ele. Elas tinham cabelos pretos e bem penteados. Ela estremeceu. Abriu a boca para gritar o nome de Door. transmitindo um sentimento quase de posse. era arremessado sobre a platéia como se tivesse sido jogado por um gigante — e foi cair bem em cima de Richard. Moviam-se sem fazer barulho algum: Richard só ouvia o som do veludo pesado enquanto elas passavam. cor de sangue e preto. e. deu-se conta do motivo pelo qual a multidão havia se afastado: um homem enorme. Os testes estavam sendo realizados no setor de Carnes e Peixes. azul. *** Richard ouviu as palmas e seguiu o som. a mais pálida e mais bonita. A última delas. sorriu para Richard. . vermelho e verde amarrado feito uma fralda. exceto por um pano amarelo. antes de voltar sua atenção para Ruislip. que mais parecia um suspiro. Ele sorriu de volta. com cautela. e havia duas ou três fileiras de pessoas rodeando o ringue. e ele viu os dois. A platéia estava de costas para ele. na área aberta do andar. E com isso retomou seu caminho em direção aos testes para guarda-costas. Richard percebeu que não seria fácil achar Door e o marquês.

como se estivesse reprimindo-se para não dizer mais nada. que estava observando a luta atentamente. — O que está acontecendo? — perguntou. estava lutando com um anão. — Door? Ela parecia furiosa. . também é ótimo rever você — ironizou ele. — Pelo Templo e o Arco. estamos selecionando guarda-costas. Olhos cor de opala. golpeava. Como poderia saber se estava realmente bem? E por que havia pensado que Door ficaria feliz em revê-lo? Ela olhava com atenção para as próprias unhas. Nós. Richard se virou para o marquês. mais até. delicado como o de um elfo. e a disputa não estava tão desequilibrada quanto se poderia imaginar. fora de foco. Richard! Não acredito! O que você está fazendo aqui? — Ah.*** — Richard? Ele abriu os olhos. olhavam dentro dos seus. O rosto era pálido. avermelhados. as narinas dilatadas.. aquele que tinha derrubado Richard na ponte.. O rosto ia e vinha. O homem grande. por outro lado. imagino. jogava-se. Cada movimento dele fazia Varney parecer pesado e desengonçado. O anão era inacreditavelmente rápido: rolava. O marquês lhe lançou um olhar rápido. — Você está em apuros e. e logo voltou a observar o combate. a algumas horas de uma morte horrenda. Usavam pés-de-cabra. Sentou-se e ficou pensando se não teria sofrido uma concussão. com voz fraca. quicava. com certeza. com dentes horríveis.

Ela ergueu uma sobrancelha e inclinou a cabeça um pouco para o lado. — Obrigado a todos. O marquês caminhava pelo ringue e se despedia de diversos guarda-costas que já tinham feito o teste.. distribuindo alguns elogios aqui e conselhos acolá. Richard ensaiou um sorriso na direção de Door.. — Acho que já vimos o bastante — anunciou o marquês. — O Senhor Caudalonga. poderia esperar um pouco? — Por que você tinha que vir para cá? — perguntou Door a Richard. Ela soltou um suspiro. então. Outra moça me trouxe até aqui.. Senhor Varney. ah.. então disse: — Uma prostituta. — começou ele.. você sabe.. O nome dela era Anaesthesia... mas foi ignorado. Acho que ela era. Ela. — hesitou. — Bom. em voz alta.Varney bateu com seu pé-de-cabra no anão. Na ponte. com frieza. e caiu no chão. — Eu não tinha escolha. que no mesmo instante parou de quicar e saltar. — Pois é. — Como você chegou ao Mercado? — perguntou ela. bom. — Durante grande parte do caminho.. ele disse pra eles que precisavam me trazer até aqui. — Um falante de ratês trouxe você até aqui? Ele fez que sim. algo aconteceu com ela. inconsciente. *** . — Pessoas falantes de ratês — corrigiu ela. e o rato que trouxe para nós a mensagem do marquês.. — As pessoas-rato. Varney esperava paciente.

— Bom. . Todos sabem disso.. — Varney — disse o próprio. os moradores de Crouch End. A mulher olhou para o marquês e perguntou: — Os testes já terminaram? — Sim — respondeu Varney.. quebrar o osso de alguém. Ficou na frente de Varney. que parecia muito satisfeito consigo mesmo. — Bem — respondeu Varney —. Richard a reconheceu imediatamente. — E quais suas referências? Clientes anteriores que gostaram do seu trabalho? — Olympia. — Então eu gostaria de me candidatar. — É ela — sussurrou para Door. — Qual sua experiência com armas? — perguntou de Carabas. explodir a cabeça de alguém. não um amador entusiasmado. Fui segurança no Mercado de Maio também. Passou-se um segundo antes que o marquês de Carabas dissesse “Tudo bem” e desse alguns passos para trás. vamos colocar da seguinte maneira: se uma coisa pode cortar alguém. — Talvez não — emendou o marquês. estamos todos bem impressionados com a sua habilidade. Então uma voz de mulher disse: — Ouvi falar que vocês estão procurando um guarda-costas. a Rainha dos Pastores.O marquês retornou. — A prostituta. A pele dela era caramelo e seu sorriso seria capaz de pôr fim a uma revolução. Estava vestida dos pés à cabeça com roupas de couro malhadas de cinza e marrom. então Varney sabe como usar. ou fazer um buraco enorme em alguém. ofendido — é o melhor guarda-costas e assassino de aluguel do Submundo.

O que lhe faltava. no chão. Varney começou a rir: uma risada maníaca. que estava deitado de cara na serragem. Pegou-o e bateu com ele no rosto da mulher — ou teria batido. Ele ficou olhando para o marquês até a ficha cair. Richard estava estupefato: era como assistir a uma mistura de Emma Peel. quando a mulher deu um chute forte no seu estômago. com as mãos abertas. Perto de sua mão. Mas ficou impressionado ao . era rapidez para entender as coisas. e que o marquês dizia: — Chega! A mulher ergueu o olhar. Ele era um homem opressor. Door meneou a cabeça em aprovação. — E então? — perguntou ela.“Perigoso” era um eufemismo para Varney. um terrível furacão e um mangusto matando uma cobra. com sangue saindo das orelhas e sua própria faca encostada na garganta. Não saberia dizer ao certo o que aconteceu depois: só que o chão desaparecera sob seus pés. estava o pé-de-cabra que usara na luta com o anão. Sem acreditar naquilo. se ela não tivesse se abaixado. bem rápido. E parou um segundo depois. e ele foi ao chão como uma árvore. — Impressionante — comentou o marquês. Era assim que ela se movia. ainda segurando a faca perto do pescoço dele. Varney puxou uma faca da bota. Foi assim que ela lutou. sádico e sem dúvida nocivo para a saúde de todos à sua volta. Ainda sacudido pela dor nos ouvidos. — A não ser que você queira tirar um cochilo antes. Bruce Lee. contudo. Richard costumava ficar nervoso com demonstrações de violência na vida real. perguntou: — Eu vou lutar com ela? — Sim — disse a mulher vestida de couro. O pé-de-cabra voou pela sala. Ela golpeou as orelhas dele.

Hunter inclinou a cabeça na direção de Richard e disse: . — Hunter. sentiu uma profunda saudade de casa. um mundo onde ninguém lutava daquele jeito — onde ninguém precisava lutar daquele jeito —. tão bem. — Eu voltei. um mundo seguro. e. educada. lembrou-se da Londres-de-Cima. Ela saiu de cima dele e colocou a faca em seu próprio cinto. — Obrigada — disse.ver aquela mulher em ação. Hunter foi até Door e a olhou de cima a baixo. isso mesmo — respondeu ela. E. Ele entendia agora. — E o seu nome é? — quis saber o marquês. — Você pode mesmo impedir que me matem? — perguntou Door. para o resto da multidão: — Acho que já achamos o nosso guarda-costas. Em algum lugar um sino tocou duas vezes. Parecia absolutamente correto. hesitante: — Hunter? Você é a famosa caçadora? — Sim. um som profundo que fez os dentes de Richard vibrarem. espanando a poeira em suas calças de couro. — Receio que não vamos precisar dos seus serviços. Obrigado a todos. Então Door perguntou. sensato. afinal. — Cinco minutos — murmurou o marquês. naquele espelho irreal da Londres que ele conhecia. enquanto pensava nisso. Não há mais nada para se ver aqui. por um instante. como se ela tivesse despertado nele uma parte de si até então desconhecida. A mulher olhou para Varney. E anunciou. Ela fazia parte da Londres-de-Baixo. Ninguém disse nada. que ela estivesse ali e que lutasse de maneira tão perigosa.

Hunter nunca soube o que Richard achara que ela fosse. vou esquecer a trégua. em tom de encorajamento. Ele se virou e correu dali. Ela o soltou. A mulher foi até Varney. Quando chegou à porta da Praça de Alimentação. torcendo o pulso de Varney atrás das costas dele — peça desculpas. pegou o pé-de-cabra com o poder da mente. Ela ergueu uma mão e o pegou no ar: o objeto apenas fez um “tump!”. — Neste momento.. observando Hunter. estamos sob a Trégua do Mercado. — E então? — disse ela. direitinho. Um meio-sorriso pairou sobre os lábios de Door. O marquês o observou fazer isso. Furioso e assustado. Ele cuspiu a palavra como se estivesse sufocando: — Desculpe. mas não disse nada.. — Ah. que tinha ficado em pé com dificuldade. esses amadores — disse Hunter. pretos e marrons. — Ai! — gemeu Varney. na vinda para o Mercado. Agora — continuou Hunter. — Isso é seu? Ele lhe mostrou os dentes. — Que engraçado! — comentou. Varney.— Eu salvei a vida dele três vezes hoje. O pé-de-cabra veio voando na direção de sua cabeça. quando cruzamos a ponte. — Richard achou que você fosse uma. arrancar os seus dois braços e fazer você carregá-los para casa nos dentes. hesitou um pouco e gritou: — Você está morta! Morta. com um . Varney andou de costas até tomar certa distância. amarelos. Mas se você tentar algo do tipo mais uma vez. ouviu? — Sua voz indicava que ele estava à beira das lágrimas.

*** Voltaram pelo mesmo caminho que Richard percorrera. é claro. O sino que ele tinha ouvido batia forte. cambaleando para fora da loja. com uma corda pendendo do badalo. . Todos os traços de que houvera algo ali desapareciam: as barracas eram desmontadas e viravam carga nas costas das pessoas ou eram jogadas na rua. A multidão se dispersou. suspenso numa estrutura de madeira. quebrado e retirado era ainda mais incrível. viu que era um grande sino de latão. — Hunter. Quem batia o sino era um enorme homem negro. O velho acenou alegremente e desapareceu na noite. o Mercado desapareceu e quase instantaneamente o andar térreo da Harrods parecia o de sempre: tão sóbrio. usando as roupas escuras de um monge dominicano. — Se for preciso. Onde é que você estava todo esse tempo? — Caçando — respondeu ela. Quando chegaram perto dele. sem parar. — disse o marquês — eu já ouvi falar de você. Richard achou que a velocidade com que tudo era desmontado. Por mais impressionante que fosse o Mercado.... elegante e limpo como nas tardes de sábado em que ele andava por ali seguindo Jessica. Era como se o Mercado jamais tivesse existido.suspiro. Richard viu Old Bailey. O sino tinha sido colocado perto do estande de doces da Harrods.. Em seguida perguntou para Door: — Você é do tipo que obedece ordens? Door fez que sim. com simplicidade. — Bom. Então talvez eu possa proteger a sua vida. os braços carregados de gaiolas e placas.

— Você não vai conseguir sua vida de volta ficando com a gente. — Você? O que tem você? — Como é que eu volto a ser normal? Tenho a impressão de estar num pesadelo. pedir ao motorista que o levasse para casa e teria sua vida de volta. tão silencioso. tinha chovido enquanto estavam no Mercado. Por um momento sentiu que era só chamar um táxi. — E. E assim ele dormiria a noite inteira em sua cama. e as luzes das ruas cintilavam sobre o asfalto molhado — Já aceitei. — Quero saber como faço para ter minha vida de volta.. O marquês parou. e isso o irritou. pigarreando —. Mas e quanto a mim? O marquês se virou e ficou olhando para ele. de qualquer jei- . e agora nada faz sentido. Eles saíram e pararam na calçada. desconfiados. e ele não tinha para onde ir. Tudo parecia tão normal. Na semana passada tudo estava em seu lugar. Richard olhou para a rua que brilhava com a água da chuva.. Sentiu-se como uma criança pequena e indesejada. Ninguém disse nada.. o marquês o ignorava de forma solene e Hunter o tratava como se ele fosse algo irrelevante. Seus olhos piscaram. eu sei que vocês são pessoas muito ocupadas. Engoliu em seco. Door não olhava em seus olhos.. — Estou cansado — desabafou. Era noite. tão sensato. Richard — disse Door. seus olhos grandes e brancos no rosto escuro. Mas os táxis não o viam nem paravam para ele. — Olha — disse ele. seguindo os colegas mais velhos. — parou de falar.Isso se eu aceitar o emprego. — Você disse se aceitar o emprego? Hunter abriu a porta.

Richard — disse ela. Quando pisou na água. O marquês ficou entre os dois. seu emprego ou a vida que tinha — disse ele para Richard. Pegou uma pequena alavanca de metal em seu cinto e a usou para destravar a tampa de um bueiro. A menina não olhou para Richard quando desceu. — Vá embora — ordenou o marquês.to. de verdade. Existem duas Londres: a Londres-de-Cima — onde você morava — e a Londres-de-Baixo. habitada pelas pessoas que caíram pelas fissuras do mundo. rasa e rápida.. ajoelhou-se no asfalto. meio de repolho. O marquês coçou a lateral do nariz. A parte superior do esgoto tinha mesmo cheiro de bueiro — um cheiro morto. eu sinto muito. seguindo o marquês. . e correu até alcançá-los. Uma água suja corria. o Submundo. — Nenhuma dessas coisas existe. mas em vez disso ele se dissipou assim que Richard chegou ao fim da escada. Hunter. pôde ver as luzes dos outros mais à frente. Esperava que aquele odor ficasse pior à medida que descesse. — Não. Puxou-a. desceu e chamou Door para o esgoto. Agora você é uma delas. você precisa entender uma coisa. — Eu sinto muito. pelo chão do esgoto. Tenha uma boa noite. não vai ser fácil. — Meu jovem. à frente do grupo. avaliou o local com cuidado. você não existe. Começou a descer a escada do bueiro.. meio de sabão. Richard gritou: — Esperem! Pegou a tampa antes que pudessem fechá-la. — Você não pode mais voltar para a sua casa. Eu. Lá em cima. num tom quase gentil. Door lhe lançou um olhar.

. *** A estação de metrô estava vazia e escura. talvez dure um mês inteiro. no escuro — continuou. Varney a atravessou. O marquês esperou um pouco. Door e Hunter começaram a percorrer um deles. Não tinha intenção de voltar para sua toca nos túneis mais profundos de Camden Town. Ele ficaria na superfície por algum tempo. Havia outros lugares onde Varney tinha comida e armas guardadas. — Droga — disse ele. Se você conseguir sobreviver pelos próximos um ou dois dias. mantendo-se próximo às paredes. — Você vai ter que se virar com o que tem aqui embaixo. Richard Mayhew começou a chorar. para sua surpresa. no encanto. Então. à frente. o que não tinha água. e não olharam para trás. Ele se virou e caminhou com passos largos pelo esgoto. nos esgotos. certificando-se de que não estava sendo seguido. Desejo-lhe toda a sorte do mundo. escandaloso de tão insincero. Ficou ouvindo os passos ecoando ao longe e o esgoto correndo na direção das estações de água do leste de Londres.. Tinha ido para lá pelos telhados. pela primeira vez desde a morte de seu pai.Tinham chegado a um cruzamento de três túneis.. lançando olhares nervosos ao redor. sozinho no escuro. Richard se encostou em uma parede. aos lados. E então o marquês deu um grande e branco sorriso: um sorriso que brilhava no escuro. seguindo Door e Hunter. Era arriscado demais. foi ótimo revê-lo. Escolheu aquela estação de forma aleatória. Continuou: — Bom. escondido.

Considero isso uma traição pessoal.até que tudo tivesse terminado. A placa sugeria que todas as outras pessoas usassem o elevador. na escuridão. é difícil não ligar para esse tipo de chateação. Silêncio absoluto. descendo a escada em espiral. Parou no começo da escada em espiral e respirou fundo. na verdade. respondeu. Pois foi o próprio senhor Varney que nos disse. entediada: — Mentir não é legal. Certo de que estava sozinho. perto da placa que avisava aos viajantes dos 259 degraus até o topo. tropeçando cegamente no escuro. Era do senhor Croup: — E. Elevador? Com um barulho metálico. E desapontado. senhor Croup. Na escuridão total. não é. senhor Vandemar? — Muito difícil. Varney se jogou para a frente e correu. E outra voz. Quando a pessoa não tem nenhuma qualidade para compensar. e fiquei bastante magoado. Uma voz veio do topo da escada. permitiu-se relaxar um pouco. senhor Croup. do outro lado. esplendidamente lentas. o senhor Croup continuou a falar. O som dos pés de Varney ecoava nos corrimões de metal por toda a escada. resfolegava. senhor Vandemar. em tom casual: — Varney é o melhor assassino de aluguel e guarda-costas do Submundo. Todos sabem disso. devemos pensar que matá-lo será um favor. Uma voz molenga a seu lado disse. inundando o lugar com . Chegou até o fim da escada. e que apenas pessoas saudáveis deveriam pensar em subir por ali. Ele bufava. — Não é mesmo. as portas do elevador se abriram. no escuro. seus ombros roçando as paredes. Parou ao lado de uma máquina de bilhetes de metrô e ficou ouvindo atento.

e soltou um palavrão quando percebeu que aquela vadia da Hunter a havia tomado dele. Nenhum deles disse uma palavra sequer desde que deixaram Richard. Ouviu alguém tossir educadamente atrás de si e virou. . Contudo. categórica. Mas não estava lá. Varney nem sequer teve a chance de gritar.sua luz. Door parou: — Não podemos fazer isso! — exclamou. uma hora e meia atrás. — Adeus — disse o senhor Vandemar. O senhor Vandemar estava sentado nos degraus da escada em espiral. em quantidades enormes — pois Varney era um homem grande. — Não podemos deixá-lo sozinho. a mancha saiu para sempre. *** Hunter liderava o grupo. seria difícil perceber até mesmo a única pequena manchinha deixada no chão ao fim da escada em espiral. impassivo. Limpava as unhas com o facão de Varney. garras. pequenas lâminas. Quando o chão foi lavado. O marquês de Carabas ia por último. De repente. Depois disso o sangue começou a jorrar: úmido. Door caminhava no meio. limpando as unhas. quando o senhor Croup e o senhor Vandemar terminaram o trabalho. vermelho. Varney se apalpou em busca de sua faca. — Claro que podemos. E já deixamos — retrucou o marquês. Ele era todo dentes. Tentou pegar o facão da bainha nas costas. Nisso o senhor Croup caiu sobre ele.

— Não use esse tom superior comigo. Isso tudo fizera com que ele passasse do seu mundo para o dela. de Carabas — disse Door. O marquês ergueu uma sobrancelha: era um homem desprendido. cuidara dela e buscou auxílio. Ela sabia disso. — Minha cara senhorita.. mas também havia chegado a seu limite.. A simples idéia de pensar em levá-lo junto com eles era absurda. distante. Ela nem mesmo tinha certeza de que os três conseguiriam tomar conta de si próprios na jornada que os aguardava. uma criatura de ironia pura. . Era culpa dela. frio e com raiva. não podemos trazer um convidado nesta expedição. Estava se sentindo culpada e idiota desde que vira Richard quase esmagado sob Ruislip nos testes para guarda-costas.Ela balançou a cabeça. Ela se sentia tão cansada. E estava cansada de se sentir assim. aquecido. Richard a levara para um lugar seguro. Ficou pensando por um instante se teria sido somente aquela porta — que ela abrira e que a levara até ele — a responsável pelo fato de ele a ter notado. Ela precisava do marquês — não podia se dar ao luxo de mandá-lo embora —. mas não deixou. Você está trabalhando para mim. — Acho que posso muito bem decidir quem vem conosco. Ele poderia ter me deixado lá na calçada. ou se haveria algo mais. De Carabas olhou para ela. não? Ou é o contrário? A tristeza e a exaustão sugaram toda sua paciência. Havia aberto uma porta para alguém que pudesse ajudá-la. — Não seja tola — disse o marquês. — Richard salvou a minha vida. e a pessoa a ajudara. Não podiam arriscar trazer alguém.

categórico. é.. pensou. assistir ao jogo de futebol na TV nos fins de semana. no escuro. Que acabassem com tudo — ele próprio já estava farto da sua vida. Ouviu passos em sua direção. de propósito. Sua vida até aquele momento o tinha preparado para ter um emprego no mercado financeiro.. para o local onde seus pés deveriam estar. no escuro. fazer compras no supermercado. habitando os telhados e os esgotos de Londres. não me diga. — ela parou de falar e deu um suspiro profundo. você não estaria nesta confusão toda se não fosse por minha causa. — Richard? Era a voz de Door.. Ele levou um susto. Os passos ficaram mais próximos. com olhos . e para uma vida no frio. Ela continuou: — Não acho que você vá ficar mais seguro conosco. Só perguntou: — Quê? — Olha. — Eu sinto muito. pensando no que fazer. decidiu. canibais ou monstros.. Mas. Viu o brilho fraco de uma luz. *** Richard não estava morto. na umidade. Se não fosse por sua causa.. se seria possível ficar numa situação ainda pior do que aquela.. Mas a ignorou. Estava sentado no escuro. pensou. ele nem mesmo resistiria. fosse um bando de assassinos. — Mesmo porque já deve estar morto.— Ele não virá conosco — afirmou. Se. Você vem com a gente? Ele olhou para ela: uma pequena criatura. girar o termostato do aquecedor caso ficasse com frio — mas com certeza não para ser uma não-pessoa. — Richard? Ele não olhou para cima. De verdade. Olhou para baixo. em uma saliência ao lado de uma boca-de-lobo.. Ah.

rindo incontrolavelmen- . em tom solene. afinal? — perguntou Richard. com um rosto delicado e pálido. que a oferta dela era impossível. Mas tratou de se livrar logo desse pensamento. um pouco mais alegre. disse para si mesmo. acho que ainda não estou pronto para desistir de tudo e morrer.. Prometo. com a cara de alguém que foi forçado a engolir um limão. mas também toda a exaustão de alguém que conseguira. Jogou os braços em volta do peito dele e lhe deu um abraço apertado. Havia certa histeria no riso. — Neste momento estamos procurando um anjo chamado Islington. — Um anjo? — perguntou. Tudo bem. Começaram a andar. — Mas o que você está procurando. sem dúvida. Door respirou fundo e respondeu depois de uma longa pausa. Foi aí que Richard começou a rir — ele não podia evitar. — É uma longa história — disse. pela primeira vez. olhando de volta para ele de um jeito insistente. não há nenhum lugar em que eu precise estar agora — disse ele. por que não? O rosto dela se transformou. — A gente vai tentar fazer você voltar para casa.enormes. Ele ficou pensando se ela falava sério. com um tom despreocupado que beirava a histeria. — Então. de alguma maneira. e suspeitou. Richard podia ver Hunter e o marquês. esperando por eles no fim do túnel. acreditar em várias coisas impossíveis nas últimas vinte e quatro horas — e isso sem tomar um café-da-manhã decente. Sua risada ecoava pelos túneis.. Assim que eu achar o que estou procurando. — Bom.

 (N. quando a enorme figura passou por elas. Atualmente. Logo todas as velas do Salão estavam acesas. Ninguém as tocou. mas. — Chamado Islington?4 — Temos um longo caminho a percorrer — disse Door. até ficar quase negra. nenhum fogo se aproximou dos pavios. E. sobre uma base de prata que havia escurecido com o passar dos séculos. ajoelhou-se.  no  Norte de Londres. A túnica da pessoa era simples e branca — ou mais do que branca. Sua beleza era indescritível. Uma cor (ou uma ausência de todas as cores) tão clara que causava espanto. amontoadas no chão. esgotado.) . sábio. nus sobre o frio chão de pedra do Salão Principal. A figura parou perto do lago de pedras. A porta era feita de sílex negro e polido. — Um anjo! *** Havia velas em todo o Salão Principal: perto dos pilares de ferro que sustentavam o teto. para os túneis e para a escuridão. O rosto era pálido. próximas à cascata que descia por uma parede e desembocava no pequeno lago artificial de pedras. de um jeito meio histérico. agrupadas nas laterais da parede de pedra. — Um anjo — sussurrou ele.te. mergulhou as 4 “Angel” (“anjo” em inglês) era o nome de um famoso hotel que ficava  na esquina da Pentonville Road com a Islington High Street. As velas estavam apagadas. Seus pés estavam descalços. e em candelabros junto à enorme porta localizada entre dois pilares escuros de ferro. vazio. acenderam. E Richard balançou a cabeça.  “Angel”  é  usado  para  designar  uma  região  do  bairro  de  Islington. dolorido. suave e talvez um pouco solitário.

. voltando pelo mesmo caminho que fizera. um anjo. As velas se apagavam à medida que passava. por dezenas de milhares de anos. Islington saiu do Salão Principal. como numa oração. Então se levantou e foi embora. como sempre ocorrera. mas muito pura. Quando parou de beber. ergueu-as e bebeu. fechou os olhos por um instante. Não tinha asas mas era. sem dúvida. A última vela se apagou e a escuridão retornou. A água era fria.mãos em concha na água cristalina.

à mostra. contudo. Richard. Com exceção de Door. sujo. — Sério? — perguntou Richard. — Estamos irremediavelmente perdidos. Em dois dias.SEIS RICHARD ESCREVEU MENTALMENTE EM UM DIÁRIO IMAGINÁRIO. Agora não tenho mais noiva. — Vocês não acham que esses túneis parecem todos iguais? — perguntou Richard. uma noiva. Voltou a escrever em seu diário mental. no exato momento em que fez a pergunta. fico andando a esmo a uns sessenta metros abaixo das ruas de Londres e minha expectativa de vida é tão longa quanto a de uma drosófila suicida. — Como sabem qual túnel é o certo? — Não sabemos — respondeu o marquês. Então eu achei uma moça sangrando na calçada e tentei bancar o Bom Samaritano. casa ou emprego. Ele se odiou por morder a isca. uma casa e uma vida normal (bom. com o punho de renda de sua camisa. Há centenas de . fazendo um gesto elegante. estaremos matando uns aos outros para poder comer. descobriu que se importava cada vez menos com o que aquelas pessoas pensavam dele. — Não. num tom triste. pelo menos até o ponto em que a vida consegue ser normal). começou ele. Ninguém nunca nos achará. suspendendo sua anotação mental por um instante. — Por aqui — disse o marquês. talvez. Querido Diário. O marquês fez cara de quem achava que torturar aquele pobre idiota era fácil demais para ser divertido. Na sexta-feira eu tinha um emprego. mais ou menos.

mas até a mais sotto das vozes ecoava naquela escuridão. — Ah. escreveu-a de novo em letras garrafais. Door e o marquês andavam juntos. Era um túnel moderno: cheio de canos prateados e paredes brancas. Hunter ficava mudando de lugar — às vezes estava atrás deles. A guarda-costas estava acordada quando eu fui dormir e continuava assim quando me acordaram. pare com isso. Uma luz apareceu. sim? — pediu Door. Acho que ela nunca dorme. Comemos um bolo de frutas no café-da-manhã. às vezes mais à frente. E sublinhou mentalmente essa frase três vezes. Pelo menos o túnel por onde passavam estava seco. talvez milhares. Não fazia nenhum barulho ao se mover. Por que alguém teria um pedaço de bolo de frutas no bolso? Meus sapatos quase secaram enquanto eu dormia. circulou-a e colocou vários pontos de exclamação depois dela. Na noite passada dormimos num pequeno túnel que Door disse que já tinha feito parte do esgoto de Regency.pessoas nessa outra Londres. — Bank Station. na frente. Mas as palavras saíam de sua boca: — Mas vocês dois estão agindo feito loucos. — Richard. Quero ir pra casa. na margem mental do seu diário. Um bom lugar para começar a procurar. Eu estou andando por aí com uma moça chamada Door. o que Richard achava meio perturbador. escondida nas sombras. em tinta vermelha. Anjos . a guarda-costas dela e um grande vizir psicótico. às vezes ao lado de um ou de outro. Não tinha a intenção de que ninguém o ouvisse. — Vocês estão loucos — disse Richard. é? — perguntou de Carabas. Elas são daqui mesmo ou de alguma maneira caíram por buracos na Londres verdadeira. — Cá estamos — proclamou o marquês. Richard os seguia com alguns passos de distância. o marquês tinha um pedaço bem grande no seu bolso. O chão começou a tremer: um metrô estava passando perto dali.

sem perceber. que se abriu silenciosamente. insistente — a gente esteja pensando em coisas diferentes. nem falantes de ratês. O marquês encostou na parede. Atravessaram a porta. Richard fechou os olhos. — Mesmo assim. — E é bom você rezar para que nunca os encontre. categórico. eu ainda não acredito que exista um bando de anjos voando aqui embaixo. — Queira passar. ele descobriu. bem perto da orelha de Richard. Seu tom de voz era bem sério. anjos têm asas. ela pousou uma mão sobre a porta. sim. Por um instante. nem pastores em Shepherd’s Bush. O marquês assentiu com a cabeça e disse: — Ah. para sua surpresa. Chegaram ao fim do túnel. Há casas. — Talvez — continuou Richard. Só um — concluiu o marquês. Quando seus olhos se acostumaram. lojas. Assim como não existe uma Londres-de-Baixo. Na minha cabeça. por causa da luz intensa e repentina que penetrava sua cabeça como se fosse uma enxaqueca. — Mas não existe mesmo. minha cara — disse para Door. halos. Anjos. trombetas. na escuridão. são seres bem paz-na-terra-aos-homens-de-boa-vontade.não existem. — Você entendeu. — Mas não existem pastores em Shepherd’s Bush. — Existem pastores lá — interveio Hunter. que conhecia aquele lugar: estavam no comprido túnel para pedestres que liga as estações Monument e Bank. . Agora estou entendendo você. Anjos não existem. É em Londres! Já estive lá. Havia uma porta trancada à frente deles. ruas e a BBC. — É isso mesmo — disse Door. E só — corrigiu Richard.

há uns dois dias. O grupo caminhou na direção da Bank Station. dividida ao meio. com um ar mais ou menos inocente. — Você precisa mostrar quem é que manda. Ele não sabia muita coisa sobre anjos. mas tinha quase certeza de que a estação de metrô em Islington recebera seu nome por causa de um pub ou de algum ponto de referência. comprida. Ficava em Islington. — Quem estamos procurando. Alguém tocava. Mas ninguém era enganado pelo truque. atrás dele. Sobre ele havia algumas moedas. Desceram alguns degraus e viraram uma esquina. Door mordeu o lábio inferior e disse: — O trem que estamos buscando vai nos deixar entrar. que pareciam ter sido colocadas pelo próprio homem para indicar aos passantes que as pessoas contribuíam pelo menos um pouco. Se nós o acharmos. e o marquês indicou a Angel Station. batendo no guia com seu comprido e escuro dedo: Islington. “I’ll Never Fall in Love Again”. O saxofonista era bem alto. até que bem. um bairro badalado. . então? — perguntou Richard. O saxofonista deixara um casaco à sua frente. bares e restaurantes. só isso — sussurrou Hunter. tinha cabelos pretos até o ombro e uma barba escura. de Burt Bacharach e Hal David.Havia pessoas passando pelos túneis. O alegre som de um saxofone ecoou. não consegui pegar metrô quando tentei. Richard estivera centenas de vezes na Angel Station. que vinha de algum lugar ali perto. e nenhuma delas sequer olhou para eles. Mudou de assunto: — Sabe. Suas palavras quase foram abafadas pela música. no chão do túnel. cheio de lojas de antigüidades. — O anjo Gabriel? Rafael? Miguel? Passaram por um mapa do metrô.

recolocou-o no lugar e emitiu as primeiras notas de “Cry Me a River”. como um gato a quem fosse confiada a chave de uma casa cheia de canários obstinados e gordinhos. Usava uma camiseta esfarrapada e jeans manchados de óleo. — Dizem — começou ele.. lendo o jornal ou sonhando acordado. se tiver? De Carabas enfiou as mãos bem no fundo dos bolsos de sua casaca.. O homem assentiu. De Carabas sorriu com frieza. — Você por acaso teria o horário dos trens aí? Richard começava a entender. — Estamos procurando Earl’s Court — continuou o marquês. ele parou de tocar. escreveu uma música tão encantadora que atraía as moedas dos bolsos de todos que a ouviam. de Julie London. Richard percebeu. temeroso. E sorriu. Seus dedos acariciavam as teclas do saxofone. you say you’re sorry. — Isso aí deve valer bem mais do que um papel com . Lear estreitou os olhos. — Você se chama Lear.Tudo isso servia de moldura para olhos fundos e um nariz sisudo. como se estivesse apenas matando tempo — que Blaise. não é? — perguntou. Now. Quando se aproximaram. — Não é impossível. que o homem podia vê-los — e também que ele estava fazendo o máximo para fingir que não podia. o mestre de Merlin. tirou a saliva do bocal do instrumento. surpreso. O saxofone foi deixando de tocar até dar um guincho nervoso. O homem que se chamava Lear umedeceu os lábios com a ponta da língua. Supôs que a Earl’s Court a que ele se referia não era a estação de metrô em que ele esperara o trem diversas vezes. O que ganho. com tranqüilidade. O marquês parou na frente dele.

De Carabas entregou a flauta. — Fica. . seu trapaceiro. generoso — acho que você vai ficar me devendo uma. O marquês esticou a mão. então fico te devendo uma.. A melodia do marquês era tudo que ele sempre quisera ouvir em uma canção. E é melhor ela funcionar. ouvindo as “Vinte Mais” no rádio portátil de seu melhor amigo na hora do almoço. então foi aí que ela foi parar”. deu uma olhada rápida e fez um movimento afirmativo com a cabeça. na escola. A música fez Richard se sentir como se tivesse 13 anos de idade de novo. embalava. um som que pulava. então — disse ele. Se é que você tem mesmo. Estalou os dedos. meio relutante. — E. contorcia-se.. seu patife — disse Lear. fez “humm”. e a guardou de novo.os horários do trem. Remexeu no bolso de trás. puxou um pedaço de papel todo dobrado e o ergueu. — Deixa eu ouvir a música primeiro. O marquês ergueu uma sobrancelha. naquela época em que a música pop era a coisa mais importante do mundo. balançando a cabeça. O marquês fingiu com perfeição ter se dado conta disso apenas naquela hora (“nossa. como se dissesse “ah. Enfiou rápido a mão em um de seus bolsos internos e retirou de lá uma flauta irlandesa e uma pequena bola de cristal. jogadas pelos transeuntes. colocou a flauta nos lábios e começou a tocar uma musiquinha estranha e alegre. Um punhado de moedas caiu tilintando sobre o casaco de Lear. Olhou para a bola de cristal. O marquês pegou o papel — o horário dos trens —. que passavam por ali caminhando alegremente e com um sorriso no rosto. certo? Lear assentiu. Lear afastou a sua. deve mesmo. não é?”): — Bom.

repleto de pôsteres que anunciavam filmes e roupas íntimas. ouvindo o som do saxofone e o tilintar de moedas caindo sobre o casaco. Nesse instante a coisa surgiu na lateral da plataforma. Richard foi até a beirada e olhou para baixo. como sempre pensava. de repente. — O quê? — Eu disse para ter cuidad. da cor de fumaça preta. qual seria o trilho que dava a descarga elétrica. sem querer. Deslocando-se com uma rapidez absurda. como grande parte dos habitantes de Londres. Richard. com os isolantes de porcelana esbranquiçada entre ele e o chão. — Fique mais para trás. Mas. Uma voz saiu pelos alto-falantes. parecia vinda de um sonho. e ao mesmo tempo parecendo mover-se quase como se estivesse em . E. com urgência. Depois sorriu. ao ver um pequeno ratinho cinza-escuro corajoso que perambulava por ali em busca de sanduíches ou salgadinhos perdidos. Era transparente. — Cuidado com o vão — avisou. meio fantasmagórico.. Perto da parede. Um pouquinho já basta.. O marquês os levou até uma plataforma da linha central. e de um ou outro aviso do governo pedindo que os músicos que tocavam por dinheiro saíssem da estação. os quatro foram embora pelo corredor comprido. Ficou pensando. que era o que ficava mais distante da plataforma. como sempre decidia. sentiu a mão de Hunter sobre seu braço. já nem prestava mais atenção ao aviso. aquela voz formal e artificial que adverte: “Cuidado com o vão”. para avisar aos passageiros distraídos que não pisem no espaço existente entre o trem e a plataforma. e fluía como seda na água.— Mas uma advertência: não use demais. e decidiu.

É mais seguro. — Mas você não fazia parte do Submundo antes. — tentou falar. sobre a qual ele desabou. consultou o papel que Lear havia lhe dado e fez um movimento de cabeça.câmera lenta. puxando-o para a beirada da plataforma. a coisa o picou. como se estivesse longe. . — Não acho que tenha um nome. No ponto em que a coisa havia tocado sua calça. Apesar da grossura da calça jeans. Puxou a perna da calça para cima: pequenas marcas roxas surgiam sobre a pele. — Estamos com sorte. Richard percebeu. Espere perto da parede. que Hunter pegara seu cajado e golpeava com força o tentáculo. Estava tremendo — o mundo de repente parecia completamente irreal. nunca vi uma dessas antes. deslizou de volta pela beirada da plataforma e desapareceu. Ouviu-se um grito ao longe. mas nada saía. no tornozelo e na panturrilha. São coisas que vivem no vão. Hunter pegou Richard pela nuca e o empurrou contra a parede.. a cor tinha sumido.. O marquês verificava as horas em um grande relógio de bolso dourado. satisfeito. como se alguém tivesse descolorido o jeans sem muito cuidado. enrolou-se bem firme ao redor do tornozelo de Richard. Seu rosto parecia ter sido esculpido em madeira marrom. e ele perdeu o equilíbrio. — O que. Eu te avisei. O trem para Earl’s Court deve chegar em mais ou menos meia hora. como o de uma criança idiota que acaba de ter seu brinquedo tomado. Engoliu em seco e recomeçou: — O que era aquilo? Hunter lhe lançou um olhar impávido. fino e débil. — Eu.. diversas vezes. Colocou-o de volta no seu colete.. O tentáculo de fumaça soltou o tornozelo de Richard.

— Cuidado com o vão — disse a voz gravada. A impressão que se tinha da área era que uma década antes (talvez por não terem o que fazer. — Mas que mente fantástica você tem. — Mantenham-se longe das portas.— A estação de Earl’s Court não fica na linha central — corrigiu Richard. e deixaram ali no térreo para apodrecer. O marquês olhou para ele. úmido. com inveja. ou por estarem frustradas. não é mesmo? A brisa morna começou a soprar. Nada como a ignorância. Também havia bastante vidro quebrado e vários colchões. pneus e restos de móveis de escritório. Cuidado com o vão. entretido. ou ainda até como algum ato rebelde ou artístico) várias pessoas jogaram tudo o que havia em seus escritórios pela janela. alguns parecendo ter sido queimados. lá do alto. e Richard as observava. foi até ele e pegou sua mão. corajoso. vivendo suas vidas. para ninguém específico. Pessoas entravam e saíam. não tinha sido nem . — Cuidado com o vão — ecoou a voz mais uma vez. Ele estava ofegante e muito pálido. *** O pátio central do hospital em que o senhor Croup e o senhor Vandemar estavam era um lugar sem vida. Transtornada pelo que via. meu jovem. O mato crescia entre mesas abandonadas. Door olhou para Richard. O mato crescia no meio das molas. Um trem parou na estação. Todo um sistema ecológico tinha surgido em volta da fonte ornamental no centro do fosso — a qual. — Eu estou bem — mentiu Richard. por um bom tempo.

corvos e melros.muito ornamental nem mesmo uma fonte. indolentes. por não conseguir conter o ódio que sentia. Caramujos deixavam trilhas de gosma sobre o vidro quebrado. O senhor Vandemar. senhor Vandemar — disse o senhor Croup. muito ocupados. sob as molas dos colchões queimados. simplesmente caminhava. de minha parte. com o auxílio de um pouco da água da chuva. firme e persistente demais para que aquilo fosse apenas um leve caminhar descompromissado — a Morte sem dúvida andava como o senhor Vandemar. que ficava ali perto. com os pés e as mãos. ele se jogava em uma das paredes do hospital e começava a atacá-la fisicamente. com o som gratificante de algo se quebrando. o som de vidro sendo esmagado sob seus pés. desfrutando da liberdade de um lugar sem predadores naturais alados. Um cano de água rachado. Impassível. Contudo. Locomovia-se de um jeito consistente. que pulavam na água alegremente. transformou-a num criadouro de rãzinhas. O vidro se espatifou. Com seus ternos pretos e gastos. vazando. Caminhavam lentamente em volta do pátio central. por outro lado. e até umas gaivotas de vez em quando. ele observava o senhor Croup chutar uma vidraça que estava apoiada na parede. já a- . em círculos. como se ela fosse uma pessoa de verdade. Andava duas vezes mais rápido que o outro. O senhor Croup e o senhor Vandemar tinham subido para esfriar a cabeça. quase dançando de tanta raiva. sobre telefones cinzas arrebentados e bonecas Barbie misteriosamente mutiladas. O senhor Croup sentia uma fúria gélida. Grandes besouros negros passavam para lá e para cá. — Eu. Às vezes. olhando para o vidro quebrado —. pareciam sombras. Lesmas se espalhavam. consideravam o local uma rotisseria especializada em rãs.

intrigados... inútil. insignificante. talvez possamos nos divertir. livre como um passarinho. bem morto mesmo. ela está andando por aí. com um tom mais educado: — Ah. começo a ter certa dificuldade para entender o papel que eu e meu parceiro desempenhamos em tais peripécias. Aquele sapo dissimulado. Por fim. Acho que a sua idéia do guarda-costas acabou não dando certo. Um telefone começou a tocar. Quase. Varney? Sim. — No momento. meio enterrado numa pilha de detritos sobre uma pequena montanha de fichas médicas manchadas. — Aqui é o Croup. Sepultá-lo. vacilão. — uma pausa. e aí o senhor Croup ficou mais branco que papel. — É pra você. vagabundo.. Os fios soltos do telefone ficavam pendurados. o senhor Vandemar achou o aparelho. Pegou o gancho e o passou para o senhor Croup. — Pouco profissionais? — perguntou. bem alto.. como havia pedido. O senhor Croup cuspiu no chão. Eliminá-lo. A gente deveria é matar aquele desgraçado. em tom cordial.. meu senhor. Continuou: — Meu senhor.. Cancelá-lo. Outra pausa.. Anulá-lo. — Nós? — Fechou a mão e esmurrou uma parede de . — Ainda não. O senhor Vandemar balançou a cabeça. Os dois olharam em volta. Depois. Neste trabalho.. Ele é o nosso chefe..güentei quase tudo que posso. — Ele é um tolo. Depois que ele nos pagar. ardiloso. Dá vontade de arrancar os olhos dele com os dedos. ele está morto. é você.. O senhor Vandemar não gostava de telefones. Houve uma terceira pausa.

— Meu senhor. com a boca cheia: — Eu gostei de fazer isso aí. cerca de cinqüenta heróis e dois deuses. ouvindo o que a outra pessoa dizia. e quanto ao homem que veio do Mundo de Cima? Não podemos matá-lo? O senhor Croup se contraiu. cinco papas.. que estava se divertindo pegando pequenas rãs e vendo quantas conseguia colocar na boca de uma vez só. disse. O senhor Croup olhou para o telefone. não espantalhos. Nós somos profissionais ao extremo. Tinha encontrado . — Sim. quando ele continuou a falar. Respirou fundo.. A pessoa do outro lado havia desligado. mas não gosto disso. — Que nós somos assassinos. O senhor Vandemar. Nós matamos. antes desta. — O que eu quero provar com isso? — perguntou o senhor Croup. segurando o telefone enferrujado e quebrado. contudo. Nossa última missão. enquanto espanava a poeira imaginária de seu terno preto e gasto. O senhor Vandemar foi até ele. cuspiu mais uma vez e chutou a parede. Não houve mudança em seu tom de voz. eu compreendo. no século XVI. ignorando a poeira de verdade. Nós cortamos gargantas. Levamos a Peste Negra até Flandres. — Uma pausa. — Dar um susto nela? Mas nós somos assassinos. Depois o segurou com uma mão e começou a arrebentá-lo metodicamente em pedaços. Fez outra pausa. batendo-o contra a parede. e perguntou: — Bom. foi torturar até a morte todos os monges de um mosteiro na Toscana. Assassinamos uma dezena de reis.tijolos. Permita-me por favor lembrá-lo de que eu e o senhor Vandemar destruímos a Cidade de Tróia.

Família Corvidae. pensativo. Com isso ficou em silêncio. arrastando-se pelo queixo dele. colocar a mão em volta de seus pequenos pescocinhos e apertar até pararem de se mexer. — Espantalhos — cuspiu o senhor Croup. Roía as unhas. — Corvos. enojado. Ela não falava quase nada. Ela tentava fugir. Substantivo coletivo: assassinato — recitou. como se fosse um gordo charuto. junto de Door. — Ia ser meu próximo chute. Quando percebeu que ele a olhava. — Um espantalho? — Nosso chefe. e a estava mastigando. Passava sem pressa de um estado de raiva exasperada para um de mau humor e conformidade. — Quem era? — Quem você acha que era? O senhor Vandemar mastigou. Isso faz eles morrerem de medo. ouviu o som de corvos voando. Door se encolheu e se . passava as mãos por entre o cabelo avermelhado até ele ficar armado em todas as direções e depois tentava colocá-lo de volta no lugar. *** Richard esperava perto da parede. — A melhor maneira de espantar corvos — disse o senhor Vandemar — é ir de mansinho atrás deles. gralhando. Lá em cima. deliciando-se com o som da última palavra. Ela sem dúvida não se parecia com ninguém que ele já vira. e então sugou a lesma para dentro da boca. O senhor Vandemar engoliu o que tinha na boca e limpou os lábios na manga. zangados.uma grande lesma preta e cor-de-laranja brilhante.

que era um trem normal. seu rosto olhava para o mundo. barulhento. Apontou para um ponto na plataforma. vocês três. — Este deve ser o trem que vai para Earl’s Court. Lá de dentro. no inverno anterior. Consultou o pedaço de papel e seu relógio. Um trem se aproximava. Fiquem atrás de mim. atrás de Covent Garden: ele não sabia ao certo se era um menino ou uma menina. Richard ouviu um bebê começar a chorar em algum lugar. Mastigava um pedaço de doce. O marquês lhes dissera onde deveriam esperar e logo desaparecera. sem dizer nada. — Só resolvendo umas coisas — explicou o marquês. desapontado. De Carabas apareceu em uma porta e foi até eles. Hunter estava perto de Door. Sua expressão lembrava Richard de uma bela criança desamparada que ele vira uma vez. Sua chegada era anunciada por uma brisa morna. o marquês se debruçou sobre Richard para falar com Door: — Minha cara. existe algo que talvez eu devesse ter dito antes. olhando para os dois lados da plataforma. Mas a criança olhava para o mundo. Enquanto o trem do Submundo — Richard percebeu. Ela voltou para ele seus olhos de cor estranha. olhando. ficando ainda mais escondida em seu casaco de couro. de aparência banal — chegava à estação. Ficava lá. parada. — Sim? . — Está se divertindo? — perguntou Richard. Sua mãe pedia esmolas às pessoas que passavam para alimentar a criança e o bebê que carregava nos braços. embora fosse certo que estivesse com fome e com frio.perdeu dentro de suas camadas de roupas.

O vagão que tinha parado na frente de Richard estava bem vazio: as luzes. apagadas. — Quem bate? Através da fresta. Nada aconteceu. só via um vagão vazio e escuro. O trem diminuiu a velocidade e parou. As outras portas do trem sibilaram e abriram. complicada. Richard via algumas chamas queimando. a Corte do Conde. e agora eles estavam dentro de Earl’s Court. pessoas e fumaça dentro do vagão. As do vagão escuro continuavam fechadas. os passageiros entravam e saíam. — Lady Door e seus acompanhantes — anunciou o marquês. A abertura era só uma fresta. escuro. Richard estava começando a pensar se o trem partiria sem eles quando alguém abriu a porta do vagão pelo lado de dentro. com óculos. fechados e escuros. no entanto.. o interior desolado. saiu. . A porta se abriu por completo. pode ser que o conde não fique muito satisfeito em me ver. uma batida ritmada. Algumas vezes Richard já tinha reparado nesses vagões.— Bom. com educação. Através dos vidros. O marquês bateu na porta. nos metrôs. e o rosto de uma pessoa idosa. e ficava se perguntando para que serviam..

falava de amenidades com várias damas de idade avantajada.SETE HAVIA PALHA ESPALHADA PELO CHÃO. — Não. desempenharia o papel de guarda. é claro. O homenzinho grisalho piscou. que (avaliou Richard) pareceria um velhinho recém-aposentado não fosse o capacete. O cachorro olhou para Richard. meio míope. foi culpa minha — emendou Richard. ele parecia um velhinho aposentado do exército que fora convocado para atuar numa peça amadora em que. com um falcão usando uma carapuça pousado no braço. caminhou pelo corredor e parou ao lado de um músico de alaúde. olhavam para os quatro viajantes. que estava sentado no chão. SOBRE UMA CAMADA DE juncos. — Eu sei. a sobrecasaca. deitou-se e foi dormir. Um cão. crepitando e espalhando sua luz. Havia cadeiras com almofadas bordadas a mão e tapeçarias cobrindo as janelas e as portas. um enorme wolfhound irlandês. A pessoa mais próxima era um guarda idoso. para Richard quando ele o agarrou. a armadura de malha de metal meio malfeita e a lança. outros. tentando tocar uma melodia de um jeito meio indolente. Na outra extremidade do vagão. Richard oscilou um pouco para a frente quando o trem saiu da estação. é claro. com voz lúgubre: — Sinto muito. Havia uma grande lareira acesa. e lhe disse. bufou com desdém. Havia algumas galinhas ciscando pelo chão. ignoravam . Alguns passageiros. até recuperar o equilíbrio. Na verdade. grisalho e baixinho. um pouco a contragosto. um falcoeiro idoso. Tentou se segurar na pessoa mais próxima.

Levou o conde até um assento de madeira. e um rosto pintado. visíveis sob a barra de sua surrada túnica de pele. Ia de cabeça erguida. Richard pensou que era como se alguém tivesse transportado. Este deve ser o conde. E começou a imaginar se haveria um barão na estação Barons Court. como um falcão com um olho só. Earl’s Court: A Corte do Conde. O bobo da corte era um homem mais velho. e pronunciou: — Pois então. Havia pedaços de comida em sua barba vermelha e cinzenta. vocês aí. e disse: — Gostaríamos de ter uma audiência com Sua Graça. feitas de retalhos. o que o fazia ter uma aparência um tanto indefesa e desajeitada. um. vestido com uma túnica coberta de pele e sapatos baixos de tecido. Door deu um passo para a frente. esculpido como se fosse um trono — e lá sentou-se o conde. Digam a que vieram. Um arauto ergueu a corneta aos lábios e tocou uma nota sem ritmo quando um homem idoso e enorme. com uma boca fina. pensou Richard. de um jeito meio desengonçado.. mal-humorada. atravessou o vagão e pôs-se aos pés do conde. Mas é claro. O velho era grande em todos os sentidos e usava um tapa-olho do lado esquerdo. O wolfhound se levantou. parecendo de repente mais alta e mais à vontade do que Richard vira antes.. o braço apoiado no ombro de um bobo da corte que trajava roupas esfarrapadas. do modo mais fiel possível. uma pequena corte medieval para um vagão do metrô. o Conde. . veio andando pela porta que levava ao outro vagão. O velho guarda tossiu uma tosse asmática. um corvo na Ravenscourt.sua presença. e suas calças pareciam um pijama. pensou Richard (e estava certo).

não falem muito. Continuou: — Bom. o guarda velhinho. E quem são eles. venha! Deixe-me olhar para você.O conde acenou para alguém do outro lado do vagão. — Ele quer saber quem são vocês. — Sim. — disse o conde. — Ah. — Ela disse que é a filha mais velha de Portico? — perguntou ao bobo da corte. Mas sejam breves. — O que essa mocinha disse. é? Uma audiência? Que maravilha. e depois parou. Halvard. foi uma. — outra pausa . Debruçou-se para a frente e tentou enxergar através da fumaça com seu olho bom. toda a sua família. Quando ficou de frente para o trono de madeira do conde. O conde fez um gesto para que Door se aproximasse. Ele coçou a barba e olhou para ela. Halvard? Halvard voltou-se para eles. — Ficamos todos devastados com a notícia de seu pai e sua terrível. O conde tirou seu capuz de pele e coçou a cabeça. remexeu-se e pôs a mão em concha perto da boca.. Dava para ver que estava ficando careca. fez uma reverência. Ela caminhou pelo vagão que chacoalhava. agarrando os apoios pendurados no teto para não perder o equilíbrio. Halvard? Richard ficou pensando que ele talvez fosse surdo. — Venha cá.. pensativo. Venha. Sua Graça. sua voz mais alta que o barulho do trem. — Sou Lady Door. O conde ficou radiante com isso. — Eles querem ter uma audiência.. venha. O Lorde Portico era meu pai.. Sua Graça — gritou.

Talvez seja então algum rato que cresceu demais. só para ajudar a piada. eu e seu pai. numa voz retumbante e rabugenta. o bom e velho Portico. E parou. meio cons5 O bobo tenta chamar a atenção em inglês shakespeariano: “La” é uma  interjeição. incrédulo. — Eu? Hã.. Os cortesãos deram risinhos meio abafados.. o que rouba covas? De Carabas. sempre cheio de idéias. Virou-se para os cortesãos em volta.. Richard Mayhew. eu? Meu nome? É Richard. com um sorriso radiante — sou o marquês de Carabas. Tooley. o ladrão? De Carabas.— Você sabe que eu gostava muito dele e que já negociamos... O bobo da corte veio cambaleando pelo corredor. — E eu — disse de Carabas para o bobo. (N.. nuncle5. — De Carabas. apesar do barulho do trem: — Vá fazer graça para eles.  “nuncle”  é  contração  de  “mine  uncle”  (“meu  tio”  ou  “meu  senhor”). Eis aqui um palerma que usa saia xadrez. Os cortesãos deram risadinhas contidas. T. Eu? La. Seja útil. O bobo da corte piscou.. — Eu? — disse o bobo. quem é? — perguntou. — E você. E continuou: — Mas este não pode ser de Carabas. alta o suficiente para ser ouvida.) . imitando o sotaque escocês de Richard com voz fina e afetada. E por quê? Porque de Carabas há muito foi banido da presença do conde. Deu um leve tapinha no ombro do bobo da corte e sussurrou.. não um homem. Parou na frente de Richard.. — Eu? Hã. andando como se tivesse artrite.. o traidor? — perguntou o bobo.

Posso estar velho. Ah. de jeito nenhum! Façam-no vir adiante. mas não me esqueci. mas comprimiu bem os lábios e começou a tremer. olhou para ela e desistiu. diga algo engraçado. O wolfhound grunhiu sem abrir a boca. . — Você! — disse o conde. como recompensa. O conde não disse nada. diante do trono do conde. para seus pés. Sua cabeça roçava o teto do vagão.trangidos. Ravenscourt. de Carabas. E. que encarava o marquês de Carabas todo esse tempo. que foi andando com calma até a parte posterior do vagão. O bobo ficou olhando para baixo. com chamas nos olhos. recorda-se? Negociei o tratado de paz entre o seu povo e a Corte do Corvo. como um bárbaro envelhecido. educado — que tínhamos um acordo. nodoso. — Eu reconheço você. ficou de repente em pé como um vulcão de barba cinzenta. Um sorriso ameaçava aparecer no canto dos lábios perfeitos de Hunter. Apontou para de Carabas e gritou. apontado para ele um dedo enorme. Halvard sacudiu. como se fosse dizer algo. e um murmúrio percorreu o grupo. meio desanimado. O marquês fez uma reverência. cuspindo: — Isso é algo que não tolerarei. — Vamos — pediu ela —. existe mesmo. Não me esqueci. E então murmurou: — A senhorita conhece a piada do “não nem eu”? O conde. E aí os cortesãos ficaram em silêncio. — Permita-me lembrar Sua Graça — começou ele. — Eu me chamo Hunter. sua lança na direção do marquês. então a Corte do Corvo. o senhor concordou em fazer-me um pequeno favor. até ficar ao lado de Door. O bobo abriu a boca.

Sua Graça. sem conseguir se lembrar. de Carabas veio comigo como meu convidado e acompanhante. — Ele abusou de minha hospitalidade — ralhou o conde.. como alguma coisa que é estripada e deixada. — Não importa. — E. Não me esqueço dessas coisas.. sua barba se eriçando — Eu jurei que.. cada um segurava uma . como um salmão defumado.. não é? — sussurrou Door para de Carabas. em voz alta e clara —.... Em nome da ligação que havia entre a sua família e a minha. como se fosse... O conde deu de ombros.pensou Richard. devo dizer que este é um tapa-olho muito elegante. se ele entrasse mais uma vez em meus domínios. com voz grossa. Ficou vermelho de raiva.. Ficou imaginando como seriam as coisas por lá. — Então talvez ele não ficasse muito satisfeito em revê-lo... E continuou: — Eu vou me lembrar. peguem-no! E os guardas foram até ele.. eu mandaria tirarem-lhe as tripas e o deixaria secando ao sol. Door deu mais um passo à frente. eu. — e parou de falar.. confuso. — Eu jurei que.. se me permite. em nome da amizade entre meu pai e. — dizia o conde. meu senhor? — sugeriu o bobo da corte. se você colocasse os pés mais uma vez em meus domínios... ele não está mesmo — sussurrou ele de volta. — Eu jurei. — Bom. — Você chama isso de um pequeno favor? Perdi uns dez homens por causa de sua insensatez ao bater em retirada da Cidade Branca. — Talvez.. como. É perfeito para o seu rosto. Balançou a cabeça.. Embora muitos já tivessem passado dos 60 anos de idade. Perdi um olho.. — Um pequeno favor? — repetiu o conde. Guardas. espumando de raiva. — Sua Graça — disse ela.

todos nós iremos. — Não — disse ela. nem de velhice. — Sua Graça. — Sim. A menina olhou para o velho. Sujeito engraçado. Door cruzou os braços e levantou mais a cabeça. como se nada tivesse acontecido: — Minha cara senhora. — Não tolerarei a presença dele aqui. Ela não parecia estar preocupada com aquilo: observava a cena como se estivesse se divertindo. são — interrompeu o conde. erguendo seu queixo pontudo. — Se você for.. congelados por alguns momentos. Preciso explorar outras coisas. Seus olhos de opala faiscavam. e sim alguém acostumado a fazer valer sua vontade. Não parecia mais um duendezinho que morava na rua. o marquês é meu acompanhante em minha busca. — Mas me sinto forçada a dizer que considerarei qualquer ato de violência contra meu acompanhante como uma agressão contra mim e minha casa. Ele era bem mais alto que ela. O marquês pegou o relógio de bolso dourado que havia encontrado no escritório de Portico. Virou-se para Door e disse.. Eu conheci o seu avô também. Fez um bico com o lábio inferior. nem de medo. como alguém que assiste a uma peça de teatro. como se fosse uma criancinha. Meio cabeça-de-vento — confidenciou.arma. e suas mãos não tremiam. Ficaram ali parados. Ele puxava sua barba avermelhada e cinzenta. Encontro vocês no próximo Mercado. — Há centenas e centenas de anos. Nossas famílias são amigas há muito tempo. apontada para o marquês. serei mais útil fora do trem do que aqui dentro. — Acho melhor não. nervoso. Não faça nenhuma besteira neste . Hunter tomará conta de vocês enquanto estiverem na Londres-de-Baixo. Richard olhou para Hunter.

. — Onde estão os meus bons modos? — murmurou o conde para si mesmo. O trem estava chegando a uma estação. Door olhou fixamente para o conde: havia algo antigo e poderoso naquele olhar. algo que sua jovem idade não deixava transparecer. O conde sentou em seu enorme trono. Olhou para eles com seu único olho. Halvard ergueu sua arma e a apontou para as costas do marquês. apontando-a de novo para o chão. feito um salmão defumado. — Apenas tirem ele daqui — ordenou. e passou por uma porta aberta do vagão. — Então o senhor o deixará ir em paz. — e fez um gesto com o dedo velho e grande sobre seu pomo de Adão — .meio-tempo. . Olhou para o marquês e disse: — Da próxima vez. Hunter esticou a mão e empurrou a extremidade da arma. — Onde estão os meus bons modos? Fez um gesto para que um dos guardas idosos fosse até ele. na outra ponta do vagão. O trem chacoalhou e partiu túnel adentro. O conde passou as mãos pelo rosto. Richard percebeu que todos ali ficavam em silêncio sempre que ela falava... Sua Graça? — perguntou ela. O marquês fez uma reverência. De Carabas saiu para a plataforma. com uma voz retumbante. Não disse nada. esfregou o olho bom e o tapa-olho e voltou-se para ela. virou-se e despediu-se com uma reverência cheia de salamaleques. E disse de novo. A porta sibilou e se fechou. — Eu sei onde fica a saída — comunicou aos guardas.. num tom insistente que Richard conseguiu sentir no seu estômago como um acorde grave de contrabaixo.

e então recitou. — Sim. . Ninguém parecia notar nada de diferente. — Chocolates. uma após a outra. Ela Umedeceu os lábios e disse: — Bom. E bateu com sua luva de malha de metal na lateral da máquina. Dagvard. mantenham-se afastados das portas”. o. mas Halvard as bloqueou com sua lança. Ninguém entrou no vagão. e ela começou a cuspir dezenas de barras de chocolate. Ouviu-se um zunido mecânico nas entranhas da máquina. As portas do vagão começaram a se fechar. alguma coisa. vermelho é o. disse uma voz pelos alto-falantes. imagino. — Ordens do conde — disse ele.. com voz profunda e grave: — Brava batalha esbravejante. — Sim. lâmina lapidada cravada em coração cruel. foi a morte de meu pai. As portas abriram-se e Dagvard saiu.. Sim.— Eles devem estar com fome após a jornada que fizeram.. “O trem não pode partir com as portas abertas” O conde estava olhando para Door de um jeito meio torto. Elas se abriram de novo e começaram a se fechar e abrir repetidas vezes sobre a lança. Você busca vingança. Ele assentiu com a cabeça. Richard observava as pessoas na plataforma. — E então. flameja o fogo furioso. O que é certo. Tirou seu elmo.. E com sede também.. Sua Graça. Dagvard posicionou seu elmo na abertura para as recolher. com o único olho que enxergava. de forma indireta. um movimento lento. Ele tossiu. — Parem o trem! — clamou o conde. o que a traz até mim? — perguntou. Sua Graça. “Por favor.. Dagvard foi até uma máquina de lanches que havia por ali.

Dagvard voltou cambaleante para o trem. Começou a choramingar e xingar. — Por favor. todas se empurrando. Amassado e arranhado. Ele se debatera contra uma mulher de meia-idade que tentava dar-lhe um punhado de notas de cinco libras tirado da bolsa. Lear começou a chorar. o elmo cheio de barras de chocolate e latas de refrigerante. As portas então foram fechadas e o trem partiu. estava coberto de notas. Foi o que meu pai disse. Minha família não tinha inimigos.. fixos. Ele se desviou para evitar as unhadas e acabou caindo no chão.. esquecida aberta no furor da confusão. Havia um pequeno grupo de pessoas em volta dele — mais de 20. Mas quero mais é entender o que aconteceu e me proteger. *** O casaco de Lear. e sapatos — chutando as moedas. — Eu disse para não usar demais — disse uma voz . Os azulejos da parede onde havia batido a cabeça estavam manchados de sangue.— Vingança? — Door ficou pensativa por um instante. o saxofone pendia. ainda estirado no chão do túnel. rasgando o casaco. sujando e destruindo as notas. uma turba descontrolada. menos de 50 —. os olhos vazios. meio torto. sobre seu peito. Sentiu no rosto uma cascata de moedas. Alguém pisou em sua mão. moedas. homens e mulheres lutando e se contorcendo desesperadamente para dar dinheiro a Lear. Sangue escorria por sua face e pingava na barba. — É. Por que vocês não me deixam em paz? Estava com as costas contra a parede. ansiosa para lhe entregar o dinheiro. Ela arranhou seu rosto.

— Mas eu avisei — retrucou de Carabas. quase relutante. — Sorte a sua eu ter voltado pelo mesmo caminho.. Deixou tudo lá mesmo. que fez um corte em seu rosto.. De repente. Quando viu Lear olhando para ele. desgraçado — choramingou ele. O marquês começou a tocar.. um pouco diferente a cada vez — “as variações de Carabas”. incertos no começo. repetida diversas vezes. — Eles podiam ter me matado — exclamou.. Ele abriu os olhos. Moedas e notas caíam. guardou o instrumento de volta no bolso da casaca e jogou para o músico um lenço de linho remendado. só faça eles pararem. com bordas de renda. — Sou uma pessoa de sorte ou você armou isso para . — Agora acho que você me deve outro favor — disse o marquês. depois mais rápidos. Ele ajudou Lear a se sentar. Alguém jogou em Lear uma moeda. As primeiras suaves notas da flauta ecoaram pelo túnel. ofegante. O grupo de pessoas estava cada vez mais perto. Lear limpou o sangue da testa e do rosto. — O que você quiser. Lear apanhou seu casaco do chão: estava todo rasgado e sujo de lama e marcas de sapatos. em tom acusatório. de fato existe uma mágica contrária — admitiu a voz. sentiu muito frio e jogou o casaco arruinado por cima dos ombros. O marquês de Carabas estava encostado na parede.elegante. — Toque logo. Dava para ouvir os passos se afastando de Lear. abraçado a si mesmo. tocando a flauta. — Mas que coisa! — Me ajude — pediu Lear. ali por perto. — Bom. escondendo o rosto entre os joelhos. Ele ficou em posição fetal. Uma seqüência simples.

cima de mim? De Carabas pareceu ofendido. — Mate alguém? O marquês esticou o braço e pegou de volta seu lenço. tão diferentes em entre si: um infante. Lear estremeceu. — Gostaria de propor um brinde a estes nossos três convidados. . — Qual desses sou eu? — sussurrou Richard para Hunter. — Não sei como você pode pensar uma coisa dessas. você está certo — respondeu ele. — Receio que você precisará roubar alguém. Prefiro vinho. E. — Necessito urgentemente de uma escultura da dinastia T’ang. com tristeza. — O tolo. O bobo da corte. cujo nome parecia ser Tooley. é claro. um matador e um tolo. sorrindo. Não é tão pegajoso. Mas depois. depois de dar um golinho no seu refrigerante — tínhamos vinho. o que você quer que eu faça desta vez? Roube alguém? Incendeie alguma coisa? — A voz de Lear soava resignada e um pouco triste. pigarreou alto. *** Deram a Richard uma barra de chocolate de nozes com frutas e uma enorme taça de prata — decorada com pedras que ele imaginou serem safiras — cheia de refrigerante. limpando a garganta. Pela primeira vez na vida. assentiu. Que cada um encontre o que merece. então. — Toda as máquinas dão as coisas para vocês desse jeito? — quis saber Richard. devagar. — Antigamente — disse Halvard. — Porque eu sei bem como você é.

da Jubilee. Estava sorrindo. Vamos. seis fantoches de mão. A biblioteca era uma enorme sala de pedra com um teto bem alto. bom. A parte dos trens. entende? Ele domina o Submundo. de todas. — O conde concordou em nos ajudar. com exceção da Linha do Submundo. vários binóculos. Halvard balançou a cabeça e retorceu a boca. Quanto mais tempo passava ali. — Isso. Havia livros. Richard foi. uma pá. dezenas de sapatos. — O que é a Linha do Submundo? — perguntou Richard. sim — respondeu o velho. Em vez de perguntar. na direção deles. tacos de hóquei. menos ele achava tudo estranho. é claro. — Eles ouvem o que o conde diz. um notebook. de madeira. da Bakerloo. mas as prateleiras tinham também outras coisas: raquetes de tênis. diversas canecas. que por sua vez estavam repletas de objetos. da Circle. Rodearam-no e entraram por uma porta atrás dele. muitos CDs e vinis (LPs e discos de 45 e 78 rotações).. que ia na direção do trono vazio do conde. da Victorious. fitas . Então você pode adicionar a Linha do Submundo a essas coisas. guarda-chuvas. É senhor da Central.. e percebeu que a pergunta “Que biblioteca?” não tinha saído de sua boca. uma pequena tora de madeira. Door voltou para o fim do vagão. seguiu Door. Hunter roçou os dedos de leve no ombro de Richard e disse: — Lembra quando eu te falei sobre os pastores de Shepherd’s Bush? — Você disse que eu não iria querer encontrá-los e que havia algumas coisas que era melhor eu não saber.— Ah. uma perna-de-pau. uma lâmpada de lava. Ele está nos esperando na biblioteca. As paredes estavam cheias de prateleiras.

e parecia meio constrangido. — Coisas perdidas. dados.. como se Door tivesse dito algo muito profundo. quatro modelos diferentes de gnomos de jardim (dois pescando. pilhas de jornais. com as pernas esticadas. relógios de pulso. Havia janelas na parede de pedra. carrinhos de brinquedo. banquinhos de três pernas. Vou me lembrar. a sala era um pequeno império dos achados e perdidos.. E como nós podemos chegar até ele? O conde assentiu com a cabeça. inúmeras dentaduras. Eu não gosto de mudanças. um mostrando a bunda e o outro fumando um charuto). coçando-lhe o queixo.cassete e super 8. — Do jeito rápido. revistas. Através delas. Franziu a testa. sim! O seu pai tinha um monte de idéias para mudanças. Sua Graça — disse Door. Sentado no chão.. — Ah. só uma vez. sabe? E pediu a minha opinião sobre elas. uma caixa de charutos. — Eu já te contei isso? — Sim. Bom. — Este é o verdadeiro domínio dele — murmurou Hunter. Sua Graça. — Fez uma pausa. Puxou sua barba cinzenta e vermelha. . um pastor alemão de plástico com uma mola no lugar de pescoço. Esquecidas. o conde acariciava o cão. Depois disso vocês precisam ir pelo caminho mais longo. — O anjo Islington. — Ah! Aí estão vocês. de maneira educada. Piscou o olho.. um gesto pequeno em um homem enorme. meias.. Richard podia ver a mais absoluta escuridão e as luzes do túnel do metrô passando rápido. O bobo estava ao lado dele. É perigoso.. Por isso o mandei para Islington. há um motivo para eu ter pedido que vocês viessem aqui. O anfitrião ficou de pé quando os viu. livros de mágica. lanternas.

A filha de Portico. quinhentos anos: um grande guerreiro. Para aquecer um velho durante a noite. Então a tocou no rosto.? — Não. A carcaça daquele homem ainda estava ali. Sem dúvida. em vão. adorador das mulheres. pacientemente: — E o jeito rápido seria. um ótimo amigo. A menina fez um gesto com a mão: Não. use o Angelus.. um terrível inimigo. Um ótimo homem. Depois tirou sua mão do cabelo dela. eu sou a filha mais velha de Portico. Como posso chegar até o anjo Islington? Richard ficou admirado com o fato de que Door conseguia ficar calma perante a batalha que o conde travava. para driblar as mudanças trazidas pelo tempo. Um bom homem. mas dessa vez com a voz um pouco trêmula. — Sim. Que tal? Lançou-lhe um olhar malicioso e tocou seus cabelos embaraçados com os dedos envelhecidos. um piscar solene — um abutre velho. não. oitenta. excelente estrategista. espero. Hunter deu um passo na direção de Door. sem dúvida. — Como fazemos para chegar até o anjo Islington? — repetiu Door. — Melhor ficar aqui comigo. Era isso o que fazia dele uma pessoa tão assustadora . a cabeça inclinada para o lado. O conde piscou seu único olho. Door olhou para o conde e disse: — Sua Graça. Colocou sua enorme mão sobre o ombro dela.. é claro. Richard imaginou o conde há sessenta. em algum lugar. Ainda não. Vocês precisariam de alguém capaz de abrir. Só funciona para a família de Portico. — Hum? Ah. Como vai o seu pai? Bem.E Door perguntou.

O trem havia parado em frente a uma placa com o nome da estação: BRITISH MUSEUM. — Não existe uma estação no Museu Britânico — disse ele. — Aqui está. Door e Hunter saíram da sala de pedra e voltaram ao vagão. Ele aceitava “Cuidado com o vão” e a Corte do Conde. O conde remexeu nas prateleiras. Richard olhou para a plataforma enquanto o trem parava. De alguma maneira. — Você vai nos deixar num lugar? Mas com um trem? O conde olhou em volta. — Deu uma gargalhada e tocou o bobo da . cachimbos. — Ah. categórico. E logo. olhou para Richard e deu um enorme sorriso. tirando do lugar canetas. e até mesmo aquela biblioteca estranha. como um gato velho tentando pegar um rato. e aquilo já estava indo longe demais. — Não existe? — perguntou o conde com seu vozeirão. Mas. Está tudo aí. Richard sentia a velocidade do trem começando a diminuir. — Desculpem-me. — Fazemos qualquer coisa pela filha de Portico. — disse ele. e então ele. com um ar de triunfo.e tão triste. puxa vida. E acho que é melhor deixar vocês no lugar onde precisam ir. ele conhecia muito bem o mapa do metrô.. pequenas estátuas de gárgulas e folhas secas. como todos os habitantes de Londres. revólveres de brinquedo. procurando quem havia dito aquilo. aquela era uma coisa ainda mais estranha do que as outras. mas onde estamos? — perguntou. mas não é nada. com sua voz poderosa. mocinha. agarrou um pergaminho pequeno e enrolado e o deu para a menina. então vocês têm que tomar muito cuidado ao sair do trem. — Hum. Door segurava firme o pergaminho..

fazendo um gesto para que Door. vão logo — disse o enorme velho. — Estou explodindo. Tooley? Eu sou tão engraçado quanto você. Richard e Hunter saíssem do vagão quente e fumacento e fossem para a plataforma vazia. quando as portas se fecharam e o trem foi embora. E. Sua Graça. olhasse para o outro lado e de novo para ela de repente.corte no ombro. — Viu. Richard estava olhando para uma placa que — por mais que ele piscasse. As portas se abriram. O bobo deu o sorriso mais triste do mundo. de forma obstinada: BRITISH MUSEUM . Door sorriu para o conde: — Obrigada. minhas costelas estão se partindo de tanto riso incontido. como se quisesse pegá-la de surpresa — persistia em mostrar as seguintes palavras. — Vão.

antes mesmo de concluída a obra. depois da limpeza da cidade. para o asfalto iluminado pelas luzes.OITO ERA O COMEÇO DA NOITE. alguns carros e um executivo que saía tarde do trabalho trancando uma porta e indo em direção ao metrô. Old Bailey se lembrou de quando as pessoas realmente viviam na cidade. pelo menos da perspectiva de Old Bailey. as quais. Pelo menos ela havia mudado pouco nos últimos trezentos anos. Fora construída com pedras Portland brancas. Old Bailey não sabia se poderia dizer o mesmo sobre o resto da cidade: imerso em seu amado céu. pensou. riam. quase voltaram à sua cor original — mas ainda era a mesma catedral. Paul’s Cathedral. O céu. O velho montara sua cabana para passar a noite na laje do prédio em frente à St. Nunca há um céu igual ao outro. construíam casas decrépitas . E O CÉU SEM NUVENS PASSAVA DO AZUL VIVO A um violeta intenso. sobre Paddington. começaram a escurecer com toda a fuligem e poeira de Londres. o sol havia acabado de se pôr. não apenas trabalhavam — época em que desejavam coisas. com manchas laranja e verde. nem de dia. Ele gostava da catedral. Podia ver câmeras de segurança afixadas a uma parede. Irc! Só de pensar em descer ao subsolo Old Bailey já se sentia mal. Old Bailey era quase um especialista em céus. ficou olhando de cima do telhado lá para baixo. satisfeito. e. Ele era um homem que vivia em telhados e se orgulhava disso — havia muito tempo fugira do mundo que ficava lá embaixo. e aquele ali era ótimo. onde. uns seis quilômetros para oeste. no centro de Londres. na década de 1970. nem de noite.

a sujeira. O que você quer? Saber mais? Ou quer um pássaro? De Carabas caminhou até ele. mas agora ninguém vivia na cidade. Eles resmungaram um pouco. todas cheias de gente fazendo barulho. Era um lugar frio e sem graça. O último borrão do sol alaranjado desapareceu na cor roxa da noite. Pegou seu garfo comprido de carne e o balançou. — Quem está aí? O marquês de Carabas saiu das sombras. ameaçador. pelo menos coloquialmente. em locais distantes um do outro. é você. na direção da chaminé. de pessoas que trabalhavam de dia e iam para casa à noite. algumas cenouras e batatas. Saiu para o telhado e acendeu uma pequena fogueira numa lata de café escurecida pela fuligem. Pois bem. como Viela da Bosta) eram notórios naquele tempo. Old Bailey coçou o nariz. fez uma pequena reverência e deu um sorriso triunfante. sal e dois estorninhos que estavam pendurados. um pouco de água. depois entrou em sua cabana e pegou uma panela enegrecida. O velho cobriu as gaiolas para que os pássaros dormissem e acordassem vistosos no dia seguinte. o barulho.que ficavam inclinadas umas sobre as outras. Old Bailey abaixou seu garfo. Ele até sentia saudade do mau cheiro. — Ah. o fedor e a cantoria da viela próxima dali (então conhecida. A cidade não era mais um lugar apropriado para viver. cheio de escritórios. mas em seguida se acalmaram. mortos e já depenados. pegou um pedaço de cenoura crua de dentro do ensopado e começou a mastigá-la. . Estava colocando seu ensopado para cozinhar quando percebeu que alguém o observava da sombra ao lado de uma chaminé.

— Muito bem. uma estatueta negra de animal. — E agora. o que você pode me dizer a respeito disto aqui? — perguntou ao velho.. .. Old Bailey concordou. Era frio ao toque. inclinando-se na direção do marquês: — E o que você me dá em troca? — Do que você precisa? — Talvez eu deva fazer o que você faz: pedir outro favor. O inverno vai ser terrível. quem sabe. Desfrutando do pequeno desconforto que o marquês sentia. não é? E depois. — A longo prazo é caro demais — disse o marquês. e o frio estava chegando bem rápido. Examinou suas luvas sem dedos: havia mais buraco nelas do que tecido. Old Bailey caiu na gargalhada. na verdade. mal-humorado. De Carabas nada disse. impacientes. E uma balaclava. Um investimento para o futuro. — Rá! Sempre tem a primeira vez. O marquês de Carabas colocou a mão em um bolso interior e retirou de lá. Sentou-se sobre a máquina do ar-condicionado e. anunciou: — É a Grande Besta de Londres. no mesmo ritmo. Old Bailey continuou. Vou trazer pra você. — Então quero sapatos. que havia pegado no escritório de Portico. revirando a estátua de obsidiana em sua mão diversas vezes.— Quero uma informação. Old Bailey sorriu. Old Bailey colocou os óculos e pegou o objeto da mão do marquês. Seus olhos iam da estatueta para o velho. como um mágico que tira uma rosa do nada. O sol já tinha se posto. — E luvas novas.

De Carabas suspirou. São muito velhos. — Ele tinha outra cabeça. Um amigo meu teve a cabeça comida por um deles. — Bichos assim são horríveis demais pra morrer. antes do incêndio e da peste. havia um açougueiro que vivia na Fleet Ditch engordando um bicho para o Natal. Old Bailey assentiu. Depois ergueu a mão e fez um gesto como se fosse a cabeça de um crocodilo mordendo. em dezembro. Ficou mais feroz e perigoso. toda orna- . sem saber ao certo se Old Bailey estava só fazendo graça. Entrou na cabana marrom e retornou segurando a caixa prateada. — Ah. O marquês fez “humpf”. Uma noite. e gente que diz (e eu estou no meio deles) que nunca se soube ao certo. aqueles bichos enormes? Eles estão lá embaixo. De tempos em tempos. O marquês retorceu a boca. e guardou a estátua mais uma vez na casaca. Houve um pequeno silêncio. — Mas tudo bem — sorriu o velho. com um ar de sábio. Old Bailey balançou a cabeça. gente que diz que não era. dizem que na época do primeiro Rei Charles (cortaram a cabeça dele. Como os crocodilos que vivem no esgoto de Nova York. Old Bailey devolveu a estatueta para de Carabas. eles mandavam caçadores pra pegar o bicho. um sorriso terrível.— Bom. o bicho fugiu. — Espere aí — disse Old Bailey. coitado). A coisa se alimentava lá e foi crescendo cada vez mais. — Deve ter morrido uns trezentos anos atrás. Tem gente que diz que era um leitão. na direção do marquês. grandes e terríveis. — Eu achei que fosse só uma lenda. correu pra dentro da Fleet Ditch e desapareceu nos esgotos.

Old Bailey se debruçou e perguntou: — Como vou saber se preciso usar? — Ah. — Eu pego de volta quando tudo estiver terminado — gritou. é só o que digo — murmurou Old Bailey para si mesmo. excursões diurnas para o litoral que custavam dois xelins. — Esta é mesmo a estação do Museu Britânico — admitiu ele. Richard olhava para elas. . — Não se esqueça dos sapatos e das luvas! *** As propagandas nas paredes anunciavam bebidas maltadas refrescantes e saudáveis. enegrecidas pela fumaça. Esticou-a na direção do marquês. E os ratos vão dizer o que você deve fazer. — Espero que você não precise usá-la. — Espero que eu nunca precise saber. usando as calhas e os parapeitos como apoio.. — Ei! — gritou para a noite e para a cidade.. esquecido. — E quanto a isto aqui? Já posso devolver? Me dá calafrios ter esse negócio comigo. E escorregou para a lateral do prédio. mas nunca houve uma estação do Museu Britânico. Está tudo errado. Eram relíquias do fim da década de 1920 e do começo da de 1930.mentada. que de Carabas lhe dera da última vez em que se encontraram. arenque defumado. você saberá. pomada para alisar os pêlos do bigode e serviço de engraxate. De Carabas foi até a beirada do telhado e pulou para o edifício ao lado. Foi quando um pensamento lhe ocorreu de repente. O lugar parecia completamente abandonado. que ficava uns dois metros abaixo. espantado. — Mas.

uma moça chamada Anaesthesia. e ela não chegou até o outro lado.. — Existem muitas estações como esta? — Umas cinqüenta — respondeu Hunter. — Hã. no escuro.. — Senhorita Bigode? Door encolheu os ombros. se você quer dizer alguma coisa para ela. pensou Richard. Ela estava me levando para o Mercado. — É uma tradução literal. que diga você mesmo — disse Door.. senhorita Bigode. Algo se movimentou nas sombras. — Obrigada — agradeceu Door. Soa melhor em ratês. O rato o interrompeu com um guincho agudo. Sem dúvida que sim. na beirada da plataforma. Door? Será que você poderia dizer uma coisa para o rato por mim? O rato virou a cabeça na direção dele..— Ela foi fechada em 1933 e lacrada — contou Door. oi.. — Olá — disse Door. Um rato marrom surgiu na área iluminada e cheirou sua mão. Richard foi até eles. tinha uma pessoa. — A senhorita Bigode me falou que. — Mas nem todas são acessíveis. sentia o ar sendo impulsionado quando eles passavam. olha. Era como viajar no tempo.. com voz alegre. — Também fico feliz por você não estar morta. — Que bizarro! — exclamou Richard. Door . — Como vai você? Ela se agachou. uma falante de ratês. Podia ouvir os trens ecoando pelos túneis perto dali. — Hã. Nem mesmo para nós.. A gente estava atravessando a ponte..

O rato guinchou de novo. que se abriu com um chiado de dobradiças enferrujadas.começou a falar.. e sua face se iluminou. como se fosse uma tradutora simultânea. É o nosso Dom. — Às vezes as pessoas voltam. a minha família. Hunter direcionou o feixe de luz da lanterna para a escuridão: era possível ver uma escada de pedra que levava para cima. — Eu . — Hunter.. Door empurrou a porta.. Richard empurrou a porta de metal. Ela agradece sua preocupação. aquele rosto de elfo pareceu muito bonito. Observe. hum. Durante longos instantes. fique atrás... A sua guia foi. piscou seus olhinhos de contas negras. — Richard.. Nós abrimos portas. nada aconteceu. — Precisaremos de ferramentas. — Mas. levada pela noite.. indicando um arco que emoldurava uma porta de ferro. mas estava trancada. sim? — pediu Door. aos poucos. os ratos não o culpam pela perda.. pulou para o chão e correu de volta para o escuro. — Ela diz que. como um tributo. — Parece que a passagem está fechada — disse ele.. seguido de um barulho metálico. O rato fez um movimento de cabeça para Richard. Ela esticou a mão suja e tocou a porta. Por um instante.. Foram até o local. De repente Door sorriu. A menina parecia estar mais bem-humorada.. — É para lá — disse. agora que tinha o pergaminho. Ela empinou a gola do casaco de couro e enfiou as mãos nos bolsos. mas logo se ouviu um estrondo muito alto do outro lado...... — Ela é uma rata legal — comentou Door.

com desdém. você é a minha guarda-costas. — Sou sua guarda-costas na Londres-de-Baixo. A mulher parecia constrangida. Richard ouviu sua própria voz dizer: — Escute. o queixo pontudo erguido. Hunter mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça. perplexa —. estamos indo para a Londres-de-Cima? — Isso mesmo. o que teria sido péssimo. Então ela respirou fundo . — Minha senhora.vou na frente. ele achou que ela estivesse prestes a agredi-lo. — Algum tipo de maldição ou algo assim? Hunter hesitou. Richard notou que aquela era a primeira vez que via Hunter demonstrar algo além da exímia competência ou. Hunter não se moveu. os olhos semicerrados. não seja boba. às vezes. — Não — disse Door. — Não entendo. — Mas você precisa ir. um certo senso de humor irônico. Sua voz tinha um certo tremor. Era como se ela estivesse admitindo ser portadora de alguma doença estigmatizada pela sociedade. o que teria sido muito. Hunter tomará conta de vocês enquanto estiverem na Londres-de-Baixo. lembrou-se Richard. umedeceu os lábios e apenas assentiu com a cabeça. — Eu preciso ficar na Londres-de-Baixo. ou até mesmo a chorar. Ela subiu alguns degraus. muito pior. Pensei que você entendesse. Não posso ir com você até a Londres-de-Cima. Estamos indo ao Museu Britânico. Por um segundo. não posso. — Minha senhora — chamou —. O marquês sabe. — Hunter — disse Door. Hunter. Qual o problema? — perguntou. O Richard fica no meio.

Door recomeçou a subir a escada. Logo viu a lamparina de Door mais acima. — Vou esperar aqui até ela voltar — disse Hunter para ele. Door não disse nada. meio separadas: parecia uma estátua de mulher. abafado. Seus lábios se comprimiram levemente e seu queixo se ergueu um pouco. úmido. O ar ali era sufocante. Richard a seguiu. Mas não me peça para segui-la até a Londres-de-Cima. Richard se . Door esperou até ele recuperar o fôlego. e aí vamos todos juntos e. — Espere! — gritou. — Bom. Hunter permanecia imóvel ao pé da escada. no escuro. subindo a escada. — Por favor! Ela parou. Richard começou a subir a escada o mais rápido que podia.e disse. Richard estava em um degrau pequeno e claustrofóbico. Não posso. — Você não pode sair correndo desse jeito — reclamou Richard. em um tom comedido: — Estarei ao seu lado enquanto estiver na Londres-de-Baixo e guardarei a sua vida de todo o mal que possa cair sobre a senhora. Door já estava desaparecendo na escuridão. — Podemos achar o marquês. nós voltaremos logo. feita de cobre. — Você pode ir ou ficar. como preferir. Quando a alcançou. Richard — disse Door. por que não ficamos aqui embaixo? — perguntou ele. — Ei. Cruzou os braços e ficou com as pernas plantadas firmemente.. ofegante. — Certo. — Ela é sua guarda-costas — argumentou. Daí ela vai poder me proteger.. latão e caramelo. Venha.

— Está tudo aqui. — Acho que sim. segura de si. — Acho que o marquês sabia dessa maldição. — Pode abrir os olhos.. Nada demais. — Hum-hum — concordou ela.perguntou se seria possível saber quão insalubre era aquele ambiente sem um canário em mãos e se contentou em ter esperança de que não fosse tão prejudicial quanto parecia. Os degraus acabavam num beco sem saída. então os ratos não têm pêlos. A acústica no lugar também era diferente: estavam numa sala maior.. — Nada demais — repetiu ele. Ela abriu o pergaminho que o conde lhe dera. uma parede rústica de tijolos. Estavam do outro lado da parede. no que . Percebeu que a qualidade do ar havia mudado. Ele sentiu uma brisa contra o rosto. Achamos o Angelus e saímos. para ser honesto. Richard fechou os olhos. Door parou. Olha. obediente. — Nós vamos ficar bem — disse Door. — Sempre que as pessoas dizem isso nos filmes. Feche os olhos. ele não me parece muito confiável. Ele abriu. qualquer que seja ela — disse Richard. — Se ele é digno de confiança. — O que você quer dizer com isso? — perguntou Door. Fácil. alguma coisa horrível acontece. Temos que chegar até o Museu Britânico. — O marquês. passou os olhos na caligrafia rebuscada e o enrolou de novo. — Mas então por que pediu a ajuda dele? Não tinha mais ninguém? — Depois falamos sobre isso.

Acho que aqui deve ser um depósito ou algo do tipo. do tipo que só seria possível ver em algum lugar como. O senhor Croup e o senhor Vandemar estavam cada um sobre uma coluna baixa para vasos. Richard se lembrou de uma horrível exposição de arte contemporânea a que Jessica o levara certa vez: um jovem e entusiasmado artista anunciara que quebraria todos os tabus da arte e. Richard Mayhew? — Nada. Door resmungou: — Droga.. — E você precisa de proteção contra o quê. Mas estamos bem perto. talvez contra eles. Eram peças magníficas. exposta num manequim de cera. para esse fim. ao mesmo tempo que ele. como se estivesse avaliando ou tentando ouvir alguma coisa.. Door inclinou a cabeça e o encarou. séria.. — O Museu Britânico? — perguntou ele. — Não. — Eu queria que a gente tivesse ficado lá com a guarda-costas.parecia ser um depósito. Ela esticou a mão e tocou uma roupa antiga. Mas não era um depósito qualquer — havia algo de incomum e especial naqueles objetos. Cancelaram o evento depois que o artista vendeu o Cadáver Roubado Número 25 para uma agência de publicidade por uma quantia qualquer de seis dígitos e os parentes do Cadáver Roubado . raras. estranhas e caras. começou uma campanha de assaltos a covas. exibindo em caixas de vidro os trinta espécimes mais interessantes de seu vandalismo. uma de cada lado do corredor.. E. Ela franziu a testa. Viraram num corredor e ele completou: — Bom.

Pegou bem firme na mão de Door e olhou ao redor.. — Gostamos de vocês assim. é verdade. Se pensarmos bem.. — Deixe-me dizer algo gentil para suas orelhinhas de lã. Odiava-se por isso. com seus vestidos em decomposição e ternos manchados. ao ver uma foto da escultura no jornal The Sun. 1919-1987. Fiquem exatamente onde estão — disse o senhor Croup. Mas . E muito. Richard ficara olhando horrorizado para os cadáveres protegidos por vidro. Continuou: — Ah. Tinha que haver algum lugar para onde pudessem correr. o que o deixou ainda mais parecido com os Cadáveres Roubados Números 1 a 30. descanse em paz. senhor Croup — disse o senhor Vandemar. nós queremos machucar vocês dois. com duas exigências: receberiam parte dos lucros e o nome da peça deveria ser mudado para Edgar Fospring. O senhor Croup desceu da coluna. Richard olhou em volta. — Nada do senhor “Sou tão esperto que sei de tudo”? Nada da senhorita “Ah. — Queremos sim — corrigiu o senhor Vandemar. — Não. por favor.Número 25. me pintem de cinza e me chamem de lobo se não temos aqui dois carneirinhos perdidos. meus carneirinhos. — Ora. senhor Vandemar. — Você também pode me chamar de lobo. desesperado. saudoso marido. vejam! — disse o sorridente senhor Croup. solidário. processaram o artista e a agência. E não queremos ser obrigados a machucá-los. — Bom. pai e tio. mas não conseguia parar de olhar. eu não te disse? Ops! Não posso ir lá em cima”? Fez uma pausa dramática. sozinhos no escuro. O senhor Croup sorriu feito uma cobra com uma lua crescente colada na cara.

O senhor Croup se sentou na base da coluna do senhor Vandemar. Ele confirmou: — É. o senhor Vandemar mostrou os dentes. quando as coisas ficam chatas. Sua voz era firme.não é para isso que estamos aqui agora. com uma voz que parecia manteiga rançosa —. não ficamos alegres e saltitantes como uma brisa de verão. Estragar o dia de vocês. Richard apertou a mão dela. — E daí? — respondeu Door. vocês sabem. você vai ter que me matar primeiro — anunciou. Obrigado. clara. O senhor Croup sorriu. — Para machucá-la. Era sem dúvida a coisa mais horrível que Richard já vira na vida. — E nós vamos machucar você também — disse o senhor Croup. Para fazer vocês sofrerem. — Mas não ainda — completou Vandemar. só estamos aqui agora para deixar vocês preocupados. — Sabe — explicou o senhor Croup. A voz do senhor Vandemar era como um vento noturno soprando sobre um deserto feito de ossos. — Ah. Estamos aqui para deixar as coisas mais interessantes. por mais que vocês custem a acreditar numa coisa dessas. — Vocês visitaram a Corte do Conde hoje — disse ele num tom que Richard suspeitou que fosse cordial. É que. é ruim para mim e meu parceiro e. O senhor Vandemar pareceu muito satisfeito com aquilo. . — Deixe a gente em paz — disse Door. Se Door podia ser corajosa. Para provar que estava alegre feito uma brisa de verão. ele também podia. tudo bem. afastando-se deles.

Richard percebeu. — Vocês foram traídos. Richard achava que seu coração ia pular do peito. roubados. Luzes discretas iluminavam o exterior do enorme prédio vitoriano. e começou a correr. — Au revoir.60 m de altura e gostasse de carne humana — enquanto o senhor Vandemar. quase sussurrando. ao ar livre. de tanto que batia. somente para ela). em Bloomsbury. os degraus que levavam até a porta de entrada. à noite.— E como sabíamos disso? Como sabíamos onde vocês estavam? — A gente pode chegar a vocês na hora que quiser — disse o senhor Vandemar. insano. — Diga adeus a eles. . — Há um traidor entre vocês. Door a tocou e ela se abriu. na direção de uma porta. não assim — corrigiu o senhor Croup. E então emitiu um som — o ruído que um cuco faria se tivesse 1. Ali era o depósito de diversos tesouros do mundo. não. achados. senhor Vandemar — disse a voz de Croup. pintada de preto. — Ah. correndo pela calçada da Russell Street. Um grande carro preto passou por ali. jogou para trás a cabeça e uivou como um lobo — um som sobrenatural. resgatados e doados durante séculos e séculos. *** Estavam do lado de fora. — Vamos! — gritou ela. menininha — disse Croup para Door (e. mais de acordo com sua natureza. selvagem. Richard a seguiu pelo corredor cheio de quinquilharias. — Adeus! — exclamou o senhor Vandemar. O Museu Britânico ficava do outro lado de uma grade alta. os grandes pilares da fachada.

Nada aconteceu. Preciso de um tempo para me recuperar. Havia uma fila de pessoas esperando nos degraus de pedra que levavam até as portas do museu. e uma mulher que corajosa- . Door assentiu. Exige muito de mim. Ela se encurvou e sumiu ainda mais em seu casaco de couro. Havia um guarda no portão. todos os convidados. Um senhor de idade. — O portão principal. Depois marcava nomes numa lista. implacável. A uns cinqüenta metros. Richard e Door passaram pelo portão e ninguém os notou. antes de deixá-los entrar. o que significa que estava mesmo muito pálida. Door o agarrou com as duas mãos e o empurrou. toda vez.Chegaram a um portão na grade. — Estou cansada — disse. na calçada perto do portão principal. Um policial uniformizado ao lado dele revistava. e havia olheiras debaixo de seus olhos. — Acho que aqueles dois não estão seguindo a gente. e aí vou ficar bem. Correram até o portão principal. grandes carros estacionavam. — Você não consegue abrir? — O que você acha que eu estou tentando fazer? — respondeu ela. todos vestidos a rigor. com certo desespero na voz. apresentavam. Ele examinava com atenção os convites que aqueles homens bem barbeados e aquelas mulheres perfumadas. e os dois entraram nela. Preciso comer alguma coisa. — Por aqui — disse Richard. — Você está bem? O que aconteceu agora há pouco? — perguntou Richard. — Abri muitas portas hoje. casais bem vestidos desciam e caminhavam para o museu. com cabelos brancos. Parecia mais branca do que de costume. Olhou para trás.

O homem olhou em volta. Esse é o Richard.mente usava um casaco de pele verdadeira entraram na fila bem atrás deles. Richard pensou uma coisa. para ele. enojado. E fizeram um excelente trabalho. *** O senhor Vandemar estava com fome. Veja a que ponto chegamos. eles voltaram pela Trafalgar Square. . Não falaram nada por algum tempo. — e então mexeu num bolso interno. — Olá. que era a entrada do museu.. viu? Eles atravessaram a porta e entraram no Museu Britânico.. — Ah. como se não soubesse ao certo o que tinha chamado sua atenção. — respondeu o homem. intrigado. parada na sua frente. — Olá — cumprimentou ela. como se estivesse certificando-se de alguma coisa. enquanto a fila andava devagar na direção da única porta de vidro. Então vislumbrou Door. — Eles podem nos ver? Door virou-se para o cavalheiro. Tentando nos deixar preocupados. Olhou para cima. — É. — Dar um susto nela — murmurou o senhor Croup. — Um susto. — Viu? — disse Door. — Acho que sim — respondeu Richard. Door passou rapidamente os olhos sobre o texto do pergaminho. puxou de lá um charuto e os ignorou por completo.. — O meu nome é Door. Richard perguntou: — Um traidor? — Eles só estavam tentando nos enganar..

O chefe. não você. dar um susto. O senhor Vandemar segurava um pombo assustado. os quais jogava sobre as pedras da calçada à sua frente. de qualquer maneira. — Por que ficar tão escrupuloso a esta altura do campeonato? — perguntou. Por que ele não se decide? O sanduíche que o senhor Vandemar usava de isca tinha acabado. que arrulhava e se debatia em suas mãos. beliscando em vão seus dedos. — Eu não tenho escrúpulos. já soltamos o gato no meio dos pombos — disse. .. atraindo um pequeno bando de pombos famintos. agitando meus dedos lá dentro. — Não. — Bom.O senhor Vandemar tinha achado metade de um sanduíche de alface e camarão numa lata de lixo e o partia suavemente em pedaços pequenos. contente. senhor Vandemar — disse o senhor Croup. senhor Croup. Matar. Eu gosto quando os olhos pulam pra fora. Os olhos e os bagos. — Ela teria ficado muito mais assustada se de repente eu tivesse arrancado a cabeça do rapaz e enfiasse minha mão pelo pescoço dele. aprovando o gesto rápido. As pessoas sempre gritam quando vêem os olhos pular pra fora — confidenciou. demonstrando o movimento com a mão direita. ignorando a alface. — A gente devia ter seguido o meu plano — disse o senhor Vandemar. — Muito bem. O senhor Croup deu um suspiro teatral. e por isso ele mergulhou rapidamente no bando de pombos. Mais pombos cinzentos pousaram para ciscar os pedaços de pão e camarão.. alguns arrulhando. seqüestrar. que alçaram vôo fazendo um ruído alto. O senhor Croup não aceitava aquilo.

Parecia um quarteto de cordas. antes de se dar conta de que. Ele começou a pensar se não estava tendo uma alucinação. — Não. muito tempo. — Xiii — disse.O senhor Vandemar aproximou a ave do rosto. subiram diversos lances de escada e entraram onde havia uma placa escrito: “Inglês Antigo”. Door olhou mais uma vez para o pergaminho e procurou pela sala. — Estou ouvindo uma música — disse. há muito. Richard tinha uma sensação de déjà vu muito forte. com uma hostilidade um tanto exagerada para a pergunta. Passaram pelas salas egípcias. Só queria saber. . Ouviu-se um barulho de algo crocante quando ele arrancou a cabeça do animal e começou a mastigá-la. com mais cuidado. Fez uma careta. claro que aquilo tudo era familiar: era ali que ele passava os fins de semana na época de Jessica. — Então o Angelus não estava naquela sala? — perguntou Richard. o Angelus está em algum lugar aqui. E isso já começava a parecer que tinha acontecido a outra pessoa. *** Os seguranças dirigiam os convidados do museu para um recinto que parecia funcionar como sala de espera. com Richard atrás dela. Entraram em outra sala. não estava — respondeu Door. — Ah. e desceu pela escada por onde vieram. — De acordo com este pergaminho. sim. Door ignorou os guardas e se dirigiu aos salões do museu. avaliou Richard.

Como é? Por um momento. — Aqui só diz que tem uma figura de um anjo em cima. quantas coisas com anjos existem aqui? . Richard pensou que ela fosse repreendê-lo por perguntar. o Angelus também não devia estar ali. Door entrou na próxima sala. Mas Door parou e esfregou a testa.— É da festa. Não. — Esse Angelus. Certo. Queria ser mais útil. e Richard a seguiu. Mas não deve ser tão difícil assim de achar. Aquelas pessoas bem vestidas na fila. Afinal.

Suas tropas consistiam em um maître. Alguém que.NOVE JESSICA ESTAVA PASSANDO POR UM MOMENTO MUITO TENSO. Ela não pensava nessas coisas. Ela catalogou a coleção. como um general de tomara-que-caia comandando suas tropas e fingindo de forma estóica que o senhor Stockton não estava trinta minutos atrasado. Mesmo no último minuto. e portanto voltou sua atenção para a exposição. Mesmo assim. e seu assistente. Não teria tempo para ele se tivesse. uma dezena de pessoas servindo os convidados. um jovem chamado Clarence. Estava usando um vestido de seda verde. Não. agitada. certo? .. um quarteto de cordas. Inúmeros cavalos de guerra caíram perante o último obstáculo. Jessica faria de tudo para que nada saísse errado. Jessica examinou a mesa de bebidas. organizou a restauração do objeto principal. Incontáveis generais confiantes demais viram a vitória garantida se transformar em derrota nos minutos finais de uma batalha.. — Temos champanhe suficiente. havia tantas coisas que poderiam dar errado. Não via nenhum problema em não ter namorado. seria legal — pensou num momento de excitação — se houvesse alguém com quem ela pudesse visitar galerias nos fins de semana. VIVIA preocupada.. nervosa. Evitar esses pensamentos era tão fácil quanto tirar uma bala de uma criança.. combinou que o Museu Britânico se encarregaria do evento. dizia ela aos amigos. ajudou a decorar e a dispor a coleção e organizou a lista de convidados para a maravilhosa estréia. três mulheres do bufê.

— E água com gás? O homem fez que sim mais uma vez. — Jessica. empurrou a antena. Tinham bastante água sem gás. petiscos variados e champanhe de graça. O quarteto de cordas estava se aquecendo. Mas nada demais. causado por uma pequena multidão abastada: o ruído feito por senhoras em casacos de pele e homens que. uma engenhoca dobrável e tão fina que fazia os comunicadores de Jornada nas Estrelas parecerem grandes.O maître apontou para uma caixa de garrafas de champanhe embaixo da mesa. o motorista do senhor Stockton ligou do carro. vol-au-vents. Outra caixa. prestando atenção na reverberação do barulho na sala ao lado. a algazarra de jornalistas e celebridades que podiam sentir o cheiro dos canapés. Ótimo. — E quanto a água sem gás? Nem todo mundo gosta das bolhinhas. estariam fumando charutos. Pegou uma taça de champanhe da mesa. Tudo ia ser um grande desastre. O som que faziam não era alto o bastante para abafar o barulho que vinha da sala de espera. onde o aparelho não fazia volume nenhum e deu um sorriso tranqüilizador. Clarence inclinou a cabeça. Ainda vão se atrasar uns minutinhos. Um desastre que ela causara. Clarence falava com alguém em seu celular. colocou-o de volta no bolso de seu terno Armani. bebeu e a devolveu vazia para o garçom que levava o vinho. você sabe. Jessica retorceu a boca. — Nada demais — repetiu Jessica. Desligou o telefone. desajeitados e antiquados. não fosse pelo aviso de NÃO FUME nas paredes — e talvez pelo conselho dado por seus médicos —. A multidão queria . Arruinada. Arruinada.

Clarence — disse ela. — Os convites dizem que a exposição abriria às 20 h. emendou: — Sim. Em seguida. Jessica se voltou para o quarteto de cordas e perguntou pela terceira vez o que planejavam tocar. E não eram só pessoas. — Ele pediu para ver a exposição sozinho antes do evento. com calma. Tinha uma voz forte. Já são 20h20. — Espere um pouco. Algumas eram até Celebridades. eles estão ficando nervosos. mandona. — Meu jovem. — Só vai demorar mais uns minutinhos — afirmou Clarence. chefe? — O senhor Stockton já está chegando. Fechou a porta atrás de si. com educação. como um capitão à espera das ordens do general. vamos todos mergulhar no Vale da Morte. categórica. Clarence abriu as portas duplas para examinar a multidão. Era pior do que ele imaginava: certamente havia mais de cem pessoas ali. com ar de dúvida. você sabe quem eu sou? — Na verdade. Clarence. com um tom parlamentar. Ela se movia pela sala como um redemoinho verde.entrar. — Você acha que devo sair um pouco e ver como estão as coisas lá fora? — Não — respondeu. — Jessica. com a mesma decisão na voz. E então. Uma mulher de chapéu foi para cima dele. Eram Pessoas. — Não exagere. não — mentiu Clarence. Olhou para seu relógio e depois para Jessica. Com a comida e a bebida organizadas. — Estamos organizando a segurança. . — Com licença — chamou o chefe do Conselho de Artes. que sabia muito bem quem eram todos eles. vou ver se alguém aqui sabe.

bem alto: — Com licença! Com licença! Outra pessoa dizia que aquilo era um absurdo.colocando em posição os garçons com suas bandejas de canapés e bebidas em cantos estratégicos do salão e verificando o sistema de som. a cortina e a corda que a puxava.. Mas já era tarde demais. — Baronesa! — disse.. não havia outra palavra. — “Noite de horrores: Velhos bilionários pisoteiam musa do marketing em exposição no museu”. Alguém dizia. Por favor. Começaram a bater na porta. alegremente. cintilante. vários deles.. — Vou deixá-los entrar. Jessica pensou em todos os palavrões que conhecia. o palco. O senhor Stockton teve um imprevisto urgente e se atrasou.. O barulho na sala de espera começou a aumentar. . Assim que a senhora saiu em direção aos vol-au-vents. — Já até vejo a manchete — disse Clarence. — Decisão executiva — disse Clarence. ainda sorrindo. Jessica foi até Clarence e sussurrou. — Não tenho como expressar minha alegria com sua presença em nossa pequena exposição. Por cima do ombro envolto em pele da baronesa. Ela caminhou. As portas foram abertas e a horda começou a se empurrar para entrar no salão. com um sorriso feliz. Jessica gritou: — Não! Se você. desdobrando um jornal imaginário. mas logo estará aqui. A expressão no rosto de Jessica se transformou: foi da cara de horror para sorridente e encantadora. até a porta. Clarence piscou para ela. um absurdo completo. sirva-se de alguns canapés.

enquanto ca- . por trás deles. Há uma festa para uma elite decadente enquanto a civilização desmorona ao redor. procurando algum lugar para se esconder. Odeio esses eventos. Os dois saíram da sala juntos. — Tudo bem aí? — gritou o primeiro. Richard olhou em volta.*** Richard congelou de repente. fechando a porta. vinha da direção oposta. “A Máscara da Morte Vermelha”. — É como eu sempre digo — pronunciou. Eu já tive que impedir dois idiotas de terno que queriam escrever as iniciais dos nomes deles sobre a pedra de Roseta. balançando o feixe de luz da lanterna para lá e para cá. O primeiro guarda direcionou a lanterna bem para os olhos de Richard e depois abaixou o feixe de luz. Tirou uma meleca do nariz e limpou o dedo na sola de couro de sua bota preta bem engraxada. é como aquele conto do Poe. A outra continuava a andar e parou bem ao lado de Richard e Door. Era tarde demais. o feixe de luz da lanterna indo de um lado para o outro. Outro guarda. Um segurança estava vindo na direção deles. sacudindo-o nas sombras. passando pelas estátuas de deuses gregos esquecidos. — No último desses eventos. — Acho que sim. com a satisfação de um verdadeiro profeta —. Tá. Gerald. — Ah. alguém vomitou em um sarcófago — contou o guarda. vamos voltar pra lá. e eles nem ligam. — Se você faz parte da Londres-de-Baixo — disse Door para Richard. em tom de voz normal. uma mulher. Muito obrigada. como você é fino.

eles se esquecem de você bem rápido. Num canto. interrompendo os pensamentos dele. Vários garçons serviam comida e bebida em uma sala cheia de pessoas bem-vestidas. Não é estranho? — Tudo é estranho — respondeu. — O Angelus deve estar ali — anunciou Door. categórico. . — Vem. Aquele pensamento o perturbava havia algum tempo. — Como você sabe? — Eu sei — respondeu. O recinto estava repleto de anjos. a não ser que fale com eles. Lá embaixo. com muita certeza na voz. Havia um quarteto de cordas. Saíram da escuridão para entrar num corredor iluminado. com um microfone. eles geralmente nem percebem que você existe. A ansiedade de Richard piorava na Londres-de-Cima. onde ele era forçado a reconciliar os dois universos. — Eu sei. colocando um pé na frente do outro como se fosse um sonâmbulo. Havia uma enorme placa pendurada no corredor. entrando numa sala enorme. A música do quarteto de cordas estava ficando mais alta. via-se um pequeno palco. mesmo assim. apontando para onde vinha a música. ao lado de um cortina bem grande. E. pelo menos.minhavam lado a lado para entrar na próxima sala —. onde era a festa. podia continuar naquele estado de sonho. com os dizeres: ANJOS PELA INGLATERRA UMA EXPOSIÇÃO NO MUSEU BRITÂNICO Patrocinada pela Stocktons PLC Atravessaram o corredor e uma porta. — Mas eu vi você — disse Richard.

Ele apontou para o outro lado da sala: Jessica estava em uma conversa animada com Sir Andrew Lloyd Webber. Anjos de Joel Peter Witkin. reconhecendo a mulher. Anjos ocidentais.. Até aquele momento. sentindo que devia fazer um comentário gentil sobre alguém que tinha sido importante para Richard. anjos com asas e auréolas e anjos sem nenhuma das duas. Ficamos juntos quase dois anos. de todos os tamanhos e formatos. de um ecletismo impressionante” (de acordo com a Time Out).. Richard assentiu. Ela estava comigo quando encontrei você.. — Ela? — perguntou Door.. anjos do Oriente Médio. Não achava que pudesse acontecer de verdade. Mas podia sentir o sangue saindo do seu rosto. Bob Geldof e um cavalheiro de óculos que parecia muito alguém da família Saatchi. bom. anjos severos e clementes. anjos hostis e anjos gentis. de Warhol. anjos orientais. Na secretária eletrônica. Ela deixou aquela mensagem. Centenas e centenas. — Ela era minha. disse: — . É a pessoa na. — Você vai achar que sou chato se eu disser que encontrar um anjo aqui é o mesmo que tentar achar uma agulha num ai meu Deus é a Jessica! Richard ficou branco. a gente ia casar. Logo. chegando a ser cafona. de Picasso. Afrescos de anjos. A intervalos de poucos minutos olhava para o relógio e para a porta. A seleção de anjos do senhor Stockton não fazia “distinção nenhuma entre as obras. — Alguém que você conhecia? — perguntou Door. mas sem dúvida. Anjos grandes e anjos pequenos. Havia anjos modernos e anjos clássicos. Pinturas de anjos nas paredes. ele acreditava que isso fosse apenas uma figura de linguagem. Anjos de Michelangelo.Estátuas de anjos sobre pequenas colunas.

. com um sanduíche de erva-doce e queijo Brie e um copo de suco de laranja. Isso fez com que Jessica se lembrasse de algo que sua mãe lhe dissera uma vez. Depois. carregando um prato descartável de papel com uma montanha de coxas de galinha. em seguida.. Door. — Será que.. Ela tinha visto Richard e. *** Jessica estava muito intrigada.. da qual não conseguia se livrar de jeito nenhum. Enfiou de imediato uma enorme quantidade de comida na boca. — fez uma pausa. mastigou e engoliu.limpa. enquanto enrolava sanduíches maiores em guardanapos e os colocava nos bolsos. a não ser que você faça algo idiota. vol-au-vents de cogumelo. Richard a seguiu.. acho que ela não vai nem perceber que você está aqui. Richard estava olhando fixamente na direção de Jessica. como falar com ela.. mais entusiasmada. começou a circular pela sala. ela é muito. Em seguida. pensou e continuou: — . fatias de melão. Sério. disse: — Comida! Caiu sobre os canapés como uma garotinha de nariz sujo vestindo um casaco de couro grande demais e que não se alimentava direito havia algum tempo. observando com atenção cada peça da exposição de anjos. ela vai ficar chateada por estarmos aqui? — Duvido. . certa noite. tortinhas de caviar e pequenas salsichas de carne de caça. sobre como ela tinha.Bom. Havia algo de familiar neles: era como uma coceirinha irritante ao extremo na garganta.

Eles... não sei bem. — Não tem nada aqui que me faça sentir que é o Angelus. — Eu conheço ele — disse Jessica. frustrada. Richard saiu do foco de atenção de Jessica como areia passando entre os dedos. que tinha ido às mesmas reuniões da comunidade local — e naquele momento se dera conta de que não conseguia se lembrar do nome dela. não eles. ele é o novo editor da Vogue. — Eles ali? Bom. E aquilo estava desviando a atenção de Jessica... O documento diz que eu saberia assim que o visse. estilo grunge chic? Pelo amor de Deus. — Quem são eles? — perguntou a Clarence. pensou — logo ele completaria 23 anos. para dizer que estavam quase chegando ao Museu Britânico. — E aí? Achou alguma coisa? — perguntou Richard. Ali. . — Não. de Holborn. Door balançou a cabeça e engoliu uma coxa de galinha mal mastigada. — Sei lá. apesar de saber que o seu marido trabalhava em uma editora e se chamava Eric e que eles tinham um labrador chamado Major. — Eles parecem bem modernosos. e ela é correspondente de artes do New York Times. né? Eu sei que convidei o pessoal da The Face. sem muita convicção. Clarence olhou para o lugar para onde ela apontava. Aquilo tinha deixado a mãe de Jessica bastante decepcionada. Acho que a moça no meio deles é a Kate Moss.. Mas o que é isso.encontrado em uma festa uma mulher que conhecera a vida toda — alguém que havia freqüentado a mesma escola que ela. Não entendia como não os vira antes. — É como brincar de achar um pombo na Trafalgar Square — comentou. jornalistas? — disse. O chofer do senhor Stockton ligou. Hum? Ah! Eles. Era a idade..

— Mayhew. — Jornal? — Eu falei jornal? — disse Jessica. tende a cantarolar “I’m a Believer”... Você me deixou. Ela estava com os cabelos penteados para cima. senhor hã. senhor. O Vice-Líder da Oposição ao Governo e A Garota de Programa Mais Bem Paga do Sul da Inglaterra. fria. observando os anjos. hã. O senhor é da imprensa. empurrando de leve O Chefão do Comércio.. — Ah. fazendo uma moldura perfeita de cachos castanhos para seu rosto.. Jessica. menos ela. — Oi. sorrindo com malícia. E sorria para ele. Estava linda. — Ah. — Isso é alguma brincadeira de mau gosto? — perguntou.. e . uma daquelas que todo mundo parece entender. faz aniversário em 23 de abril e. não é? — Você está linda. canal de TV. Você trabalha com marketing na Stocktons. então o senhor me conhece — respondeu ela.E ela continuou a andar. Tem 26 anos. — Revista. Jessica parou de sorrir. dos Monkees.. sim.. nos momentos mais íntimos. — Acho que eu saberia se tivesse sido noiva de alguém por um ano e meio. mas meu assistente esqueceu de registrar o nome do seu jornal.. Richard se virou e deu de cara com Jessica.. com uma risadinha doce como um sininho e autodepreciativa. e estávamos noivos nos últimos dezoito meses.. Como você está? — Oi. Você não vai acreditar. Jessica deu um sorriso nervoso. Foi culpa do sorriso. Jessica. — O seu nome é Jessica Bartram. Talvez fosse mesmo alguma brincadeira de mau gosto. Richard Mayhew.

agora eu não existo mais. Jessica acenou, desesperada, para alguém do outro lado da sala. — Já estou indo — disse, e começou a se afastar dele. — “I’m a believer, I couldn’t leave her if l tried”... — cantou Richard, com voz alegre. Jessica pegou uma taça de champanhe de uma bandeja que passava por ali e bebeu tudo de uma vez. Na outra extremidade da sala, viu o chofer do senhor Stockton — e se lá estava o chofer do senhor Stockton, então... Caminhou em direção à porta. — E então, quem é ele? — perguntou Clarence, aproximando-se. — Quem? — O homem misterioso. — Não sei — admitiu. — Olha, talvez seja melhor você chamar os seguranças. — Tudo bem. Mas por quê? — Não sei... só chame os seguranças, sim? E então o senhor Arnold Stockton entrou na sala, e ela se esqueceu de todo o resto. *** Era um homem grande, com mais de 60 anos, exalando dinheiro. Parecia uma pintura de Hogarth: tinha queixo duplo e uma enorme barriga. Seu cabelo era grisalho e comprido atrás, porque isso incomodava as pessoas, e o senhor Stockton gostava de desagradá-las. Comparado a Arnold Stockton, o magnata Rupert Murdoch parecia um pobre coitado sem graça, e o falecido Robert Maxwell, uma baleia encalhada. Arnold Stockton era um pit bull, e era as-

sim que os caricaturistas gostavam de representá-lo. Os Stocktons atuavam nos mais variados ramos de negócios, sempre como proprietários: satélites, jornais, gravadoras, parques de diversão, livros, revistas, HQs, canais de TV, produtoras de cinema. — Vou fazer o discurso agora — disse o senhor Stockton para Jessica, em vez de cumprimentá-la. — E aí vou dar o fora daqui. Volto outra hora, quando essa gente esnobe tiver ido embora. — Certo. Sim. Discurso agora. Claro. Ela o acompanhou até o microfone instalado no pequeno palco. Bateu com a ponta da unha contra uma taça, para pedir silêncio. Mas ninguém a ouviu, então ela disse, no microfone: — Com licença. Dessa vez a conversa parou. — Senhoras e senhores, ilustres convidados, quero dar as boas-vindas a todos que vieram ao Museu Britânico para prestigiar a exposição Anjos pela Inglaterra, patrocinada pela Stockton. Gostaria de apresentar-lhes agora o homem que está por trás de tudo isso, o presidente da empresa e chefe do conselho administrativo, senhor Arnold Stockton. Os convidados aplaudiram: nenhum deles tinha dúvidas a respeito de quem havia colecionado todos aqueles anjos ou desembolsado o dinheiro para o champanhe. O senhor Stockton pigarreou. — Bem... serei breve. Quando eu era criança, costumava vir para o Museu Britânico aos sábados, porque a entrada era gratuita e minha família não tinha muito dinheiro. Eu subia os grandes degraus até a porta do museu, descia até esta sala e olhava para este anjo. Era como se ele soubesse o que eu estava pensando.

Naquele exato momento, Clarence voltou, com dois seguranças atrás dele. Apontou para Richard, que estava parado, ouvindo o discurso do senhor Stockton. Door continuava a examinar as peças. — Não, ele — Clarence sussurrava para os guardas. — Não, ali, olha! Está vendo? Ele. — Enfim. Como tudo aquilo que não recebe os devidos cuidados — continuou o senhor Stockton —, o anjo se deteriorou e acabou sofrendo os percalços da vida moderna. Apodreceu. Bem, gastei dinheiro pra caramba — fez uma pausa, para a informação ser bem absorvida por todos (e se ele, Arnold Stockton, achava que era dinheiro pra caramba, então sem dúvida era pra caramba) — para que diversos profissionais passassem um bom tempo restaurando a peça. Depois dessa exposição, ela vai para os Estados Unidos e em seguida visitará outros lugares do mundo, para que talvez inspire alguma outra criança pobre a dar início a seu próprio império das comunicações. Olhou em volta. Virou-se para Jessica e murmurou: — E agora, o que eu faço? Ela apontou para a corda ao lado da cortina. O senhor Stockton a puxou. A cortina se ondulou e abriu, revelando uma porta antiga. Houve mais uma certa tensão no canto em que estava Clarence. — Não, ele! — dizia Clarence. — Pelo amor de Deus, você é cego? Parecia que, em algum momento, a obra havia sido a porta de uma catedral. Tinha a altura de dois homens e era larga o suficiente para um pônei passar. Esculpido na madeira da porta, pintado em vermelho e branco e ornamentado com folhas de ouro, havia um anjo extraordinário. Mirava o mundo com olhos medievais e inexpressivos. Ou-

viu-se certo murmúrio de admiração por parte dos convidados, que começaram a aplaudir. O Angelus. Door puxou a camisa de Richard. — É esse! Vem, Richard. E correu para o palco. — Com licença, senhor — disse um dos guardas para Richard. — Podemos ver o seu convite? — disse outro, pegando-o pelo braço em um gesto firme, mas discreto. — Você pode nos mostrar um documento de identidade? — Não — respondeu. Door estava no palco. Richard tentou libertar-se e segui-la, na esperança de que os seguranças se esquecessem dele — mas não se esqueceram. Agora que eles o haviam percebido, iriam tratá-lo como tratariam qualquer outro penetra maltrapilho, sujo e mal barbeado. O guarda que segurava seu braço o apertou um pouco mais e disse: — Nada disso. Door parou no palco, tentando imaginar como fazer os guardas largarem Richard. Fez a única coisa que lhe veio à cabeça. Foi até o microfone, ficou na ponta dos pés e gritou, o mais alto que conseguia. Ela tinha um grito e tanto: entrava pelos ouvidos como uma furadeira ligada a uma serra elétrica. E amplificado pelos alto-falantes... era algo sobrenatural. Uma garçonete derrubou a bandeja de bebidas. Pessoas viravam a cabeça, cobriam as orelhas com as mãos, olhavam para o palco, assombradas e confusas. Todas pararam de conversar. E aí Richard resolveu correr. — Desculpe — disse para o segurança aturdido, enquanto se soltava, e fugiu. — Entrei na Londres errada. Chegou até o palco, pegou a mão que Door lhe oferecia. Sua outra mão tocou o Angelus, a enorme porta de

catedral. Com o toque, ela se abriu. Dessa vez, ninguém derrubou nenhuma taça. Ficaram todos petrificados, com o olhar fixo, completamente maravilhados — e, por um segundo, cegos. O Angelus tinha sido aberto, e uma luz, vinda do outro lado da porta, inundara o recinto. As pessoas cobriram os olhos e, depois, hesitantes, abriram de novo. Continuaram a olhar. Era como se alguém tivesse soltado fogos de artifício na sala. Não aqueles fogos de artifício usados em casa — as bombinhas que estouram e deixam um cheiro horrível — nem os que soltamos no quintal, mas aqueles industriais, utilizados ao fim do dia na Disney World, que sobem tanto a ponto de apresentar certa ameaça ao espaço aéreo ou provocam dor de cabeça a quem os solta nos shows do Pink Floyd. Era um momento mágico. A platéia olhava, extasiada, em transe. O único barulho que se ouvia era o suave “Oh!” de admiração que saída da boca dos convidados, o murmúrio de assombro que as pessoas emitem quando vêem uma demonstração de fogos de artifício. E então um jovem desmazelado e uma moça de rosto sujo, usando um grande casaco de couro, penetraram na luz e desapareceram. A porta se fechou atrás deles. O show tinha chegado ao fim. E tudo voltou ao normal. Os convidados, os guardas e os garçons piscaram, balançaram a cabeça e, depois de terem presenciado algo sobrenatural, concordaram, de modo intuitivo, que aquilo nunca acontecera. O quarteto de cordas recomeçou a tocar. O senhor Stockton saiu do palco, cumprimentando com um movimento de cabeça diversos conhecidos pelo caminho. Jessica foi até Clarence. — O que aqueles seguranças estão fazendo aqui? — perguntou, com calma. Os seguranças de que ela falava es-

tavam de pé, entre os convidados, olhando em volta como se nem eles mesmos soubessem por que se encontravam no meio da sala. Clarence ia explicar o que eles estavam fazendo ali, mas se deu conta de que também não tinha a menor idéia. — Pode deixar que eu resolvo — disse, demonstrando competência. Jessica concordou. Olhou para a festa que havia organizado e deu um sorriso de satisfação. Tudo estava indo tão bem! *** Richard e Door entraram na luz. Ficou escuro e frio. Richard piscava, tentando desvencilhar-se da claridade impregnada em suas retinas. Aquela luz quase o deixara cego — via diversos borrões fantasmagóricos, em tons verdes e alaranjados, desaparecendo devagar à medida que seus olhos se acostumavam com a escuridão à sua volta. Estavam num Salão Principal feito de pedra. Pilares de ferro que seguravam o teto, negros e enferrujados, sumiam nas sombras acima — deviam ter centenas de metros de altura. De algum lugar se ouvia o barulho suave de água: talvez uma fonte ou um riacho. Door ainda segurava a mão de Richard, com bastante força. Ao longe, uma pequena chama crepitava. E depois outra, e mais outra: Richard percebeu que eram diversas velas se acendendo. Caminhando na direção deles, em meio às velas, vinha alguém muito alto, vestido numa túnica branca simples. Parecia mover-se lentamente, mas sem dúvida andava bem rápido, porque segundos depois já estava ao lado deles. Tinha cabelos loiros e um rosto pálido. Não era muito mais alto que Richard, mas o fazia se sentir feito uma criança. Não era homem nem mulher, mas sua beleza era

estonteante, e a voz, suave. Disse: — Lady Door, acertei? — Sim — respondeu ela. Um sorriso suave. Assentiu com a cabeça, um movimento quase humilde. — É uma honra finalmente conhecê-los, você e seu acompanhante. Sou o anjo Islington. Tinha olhos claros e grandes. Sua túnica não era branca, como Richard achara no começo: parecia ser feita de luz. Richard não acreditava em anjos, nunca acreditou. E não era agora que ia começar a acreditar. Mesmo assim, era mais fácil não acreditar em alguma coisa quando ela não estava olhando diretamente para você e dizendo o seu nome. — Richard Mayhew. Você também é bem-vindo a meus domínios. Virou-se. — Por favor, sigam-me — pediu o anjo. Richard e Door o seguiram pela caverna. As velas se apagaram atrás deles. *** O marquês de Carabas andava a passos largos pelo hospital vazio, esmagando pedacinhos de vidro e seringas velhas com suas botas pretas de motociclista, de bico quadrado. Passou por uma porta dupla que levava a uma escada aos fundos. Desceu-a e chegou ao porão. Pisando de forma meticulosa nas montanhas de lixo embolorado, caminhou pelas salas de banho e pelos banheiros, desceu uma velha escada de ferro, passou por um local úmido, que parecia um pântano, empurrou uma porta

de madeira meio apodrecida e entrou. Ao examinar o ambiente, observou, com enorme desdém, o gatinho meio comido e a pilha de lâminas de barbear. Limpou os detritos que cobriam uma cadeira, sentou-se confortável, com muita pompa, em meio à umidade do porão, e fechou os olhos. Depois de algum tempo, a porta do porão se abriu e alguém entrou. O marquês de Carabas abriu os olhos e bocejou. Depois deu um grande sorriso para o senhor Croup e o senhor Vandemar. — Olá, rapazes. Achei que já era hora de vir aqui embaixo e falar com vocês pessoalmente.

hesitante. mas não se assemelhava a nada que Richard já tinha visto. há uns trinta ou quarenta mil anos. — Eu tomei vinho algumas vezes — disse Door..DEZ — VOCÊS BEBEM VINHO? — PERGUNTOU O ANJO. O anjo destampou o cristal e colocou mais ou menos um dedo do líquido em uma taça. Era um vinho branco. ele deixava a gente provar um pouquinho no jantar. enfim. — Foi um presente de boas-vindas. Islington levantou a garrafa: parecia um tipo de decanter. Há muito tempo. Lançava feixes de luz nas paredes da caverna. como o sol na superfície de uma piscina. Sem dizer nada. como um padre desempenhando um ritual. Parecia que o vinho dentro dela emitia um brilho próprio. Talvez fosse um tipo de cristal ou um diamante enorme. Mas . Richard ficou pensando se ela seria mesmo feita de vidro — refratava e refletia a luz das velas de um jeito muito diferente. — Meu pai.. Um de seus ancestrais me deu uma dúzia delas — contou Islington. Door e Richard se sentaram em enormes cadeiras de madeira. Passou a taça para Door e começou a servir mais um dedo do vinho brilhante em outra. Richard fez que sim. Passou a taça para Richard e disse: — Imagino que poderiam me acusar de estar desperdiçando algo que eu deveria guardar como um tesouro. — É a última garrafa deste vinho. ao redor de uma mesa do mesmo material. enegrecida pelo tempo. Fazia tudo com reverência e amor. como se fosse feito de luz.

— O Angelus. Ergueu a taça e disse: — Brindemos às antigas vitórias. — Às antigas vitórias — repetiram juntos Richard e Door. continuou dizendo que anjos também não existiam e que. estava aprendendo a confiar em seus instintos e a se dar conta de que as explicações mais simples e mais prováveis para o que ele . com cuidado. — Bebam com cuidado. mas esse tipo de uva desapareceu quando a água cobriu o vinhedo. Era estranho.. — murmurou Door. a maioria das experiências pelas quais ele havia passado nos últimos dias eram impossíveis. entre Door e Richard. observando a luz. Tudo depende da uva e do lugar onde ela foi cultivada. — Não existe mais nenhum vinho de Atlântida. deram alguns golinhos. — É mágico! — exclamou Door. vocês chegaram até aqui usando o Angelus. O anjo pegou a taça. — É maravilhoso — comentou Door. Uma voz lá no fundo de Richard lembrou que Atlântida nunca existiu e. — Nunca provei nada parecido. além disso. — Quando o provamos — continuou. E então. Richard a ignorou. É uma pena.raramente recebo convidados. O anjo balançou a cabeça. — Este aqui não. — gosto de imaginar que estamos na verdade degustando a luz do sol de eras passadas. É um vinho muito forte. — Sem dúvida — concordou Richard. — Sim. Sentou-se à mesa. — E nunca provará — completou Islington. — Eu achava que os vinhos muito velhos viravam vinagre quando expostos ao ar. ousada.. Mas ele só funciona uma vez para cada pessoa. com melancolia na voz. sorvendo aquela luz líquida. A vinda para cá é difícil.

no diário. Que eu podia confiar em você. feita de sílex polido sobre um metal quase todo enegrecido. Eu sei o que é a dor. — Você afirma mesmo que é um anjo? De verdade? — perguntou Richard.. — A minha família. — É uma honra para nós — disse Door. Abriu a boca e provou um pouco mais do vinho.. havia uma porta. Richard. sei pelo que você passa. muito mais jovem do que o mundo que ele conhecia. Mas. Havia uma cachoeira à esquerda de onde estavam — água cristalina descia pela pedra e ia dar em um pequeno laguinho. a perda. sorvendo de leve o vinho. O seu pai era um bom homem. Portanto. — Não. — A Londres-de-Baixo é a segunda cidade com que me importo. A direita. Fiquei muito triste com sua morte.tinha visto e presenciado nos últimos dias eram as que recebia dos outros — por mais absurdas que parecessem. um amigo meu.. — Ele disse. você encontrou Deus e tudo o mais? Islington sorriu.. quem ordenou? Eu quero. Croup e Vandemar mataram minha família.. um sol dourado.. Mas sou um anjo. tudo muito mais simples... . entre dois pilares de ferro... quero saber por quê. A bebida o deixava feliz. A honra é minha por recebê-los aqui. ele disse que eu deveria vir até você.. — Espero ser digno de sua confiança — respondeu o anjo. O que deseja saber? Door fez uma pausa.. — Quer dizer. — Não afirmo nada. Fazia com que ele pensasse em céus maiores e mais azuis do que jamais vira. enorme.. A primeira foi submersa e eu não pude fazer nada para impedir tal destino. Door.. pairando no céu.

. — E você? O que você deseja. O restante fica a cargo de vocês. Eram de uma cor cinzenta luminosa. Richard Mayhew? Richard encolheu os ombros. Era uma pequena estátua negra de algum tipo de animal. — Isto irá trazê-la de volta para mim a salvo. — Isso é possível. olhos que tinham visto galáxias se formando a partir de poeira estelar milhões de anos antes. Richard balançou a cabeça para os lados. gentil. Entregou-a para Door. Tragam-na para mim. Pro meu apartamento. sem ânimo. Muitos rumores. E se virou para Richard. — Tá. uma chave para todos os nossos problemas. — O que precisamos fazer? — Os Monges Negros são guardiões de uma chave. Richard Mayhew? — perguntou Islington. feita de vidro vulcânico. — Você duvida de mim. meu emprego. Sei — disse Richard. tão antigos quanto o universo. Islington sorriu para ele. Richard olhou direto nos olhos do anjo. — E então você vai poder usar a chave para descobrir quem matou minha família? — Espero que sim. — Quero voltar pra minha vida normal. Levantou-se.O anjo assentiu. meias-verdades. Você e seus companheiros enfrentarão grandes dificuldades nessa empreitada e na viagem de volta. — Muitos segredos chegam até mim. Mas talvez exista uma solução. foi até uma prateleira de pedra e de lá tirou uma dentre as várias estatuetas. — Não vai ser fácil. ecos.

olhando para a figura de um anjo esculpida na porta de uma catedral. e em várias delas passara pela estação Blackfriars. — Monges Negros? Seria então.. conseguiria ver o vinho brilhando através da pele. Door abriu a mão e olhou para a estatueta do animal. Teve a estranha sensação de que. — Boa sorte — sussurrou o anjo Islington. mas já sabia que não deveria pressupor coisa alguma. — Então são pessoas. — Você acha que ele pode mesmo devolver a minha vida? — Nunca ouvi falar de algo assim. A sala estava escura e vazia. A festa tinha acabado havia muito tempo. depois se debruçou para ajudar Door a se levantar. Black Friars? — perguntou ele. O céu lá fora começava a clarear.Richard tomou o restante do vinho. se olhasse para seus dedos. Ele é um anjo. Door fez que sim. como um vento passando pelas folhas de uma floresta perdida. com voz . Sentia a bebida aquecendo-o por dentro. Richard ficou de pé. — Meu pai tinha uma dessas — contou.. Richard foi até o Angelus. Correu o dedo pela túnica pintada do anjo... Ouviu-se um farfalhar. Mas não acho que ele teria mentido pra gente. ou o som de grandes e poderosas asas. *** Richard e Door estavam sentados no chão de uma das salas do Museu Britânico. percorrendo suas veias. como se ele também fosse feito de luz. Ele já tinha cruzado a Blackfriars Bridge na cidade de Londres muitas e muitas vezes.

Maravilhoso de novo. — Lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá — cantarolou ele. ainda de brinde o abridor de latas mágico e o fantástico saca-rolhas que assovia. White Tie. pensativo. né? Começaram a andar pelos corredores vazios do museu. E. entusiasmado.. — Aposto que se a gente disser que é encomenda para um anjo. Tudo vai ser normal de novo. um anjo de verdade. sapateando . começou a descê-los dançando e solfejando uma melodia que ficava entre “Puttin’ on the Ritz” e “Top Hat. Chato de novo. Ele concordou.. — Monges. Colocou o objeto em um dos bolsos de seu casaco de couro marrom. que se abriu com seu toque. não vamos conseguir pegar a chave se ficarmos de bobeira por aqui. Começou a rir. and Tails”.. Ficou pensando se o vinho já estava fazendo efeito. Richard olhou para os degraus de pedra que levavam até o Museu Britânico e decidiu que eles haviam sido feitos para que Fred Astaire e Ginger Rogers dançassem neles. — disse Richard. Pressionou os dedos contra uma porta de vidro bem trancada. — E aí. — Já ouvi falar dos Monges Negros — continuou ela —.. — Você está de bom humor — disse Door. mas nunca entrei em contato com eles.. eles vão nos dar a chave sagrada e. como nenhum dos dois estava ali disponível. — Eu vou pra casa. o que você sabe sobre essa chave? — Nada..triste. — Bom. Chegaram até a porta principal do museu.

Door hesitou por um instante. retórico. — O que qualquer pessoa deseja? — retrucou o marquês de Carabas. sem querer. *** — O que você deseja? — perguntou o senhor Croup. e então se deu conta de que não sabia. — Coisas mortas. subindo e descendo os degraus. E foram embora juntos. — Seu bobo — disse Door. Door ficou no topo da escada. Como resposta. Door inclinou a cabeça para um lado e se soltou dele. Olhou dentro de seus olhos fantásticos. . abraçados. exaustos e rindo. Pensou se queria beijá-la. — Vamos achar a nossa guarda-costas — disse ela.enquanto descia e subia os degraus. mas logo entrou na brincadeira. sua proteção. cambaleando um pouco. descendo pela calçada. Richard olhou para ela e jogou sua cartola de seda branca imaginária para o alto. começou a rir. Chegaram ao fim dos degraus e caíram. Dançava bem melhor do que Richard. Richard agarrou sua mão e continuou a dançar. Depois. se não deveria beijá-la. Percebeu o coração dela batendo contra seu peito. Pegou-a no ar e a colocou de volta na cabeça. Aquele instante começou a ter um clima diferente e ele ficou pensando se não deveria fazer alguma coisa. abismada. Ergueu a gola de seu casaco de couro marrom e o ajustou no corpo: sua armadura. Ter mais dentes — sugeriu o senhor Vandemar. na direção da estação do Museu Britânico. Richard sentia o mundo girar. sorrindo. observando-o.

— O que você está fazendo aqui? O marquês de Carabas se espreguiçou feito um felino selvagem. as pessoas me contam essas coisas. — É só pedir e em um segundo ela estará fora do pescoço — avisou o senhor Vandemar. em tom casual. atrás da cadeira ocupada pelo marquês. — Ah. com as mãos nos bolsos de sua magnífica casaca. Tirou uma das mãos do bolso e mostrou um objeto para o senhor Croup. estava em pé.— Achei que talvez pudéssemos fazer um acordo — disse o marquês. que a sua suposta lucidez se foi. tranqüilo. meu caro marquês. sincero — o sorriso de um homem que tenta vender uma Bíblia usada. O senhor Croup começou a rir. sem o risco de ser contestado por nenhum dos presentes. — Mesmo se eu colecionasse. não é verdade? — disse ele.. — Então teria interesse nisto aqui. senhor Croup. — Como você ficou sabendo disso? — Ah. o senhor perdeu completamente a cabeça. ele estava . Até algumas horas antes. O senhor Croup o fuzilou com o olhar. A risada parecia o som de uma lousa sendo arranhada por muitas unhas. — Sei que o senhor coleciona estatuetas da dinastia T’ang. O sorriso do marquês era puro. Acho que posso dizer. De Carabas soprou as unhas e as poliu na lapela da casaca: — Eu sempre considerei a violência o último refúgio dos incompetentes e as ameaças vazias o último abrigo dos ineptos sem salvação.. É fácil falar comigo. Quando terminou. Se me perdoa a expressão.

O senhor Croup torceu o nariz. involuntariamente. chega dessas ameaças tolas. — Não era um marquês. Na chuva.dentro de uma caixa de vidro no cofre-forte de um dos maiores bancos de arte de Londres. — Não? — perguntou o senhor Croup. — Em York. e esticou a mão para pegá-la. Jogou-o para cima. — Não. — Mas o que vai nos impedir de pegar a estatueta e deixar você em frangalhos.. Não é tão fácil assim. Acho que eu me sentiria melhor se vocês fossem um pouco para trás. era o conde de Exeter — corrigiu o senhor Croup. O senhor Vandemar olhou para o comparsa. seiscentos anos antes da primeira viagem de Colombo. — E então. satisfeito por se lembrar do fato.. espalhando seus pedaços pelo Submundo? Acho que nunca despedaçamos um marquês antes. não. — Ah. que as- . De Carabas recolheu o braço. protegendo a estatueta perto do peito. assim como fizemos com o marquês de Westmorland? De Carabas tirou a outra mão do bolso. — E marquês de Westmorland também — completou o senhor Vandemar. No século XIV. por favor. pegou-o pelo cabo e terminou o malabarismo com a cabeça do martelo sobre a estatueta de porcelana. sim — disse Vandemar. — Já. Alguns catálogos se referiam à peça como O Espírito do Outono (Estatueta de Túmulo). Mal chegava a vinte centímetros de altura: era uma estátua de cerâmica vidrada que fora esculpida e pintada quando a Europa ainda estava na Baixa Idade Média. O senhor Croup assobiou de prazer. Segurava um martelinho. o que nos impedirá de deixar você em pedacinhos. senhores.

E disse: — Diga o seu preço. Trocas. — Para quem vocês estão trabalhando? — Ah. aliviado. que deseja permanecer anônimo. A resposta é simples. Estamos trabalhando para o nosso cliente. sim. Por que vocês mataram a família de Door? — Ordens do nosso cliente — respondeu o senhor Croup. com um sorriso cada vez mais maquiavélico. eu já comprei algumas peças T’ang — admitiu ele. balançando a cabeça. Passou a mão pelo cabelo oleoso. afinal. essa é fácil. — Primeiro. de fato esta magnífica peça está à disposição. Croup assentiu e disse: — De ambas as partes. — Combinado. De Carabas soltou um longo suspiro. Croup fez que sim. quero salvo-conduto para sair daqui. O senhor Croup fez um biquinho. quase audível.sentiu de maneira quase imperceptível. E. Escambo. É isso que buscamos. Houve uma certa tensão no ar. Tinha o olhar fixo sobre a estatueta. — Tudo bem. — Essa aí está à venda? — Não é muito comum comprar e vender no Submundo. Descruzou-os. e então ele se aproximou do senhor Croup. Mas. — Sim. três respostas para três perguntas. . que mostrava um sorriso amarelo. Faça a primeira pergunta. Era bem possível que ele conseguisse levar a cabo sua grandiosa artimanha. E vocês devem concordar em me dar pelo menos uma hora de vantagem. — Humpf. Cruzou os braços. senhor Croup. Nós também queremos três respostas. em segundo lugar.

E. O habitante do Mundo Superior. enquanto respondia. Por que ele está com ela? Por que ela permite? — Sentimentalismo da parte dela — respondeu o marquês.. e espero que faça bom proveito delas. senhor Vandemar. — Eu tenho uma pergunta — disse o senhor Vandemar.— Por que não mataram Door quando tiveram a chance? Antes que o senhor Croup pudesse responder. Diga logo tudo pra ele. sendo franco. prestativo. o senhor Vandemar disse: — Tínhamos que deixar ela viva. claro. — Ah. — É que eu queria falar também — murmurou. Richard Mayhew. — Eu também tenho. ficou pensando se era apenas aquilo.. — Agora é minha vez — disse Vandemar. Minha primeira pergunta é: por que você a está protegendo? — O pai dela salvou minha vida e eu nunca tinha retornado o favor — respondeu o marquês.. Tinha começado a achar que talvez existisse algo mais a respeito do habitante do Mundo Superior que ele não havia percebido. Ela é a única que pode abrir a porta.. — Certo. O senhor Croup fuzilou seu sócio com o olhar. — Em que número eu estou pensando? — Como? — Em que número estou pensando? — repetiu o senhor Vandemar. — Prefiro que os outros me devam favores. — É um número entre um e sei lá quantos — acrescentou. . Você já tem suas três respostas.

Houve uma pausa do mais profundo silêncio naquele porão úmido. — Onde está o. — Mas é claro — respondeu o senhor Croup. revirando-a diversas vezes. — Da dinastia T’ang.. Veja só a cor na superfície. um sorriso enorme.. — Ah. ótimo — sussurrou. — começou o senhor Croup. O senhor Croup examinou a estatueta com cuidado. saiu do porão. mas de Carabas balançou a cabeça. as proporções. Ele sorria feito um bebê. Aquele sorriso inocente parecia perdido e confuso. sem dúvida: mil e duzentos anos de idade. Suas bochechas pálidas ficaram mais rosadas.. como a de uma cobra. Vandemar ficou impressionado. destoava do rosto sombrio do senhor Croup. que a agarrou como um viciado que pega um saquinho plástico cheio de um pó branco e ilegal. como se fosse um curador em um romance de Dickens do Museu dos Amaldiçoados contemplando uma peça rara. ótimo. De Carabas jogou a estatueta para o senhor Croup. Em seguida.— Sete — respondeu o marquês. Baixou a cabeça até se aproximar da peça e esmagou sua cabecinha entre os . — Agora vocês já estão querendo demais. o melhor dos ceramistas.. — Esta estatueta dá um pouco mais de beleza e deslumbramento ao mundo — continuou. Esta foi moldada por Kai Lung. As estatuetas mais belas já feitas. sem olhar para trás. a vida. As gotas de água mais uma vez começaram a pingar e os vermes a se arrastar. E então sorriu. Sua língua saía da boca de vez em quando. Não existe nenhuma igual no mundo. e o marquês disse: — Lembrem-se: vocês vão me dar uma hora de vantagem.

Estava de pé. — Quanto tempo a gente disse que daria a ele? — Uma hora. — Nossa. no escuro. virou-se para o senhor Vandemar. quase lânguido. — Siga-o. mastigando loucamente. Ela saiu das sombras e disse: — Faz oito horas que vocês saíram daqui. — Você não quer saber o que aconteceu? Bom. Percorreu o dedo pelo queixo e lambeu o pó da cerâmica. piscando. Passaram por Hunter sem vê-la. Não havia curiosidade ou reprovação em sua voz. Depois. lacrimejando de tanto rir. quando nada restava dela além de pó. Seus dentes trituravam a cerâmica até ela se tornar um pó fino. *** Hunter podia ouvi-los descendo a escada. com os braços cruzados. não pareceu tanto tempo assim. E depois começava a rir de novo. E quanto tempo se passou? — Seis minutos. Richard olhou para ela. O senhor Croup abaixou a cabeça. senhor Vandemar. Entregava-se àquilo com a mesma intensidade e a sede de sangue de uma raposa em um galinheiro. Ficou extasiado com a destruição da estátua. Richard cantarolava alto. Parecia estranhamente tranqüilo. Door ria sem parar. — Hum.dentes. Hunter não fez nenhum comentário. a . engolindo os pedaços. que sujou a parte inferior de seu rosto. daí parava e pedia para Richard ficar quieto. na mesma posição em que se encontrava quando eles a deixaram ali. Era só uma afirmação. Door olhou para ela. Preciso de um pouco mais de tempo para saborear este momento.

— Acho que estamos mesmo um pouco bêbados — disse. eu mesmo tive que dar um jeito neles. determinada. Começou a soluçar. E riu de novo. Só um pouquinho assim. preciso contradizê-la. — Só um pouquinho mesmo — continuou Door. Door riu. Nenhum de vocês dois morreu. recebemos um porquinho preto e voltamos pra cá — contou Richard. Door lhe mostrou a língua.gente caiu numa emboscada do senhor Croup e do senhor Vandemar. Vimos Jessica e um anjo de verdade.. com frieza. Hunter ergueu uma das sobrancelhas perfeitas. o Tyburn. Corria por um riacho cinzento de quinze centímetros de profundidade. que nada. — Bem pouquinho. .. Como a nossa guarda-costas não estava por perto. — Como especialista na eliminação das funções corporais. — Ah. Na verdade. Quase nada mesmo. com voz sóbria. eles mataram a gente. — Fomos numa festa. Depois fechou os olhos e começou a roncar. *** O marquês corria pelos túneis subterrâneos como se todos os cães do Inferno sentissem seu cheiro e estivessem em seu encalço. — Ele não está falando sério. o rio do carrasco. — Fico impressionada com suas habilidades — disse. Esticou a mão e indicou com dois dedos quanto era um “pouquinho assim”. Quase nada de bebida. E acho que estão bem bêbados. Não bebemos nada. Bem pouco. Um soluço interrompeu seu riso e ela se sentou de repente na plataforma.

Tirou o relógio dourado do bolso para ver as horas. Parou. Em seguida. Já tinham se passado 35 minutos desde que fugira do porão do hospital. Ele rolou. Quando chegou à bifurcação. no escuro do estábulo subterrâneo. limpando as unhas com uma faca. à frente do marquês. *** De Carabas estava exausto. Vários minutos depois. — Já se passou uma hora? — perguntou o senhor Vandemar. O esgoto se bifurcava ali. E se postou ao lado dela. . fez o mesmo com Door. E também escolheu o túnel da esquerda. De Carabas pegou o túnel da esquerda. na direção do Palácio de Buckingham. Hunter colocou o corpo inconsciente de Richard sobre uma pilha de feno. Estava sentado nos degraus. uns dez metros abaixo do Marble Arch.guardado na escuridão de um túnel de tijolos abaixo da Park Lane. — Ainda falta muito — respondeu de Carabas. *** Com um grunhido. o senhor Vandemar caminhava por ali. prestativo. Encostou-se na parede do túnel e olhou para os degraus acima. farejando o ar. parou por uns instantes. com mais cuidado. — Pareceu uma hora — disse Vandemar. disse algo parecido com “Quarf em blunfaf boblem magff” e voltou a dormir. sem fôlego. ainda em guarda. Já fazia dezessete minutos que ele estava correndo.

Imaginei..Houve um movimento no ar e o senhor Croup surgiu atrás do marquês de Carabas. ela está na cidade abaixo de Bangkok. . — Mas não pense que só porque algo é engraçado. nossas circunlocuções confusas... O senhor Croup sorriu.nossos maneirismos e nosso comportamento. Uma digressão. e não a lâmina. — Você nos acha engraçados. não é verdade. Em seu sonho. de repente. meu caro colega. O senhor Vandemar pegou de Carabas pelo cinto e o puxou escada acima.. De Carabas olhou fixamente para o senhor Croup. Os olhos do marquês sumiram nas órbitas e seus joelhos fraquejaram. com força e precisão: o cabo. a cabeça batendo em cada degrau enquanto subiam. meu caro marquês? Acha que somos uma piada. começou a rir. quando.. Tagarelice — explicou o senhor Croup ao senhor Vandemar. O senhor Vandemar murmurou: — Eu não tenho nenhuma circunloc. Não é isso? Com nossas belas roupas. significa que não seja perigoso. E o senhor Vandemar jogou sua faca na direção do marquês. E talvez nós sejamos mesmo engraçados. — Circunlocução é uma maneira de não ir direto ao ponto. Hunter dorme em pé.. enquanto dormem. — . Então o senhor Croup ergueu um dedo e o balançou próximo do marquês. virou-se para olhar o senhor Vandemar. atingiu-lhe a têmpora. e disse: — Ah. *** Observando os seus sonhos. Ainda tinha pó da estatueta no queixo.

Pára ao lado de uma parede de pedra destruída e espera. em seu sonho. Hunter se movimenta em silêncio. o animal pára. Está escuro. sondando a escuridão. Ela sente o cheiro acre e animalesco. o animal vem atravessando o matagal. sob o aeroporto. e também a sexo — mas não é um cheiro desagradável. pois toda a natureza da Tailândia encontrou refúgio no subsolo. num átimo de segundo. mas as trevas são quebradas por manchas fosforescentes nas paredes. Quando acordada. A criatura está extinta no mundo acima. um carnívoro. e. dentes como agulhas — um assassino. para poder caminhar por ali. um ser feito apenas de ódio e dentes afiados. um ser em fúria. Quando ela chega. os olhos vermelhos brilhantes. Hunter acredita que caçar é espreitar. fungos cinza-esverdeados que emitem luz suficiente para enganar o olhar. Aquele mundo cheira a condimento e manga seca. E logo salta sobre ela. Ela segura um pesado tacape na mão direita. ela se lembra. como se fosse parte das sombras. e que quando aconteceu ela tinha enfiado o escudo de couro na boca do animal e esmagado seu crânio com o pesado tacape. como um fantasma. Em seu sonho. contudo. e . Quando ele passa. tomando cuidado para não estragar a pele. como uma cobra peluda e úmida. ondulando com suavidade. de que isso já aconteceu antes. passando pelos túneis úmidos. não espera. os instintos falando mais alto. e um escudo de couro cobre seu antebraço esquerdo. empurrando a vegetação. Ela havia dado a pele da Grande Doninha a uma moça que lhe chamara a atenção. Em seu sonho.É uma mistura de labirinto e floresta. O ar é úmido e Hunter transpira. como se fosse a escuridão. De repente. marrom e branco. os hotéis. as ruas. Pesa quase 140 quilos e mede cerca de cinco metros do nariz até a cauda. Hunter sibila feito uma cobra.

Ele pega uma laranja e faz um gesto. dedos. mais uma vez de guarda. O cabelo de seu pai é espesso. braços. Paridade. Hunter observa a cena como se estivesse fora de seu corpo. No sonho. *** Door está sonhando com seu pai. simetria. Você precisa sentir essa necessidade e usá-la a seu favor. olhos. as duas dançam juntas. Mas agora. Mas o mais importante é entender que todas as coisas querem se abrir. Hunter larga o tacape e agarra essa pata. Ele sorri bastante. ele está mostrando como abrir as coisas. cabelo — tudo criando movimento e girando de forma vigorosa e estranha. E se esquece completamente de seu sonho. na cidade subterrânea. diz seu pai. a fruta se retorce e se inverte: a polpa está agora do lado de fora e a casca na parte de dentro. Em vez disso. As mãos de . uma dança complicada e sem fim. e ela se lembra disso. embaixo de Bangkok. e Hunter começa um caminhar fluido e instantâneo. castanho. ele lhe entrega um cadeado. em seu sonho. Num movimento suave.que ficara bastante grata. Assim. Mas ele deixou de sorrir desse jeito à medida que os anos passaram. e admira os movimentos elaborados que fazem. não era assim que acontecia. ali. Ouve-se um pequeno ruído no mundo desperto. um murmurar da jovem Door em seu sono. topologia: essas são os temas que vamos estudar nos próximos meses. para sempre. Em seu sonho. no meio do matagal e para longe. como era uma década antes de sua morte. a doninha estica uma de suas patas. retirando um gomo da laranja para ela. É sempre imprescindível manter a paridade. Door. pernas. Ela está mais uma vez alerta. Cauda.

embora ela saiba que na verdade aquilo aconteceu quando era uma criança. sentindo o metal frio. mas ele não pode ouvi-la. e em algum lugar em seu coração deixa o cadeado ser o que quer ser. explica. Abra. Ela segura o cadeado. . Seu pai sorri. De repente. Abrir é isso. frio. Ela o joga no chão e começa a chorar. Arch. e. Ouve-se um “clique” bem alto e o cadeado abre. concentra-se nele. Seu dedo comprido enxuga uma lágrima do rosto de Door. ela diz. Pronto.Door têm o mesmo formato e tamanho de suas mãos atuais. Ela se lembra de sua mãe a segurando bem firme. Door tenta abrir o cadeado. Nada acontece. ele lhe diz. pesado. Seu pai pega o objeto e o coloca de novo em suas mãos. Ela se dá conta do que a está perturbando. ela compreende. lembra-se de ver seu irmão. Todo o resto é só técnica. enquanto abria uma porta que ia do seu quarto para o quarto de brinquedos. Há algo que ela precisa saber. Boa menina. Alguma coisa a perturba. o cadeado quer se abrir. embora ela possa ouvir sua voz à distância. Door o chama. Lembre-se. Door aprendeu a abrir pouco depois de aprender a andar. Quem o escondeu? Quem poderia ter feito isso? Mas ele está se afastando dela e ela já está se esquecendo. Tudo o que você precisa fazer é deixá-lo fazer o que ele quer. em sua mão. conversas e lições de mais de doze anos atrás e resumindo em uma única lição. Ela o revira entre os dedos. O cadeado está lá. inerte. o peso em suas mãos. não consegue mais entender o que ele está dizendo. e que ela está pegando momentos. Pai? O seu diário. elogia seu pai. separando anéis de prata que estavam unidos e depois os juntando de novo.

a cada curva. a sensação aumenta. pairando sobre ele. Richard ergue a mão (mas não é a sua mão) e joga a lança na direção da criatura. mas se sentou de repente. o animal tem o tamanho do mundo: não há nada além daquela Besta. o rosto. duas vezes. maléfico. ele sente apenas horror. de pé. Há sangue ressecado em seus chifres e presas. a cada bifurcação. Door murmura baixinho. e a sensação de perigo iminente piora a cada passo. Seus olhos se abriram e ele tentou recuperar o fôlego.. Ele sabe que está lá. cruéis. úmidos. Hunter olhava. molhado. Richard sabe que deveria sentir alívio quando chega na última curva e vê o animal lá. *** Richard sabe que o animal está a espera deles. cobre o rosto com o braço. Segurava um balde de madeira vazio. ronca uma. A cada túnel. Em seu sonho. esperando por ele.No mundo desperto. Ele vê os olhos. Rola para o lado.. como se diversos animaizinhos a tivessem usado como banheiro. famintos.. . Tentou ficar em pé. A fera cai sobre ele. — Uuuhhh. Mas. Sua boca estava com um gosto horrível. na tocaia.. É um ser repugnante. A água estava fria e atingiu o rosto de Richard como um tapa. seus flancos fortes com lanças partidas e pedaços de velhas armas fincados. fica mais intensa. emoldurado pelo túnel. Richard ergueu a mão: seu cabelo estava encharcado. enorme. para ele. tudo em uma fração de segundo que é como um momento eterno. E ele ataca. em vez disso. parado. e volta a dormir um sono sem sonhos. — Como está a sua cabeça? — perguntou Hunter. Esfregou a água dos olhos e tremeu de frio. — Você não precisava fazer isso — reclamou. — murmurou ele.

Havia uma figura pintada em uma das paredes: a letra S (ou seria uma cobra? Richard não sabia dizer) com sete estrelas em volta. e lançou-a pelo chão do estábulo. sonolenta. Então. ela acordou mesmo. Suas pálpebras estremeceram. Engasgou. sem dúvida foi um alívio. se fosse. — gemeu. — É . quase num sussurro. — Bom. bem rápido. ele avisou pra gente que era forte — lembrou Door. — Se era assim que eles se sentiam no dia seguinte. — Serpentine! — disse ela a Richard e Hunter. o S em forma de cobra com as estrelas em volta.. — Eu não sei o que vocês beberam. — Não me admira Atlântida ter sido inundada — disse Richard. Door levou uma mão meio perdida até a própria cabeça e tentou explorá-la. apontou para a gravura na parede. de repente. Hunter a ajudou a ficar de pé. — Pelo Templo e o Arco. Hunter molhou a mão no balde e respingou água no rosto de Door.. Eu morri? — Não — respondeu Hunter. — Uuuhhh. cheio d’água. mas era forte — comentou. como se não soubesse ao certo o que encontraria. — Que pena. que tipo de cavalo viveria no subsolo. Ela pegou outro balde de madeira. — Já esteve melhor. Agarrou o ombro de Richard.em tom profissional. Onde estamos? Hunter respingou um pouco mais de água no rosto de Door. Ficou se perguntando se seria mesmo para cavalos — e. — Nos estábulos de uma amiga. Richard olhou em volta. O lugar sem dúvida parecia ser um pequeno estábulo.

a insígnia da Serpentine! Richard. levanta! Precisamos fugir antes que ela descubra que estamos aqui. rosto sério e cabelo preto e comprido. Era muito mais alta do que todos ali: seu enorme cabelo grisalho roçava a parte superior da porta. Olhava para Door como se tivesse previsto aquele horror todo.. Depois saiu da porta e caminhou na direção deles. em um cumprimento cordial. Estava tremendo. Serpentine inclinou a cabeça. — E você acha — perguntou uma voz vinda da porta — que você conseguiria entrar na casa de Serpentine sem que ela percebesse. apesar de sua cabeça estar latejando. com voz chorosa. Richard percebeu. Serpentine se aproximou de Hunter. como se estivesse tão acostumada ao medo que provocava que já esperava tal reação. — Hunter trabalhou para mim há muito tempo — disse. usando um vestido negro e justo. — Mas ela é a Serpentine! — exclamou Door. Ergueu a mão e com um dedo pálido gentilmente acariciou o rosto moreno da guarda-costas. e até gostava dela. Tinha um olhar penetrante.. — Calma — disse Hunter. em um gesto de afeição e posse. — Uma das Sete Irmãs. de cintura muito fina. um vestido de noiva de seda e renda. Continuou: — Você conseguiu manter sua beleza melhor do que . minha criança? Door se jogou contra a parede do estábulo. que nunca a tinha visto tão amedrontada. A mulher não disse nada. muito tempo antes. Atrás dela havia uma mulher magra. Serpentine estava na soleira da porta. Usava um espartilho e botas compridas. ambos de couro branco. e sua boca era apenas um risco cruel num rosto majestoso. além dos restos rasgados e sujos do que parecia ter sido.

. — O que temos para comer? — perguntou Hunter. A caçadora baixou o olhar. criança. Você é Door? — Sim — respondeu. — Ah. Queria que alguém o segurasse. — Imaginei — disse Richard. Serpentine se virou para Richard. — Temos comida para todos vocês. — Richard. que logo ele se sentiria melhor. Ainda estava encostada na parede. Door não disse nada. que lhe dissesse que tudo ficaria bem. não.eu. educadamente. — Os amigos de Hunter são meus amigos. tremendo um pouco. mas com educação. uma ânsia de vômito violenta. — Meu nome é Serpentine — anunciou ela. Hunter. alguém . Sentiu. — E você seria. de repente.. O fato de que Hunter só os teria levado até ali se fosse um lugar seguro não servia para acalmá-la. Serpentine olhou para a mulher com cintura de vespa que estava em pé na porta e perguntou: — E então? A mulher deu o sorriso mais frio que Richard jamais vira num rosto humano e disse: — Ovos fritos ovos cozidos ovos em conserva vitela ao curry cebola em conserva arenque em conserva arenque defumado arenque salgado ensopado de cogumelo bacon salgado repolho recheado geléia de mocotó.. mas era tarde demais. como uma folha ao vento.. desinteressada. Richard abriu a boca para lhe implorar que parasse. caso desejem romper seu jejum..? — perguntou. por favor — choramingou Richard.. com a boca seca.

Sobre ela havia um aparelho de jantar de prata. talvez. A gente aprende a reconhecer o tipo. Assim. e sua cama existia apenas em outra vida. *** — Pode me passar a geléia de mocotó? — perguntou Hunter. A sala de jantar de Serpentine ficava no que parecia ser a menor plataforma de metrô que Richard já vira. com voz fria. A mesa estava entulhada de alimentos malcheirosos. enquanto dormira. Lavou o rosto e as mãos com a água do balde para afastar o enjôo. e a brisa provocada por ele chegou até a mesa. Um trem do metrô passou a poucos passos dali. Serpentine se voltou para a mulher de preto. Tinha mais ou menos 3. e muito do espaço era tomado pela mesa. e era como se seus olhos estivessem mal encaixados nas órbitas. que parecia ser algum tipo de mordomo. com a boca cheia. e pediu: . — Acho que é sim. Depois lavou a boca. — Ele não é o meu herói — respondeu Door. seguiu as quatro mulheres até a mesa de café-da-manhã. O pior cheiro. cambaleando um pouco.5 metros de comprimento. Sentia a pele úmida. — Pelo jeito o seu herói é meio fraco para bebida — observou Serpentine. Mas ninguém ali fez nada daquilo. É alguma coisa nos olhos. pensou Richard.que lhe desse uma aspirina e um copo d’água e o pusesse na cama. O barulho atravessou a cabeça de Richard como se fosse uma faca quente cortando seu cérebro. Ele gemeu. alguém trocara seu crânio por outro bem menor. vinha dos ovos de codorna em conserva. Tinha a impressão de que. coberta por uma tolha branca amarelada.

Serpentine franziu o nariz. segurando uma pequena bandeja onde havia um pe- . Lambeu-o e assentiu com a cabeça. Hunter fez que sim. Em seguida virou-se para Hunter. A mulher deu um leve sorriso e foi embora. — Eu não tinha muito tempo para o seu pai. criança. Quanta bobagem! Homem tolo! Estava pedindo encrenca. — Quer dizer que você vai caçar a Besta. Serpentine pegou algo que se mexia em seu cabelo grisalho. com a boca cheia. Virou-se para Door e continuou: — Aliás.— Traga um tônico revigorante para o cavalheiro. — Então é claro que vai precisar da lança. Serpentine mergulhou o dedo no molho salgado que parecia conter várias enguias pequenas. Examinou detalhadamente o bichinho. Door não disse nada.. esmagou-o com os dedos e o jogou na plataforma. Serpentine pareceu muito satisfeita. — Viu só? Bem que eu avisei. Você é a filha mais velha de Portico. em aprovação. — Somos muito gratos por tudo isso. Não perco meu tempo com esses títulos honoríficos imaginários e tolos. Lady Serpentine. A mulher com cintura de vespa se aproximou de Richard. Toda aquela besteira de unir o Submundo. Da última vez que o vi.. certo? — Sim. Door beliscava um prato de cogumelos. disse que se ele voltasse aqui eu o transformaria numa cobra-de-vidro. — Só Serpentine. como vai o seu pai? — Ele morreu.. Enfim. que estava devorando uma pequena montanha de arenque em conserva. sem ruído..

Um cavalo. que sempre terminavam com um trocadilho horrível. Old . De vez em quando.. hortelã. Uma enorme gralha velha fez uma pergunta.. está bem. ele tentava. os pássaros pediam para ele contar mais uma de suas divertidas histórias. Desculpem. Adorava contar histórias compridas e entediantes. *** Old Bailey não era uma daquelas pessoas nascidas para contar piadas. — O que você está oferecendo a ele? — perguntou ela.. Seu único público consistia em alguns pássaros presos.queno copo com um líquido de cor verde-esmeralda muito intensa. Mas. que (principalmente as gralhas) viam aquelas piadas como parábolas profundas e filosóficas para explicar a condição humana. meio surpreso. Era um cavalo.. Apesar dessa deficiência. — Se vocês já ouviram essa é só falar. — Nada que vá fazer mal — respondeu Serpentine. embora com freqüência ele não conseguisse se lembrar do trocadilho quando chegava a hora. A piada é de outro jeito. Não. está bem. em vez disso. Richard arregalou os olhos ao ver o copo e depois olhou para Door. um cubo! Três cubos.. que sua cabeça não doía mais e que estava morto de fome. — disse Old Bailey. Sentiu-o descer e preparou-se para tentar evitar que ele voltasse. com um sorriso gélido. Richard bebeu de uma vez o líquido verde: tinha gosto de tomilho. — Está bem. Isso. deu um profundo suspiro e percebeu. manhãs de inverno. não era um homem. — Vocês são meus convidados. Um homem entrou num bar. não. Três cubos entraram num bar..

A gralha mais velha grasnou uma pergunta. duas do outro. entendeu? Sou dado. então o cubo do meio também pede e não ganha. o cubo diz: “Sou dado”. muito engraçado. Então ouviu-se um ruído na cabana. as gralhas balançaram a cabeça em aprovação. Ele pôs sua mão no baú e pegou a caixa. o som vibrante ficou muito mais alto. É só uma piada. — Ele está em apuros — disse Old Bailey. A gralha grasnou de novo. — Mais uma? Eu não fui feito só para contar piada. — Não. A pequena caixa prateada estava em cima das preciosidades de Old Bailey. saindo por entre as filigranas. mas eles podiam. três do outro. E aí o barman diz: “Por um acaso você é militar?”. com ar sábio. — Ah. O barulho vinha de um baú de madeira velho no qual ele guardava suas coisas mais preciosas. Dentro dela. as fendas e os fechos. Muito engraçado. E então a gralha mais velha grasnou para Old Bailey. Ele está em . como as batidas de um coração. Soldado. E é uma piada. Old Bailey correu para lá. uma luz vermelha brilhava e piscava ritmada. um barulho profundo. cinco do outro. ora. Quando ele abriu o baú. e aí o último cubo pega um pincel e faz uma bolinha de um lado. Os estorninhos fizeram ruídos educados. — É. Os cubos sabem andar na piada.. isso.Bailey esfregou o queixo e encolheu os ombros. não é uma piada.. quatro do outro. como um coração pulsando ao longe.. E o barman diz: “Só servimos militares aqui”. seis do outro. Um trocadilho.. Então ele vai até os outros cubos e diz “Eles só servem militares aqui”. Então um cubo pede uma bebida para ele e para cada um de seus amigos. intermitente. Daí ele diz... E também pede uma bebida. três bebidas. É o marquês. Deixa eu ver.

seguida pela mulher com cintura de vespa. que não respondeu nada. meu jovem. Door. contou: — Quando os pais do Submundo querem que as crianças sosseguem. Subiram alguns degraus de pedra. pedra e tempo.. mais relutantes. . Hunter. Cumprimentou-os com um movimento de cabeça majestoso. que tinha ficado um pouco quieta. Serpentine fez uma pausa e percorreu um dedo semelhante a uma garra pela linha do queixo da caçadora. olhando para Hunter. onde apenas uma pessoa passava de cada vez. — Ah. decomposição. tenham um bom dia. levantando-se.apuros. — Acho que já gastei minha dose de hospitalidade — anunciou. — Minha criança. Caminharam por um corredor muito estreito. levantou-se e saiu do recinto. ou a Serpentine vem te pegar”. tijolos. imitaram-na. Hunter? — perguntou Richard. enquanto os trens do metrô ecoavam abaixo deles. Atravessaram uma ponte de ferro na escuridão. E na seqüência entraram no que parecia ser uma infinita rede de catacumbas subterrâneas que cheiravam a mofo. E você trabalhou para ela. eles dizem: “Comporte-se. *** Richard estava na metade de seu segundo prato quando Serpentine afastou sua cadeira da mesa.. né? Parece simpática — comentou Richard. — Você é sempre bem-vinda aqui. — Agora devemos ir embora — disse Hunter. — Ela era sua chefe. Door e Richard.

— Bom — começou Richard. . *** — Ele já está acordando? — perguntou o senhor Croup. — Quantos anos você tem? — quis saber Door. — É bem provável. no tom de voz despreocupado de alguém cuja ressaca passou e que sabe que. Mas na época elas ainda se falavam. outro alguém está tendo um dia excelente —. Acho que acabei com ele. — Você precisa ter mais cuidado com os seus brinquedos. em algum lugar. Richard ficou feliz por ela ter perguntado — ele não tinha coragem. — Para que lado ficam os Monges Negros. bem acima deles. E ninguém tentou matar a gente. — Ainda não.— Eu trabalhei para todas as Sete Irmãs. foi legal. Boa comida. O senhor Vandemar cutucou o corpo debruçado do marquês com seu dedo comprido. A respiração estava curta. Por aqui. — Pensei que elas não se falassem há pelo menos trinta anos — disse Door. senhor Vandemar. — Sou tão velha quanto minha língua e um pouco mais que meus dentes — respondeu Hunter. — Vamos pelo rio. senhor Croup. — Tenho certeza de que isso vai mudar até o fim do dia — disse Hunter. minha senhora? Door parou e concentrou-se.

E você. O QUE VOCÊ QUER? — PERGUNTOU RICHARD A HUNTER. Seus olhos pareciam enormes pérolas no escuro. Ele tinha nove metros de comprimento. o que você quer? Ela não respondeu. A água começou a correr mais devagar até desembocar em um pequeno lago. era gordo e muito feroz na batalha. com Door à frente. a pouco menos de um metro de distância.. Eles contornaram o lago..ONZE — ENTÃO. A névoa do rio deixava o reflexo dos viajantes na água impreciso.. — O que eu quero? — Bom. Richard observou com admiração a água cinzenta que corria e se avolumava. — Eu lutei nos esgotos de Nova York com o grande e cego crocodilo-rei branco. Door quer descobrir quem matou a família dela. Caminhavam pela beira do rio. profunda. A voz de Hunter estava calma. A margem estava escorregadia. as lanternas refletidas na superfície negra. sempre atentos. Não era o tipo de rio do qual alguém saía. Era um caminho estreito que percorria uma estrada de pedras escuras e talhadas. Eu o matei. Eu estou tentando voltar para a Londres de verdade.. Ela não perdeu o ritmo de sua caminhada enquanto falava. . — E então? — perguntou Richard. enroscava-se na névoa. Os três caminhavam com bastante cuidado ao longo de um rio subterrâneo. Seu sotaque estranho ecoava no subsolo. Ele não esperava nenhuma resposta. para minha vida antiga.

— Havia um tigre negro na cidade subterrânea de Calcutá. A névoa estava bem baixa sobre o lago. Eu vou acabar com ela.na noite debaixo da terra. Dizem que a pele dela está coberta de espadas. ou morrerei tentando. Seus olhos brilhavam enquanto ela falava de sua presa. melancólico. . Eu o matei usando apenas minhas mãos. Hunter continuou: — E eu vou matar a Besta de Londres. Quando ele morreu. Trazido pela água. esmorecendo a luz. lanças e adagas dos que tentaram matá-la e fracassaram. Ela estava ouvindo com muita atenção: aquilo também era novidade para ela. — O que é isso? — perguntou ele. Richard olhou de lado para Door. Suas presas são como navalhas e seus cascos são rápidos como um relâmpago. do tamanho de um pequeno elefante. — Fog — respondeu Hunter. formas esbranquiçadas retorcendo-se no vapor. Parecia grudar nas lamparinas. e suas garras estavam enegrecidas pelo sangue ressecado de cem anos — mas eu o derrotei. Um tigre é um adversário digno. Um devorador de homens. o som de um sino ecoou ao longe três badaladas. da sujeira urbana com mil anos de idade. Tinha gosto de cinzas. de ferrugem. Richard achou que conseguia ver as formas achatadas de alguns prédios em volta deles. inteligente. sussurrou palavras em alguma língua humana. Ele tinha matado mil homens. O mundo começou a clarear. A névoa do rio tinha se transformado em uma fumaça espessa e amarelada. Richard teve a impressão de que conseguia ver aquelas criaturas. — Lutei com o urso que caçava na cidade embaixo de Berlim. A fumaça amarelada ficou mais espessa.

— Fez em 1952. que estava ficando mais pegajoso e lamacento. Não aparece uma névoa assim lá em cima há.— Mas o nevoeiro não se forma há anos. — London Particulars.  evitando  assim  a  formação  do  que  os  londrinos  chamam  de  smog. O chão. ocorrido em 1952 na cidade de Londres e conhecido co‐ mo  “The  Great  Smog”. Mas nós vemos os fantasmas dela aqui. A névoa espessa e amarelada do rio misturada com a fumaça do carvão e outras porcarias que pairavam no ar nos últimos cinco séculos. — Como era mesmo que chamavam? — Pea-souper — respondeu Door. — Não parece ser algo muito bom — comentou Door. — Tem fumaça na minha garganta — disse Richard. uns quarenta anos. Richard ficou pensando nas histórias de Sherlock Holmes que lia na infância. Richard aspirou um fiapo da névoa amarelo-esverdeada e começou a tossir.)  . um pouquinho de fumaça nunca fez mal a ninguém. Ecos. — Bom — contemporizou ele. quando matou quatro mil pessoas. (N. E. 6 Door está se referindo a um dos mais extremos casos de poluição do  ar na História. Door se virou para ele com seus grandes olhos. para se acalmar —. Fantasmas não.6 — Pessoas daqui? Da Londres-de-Baixo? — perguntou Richard...  principalmente  em  determinados  pontos  da  cidade.  pea‐souper  (sopa  de  ervilha) ou London particulars (particularidades de Londres). combustíveis que não causam fumaça...  Dois  Clean  Air  Acts  foram  formulados  pelo  go‐ verno britânico depois disso para diminuir a emissão de gases poluentes. não é? Com o Clean Air Act. e essa coisa toda. sei lá. sugava os pés de Richard como ventosas enquanto ele andava. Hum.

O tempo não é gasto todo de uma vez só. — Há tempo demais em Londres. como as bolhas numa pedra de âmbar — explicou ela. Apesar disso. — Talvez eu ainda esteja com um pouco de ressaca. a sua gente lá de cima — respondeu Hunter. — Existem certas estufas de tempo passado em Londres. esperando saber quem vinha e quantos eram. Esperava uma morte rápida. um pecado: os momentos deveriam ser saboreados. em cada uma das pequenas refeições. *** O abade já sabia que naquele dia eles receberiam peregrinos. que tinha cuidado dele. o que era. O abade não considerava sua própria cegueira nem uma bênção. O irmão Jet. onde as coisas e os lugares permanecem os mesmos. Então foi um dia de espera. — Não entendo. como a escuridão. feito mingau. cercava-o. e o chão. ele esperava. cada vez mais mole. ainda a- . Pensou em prender o fôlego. O último peregrino durara quase um ano — era um serzinho gaguejante. Mesmo assim. Richard queria acreditar. O conhecimento era parte de seus sonhos. ele sabia. então ele precisa escoar para algum lugar. aguardando que o sino tocasse. mas a fumaça estava ficando cada vez mais espessa. Em cada um dos serviços do dia. o abade tinha os ouvidos atentos. Quase vi sentido no que você falou — suspirou Richard. nem uma maldição: ele apenas era cego. Por que vocês têm névoa aqui embaixo se não há mais névoa lá em cima? Door coçou o nariz.— Não. que gritava. A espera era um pecado tanto contra o tempo que ainda estava por vir quanto contra os momentos ignorados. sentia-se grato por nunca ter visto o rosto da pobre criatura.

— Sable — respondeu a voz no escuro. vendo aquele rosto distorcido diante de si. ajoelhado. — Quem está guardando a ponte? — perguntou o abade. devagar. onde alguém vestido de preto aguardava. gritando. passando por cima do pântano. Usava uma túnica negra. Logo à frente deles. No fim da tarde. onde ele esperava. na fumaça amarela. Levantou-se e correu para o corredor. Os pés deles pisavam em um tipo de pântano. não havia mais lago. — Padre? Era a voz do irmão Fuliginous. havia uma ponte. O abade esticou a mão. da cor do mogno envelhecido. pelos corredores do mosteiro. segurou no cotovelo do jovem e caminhou a seu lado. A substância penetrava em seus sapatos. Sua voz era surpreendentemente profunda e melodiosa para um homem tão velho. — Digam-me seus nomes e o que desejam. Sua pele era marrom escura. e estava segurando um cajado de madeira da mesma altura. o sino tocou três vezes. Era um homem alto. .cordava de noite. como se fosse um monge dominicano. *** Não havia mais chão sólido. — Alto lá — disse ele. invadia suas meias e chegava perto demais de seus dedos. contemplando seu fardo. O abade estava no santuário. além do limite que ele considerava suportável. — Isso é nojento — comentou Richard.

Ele lutava bem. que não conseguiu mais sustentar seu peso. Com o lábio sangrando. Estamos aqui em busca de uma chave. Era maior que ela. Hunter deu um passo para trás. Fez uma profunda reverência na direção da adversária e voltou para a ponte. O monge não disse nada. e Richard suspeitava que até mais forte. Ela nem sequer havia transpirado. Richard se levantou da lama e observou. que caiu na lama. — Sou Hunter. atrás dos joelhos dele. da Família Arco. Mas Hunter sim. Molhado. boquiaberto. O homem desabou na lama e Hunter descansou a ponta do cajado na nuca dele. com força e precisão. era mais rápida. — E vocês desejam atravessar a ponte? Richard deu um passo para a frente. Os bastões de madeira estalavam e batiam um de encontro ao outro em meio à névoa. Filha de Portico. — Já chega — disse uma voz vinda da ponte. — Richard Mayhew. o monge e Hunter se enfrentando com bastões. — Sim. O bastão do monge atingiu o diafragma de Hunter.— Sou Lady Door. desejamos. . Ela. para ver se o rapaz iria levantar e lutar com ele. Levantou seu cajado e. Ela bateu seu cajado. Ficou mais uma vez ao lado de Door e Richard. Richard não se moveu. Ele chegou perto — perto demais — e descobriu que o tombo dela fora apenas fingimento. por outro lado. Ele escorregou e caiu na água lamacenta. o grande monge se levantou da lama. com suavidade. O monge esperou alguns instantes. Guarda-costas. empurrou Richard pelo peito.

Seus olhos tinham uma cor a- .— Quem são eles. irmão Fuliginous. E então um sorriso iluminou seu rosto. — disse. Viro de novo e você fica preso até morrer. da Família Arco. — Deixe-os subir — disse a voz. Um homem muito idoso saiu da névoa amarela e caminhou com cuidado até eles. sua guarda-costas. — Muito bom — reconheceu o irmão Fuliginous. Não tenho rosto. na névoa amarela. a mão nodosa se apoiando na lateral de pedra da ponte... Quando chegaram ao ápice.. — Viro a cabeça. — Lady Door. e eles subiram a ponte. mas usando as mesmas vestes. — Ela me derrotou numa luta justa. Hunter foi à frente. pensou Richard. repetindo a charada. Ela olhou para o irmão Fuliginous e anunciou: — Uma chave! A resposta é: você é uma chave. Falta mais um. Parou quando se aproximou do irmão Fuliginous. outro monge. nem camafeu Mas tenho dentes — quem sou eu? Door deu um passo à frente. seu acompanhante — respondeu o irmão Sable. — Tenho dentes. — Dois estágios já foram. O segundo monge olhou para os três por um segundo e recitou: Viro a cabeça e você pode se mover. Havia outros vultos vestidos de negro e que mal eram visíveis ao longe. e Richard Mayhew. Sua pele tinha um tom marrom intenso.. Hunter. com os lábios machucados. a filha de Lorde Portico. estava à espera deles: o irmão Fuliginous.. Umedeceu os lábios e Semicerrou as pálpebras. Então esses são os Monges Negros.. irmão Sable? — disse a voz. pode se mover. mais jovem e menor que o primeiro.

— Ah. — E um deles derrotou o primeiro guardião? — Sim. padre abade. — Eu passarei pela provação. padre abade. não! — exclamou Door. Ele agarrou o corrimão de segurança. — E um deles respondeu corretamente à pergunta do segundo guardião? — Sim. — Quantos são? — perguntou o velho ao homem mais jovem. Richard não gostava de altura. em uma voz profunda e tranqüilizadora. O irmão Fuliginous balançou a cabeça. Que ele ou ela dê um passo à frente. Quando Richard era criança. ele fora em uma excursão escolar até um castelo que havia nas redondezas. — Deixe-me tomar o lugar dele — pediu Hunter. padre abade. Richard simpatizou com ele na hora. — Não podemos permitir tal coisa. Todos ficaram bem juntos no topo. ela cairia com tamanha força que penetraria o crânio de um homem que estivesse lá embaixo feito uma bala. fechou os olhos e tentou não olhar para baixo. imaginando a . — São três. uma torre meio destruída. Já naquela idade. Naquela noite. Com o resto da turma. enquanto a professora mostrava para eles o campo lá embaixo. E o velho disse.zul-esbranquiçada opaca por causa da catarata. subiu os inúmeros degraus até o ponto mais alto do castelo. Richard ficou deitado na cama sem conseguir dormir. com certo lamento na voz: — Então o terceiro deverá enfrentar a Provação da Chave. se alguém jogasse uma ficha ou uma moeda do alto. A professora tinha dito que do topo da velha torre até a base do morro havia uma altura de uns noventa metros e que.

. ou Hunter. separando Richard das duas. O abade começou a descer a ponte. Por aqui — respondeu o velho. — Não.. Há três testes. e podia ouvir a si mesmo balbuciando. Por que a gente não pula essa parte da provação? Vocês podem entregar a chave de uma vez. nem solucionou a charada. E era uma ficha que caía com a força de um raio. Ele balbuciava. apontadas na direção de Richard. ainda mais um homem de Deus como o senhor. É justo que cada um de vocês enfrente um. Uma provação. Se passar pela provação. — Venha.ficha caindo com a força de um raio. estendendo a mão para se apoiar no braço do irmão Fuliginous. E aí a ficha caiu para Richard. É muito difícil? — perguntou ao abade. Escolha uma de nós — pediu Door. Richard abaixou mais ainda a voz: — Olha. mas não estava nem aí. Havia uma porta . ele não. Uma provação. — Essa tal provação de vocês. — Nós estamos atrás de uma chave. não se diz “não” para um anjo. — Três vieram..... Os vultos escuros ao fundo seguravam armas. Door.. Vamos voltar um pouco... E então disse: — Espere aí. em voz baixa. — Sim — repetiu o abade. Os monges se postaram em fileiras. — É para um anjo — explicou Richard.. Alguém que não lutou na lama. Alguém precisa passar por uma provação. Ainda pareceria uma ficha na queda. — disse ao abade.. Uma brisa leve dissipou um pouco a névoa. mas uma ficha assassina. ele retornará.. — Sim — respondeu ele.

É uma relíquia das mais sagradas e poderosas. — Se eu não passar pela provação. — E eu posso voltar depois para tentar de novo? O irmão Fuliginous tossiu. Atravessaram corredores tortuosos e estreitos. Richard o seguiu — afinal.. — Agora. com paredes estranhamente decoradas. muito mais apavorante do que qualquer tentativa de amedrontá-lo. — Na verdade não. aí nós não recebemos a chave. Richard pensou por um instante. Quando . meu filho.aberta no fim dela. meu filho — respondeu o abade. e continuou: — Não haverá nada que possamos fazer. que parecia uma cripta. o que mais ele podia fazer? — Quando nossa ordem foi fundada. Richard deixava um rastro de lama atrás de si. Ouviu-se o zumbido elétrico de um flash de câmera fotográfica. ficamos encarregados de guardar a chave. não recebem... É a provação que pode matar você. Havia um leve tom de reprovação em sua voz. e aquilo era apavorante. — Se isso acontecer. que cegou Richard por um momento. não é? — Não. Sua voz tentava tranqüilizá-lo. — Somos homens santos. Mas não se preocupe.. — ele fez uma pausa. Desceram alguns degraus até chegar a uma sala baixa. Devemos passá-la adiante. sorria! — disse o abade. talvez você consiga ganhar a chave. — Vocês vão me matar? O abade olhou adiante com seus olhos azulados e leitosos. você sem dúvida vai estar. mas somente para aquele que supera a provação e se mostra digno dela.

aquarelas e miniaturas. e por último com grande risco para ela. O monge esperou até que ela estivesse revelada e a prendeu com uma tachinha à parede. Sem dúvida os monges as colecionavam há tempos. uma recordação dos mortos. Algumas fotos de Polaroid. . e depois delas desenhos a lápis. Teria tentando encontrar o marquês. *** Door estremeceu. — Como eu sou idiota — murmurou. Eu não devia ter vindo direto para cá. Somos três. — E o que você teria feito de diferente se soubesse? — perguntou. — Eu devia ter desconfiado. vinte ou trinta fotografias reveladas pelo método-padrão. — Este é o nosso mural daqueles que fracassaram — suspirou o abade. primeiro sem nenhum dano. — Eu não teria trazido ele para cá. Agora estava recalculando. algumas em sépia ou daguerreótipos. Hunter inclinou a cabeça para um lado: — Você confia nele? Door sabia que ela estava se referindo a de Carabas. mas pouco para Door. Richard olhou para aqueles rostos. viu o irmão Fuliginous abaixando uma velha e maltratada Polaroid e tirando de lá a fotografia.voltou a enxergar. Cobriam toda a parede. de cada uma das armas. Hunter olhava de um lado para o outro. e calculara a probabilidade de pular com Door da ponte. Ela avaliou a posição de cada um dos monges. — Assim nenhum deles é esquecido. depois apenas com pequenas escoriações. Também é o nosso fardo. pra começo de conversa.

deixando-os feios e engraçados. daquele jeito adulto de chorar. e seu pai a tinha levado consigo para comemorar o aniversário. Ela fez que sim. minha filha. “Ele se chama marquês de Carabas. E então piscou. Door tinha completado cinco anos de idade fazia apenas dois dias.. conversando com gêmeos de pele dourada. “Door”. Os monges que as cercavam eram como fantasmas escuros na névoa. o que foi buscar a chave. Se ele não conseguir. e ele os levava para fora da sala. perguntou seu pai.. Door ergueu a voz. de coisas leves e iridescentes. Olhou direto para ela e deu um enorme sorriso. Confio mais ou menos. O Mercado estava acontecendo no Jardim Botânico de Kew. A jovem estava chorando. um homem e uma mulher. Ele tem a obrigação de protegê-la. — Sim. estava de pé na porta. os cabelos negros amarrados para trás em um longo rabo-de-cavalo. dirigindo-se ao irmão Sable: — Com licença. Era a primeira vez que ela visitava o Mercado. “vire-se devagarinho e olhe ali. Ele a irá proteger.” Door olhou de novo para o homem. usando uma grande casaca. que a fascinavam e encantavam. Estavam na casa das borboletas. Um homem de pele escura. O nosso amigo. disse ele. Mas ele olhou de volta. Door se voltou para as borboletas. tentando segurar o choro ao máximo e odiando quando as lágrimas ainda assim conseguem cair. hesitou e disse: . Cada uma de suas mãos estava sobre um ombro dos gêmeos.” Ela obedeceu e olhou. É inescrupuloso. cercados de asas muito coloridas. vá até ele. por cima do ombro. talvez até mesmo um monstro. irmão. quando seu pai se agachou ao seu lado. trapaceiro. o que vai acontecer conosco? Ele deu um passo na direção delas. “Você viu?”. enquanto saía. Se você tiver algum problema.não a Richard.

Havia até mesmo um acendedor. Depois de passar por dores terríveis. estava mais ou menos inconsciente. De Carabas não era um bom homem. — Eu devia ter trazido o marquês — disse Door. *** O marquês de Carabas estava sendo colocado em um grande aparelho de madeira em forma de X que o senhor Vandemar tinha construído com diversos estrados velhos. parte de uma cadeira e um portão. formando um X. — E quanto a Richard? Ela podia ver a cabeça do monge balançando com melancolia. Fazia tempo que eles não prendiam ninguém ali. — Por que não verifica como ele está. E ficou pensando onde ele estaria e o que estaria fazendo. Os assassinos haviam suspendido o aparelho no ar com várias cordas. Ele também fora amarrado pela cintura. na antiga sala de café dos funcionários do hospital. senhor Vandemar? O homem cutucou o marquês com seu martelo. e ele mesmo .— Nós as acompanharemos até a saída e as deixaremos ir em paz. em sinal negativo. Ele também usara quase todos os pregos enferrujados que havia encontrado em uma caixa. Os braços e as pernas do marquês estavam abertos. com uma corda. No chão. debaixo do capuz. resgatado da sala de fornalhas. Pregos enferrujados atravessavam suas mãos e seus pés. o senhor Croup colocou uma grande quantidade de objetos pontiagudos: de lâminas de barbear e facas de cozinha a bisturis e lancetas abandonadas.

o máximo que conseguia. que não era corajoso. *** A água na chaleira aberta fervia e soltava um vapor espesso. O abade ergueu seus olhos cegos. era um lugar que desejava ser enganado. com educação. Richard ficou se perguntando o que iriam fazer com aquilo. O marquês não ganharia mais nada fingindo que estava inconsciente. E também uma estupidez. tanto o de cima quanto o de baixo. A água foi colocada em um bule. Agora. sua postura) como se fosse uma grande piada. obrigado — respondeu Richard. farejou o ar e sorriu. mas nenhuma se provou correta. para este fim. Havia muito ele concluíra que o mundo. Disse: — A primeira parte da Provação da Chave é uma boa xícara de chá. ao qual o irmão Fuliginous acrescentou três colheres de folhas secas. com absoluta certeza. E talvez a morte chegasse mais rápido. Era um ato de coragem. O irmão Fuliginous adicionou um pouco de leite ao .sabia muito bem. de conto de fadas. Ergueu a cabeça. seus trejeitos. a maioria delas sem dúvida muito dolorosas. Seus pulsos e pés doíam. e ele tinha cada vez mais dificuldade de respirar. ele não tinha a menor dúvida. e criara a própria imagem (suas roupas. dera a si mesmo um nome falso. machucariam-no ainda mais. e cuspiu um monte de sangue no rosto do senhor Vandemar. Talvez eles o deixassem morrer tranqüilamente se não tivesse feito aquilo. O líquido resultante foi coado para três xícaras de porcelana. Sua imaginação lhe dava diversas respostas. pensou. Você gosta com açúcar? — Não. e.

E esperava. — Mas isso faz parte da provação? O irmão Fuliginous pegou as mãos do abade e colocou a xícara entre elas. Depois. E às vezes (o que era pior) eles não morriam. no corredor do lado de fora. e um sorriso de enlevo iluminou seu velho rosto. tentando decidir o que queria perguntar. — Está ótimo. Ele só levava os desafiantes até a porta. Sempre gostamos de dar aos desafiantes uma xícara de chá antes que eles comecem. Ficou de pé.. de jeito nenhum — respondeu o abade. E continuou: — Existe alguma coisa que vocês possam me contar a respeito dessa provação? O abade balançou a cabeça. — De certa forma. às vezes duas. . — Existe. Não havia nada a dizer. apesar de tudo — comentou. removia do santuário os restos mortais do indivíduo e os sepultava nas catacumbas. — Richard fez uma pausa. uma hora. não! Richard tomou um golinho e percebeu que se tratava de um chá como qualquer outro. Richard descansou sua xícara quase intocada. e os três andaram em direção a uma porta no fim da sala. — Tem veneno? — perguntou ele. embora não fosse possível dizer que o que havia restado estivesse vivo. — Por Deus. O abade pareceu ofendido. — Vocês se importariam se eu começasse já a provação? — Não. É parte da nossa provação.. e desses infelizes os Monges Negros cuidavam da melhor maneira possível. sim. Não da sua.chá e passou o pires com a xícara para Richard. Tomou seu próprio chá.

  de  uma  das  cenas  finais  da  peça  Macbeth.  embora  errada.. lead on. 7 Citação  comum. T. o monge tornou a fechá-la. Em seguida. (N. mas não tive coragem de corrigi-lo. que se abriram com um barulho alto. Ele parecia ser um bom rapaz. Assim que Richard passou para o outro recinto.— Certo — disse Richard. como dois tiros simultâneos.  O  “Lead  on”  da  versão  de  Richard  quer  dizer algo como “Vamos lá!”.)  . Macduff/And damned be him  that  first  cries  ‘Hold.  enough!’“  —  “Ao  ataque..7 O irmão Fuliginous puxou os ferrolhos da porta. E então disse. Macduff. que tomou seu chá em silêncio.  Macduff/E  maldito  seja  aquele  que  gritar  ‘Já  chega!’“).  de  William  Shakespeare. com verdadeira tristeza na voz: — Na verdade é “lay on. levou o abade até sua cadeira e colocou a xícara nas mãos do velho.  em  que  o  protagonista  incita  seu  inimigo Macduff a lutar com ele (“Lay on. recolocando as trancas. Macduff’. Deu um sorriso pouco convincente e acrescentou: — Sendo assim.

Depois se voltou para a mãe. um trem rugia e sacolejava. Richard percorreu toda a sua extensão. Melanie arriscou olhar mais uma vez para Richard. curiosa. Seus passos ecoaram na plataforma e logo elas já estavam fora de vista. lia-se BLACKFRIARS. E aí se sentou em um banco e esperou que algo acontecesse. — Elas não têm coragem de se matar — explicou a mãe. daquele jeito que as crianças olham. fixamente. num sussurro bastante audível. Era uma estação da District Line: na placa. Melanie — aconselhou a mulher. — Por que pessoas assim continuam vivas? — perguntou. Lançaram-lhe um olhar rápido e. sem conseguir disfarçar. — Que dó — disse a menina. desviaram o rosto.DOZE RICHARD MAYHEW CAMINHOU PELA PLATAFORMA VAZIA DO METRÔ. Nada aconteceu. Ouviu passos na plataforma e levantou a cabeça: uma menininha arrumada e empertigada passava por ele. — Não chegue muito perto dele. de mãos dadas com uma mulher que parecia uma versão mais velha e maior da garota. Ao longe. que espalhou as páginas de uma edição do tablóide The Sun — seios em quatro cores e insultos em preto-e-branco deslizando pela plataforma e caindo por cima dos trilhos. sem vergonha ou inibição. Melanie olhou para Richard. provocando no ambiente um vento fantasma. Esfregou a testa e se sentiu um pouco enjoado. Richard ficou pensando se não teria .

barba por fazer. — Gary. Dick? Você está bem? Ele olhou. — Oi — disse uma voz conhecida. — Tudo bem. não conseguia resgatá-la desse local perdido. Richard não levantou o olhar. sentado. — Você consegue me ver? Gary sorriu. em algum lugar de fácil acesso. Ficou lá. a esperança voltava como um sopro no peito.imaginado aquilo.. Sentiu o próprio rosto formando um sorriso. tocou seu rosto. Pensou por um instante. O que quer que fosse era real... com medo. — Gary? — perguntou. não virou a cabeça para ver quem era. estava bem barbeado e não tinha um único fio de cabelo fora de lugar.. Não. muito triste. bateu com os sapatos enlameados no chão (de onde vinha aquela lama?).. eu.. Tentou se lembrar por que se encontrava ali. Muito engraçado. — Você sempre foi um palhaço. — Eu não sei bem como te dizer isso. É meio estranho. — Tudo bem — disse Gary. . não dá. Será que estava sonhando? Sentiu com as mãos a dureza do assento plástico vermelho embaixo de si. Não era um sonho. mas não conseguia precisar o que era. Richard pensou em como ele devia estar: enlameado. Sentia-se estranho: isolado. Será que estava esperando o metrô? Para onde estava indo? Ele sabia que a resposta jazia em sua cabeça.. eu sei o que isso está parecendo. cara. desgrenhado. Eu posso explicar. olha. num tom de encorajamento. O homem vestia terno e gravata. — Não. Não posso. Alguém sentou ao seu lado. deprimido. sozinho e pensativo..

Levou as mãos até o rosto. moldou. John Lennon ou qualquer outra pessoa. O Richard de roupas úmidas e enlameadas olhou para o rosto do Richard limpo e bem vestido e disse: — Eu não sei quem você é ou o que está tentando fazer. E você sabe o que se diz sobre as pessoas que falam sozinhas. Seu outro eu deu um sorriso de encorajamento e ba- .. Eu sou você. compreensivo. puxou. — Você está sentado na estação Blackfriars. sem dúvida. Richard pensou vagamente se aquilo não seria uma das brincadeiras de Gary.Fez uma pausa. — Talvez isso ajude — explicou Gary. em uma voz que era de uma familiaridade perturbadora. Não estou. com voz calma. tinha escovado aqueles dentes. desejara que fosse mais parecido com o rosto de Tom Cruise. Mas você está começando a ficar um pouquinho mais próximo da sanidade agora. Mas era. você está. Mas você nem mesmo é convincente. Eu não estou aqui de verdade.. conversando com você mesmo. Continuou: — Olha. e prosseguiu: — Não. Era como massa de modelar. seu próprio rosto. deu forma. de vez em quando. penteado o cabelo e. — Está conversando consigo mesmo. Richard conhecia aquele rosto: ele o tinha barbeado quase todas as manhãs desde que saíra da escola. Gary balançou a cabeça. Nem se parece muito comigo. Ele sabia que estava mentindo. — E agora? Melhorou? — perguntou a pessoa que antes era Gary. — Sim. na hora do rush — disse o outro Richard.

uma espinha inflamada — um horrível furúnculo vermelho — crescia na lateral de seu nariz. E então sentiu um movimento no canto do seu campo de visão.. negando tudo o que seu outro eu dizia. aquela paródia horrível que tentava se passar por sua voz: o homem falava com a verdadeira voz de Richard. de gente empurrando. desesperado. Não era o eco constrangedor de sua voz que ele ouvia nas secretárias eletrônicas. — Ver o quê? Ele estava de pé numa plataforma de uma estação de metrô vazia e pouco iluminada.. olhou para a plataforma. bem na hora do rush.. Veja — sussurrou seu outro eu. — Olhe para este lugar. e Richard viu seu reflexo na janela. Richard. tente enxergar a verdade. tente ver as pessoas. coberto de uma sujeira ressecada . movendo-se. A cena o atingiu como um tapa na cara: estava de pé na estação Blackfriars. um olho roxo causado por uma pancada recente.. E então. um lugar que parecia um mausoléu solitário. Balançou a cabeça. imaginando o que é que ele deveria ver. Eu sou o que restou da sua sanidade. restos de comida em volta da boca. mas já tinha sumido. Havia um trem esperando na plataforma. Ele estava imundo. Seguiu-o com a cabeça. a voz que ele ouvia em sua cabeça quando falava. Ele parecia um louco: barba sem fazer havia uma semana.lançou a cabeça. em fitas cassete e vídeos caseiros. — Eu sou você.. As pessoas passavam por ele aos solavancos: uma confusão de barulho e luzes. clara e real.. — Concentre-se! — gritou o homem que tinha o rosto de Richard. mesmo assim. — É mentira! — exclamou Richard.. mas.. — Olhe. você está mais perto da realidade do que esteve na última semana.

querido. segurando sua mão.. — Jess? Jessica balançou a cabeça. bem na hora do pico. Você está mais perto da realidade do que já esteve.. e seu cabelo estava desgrenhado e embaraçado. — Isso faz parte da provação? — perguntou. Quando ergueu a cabeça. olhando para ele com pena.. mais perto da sanidade” e eu não sei o que. com tom de urgência. Richard parou de falar. as pessoas tinham sumido. Sentou-se em um banco e fechou os olhos. Tinha os olhos injetados e cheios de remela. apertá-la. Eu ainda sou você.. Olhou para a outra versão de si mesmo. Ele era um mendigo maluco. Dos Monges Negros que vivem embaixo de Londres. Então se lembrou de algo. à sua direita. e Jessica. A plataforma estava mais uma vez escura e vazia. tudo ficou mais real. — Provação? — repetiu Jessica. Ela trocou um olhar preocupado com o outro Richard. Ele também sentiu um perfume que já conhecia. Ele nunca tinha visto aquela expressão no rosto dela. Sentiu alguém segurar sua mão por uns instantes e. Mas você precisa me ouvir. — Vocês ficam dizendo “mais perto da realidade. Ao dizer isso. . Era uma mão de mulher. O outro Richard estava sentado à sua esquerda. Provação. depois. — Sim. de pé na plataforma de uma movimentada estação de metrô. Soltou a mão dele. — Infelizmente não. Richard escondeu o rosto entre as mãos. para a mulher que amara.e negra que invadia seus poros e se entranhava embaixo das unhas.

. Alguém tropeçou nele. sozinho. e se deu conta do quanto desejava eliminar a dor que ela sentia. Umas duas semanas atrás. As lágrimas começaram a rolar por sua face e ela parou de falar para assoar o nariz em um lenço de papel.. Acho que você surtou. Tremendo de frio. pelas ruas de Londres.. você só teve algum tipo de colapso nervoso. eu.. O outro Richard começou a falar. eu não conseguia... ele vai me levar de volta para casa.. E aí você desapareceu. Ela estava chorando. bem na hora do movimento.. cheios d’água. Você. comendo do lixo. conversando com pessoas que não existiam. — Preste atenção no que você está dizendo — interveio o outro Richard. o rosto contorcido e aflito. perdido. Eu rompi o nosso noivado. — Você não está passando por nenhuma provação.. disse um palavrão e continuou a andar... dizer que tudo ficaria bem. Se eu entregar a chave. Richard estava deitado na plataforma. enlouquecido.. Ele nunca a tinha visto tão triste antes. Richard. confortar. era como se fosse uma pessoa diferente. mas o mundo começou a se distorcer e se transformar.— Existe uma chave que eu preciso pegar para um anjo chamado Islington. Seus olhos brilhavam. Ficou com a boca seca e não conseguiu mais falar. Richard ergueu as mãos até ela. . — Eu sinto muito. Você estava agindo de um jeito tão estranho. — Eu andei por aí. para a abraçar. dormindo embaixo de pontes. — Não percebe o quanto tudo isso soa ridículo? Jessica parecia estar tentando segurar o choro. suavemente. Seu rímel começou a escorrer e seu nariz estava vermelho. sozinho. Richard — disse Jessica. Sentia a lateral do rosto fria e pegajosa.

andando pra lá e pra cá na plataforma. espremendo-o. — O que foi? Você ainda precisa que alguém te diga o que fazer? Levantou-se. Ele não sentiu nada no ar que circundava sua mão. — Anda. como se estivesse atravessando um chiclete. impaciente: — Eu sou você. — Você não sou eu — retrucou Richard. Fechou bem os olhos e permaneceu assim. Ficou em pé. Por favor! Gary estava sentado no banco. Só que talvez você esteja com medo demais para prestar atenção. mas sua boca se mexeu e ele se ouviu perguntar: — Criando coragem pra fazer o quê? Uma voz profunda saiu dos alto-falantes e ecoou. Quando os abriu. depois de desviar os olhos. Limpou o rosto com as mãos e tentou se levantar. e disse. ou uma hora. a plataforma estava na semi-escuridão. — Viu só? Eu não estou aqui. As pessoas que passavam olhavam para ele enojadas. Tudo que existe é você.. falando sozinho. Não havia ninguém ali. distorcendo-o. — Alguém me ajude. Richard começou a gemer. encosta em mim. Retirou os dedos do rosto de Gary. ou então. foi até Richard. trinta segundos. O único conselho que posso te dar é o que você mesmo está se dizendo. Richard ergueu a mão. Richard não queria ter dito nada. criando coragem pra. . Ele estava deitado em uma poça de seu próprio vômito — pelo menos ele esperava que fosse seu. ou um dia depois. mas ele não acreditava mais nisso. observando-o. — Olá! — gritou.. mas não conseguia mais lembrar como fazer isso.Levantou a cabeça do chão. não o encaravam mais. Ela trespassou o rosto de Gary.

Gary sorriu. Gary o avaliou com um olhar franco. com toda honestidade. fria. Anaesthesia. — Eu te acho um palerma — disse. ficava sobre o monitor de Richard. — Uma piada.. A sua vida é uma farsa vazia. Door. Um clarão. O boneco. Gary colocou a mão no bolso e tirou de lá um pequeno trasgo de plástico. e isso machucou Richard mais do que ódio ou inimizade. — Para fazer isso — disse Gary. — Toma — disse Gary. causado por um acidente na Estação Blackfriars. triste. — Virar um acidente na estação Blackfriars. inclinando a cabeça. pela plataforma: — O Departamento de Transportes de Londres gostaria de se desculpar pelo atraso. Ele jogou o boneco. Lembra deles? Na sua mesa. pensou. era como se aquele fosse o único pedaço de sua vida real. Não havia mais nada a fazer. mas o trasgo passou por elas como se não existissem. Se ele pudesse pegá-lo. Tudo aquilo era terrível. Hunter. tentando encontrar o boneco. Havia verdadeira compaixão em seu sorriso. Era mais uma vez a hora do rush. Gary riu.distorcida.. Ele caiu de joelhos e ficou engatinhando na plataforma vazia.. erguendo as mãos. — Seus outros amigos imaginários? Todo mundo no escritório ria de você por causa daqueles trasgos. Richard começou a rir também. talvez tudo voltasse ao normal. senão rir. — Eu tenho amigos.. — Eu tenho você — sussurrou Richard. Richard tentou agarrá-lo. Você não tem amigos. Um trem vomitou . Acabar com tudo. Para ele. de cabelo roxo e encaracolado.

centenas de pessoas na plataforma e outras centenas tentavam entrar. mas as lágrimas rolavam. — Não! — gritou Richard. machucavam-no. Já estava quase na beirada da plataforma. Richard estava de quatro no chão. Engoliu seco e a risada parou. o último metro que faltava até a beirada da plataforma. uma risada estranha. Olhou para a frente: grudados na parede do outro lado. enquanto engatinhava. ficavam no seu caminho. desagradável. podia ver o trasgo na beirada da plataforma. Era uma risadinha perturbadora. meio cambaleante. Ele não se importou — afinal. um pequeno borrão roxo: seu trasgo. Podia ver lá embaixo. A plataforma estava mais uma vez deserta e escura. Ele nunca imaginara que três metros pudessem ser uma distância tão grande. Ao subir no metrô. Esfregou os olhos com as mãos. por instinto. O gosto de seus dedos era horrível. Então engatinhou devagar no meio da multidão. . Ele ficou em pé e percorreu. Richard ouviu uma voz aguda rindo. a uns três metros de onde estava. estranha. Ele soltou um grito agudo e enfiou os dedos na boca. como uma criança que queimou a mão. Alguém pisou com força era seus dedos. faziam seus olhos arder. Ficou pensando que tipo de gente louca poderia rir daquela maneira. atravessando a plataforma. As pessoas o xingavam. havia enormes pôsteres anunciando cartões de crédito. provocando ainda mais ardência. tênis esportivos e viagens de férias para Chipre. Ele continuava rindo. uma mulher idosa esbarrou o pé no trasgo de cabelo roxo e o derrubou na escuridão do vão entre o trem e a plataforma. perto do terceiro trilho. rouca. Um clarão. sendo chutado e atropelado por elas. e ficou se perguntando de quem seria. E então ele soube quem ria.

Era uma conta de quartzo. e já era mais do que hora de ouvir o que ele dizia. transformando-se. Tirou o objeto do bolso e o examinou.. E de algum lugar.. Ia ser tão fácil. Ele estava do outro lado da Ponte da Noite. as palavras dos anúncios se contorceram. Tateou com os dedos: era algo liso. E então ele entendeu que não era preciso fazer esforço quase nenhum para que aquela dor fosse embora — para eliminar toda a tristeza que ele tinha sentido na vida. O trem vinha na sua direção. Sim. não muito longe. Os anúncios não tinham aquelas mensagens. Era uma das contas do colar de Anaesthesia. e fazer tudo aquilo ir embora para sempre.Enquanto ele olhava. SEJA HOMEM — MATE-SE! SOFRA UM ACIDENTE FATAL HOJE MESMO. Havia então novos dizeres: ACABE COM TUDO! DÊ CABO DE SUA VIDA MISERÁVEL. em sua cabeça ou fora dela. rígido. Só um momento de dor. ele estava falando sozinho. embora estivesse sozinho. toda a tristeza que viria a sentir.. Podia ouvir o barulho do trem. e tudo estaria terminado. as luzes brilhando no túnel como os olhos de um dragão monstruoso em um pesadelo de criança. .. Ele concordou com um movimento de cabeça. Então se lembrou de quando a pegara do chão. chegando à estação. não desista. Richard cerrou os dentes e inclinou-se para frente e para trás. ele pensou que estivesse ouvindo a menina-rato dizer: — Richard. Afundou as mãos nos bolsos e respirou fundo. como se ainda estivesse sendo atingido pelas pessoas que caminhavam pela plataforma. Estava falando sozinho. mais ou menos esférico. Havia algo em seu bolso.

Os vagões exalavam o cheiro de um necrotério sem refrigeração no fim de um dia quente e longo de verão. na verdade. estavam mortas. Suas portas se abriram. nem quando. *** Os ferrolhos da porta foram retirados. deixando entrar a luz da lâmpada de fora. nem se era uma pessoa corajosa ou covarde. outros mulheres. Havia cadáveres recentes. Entrou no trem e todas as luzes se apagaram. A porta do pequeno santuário se abriu. em . Não sabia mais o que era ou não real. com cortes no pescoço ou buracos de bala nas têmporas. Era uma sala pequena com um teto muito alto. Havia cadáveres velhos e ressecados. Ficou em pé na plataforma e esperou que o trem chegasse. Fez um movimento de cabeça. cadáveres segurando as alças de apoio. Suspeitou que. ouvindo o que ele dizia. dispostos em uma extensa parede. com carnes cancerosas pendendo de suas costas. que aquele era seu verdadeiro eu falando e que ele estava. vítimas de suicídio. freou e finalmente parou. Richard achou que já vira alguns daqueles rostos. Ele se aproximou. e colocou a conta de volta no bolso. sem sombra de dúvida. afinal. pelo que era possível discernir. cobertos de teias de areia. mas todos pareciam. estivesse falando sozinho. fazendo ecoar dois estalidos muito altos pela sala. mas não conseguia mais lembrar onde. concordando. louca ou sã — mas sabia o que precisava fazer naquele instante. Os vagões estavam cheios de todo tipo de gente — e todas elas. Alguns eram homens. Richard não tinha mais a menor idéia de quem ele era.Ele não sabia se havia alguém que o estava ajudando naquele momento.

— A não ser que isso aqui também seja parte da provação. . meu filho — disse o abade. um daqueles. O abade podia ouvir dedos percorrendo um tecido e a pele de alguém. Uma chave prateada estava pendurada em um fio preso ao ponto mais alto do teto... baixinha mas firme: — Eu não sou um pobre coitado. e os dois homens entraram no santuário lado a lado. Daquele jeito era muito pior. mas ele achava que era muito melhor quando eles morriam de uma vez. padre. — Acho que vou tomar aquela xícara de chá agora. O vento entrando pela porta aberta fez com que a chave balançasse para frente e para trás.. E uma voz fraca disse. ele sabia. depois para o outro.. O abade segurava o braço do irmão Fuliginous.. e então girasse devagar. — Ele não morreu. Não era bom pensar uma coisa dessas. O abade ouviu alguém se levantar e o irmão Fuliginous fazer um “ah!” de surpresa. Havia algo em sua voz que podia ser tanto admiração quanto arrependimento. — Mas. Houve alguns segundos de silêncio.forma de cúpula. acho que eu consegui — murmurou a voz de Richard Mayhew. — Acho que. agora insegura. Leve-o para a enfermaria. — Ah. vamos cuidar do pobre coitado até que ele possa receber sua última dádiva. Então o abade soltou o braço do monge e disse: — Pegue o corpo. — Não.. primeiro para um lado. não é? Bom. O abade suspirou. irmão Fuliginous. O irmão Fuliginous pôs um joelho no chão e abaixou-se.

o habitante do Mundo de Cima.. Houve certa movimentação do outro lado da ponte. perto da pequena conta de quartzo. mas. — Mas tenho dentes — quem sou eu? — recitou Richard. ao lado do abade. Por aqui — indicou o abade. — Prepare-se para correr. e ela mesma sairia dali com apenas pequenas escoriações. *** A névoa começava a se dispersar. de forma respeitosa.. Os monges se afastaram. ela poderia levar Lady Door para longe dos monges sem nenhum arranhão. Ele parecia satisfeito por Richard estar vivo. sim. — Com licença — disse o irmão Fuliginous. Richard parecia diferente. veio até elas. — Claro. para Richard. Tinha a impressão de que ele estava mais presente no . Richard Mayhew. Hunter o observou. Seus olhos opacos não se fixavam em nada específico. pendurada no fio. Richard deu um puxão e o fio se partiu com facilidade. interrompendo seu raciocínio. girando devagar. — Ah. tentando entender o que havia mudado. Hunter se sentia satisfeita. deitada em sua palma. caminhando através da névoa. — Alguma coisa está acontecendo — sussurrou Hunter para Door. Obrigado. Ele tinha se esquecido dela. Richard olhou para o velho. Estava confiante de que. Colocou-a no bolso. se fosse mesmo necessário. Ergueu a mão e sentiu a chave prateada e fria. e ele e chave deixaram aquele lugar.. — Não se esqueça da sua chave.se vocês concordarem — disse Richard. Abriu a mão e a chave o olhava..

Ele sorriu.. . Era como se ele tivesse começado a amadurecer. Ele fez que sim. — Que Deus tenha piedade de nós. segurando bem a chave.mundo. Door fez uma reverência e então. um sorriso débil. — Que o Templo e o Arco estejam sempre com vocês em sua jornada pelo Submundo — enunciou ele. — Então você ainda está vivo? — perguntou.. tanto para si quanto para os outros monges. Não. voltou para onde estavam Richard e Hunter. Jogou-a para Door. que estava mais centrado. — Perdemos a chave — disse o abade. Ele parecia menos infantil. mas educado. que a pegou e depois se jogou nos braços dele. — O senhor não tem idéia do quanto isso significa para nós. equilibrado. Os monges ficaram ali até eles sumirem de vista. apertando-o com o máximo de força que conseguia. E aí Door soltou Richard e correu para o abade. perdidos na velha névoa do mundo debaixo do mundo. Os três viajantes desceram a ponte e foram embora. Colocou a mão no bolso e de lá tirou uma chave prateada. era mais do que isso.

Incêndios tiveram início perto do grande anfiteatro e se espalharam depressa. a tempestade acalmou. Quando o dia raiou. gritavam. lá do alto. pairando no ar. de forma cruel.TREZE O ANJO ISLINGTON ESTAVA TENDO UM SONHO SOMBRIO E VIOLENTO. com exceção dos corpos de crianças. Islington acordou. Havia quatro milhões de habitantes em Atlântida e. queimavam. não havia mais nada que indicasse a existência de uma cidade ali. de um lado a outro do horizonte. Nada restara de Atlântida. Tocou a mesa. em seu sonho. depois de um bom tempo. Ali havia prédios de centenas de metros de altura. como costumamos pairar num sonho. As ondas engoliram a cidade e. feita de sílex e prata escurecida. Islington olhava para baixo. mulheres e homens. morriam. flutuando nas frias ondas da manhã. Caía uma chuva torrencial e a cidade tremia. . O céu noturno estava repleto de relâmpagos brilhantes. mas eles ficavam diminutos perto das ondas cinzentas e esverdeadas do Atlântico. muito menos uma ilha com duas vezes o tamanho da Grécia. Estava de pé no meio do octógono formado pelos pilares de ferro. desafiando a tempestade. afogavam-se. corpos que as gaivotas brancas e cinzentas já começavam a bicar. Tocou a superfície lisa do sílex. Islington podia ouvir de modo claro e distinto todas aquelas vozes enquanto as pessoas. para tudo aquilo. Ondas gigantes se chocavam contra a cidade. O anjo ouviu as pessoas gritando. uma por uma. sentindo a frieza do metal. engasgavam. exatamente como fizera havia muito tempo. ao lado da grande porta negra. inchados pela água.

arrebentamos mandíbulas. do próprio anjo e das chamas das velas que o cercavam. Sem dúvida impressionante. cortamos línguas. indiferente. um porão. ficarei muitíssimo chateado. Que idéia maravilhosa. O senhor Croup foi até o telefone e o atendeu. então. — Residência de Croup e Vandemar. como se quisesse se assegurar de sua existência. convencer-se do presente. com o passar dos séculos. assassinatos secretos ou até mesmo um crime hediondo. começando na ponta de seus dedos e se alastrando até as bordas. Parou quando chegou à pequena lagoa de pedra. Concentrou-se por um instante e conseguiu ouvir um telefone tocar. quebramos narizes. Quanta originalidade. — Certo. — Senhor Croup — disse o anjo —. Se o senhor deixar que algo lhe aconteça. Arrancamos olhos. Mas só mesmo o senhor para contratar dois dos melhores que já existiram no mundo e lhes pedir que zelem pela segurança de uma mocinha. tremulou e se transformou — ele viu. Entendeu? . ajoelhando e tocando a água fria com os dedos. Quero que a moça chamada Door chegue com segurança até mim. eles estão com a chave. uma após a outra. senhor Croup. Pequenas ondulações apareceram na água. tocando as coisas. — É importante que ela esteja segura. E então caminhou pelas câmaras de seu salão. Percorreu os canais lisos que seus pés descalços tinham formado no chão. A maioria das pessoas ficaria satisfeita em contratar assassinos para realizar execuções. — Com segurança — repetiu o senhor Croup. O reflexo na água. em algum lugar distante.Correu o dedo de leve pelas paredes. Vamos zelar pela segurança dela. Nada deve machucá-la. Parecia bastante satisfeito consigo mesmo. degolamos.

com a mão na boca. desconfortável.. *** — O que ele disse? — Ele disse. — Lembra-se do marquês de Carabas? — Claro. — Que bom. senhor Croup. Proteja apenas a moça. senhor Vandemar. senhor. Olhou para a coisa ensangüentada pendurada acima deles e disse: — Melhor nos livrarmos do corpo.. Ele ficou em pé e retornou à sua câmara para esperar os visitantes que chegariam. — Sim. que temos toda a liberdade para fazer o que quisermos com o marquês.— Sim — respondeu Croup. — Isso inclui matá-lo de uma forma muito dolorosa? — perguntou Vandemar. perfeitamente andrógina. remexendo-se. sim. O anjo retirou sua mão da água. — Imagino que não há nenhuma proibição semelhante relacionada a ele. — Não mais. *** Uma das rodas da frente do carrinho de supermercado rangia e forçava-o para a esquerda. — Tem mais alguma coisa a dizer? — Sim. O reflexo mostrou apenas as chamas das velas e um anjo de uma beleza impressionante. Não quero mais ser repreendido. senhor Vandemar. — Croup tossiu. O senhor Vande- . Eu diria que inclui. então.

me queixar ou reclamar. em êxtase completo. meu nobre companheiro. — Você quer dizer matar? O senhor Croup sorriu. no momento estou muito alegre. mais ou menos certo de que não tinha pensado em nada parecido ao que dissera .. empurrou o carrinho com o corpo do marquês de Carabas. O senhor Vandemar virou o carrinho numa curva bastante difícil. E então. deve estar pensando: “Ah. o senhor Croup não parece estar muito bem. senhor Vandemar.mar achara o carrinho numa rotatória perto do hospital. já que agora temos permissão para fazer aquilo que fazemos melhor. Depois de atravessá-la. O carrinho fazia “qüi-qüi” e tentava virar para a esquerda. manejou o carrinho com o corpo do marquês para que também passasse por ela. No entanto. sem dúvida. sem dúvida quero dizer matar. você já deve ter percebido um “porém” à espreita. Uma pequena preocupação. por trás de minha aparência feliz. radiante e corajoso homem. é claro. Então. mas ele estava falando. jubilosa e falante. Devo insistir para que ele diga o que sente”. Feliz demais para me lamentar.. percebeu que tinha o tamanho ideal para transportar um cadáver. Ele queria que o senhor Croup empurrasse o carrinho de vez em quando. como um pedacinho de fígado cru incomodando dentro da minha bota. — Sabe. mas o sangue e outros fluidos poderiam sujá-lo. era forte o bastante para carregar o corpo. senhor Vandemar. O senhor Vandemar pensou nisso por um instante enquanto tentava abrir a porta de ferro redonda entre o canal de drenagem da chuva e o esgoto.. atravessando o canal de drenagem de chuva.. e ele só tinha um terno. — Sim. Na hora em que o viu. radiante. Ele. Você.

uma. o informasse a respeito do que me preocupa.. buscando a metáfora perfeita. Boiando na superfície havia ilhas de espuma de um branco cinzento. Existem outras épocas e lugares que sem dúvida apreciariam o trabalho de dois pares de mãos especializadas em degolar e cortar.. O senhor Vandemar parou de empurrar o carrinho. O senhor Croup ignorou o que ele disse e continuou: — E se eu. uma coisa velha.. em resposta às suas indagações. — Ah. respondeu: — Não. meu bom marquês. como se fosse uma. Depois. — Boa noite.. confessaria que minha alma está obcecada com a necessidade de esconder nossos talentos. sussurrando em seus ouvidos mortos: — Quanto mais cedo tudo isso terminar.o outro. Tinham alcançado um canal de água profunda e marrom. E não jogar o corpo fora. deixe pra lá — disse o senhor Croup. camisinhas usadas e alguns pedaços de papel higiênico. como passara a detestar o carrinho com todas as suas for- . e o corpo do marquês caiu mergulhando na água marrom. Não se esqueça de escrever pra gente. — Um rato? — sugeriu o senhor Vandemar. faziam as rodas do carrinho de supermercado. O senhor Croup se debruçou e pegou a cabeça do marquês pelos cabelos. — Um instrumento de tortura? Um baço? “Qüi-qüi”. Fez uma pausa. Ficou ereto de novo. O senhor Vandemar inclinou o carrinho. Deveríamos pendurar os tristes restos mortais do falecido marquês de Carabas na forca mais alta da Londres-de-Baixo. mais feliz vou ficar.

— Está bem. com ar professoral —. Ela deu de ombros. O senhor Croup segurou alto sua lamparina e ficou olhando para o lugar onde estavam. Caminhavam por um labirinto de cavernas. ele o empurrou no esgoto também. Eu compro uma corrente quando chegarmos ao próximo Mercado. Ele sorriu e explicou: — Eu estava pensando na cara do marquês quando . Ela fez uma careta para ele. — Qual é a graça? — perguntou Door. — É triste pensar que há pessoas andando nas ruas lá em cima que nunca poderão apreciar a beleza desses esgotos. dessas catedrais de tijolos vermelhos sob seus pés. não é mesmo — insistiu Richard. Richard riu. — Uma obra de arte — concordou o senhor Vandemar.ças. o funcionamento dos intestinos é algo de suma importância. *** Door amarrou a chave em volta do pescoço com um pedaço de barbante que achara em um dos bolsos de seu casaco de couro. Viraram as costas para a água marrom e voltaram pelos túneis. — Tanto no caso das cidades quanto no das pessoas. senhor Vandemar. — Isso aí não é muito seguro — disse Richard. e observou enquanto a correnteza o levava embora. — Olha. senhor Vandemar — disse o senhor Croup. túneis profundos de calcário que pareciam pré-históricos.

Seja lá qual for. Era algo provável. Você sabe? Hunter saiu das sombras. . no corredor. como quase tudo naquele mundo esquisito. Ficou imaginando que as pinturas deviam ter milhares de anos. — Não. ainda mais distante. onde vai ser o próximo Mercado? — Não tenho idéia. — Tenho certeza de que ele dirá algo irônico. como se fossem vistos muito raramente e à longa distância — aviões. no mesmo estilo de desenho. mas aí viraram uma esquina e ele viu que. carros e também — de qualidade bastante inferior em relação às outras imagens. mastodontes peludos e preguiças gigantes. Richard ficou pensando se seus autores pertenceriam a uma raça de pigmeus neandertais subterrâneos. Todos os desenhos tinham sido feitos próximos ao chão. Alguns instantes depois surgiram mais dois. Traços vermelhos. Hunter apontou para as pinturas. ocre e terra delineavam javalis atacando e gazelas em fuga.falarmos que pegamos a chave dos monges sem a ajuda dele. agora vamos voltar para o anjo. Pelo caminho “comprido e perigoso”. Richard ficou admirando as pinturas nas paredes das cavernas. Quando passaram. — Não roubei! Dessa vez era uma voz ainda mais aguda. como uma criancinha. em uma corrida desenfreada. — Me solta! Ela roubou o meu pincel! — É verdade. gatos domésticos. Ela roubou — confirmou uma voz mais ao longe. — E então. havia caminhões. Um pequeno vulto passou correndo por eles. — Ai! — gritou ele. Bom. Hunter fez um rápido movimento com a mão e segurou um menininho pela orelha.

Alguns deles — respondeu. Segurava-a longe do alcance do menino. *** . saiu correndo em busca de seu pincel. — Não são ruins — comentou Hunter. Hoje à noite. perplexo. Em seguida. confuso. sem olhar para trás. O menino a olhou com raiva. — Sim. Ele torceu o nariz.— Foi você que fez isso? O menino tinha aquela enorme arrogância que somente os maiores artistas e todos os meninos de 9 anos de idade têm. não estava nem um pouco impressionado. — Belfast. sem a menor sombra de dúvida. olhou para Hunter. — Onde vai ser o próximo Mercado Flutuante? — perguntou Door. — Você é a caçadora? Ela sorriu para ele. O menino fez um movimento rápido para frente e para trás com a mão. Olhou-a de cima a baixo e depois fez uma careta para indicar que ele. Ele não se mexeu. Hunter soltou a orelha do menino. e depois examinou a palma da mão. truculento. que a pegou do chão e. Espero que você consiga pegar de volta o seu pincel. Ela abriu a mão e revelou uma pequena e afiada navalha. Hunter. — Você é a melhor guarda-costas do Submundo? — É o que dizem. modesta. Parou. — Obrigada. Deixe-o ir. — Como é que você fez isso? — Dê o fora! Ela fechou a navalha e a jogou de volta para o menino. Ele contorceu o rosto.

no ano seguinte. Os milhares de quilômetros de esgotos construídos foram feitos com uma leve inclinação. fazendo o que ratos fazem quando não há ninguém por perto. o grande fedor: o próprio Tâmisa tinha se tornado um esgoto ao ar livre. amarravam panos encharcados de carbólico no rosto e tentavam não respirar pelo nariz. produziu um fenômeno chamado de Great Stink. no Mar do Norte. do sul para o norte). aliado a um verão bastante quente. Uma pequena fêmea marrom respondeu. O maior deles. cheirou o cabelo e a casaca. guinchou. viajando do oeste para o leste.O corpo do marquês de Carabas boiava. na água profunda do esgoto. Ratos. debruçou-se para ver o que era possível . com o rosto virado para baixo. viram o corpo passar. alcançavam o estuário do Tâmisa. indo para o leste. que transportava aquelas horríveis substâncias para o mar. As pessoas que podiam abandonar a cidade o fizeram. carcaças de animais e o conteúdo dos penicos para o Tâmisa. Era esse caminho que o corpo do falecido marquês de Carabas estava percorrendo. O Parlamento foi então forçado a adiantar seu recesso e. no sul do Tâmisa. até que em 1858 o enorme volume de dejetos produzido pelos habitantes e as indústrias. que ia do oeste para o leste e. na direção do nascer do sol e do maquinário do esgoto. Esse sistema funcionou mais ou menos bem por muitos anos. provou do sangue e. aquelas que ficaram. No começo. em algum lugar além de Greenwich. com cuidado. um macho preto. em uma bancada alta de tijolos. levando lixo. e então pulou da bancada nas costas do marquês. ordenou que se desse início a um programa de construção de esgotos. percorreu um pouco o esgoto sobre ele. os esgotos de Londres eram rios e riachos que fluíam do norte para o sul (e.

Richard mudou a abordagem. Ela pulou da cabeça do marquês na água imunda e nadou até a margem. — E como essa pessoa sabia? — Alguém falou para ela — explicou Door.enxergar do rosto. um sorriso travesso. Voltou correndo. — Mas. e. — Como aquele menino sabia onde vai ser? — Alguém disse para ele — respondeu Hunter. Uma bela voz feminina perguntou. tentando formular a pergunta de uma maneira que não parecesse idiota. *** — Belfast? — perguntou Richard. disse apenas: — Você vai ver. Usava jóias de prata e seus cabelos escuros estavam penteados de forma impecável. — Fez uma pausa e completou: — O Mercado é especial. vinda do escuro: — Psiu! Vocês sabem quando vai ser o próximo Mercado? A mulher saiu das sombras. e juntou-se a seus companheiros. Door sorriu. quando ele exigiu que ela explicasse. — Como você sabe se aquele menino estava dizendo a verdade sobre o Mercado? — Ninguém aqui embaixo mente sobre o Mercado... onde subiu pela parede de tijolos escorregadia. Tinha uma pele muito branca e seu vestido comprido . como a informação se espalhava. Ele ficou pensando sobre quem escolhia o local. sobre um cano. Acho que não conseguimos mentir sobre ele. Richard pensou por uns instantes.

não muito lisonjeiro. Richard soube de imediato que já a tinha visto antes. — Door? Você sabe? — Nunca pensei nisso. Ela tinha olhos belíssimos. quem decide o lugar e o dia? E como as primeiras pessoas ficam sabendo onde ele vai acontecer? Hunter encolheu os ombros. — Dormem aqui embaixo durante o dia e caminham no mundo de cima à noite. olhando para ele. Lá. — São perigosas? — Todo mundo é perigoso — respondeu Hunter. — E foi rápido. — Nada mau — observou. Door e Richard. também — disse Hunter. fora no último Mercado Flutuante — na Harrods. — Quem é ela? — perguntou Richard. meio tímida. Ela tocou a pintura sobre a parede de pedra com a ponta do dedo. Era um desenho. de Hunter.era feito de veludo bem escuro. — Olha. — Obrigada — agradeceu a mulher. mas levou alguns instantes para se lembrar: sim. pensou Richard. — Vejo vocês lá — disse ela. voltando ao assunto do Mercado. voltou para a escuridão e sumiu. Door ergueu sua lamparina. *** O rato negro entrou respeitoso no refúgio dos Dou- . E então desviou o olhar. olhos cor de púrpura. — Elas chamam a si mesmas de Veludos — contou Door. ela sorrira para ele. Viraram uma esquina. — Hoje à noite. Belfast — respondeu Hunter. A tinta ainda estava fresca.

guinchando. Então se deitou de costas com o pescoço exposto. que estava no topo da pilha de ossos. segundo pensavam os Dourados. Bom. um guincho vindo de cima o autorizou a ficar de barriga para baixo de novo. O rato negro fez uma mesura. do tamanho de um grande gato doméstico. da Restauração. fossem os donos daquele lugar. seguiu seu caminho. com olhos cor de cobre. depois do grande plano de construção de esgotos da era vitoriana. Um dos Dourados saiu do crânio do mamute. Depois de alguns instantes. ou da Regência. como se. Mas foi depois do Great Stink. lixo e resíduos e as hidrovias de Londres se transformavam em canos e passagens cobertas. Era um rato de pêlo dourado. O Dourado ficou pensativo por um momento e guinchou uma ordem. Caminhou adiante.rados. depois de se retorcer um pouco e voltar à posição normal. O rato negro falou. Essa gente crescia à medida que a população produzia mais sujeira. expondo o pescoço mais uma vez por alguns instantes. com a cabeça baixa e as orelhas para trás. fechou os olhos e esperou. de pé sobre a base da pilha de ossos. morando nos esgotos elisabetanos. E então. que o Povo . e percorreu a velha presa de marfim. que pertencera a um mamute na época gélida em que grandes e peludos animais caminhavam pela tundra coberta de neve do sul da Inglaterra. O rato negro rolou e ficou de barriga para cima. Os Dourados tinham feito seu refúgio em uma pilha de ossos. pelo menos aquele mamute em particular fora dissuadido dessa idéia de grandeza por eles. *** É claro que o Povo do Esgoto já existia antes do Great Stink.

Velhas lanternas pendiam do teto do túnel. um sapato. consistia em duas luvas de pares diferentes. Vestiam roupas marrons e verdes. um cocker spaniel morto. que existiam para o leste. Lá eles ficavam sentados com varas de pescar. na confluência da água agitada e cheia de espuma de vários túneis. Usavam cabelos compridos e embaraçados. No pouco contato que tinham com o mundo exterior. mas sua chama emitia uma luz verde-azulada. Dunnikin viu algo na água. Também não se sabia como eles se comunicavam. por sua vez. A pescaria do dia. com um único e experiente movimento. Eles eram encontrados em qualquer canto dos esgotos. empregavam um tipo de linguagem de sinais. um crânio de gato. um par de chifres de gazela em uma moldura de parede e a parte de baixo de um carrinho de bebê. Era o chefe do Povo do Esgoto. redes e anzóis improvisados. até aquele momento. . pescou um celular bastante destruído. mas faziam suas residências permanentes nas catacumbas de tijolos vermelhos. e tinham mais ou menos o cheiro de quem vive onde viviam. observando a superfície da água marrom. uma perna artificial. Nem os próprios construtores daquelas galerias as conheciam melhor do que ele. Dunnikin pegou uma grande rede de pescar camarão e. um maço de cigarros encharcado. Foi até a pequena pilha de lixo no canto e colocou o telefone lá.do Esgoto passou a existir de fato. Ninguém sabia o que eles utilizavam como combustível. semelhantes a igrejas. de aparência insalubre. o mais velho e sábio de todos. Os homens. de algo muito pior. as mulheres e as silenciosas criancinhas dos esgotos viviam num mundo em que os sons eram somente gorgolejos e goteiras. junto com o resto da tralha. cobertas de uma camada espessa de um bolor resultante de alguma substância petroquímica originária.

como ele costumava dizer aos pássaros. mas. ao ar livre. o feio e peculiar prédio da década de 1960 localizado na ponta leste da Oxford Street. Entrou de novo. Old Bailey entrou correndo na cabana e saiu de lá com suas armas — um espeto e uma pá de carvão. bem alto. Old Bailey não ligava muito para o Centre Point. Cobertores e lençóis tremulavam e agitavam-se ao vento no topo do Centre Point. levando-as para longe. não havia vista como a de lá de cima. Um grande rato preto saiu de um cano de ventilação. acima da estação Tottenham Court Road. para o ar que pairava sobre Londres. E à noite aconteceria o Mercado. — Deus do céu! — exclamou o velho. Depois correu de novo para dentro dela e retornou com alguns objetos úteis para trocas. mesmo porque o topo do Centre Point era um dos poucos lugares em West End dos quais não se enxergava o próprio Centre Point. Guinchou para ele. Como dizia aos pássaros. em tom de urgência. Então Dunnikin mantinha os olhos grudados na água. — Devagar. Subiu correndo a lateral da tenda e percorreu o varal de Old Bailey. O rato repetiu o que havia dito. olhou em volta e foi em direção à cabana cheia de pássaros.Não tinha sido um dia bom para pescar. devagar — pediu Old Bailey. Ele não se importou. Nunca se sabe o que é possível encontrar. pela última vez: a- . mas com o mesmo desespero. *** Old Bailey estava pendurando suas roupas para secar. havia mais penas no lugar de onde aquelas tinham saído. em um tom mais baixo. O vento arrancou penas do casaco de Old Bailey.

Eu conheci o seu tataravô. Dunnikin tinha o pressentimento de que ia ficar próspero e rico.. Eu já não sou tão jovem. — Quanto mais a gente tem pressa. O corpo do marquês de Carabas veio flutuando. mais se atrasa — respondeu Old Bailey. Old Bailey estava desamarrando a corda que dava voltas em sua cintura. Os pássaros não entram nas gaiolas sozinhos. — Bom. pois é assim que o Povo do Esgoto espera. em sua espreguiçadeira de plástico. seu ratinho insolente. — Eu não tenho tempo para essas bobagens — disse ao rato. há outras pessoas que podem pegar o corpo. sob a luz esverdeada e irregular das lanternas. *** Sentado no muro lateral do esgoto. redes e varas de pescar enquanto corriam. Podia sentir uma brisa que vinha na direção oeste-leste.. Juntaram-se ao longo da beirada escorregadia do esgoto. Dunnikin apontou e eles esperaram. Não gosto dos lugares lá de baixo. pegou a caixa prateada e a colocou no bolso. senhor ratinho. entende? O rato guinchou para ele. então não fique com esse ar de. onde vai ser o Mercado? O rato deu a informação. Bom. Bateu palmas bem alto. na direção deles. de . — Sou uma pessoa muito ocupada. E então Old Bailey o colocou em seu bolso e começou a descer pela lateral do prédio. mulheres e crianças vieram até ele.briu o baú de madeira. quando afinal saiu da cabana. em silêncio. Sou um homem que nasceu e cresceu no telhado. pegando anzóis. — Já vou indo. Outros homens. O rato fez um ruído mal-educado.

*** — Você tem certeza de que o marquês vai estar lá no Mercado? — perguntou Richard para Door.barriga para baixo. — Ele não vai nos decepcionar — disse ela. Puxaram-no da água com suas redes e anzóis. com a maior segurança que conseguia ter. a ficar íngreme. e logo ele estava deitado na beirada. como se fosse uma barca funerária. . Tiraram a casaca. a corrente o carregando de um jeito lento e pomposo. lentamente. em silêncio. — Tenho certeza de que ele vai estar lá. o relógio de ouro e tudo que havia nos bolsos. pelas águas do esgoto. as botas. quando o caminho começou. Dunnikin sorriu para os objetos saqueados. Agora eles realmente tinham algo de valor para vender. Bateu palmas mais uma vez e o Povo do Esgoto começou a se aprontar para o Mercado. mas deixaram o resto das roupas no corpo.

semelhante a uma coluna. ELE foi encomendado em 1939 e usado na Segunda Guerra Mundial. eles apareciam — os que caçavam barganhas. de alguma maneira. na área que é uma famosa foto de postal. não sentia mais necessidade de parar e ficar o- . O navio agora é um museu flutuante. memorial e campo de treinamento. como grande parte de Londres. unidas pela Trégua do Mercado e por um desejo mútuo de montá-las o mais longe que conseguissem da tenda do Povo do Esgoto. por Christopher Wren. Ele percebeu que. entre a Tower Bridge e a London Bridge. está atracado na margem sul do Tâmisa. Todas as tribos da Londres-de-Baixo armaram suas barracas o mais cedo possível. do lado oposto da Torre de Londres. Ninguém vinha direto para a barraca deles. dúzias. Paul’s Cathedral e o topo folheado a ouro do monumento ao Grande Incêndio de Londres. Entretanto. Dunnikin e seus companheiros despejaram seus espólios sobre um papel emborrachado. erigido. trios. Existe um caminho que vai do navio até a margem. formando uma enorme pilha de bugigangas debaixo de uma grande torre de canhão. os curiosos e os poucos abençoados pela ausência de olfato. Mais de um século antes fora feito um acordo: o Povo do Esgoto somente poderia montar uma barraca nos Mercados que acontecessem a céu aberto. Hunter e Door passaram em meio à multidão sobre o convés do navio. e as pessoas vinham por ele em duplas. mais para o fim do Mercado. Richard.CATORZE O HMS BELFAST É UM NAVIO DE GUERRA DE ONZE MIL TONELADAS. Desde então. De seu convés é possível ver a St.

antes que Richard pudesse dizer alguma coisa. parou de bater no pedaço de metal derretido e exclamou. lembrando-se do pedaço de metal que esfriava na bigorna. Eu queria mesmo encontrar você. Hammersmith. E então. certo? Olhou em volta. minha senhora — disse ele. — Nunca é bom perder o Mercado. Richard nunca tinha visto uma bigorna de verdade antes. — Quem é vivo sempre aparece. olhando para trás. buscando o sorriso irônico do marquês. com voz retumbante: — Pelo Templo e o Arco! Lady Door! E a ergueu no ar. . Podia sentir o calor do pedaço de metal e do braseiro a uns quatro metros de distância. onde um homem que podia facilmente ser confundindo com uma pequena montanha caso não se percebesse a barba castanha descuidada. Aproximaram-se da barraca de um ferreiro. supôs. alegre. transferia um pedaço de metal incandescente de um braseiro para uma bigorna. De Carabas vai aparecer — disse Door.lhando para tudo. examinando os rostos da multidão. — Continue procurando. As pessoas ali não eram menos estranhas do que aquelas que estiveram no último Mercado Flutuante. ela deu um gritinho: — Hammersmith! O homem-montanha barbudo olhou para cima. — Não o vejo em lugar nenhum — disse. ele também devia ser esquisito para elas. Espere só um momentinho — pediu. com sua voz de trovão. — Olá. como se ela tivesse o peso de um ratinho. mas. — É aqui que estão os bons negócios.

O gordo ficou muito satisfeito e deu a Hammersmith uma sacola de plástico verde da Marks and Spencer cheia de diversos tipos de queijo. ali do lado. arrumar o cabelo. o metal passava de uma bolota alaranjada a uma perfeita rosa negra. em um bom chute. retorcendo-o com um instrumento que Richard. quero te apresentar meus amigos — disse Door. — Muito prazer — cumprimentou. tivera diversos problemas com isso e praticara até alcançar a perfeição. Hammersmith mergulhou a rosa em um balde cheio de água fria que estava do lado da bigorna — a peça incandescente sibilou na água. que era muito maior. Hammersmith parecia maravilhado. paciente. a caçadora? Hunter? Pelas barbas do profeta! É ela mesmo! Hammersmith corou feito um menino. — Meu nome é Richard. Com os golpes. desajeitado. Cuspiu na mão e tentou. Hammersmith envolveu a mão de Richard com a sua. virou-se para Hunter e disse: — E você é.Ele colocou Door sentada no ponto mais alto de sua barraca. Soltou a mão dele. Seu aperto era entusiasmado mas muito suave. Bateu no pedaço de metal com seu martelo. Estendeu a . empoleirada na tenda. Ele tirou a rosa do balde. enxugou-a e entregou para um homem gordo vestindo cota de malha que estava esperando. — Richard! Que belo nome! Eu tive um cavalo chamado Richard. Era um trabalho de delicadeza assombrosa. com sua voz ressoante. no nível de seus olhos. no passado. cada pétala distinta e bem delineada. como se ele.. — Hammersmith. uns dois metros acima do chão do convés. supôs ser um alicate.. criando vapor.

— Bom. dirigindo-se a Door. Ficarei ao seu lado — disse Hunter para a menina. — E se alguém quebrar a Trégua? . Ninguém pode me tocar. sem graça. — Para ele? — Sim. Partiria e traria comida. — Hammersmith — pediu Door. — Você me ajuda a descer? Hammersmith pareceu envergonhado. tenho uma tarefa para você. Pareceu a Richard que Hammersmith conhecia Door desde quando ela era uma criança. A Trégua do Mercado ainda vale. com seu sorriso de caramelo perfeito. — Hammersmith — disse Hunter. Richard se sentiu estranhamente orgulhoso. Ele tinha demonstrado seu valor com a provação. Hunter...mão e se deu conta de que tinha acabado de cuspir nela. Mas antes. o que posso fazer por vocês? — perguntou Hammersmith. Para vocês dois. — Ah. Door virou-se para Richard. O peito de Richard desinflou. tirando-a de lá. minha senhora — desculpou-se. e então. — Algumas coisas. e ele percebeu que morria de inveja do grandalhão. — Não há problema aqui. mas ninguém percebeu. Agora ele era um deles. — Sou sua guarda-costas. Door sorriu. Hunter ergueu uma sobrancelha. — Richard. então a limpou em seu avental de couro e ficou remexendo-se. Você pode pegar comida pra gente? Por favor. me perdoe. E Richard precisa mais de proteção do que eu. Seus olhos cintilaram. Estufou o peito.

depois de uma pausa. Podem ir. — E o que acontece se alguém quebrar a Trégua? — perguntou ele enquanto tentavam passar pela multidão. E paparis também. foi há uns trezentos anos. na direção das barracas de comida e dos aromas mais agradáveis. e depois fugiu. Vocês dois. — Argh! Mas que cheiro é esse? — Do Povo do Esgoto. Ele bem que queria ter morrido no lugar do outro. Hunter passou a mão no cabelo. Richard virou a cabeça e tentou não respirar pelo nariz até que estivessem bem longe da tenda do Povo do Esgoto. Ela estava a pouca distância dele. *** . Dois amigos brigaram por causa de uma mulher no Mercado. Subiram uma prancha. — O que aconteceu com ele? Alguém o matou? Hunter balançou a cabeça em negação. — Quebrar a Trégua do Mercado? Brrrrr! — Não vai acontecer. Richard pensou que fosse vomitar. — Da última vez que isso aconteceu. Richard a acompanhou. Então se virou e caminhou na direção da multidão. Algo com curry. Passados alguns instantes. por favor. — Algum sinal do marquês? — perguntou. — Ele ainda está vivo? — Mais ou menos — respondeu. Hunter fez que não. apesar do calor do braseiro. Bem apimentados. Um puxou uma faca e matou o outro. — Pelo contrário.Hammersmith estremeceu. Hunter pensou alguns instantes.

balançando a cabeça de maneira negativa e veemente para cada um deles. Old Bailey pôs o desodorante de volta no bolso. Depois fez um gesto. sem sangue por causa dos inúmeros cortes. Entregou-o a Dunnikin. Coçou o nariz. Colocou os óculos e o avaliou. O corpo tinha uma cor acinzentada. que olhou para ela. parecendo bastante infeliz. O Povo do Esgoto. gasto pela metade. inchado em alguns lugares. a perna artificial. mas que se via obrigado a se contentar com o que eles tinham.Old Bailey não teve dificuldade para encontrar o Povo do Esgoto: teve apenas que seguir seu olfato. esperando dar a vaga impressão de ser um homem que precisava de um cadáver e estava decepcionado com a variedade disponível. Sabia o que precisava fazer e divertiu-se um pouco fazendo um certo teatro. Concordou com um movimento de cabeça. Olhou de novo para o cadáver. seminu. Old Bailey colocou a mão no bolso e tirou de lá um desodorante em bastão. Examinou com ostensão o cocker spaniel morto. Dunnikin abriu os braços. que sabia reconhecer um vidro de Chanel No 5. ainda úmido da viagem pelo esgoto. Colocou uma mão na testa e depois a baixou. meio triste. e apontou para o cadáver. Ele tirou então do bolso uma garrafa com uns três quartos de um líquido amarelo e a entregou para Dunnikin. para dar a impressão de quão trágico era perder um cadáver tão maravilhoso. o celular úmido e cheio de fungo. lambeu o bastão e o devolveu. que fez uma careta. chamando Dunnikin. lembrava uma uva-passa de tão enrugada. desconfiado. Então fez questão de notar o corpo do marquês. e a pele. indiferente. amontoou-se . sorriu triunfante e olhou para o céu. descalço. após a longa permanência na água. como se abençoado por ter os restos mortais do marquês.

— Ah. Aproximou-se de Old Bailey para abraçá-lo e concluir a negociação. pediu que um dos jovens amarrasse o corpo na parte inferior de um carrinho de bebê. Com cuidado e um ar de alguém que se dá muito valor.. sorrindo. então.em volta do chefe. pensativo. Hã.. mas também uma generosidade tola e desnecessária que sem dúvida faria com que ele e o resto do Povo do Esgoto um dia fossem parar em um albergue. morto ou não.. — Ah.. . é de carne do quê? Ela respondeu. Dunnikin enfiou o dedo no nariz. Então assentiu. o marquês de Carabas era pesado. Dunnikin desenroscou a tampa do frasco e colocou uma pequena gota em seu pulso. com seu vestido preto e olhos violeta. e então. — Olá de novo — disse uma bela voz a seu lado. Era a mulher pálida que haviam encontrado nas cavernas. O de carne.. — Olá — cumprimentou Richard. Vou ficar só com o vegetariano. com uma seriedade de fazer inveja ao melhor parfumier parisiense. *** — Um curry vegetariano. E. entusiasmado.. Old Bailey ergueu um dedo e tentou da melhor forma possível fazer sinais para dizer que ele já não era tão jovem e que. por favor — disse Richard para a mulher da barraquinha. atravessando o convés lotado. — E.. eu queria saber. tá. O velho virou o rosto e prendeu a respiração até que Dunnikin o largasse. hã. observando. O velho habitante dos telhados cobriu o corpo com um pano e o empurrou para longe do Povo do Esgoto. cheirou-o.. com um gesto indicando não apenas magnanimidade.

Conheço cada centímetro do Submundo. — Ve-lu-do — corrigiu ela. essa é a Lamia. no maior estilo Bela Lugosi: — Eu não como. Richard Mayhew. — Ela é uma guia. surgiu bem perto de Lamia e disse: — Ele não é seu. Existem muitas Veludos? — Algumas.. E então ela riu.. tudo parecia muito frio. curry.. no outono. generosa. Hunter. Eu sou Richard.. — Está na hora de voltarmos. veio aqui comer curry? Ela fixou seus olhos violeta nele e disse.. Estendeu a mão. — O que você faz? — Quando não estou procurando comida — respondeu ela. — Hunter. sou uma guia. que Richard podia jurar que estava do outro lado da barraquinha. isso sou eu quem decide. com voz gentil. por favor. Ela é uma Velcro. Você.. se a gente está indo encontrar vo- . mas. Seus dedos eram muito frios.. — Bom. Sou uma Veludo.. Richard pegou as embalagens de curry vegetariano. — Hã.. — Ah. e Richard percebeu que há muito tempo não ria com uma mulher. em um navio parado no Tâmisa. Hunter pegou a sacola com a comida das mãos de Richard. É. — Ah. — Posso levar vocês para onde quiserem. hã. com um sorriso —. A mulher tocou nela de um jeito que lembrava um aperto de mão. Certo. tarde da noite. — Eu sou Lamia. Lamia sorriu com doçura. uma risada deliciosa.e paparis..

as crianças de Londres arrastavam. ele teria encerrado o assunto.cê-sabe-o-quê. Aquilo era um dos últimos vestígios da Muralha de Londres. Não era um telhado. cercava a pequena cidade por completo. ao lado de um grande muro cinzento. no começo de novembro. a Noite das Fogueiras. era. uma das efígies que. Puxou o cadáver pela Tower Bridge e. Mas aquilo era passado. — Algum sinal do marquês? — Ainda não.C. Se ela o tivesse olhado daquele jeito no dia anterior. a pedido de sua mãe. levou-o morro acima. Naquele tempo. na direção da estação Tower Hill.. a Muralha de Londres. Helena. passando pela Torre de Londres. talvez ela possa ajudar. exibindo para as pessoas na rua. antes de jogá-las para sua morte final nas fogueiras de 5 de novembro. Londres era um dos poucos centros importantes do Império que ainda não tinha uma suntuosa muralha. fora construída por ordem do imperador romano Constantino o Grande. Com cerca de dez metros de altura e quase três de largura. queixando-se e resmungando. Hunter não disse nada. mas servia. Ela não tinha mais a mesma altura — o chão fora erguido depois (grande parte da Muralha de Londres origi- . Quando ficou pronta. pensou Old Bailey. no terceiro século d. apenas olhou para Richard. — Vamos consultar Door — disse Richard. De acordo com a tradição. mas parou um pouco antes dela. Foi para oeste. sem sombra de dúvida. *** Old Bailey desceu pela prancha de desembarque com o corpo amarrado à base do carrinho de bebê — parecia um Guy Fawkes horripilante.

— Ficaria feliz em jamais cheirar alguma coisa de novo — disse Old Bailey para o rato. retirou o espeto. pegou o espeto e abriu a tampa da caixa. de dentro do casaco. O ratinho olhou em volta. A ave chilreou alguma obscenidade rouxinólica e melodiosa para ele e voou. Desamarrou o cadáver das rodas do carrinho e o deitou de costas com cuidado. O ratinho guinchou para ele e fez gestos com suas patinhas da frente. resmungando e praguejando. e então. — Por que foi provocar a morte? A lua brilhava. examinou o corpo do marquês e gorjeou com doçura. Sem dúvida estava bem morto. Ele tinha ferimentos que ainda estavam supurando. os braços ao longo do corpo. Amarrou um pedaço de corda no carrinho de bebê e escalou o muro. sobre as pedras da Muralha de Londres. pegou a caixa prateada de seu bolso e. ergueu de Carabas até o seu topo. Mas mesmo assim era um pedaço de muro que impressionava. Old Bailey fez um movimento de cabeça. e constelações de outono pontuavam o céu negro e azulado como uma poeira de diamantes. desaparecendo na noite. mostrando um grande pedaço de sua língua malhada. — Seu tonto — sussurrou Old Bailey. sonolento. Colocou-o próximo a seus pés. e então bocejou. Old Bailey tirou o rato preto que estava dormindo em seu bolso. Com cuidado. — E você com isso? — ralhou Old Bailey. pequena e alta na noite fria. Um rouxinol voou até o muro. — Pássaros também não têm cheiro de rosas. . satisfeito. com voz triste. Colocou a caixa prateada sobre o peito do marquês e então. Old Bailey suspirou.nal ficou uns cinco metros abaixo do nível do solo) — nem cercava mais a cidade. nervoso.

. havia um grande ovo de pata. Era um vento muito forte. Old Bailey ergueu o espeto. um turbilhão repentino. o silêncio que se seguiu foi. tão intenso quanto o vento.. Os donos das barraquinhas sobre o Belfast praguejavam. páginas de jornal e todos os detritos da cidade subiram do chão. . na água.ele cessou. no que restava da Muralha de Londres. que à luz da lua ganhava uma coloração azul pálida. Você tem . Folhas secas.. numa voz áspera que era pouco mais do que um sussurro rouco: — Acho que cortaram minha garganta. Mas uma tosse o interrompeu. e o som de alguém vomitando. uma tosse horrível. Ouviu-se um ruído quando ele se quebrou. fechou os olhos e o fincou no ovo. Nada aconteceu por vários segundos. sobre um ninho de veludo vermelho. na estrada. Então o vento começou a soprar. mas parecia estar vindo de todos os lugares. Depois se ouviu o barulho de algo rolando de forma desajeitada.. e carregar todas as pessoas pelo ar como se fossem folhas secas de outono.Dentro dela. manchando as pedras cinzentas com algo repugnante e marrom.. Passou-se um bom tempo até que ele eliminasse toda aquela sujeira de seu corpo. e as folhas. Não tinha direção definida. ameaçador. O marquês de Carabas vomitou a água do esgoto na lateral da Muralha de Londres. Foi aí que. de certa forma. úmida. Quando parecia que o vento ia ficar tão forte que seria capaz de levar o mundo inteiro e as estrelas consigo. E então ele disse.. segurando seus pertences para que eles não saíssem voando. Lá em cima. os papéis e as sacolas plásticas caíram no chão. O vento tocou a superfície do Tâmisa e carregou a água fria para o céu em gotículas minúsculas.

Ele diria aos Dourados que todos os favores e as dívidas haviam sido devidamente pagos. terminando com uma tosse fraca. — As pessoas sempre te dizem mais coisas quando sabem que você vai morrer logo. sim. Old Bailey se lembrou. Grande parte. O marquês sentou. — Ah. — Então você descobriu o que queria? O marquês tocou com os dedos os ferimentos em seus braços e pernas. O rato preto. Old Bailey puxou seu cantil e desenroscou a tampa. começou a descer o muro para ir embora. E depois elas falam perto de você quando você já morreu. usados na época da Regência. que virou a garrafinha de uma vez e depois fez uma careta de dor. De Carabas devolveu o cantil para Old Bailey. . que o enrolou algumas vezes em volta do pescoço e depois fez um nó apertado. — Eu só queria saber por que você se deixou matar desse jeito. Seu nariz estava escorrendo e seus olhos não paravam quietos: observava o mundo como se nunca o tivesse visto antes.algo aí para costurar? Old Bailey procurou em seus bolsos e encontrou um pedaço de pano encardido. Tenho mais do que uma vaga idéia do que está acontecendo. — Para conseguir informações — sussurrou de Carabas. tremendo. — Como você está? — Já estive melhor. sem nenhum motivo. que tinha observado tudo com interesse. passando-o para o marquês. Passou-o para o marquês. dos colarinhos no estilo de Beau Brummel. — Você tem alguma coisa para beber? — perguntou de Carabas com voz rouca.

O marquês de Carabas olhou para ele — seus olhos pareciam muito brancos à luz do luar — e sussurrou: — Você quer saber como é estar morto? É muito frio. peça logo”. — Seu canalha.. Depois de tudo que eu fiz para te trazer de volta daquele lugar horrível de onde ninguém volta. — murmurou. e você vai descobrir. *** Door ergueu a corrente. — O que você gostaria de receber em troca? O ferreiro parecia constrangido. respondeu: — Viva o bastante. Ela sorriu. — E como é estar morto? De Carabas suspirou. para frente e para trás. — Ah. minha senhora.. Hammersmith. Bom. in- . e parecia vermelha e laranja à luz do braseiro de Hammersmith. voltando um pouco a sua atitude costumeira. meu amigo. — Obrigado. Ela pôs a corrente em volta do pescoço e escondeu a chave no meio das suas camadas de roupa. e se embalou. não quero abusar da sua boa vontade. Ele se debruçou e pegou uma caixa preta que estava sob uma pilha de ferramentas de trabalho. — Bom trabalho. de onde ninguém costuma voltar. A chave prateada estava nela. Door fez sua cara de “ande.Então fechou os olhos mais uma vez. Muito escuro e muito frio. colocou os braços ao redor de si. Era feita de madeira escura. Depois retorceu os lábios em um sorriso e. devagar. O velho parecia desapontado. Old Bailey.

— Os olhos dele são bonitos. Ele a revirou várias vezes. respeitoso. Pegou a caixa e escancarou a portinhola. Hammersmith. Vai te trazer sorte. — É uma daquelas caixas secretas. Ele a puxou. Hammersmith parecia desolado. Hammersmith pareceu chateado.crustada de marfim e madrepérola. Ouviu-se um barulho metálico de dentro da caixa e uma porta se abriu na lateral. com ar muito sério. — Pode confiar em mim. indiferente. encontrando uma gaveta. . Sei que posso contar com a sua discrição. Ela a empurrou até a metade e depois girou. E obrigada mais uma vez. — Pronto — disse Door. minha senhora — disse Hammersmith. — Ah. Completamente colado. — Então nunca vou descobrir o que tem dentro. Não consigo abri-la. O mecanismo está todo emperrado. olhou ao redor com seus olhos cor de cobre. — Ah. minha senhora! — exclamou Hammersmith. Door fez uma cara de quem achava aquilo divertido. Ganhei por ter feito uns serviços há alguns anos. Havia uma alavanca na lateral. Seus dedos exploraram a superfície da caixa. Door esticou a mão e acariciou a cabeça do sapo. Door a pegou e percorreu os dedos pela superfície lisa. eu esperava que fossem pedras preciosas. do tamanho de um dicionário grande. Fique com ele. — Não me admira que você não tenha conseguido abri-la. por mais que tente. O pequeno sapo que estava no compartimento coaxou e.

desajeitado. — Lá. satisfeita. como se quisesse ver se eles o obedeceriam. falou com uma voz rouca e talvez um pouco triste: — Acho que estou te devendo um favor. Old Bailey desceu devagar o que restava do carrinho de bebê até o chão. O velho apontou para o navio de guerra.*** Sentaram-se na Muralha de Londres. ansiosa. — Obrigada — disse. Eles estão me esperando. antes disso. Ela até lhe deu um tapinha no bumbum antes de pegar a sacola de suas mãos e abri-la. — Algum sinal do marquês? — Nenhum — respondeu Hunter. a descer pela lateral da parede. De Carabas tossiu uma tosse dolorosa. estalou os dedos devagar. — Você não está em condições de ir a lugar nenhum. Examinou as próprias mãos. Caminhar um pouquinho mais não vai fazer diferença — sussurrou o marquês. . Apanhou o curry vegetariano e começou a comer. com a boca cheia. — Eu fiz uma grande viagem hoje. *** Quando Richard voltou com a comida. E então remexeu todo o corpo e começou. — Onde está o Mercado? — perguntou o marquês. Old Bailey. sem falar nada. Door correu para ele e o abraçou forte. Old Bailey teve a impressão de que ainda havia bastante água do esgoto nos pulmões dele. — Door e os outros. Mas.

— Você sabe onde fica? — Na Down Street. — Qualquer lugar? — perguntou Door. Mas então disse: — Nós não precisamos de guia. Temos que entregar. — Bom. Mas não é seguro. empolgada.. acho que precisamos. indiferente. Não . Door inclinou a cabeça: — Você sabe onde fica o Anjo Islington? Lamia piscou devagar.. — Islington? Vocês não podem ir lá. Ela é uma guia. — Nós ficaremos bem. — Conseguiu? — perguntou Richard.— E Croup e Vandemar? — Não. Hunter observava a conversa de braços cruzados.. O marquês não está por aqui. Richard. — O curry está muito bom. E aí ele poderá contar para Door o que ela quer saber sobre a família dela.. só nós três. — Qualquer lugar — confirmou Lamia. e deixou-a cair de novo. olhando para Hunter. Door limpou o restinho do curry de sua tigela com os dedos e os lambeu. o peso da chave fazendo com que ela sumisse. para o anjo. Door pegou a corrente no pescoço. esta é Lamia. Disse que pode nos levar para qualquer lugar no Submundo. e vai me dizer como faço para ir para casa. — Door. o suficiente para mostrar que ela estava ali. E vai ser uma viagem perigosa. seus longos cílios cobrindo e revelando seus olhos cor de violeta. sim. a coisa que eu peguei. — Ele pode até te dar um cérebro e me dar um coração — disse Lamia.. Uma delícia.. No fim da Down Street. ainda comendo.

— Ele vai me pagar. não é? Lamia sorriu com seus lábios cor de ameixa. Door balançou a cabeça. — Sim. Lamia pareceu ressentida. Door suspirou: — Então vamos.temos como pagar uma guia. — Você sabe qual é o caminho para Islington? Hunter fez que não. pela primeira vez. — Isso é algo que eu deixo pra imaginação dele — respondeu a moça. Richard riu. eu estar descobrindo coisas. — Acho melhor não. Richard virou-se para Hunter. . eles já tinham ido embora. fazendo o que me mandam. — Não. com um sorriso doce. Quando o marquês chegou ao Mercado. — Isso só porque te incomoda o fato de. Down Street. em vez de só seguir você cegamente. minha senhora. sarcástico. não é isso. não vocês. — E que tipo de pagamento gente do seu tipo exige? — perguntou Hunter.

Resolveu tocar a campainha. BATA. POR FAVOR. — Pois não? Richard pensou que já o tinham mandado se foder com muito mais bom humor e entusiasmo que aquele su- . Richard bateu mais uma vez. Um criado sonolento abriu a porta. Olhou para aquelas pessoas à porta com uma expressão que indicava que não valia a pena levantar da cama por eles.QUINZE SAÍRAM DO NAVIO PELA RAMPA E FORAM PARA TERRA FIRME. mais embaixo: DOWN STREET. — A gente chega à rua passando por dentro da casa? — perguntou Richard. e depois subiram de novo. Levou-os para uma pequena alameda. Havia uma placa de latão sobre ela com os dizeres: SOCIEDADE REAL PARA PREVENÇÃO DE CRUELDADE ÀS CASAS E. e um uniforme escarlate. DESCERAM alguns degraus para uma longa passagem subterrânea. tremendo por causa do ar frio da manhã. coberta por teias de aranha. Esperaram. — Não — respondeu Lamia. Pararam em frente à porta. Lâmpadas de gás nas paredes produziam um brilho irregular. — A rua fica dentro da casa. confiante. empoada e torta. Nada aconteceu. à frente deles. Lamia andava a passos largos. Ele usava uma peruca branca. Richard bateu na porta. — A terceira porta adiante — disse ela.

Havia uma pequena fileira de botões pretos na parede do elevador. e o elevador começou a descer de forma lenta e ruidosa. O criado lhes virou as costas. Hunter tinha um cheiro de suor. lírios e almíscar. Lamia apertou o de baixo. menos imponente. Os outros a seguiram. por favor. coberta com sacos de batata marrom esfarrapados e. desceram uma escada de madeira velha. e Lamia tinha um cheiro embriagante de madressilva. — Down Street — ordenou Lamia. Richard estava su- . Ouviu-se o barulho de um motor. No fim de todas essas escadas havia um elevador de serviço antigo com uma placa: EM MANUTENÇÃO O criado ignorou a placa e abriu a porta externa de arame. — Por aqui — disse o criado. A porta de treliça se fechou automaticamente com um estrondo. Desceram outra escada. Os quatro estavam apertados naquela caixa. e entrou no elevador. Lamia agradeceu. sem tapete nenhum. O elevador continuou a descer. fazendo um ruído metálico. Então esperaram até que o criado acendesse todas as velas dos candelabros. segurando os candelabros. Através da tela de arame. Desceram uma escada bastante comum. Richard percebeu que podia sentir o cheiro de cada uma daquelas mulheres: Door cheirava basicamente a curry.jeito se oferecia para ajudar. — Mas limpem os pés. finalmente. com um suspiro. educada. Desceram uma escada imponente. Atravessaram um salão majestoso. de um jeito que o fazia pensar nos grandes felinos enjaulados no zoológico. não desagradável. Richard o observou voltar pela escada de madeira. com um tapete luxuoso nos degraus. com um tapete menos luxuoso.

no topo de alguma coisa que lhe lembrava uma pintura que vira certa vez. disse: — Agora seria uma péssima hora para alguém descobrir que é claustrofóbico. e parou. Richard olhou para fora do elevador. Não havia nada além de uma prancha de madeira entre ele e o chão de pedra. A longa prancha ligava o peitoril onde eles estavam ao topo do caminho rochoso. olhou em volta. Era ali. E então. Observe. de catraca. no alto daquele grande buraco. centenas de metros abaixo. mas sem convencer muito — que não seria uma boa hora para dizer que odeio altura. Era um enorme fosso. — Ou era da última vez em que eu estive aqui. que descia em espiral. E continuaram a descer. Nas paredes. ali. distante uns seis metros. Mas.ando frio. olhou para baixo. que se encontrava o elevador. . e deu um passo adiante. tentando parecer indiferente. uns oitocentos metros acima do chão. com um caminho talhado em pedra nas laterais. Finalmente. — Então não vou descobrir. o elevador sacudiu. bem abaixo deles. e sentia suas unhas cravadas nas palmas das mãos fechadas. fez um barulho metálico. havia pequenas fogueiras. que balançou um pouco. Richard respirou fundo e seguiu os outros até o peitoril. — É seguro — disse Lamia. luzes dispersas produziam um brilho fraco. No tom mais casual possível que conseguiu. a Torre de Babel estava de cabeça para baixo e do avesso ao mesmo tempo. Hunter puxou a porta. embora soubesse que era uma péssima idéia. todo ornamentado. e longe. ficando em cima de um peitoril estreito. não? — Sim — respondeu Door. — E eu imagino — disse Richard. Eles estavam suspensos no ar. uma ilustração da Torre de Babel.

o que o deixou tentando equilibrar-se na plataforma estreita de madeira. e em gritar. Não parecia estar gostando daquilo. A porta do elevador se fechou atrás dele. Tudo bem. — Richard! Anda! — gritou Door. no volume máximo que sua voz interior conseguia. e ele se viu de quatro sobre a prancha. “eu não quero morrer!”. que ficou lá parado. mas atravessou mesmo assim. Richard concordou e engoliu em seco. Ele percebeu. Door atravessou. Poderia ter feito aquilo equilibrando uns dez livros na cabeça. virou-se e deu um sorriso encorajador. alguém apertou um botão: Richard ouviu um ruído metálico e o barulho distante de um motor elétrico. no entanto. Richard saiu da plataforma que balançava e foi para a prancha de madeira. — Está tudo bem — assegurou. O elevador começou a subir. parou. virou-se e esperou ao lado dela na beirada. apenas um pouco mais larga do que a própria prancha. — Viu? — disse Door. e só se ouvia o farfalhar de seu vestido de veludo negro. agarrando-a como se fosse morrer.Ela caminhou pela prancha. Richard fechou bem os olhos. Ela esticou a mão e apertou o braço de Richard. Havia uma pequena parte racional de sua mente que estava pensando no elevador: quem foi que o chamou? E por quê? O resto dela. As três mulheres esperavam por Richard. Suas pernas viraram gelatina. apesar das ordens de “andem!” que enviava para suas pernas. longe deles. cer- . sem derrubar nenhum. que não caminhava sobre a prancha de madeira. Hunter atravessou. Quando chegou ao caminho de pedra no outro lado. depois de algum tempo. estava preocupada em dizer a todos os seus membros que agarrassem a prancha bem forte. Lá em cima.

Mas ele sabia que estava mentindo. Richard — dizia a voz... — Vá para a frente. sabendo que não havia nada que pudesse fazer para se salvar. em uma voz calma e confiante. — Eu não tenho medo de cair — disse a si mesmo. Seus dedos cor de caramelo acariciaram os dedos . disse em seu ouvido: — Richard? — Hum.to de que. cairia. Vocês duas. Vamos. E então a prancha começou a balançar. — Você passou por coisa pior para conseguir a chave — lembrou a voz. obstinado.. — sussurrou. Aos poucos... Sentia a madeira pressionada contra o rosto. Ele se segurava à madeira. Hunter gritou: — Eu não sei quanto a prancha agüenta. Era a queda que ele temia — tinha medo de debater-se. — Apenas caminhe pela prancha. Richard. Era a voz de Door. de olhos fechados. E então Hunter. Um pouquinho de cada vez.. batendo os dentes. — Não.. na direção de Richard. que não havia nenhum milagre que pudesse tirá-lo dali. o rosto colado na prancha. foi percebendo que alguém falava com ele. consigo. soltaria a prancha e cairia. A prancha vibrou enquanto alguém andava sobre ela. — Quero ir pra casa... — Eu tenho medo é da parte em que eu paro de cair. de desabar indefeso pelo ar até o chão de pedra lá embaixo. fiquem aqui para fazer contrapeso.. — Eu não sou muito bom com altura — enfatizou ele. se os abrisse e visse a parede de pedra abaixo de si.

quando. — Estou a salvo — disse. — Para baixo — respondeu Lamia. Congelou de novo. seguida de perto por Door. — Você está indo bem. — Tudo bem. E então disse. Não conseguia pensar em nada para dizer a Hunter que pudesse dar conta da gratidão que sentia pelo que ela acabara de fazer. ela fez com que ele se arrastasse ao longo da prancha. — Obrigado — agradeceu Richard. E de centímetro em centímetro. ele parou. — E então? Para onde vamos agora? — perguntou Richard. — Obrigado — repetiu. e o colocou no chão firme. Está ótimo. — Qual é a graça? — quis saber Door. que descia cada vez mais mundo adentro. Richard caminhava ao lado de Lamia. Hunter liderava o grupo. agora. Richard olhou para aquela estrada em espiral. respirando o aroma de lírio e madressilva que ela exalava. Ele respirou fundo e se arrastou uns dois centímetros. Door olhou para ele. olhou para Hunter. para todas elas: — Me desculpem. enfim. pegou-o. Door ficou olhando para ele e também sorriu. Até que. feliz com sua companhia. encaixando as mãos sob seus braços. Você está a salvo.brancos de Richard. que seguravam a prancha com firmeza. Door e Lamia. de pouquinho em pouquinho. — Vamos. e desatou a rir até chorar. Vamos. Começaram a descer a Down Street. simplesmente. — Obrigado por ter vindo com a gente — disse Ri- . depois de um bom tempo.

Richard disse: — Acho que elas estão mais adiantadas que nós. Algumas até podem ser verdadeiras. — Você precisa me contar essas histórias. Obrigada por terem me deixado vir com vocês. mais ainda. perder-se em um enroscar de . Ela fixou nele seu olhar púrpura. ao voltar para casa a pé depois do cinema. — Havia uma moça falante de ratês chamada Anaesthesia. E aí ela foi raptada. O hálito dela não tinha vapor. então. Talvez seja bom a gente se apressar. — Depois a gente alcança. — Por ser nossa guia. de quando. — E por que traria? — Você sabe quem são os falantes de ratês? — Claro. Estava frio. Espero que isso não te traga azar nem nada do tipo. Door e Hunter fizeram a curva que havia à frente e saíram de vista. pensou ele: a mesma sensação de quando ia ao cinema com uma garota na adolescência tomava conta dele agora. Ele via o vapor de seu próprio hálito no ar gelado. doce. Bem. dar um amasso apressado.. nós meio que ficamos amigos. Ela. parava em um ponto de ônibus ou encostava em um muro para roubar um beijo. — Um dia eu conto.chard. — Deixe elas irem — pediu Lamia. e ela era minha guia para um determinado lugar.. — É o mínimo que podemos fazer. Lamia sorriu para ele. Na Ponte da Noite. solidária. Era estranho. Fico tentando imaginar o que aconteceu com ela. Ou. — A minha gente também tem histórias assim.

e seus olhos não viram nada além de sua pele pálida. Pode ser? Claro. É isso que eu quero como pagamento. Ele concordou. o que quer que fosse. distante.. Lamia se virou para ele com olhos doces e suplicantes. — Você é muito legal. Ela ergueu as mãos até o seu rosto e o puxou . Qualquer coisa. — Você não gosta de mim? Ele esperava do fundo da alma que não a tivesse magoado. que já estavam lá na frente. o barulho metálico da porta de um elevador batendo. Ela parecia desapontada. — Você é tão quente — comentou. Ouviu. e depois se apressava para alcançar os amigos. Lamia percorreu seu dedo frio pelo rosto de Richard. — Deve ser maravilhoso ser quente assim. — Você pode me dar um pouco do seu calor.. mas. Qualquer coisa que ela quisesse. — E você disse que me pagaria por ser sua guia.. — O quê? Eu. e seus cabelos negros. Richard? Estou com tanto frio. eu nunca reparei muito nisso. Richard tentou parecer orgulhoso com o elogio. admirada. Um pouco do seu calor. seus lábios cor de ameixa. na verdade — admitiu. O odor de madressilva e lírio o envolveu. — Ah. Algo dentro dele gritava.línguas. — Você nem está usando todo o seu calor. está? — Acho que não. vindo de cima. poderia muito bem esperar.. Ele ficou pensando se deveria beijá-la. — Claro que gosto de você — ouviu sua própria voz dizer.

Depois de certo tempo. chiava. Lambeu seus lábios vermelhos com uma língua escarlate. Recostou-se. mas era como se seus olhos estivessem congelados. — Devolva. levantando-a do chão. ela se afastou.suavemente na sua direção. Houve um momento de choque inicial. cuspia. lânguido. Richard sentia a visão escurecer. Seu hálito evaporava no ar frio. a pele corada e os lábios muito vermelhos. arranhava. satisfeita. em uma voz nem um pouco melodiosa. Richard podia sentir o gelo em seus lábios. Tentou piscar. Mas não adiantou nada: ele a segurava bem firme pelo pescoço. Ela olhou para ele e sorriu. mas em seguida ele se entregou por completo ao beijo. Achou ter visto um vulto escuro no canto de seu campo de visão. quando ela se moveu para terminar o que havia começado. com voz rouca e . E então o beijou — um beijo longo. *** Ele viu a Veludo puxar Richard para si para dar o primeiro beijo. — Quero mais — disse ela. — Você não pode me obrigar — ralhou ela. Devolva a vida dele — sussurrou em seu ouvido. Ele aumentou a pressão dos dedos. ele esticou a mão e a agarrou bem firme pelo pescoço. meio tonto. E então andou até ficar atrás dela e. extasiada. na parede. E se aproximou dele. porque os lábios e a língua dela eram muito frios. — Devolva a vida dele — ordenou. Viu quando ela o soltou. viu a geada e o gelo se espalharem sobre a pele do rapaz. Ela reagiu como um gatinho que acabara de ser jogado numa banheira: contorcia-se.

Lamia. a geada em seu cabelo. irei um dia até a sua caverna enquanto você estiver dormindo e vou queimar você. Transformando você numa coisa fria. Richard piscou. Ela pegou a mão de Richard e expirou em seu nariz e sua boca. que estava congelado e encolhido contra a parede de pedra. a sumir. — Eu pensei que você gostasse de mim — disse Richard. Uma baforada fina de vapor passou de sua boca para a de Richard e desapareceu dentro dele. Ele a empurrou na direção de Richard. você ou qualquer uma das Crianças Veludo. A Veludo então chiou feito um gato contrariado e abriu a boca mais uma vez. O gelo em seus olhos tinha derretido e se transformado em lágrimas. De Carabas ergueu Lamia no ar com apenas uma mão e aproximou seu rosto do dela. O rosto de Lamia se contorceu como o de uma criancinha a quem foi negado o brinquedo favorito. — Eu preciso mais do que ele — choramingou. — O que ela fez comigo? — Ela estava bebendo a sua vida — explicou o marquês de Carabas num sussurro rouco. O vapor saía da sua boca e penetrava na dele. Seus olhos violeta faiscavam. O gelo na pele de Richard começou a derreter. tolo. Entendeu? Lamia fez um movimento afirmativo com a cabeça. Ele apertou o pescoço dela mais uma vez. feito ela. — Roubando o seu calor. — Se você chegar perto dele de novo. . que escorriam por seu rosto. Lamia fez uma careta.direta — ou quebro seu pescoço. — Tudo.

— É. — A gente pensou que ia te ver no Mercado. Vamos.Ele a soltou e ela caiu no chão. algumas pessoas acharam que eu estava morto. Richard olhou para o marquês. usava um cobertor velho jogado nos ombros. elas não devem estar muito longe. como um poncho. — Não de imediato — disse o marquês. Sua pele estava imunda e ele tinha uma cor meio parda por baixo da pele naturalmente escura. Bom.. De Carabas limpou a saliva gelada que escorria por sua face. os pés ecoando pelo caminho de pedra em espiral da Down Street. — Por que. — E agora me acharam — retrucou o marquês com sua voz rouca. que não era lá muita. indiferente. Quando ficou em pé e assumiu sua altura normal. — Mas você acabaria morrendo quando ela terminasse de devorar a sua vida. embaixo dele. — A gente estava procurando você — disse Richard. detalhe que Richard imaginou ser alguma afetação bizarra de elegância. Suspendeu a parte da frente de seu vestido de veludo negro e subiu correndo para a prancha. tinha amarrado contra si algo volumoso — Richard não sabia o que era. Estava descalço e havia um pano descolorido enrolado em torno de seu pescoço. Com o dorso da mão. Sua casaca havia sumido: em vez dela. em um tom seco. Precisei ser discreto.. . — Ela ia me matar — balbuciou Richard. ido longe demais. e. ela jogou a cabeça para trás. altiva. — Porque me mataram. por que acharam que você estava morto? De Carabas encarou Richard com olhos que tinham visto coisas demais. e cuspiu com força no rosto do marquês.

ofegante. Mesmo assim. — Olhe ali. ande! E Richard correu. Estavam olhando em volta — deviam estar procurando por ele. O senhor Croup e o senhor Vandemar saíram de trás de uma pilastra. quase de balé.Richard olhou pela lateral do caminho. corra. usando um cordão de nylon. Eu não consigo correr ainda. O golpe atingiu o estômago de Richard. Ele caiu no chão. pensou. Virou e viu todos ali. Sentiu uma dor repentina no peito. Hunter ficou lá. — Hunter! Door! Cuidado! — gritou.. Vamos. com o máximo de força. uma pontada. — O que faremos? — Corra! Vá avisá-las. retorcendo-se sem fôlego. Apontou para o nível abaixo delas. de boca aberta. coberto por um pano marrom que lembrava a capa com que o pai de Richard costumava envolver suas varas de pescar. descendo a estrada de pedra. acenou. Richard gritou: — Hunter! Rápido! Ela se virou e deu um chute em um movimento perfeito. O marquês pôs uma mão no braço de Richard. . O senhor Croup segurava algo fino e comprido. forçou-se a correr. e viu Door e Hunter no nível abaixo. Richard espremeu os olhos e conseguiu discernir dois vultos nas sombras. Algo se movia. a vários metros de distância. É uma emboscada — disse de Carabas. Correu o mais rápido que podia. Gritou para elas. Door se virou. dolorido. O senhor Vandemar pegou as mãos de Door em um movimento violento e as amarrou atrás dela com rapidez. para o outro lado do fosso central. mas o som não chegou até lá. — Croup e Vandemar.. parada.

infelizmente — respondeu ela. e virou-se. cheio de dentes.? — Sim. enquanto o senhor Croup ficava ali de pé.. — Pensei que vocês estivessem falando do marquês. num tom casual. o que está acontecendo? — gritou ela. retorcendo-se. orgulhoso. Ela não se mexeu nem respondeu.— Hunter. O senhor Croup coçou seus cabelos alaranjados. — E por falar no marquês. Estamos aqui para que você chegue a salvo ao seu destino. tentando de alguma maneira fazer o ar chegar até seus pulmões. Fico me perguntando onde ele estará. Door o ignorou. O senhor Vandemar segurava os braços de Door.. senhor Vandemar? — Inteiro atrasado. — É isso mesmo. observando. Os dois assassinos ignoraram Richard por completo... senhor Croup. — Ah. e Richard permaneceu deitado no chão. senhorita — disse Croup. — Nós avisamos que havia um traidor — gralhou o senhor Vandemar. O senhor Croup sorriu. Lady Door. Jogou a cabeça para trás e uivou feito um lobo. — Hunter. — Antes que Hunter aceitasse trabalhar para você. ela concordou em trabalhar para o nosso chefe. em um gesto teatral. Meio atrasado. não é. Atrasado até não . não nos tome por vilões assassinos. A traição doía tanto quanto o chute no estômago. — Pense que fomos apenas contratados para acompanhá-la. O senhor Croup se virou para Door e deu um sorriso largo. sem olhar para nenhum deles. tomando conta de você. Richard se sentia enjoado e triste. Hunter ficou encostada à parede de pedra.

ofegante: — Sua traidora vagabunda. dirigindo-se a Door. senhor Croup. teremos de chamá-lo “o falecido marquês de Carabas”. que caiu no chão de dor. — Ah. — Você foi enganado de novo. O senhor Croup tossiu. — Bom. Passou a chave para o senhor Vandemar. — Sua revolta é compreensível — sussurrou. se quiserem. que a segurou entre o indicador e o polegar e a amassou como se fosse feita de papel alumínio. mas não tinha tempo de ver o que era — e tirou de lá a chave da porta do seu velho apartamento. Olha. Hunter dirigiu um olhar rápido para o chão. e anunciou: — Então. — Podem me revistar. O senhor Croup ergueu a mão e pegou a chave. — Está comigo — disse Richard. Quem está com ela? — perguntou Croup. — Toma. Richard finalmente conseguiu fazer com que o ar chegasse a seus pulmões para dizer. senhor Croup.. de agora em diante.. em outro gesto teatral. — Vejo que quase fui vítima da imensa perspicácia do rapaz. O senhor Vandemar deu um chute no joelho de Richard. Podia ouvir a voz do senhor Vandemar. — Mortinho da silva — completou o outro.poder mais. Conseguiu ficar em pé e cambaleou até os dois assassinos. Temo que ele esteja. senhor Vandemar. Remexeu nos bolsos — percebendo algo duro e estranho em seu bolso de trás. e a chave que você conseguiu com os Monges Negros. — Acabe com ele. com prazer. senhor Vandemar. como se estivesse longe: — As pessoas acham que é a força que faz o chute .

Teremos bastante tempo para os canivetes suíços depois. Richard gemeu. esse aqui na verdade é um chute bem fraquinho.mas dói tanto quanto este aqui. Quer dizer. a pinça e o palito de dente — disse o senhor Vandemar. eu te mostraria o que eu faço com cada peça dele. — Deixe-o... prestativo.doer. como se alguém tivesse enfiado um dispositivo de descarga elétrica bem no fundo de sua carne e colocado na voltagem máxima.. que é bem mais forte. Richard podia ouvir seus próprios gritos. Mas é onde você acerta. Até mesmo com o abridor de latas. — Se você tivesse um canivete suíço aí... — Boa caçada — disse-lhe o senhor Croup. . Jogou a capa protetora de vara de pescar para ela. A voz de Hunter era baixa mas poderosa: — E quanto a mim? E o meu pagamento? O senhor Croup torceu o nariz. que a pegou com uma só mão. E sua bota golpeou o flanco de Richard como uma bala de canhão. E então ele e o senhor Vandemar viraram-se e começaram a descer o caminho em espiral da Down Street. Ela está com o amuleto? O senhor Croup remexeu nos bolsos de Door e tirou de lá uma estatueta esculpida em obsidiana: a pequena Besta que o anjo lhe dera. Algo bateu no ombro esquerdo de Richard. senhor Vandemar.. E o senhor Vandemar dizia: — . — A chave está comigo! Era a voz de Door. Era como se todo o braço estivesse pegando fogo e congelando ao mesmo tempo. Seu braço ficou dormente e uma onda intensa de dor começou a se espalhar em seu ombro.

havia rostos esculpidos e ornamentos e arabescos estranhos. com uma terrível sensação de derrota se espalhando por todo o corpo. — O que é isso? Trinta moedas de prata8? — perguntou. vendo-os ir embora.com Door entre eles. E. (N. pelo menos. Sorriu de satisfação. afiada de um lado e serrilhada do outro. Ela não disse nada. — Uma lança — disse ela. mais bonita. Molhou a ponta do dedo com sua língua rosa e passou suavemente na lâmina. Seus dedos acariciavam. adoravam o instrumento. Hunter a tocava quase com reverência. Hunter se ajoelhou e começou a desatar as amarras da capa. Richard sentia dor. roçavam. Ela puxou o objeto devagar de sua capa de tecido. 8 A quantia pela qual Judas traiu Jesus. Richard ficou deitado no chão. experimentando seu corte.)  . verde por causa da oxidação. — Você vai me matar? — ele perguntou. Hunter então virou a cabeça e olhou para ele. No cabo. com simplicidade. mais perigosa. Richard se sentia surpreso por não estar mais com medo da morte — ou. — Você traiu Door por causa de uma lança! — exclamou Richard. Seus olhos estavam arregalados e brilhantes. Ela parecia mais viva do que ele jamais vira antes. Tinha mais ou menos um metro e meio de comprimento. como se fosse a coisa mais bela que já tinha visto na vida. desde a ponta da lâmina até a extremidade do cabo. A lâmina era comprida e curvada como uma cris. Era uma lança feita de um metal de cor bronze. com medo daquela morte.

para quem você está trabalhando? Para onde estão levando Door? Quem está por trás disso tudo? — Conte a ele. — Mas Door confiava em você. e ele tinha uma expressão implacável no rosto. — Esta é a lança com que você vai caçar a Grande Besta de Londres. — Tenho animais maiores para matar. apontada para ela. em uma reverência irônica. sem olhá-lo. mas seus olhos não se moveram e suas mãos ficaram no mesmo lugar. — E você me dá a mesma impressão. Ela não estava mais sorrindo. . — E então. Lentamente. — Dizem que nada resiste a ela. — Chega.— E que graça teria caçar você. localizando-se apenas no ombro. Mas talvez uma flecha enfiada na garganta e uma queda de centenas de metros possam provar que eu estou errado. Eu confiava em você. com carinho. Ela pôs a lança no chão suavemente. — Fiquei imaginando se você estaria mesmo morto como Croup e Vandemar afirmaram — disse Hunter. não é? Ela olhou para o objeto de um jeito como nenhuma mulher havia olhado para Richard. Ele segurava uma arma. Ele inclinou a cabeça. Richard Mayhew? — perguntou ela com um sorriso luminoso. Seus pés descalços estavam firmes no chão. Hunter — disse a voz rouca do marquês de Carabas. a dor começava a diminuir. — Você me deu a impressão de ser alguém difícil de matar. nas costelas e no joelho. depois ficou em pé e deu um passo para trás. não é? Coloque a lança no chão e afaste-se. minha cara.

Richard balançou a cabeça com veemência. — Você prefere que ela venha atrás de nós? — retrucou o marquês. ríspido. usando-a como apoio. — Não pode ser. por favor. E então. Richard pegou a lança e. Hunter. — Bem que eu queria saber. — Você quer levar ela com a gente? — perguntou. E eles desceram. Ele é um anjo. Mas Islington está no fim da Down Street e por trás desta imundície toda. não é? — É? — Às vezes — disse o marquês. Descobri da pior maneira. você vai na frente. E. a morte é algo tão derradeiro. mas detesto ter as opções reduzidas antes que seja mesmo necessário. E entre nós e ele está o labirinto e a Besta. quase desesperado: — Por quê? Os olhos do marquês se mantinham fixos em Hunter. Hunter. confuso. — E vou. Eu já sei. Quer dizer. como se estivesse tentando espantar uma mosca. e a arma continuava apontada para ela. se não houver alternativa. . Conte quem está por trás disso. de qualquer forma. — Islington. Richard. conseguiu ficar em pé. — Você pode matá-la. eu conheci Islington. pegue a lança. desajeitado.— Pode dizer para ele.

Por isso. que tinham mãos do tamanho de carvalhos e carregavam cabeças decepadas do tamanho de pequenas montanhas. ele tinha certeza de que tudo aquilo devia ser ínfimo em comparação ao que quer que o marquês tivesse enfrentado. O portão havia muito fora consumido pela ferrugem. passava por um estranho estado de confusão física e mental: as sensações de derrota e traição se agitavam dentro dele. Por isso. pensou Richard. Ele sabia que. Hunter andava um pouco à frente deles. aos ferimentos causados por Vandemar e à experiência por que passara na prancha) o deixara em frangalhos. De Carabas estava em silêncio.DEZESSEIS CAMINHARAM POR HORAS EM SILÊNCIO. O portão o fazia lembrar aquelas antigas histórias de reis mortos da Londres mítica que revirava em seu cérebro. Além da dor que sentia. Era possível ver seus fragmentos na lama . se desviasse sua atenção por um segundo. ele não dizia nada. Depois de algumas horas. e assim se concentrava em Hunter. Uma obra feita por gigantes. chegaram ao fim da Down Street. construído com grandes blocos de pedra bruta. Richard mancava. Mesmo assim. e isso (aliado à proximidade da morte quando estivera com Lamia. já que a tentativa de produzir qualquer som fazia sua garganta doer. ela perceberia. DESCENDO PELO CAMINHO de pedra em espiral. aventuras do Rei Bran e dos gigantes Gog e Magog. Ela tampouco dizia algo. e então fugiria ou os atacaria. A rua terminava em um enorme e colossal portão. ele não dizia nada. Dava-se por satisfeito em deixá-la cicatrizar.

Digo. — E eu salvei a sua vida. Depois do labirinto. eles se tornam piores do que qualquer um. que era mais alta do que Richard. O marquês fez um gesto para que Hunter parasse.. com voz calma. — Imagino que o labirinto e a Besta existam para desencorajar os visitantes. um anjo de verdade. Ri- .do chão ou pendurados em uma dobradiça enferrujada. De Carabas se dirigiu a ela. disse: — O lugar que você visitou era a fortaleza de Islington e também sua prisão. Richard. Naquela prancha lá em cima. — Muitas vezes. e foi Richard quem desviou o olhar. Ele é um anjo. Islington. Ela o encarou. — Eu ainda não compreendo. dentro do labirinto. a Besta. Richard se virou para o marquês. Lembre-se: Lúcifer era um anjo. — Quando os anjos ficam maus. que observava Richard com seus olhos castanhos. Richard Mayhew — disse ela. Na ponte. está o anjo Islington.. Ela concordou: — Também acho. Hunter. O marquês sorriu. Umedeceu os lábios e disse: — Este portão marca o fim da Down Street e o começo do labirinto. Eu o conheci. No vão do metrô. toda sua raiva. impotência e frustração saindo em um único ímpeto de fúria: — Por que você continua falando com ela? Por que ela ainda está com a gente? Ela é uma traidora e tentou fazer a gente pensar que você era o traidor. mas sem humor. Algo ecoou nos túneis: um grito ou um rugido. Era a primeira coisa que ela dizia depois de horas de silêncio. Ele não pode sair de lá.

Vamos indo. — Ótimo. — Você só pode estar louco para querer entrar aí. Richard hesitou por um momento. Não agora. mas ali não parecia um touro nem um javali — parecia um leão. — Que tipo de sonho? — Sonhos ruins. — Antes de o Rei Lud fundar uma vila na margem do Tâmisa. Por alguns instantes. Estava bem longe. Então disse: — Escuta. O marquês colocou a mão debaixo de seu cober- . Ou um dragão. Richard.chard sentiu um arrepio de terror na nuca. — Eu. O rugido distante recomeçou. Ele conhecia aquele som: já o tinha ouvido em seus sonhos.. eu acho que tive sonhos com a Besta. o marquês refletiu. De Carabas ergueu uma sobrancelha. mas esse era o único fator que trazia algum conforto. Eles pegaram a Door. Mas se você quiser esperar aqui. ninguém vai acusá-lo de covardia.. Richard balançou a cabeça. então? Os lindos lábios cor de caramelo de Hunter se abriram em um sorriso de escárnio. já havia um labirinto aqui. bom. — Imagino que não existia uma Besta — disse Richard. seus olhos se movendo inquietos. Vou levar Hunter. Às vezes não há nada a fazer. — O labirinto é um dos lugares mais antigos da Londres-de-Baixo — contou o marquês. Você nunca vai conseguir achar o caminho nem passar pelo javali sem o talismã do anjo. — Não naquela época. — Eu não vou voltar.

O senhor Croup sentia o talismã sendo puxado e deixou-se levar por ele. esterco de vários tipos e tábuas de madeira apodrecida. Desceram por uma pequena viela. Os três caminharam sobre seixos. corredores e esgotos que tinham sido esquecidos com o passar dos milênios e entraram para o mundo das coisas perdidas. com uma de suas mãos cheias de anéis descansando sobre seu ombro. e vielas iluminadas com tochas e archotes. fazia uma volta e desembocava em si mesmo. fungando e resfolegando próximo dali. A Besta urrou. um urro pro- . Andaram à luz do dia e da noite. Era um lugar que vivia mudando — e cada caminho se dividia.tor-poncho e tirou de lá a pequena estatueta em obsidiana que tinha pegado no escritório do pai de Door. ruas. segurando alto o talismã que tinha pegado dela e lançando olhares para os lados. lama. atravessaram ruas iluminadas a gás e a sódio. O labirinto em si era de uma insanidade completa. pobreza e sexo — e então ouviram o animal. *** Os braços de Door estavam atados às costas. que fora parte de um “cortiço” vitoriano — uma espécie de favela composta por porções iguais de roubo. como uma doninha orgulhosa prestes a atacar um galinheiro. — Você quer dizer um desses aqui? Então de Carabas achou que a expressão no rosto de Hunter quase fez valer a pena tudo aquilo por que ele havia passado na semana anterior. bebedeira. Atravessaram o portão e entraram no labirinto. Fora construído com fragmentos da Londres-de-Cima: vielas. e o senhor Vandemar andava atrás dela. empurrando-a pelo caminho. O senhor Croup seguia à frente.

e Door então soube que o anjo Islington não era amigo dele. parou. subindo uma pequena escada de madeira. não é? — perguntou Door. — Eu disse para você ficar quieta — repetiu ele. apertando os olhos para enxergar melhor. — Ei! Besta! Aqui! O senhor Vandemar lhe deu uma bofetada no rosto e a jogou contra a parede. No fim da viela. sombrio.fundo. Ela tentou morder o seu dedo. — Você está com medo. Ela forçou um sorriso. O senhor Croup parou e depois correu adiante. na época dos Templários. com voz tranqüila. Ela sentiu sangue em sua boca e cuspiu na lama. Depois abriu os lábios para começar a gritar mais uma vez. — Cale a boca. O senhor Vandemar. mas isso não provocou nenhuma reação nele. O senhor Vandemar sentia muito orgulho de seu lenço. — Você está com medo que seu talismã não o deixe passar pela Besta. que morrera de apoplexia e fora enterrado com o . antes de guiar o grupo por uma escada que descia para um comprido túnel de pedra que certa vez atravessara os Fleet Marshes. Ela começou a gritar. que tinha manchas verdes. Ele pertencera a um obeso vendedor de rapé da década de 1820. O que está tramando? Raptar Islington? Vender nós dois para quem pagar mais? — Fique quieta — ordenou o senhor Vandemar. já antecipando isso. marrons e pretas. Croup a fulminou com o olhar. Mas o senhor Croup apenas riu. tinha pegado um lenço do bolso e o enfiou na boca de Door. — Agora você vai ficar quieta.

Hoje. na sua opinião.. bom. E o fato de haver um grande número de pessoas mortas naquele pântano não ajudava em nada: corpos curtidos. O marquês segurava o talismã e a arma. pensou ele. *** Richard escreveu mais uma vez em seu diário mental. eu sobrevivi a andar numa prancha.. carregava a lança da caçadora e um foguete de sinalização que de Carabas tinha guardado sob seu cobertor. ossos descoloridos e . entre paredes de pedra escura. O senhor Vandemar às vezes ainda encontrava restos do homem no lenço. Nem Hunter nem o marquês haviam mencionado os mosquitos. Richard tinha saído do mundo das metáforas e entrado naquele onde as coisas simplesmente são. como se estivessem embalsamados. dando-lhe picadas dolorosas e deixando marcas inchadas que coçavam.. Neste momento. e isso estava provocando mudanças nele. tanto que.lenço no bolso. o contrário de uma guarda-costas. Richard começou a suspeitar que estivessem perdidos. tomando sempre o cuidado de caminhar o tempo todo a uns dez passos de distância de Hunter. Atravessaram uma passagem estreita cujo chão era úmido e pantanoso. Richard. um ótimo lenço. e assim iluminava o caminho. nos braços e no rosto de Richard. estou atravessando um labirinto com um canalha biruta que voltou dos mortos e uma guarda-costas que revelou ser. Ele não conseguia achar as metáforas certas. Eles seguiram em silêncio. O pântano exalava um cheiro forte e desagradável.. ao beijo da morte e a uma demonstração prática sobre como causar dor a uma pessoa. bem mais à frente. Eu me sinto como um peixe fora d’água. mas ainda assim era. e enormes mosquitos começaram a pousar nas pernas.

Está tudo bem. O marquês se pôs de pé e apontou a arma para as costas de Hunter. Ficou de quatro. Há quanto tempo aqueles corpos estariam ali? Teriam sido mortos pela Besta ou pelos mosquitos? Não falou nada enquanto caminhavam.cadáveres pálidos. — Mergulhe na lama e procure — pediu de Carabas. segurando o sinalizador e esperando ver o reflexo da chama na obsidiana. Richard. — Richard — gritou. O talismã está nos levando adiante. Já passamos por aqui antes. procurando a estátua. — Eu deixei o talismã cair. iluminando a superfície da lama com uma luz âmbar intermitente. torcendo para não encontrar nenhum rosto ou . — Você sonhou com a Besta. Nesse instante. Você não quer encontrá-la. disse: — Acho que estamos perdidos. nem um pouco impressionado. O marquês segurou no ar o talismã. É como se tivesse inteligência própria. — Muito inteligente. Percorreu as mãos pela superfície do pântano. Richard resmungou. — Ah. mas sem enxergar nada além da lama úmida. A pequena estatueta foi arremessada pelos ares e caiu no pântano negro com o “plop” de satisfação que faz um peixe saltitante ao voltar para a água. de Carabas pisou com seus pés descalços nas costelas de um cadáver meio enterrado. sim — ironizou Richard. — Não. inchados de água. mas. Você pode voltar aqui? Richard retornou. quer? Richard não ficou pensando por muito tempo: enfiou o cabo da lança de bronze na superfície do pântano e colocou o sinalizador perto dela. depois de alguns minutos e muitas picadas. o que machucou seu calcanhar e o fez cair.

Depois deixou seu olhar percorrer o pântano. — Volte para cá. vagando sem objetivo. Viu algo brilhando na superfície enlameada. Talvez a aproximação de Richard tivesse ondulado a lama. — Estou vendo — gritou. Pode ter caído em qualquer lugar. na direção dela. — Continue procurando. A pequena estátua reluzente estava de cabeça para baixo em uma poça de água escura. A Besta vinha na direção deles. de maneira indecente e insalubre. Caminhou na lama devagar. De Carabas suspirou. velha. ou até morrendo. — Não adianta. procurando de forma frenética. em voz baixa. mas o mais provável. Tinha desaparecido de vez. Era a estatueta. Foi o que ele pensou no começo. — É tarde demais — disse Richard. à sua esquerda. O fato é que. Richard tentou se lembrar de como costumava achar as coisas. Mas não adiantou. e uma enorme bolha de gás subiu à superfície e estourou. e ele depois se convenceu disso. fazendo com que ele desaparecesse na água. E então ele se deu conta da distância que ela per- . Richard chegou ao local onde o talismã estivera e enfiou os braços na lama. — O que vamos fazer agora? — perguntou Richard. sem se importar com o que seus dedos pudessem encontrar. ao lado do talismã. tão lenta e pesada que ele achou por um milésimo de segundo que ela estivesse doente. ele estava quase alcançando a estatueta quando veio do pântano um som que parecia um ronco de um grande estômago. a quase dois metros de distância. esvaziou ao máximo seus pensamentos.mão de gente morta. qualquer que fosse a causa. Vamos pensar em alguma coisa. Primeiro. era que tudo acontecera pelo simples funcionamento das coisas do mundo material.

A lama fez um ruído de sucção. espadas despedaçadas e adagas enferrujadas cravadas por todo o seu corpo. Ela rugiu. e tirou a lança fincada no pântano. em um movimento único. em uma voz que era pura alegria. fluído. Ela tinha se esquecido dos outros por completo — esquecido de Richard na lama. Era a batalha perfeita: a caçadora e a caça. Mas. Havia lanças quebradas. que se passaram em dez segundos. de desafio. nos cascos. de um elefante. só o tempo poderia dizer — o tempo e a dança que fariam. quando a Besta abaixou sua cabeça. e a lança caiu de suas mãos. A Besta partiu para o ataque. onde havia apenas duas coisas: Hunter e a Besta. E. Um som de vitória. Ficou olhando para eles. Hunter se ajoelhou. pensou Richard. o mundo para o qual ela vivia. e percebeu que estava errado ao pensar que ela era lenta. Finalmente. de uma vida inteira. Hunter esperou até que pudesse ver a saliva branca pingando da boca do animal e. A Besta também sabia disso. a Besta diminuiu o passo e parou. imóvel por cem anos.corria enquanto se aproximava. A luz amarelada do foguete de iluminação brilhava em seus olhos vermelhos. De seus flancos saía vapor. disse: — Sim. quando tentou fincá-la no flanco do animal. A Besta abaixou sua enorme cabeça. nas presas. A uns dez metros deles. seus cascos esparramando a lama e a água conforme avançava. E quem era quem. Era algum tipo de javali. do marquês e de sua arma idiota. . emitindo um grunhido. do mundo. Estava maravilhada. percebeu que tinha se movido uma fração de segundo atrasada. e então percebeu que aquilo não fazia sentido: nenhum javali era tão grande. ela a feriu com a lança. Ela tinha o tamanho de um boi. pois fora transportada para o lugar perfeito.

Somos nós. A dança havia terminado. — Bom dia. assim como a prisioneira que levavam consigo. Enquanto caía sob o peso absurdo do animal. desaparecendo na escuridão. suas costelas.Uma presa mais afiada do que a lâmina mais afiada do mundo abriu um corte no abdome de Hunter. — Entrem. sentiu cascos duros esmagando seu braço. De dentro do espelho. — Está pendurada no pescoço de lírio da mocinha — respondeu o senhor Croup. borbulhando como um tanque de mercúrio fervente. e então voltou a ficar imóvel. O senhor Croup tocou o espelho com sua mão imunda. e eles entraram. senhor. *** . então — ordenou o anjo. O senhor Croup pigarreou. o anjo Islington olhava para eles. A superfície de vidro se tornou turva com o toque. Na lateral direita da porta havia um espelho oval. e trouxemos a moça que o senhor nos pediu. Saíram de lá intactos. em um tom que deixava transparecer sua ansiedade mais do que ele tencionava. As portas de carvalho se abriram com as palavras dele. *** O senhor Croup se sentia mais aliviado do que estava pronto a admitir por ter deixado o labirinto para trás. Chegaram a uma parede de pedra com uma porta dupla de carvalho bem no meio dela. fervilhou por um instante. — E a chave? Sua voz suave parecia vir de todas as direções. seu quadril. E a Besta correu.

— Você está bem? Ela então riu. a Besta se lançara na direção dela e desaparecera de novo no escuro.. Parecia algo tão idiota de perguntar. Ela vai voltar. de um vermelho vivo. — Sim. . Hunter então tossiu e fez uma careta de dor. Sangue arterial.. De Carabas ainda estava a alguns metros de distância. Em seguida ele ouviu um sussurro tão baixinho que pensou que estivesse imaginando coisas. Ele gritou: — Richard! Não se mova.. — Não médicos como você conhece. imóvel.. Falou com Hunter: — Você. com lábios manchados de sangue. Richard o ignorou.. escorria do canto de sua boca. Hunter jazia deitada de costas na lama. Não conseguia ouvir nada além de. mais perto dele.. De Carabas se aproximou um pouco mais deles. Richard se esforçou para tentar ouvir algum ruído do animal. um leve gotejar e o zumbido alto e enlouquecedor dos mosquitos. — Existe algum tipo de médico por aqui? — perguntou Richard ao marquês. Houve uma pausa. encostado a uma parede. e balançou a cabeça para os lados.Tudo tinha sido muito rápido. mesmo assim continuou. — Hunter? Você pode me ouvir? — murmurou. sanguessugas. A Besta saíra da escuridão. Hesitou. Um de seus braços estava retorcido em um ângulo estranho. Temos alguns curandeiros. Ele engatinhou até ela pela lama. A criatura só está esperando a hora certa. Hunter pegara a lança.

. Hunter? — perguntou. ela começou a se levantar. O vislumbre de um sorriso pairou sobre o rosto dela.. a pessoa com quem ele falava o ignorou por completo. Só precisamos buscar ajuda.. como se o simples ato de respirar exigisse muito dela. e disse: — Richard. — Não faço esse tipo de coisa. sentindo-se. — Vamos. sem fazer barulho? Talvez ela vá embora. E. — Por que nós não ficamos bem quietos. — Eu fiz uma coisa ruim. não pela primeira vez. — Eu sei. Porque eu queria matar a Besta. Segure pela parte que não corta. — começou Richard. Richard Mayhew — sussurrou ela. E então. — Pegue a lança. — Ela falava baixo. — Fiz uma coisa muito ruim. nem conseguia imaginar a dor que sentia.— Você guarda a sua vida em algum lugar. Suas costelas pareciam desconjuntadas. — Toma. e um repugnante pedaço de osso atravessando sua pele... não pela primeira vez. Porque eu precisava da lança. você já usou uma lança? — Não. Aspirou ar para dentro dos pulmões com dificuldade. inesperadamente. — Isso eu já sabia — ele disse. — Escuta.. Havia sangue escorrendo de um corte na barriga. Mas podia ver seu braço direito pendurado. — Eu sou uma caçadora — sussurrou ela. Richard fez o que ela pediu. com voz triste. Richard não tinha percebido o quanto ela estava ferida. como a única pessoa sã em um hospício. inútil. em tom de urgência. depois expirou. em tom de desdém. . — Mas.

alto e baixo. com os chifres abaixados. em vão. Tudo aconteceu muito devagar. Abaixe-se — ele disse. seu desgraçado — gritou Hunter. — E agora vou reparar o que fiz. e a Besta saiu da escuridão.. Nenhum barulho além do gotejar. — Duvido — murmurou de Carabas. Richard! Ataque! De baixo para cima! Agora! A Besta a atingiu e suas palavras se transformaram em um grito. e ficou cantarolando naquele tom até que sentiu todo o labirinto ecoando. sussurrando. Ela começou a fazer um som de “mmmm”. sugando o ar para dentro de suas costelas arrebentadas. grandalhão! Cadê você? Não houve resposta. eles não podiam errar. Enquanto a Besta se aproximava.. até encontrar a nota que fazia as paredes. Richard viu a Besta sair da escuridão e entrar na luz que emanava do sinalizador. em seguida. — Talvez a Besta. — A dança não terminou ainda — sussurrou Hunter. Hunter tirou uma faca de seu cinto e. E então. Dessa vez. gritou: — Ei. segurando tão firme a lança que suas mãos doíam. — Vamos.— Pare com isso. tenha ido embora — disse Richard. fechando os dedos já dormentes em volta do cabo. como em um sonho. Com a mão esquerda. Até os mosquitos estavam em silêncio. partindo de novo para o ataque. ela gritou: — Agora. passou-a para a mão direita. Como em seus sonhos. A Besta . os canos e a sala reverberarem. — Você está com medo? Ouviu-se um forte rugido à frente deles. — Eu fiz uma coisa ruim — repetiu ela.

ele poderia matá-la. mas ele acabou por conseguir fazer com que o cadáver rolasse e saísse de cima dela. — Acho que sim. com os olhos abertos e fixos na escuridão acima dela.estava tão perto que ele conseguia sentir o fedor de fezes e sangue. Era uma risada estranha. Richard soube. Então ela riu. como se tivesse acabado de ouvir a piada mais engraçada que já contaram para uma caçadora. Ouviu-se um grito. Sua voz soava quase distante. embora a lâmina estivesse fincada bem fundo no corpo da Besta imóvel. então. dor. concentrou suas forças e empurrou o flanco morno do animal. E em seguida fez-se silêncio. Não está se movendo. Ocorreu-lhe que. ou um rugido. — Hunter? — Eu ainda estou aqui. enfiando-a em seu flanco e deixando-a afundar na carne. Então. com o máximo de força que conseguia. Soltou a arma e andou aos trancos ao redor da fera. desfocados. Os mosquitos voltaram a zumbir. ódio. Ela estava presa embaixo do animal. se a movesse. E Richard a atingiu com a lança. ela contou-lhe por que ria. Ela não tentou buscá-lo com os olhos. tão perto que sentia seu calor. Hunter estava deitada de costas. puxando-a. de angústia. Richard Mayhew. entre os espasmos do riso. — Ela morreu? — perguntou. Era o mesmo que tentar empurrar um tanque de guerra. e da tosse úmida e rouca que o interrompeu. que ela não estava enxergando. procurando por Hunter. E. não tentou focalizar em nada. Percebeu que ainda estava segurando com firmeza o cabo da lança. Richard podia ouvir seu próprio coração ecoando em seus ouvidos e o gotejar constante. Agora você é o maior guer- . — Você matou a Besta.

. Nada se mexia. Isso vai guiar você pelo labirinto. Richard não sabia se tinha escutado direito. De Carabas falou... Richard colocou sua mão na lança. Sentindo-se . Ela está certa. — Sim. nem acreditava no que tinha ouvido... — Eu não quero a sua. Pegue a minha mão direita. Ponha um pouco nos olhos e na língua.. agora — sussurrou Hunter. seguiu o cabo até a pele da Besta e o sangue morno e pegajoso. — Eu ainda estou segurando uma faca? — sussurrou ela. Ele podia sentir a faca. toque o sangue da Besta.. Ela parou de rir.. — Ela sempre cuidou de mim. — O quê? Ele não percebera que o marquês havia se aproximado. Não deixe a lâmina enferrujar. Limpe meu sangue dela.. Ele abriu os dedos dela e tirou a faca. em seu ouvido: — Obedeça.. Richard tateou embaixo do corpo da Besta e envolveu os dedos frios de Hunter em sua mão. Um caçador sempre cuida de suas armas. — É sua. — Pegue. com exceção de seus lábios.. fria e pegajosa. Os dedos dela de repente pareciam muito pequenos. então.reiro da Londres-de-Baixo.. Vamos. É sua.. Seus olhos estavam ficando embaçados. O Guerreiro. — Pegue.. — Agora. Ela tentou aspirar o ar. — Não consigo sentir minhas mãos.

E não falou mais nada. o mais rápido que pôde. não havia outra explicação. . mas não havia percebido. — Melhor irmos — disse o marquês. E assentiu. — E se não houver “depois”? — Então espero que alguém cuide de nossos cadáveres. Foi o que ela mandou fazer. — Vou tentar ficar o mais próximo de você que conseguir. e então correu. Ele obedecia: assim não tinha que pensar. Richard poliu a lâmina o melhor que pôde em sua camisa. Para sua surpresa. — Podemos. Tocou os olhos com os dedos ensangüentados. como sentir o gosto do oceano. Richard hesitou por um instante. — Não podemos deixá-la aqui. *** Talvez fosse o sangue da Besta. levantando-se. sem dúvida. não achou aquilo repulsivo. Ele estava chorando.meio idiota. Richard olhou para baixo. percebendo o sal no sangue da criatura. — Pronto — disse Richard. Limpou um resto do sangue de Hunter que havia na lâmina e pôs a faca em seu cinto. Richard limpou a faca em sua camisa. porque. Qualquer que fosse o motivo. O marquês de Carabas esticou a mão e fechou os olhos dela. Ela já deve estar cansada de esperar por nós. tocou sua língua. Depois voltamos para pegar o corpo. Parecia algo muito natural. — Que bom — sussurrou Hunter. Incluindo o de Lady Door. e eles arderam como se tivesse pingado suor neles. — Vá na frente — disse de Carabas. sim.

tropeçando. Ele tocou a madeira e a porta abriu. o sangue pulsando em suas têmporas. e ainda assim continuava. Nesta noite.ele corria pelo labirinto. exausto. silenciosamente.. nesta noite E em todas as outras noites O calor do lar e a luz das velas E Cristo receberá tua alma. cada rua. encontrou uma parede íngreme de granito. No fim do labirinto. As palavras iam e voltavam. . caindo. cada túnel. Correu. que não apresentava mais nenhum mistério. Havia um espelho oval em uma das portas. marcando e ecoando o ritmo de seus pés.. cada viela. Era algo que ele ouvira na infância. em sua cabeça. com uma porta dupla de madeira. Richard entrou. fechada. cada caminho. Os versos apareceram em sua mente enquanto corria. solenes. apenas com seu toque. Sentia que conhecia cada curva. O calor do lar e a luz das velas.

e meus parceiros. a doçura naquele sorriso. O tom de preocupação em sua voz era genuíno. O anjo Islington. ela olhou para ele. com os membros afastados. Depois inclinou a cabeça e perguntou: — Onde está Hunter? — Ela morreu.DEZESSETE RICHARD SEGUIU O CAMINHO ENTRE AS VELAS ACESAS. Richard hesitou. O senhor Vandemar sorriu. não. Seus olhos delicados de uma cor estranha estavam arregalados. Quando Richard entrou. . a velha mesa de madeira. Ele reconheceu o ambiente: fora ali que eles beberam o vinho de Islington. é claro. — Eu esperava que você fosse aparecer — continuou o anjo. — Por favor — pediu o anjo. em pé ao lado dela. Você conhece Lady Door. Isso era o mais assustador de tudo: a terna compaixão. assustados. — Entre. Você está com uma aparência horrível. Entre — disse o anjo Islington. Ali estavam o octógono de pilastras que sustentava o teto de pedra. as velas. Richard Mayhew. Richard se virou. virou-se e sorriu para Richard. o senhor Croup e o senhor Vandemar. O senhor Croup. fazendo um gesto com seu dedo pálido para que ele entrasse. — Deus do céu. Croup e Vandemar estavam cada um de um lado seu. Door estava acorrentada entre os dois pilares ao lado da porta de sílex e prata. a grande porta de pedra e metal. QUE O LEVOU pelas catacumbas do anjo até o Salão Principal. — Acho que todos aqui já se conhecem.

Islington balançou a cabeça e sorriu. Pelo menos até agora. a fragilidade de todos os mortais que nascem para sofrer e morrer. — Sabemos como machucar as pessoas — esclareceu o senhor Vandemar.. Balançou a cabeça. — Infelizmente a senhorita Door está sendo um pouco intransigente.. Pobrezinha — disse Islington. Eu estava discutindo se devo pedir ao senhor Croup e ao senhor Vandemar. alegre.. somos famosos em todo o mundo por nossa habilidade nas artes da tortura. — Se você nos der tempo. sem dúvida lamentando a morte absurda que tinham que enfrentar os seres humanos. prestativo. — Mas. a gente consegue quebrar essa determinação dela — disse o senhor Croup. Seu lábio inferior estava inchado e havia um hematoma em seu rosto. — Ah. como se não ouvisse o que eles diziam. triste. Sem dúvida havia coisas que ele não achava de bom tom dizer. Sacrifícios são necessários — comentou o senhor Croup. — Para torturá-la — sugeriu o senhor Vandemar. — Em pedacinhos — completou o senhor Vandemar. Obrigada. a senhorita Door não me parece alguém que muda de idéia com facilidade. — Door? Você está bem? — Mais ou menos.Richard ouviu Door emitir um som de surpresa. apesar disso. — Afinal. O anjo continuou. — É a vida. tolerante.. Richard fez o máximo para os ignorar. os olhos fixos em Richard enquanto falava. — contou o anjo. O anjo fez uma pausa. para .

ele está tão além do certo e do errado que não conseguiria enxergar os dois nem com um telescópio numa noite de Lua cheia — disse. intrigado. — Não há tempo — disse o anjo para Richard. mas achando aquilo divertido. O anjo se virou. — Isso é errado! — gritou Door. O senhor Croup puxou a cabeça de Richard para perto de si e deu seu sorriso de lápides. O senhor Vandemar pegou o dedo mínimo da mão esquerda de Richard entre os seus dedos enormes e o dobrou para trás. senhor Vandemar. — Errado? — repetiu ele. devagar. Então o senhor Croup atingiu Richard no estômago. um golpe rápido e certeiro na barriga. — E agora. e Richard se dobrou em dois. Islington parecia pensativo. um mortal como você. Richard gritou.. e ele já não estava mais lá. Senhor Croup? Viu-se um brilho escuro no lugar onde o senhor Croup estivera.. até quebrá-lo. Piscou seus olhos cinzentos. Sentiu os dedos do senhor Vandemar em sua nuca. *** O marquês de Carabas estava encostado na parede de granito vermelho. Parecia distraído com alguma coisa. queira por favor dar início aos trabalhos. ela me parece alguém que sem dúvida agiria para evitar a dor e o sofrimento de um amigo. olhando para as portas de carvalho que levavam até os aposentos de Islington. — Ah. . — Há alguém lá fora. Richard. — Contudo. puxando-o para ficar de novo em pé. cor de pérola.toda aquela demonstração de entusiasmo.

— Mentimos sim — emendou o senhor Vandemar. Sem dúvida deveria haver alguma solução em que ele não havia pensado. Será que nunca aprende? Quando o senhor Croup voltou.Diversos planos e idéias fervilhavam em sua cabeça. — Ele está — disse o senhor Vandemar. em um gesto de agonia. que não tinha a menor idéia. e ele eliminava cada um deles assim que os imaginava na prática. mas descobrira. — Vocês me disseram que ele estava morto. O senhor Croup passou uma mão suja em seus imundos cabelos ruivos. — Estava — corrigiu o senhor Croup. Não havia mais favores a cobrar. Richard estava agrilhoado e acorrentado entre um par de pilares de ferro. com uma faca nas costas do marquês. O anjo olhou para de Carabas desapontado e balançou sua bela cabeça com suavidade. talvez tivesse uma idéia. se o anjo saberia se alguém as abrisse. para seu desgosto. — Nós não mentimos — retrucou Croup. parecendo ofendido. . o elemento-surpresa estava a seu lado. Achou que saberia o que fazer quando chegasse ali. A voz do anjo ficou um pouquinho menos suave e compassiva: — Não tolerarei mentiras. refletiu. Se ele conseguisse concentrar-se o suficiente. alavancas a puxar ou botões a apertar — então ele examinou as portas e ficou imaginando se alguém as vigiava. Pelo menos. Isso até sentir a ponta fria da faca afiada perto de sua garganta e ouvir a voz oleosa do senhor Croup sussurrando em seu ouvido: — Eu já matei você uma vez hoje. animando-se um pouco.

O marquês sorriu. Richard pensou. — E você acabou sendo senhor e mestre de dois assassinos e uma sala cheia de velas? O anjo umedeceu os lábios: — Me disseram que isso era minha punição por Atlântida. Islington sorriu. nós mentimos. como se estivesse buscando a palavra correta. com ar racional.fatalidade. E. zangado. Mas não desta vez. Foi uma... A dor que Richard sentia na mão parecia não ter fim.— Sim. — Cidades afundam todos os dias. com ar de superioridade. — Claro que acontecem — comentou o marquês com voz gentil. como se estivesse posando para um cartão de Natal. fúria e completa maldade. E então completou: — . — Que Lúcifer era um anjo. Eu disse a eles que não havia nada que eu pudesse fazer. E você não teve nada a ver com a história? Foi como se alguém tivesse tirado a tampa de um lugar escuro e repleto de confusão. não em sua voz. em um ambiente em que havia coisas tão assustadoras. — Essas coisas acontecem — explicou. — Lúcifer? Lúcifer era um idiota. Acabou como o senhor e mestre de nada.. — Mas bilhões de pessoas morreram — disse Door.. a ironia implícita nas palavras. aquela era a mais aterrorizante que Ri- . — Como você pode se comportar desse jeito? — perguntou Richard. — Você é um anjo! — O que foi que eu te disse? — lembrou o marquês. ríspido. Islington pôs as mãos em seu peito. Fez uma pausa. um lugar de loucura.

completamente seguro de que estava certo: — Eles mereceram! Houve um momento de silêncio. E então apontou para de Carabas e ordenou: — Prendam-no com as correntes.. — A sua família. ao lado de Richard. insano. Abrir portas que nunca deveriam ser abertas. — Quando fui condenado a ficar aqui. Percorreu os dedos pelo pescoço de Door. suspirou. Richard pensou que ele estivesse se referindo a Door. — Então por que mandou matar a gente? — Nem todos. Vocês podem criar portas onde elas não existem. esticou a mão. pegou seu queixo. O anjo voltou sua atenção para Door. colocaram . Você vem de uma família muito diferente. Croup e Vandemar prenderam grilhões nos pulsos do marquês e fixaram as correntes aos pilares. Podem destrancar portas que estão trancadas. incontrolável. ergueu sua cabeça e olhou bem em seus olhos. O anjo abaixou a cabeça. Foi até ela. não conseguisse. Soltou o queixo de Door e acariciou seu rosto com seus dedos longos e brancos: — A sua família tem o poder de abrir portas.chard tinha visto. Bastante notável — disse. com voz suave.. e então fechou a mão sobre a chave pendurada em seu pescoço. assustador. A beleza serena do anjo se desfez: seus olhos brilharam e ele gritou para eles. ergueu-a novamente e repetiu. suavemente. com voz suave e lamuriosa: — Essas coisas acontecem. mas então o anjo continuou: — Havia a possibilidade de que você talvez. como em uma carícia.

Eu lhe disse que o ajudaria se ele me ajudasse. Islington a soltou. mas a deixaram aqui embaixo também. De mim. . Contei a ele que tipo de ajuda eu precisava e ele riu de mim. Uma porta. Mas decidi eu mesmo cuidar do assunto. talvez até mesmo criar algum laço com a Londres-de-Cima. quando eles decidissem que eu poderia ser perdoado e libertado. Acariciou a chave mais uma vez. Virou-se para Door. que arrebentou. e revelou a chave prateada. Percorreu seus dedos sobre a superfície da chave. Vou sair daqui um pouco mais cedo. Uma forma sofisticada de tortura. enviariam alguém para abrir a porta e me dariam a chave. O anjo colocou uma mão pálida sobre a porta escura. — Os Monges Negros estavam guardando a chave fora do seu alcance. Alguém para abrir a porta. — Ele riu. unir os reinos e baronatos.uma porta em minha prisão. — Fora do meu alcance — concordou Islington. A idéia era que. — Uma chave. algodão e renda que eram as roupas de Door. como se ainda achasse impossível acreditar naquilo. — Primeiro falei com o seu pai — prosseguiu o anjo. Levaram embora a chave. E preciso haver os três: uma brincadeira de muito bom gosto. Door fez uma careta de dor. — Ele se preocupava com o Submundo. Queria unir a Londres-de-Baixo. Richard então compreendeu. Repetiu as últimas palavras. como se estivesse explorando seus segredos. tirando-a de sob as camadas de seda. Door estava acorrentada ao lado da porta feita de sílex negro e prata enegrecida. Puxou com cuidado a corrente. E então fechou a mão sobre ela e puxou com força a corrente.

— Fico pensando. Estava no diário dele.. meus próprios planos. olha lá. — Para o Céu? Islington não respondeu. Fomos nós.Door balançou a cabeça. O que foi mesmo que ele disse. agora você tem a chave — disse Door. O senhor Croup começou a rir. desolada.. — Para onde vai essa porta? — gritou Richard. — Bom. com a voz do pai dela.. — E tenho você. das preces vaidosas não é para mim. Vamos pegar nossas harpas e cantar nossos hinos” ? Os olhos cinzentos de Islington estavam claros. não confie em Islington — disse o senhor Vandemar. Você é quem abre portas. alteramos e colocamos de volta no lugar. dos halos. minha filha. Nunca disse. mais um anjo ali. senhor Vandemar? — Door. — Ou eles vão só dizer “Ah. — Achei que a minha versão faria você vir para cá mais rápido. Me disse para vir aqui. Será que não vão perceber que você voltou? — perguntou o marquês em tom de escárnio. Sem vo- . Eu tenho.. — Não. com educação. — Para casa. O anjo acariciou o rosto de Door com a chave. — Você o matou porque ele recusou o seu pedido? — Eu não o matei — corrigiu Islington. não disse.. Islington é perigoso. — Nós pegamos o diário. dos hinos.. — A agonia da adulação. Apenas sorriu. Door. luminosos. — Mas ele disse que eu podia confiar em você. Era exatamente a mesma voz. — Ele deve estar por trás de tudo isso. — Pedi que o matassem. Fique longe dele.

Então o senhor Vandemar colocou um pouco mais de pressão na faca.cê. Estava vazia. — Você matou a família dela — disse Richard. e Richard reprimiu um grito. pensou. já tivesse sentido dor demais naquele dia. — Mandou seus capangas a perseguirem por toda a Londres-de-Baixo. Deslizou a lâmina da faca com suavidade sob o lóbulo da orelha de Richard. — Este é o dia. Door o observava. a chave é inútil. Corte a orelha dele — ordenou o senhor Croup. Fez um movimento quase imperceptível com o braço. céus. Agüente firme. Eu vou ficar bem. como se não estivesse preparado para ver as coisas desagradáveis que iam acontecer. Ele não sentiu nenhuma dor — talvez. não é? Ela nunca vai fazer isso. O senhor Vandemar ergueu a mão. — Eu disse que um dia você ia descobrir o sabor do seu próprio fígado — disse ele para Richard. Seu rosto delicado de elfo e seus grandes olhos cor de opala encheram sua visão. Tentou não fazer nenhuma careta de dor. Abra a porta para mim. O anjo olhou para ele com olhos mais antigos que a Via Láctea. Não faça o que eles querem. Tentou enviar mensagens mentais a ela. E murmurou: — Oh. E virou as costas. mas outro golpe da lâmina fez com que ele contorcesse o rosto e gemesse. senhor Vandemar. Mas percebeu o sangue quente escorrendo de sua orelha para seu pescoço. — Mande eles pararem! Eu abro a porta — pediu . e uma faca apareceu. talvez a lâmina estivesse afiada demais para que ele sentisse dor. — Vamos machucá-lo mais um pouco. Agora você quer que ela abra uma porta para que você possa invadir o Céu sozinho? Você não tem muita noção das coisas.

Ela olhava para os dois amigos. — Me dê a chave. e então ela girou a chave. A moça enfiou a chave prateada na fechadura. Ainda estava acorrentada pela mão esquerda. Door olhou para ele com desprezo. Quando retirou a mão. eu sou muito importante — retrucou o marquês. O anjo passou a chave para ela. — Lembre-se de que seus amigos estão em meu poder — disse Islington. O sangue quente caía no pescoço de Richard e fazia uma poça no vão entre suas clavículas. — Não faça isso. mas tinha certa liberdade de movimento. O senhor Croup foi até Door e soltou sua mão direita. Era. Ela ficou lá. sem dúvida. Não o liberte. e de repente a porta foi emol- . e seus olhos se demoraram nas mãos presas nos grilhões. de pé. clara e precisa como um raio laser na escuridão mal iluminada pelas velas. — Door! — gritou Richard. Uma luz branca saía do pequeno buraco. Virou-se. nas pesadas correntes que os prendiam aos pilares de ferro. emoldurada pelos pilares. Não abra a porta. Não havia fechadura. e o senhor Vandemar soltou um suspiro de pena. havia uma fechadura. achando os lugares dentro de si mesma que correspondiam aos da porta. deixando que lhe dissesse para onde ia. caminhou o máximo que a corrente permitia. Houve uma pausa. até ficar de frente para a porta de sílex e prata enegrecida. Nós não somos tão importantes assim. — Na verdade. o que podia fazer. Ela colocou a palma da mão direita sobre a porta e fechou os olhos. Esticou a mão aberta. um barulho de sinos. esfregando o punho. afastando a faca. Islington fez um gesto cortês. Ela parecia muito frágil e vulnerável. a filha mais velha de Lorde Portico.Door. Ouviu-se um “clique”. pronta para receber a chave. — Mas concordo.

que estava sendo aberta lentamente por Door. dirigindo-se ao senhor Croup. Quando eu estiver em meu trono. — Quem espera sempre alcança. os futuros cadáveres têm razão. — Isso não importa agora. como uma câmera fotográfica antiga. e disse: — Hã? O senhor Croup coçou o queixo e dirigiu-se ao senhor Vandemar: — Sim. que estava em pé. não é? — reforçou Richard. devagar.durada por uma luz.. hein? — provocou Richard. mas entrando no jogo. meu senhor? Talvez seja bom o senhor acertar conosco antes de dar início ao próximo estágio de sua viagem. — Bom. com uma voz muito calma. com os braços cruzados. Virou-se para a porta. em frente à porta. Richard ficou imaginando o que ele estaria contemplando. — Não gosto de esperar — respondeu o senhor . vocês não acreditam que vão vê-lo de novo. — Hã.. todas as recompensas que suas mentes vis desejarem serão suas. — Espero que ele tenha pagado todos os seus honorários. A garota suava. como se oferecesse grande resistência. Logo. O anjo se virou e olhou-o como se ele fosse a coisa mais insignificante do mundo. do jeito que quiserem. Foi até o anjo. tentando imaginar qual seria a intenção do marquês. matem todos eles. O senhor Vandemar piscou os olhos. então o chefe de vocês está indo embora — comentou o marquês. — Quando eu partir — disse o anjo para os assassinos. cheia de bondade e compaixão —. Croup olhou para de Carabas e disse: — Hã? — Bom. Virou as costas.

Os assassinos foram até o anjo. Richard semicerrou as pálpebras e virou a cabeça para evitar aquele clarão. Era como se estivesse sonhando acordado. A luz que vinha da fenda banhava seu rosto. recompensarei os justos e destruirei aqueles que considero abomináveis.Vandemar. e todos se juntarem ao meu redor no trono para cantar hinos em meu nome. — Vocês cobram coisas no Céu? — perguntou Richard. Nós cobramos o que nos devem. A luz que saía de lá inundava a sala. E então sentiu o vento. contemplativo. mas estava aberta. atrás deles. O senhor Vandemar se aproximou do senhor Croup: — Tudo o que nos devem. e ele a bebia como se fosse vinho. O senhor Croup balançou o dedo na direção do senhor Vandemar. — Ele está passando a gente pra trás. Quando toda a criação for minha. O anjo deu um passo à frente. — Ei! — chamou o senhor Croup. meu jovem. O ambiente ficou cheio de . Uma vela passou voando por sua cabeça e desapareceu porta adentro. — Os ganchos pra pendurar carne estão inclusos no pacote — completou o senhor Vandemar. Concentrando suas forças. Ninguém passa o senhor Croup e o senhor Vandemar para trás. É assim que é o Céu? Parece mais o Inferno. que tinha uma horrível cor laranja e roxa. Door conseguiu abrir por completo a porta negra. A visão era tão intensa que cegava: um turbilhão vertiginoso de cores e luzes. E mais outra. — Com juros — vociferou o senhor Croup. — Fico entediado. A porta estava aberta — só uma fresta. — Não temam.

O que ele via pela porta era algo que ia para baixo: não era apenas o vento que puxava tudo na direção da porta — mas a gravidade. — Não era a chave verdadeira — gritou Door. — Eu abri a porta. de uma hora para outra. percebeu que estava enganado sobre o que estava acontecendo. mais alto que a ventania. Islington agarrou o pilar ao lado da porta. sincero e gélido ódio. somente o mais puro. ou alguma outra coisa que ele não conseguia imaginar. O vento era apenas o ar na sala que estava sendo sugado para o lugar que ficava do outro lado da porta. Havia um ar de triunfo em seus olhos. . Não havia mais nenhum traço de bondade ou compaixão no rosto do anjo. — Sua bruxa maldita! O que você fez? Door segurava com firmeza as correntes que a prendiam ao pilar negro. Seus pulsos começaram a doer por causa dos grilhões — era como se. Mas era mais do que um simples vento. E ela vai dar no lugar mais distante e horrível que consegui. na direção da luz. — Não — disse com voz fria a menina de olhos cor de opala. ele pesasse duas vezes mais. — Mas a chave abriu a porta — gritou o anjo. e o senhor Croup. Seus olhos cinzentos faiscavam. Richard sabia. De repente. por sua vez. ou um buraco negro. Era como se toda a sala estivesse sendo sugada pela porta. e escorria cuspe daqueles lábios perfeitos. — Não é o Céu! — gritou ele. e seus dedos já estavam brancos de tanta pressão. agarrou o senhor Vandemar. segurando-o com desespero. Ficou tentando imaginar o que haveria lá — talvez uma estrela. — Era só uma cópia da chave que Hammersmith fez para mim no Mercado. vitoriosa.velas que giravam pelo ar. O senhor Vandemar agarrou a perna da mesa.

O anjo estava pendurado no pilar. — Eu matei a sua família. — Como você fez com a minha família? Acho que você não vai matar mais ninguém. A mesa. E agora vou terminar o que. Richard rezou para que suas correntes e grilhões o mantivessem preso. O senhor Croup despencou. — Pare! Feche a porta. E Islington foi sugado pela porta: parecia cada vez menor. Os dois assassinos ficaram pendurados.. aos poucos. diminuindo à medida que caía no abismo luminoso. respirou fundo e começou a escalar. A situação parecia ao mesmo tempo cômica e terrível. O senhor Vandemar olhou para a figura que caía. A mesa rangia. voou pelos ares e ficou presa na porta. O senhor Croup.. feito uma marionete sendo sugada por um aspirador de pó. viu o marquês pendurado em suas correntes. cuja perna o senhor Vandemar segurava bem firme. metade dele já dentro da porta. Depois olhou para Door. Não ele. Encolheu os ombros. do melhor jeito possível para alguém que está segurando a . os dedos embranquecidos pelo esforço... Podia sentir que estava sendo sugado para a porta e. Door o ignorou. no vazio. Foi nesse momento que o tecido do paletó rasgou. com o canto dos olhos. as costas dele. A força que os puxava estava aumentando. mas não havia nenhum ar de ameaça em seus olhos. Eu conto onde está a sua irmã. que estava agarrando a barra da roupa do senhor Vandemar.— Eu mato você — gritou Islington para ela. gritando. O senhor Croup olhou para Door e sorriu feito uma raposa... ela ainda está viva. mas seu corpo estava a noventa graus do chão. segurando um pedaço de tecido escuro.

O som da porta negra batendo tomou conta de tudo.. mas parecia uma voz muito . Em silêncio. não fez a menor diferença. e então o ponto escuro também sumiu. Fazia certo sentido. A mesa que estava presa na porta rachou ao meio e foi sugada. e então disse. os dois eram um time. Um dos grilhões de Richard se abriu e seu braço direito ficou balançando. Abriu-os mais uma vez. pensou Richard: afinal de contas. feliz porque o dedo quebrado estava na mão ainda acorrentada. perguntando. por causa da escuridão. Estava ficando mais difícil de respirar. indiferente: — Para onde você os mandou? E então Richard ouviu a voz de uma moça. roxa e laranja. diminuindo conforme caía na direção do pequeno ponto que era o senhor Croup. Ouvia a própria voz à distância. Logo as duas figuras viraram um único ponto escuro num mar de luz branca.perna de uma mesa para não morrer. gritando de dor. Sabia que só podia ser a voz de Door. E soltou-se. Uma luz branca explodia do outro lado de suas pálpebras fechadas. Não conseguia respirar. Richard se sentiu zonzo. Fez-se silêncio na sala — silêncio e a mais completa escuridão naquele grande salão sob a terra. Richard fechou os olhos. com voz suave: — Tchauzinho. Agarrou a corrente que prendia sua mão esquerda. Podia sentir a corrente começando a ceder. Richard despencou com violência contra o pilar frio de ferro e caiu no chão.. Mesmo assim. mas. mergulhou pela porta para dentro da luz. sentia a dor tomando o seu braço esquerdo. O silêncio foi rompido pela voz do marquês. o mais forte que conseguia.

para a frente e para trás. abraçando-a. O marquês de Carabas observou as crianças que dormiam. a um estado tão próximo da morte — o assustava muitíssimo. Ouviu-se um “clique” no escuro: o som de um grilhão se abrindo.. Alguém tinha que falar. como a de uma criança que foi posta na cama para dormir ao fim de um longo e cansativo dia. Era bom que ele falasse. Tocou suas correntes e os grilhões se abriram. — Eu não sei. mas logo o calor do sono chegou e envolveu os dois. muito cansada agora. solfejando baixinho uma canção de ninar sem palavras. Ela foi até Richard e tocou no único grilhão que o prendia. Estou. até o marquês.. estremecendo naquele ar abafado. Door caminhou... até ele apoiou sua cabeça no braço e fechou os olhos. Alguém acendeu uma vela: a chama era fraca. E não havia mais olhos abertos no escuro. Esticou a mão. segurando a vela.. Door suspirou e sentou-se ao seu lado. . Ele esticou o braço que não doía e apoiou a cabeça dela. um lugar bem longe. Ninava-a devagarinho. seguido do barulho de correntes batendo contra um pilar de metal. cambaleando. — Door. mesmo que por um curto período de tempo.infantil. e não conseguia se lembrar por quê. Ele se abriu.. E o ruído de um fósforo sendo aceso. O calor do lar e a luz das velas. Eu. concentre-se! — disse o marquês... e Richard não se lembrava mais como falar. pensou Richard. Mas. De Carabas massageou os pulsos. pensou Richard. A idéia do sono — de voltar. Fazia muito frio no salão vazio. por fim.

com as pernas presas embaixo do corpo da enorme criatura semelhante a um javali. ensangüentado e em estado lamentável. segurando uma grande lamparina. Seus olhos estavam fechados. andava à frente. Sua criada de cintura de vespa. .DEZOITO LADY SERPENTINE. trazendo consigo a lamparina. um vulto grande e escuro. seguiam atrás dela. Quando a criada de Serpentine se aproximou. As duas aias que andavam atrás dela se apressaram. caminhava pelo labirinto que ficava além de Down Street. até chegar a seus lábios escurecidos pelo sangue. QUE ERA A SEGUNDA MAIS VELHA DAS SETE IRMÃS. em uma grande poça de sangue vermelho. A luz tinha sido refletida por uma comprida lança de bronze. Ali era o local mais distante de sua casa em que estivera por mais de cem anos. Serpentine se ajoelhou e percorreu um dedo pelo rosto frio de Hunter. vestidas da mesma maneira. vestida da cabeça aos pés em roupas de couro preto. As aias tiraram o corpo debaixo da Besta e o deitaram na lama. onde deixou o dedo ficar por alguns segundos. mas ela não se importava. jazia de costas. a cabeça altiva. o vulto se delineou. O corpo de Hunter. a uma distância respeitosa. Duas das outras aias de Serpentine. — Lá está — disse. A longa cauda de renda do vestido de Serpentine se arrastava no pântano. meio enterrado na lama. retorcido. Viu algo que refletiu a luz da lamparina e. ao seu lado. atrás apenas de Olympia. correndo pela lama. suas botas de couro branco pisando na lama úmida. Então se levantou.

— Tragam a lança — disse Serpentine. Uma das aias pegou o corpo de Hunter. A outra puxou a lança da carcaça da Besta e a colocou sobre o ombro. As quatro mulheres se viraram e voltaram pelo mesmo caminho por onde vieram, em uma procissão silenciosa nas profundezas do mundo. A luz da lamparina tremeluzia no rosto envelhecido de Serpentine, mas ele não revelava nenhuma emoção — nem tristeza, nem felicidade.

DEZENOVE
POR UM INSTANTE, AO ACORDAR, ELE NÃO TINHA IDÉIA DE QUEM FOSSE. Era uma sensação de grande liberdade, como se estivesse livre para ser o que quisesse, para experimentar uma nova identidade. Podia ser qualquer coisa: homem ou mulher, rato ou ave, monstro ou deus. Ouviu um ruído de tecido roçando. Ao acordar, descobriu que era Richard Mayhew, o que quer que isso fosse, o que quer que significasse. Ele era Richard Mayhew e não sabia onde estava. Alguém pressionava um pano áspero contra o seu rosto. Seu corpo todo doía — alguns lugares (como o dedo mindinho de sua mão esquerda, por exemplo) doíam mais que os outros. Havia alguém por perto. Richard podia ouvir a respiração e os suaves ruídos de uma pessoa no mesmo aposento em que ele estava, tentando ser discreta. Richard ergueu a cabeça e descobriu que mais lugares doíam. Alguns muitíssimo. Longe dali, a salas e salas de distância, pessoas cantavam. Era uma canção tão distante e calma que ele sabia que deixaria de ouvi-la se abrisse os olhos — uma música melódica e grave... Abriu os olhos. Era um quarto pequeno, mal iluminado. Estava deitado sobre uma cama baixa, e o ruído que ouvira era feito por uma figura vestindo um capuz e uma túnica negra, virada de costas para Richard. A pessoa estava limpando o quarto com um espanador de pó colorido que não combinava com nada ali. — Onde estou? — perguntou. A pessoa quase derrubou o espanador de susto, e

então se virou, revelando um rosto fino e apreensivo, de pele escura. — O senhor gostaria de um pouco d’água? — perguntou o Monge Negro, como se tivesse sido instruído a perguntar aos pacientes se eles gostariam de beber água quando acordassem e houvesse repetido a frase para si mesmo pelos últimos quarenta e cinco minutos para não se esquecer dela. — Eu... — e Richard se deu conta de que estava morrendo de sede. Sentou-se na cama. — Sim, obrigado. O monge encheu um velho copo de metal com a água que estava em uma velha jarra também de metal e o entregou a Richard. Ele bebeu devagar, resistindo ao impulso de tomar tudo de uma vez só. Era cristalina e fria, e ele sentia como se estivesse bebendo gelo e diamantes líquidos. Richard se examinou. Suas roupas tinham sumido. Alguém vestira nele uma túnica comprida, como um dos hábitos dos Monges Negros, mas na cor cinza. Seu dedo quebrado tinha agora uma tala envolta em ataduras. Ergueu a mão até a orelha: encontrou um curativo, e sentiu que havia pontos embaixo dele. — Você é um dos Monges Negros — disse Richard. — Sim, senhor. — Como eu cheguei aqui? Onde estão os meus amigos? O monge apontou para o corredor, sem palavras, nervoso. Richard se levantou da cama. Olhou embaixo de sua túnica: estava nu. Seu tronco e suas pernas estavam cobertos por diversos hematomas azuis e roxos, e sobre todos eles parecia haver algum tipo de ungüento — o cheiro lembrava xarope para tosse e torrada com manteiga. Havia ataduras em seu joelho direito. Ficou pensando onde estari-

am suas roupas. Encontrou sandálias ao lado da cama. Ele as calçou e saiu para o corredor. O abade estava vindo em sua direção, segurando o braço do irmão Fuliginous, a cor perolada de seus olhos cegos visível sob o capuz. — Então você acordou, Richard Mayhew. Como está se sentindo? Richard fez uma careta. — Minha mão... — Já cuidamos do seu dedo. Estava quebrado. Tratamos seus cortes e hematomas. E você precisava descansar. Cuidamos disso também. — Onde está Door? E o marquês? Como chegamos aqui? — Eu mandei trazê-los. Os dois abades recomeçaram a andar pelo corredor, e Richard os acompanhou. — Hunter... Vocês pegaram o corpo dela? O abade balançou a cabeça. — Não havia nenhum corpo. Somente o da Besta. — Ah. Hã... As minhas roupas... Chegaram à porta de uma cela, muito semelhante àquela em que Richard estivera dormindo. Door estava sentada na beira da cama, lendo uma edição de Mansfield Park que, Richard tinha certeza, nem mesmo os monges sabiam que tinham. Ela também estava vestida com uma túnica cinza, que era muito grande para ela, o que lhe dava um ar quase cômico. Door olhou para cima quando eles entraram. — Olá! Você dormiu bastante tempo — disse ela. — Como está se sentindo? — Bem, eu acho. E você? Ela sorriu. Não era um sorriso muito convincente. — Um pouco abalada, ainda — admitiu.

Ouviu-se um som alto e metálico no corredor. Richard se virou e viu o marquês de Carabas sendo trazido na direção deles em uma cadeira de rodas antiga e bamba, conduzida por um grande Monge Negro, o irmão Tenebrae. Richard ficou imaginando como o marquês fazia para conseguir aquele ar de espadachim saído de um livro ao ser empurrado em uma cadeira de rodas. De Carabas deu um enorme sorriso. — Olá, meus amigos. — Agora que vocês estão todos aqui, precisamos conversar — disse o abade. Levou-os para uma grande sala, aquecida por um fogo feito com restos de madeira. Ficaram ao redor de uma mesa. Com um gesto, o abade pediu que se sentassem. Ele tateou até encontrar sua cadeira e se sentou também. E então fez com que os dois monges saíssem da sala. — Bom, então vamos começar. Onde está Islington? Door encolheu os ombros. — Ele foi para o lugar mais distante ao qual consegui enviá-lo. Entre o espaço e o tempo. — Entendo — disse o abade. E depois completou: — Muito bom. — Por que o senhor não nos alertou sobre ele? — perguntou Richard. — Não era nossa responsabilidade. — Humpf— fez Richard. — E agora? O que vai acontecer? O abade não disse nada. — Acontecer? Como assim? — indagou Door. — Bom, você queria vingar a sua família. E conseguiu. Mandou todo mundo que estava envolvido para um lugar no meio do nada. Digo, ninguém mais vai tentar te matar, não é?

— Por enquanto, não — respondeu, séria. — E você? Conseguiu o que queria? — perguntou Richard ao marquês. De Carabas fez que sim. — Acredito que sim. Minha dívida para com Lorde Portico foi paga, e agora Lady Door me deve um grande favor. Richard olhou para Door. Ela concordou. — E quanto a mim? — Bom, a gente não teria conseguido sem você. — Não foi isso que eu quis dizer. E quanto a eu voltar para casa? O marquês ergueu uma sobrancelha. — Quem você acha que ela é? O Mágico de Oz? Não podemos mandar você para casa. Você mora aqui, agora. — Eu tentei te dizer isso antes, Richard — lembrou Door. — Deve haver um jeito! — exclamou, batendo com a mão esquerda na mesa para dar mais ênfase. Machucou o dedo, mas deixou o rosto impassível. E depois murmurou um “ai” bem baixinho, porque já tinha passado por coisas muito piores. — Onde está a chave? — perguntou o abade. Richard inclinou a cabeça apontando para o lado: — Door. Ela balançou sua cabecinha de elfo. — Não está comigo. Eu coloquei a chave no seu bolso no último Mercado. Quando você trouxe o curry. Richard abriu a boca e a fechou em seguida. Aí abriu-a mais uma vez e disse: — Você quer dizer que quando eu disse ao Croup e ao Vandemar que estava comigo e que eles podiam me revistar... a chave estava mesmo comigo?

Ela fez que sim. Ele se lembrou do objeto duro que tinha no bolso de trás, na Down Street. Lembrou-se de quando ela o abraçara no Mercado sobre o navio... O abade esticou a mão. Seus dedos marrons e enrugados pegaram um pequeno sino que havia sobre a mesa. Tocou o sino, chamando o irmão Fuliginous. — Pegue as calças do Guerreiro — ordenou-lhe. Fuliginous concordou e saiu da sala. — Não sou um guerreiro — disse Richard. O abade sorriu docemente. — Você matou a Besta — explicou ele, meio desapontado. — Você é o Guerreiro. Richard cruzou os braços, irritado. — Então, depois de tudo isso, eu não posso ir para casa. Mas como prêmio de consolação, eu entrei para uma arcaica lista de honra do Submundo. É isso? O marquês tinha um ar de indiferença. — Você não pode voltar para a Londres-de-Cima. Algumas pessoas conseguem viver pela metade, meio lá, meio cá, como Iliaster e Lear, que você conheceu. Mas isso é o máximo que pode esperar. E não é uma vida boa. Door esticou a mão e tocou o braço de Richard. — Desculpe. Mas veja só quantas coisas boas você fez. Pegou a chave para nós. — Bom, e de que adiantou isso? Você fez uma chave nova... Foi interrompido pela chegada do irmão Fuliginous, que trazia seus jeans: estavam rasgados, enlameados, fedorentos, sujos de sangue. O monge deu as calças para o abade, que começou a remexer nos bolsos. Door sorriu, com doçura, dirigindo-se a Richard: — Hammersmith não poderia ter copiado a chave

sem a original. O abade pigarreou e disse, em tom educado: — Vocês são todos muito tolos e não sabem de nada. Ele pegou a chave de prata, que refletia a luz do fogo. — Richard superou a Provação da Chave. Ele é seu mestre e senhor até que ela volte para nós. A chave tem poder. — É a chave do Céu... — balbuciou Richard, sem saber ao certo o que o abade queria dizer, o que queria provar. A voz do velho era grave e melódica. — Ela é a chave de toda a realidade. Se Richard quiser voltar para a Londres-de-Cima, a chave pode levá-lo para lá. — Simples assim? — perguntou Richard. O velho fez que sim com um movimento de cabeça, debaixo das sombras de seu capuz. — Então quando eu posso ir? — Assim que estiver pronto — respondeu o abade. *** Os monges tinham lavado e consertado as roupas de Richard e as devolveram para ele. O irmão Fuliginous o conduziu pelo mosteiro e subiu com ele uma série de escadas até a torre do sino. Lá havia um pesado alçapão de madeira. O monge o destrancou e os dois entraram em um túnel estreito, cheio de teias de aranha, com degraus de metal em uma das paredes. Subiram os degraus, caminhando pelo que parecia ser algumas centenas de metros, e saíram numa plataforma de metrô toda empoeirada.

Havia uma linha vermelha enrolada na base da pena. e que talvez as despedidas fossem algo com que de Carabas tivesse dificuldade de lidar. Obrigado — disse Richard. um lugar imaginário. como a do Museu Britânico. Algo tremulava na escuridão do túnel. Só queria dizer que. A figura redonda e envolta em penas de Old Bailey saiu do escuro. Toma. Depois ela disse que tinha algum cisco no olho. tenho uma coisa aqui para você. como a Blackfriars. . Enfiou a mão no bolso do casaco e tirou de lá uma grande pena negra que tinha um brilho azul-roxo-verde. — Tem alguém aí? — gritou Richard. — Ah. ela respondeu que não sabia o motivo.. Ficou pensando que tipo de estação era aquela: não parecia abandonada. alguma coisa branca. Estava agitando o lenço de Richard. sem saber o que faria com aquilo. e aí deu a ele um papel com instruções sobre o itinerário e foi embora. nem real. como confortar as pessoas. Ficou pensando por que o marquês não se despedira dele. parecendo constrangida e envergonhada.. Old Bailey sorriu. Quando Richard perguntou a Door. Richard esperou na plataforma por vinte minutos. sem graça. Era um lenço amarrado em um graveto. Era. uma estação fantasma.NIGHTINGALE LANE diziam as velhas placas na parede. apontando para o lenço. — É a minha bandeirinha — disse ele. — Que bom que você achou utilidade para ele.. na verdade. esquecido e estranho.. Desceu pela lateral da parede e desapareceu. esperar ali que logo viriam buscá-lo. O irmão Fuliginous desejou tudo de bom a Richard e disse-lhe para. e suava. — Bom.

O conde estava sentado no fim do vagão. — Quem está aí? — perguntou o conde. Richard subiu no trem e eles o seguiram. Richard colocou a pena em seu bolso. Mas dos telhados. — Richard Mayhew. Richard os reconheceu: eram Dagvard e Halvard. O trem freou na estação. Um vento morno passou pelo túnel. — O Guerreiro? O Conde coçou sua barba ruiva e grisalha. e nenhuma das portas se abriu. — Uma boa pena. Não havia mais ninguém no vagão além deles. De mim para você. era esse o nome dele. Os faróis estavam apagados e não havia ninguém na cabine de comando.— É uma pena — explicou Old Bailey. Apertou a mão de Richard e se foi. — Eu não pego trem. Richard caminhou até o trono. Aliás. E é de graça. Mas não conseguia distinguir um do outro. Os dois levaram as cometas à boca e tocaram uma fanfarra desafinada. acariciando um enorme cão. Dois cavalheiros miúdos e idosos. Bom. saíram do trem e ficaram na plataforma. Uma lembrança. O conde o olhou de . Richard bateu na porta à sua frente. inundando a estação imaginária com uma luz morna e amarela. Um presente. mas sincera. esperando que fosse a certa. lembrou Richard — estava a seu lado. da Corte do Conde. segurando cada um uma corneta cor de cobre. achava que nunca tinha conseguido. — Sim. — É ele. Ela se abriu. não abro mão. — Tragam-no aqui. Um suvenir. — É o seu trem — disse Old Bailey. Um trem se aproximava. pensativo. O bobo da corte — Tooley. Aquele que matou a Besta. Um jeito de agradecer. você é muito gentil. meu senhor — respondeu o bobo da corte. Parou por completo: todos os vagões estavam à escura.

. meio desconfiado. pegando-a. e assim por diante.. é. e o conde tocou a faca suavemente em cada um de seus ombros. O conde esticou a mão. Sua Graça.. meu sobrenome é Mayhew. — Desculpe. Richard pôs a mão no cinto e tirou de lá a faca que Hunter havia lhe dado. . et cetera. — Dê-me sua espada.. Mas o trem já estava parando. Richard pôs um joelho no chão. — Achava que você fosse mais alto — comentou. sim — respondeu o velho. em uma voz retumbante. — Ajoelhe-se — disse Tooley. O que foi mesmo que o Bardo disse? E então recitou. A voz do conde foi sumindo.. sem nenhum impedimento. Com esta adaga permito que você seja livre no Submundo. apontando para o chão. destemido e devotado defensor. Sir Richard of Maybury.cima a baixo. ritmada e cheia de aliterações: — Clama o corte na carcaça. blablablá. afinal. — Bom. rapaz. Tooley? — Não exatamente.. o mais másculo dos meninos.. lanceia lentamente o inimigo. — Obrigado — disse Richard. como se nunca o tivesse visto antes. Você terá permissão para andar livremente... Estamos aqui para fazer as honras ao jovem Mayflower. O velho ficou em pé e dirigiu-se ao vagão vazio: — Boa noite. — Isto serve? — Sim.. Mas ele não é mais um menino. melhor andar logo com isso. — Levante-se. — Na verdade. em um sussurro.

Os ratos são seus amigos. *** O lugar em que ele desceu não era uma estação do metrô. sim — disse o Lorde. sim. só por garantia. lembrava um pouco a St. aquele cinza forçado que só se vê bem antes de amanhecer e por alguns instantes depois que o sol se põe. com cautela. Não guardamos rancor. — Ora. analisou Richard. Sim. — Obrigado. Ficava na superfície e. Richard o reconheceu: era o Lorde Falante de Ratês. Se precisar de nós. Parecia um figura ao mesmo tempo cômica e antipática. um gesto que Richard vira apenas nas adaptações de romances clássicos para a TV. Arrumou o cacho de cabelo sobre sua testa. ora. deu-lhe um tapinha nas costas e apontou a porta.— Você desce aqui — informou o conde. Havia um homem sentado em um banco de madeira. cuidaremos de você. por causa da luz do crepúsculo. se era alguém que já vira antes. observando-o. Richard ainda segurava a faca de Hunter — sua faca. sem saber. A luz era estranha. agitado. começando a falar pelo meio da frase. aqueles momentos em que o mundo se dissolve na penumbra e é impossível discernir corretamente a cor e a distância. na verdade — e agora apertava o cabo com mais força. mesmo assim. Mas também havia uma esquisitice que de certa maneira tornava aquele lugar parte da Londres-de-Baixo. Devolveu a adaga para Richard — a faca de Hunter —. Richard foi até ele. E os falantes de ratês. . Anaesthesia. O homem ergueu a cabeça enquanto Richard se aproximava e ficou depressa em pé. Pancras Station — havia um certo exagero no tamanho e um ar pseudogótico na arquitetura. a moça. — Só para constar.

ele pudesse assustá-las com a arma. se elas o atacassem. Folhas mortas de outono dançavam no meio de uma praça aberta. Richard a abriu. Ele tinha a faca. mas conseguia lutar tão bem com ela quanto dar um salto impossível para o outro lado do Tâmisa. Ele viu uma pequena movimentação naquela semi-escuridão e. Richard ergueu sua faca. O som das folhas ao vento era bem mais alto do que o daquelas pálidas mulheres. incluindo sua carteira. um redemoinho amarelo. Dê uma olhada. almíscar. virou-se. o barulho metálico de jóias de prata. aqui e ali. Fechou o zíper da mala. e iam em sua direção quase em silêncio — o único ruído era o farfalhar do veludo escuro e. Lamia tomou a dianteira do grupo das Veludos e deu um passo à frente. Elas o observavam com olhos famintos. Havia mais ou menos uns dez vultos no corredor atrás dele. Richard ficou com medo. é verdade. sem agradecer ou olhar para trás. daquela sensação . Era uma mala muito familiar.Anaesthesia irá levá-lo. lírio. uma explosão repentina de cor naquela luz fraca. Podia sentir no ar o cheiro de madressilva. Richard saiu da estação e desceu alguns degraus de pedra. sobre uma calça jeans dobrada com cuidado. Todas as suas posses estavam lá. nervoso. — Está tudo aí. lembrou-se Richard. Tudo mesmo. com cautela. Ela é descartável. jogou-a sobre o ombro e afastou-se do homem. Richard atravessou a praça e desceu alguns degraus até uma passagem subterrânea de pedestres. O Lorde Falante de Ratês se remexeu no banco e deu a Richard uma mala de artigos esportivos de vinil preto. lembrando-se da paixão gélida do abraço dela. marrom e ocre. com zíper. Esperava que. Tudo estava em silêncio e vazio.

mas ainda eram feitas de tafe- . mas a luz era estranha: de alguma maneira. Ele não percebera que ela havia se aproximado. e Richard observou o amanhecer sobre as florestas. saindo no topo de um pequeno morro verdejante. Estava amanhecendo. não havia nada ali além das sombras. sem saber exatamente como. faias. que ainda estava em Londres. Quando Richard olhou de novo. O céu começava a clarear. isolando-o em seu pequeno morro. *** Atravessou a passagem subterrânea e subiu alguns degraus. Ela usava roupas diferentes por baixo de seu casaco de couro marrom. onde seriam as Docklands. Fechou a mala. deu-se conta de que estava em algum tipo de ilha — dois rios menores desembocavam no rio maior. mas com absoluta certeza. — Olá — disse Door. mas Londres como talvez havia sido três mil anos antes. com doçura. Abriu o zíper da mala e guardou a faca ao lado da carteira. Algo se moveu na escuridão da passagem subterrânea. e ele começou a distinguir os detalhes do cenário ao redor: um carvalho quase sem folhas. Um rio limpo e largo corria suave pelo campo verde. era uma luz mais jovem que a luz do sol a que ele estava acostumado — talvez mais pura. antes que a primeira pedra da primeira habitação humana tivesse sido colocada no chão. Ele estremeceu. Ela sorriu e inclinou a cabeça. Um sol vermelho e alaranjado se erguia a leste. identificáveis pelo formato dos troncos.que lhe causara. Olhando em volta. tanto prazer e frio. ao mesmo tempo. Aproximou seus dedos da boca e jogou um beijo para Richard. Sabia. ou mais até. freixos. o mar e os brejos que ele achava que eram Greenwich e Kent.

seda e brocado e estavam rasgadas. Seus passos deixaram um rastro verde escuro na grama. — Agora que o anjo se foi. mas ele não achou que já tivesse ouvido aquela frase antes.. desabafou em uma torrente: — Você foi um ótimo amigo. Richard. Começaram a andar juntos pela grama comprida. — Bom.. Talvez eu não seja a única que restou da minha família. afastando-se do Tâmisa. remendadas e dispostas em camadas. úmida e esbranquiçada pelo gelo que derretia. você ouviu Islington dizer que deixou minha irmã viva só por segurança. indicando de onde vieram. Mais de uma vez. Por favor. renda. que segurava a mala.. Era como se ela estivesse citando algum escritor. de leve.tá. — Na fantástica e terrível ilha de Westminster. eu também passei a gostar de ter você por perto. Ela ficou a seu lado e enfiou seus pequenos dedos na mão direita dele. — Olá — respondeu Richard. E você salvou a minha vida. — Richard. Seu cabelo ruivo e curto brilhava à luz do amanhecer como cobre polido. Ele apertou a mão dela. Na minha Lon- . — Onde nós estamos? — perguntou ele. Imagino que devo tentar terminar o que ele começou. Meu pai queria uni-la. Gaivotas brancas deslizavam pelo ar e piavam no céu acima deles. E eu meio que comecei a gostar de ter você por perto. Mas eu não pertenço a este mundo. não vá. preciso fazer muitas coisas na Londres-de-Baixo.. Estavam caminhando para o norte. — Escuta — disse ela. de mãos dadas. Ela fez uma pausa e. em seguida.

Ela estava lá em cima. Mas ele não se importava nem um pouco. — A chave está aí? Ele colocou a mala no chão e remexeu no bolso de trás com a mão que não estava ferida. A luz dourada resplandecia na chave. Em vez disso.. olhou para trás. . as bochechas brilhando de lágrimas. azulados. Ele começou a descer o pequeno morro. que a segurou diante de si. Tirou a chave e passou para ela. fazendo com que todos os seus hematomas reclamassem violentamente. — Foi muito bom te conhecer. afastando-se das águas azuis do Tâmisa. afinal. Mas preciso ir para casa. também apertado. séria. Ela piscava os olhos bem rápido. Ela o olhou com seus olhos de cor estranha.. — disse ele. Uma gaivota cinzenta passou por ele. o que fez com que os hematomas do lado de suas costelas doessem. Quando chegou à base do morro.dres. bem. esverdeados. Não olhe para trás. Eu também gosto de você. ela perguntou: — Você está pronto? Ele fez que sim. Richard ficou pensando se ela fingiria mais uma vez que estava com um cisco no olho. a silhueta delineada pelo sol que nascia. — Pronto... — Obrigada por tudo — ela disse. Gosto muito. — Acho que não. Jogou os braços em volta dele e o apertou bem forte. — Bom. lá a coisa mais perigosa que pode acontecer é você ser atropelado por um táxi se estiver com pressa. cor de fogo: — Então nós não vamos mais nos ver. Basta entrar. como se a inserisse em uma porta imaginária. Ele a abraçou de volta.

com um movimento resoluto. *** O mundo escureceu e um rugido baixo encheu a cabeça de Richard.Door virou a chave. como o rosnado de mil feras ensandecidas. .

VINTE
O MUNDO ESCURECEU E UM RUGIDO BAIXO ENCHEU A CABEÇA DE Richard, como o rosnado de mil feras ensandecidas. Piscou na escuridão e segurou sua mala bem firme. Ficou pensando se não seria melhor não ter guardado a faca. Algumas pessoas esbarraram nele no escuro, enquanto passavam. Richard se assustou. Havia alguns degraus à frente. Ele começou a subir e, enquanto subia, o mundo foi delineando-se, tomando forma. O rugido baixo era o barulho do tráfego da Trafalgar Square, na qual ele saía por uma passagem de pedestres. O céu tinha o tom azul perfeito de uma tela de televisão ligada em um canal fora do ar. Era o meio da manhã de um dia quente de outubro, e ele ficou parado na praça segurando sua mala e piscando por causa da luz do sol. Táxis pretos, ônibus vermelhos e carros de diversas cores passavam, enquanto turistas jogavam ração para as legiões de pombos rechonchudos e tiravam fotos da Nelsons Column e dos grandes leões Landseer ao lado dela. Atravessou a praça, tentando imaginar se aquilo seria real ou não. Os turistas japoneses o ignoraram. Tentou falar com uma linda menininha loira, que riu, balançou a cabeça e disse algo em uma língua que Richard pensou ser italiano, mas na verdade era finlandês. Havia uma criança pequena, de sexo indeterminado, com os olhos fixos nos pombos enquanto devorava uma barra de chocolate. Ele se agachou perto dela. — Hã... oi, criancinha — disse Richard. A criança sugava concentrada a sua barra de chocolate e não deu nenhum sinal de que percebia Richard como

outro ser humano. — Olá — repetiu ele, com uma voz um pouco desesperada. — Você está me vendo? Ei! Oi! Dois olhinhos pequenos no rosto lambuzado de chocolate voltaram-se para ele. E então o lábio inferior da criança começou a tremer e ela correu, jogando os braços ao redor da mulher mais próxima, choramingando: — Mamãe! Aquele homem tá me assustando! A mãe da criança se virou para Richard com uma expressão muito zangada. — O que você está fazendo? Perturbando a minha filha? Existe um lugar para gente feito você! Richard começou a sorrir. Era um sorriso largo, feliz. — Eu sinto muitíssimo — desculpou-se, sorrindo feito o gato de Cheshire. E então pegou a alça da mala e correu pela Trafalgar Square, espantando vários pombos, que voaram assustados. *** Richard pegou seu cartão da carteira e o inseriu no caixa automático. A máquina reconheceu sua senha, aconselhou-o a manter segredo e a não revelá-la a ninguém, e perguntou que operação gostaria de realizar. Ele pediu dinheiro e a máquina lhe deu uma grande quantidade de notas. Deu um soquinho de satisfação no ar, e então, encabulado, fingiu que estava chamando um táxi. Um táxi parou para ele — parou! para ele! —, ele entrou no carro, sentou-se no banco de trás e sorriu. Pediu ao motorista para o levar ao seu escritório. E quando o taxista salientou que talvez fosse mais rápido ir a pé, Richard sorriu mais ainda e disse que não se importava. E assim que estavam a caminho ele pediu — praticamente implorou — que

o motorista despejasse sobre ele suas opiniões a respeito dos Problemas de Tráfego, da Melhor Maneira para Lidar com O Crime e dos Assuntos Políticos do Dia. O taxista o acusou de estar zombando dele e ficou calado e de mau humor durante os cinco minutos da viagem. Richard não se importou. Deu uma gorjeta absurda para ele mesmo assim. E entrou no prédio onde trabalhava. Enquanto entrava, o sorriso que tinha no rosto começou a diminuir. A cada passo que dava ele se sentia mais ansioso, mais desconfortável. E se ele não tivesse mais um emprego? Que importava se criancinhas lambuzadas de chocolate e taxistas pudessem vê-lo se, por algum terrível azar, ele continuasse invisível para seus colegas? O senhor Figgis, o segurança, tirou os olhos do último número de Ninfetas Safadas, que estava escondido no meio de uma edição do Sun, e fungou. — Bom dia, senhor Mayhew. Não era um “bom dia” de boas-vindas. Era mais aquele tipo de “bom dia” em que a pessoa não se importava de verdade se a outra estava morta ou viva — nem, aliás, se era de manhã ou não. — Figgis! — exclamou Richard, maravilhado. — Olá para você também, Figgis! Você é um segurança fantástico! Ninguém jamais dissera algo parecido para o senhor Figgis antes, nem mesmo as moças nuas em sua imaginação. O porteiro ficou olhando desconfiado para Richard até ele subir no elevador e sumir de vista, e depois voltou sua atenção para as ninfetas safadas, as quais, começava ele a suspeitar, já estavam acima dos 29 anos de idade havia muito tempo, tivessem ou não um pirulito nas mãos. Richard saiu do elevador e percorreu, meio hesitante, o corredor. Tudo vai ficar bem, dizia para si mesmo, se minha mesa estiver lá. Se minha mesa estiver lá, tudo vai ficar bem. Entrou

na grande sala cheia de cubículos em que passara grande parte do tempo nos últimos três anos. As pessoas trabalhavam em suas mesas, falavam ao telefone, procuravam papéis em arquivos de gaveta, bebiam chá ruim e um café pior ainda. Era sem dúvida o seu escritório. O lugar perto da janela, onde sua mesa antes ficava, estava ocupado por vários gabinetes de arquivo e uma planta. Richard estava prestes a se virar e sair correndo quando alguém pôs na sua mão um copinho de isopor com chá. — A volta do filho pródigo, hein? — disse Gary. — Toma. — Oi, Gary. Onde está a minha mesa? — Por aqui. Foi legal lá em Maiorca? — Maiorca? — Você não vai sempre pra Maiorca? Estavam subindo as escadas dos fundos que levavam ao quarto andar. — Não, não desta vez. — É, eu ia dizer que você não está muito bronzeado mesmo. — Não — concordou Richard. — Bom... sabe como é. Precisava mudar um pouco. Gary fez que sim, concordando. Apontou para uma porta onde, durante todo o tempo em que Richard estivera lá, ficavam os arquivos e suprimentos. — Mudar, hein? Bom, você sem dúvida tem uma bela mudança a que se acostumar agora. Posso ser o primeiro a te dar os parabéns? A placa na porta indicava: R. O. MAYHEW SÓCIO MINORITÁRIO — Seu sortudo desgraçado — disse Gary, com afeto. Gary se foi e Richard entrou pela porta, confuso. A

sala não estava mais cheia de suprimentos e arquivos: tinha sido pintada de cinza, preto e branco e o carpete era novo. No centro, havia uma grande mesa. Ele a examinou: era, sem dúvida, sua própria mesa. Seus trasgos haviam sido guardados com cuidado em uma das gavetas, e ele os tirou de lá e os dispôs pelo ambiente. Agora tinha sua própria janela, com uma bela vista do rio sujo e marrom e da parte sul do Tâmisa, ao longe. Havia até mesmo uma grande planta verde, daquele tipo que parece artificial mas não é. Seu computador velho, empoeirado e amarelado tinha sido substituído por um mais limpo, leve e preto, que ocupava menos espaço na mesa. Foi até a janela e tomou seu chá, observando o rio sujo lá embaixo. — Está tudo certinho aí, então? Ele levantou a cabeça para ver quem era. Sempre eficiente, Sylvia, a “enfermeira do chefe”, estava de pé na porta do escritório. Ela sorriu quando ele olhou para ela. — Ah... Sim. Olha... Tem umas coisas que eu preciso resolver em casa. Será que teria problema se eu tirasse o dia de folga e... — Como quiser. De qualquer maneira, você só precisa voltar ao trabalho amanhã mesmo. — Ah, é? Certo. Sylvia franziu a testa. — O que aconteceu com o seu dedo? — Quebrei. Ela olhou sua mão, preocupada. — Você não se meteu numa briga, certo? — Eu? Ela sorriu. — Estou brincando. Foi numa porta? Aconteceu a mesma coisa com a minha irmã.

— Não — admitiu Richard. — Eu estava numa brig... Sylvia ergueu uma sobrancelha. — Foi numa porta — concluiu ele, de jeito pouco convincente. Pegou um táxi para ir até o prédio onde morava antes. Ele não estava confiante o bastante para pegar o metrô. Ainda não. Como não tinha chave, bateu na porta de seu apartamento e ficou muito desapontado quando se viu frente a frente com a mulher que lembrava ter encontrado (apesar de ela não o ter visto) em seu banheiro. Ele se apresentou como o inquilino anterior e logo ficou sabendo que ele, Richard, não morava mais ali e que ela, a senhora Buchanan, não tinha a mínima idéia sobre que fim tinham levado os pertences dele. Richard anotou algumas coisas e então se despediu dela, com educação. Pegou outro táxi para ver o homem com casaco de pêlo de camelo. O homem sereno que usava casaco de pêlo de camelo não estava usando o casaco de pêlo de camelo e, na verdade, estava muito menos sereno do que da última vez que o vira. Estavam sentados em seu escritório, e ele tinha ouvido as reclamações de Richard com a expressão de alguém que acabara de engolir sem querer uma aranha viva e começava a senti-la se mexer dentro de si. — Bom, é verdade — admitiu ele, depois de olhar as fichas. — Parece que houve mesmo uma confusão, agora que você falou. Não entendo como pôde ter acontecido. — Acho que não importa como pôde ter acontecido — argumentou Richard, tentando ser racional. — O problema é que, quando eu estava viajando por umas semanas, você alugou o meu apartamento para... — consultou suas notas e continuou — George e Adele Buchanan. Que não têm a menor intenção de sair de lá.

O homem fechou a pasta que tinha em mãos. — Bom, esses erros acontecem. Errar é humano. Acho que não há nada que possamos fazer. O antigo Richard, aquele que tinha morado no apartamento que agora era dos Buchanans, teria desmoronado, teria pedido desculpas por ter causado tanto aborrecimento e ido embora. Em vez disso, esse Richard disse: — Ah, é? Não podem fazer nada? Vocês alugaram para outra pessoa o imóvel que eu estava alugando legalmente da sua empresa, e no processo perderam todos os meus pertences, e você me diz que não podem fazer nada? Bom, eu acho que meu advogado vai dizer que vocês podem fazer muita coisa a respeito, sim. O homem sem casaco de pêlo de camelo olhou para ele como se a aranha estivesse subindo sua garganta. — Mas não temos mais nenhum apartamento vago como o seu naquele prédio. Só a cobertura. — Tudo bem, acho que serve... — disse Richard, com frieza. O homem relaxou. — ...no que concerne ao imóvel. Agora, vamos falar sobre como vocês podem compensar a perda das minhas coisas. *** O novo apartamento era muito melhor que o anterior. Tinha mais janelas, uma sacada, uma sala espaçosa e um quarto extra de bom tamanho. Richard ficou andando por ele, insatisfeito. O homem sem casaco de pêlo de camelo, com muita má vontade, enviara para o local uma cama, um sofá, diversas cadeiras e um aparelho de TV. Richard colocou a adaga de Hunter sobre o aparador da lareira.

Comprou um prato de curry do restaurante indiano do outro lado da rua, sentou-se sobre o chão acarpetado de seu novo apartamento e comeu, pensando se teria mesmo comido curry à noite em uma feira livre no convés de um navio de guerra atracado perto da Tower Bridge. Aquilo não parecia ter acontecido, agora que parava para pensar no assunto. A campainha tocou. Levantou e foi atender a porta. — Achamos grande parte das suas coisas, senhor Mayhew — disse o homem que mais uma vez estava usando o casaco de pêlo de camelo. — Descobrimos que estavam num depósito. Bom, tragam as coisas, rapazes. Dois homens robustos carregaram várias caixas de madeira para dentro, cheias das coisas de Richard, e colocaram no tapete que havia no meio da sala. — Obrigado. Richard pegou a primeira caixa, desembrulhou o papel que protegia o primeiro objeto que vira, e descobriu que era um porta-retrato com uma foto de Jessica. Ficou olhando para ela por alguns instantes e o colocou de volta. Encontrou a caixa de roupas, tirou-as de lá e as guardou em seu quarto, mas as outras caixas ficaram, intactas, no meio da sala. À medida que os dias passavam, ele se sentia cada vez mais culpado por não desempacotar suas coisas. Mesmo assim, não tocou em nada. *** Estava em seu escritório, sentado à mesa, olhando pela janela, quando o interfone tocou. Era Sylvia. — Richard, o chefe quer fazer uma reunião no escritório dele daqui a vinte minutos para discutir o relatório Wandsworth.

.. Ele tinha se esquecido de como ela era bonita. hã. Mas não consigo me lembrar direito por que brigamos.. Jess.. Depois. Sabe de uma coisa esquisita? Eu me lembro de ter acabado com o nosso noivado. pôs os bonecos na mesa. constrangido. — Richard.. — Oi. eu só queria te ver. — E então. honra. E então.. em uma voz de trasgo não tão poderoso: — Haha! Mas primeiro você vai ter que tomar uma xícara de chá comigo. Jess — cumprimentou ele. — Sou o maior guerreiro da Londres-de-Baixo. Alguém bateu na porta e ele. Jessica entrou e ficou parada na porta. — Pode entrar.. pegou um trasgo laranja e fez com que ele ameaçasse um trasgo de cabelo verde que era um pouco menor. Ela sorriu e mexeu no cabelo. — Isso é bom — comentou Richard. mexendo o boneco laranja... porque não tinha nada para fazer nos dez minutos seguintes. em uma voz ameaçadora de trasgo. Eu até sinto falta. Prepare-se para morrer — disse ele. — Ah.. o que a traz. sem saber muito bem o que dizer. pegou o de cabelo verde e disse. Jessica. e então se corrigiu: — Desculpe.... Richard. Parecia nervosa.. Há muito tempo ninguém me chama de Jess. parecendo sincera. pode me chamar de Jess — disse ela. — Jessica. — Oi. — Ah. a que devo a.. . Ela fechou a porta do escritório e deu alguns passos na direção dele.— Pode deixar — respondeu ele..

O interfone tocou. Foi embora. Ela não disse nada. O anel brilhou à luz do sol: era a coisa mais cara que Richard já tinha comprado. Achei que talvez eu devesse te devolver e aí. Ninguém. embora já soubesse o que ela continha. se as coisas se acertassem. — Você foi promovido? — Sim. Ele pressionou o botão e respondeu: — Já vou descer. Talvez não confiasse em si mesma para dizer nada naquele momento. estamos te esperando. Ela mordeu o lábio inferior. Olhou para Jessica. talvez um dia você o desse de volta para mim. como . e até mesmo em Door. Só isso. Anaesthesia. aí. mas nenhuma delas era a “outra pessoa” do jeito que ela queria dizer. Jessica. Colocou-a sobre a mesa de Richard. tem? Ela olhou ao redor. bom. fechando a porta com cuidado atrás de si. Pensou em Lamia. — É o nosso anel de noivado.— Não? — Mas não tem importância. Fechou a caixa e a devolveu para Jessica. Hunter. — Fique com ele. — Richard.. Ele abriu a caixa. Enfiou a mão no bolso do casaco e tirou uma caixinha marrom de lá. Eu sinto muito. Sylvia. — Fico feliz por você. — Não. percebendo que era mesmo verdade: — Eu só mudei.. Richard pegou os papéis de que iria precisar para a reunião com uma mão. — Você conheceu outra pessoa? Ele hesitou. A outra percorreu seu rosto. E completou.

Quando Richard se aproximou. limpando os bigodes e com ar de quem era dono do mundo. os cabelos negros presos no alto da cabeça. gente de todo tipo e cor. mas logo percebeu que tinha parado de comprar jornais para ler de manhã e à noite — em vez disso. Ele percebeu. Durante a hora do rush.se estivesse limpando alguma coisa: talvez tristeza. achou que tivesse visto Lamia na outra extremidade do vagão. o rato pulou na calçada e esperou nas sombras. Richard se agachou. o vestido preto e comprido. examinava o rosto das outras pessoas no trem. . Mas não era Lamia. desapontado. ou Jessica. *** Voltou a andar de metrô. saindo à noite para se divertir no centro. as portas se abriram e ela saiu. lágrimas. à noite. indo em sua direção. de costas para ele. o trem parou em uma estação. Quando chegou mais perto. e ficava perguntando-se se todas seriam da Londres-de-Cima e tentando imaginar o que estariam pensando. encarando-o com desconfiados olhos de continhas negras. ele viu um grande rato marrom no topo das latas de lixo de Newton Mansions. alguns dias depois de seu encontro com Jessica. Seu coração começou a bater forte. na ida ao trabalho e na volta para casa. Esgueirou-se por entre os passageiros do vagão lotado. *** Em uma tarde de sábado. que era só mais uma dessas meninas góticas de Londres.

— Eu estava. Ouviu um barulho de sapatos na calçada atrás de si.. hã. de pé. — Você. olhando Londres lá embaixo. Ele ainda não tinha ligado a televisão. enquanto o crepúsculo de outono virava noite e as luzes se acendiam em toda a cidade. sozinho em . Richard ouviu mas ignorou o resmungo de seu marido: “Deve ter perdido um parafuso”. Chegava em casa à noite. educado. Ficava observando. perdeu alguma coisa? — perguntou a mulher. — Nós nos conhecemos? O rato não pareceu responder. hã.. mas mesmo assim não fugiu. Bom. — Aquilo era um rato? — rosnou George Buchanan. cumprimentando um. — Eu me chamo Richard Mayhew — continuou.. em voz baixa. Virou-se e deu de cara com os Buchanans olhando para ele com curiosidade.. no chão da sala de estar. *** Os objetos de Richard continuavam intocados nas caixas de madeira.. comia e ficava perto da janela. Sem dúvida. conheço alguns ratos.. O rato saiu correndo. — Não — respondeu. né? Sim. os carros.. Que horror. Mas Londres é assim mesmo. — Eu não sou um falante de ratês de verdade. Londres é assim mesmo. as luzes. eu conheci alguns. — Vou reclamar com o síndico. os telhados. sendo sincero. concordou Richard.. mas eu. e fiquei pensando se talvez você não conhecesse Lady Door.— Olá — disse.

— Richard. que tinha uma tela enorme e ficava na Leicester Square. do lado do Soho. ele se despia. E então. O mocinho venceu no final.. do Departamento de Contas Corporativas.seu apartamento escuro. Mas ele odiou. Adoraria.. *** Sylvia entrou em seu escritório em uma tarde de sexta-feira. o pessoal vai sair hoje à noite. enchendo-se de cuscuz e . Ele estava abrindo envelopes usando sua faca — a adaga de Hunter. Quer vir com a gente? — Ah.. negando. — Bom. e houve várias explosões e objetos voando. onde o cafona e o chique coexistem para benefício de ambos. sem a menor vontade. até que as luzes se apagassem. pequeno mal-entendido (ele achou que ela seria mais compreensiva a respeito de ele ter dormido com a melhor amiga dela). Desceram a Old Compton Street. Primeiro eles foram ver um filme no cine Odeon. e a moça nova que trabalhava na área de Informática.. segundo ele. que trabalhava com carros antigos ou algo assim. ia para a cama e dormia. Você tem saído recentemente? Ele balançou a cabeça. Sylvia pediu a Richard que se sentasse ao lado da moça da Informática sob o argumento de que ela era nova na empresa e ainda não conhecia muita gente. Havia oito pessoas no total: Sylvia e seu namorado. diversas pessoas legais e amigos de pessoas legais. eu estava pensando. claro. e comeram no La Reache. que acabara de romper com a namorada por causa de um. Gary.

e no dia seguinte. confuso. E então levantariam e retirariam as coisas dele das caixas e as guardariam. Bacardi derramado e fumaça de cigarro. Tentou prestar atenção nas conversas. A moça nova da Informática sorria o tempo todo para Richard à medida que a noite avançava. Saíram do restaurante e foram andando até um pequeno pub sugerido por Sylvia. E então a imagem veio até ele. A cabeça dele estava saturada com o barulho dos copos. olhou em volta. ele se casaria com a moça da Informática. próximo de lá. Quando Gary voltou do banheiro.. eles teriam dois filhos. um menino e uma menina. Depois de um ano. como Reading. na Leicester Square: o resto de sua vida. Às vezes não há como evitar. . ou até mesmo em um lugar ainda mais longe. o que era pior. Pagou uma rodada de bebidas para o grupo e a moça da Informática o ajudou a levá-las do bar até a mesa. Harrow. mas percebeu que não conseguia mais se concentrar em nada que diziam e. E não seria uma vida ruim. a música da jukebox e o cheiro acre de cerveja. e iriam morar nos bairros mais distantes. por ser sábado. Croydon ou Hampstead. Ele iria para casa aquela noite com a moça da Informática. Ele sabia disso. exceto. tão clara e certa como se ele a visse na grande tela do Odeon.. mais ou menos. onde beberam e conversaram. seria promovido mais uma vez. Ela se aproveitou da ida de Gary ao banheiro e sentou no lugar dele. na Berwick Street. Todo mundo estava ali. mas ele não tinha nada a lhe dizer.dezenas de pratos maravilhosos e exóticos. passariam a manhã inteira na cama. não estava nem um pouco interessado no que conseguia ouvir. ao lado de Richard. eles dormiriam juntos. que precisaram ser colocados até mesmo na mesa vizinha.

— Vamos. — Só tomando um ar fresco. com ar sério. E só então eu vou rir de você. para o pub. Richard olhou para Gary. em um gesto de quem não sabia. Gary olhou para trás. — Eu vou rir de qualquer maneira. Gary. Vamos caminhar. Não. Chamou: — Dick? Richard? Cadê você? — Estou aqui.. sendo mais como ele mesmo do que fora nas últimas semanas. Colocou as mãos nos bolsos. *** Gary saiu do pub e foi para a rua. Não sei. O frio da noite queimava como água gelada jogada em seu rosto. a Berwick Street. — Você já pensou se isso é tudo o que existe? — O quê? . — Você vai rir de mim. — Escuta. essas são as opções. — Tudo bem? — Sim. — Filho-da-mãe — disse Richard. Aí você pode desabafar. — Bom. Richard estava encostado em uma parede. Os dois começaram a se afastar sob a luz dos postes. — É para isso que servem os amigos.— Dick? Alguém viu Richard por aí? A moça da Informática encolheu os ombros. Podia sentir o inverno no ar.. e soube que ainda eram amigos. Quer conversar a respeito? Richard olhou para ele. E então Gary ficou aliviado ao vê-lo sorrir. na sombra. — começou Richard.

ninguém vai . Quando ficou frio demais para andar na rua. sim. A vida. Richard falava e Gary ouvia. e como tentou ajudá-la. porque não podia simplesmente deixá-la ali. terminando de beber seu chá. feijão cozido em molho de tomate e torradas. Beberam mais chá. eu não fui para Maiorca mesmo. — Isso é verdade? Não é uma brincadeira sem graça? Digo. eu não fui para Maiorca. Falou e falou.Richard fez um gesto vago.. Enfim. eles entraram em uma lanchonete 24 horas. — Bom. começando por contar como encontrou a moça sangrando na calçada. Gary coçou a cabeça. — Trabalho. indicando tudo ao redor. Richard e Gary sentaram. E. Eles pediram ovos fritos. Passaram a torrada no restinho de gema no prato. e comiam enquanto Richard continuava a falar e Gary continuava a ouvir.. Richard suspirou. *** Richard narrava os fatos enquanto eles subiam e desciam o aglomerado das pequenas ruazinhas do Soho entre a Regent Street e a Charing Cross Road. Quero dizer. e o que aconteceu depois. pra começo de conversa.. a Londres real. Conhecer mulheres.e aí Door fez um movimento com a chave e eu voltei para cá. Ficaram em silêncio. até que Richard disse: — . o resto você já sabe. Casa. — Então é isso — concluiu. — Olha — disse. um tempo depois. bom. Viver na cidade.. brilhantes de gordura de bacon. Era um daqueles lugares que prepara tudo em banha de porco e serve chá em grandes xícaras brancas meio quebradas. Isso é tudo? — Acho que é mais ou menos isso. Para a Londres-de-Cima. Pub.

sabia? — Você não falou isso antes. alucinando e imaginando coisas. vai ver essas pessoas dormindo em frente às lojas. Ou talvez entrou em choque quando Jessica te abandonou. com molho duro e escurecido em volta do bico dosador. o mais importante é o seguinte: você acredita nisso? Richard ficou olhando para ele. Richard estremeceu. acredita em mim? Gary olhou para a conta na mesa.. Richard não disse nada. Eu acreditava. bom. Você. onde elas ficaram. — Você sabe o que mais me dá medo? Eu acho que . Olha. — Eu acredito que. E teve um momento em que você apareceu. — Se eu acredito? Eu nem sei mais. Saíram da lanchonete e caminharam na direção sul.. — Bom. Você me disse que eu tinha ficado louco e que eu estava andando pela cidade. Richard. Você tem que admitir que essa hipótese parece mais verossímil que sua Londres subterrânea mágica para onde vão as pessoas desabrigadas. Elas não vão para uma Londres mágica.aparecer com uma câmera escondida e me dizer que participei de uma pegadinha? — Espero que não. — Foi uma parte horrível. ao lado de um ketchup que tinha o formato de um tomate grande. Estava com olheiras. que alguma coisa aconteceu com você... separou algumas libras em moeda e as colocou sobre a superfície de fórmica. rumo a Piccadilly. Elas congelam até a morte no inverno. Se você andar pela Strand.. Ficou maluco por um tempo. Eu já passei por elas. é óbvio... mas depois melhorou. Gary continuou: — Acho que você levou uma pancada na cabeça. Eu estive lá..

Apenas cumpria sua obrigação de londrino: reclamava dos táxis.estava com o letreiro ligado e tudo o mais. Gary estava falando dos táxis. Afinal. na parte do Soho mais próxima de Piccadilly. afinal? E por que nenhum de vocês mora perto de onde eu moro?” O truque é entrar no carro primeiro. — . gibis e revistas. Richard voltou a si. hesitante: — Certo. Gary olhou para o relógio. atravessou a rua e olhou atentamente a vitrine da Vintage Magazine Shop. passando pelas luzes dos peep shows e dos clubes de striptease.. Ainda vou ter um emprego na segunda-feira. examinando as reproduções em papelão de esquecidas estrelas de cinema. Tudo aquilo fora só uma visão que tivera de um mundo cheio de aventura. — A vida não é excitante? Ótimo. disse para si mesmo. — Caramba! Já passa das duas. estou indo para casa”. Richard não estava ouvindo. — E então.você pode estar certo. Entraram na Brewer Street. e depois dizer que mora pro lado sul do rio. Não era real. Certo? Virou-se e olhou para Richard. Quando chegaram à Windmill Street. Ele não dizia nada de original. que concordou. Viva o tédio.. então. Pelo menos eu sei onde vou comer e dormir hoje à noite. o que aquele cara queria dizer? Do jeito que ele falava. E eu: “Onde é que todos os motoristas de táxi moram.. Tomara que ainda tenha táxis por aí. o que você acha? — perguntou Gary. um mundo na imaginação. parecia até que Battersea ficava em Katmandu ou algo assim. Eu disse pra ele aonde queria ir e ele respondeu: “Desculpe. . ou mesmo interessante..

Gary fez sinal para o táxi e sentou-se no banco de trás antes de pedir ao motorista que o levasse a Battersea. — É só uma pena. Vá nesse.. Abriu a janela e. Te vejo na segunda. Repetiu: — Se não tiver nenhum táxi.. — Você tem certeza? Um táxi veio na direção deles. — É. — Você tá me preocupando. este é o mundo real. É tudo que existe. e então disse. — Aí vem um táxi. tá? Richard acenou para ele e ficou olhando o táxi ir . — É uma. Eu pego o próximo. — Obrigado.— Do quê? Gary se deu conta de que Richard não tinha prestado atenção em nada do que ele dissera. Certo. Gary hesitou um pouco. Pareceu meio confuso. disse: — Richard. — hesitou. Acostume-se. — Desculpe. Isso tudo é bobagem. Gary. — O que é isso? — perguntou Gary. vazio. — Sim — disse Richard com veemência. enquanto o táxi arrancava. Desceram a Windmill Street. Jogou-a no bueiro perto do meio-fio e não olhou para trás. e então tirou do bolso uma pena bastante amassada de um corvo negro. com uma linha vermelha amarrada na base. escolhendo as palavras com cuidado: — Você já pensou em falar com alguém? — Falar com alguém? Escuta. Você tem razão. Gary fez uma careta. a gente pode pegar o ônibus noturno. Tudo bem. Gary. eu não estou louco. Richard enfiou as mãos nos bolsos. na direção de Piccadilly.

normal. Ele parou perto de uma velha que dormia um sono profundo em frente à porta de uma loja. Bom. desconfiada. tirando remela do canto do olho. Ela acordou. Ele pegou sua carteira. Talvez. Ela desdobrou o dinheiro e o enfiou na manga. de volta para a Brewer Street. Entende? Ela balançou a cabeça. Ele pôs a mão no bolso de trás. para que ninguém os roubasse enquanto ela estivesse dormindo. . — Você já conseguiu tudo o que queria e então percebeu que não era nada daquilo? — perguntou à mulher. — É para você — respondeu Richard. e um guarda-chuva sujo. E então se deu conta de que aquelas palavras eram a mais pura verdade e de como aquilo era horrível. talvez eu seja louco. chateada por ter sido acordada. E então se virou e foi se afastando devagar das luzes de Piccadilly. Não quero nada. Nada mesmo. e seus poucos pertences — duas caixas de papelão pequenas. então eu não quero ser normal. achou dez libras e se debruçou para colocar a nota dobrada na mão da mulher. Continuou: — Hunter me deu quando ela morreu. — O que você quer? — retrucou. — Está vendo isto aqui? — Mostrou a faca. Mas se isto for tudo. Que queria uma vida legal. — Nada. sonolenta. que um dia fora branco — estavam amarrados com barbante ao seu pulso.embora. Não havia mais nenhuma pena perto do meio-fio. cheias de quinquilharias. — O que é isso? — perguntou. Seu gorro de lã estava tão sujo que era impossível determinar sua cor. Piscou seus velhos olhos para o dinheiro. Tinha um cobertor velho e rasgado sobre si. — Eu achava que queria isto. — Acho que não — respondeu ela.

um horizontal. perto da porta onde a mulher estivera dormindo. Bom rapaz. Emitia roncos de gente velha. Fez três cortes.. O conde me deu um título de nobreza com esta faca.— Não me machuque! Eu não fiz nada — disse a velha. Melhor guardar essa faca. Richard ouviu sua própria voz. reais ou fingidos. Isso. Se a polícia te vir eles te prendem por andar armado. — Uma porta. Richard sentiu o peso da adaga. mas continuava a debater-se contra os tijolos. Colocou a adaga de volta no bolso e começou a bater na parede com os punhos. fingia que tinha voltado a dormir. Ele me deu liberdade para caminhar pelo Submundo. — Não sei de nada disso. dois verticais. o que era mais provável. Tinha voltado a dormir. Richard se sentou na calçada e ficou tentando imaginar como alguém poderia fazer a própria vida ficar tão . E então aquela loucura cessou e ele parou. — O que você está fazendo? — perguntou a velha. Ela não respondeu. E então andou depressa na direção da parede de tijolos. ou. Richard. — Humpf. deitada à porta da loja. intenso. desconfiada. Por favor. Door? Alguém? Machucou as mãos. — Me desculpe — disse para a velha. — Ei! Tem alguém aí? Vocês podem me ouvir? Sou eu. Um caçador deve sempre cuidar de suas armas. que tinha um tom estranho. — Eu limpei o sangue dela da lâmina. vira essa faca pra lá.. Richard olhou para o esboço da porta que tinha desenhado na parede.

Os dois entraram no buraco na parede. porque não confiava no que poderia dizer. Ficou parado até se certificar de que Richard podia vê-lo.insana como ele havia feito. — E então? — disse. sem deixar nada para trás — nem mesmo a porta. O marquês de Carabas ergueu uma sobrancelha. e ficou em pé. com os braços cruzados em um gesto teatral. Havia um homem de pé ali. — Você vem ou não? Richard ficou olhando fixamente para ele por um único segundo. E olhou de volta para a porta que tinha desenhado. no formato de uma porta. E então deu um grande bocejo. onde ele tinha feito os riscos. Havia um buraco na parede. cobrindo a boca com sua mão escura. E então concordou com um movimento de cabeça. irritado. penetrando na escuridão. .

Gostaria ainda de agradecer a todas as pessoas que vieram em meu socorro sempre que pedaços desta obra teimavam em não sair de suas casquinhas eletrônicas. Gene Wolfe. Amy Horsting. Lorraine Garland e Kelli Bickman. e à Norton Utilities. Neil Gaiman . Dave Langford. contribuições e críticas — principalmente Steve Brust. pela ajuda e apoio que me deram. e a Jennifer Hershey e Lou Aronica. da Avon Books. Cindy Wall. Martha Soukup. Agradeço também a Doug Young e Sheila Ableman.AGRADECIMENTOS AGRADEÇO A TODOS OS LEITORES DOS DIVERSOS RASCUNHOS E VERSÕES deste livro por suas sugestões. da BBC Books.

Digitalização/Revisão: YUNA TOCA DIGITAL .

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