Os Sonhos Lúcidos

Viagens conscientes da alma ao outro mundo
Coletânea de artigos publicados em sites e revistas
Por Cleber Montei ro Muniz

Ín di ce:

In tr oduçã o

Pa r t e I - A con sci ên ci a on í ri ca

O que é um a exper i ên ci a on ír i ca con sci en t e? Sobr e os m ot i vos de n ã o di scer n ir m os que est a m os em son h o O est a do n ã o usua l da con sci ên ci a ext ra -ví gi l Voc ê pod e fi ca r con sci en t e dur an t e o son h o A ver i fi ca çã o da s l eves a l t er a ções c on sci en t i va s n o son h o A r ea l i da de do m un do dos s on h os n os t em pos a n t i gos e h oje

Pa r t e II – Atr a vessa n do l uci da m en t e o por t a l dos son h os

O pr obl em a da din âm i ca usua l do son o e d e c om o sup er á -l a Com o l i dar com os si n a i s que an t ecedem um a exper i ên ci a onír i ca con sci en t e A t écn i ca do r el a xam en t o vi gi l an t e

Pa r t e III – Re c on h ecen do o s on h o en quan t o o son h o a con t ec e

A per cepçã o c on sci en t e dos t r a ços on í ri cos sut i s O r econ h eci m en t o da r ea l i da de in tr a -on íri ca dur a nt e o son o O di scer n i m en t o pel a m em ór ia r esi dua l

Pa r t e IV – E xer ci t an do o di scer n im en t o e t est a n do a r ea l ida de

Cui da dos n a educa çã o da a t en çã o ví gi l (E duca çã o Psí qui ca pa r a o Desp er t ar In tra On ír i co) O pr esen t e com o por t a par a a r ea li da de on ír i ca n at ur al A T en dên ci a de Bus ca r m os um Ar t i fi ci a l "Al go Ma i s" O des c on di ci on a m ent o dos pa r â m etr os obs er va ci on a i s A sí n t ese de i n di ca dor es de r ea l i da des op ost a s n a obs er va çã o da s cen a s ci r cun dan t es A a m pl ia çã o do s en t i do de r ea l i da de que n os per m i t e super ar o cet i ci sm o un i l at er al T ran scen den do a pr eocupa çã o c om a con cr et ude

Pa r t e V – Par a l i sia do son o A pa ra l i sia do son o e o s on h o l úci do A super a çã o da par a l i sia cor por a l por m ei o da im a gina çã o c on sci en t e

Pa r t e VI - E xper i ên ci a s espi r i tua i s e sonh os l úci d os

A vi a gem c on sci en t e a o m un do on ír i co c om o exper i ên ci a r el i gi osa As exp er i ên ci a s on íri ca s con sci en t es c om o m ei o a di ci on a l de in vest i ga çã o dos c on t eúdos ct ôn i c os Son h os l úci dos e m edi t a çã o

Or i ent a çõe s pr á t i ca s:

Re fl ex ões e c on sel h os út ei s r el a ci on a dos c om o t r a ba l h o de a t i var a con sci ên ci a den tr o dos s on h os e/ ou dur an t e a vi gí l i a

Introdução

Apresento

aos

leitores

um

conjunto

de

artigos

meus,

publicados e m sites e revistas há vários anos, os quais procuraram detalhar a dinâmica do sonho lúcido, esta estranha modalidade de sonhar e m que a consciência se manté m ativa, julgando e

discernindo co m plena noção o que se passa. São textos que foram escritos em te mpos diferentes de minha vida, refletindo o avanço de minhas experiências com a modalidade lúcida de sonhar. Os artigos estão orientados predominante mente para a prática, embora ta mbém realizem incursões no terreno da exploração teórica. A intenção ao escrevê-los foi tornar a experiência acessível a todos os que a buscassem, fornecendo orientações e auxilio na superação de dificuldades. Para melhor co mpreensão, procurei agrupar os artigos em forma didática, de acordo co m os temas, e não na orde m cronológica em que foram escritos. As normas técnicas de citação variara m de um artigo para outro, conforme as exigências das publicações originais. Agora, que este livro possa deslocar-se através do te mpo e do espaço, e que cumpra co m o objetivo para o qual as mensagens foram escritas !

Parte I A consciência onírica

O que é uma experiência onírica consciente?
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 25/ 08/ 2001

Uma exper iência o nír ica consc ient e é um t ipo especial de sonho: aquele no qual a pessoa que dor me co mpreende que est á sonhando. Também conhecida co mo sonho lúcido, a exper iência onír ica

conscient e (E.O.C.) vem sendo cult ivada em muit as cult uras ao lo ngo da hist ór ia. Os po vos ant igos, pr imit ivos e orient ais, bem co mo cert os grupos religiosos at uais, desenvo lveram muit as for mas de alcançá-la. Normalment e, o ego sonhador não sabe que sonha e t oma as cenas onír icas co mo se fossem do mundo ext er ior. E m um sonho lúcido, essa confusão não exist e. A co nsciência humana t em o poder de despert ar int ra-onir icament e, ou seja, de fazer co m que acordemos dent ro de um sonho. Aqui, a palavra "sonho" é usada para designar as vivências que t emos à no it e, enquant o est amos dormindo na cama, e das quais a lgumas vezes nos lembr amo s quando acordamos pela manhã. Não est aremo s ut ilizando essa palavra co mo sinô nimo de "devaneio ","ilusão" ou "algo que não exist e" mas para des ignar o cont ato diret o com o mundo imaginal. Todos t emos um mundo int erno, feit o de imag inações, anelo s e desejo s. Esse mundo int er no é psíquico e energét ico. Não é denso e fixo co mo o mundo ext erno porém é, à sua própr ia mane ira, concret o e real. Quando adormecemos, as percepções do mundo ext er ior cessam e adent ramos ao nosso reino int er ior. As vivências nesse reino são os chamados sonhos. Infeliz ment e, quase sempr e via jamo s at ravés do mundo onír ico

inco nscient ement e e não percebemos que est amos em um mundo paralelo ao vígil. Quando aprendemos a exercit ar corret ament e a nossa co nsciência, ist o é, o fat or psíquico que nos per mit e prest ar at enção e nos mant er em alert a nat ural, podemos viajar pelos mundos int er iores co m plena lucidez. Isso é muit o melhor do que t er alucinações por drogas ou por indução hipnót ica. A co nsciência educada para mant er a lucidez dur ant e o sono nos proporciona vivências e sensações incr íveis:

1) Podemos assimilar infor mações deposit adas em nosso inconscient e e passar por exper iências arquet ípicas. Temos mu it o conheciment o deposit ado no inconscient e. A co nsciência int ra-onir icament e despert a pode t razer esse conheciment o à exist ência víg il. 2) O medo da mort e diminui. O espect ro da mort e é resignificado quando nos descobr imo s ínt egros e vivo s enquant o nosso corpo fís ico dorme na cama. A exper iências onír icas conscient es são, ant es de t udo, exper iências humanas. Algumas vezes assumem a for ma de exper iências religio sas ou esot éricas mas, ant es disso, são exper iências psico lógicas. Por esse mot ivo, nenhum cient ist a deve t er preconceit o com relação às mesmas e nem rechaçálas.

Referências:

Est e art igo não possui r eferênc ias

Sobre os motivos de não discernirmos que estamos em sonho
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z
A d i v u l g a çã o l i v r e d e s t e a r t i g o é a u t o r i za d a d e s d e q u e c i t a d o o a u t o r T ex t o r e g i st r a d o . N ã o o p l a g i e p a r a n ã o s o f r er a s p e n a l i d a d e s d a l ei .

Possuímos um cet icis mo t ão poderoso em relação à exist ência concret a de um mundo onír ico em nosso int er ior que quando est amos dent ro do mesmo, e disso desco nfiamo s, a so lidez numino sa das cenas vist as nos faz crer que est amo s "do lado de cá" da nossa vida. Temos a idéia, mais ou menos inco nscient e, de que não há um mundo onír ico concr et o e análogo ao físico dent ro de nós. Essa for ma de pensar é t ão arraigada que, quando alcançamo s em so nho a auto-indagação sobre onde est amos, a respost a quase sempre é a mesma: "E st ou no mundo fís ico". Isso ocorre porque for jamo s uma respost a condic io nada sem o perceber ao invés de buscá- la cuidadosament e nos element os onír ico s present es, deixando que o mundo dos sonhos nos dê a respost a. O fat o de est armos diant e de uma co ncret ude numino sa é co nsiderado por nossa consciência imat ura co mo uma prova incont est ável de que o mundo em que est amo s é o ext er ior. Isso der iva do cet icis mo em r elação à possibilidade do mundo dos sonhos ser, à sua maneira, verdadeiro e concret o e da concepção de que a sensação ident ificadora do que é não-ilusór io seja exclusivament e proporcionada pelo mundo ext er ior. É import ant e fr isar bem isso: o mundo onír ico é real à sua própr ia ma neira, ou seja, enquant o um universo fant ást ico e imag inal dent ro do homem e não à maneira do mundo fís ico ser real. I sso é difer ent e de afir mar que as ocorrências onír icas sejam part e int egrant e do mundo ext er no. Semelhant e idé ia ser ia absurda uma vez que desde o ponto de vist a esclusiva ment e ext rovert ido os sonhos são realment e abst rat os. Ent ret ant o, desde o ponto de vist a psíquico eles são concret os porque a psique é co mpost a por energias e as energias não são abst rat as. Elas exist em e são o component e dos processos imaginais. Saiani (2000, p. 89) afir ma que "a matéria e a psi que são passívei s de uma interpret ação energética." Ent endo que não se pode considerar o energét ico abst rat o pois isso implicar ia em desconcret ização de ondas. Se levássemo s essa linha de pensament o avant e, t eríamo s que at r ibuir um carát er abst rato a

qualquer out ra for ma de energia de frequência ou int ensidade inacessíve is aos nosso padrões mensurat órios. O fat or concret ude é inadequado enquant o cr it ér io diferenciador do plano da exist ência no qual est amo s em um dado mo ment o. Não obst ant e, é quase sempr e usado pelo ego, equivocadament e, co mo cr it ér io de

discer niment o ent re o que é fís ico e o que é onír ico. A t ent at iva de reconheciment o do t eor onír ico/ fís ico de uma cena percebida por via diret a em geral é feit a t endo-se por base a co ncret ude da mesma: se for concret a e nít ida a consider amos ext er na, pressupondo, mais ou menos

subco nscient ement e, que se a cena fosse int er na ser ia "abst rat a". Acr edit amo s que est ar dent ro de um so nho é est ar envolt o por névoas e imagens "virt uais", às vezes t ransparent es, co mo se o cont ext o int ra-onír ico fosse menos que o nada... O equívoco desse cr it ér io consist e no fat o de que o mundo onír ico é t ão concret o quant o o físico, apesar de suas peculiar idades no que se refere a leis e pr incípio s que regem a lógica dos aco nt eciment os. Os processos onír ico s não seguem a mesma lógica dos processos físicos. A mat ér ia onír ica, por exemplo, é alt a ment e plást ica e se modifica incessant ement e a part ir dos impulso s conscient es e inconscient es de pensa ment o e sent iment o, fazendo co m que os objet os psíquico s alt erem a for ma repent inament e. Mas isso não significa que t enham exist ência ilusór ia. As percepções int er nas dur ant e o sono são t ão nít idas e numino sas quant o as ext ernas, razão pela qual a nit idez e a concret ude dos objet os que cir cundam o ego jamais deve m ser vir co mo element o diferenciador e proporcionador do discer niment o nesse campo. Os element os co mponent es do univer so dos sonhos são energét icos. Co mo, durant e o sono, nossa consc iência é pura energ ia (po is ao dormir abando namo s t emporar iament e a exist ência conscient e so b a for ma mais densa), vibramos no mesmo níve l de concret ude das imagens int er iores, razão pela qual elas se nos apresent am co mo palpáveis. A sensação de tocar objet os só lidos e sent ir seu cheiro e sabor em sonhos é aut ênt ica e advém dessa afinidade vibr acio nal. Nela reside a or igem do impact o numinoso das endopercepções.

Pelo mot ivo refer ido, é incoerent e tomar a nit idez das percepções dos objet os onír ico s e/ou sua concret ude co mo cr it ér io diferenciador dos nossos universos para lelo s, sejam e les pessoais ou t ranspessoais. O universo int er ior acessado durant e o sono é t ão concret o quant o est e. O que ocorre é que exist em concr et udes relat ivas: quando a consciência est á em afinidade vibr at ória co m o mundo ext er ior, seus objet os lhe parece m concret os; quando ela vibra em sint onia co m o mundo onír ico, seus ele ment os lhe parecem só lidos. Isso se explica pelo fat o de possuir mo s em nossa co nst it uição vár ios graus de co ndensação da energia: há em nós uma porção mais densa e uma mais sut il. À densa chama mos corpo fís ico e à sut il psique. A sut ileza ou densidade o são apenas em r elação ao seu oposto. O que é abst rato em um níve l vibracio nal da co nsciência não o é em out ro. Por isso os loucos gr it am desesperadament e e os pesadelos nos at errorizam, na hora em que acont ecem. Os objet os só lidos do mundo ext er ior são agregações energét icas cuja int ensidade cent r ípet a é sufic ient e para provocar peso e dureza. Algo similar ocorre em out ros níveis de consciência com as energias psíquicas. A co nsciência que est á no corpo é part e de sua const it uição energét ica. E la possui elast icidade e var iabilidade vibracio nal, indo da sint onia co m agregações densas de energia at é a sint onia co m agregações ult ra-sut is, as quais são consideradas, de um pont o de vist a usual e ext er no, como desagregações. Co mo quase t odos nós, ocident ais, so mos, inco nscient ement e e numa cert a medida, mat er ialist as, por nos polar izar mo s vio lent ament e na ext roversão, quando est amos em out ra dimensão de nossa vida não

acredit amos nisso. Nos acost umamo s a duvidar da exist ência de out ros mundos paralelo s ao vígil. O cet icis mo ar bit rár io co m relação à exist ênc ia de um verdadeiro mundo int er ior é, port ant o, um dos mot ivos pelos quais o ego não alcança discer nir que est á na dimensão desconhecida dur ant e o sono. Out ro mot ivo é a fascinação. Em nossa vida consc ient e, nos

condicio namo s a viver fascinados por todos os element os ext er nos e a nos esquecer de nós mesmos. E m virt ude disso, a t endência de fascinar-se enraizou-se demasiadament e em nossa cult ura e em nat ureza psíquica. Quando dormimo s e nos depar amos co m ele ment os denunciadores de que

est amos sonhando, como certos acont eciment os impossíve is que desafiam a lógica t r idimensio nal (elefant es ar bor íco las, rat os que cant am heavy met al et c.), nos fascinamo s pelo s mesmos e nos esquecemo s de obser var os objet os que fazem part e da cena onír ica que nos rodeia à procura de fat ores de difer enciação que possam nos proporcio nar de modo inequívoco o

reconheciment o da dimensão em que est amo s. Ao invés de obser var os element os int ernos mant endo a recordação de nós mesmos, sem nos

fascinar mos, nos ident ificamo s co m eles. Trat a-se de uma dist ração: ficamos dist raídos co m os acont eciment os int er iores e nos esquecemos de discer nir. Temos uma consc iência egó ica, ador mec ida, anest esiada e insens ível para os fenô menos sut is que fazem part e de nossa const it uição int erna e por isso não são mu it as as pessoas que alcança m um despert ar int ra-onír ico.

Referência bib liográfica:

SAI ANI,

Cláudio.

Jung

e

a

Educação:

Uma

análise

da

relação

professor/aluno. Pr imeira ed ição. São Paulo: Escr it uras, 2000.

O estado não usual da consciência extra-vígil
( ca p . III d e " A Ex p er i ê n c ia On í ri c a Co n s c i en t e: Vi a g en s d a Co ns c i ê nc i a a o M u n d o d o s S o n h o s " – mon o gr a fi a a p r e s e nt a d a p a r a con cl u s ã o d o cu r s o d e e s p e ci a l i za ç ã o e m Ab or d a ge m J u n gu i a n a p e la COGE AE d a P UC-S P e m 2 0 0 1 e or i e nt a d a p e la P r of a Dr a Noe l i M on t e s M or a e s)

Por Cl eber Mon t ei r o Muni z
A d i vu l ga ç ã o l i vr e d e s te ar t i go é a u t or i za d a de s d e q u e ci ta d o o a u t or Te x t o r e gi s t r ad o. Nã o o p l a gi e p a r a n ã o s ofr e r a s p e n a li d a d es d a l ei .

Est ar despert o dent ro de um sonho (no sent ido lit er al da expressão) é est ar em um est ado não-usual de co nsciênc ia. A mo dalidade de discer niment o e alert a que se t em durant e sonhos lúcidos é pouco comum na sociedade em que vivemo s, não é muit o freqüent e. Para a maior ia das pessoas ser ia um est ado de consciência alt erado, modificado. Para alguns est udio sos, o funcio nament o conscient e usual, aquele que a maior ia das pessoas possui no est ado normal de vig ília, não é o único exist ent e. É o que afir mou Willian James em uma obra co nhecida por muit os ( apud Capra, 2000): "Nossa consciência normal do estado de vigília - a consciência racional, como a denominamos - constitui apenas um tipo especial de consciência, ao passo que, ao seu redor, e dela af astada por uma película extremamente tênue, encontram-se f ormas potenciai s de consci ênci a

inteirament e diversas" (p. 31, gr ifo meu). Alé m do funcio nament o conscient e nor mal da vigília, ou seja, aquele que se t em quando o corpo fís ico est á acordado, o ser humano possuir ia, em est ado lat ent e, out ras modalidades de despert ar. Essas modalidades de consciência ser iam ext ra-vígeis, present es nas horas em que o ho mem não est ivesse acordado. Obvia ment e, se não correspondem à co nsciênc ia de vigília, t udo indica que James se refere a uma consciência durant e o sono. Exper iências consc ient es nas quais se ult rapassa orient e, o mundo os quais

t ridimensio nal ser iam conhecidas pelos

míst icos do

"parecem estar em condições de ati ngir estados não-usuai s de consci ênci a nos quai s transcendem o mundo tridimensional da vida coti diana de modo a experimentar uma realidade mais el evada, multidimensional. Assim,

Aurobindo ref ere- se a ‘uma mudança sutil, que f az com que a vi sta veja numa espécie de quarta di mensão’." (Capra, 2000, p. 133, gr ifo meu). O mundo

t ridimensio nal não ser ia o único passíve l de exper iment ação conscient e. Out ros níve is dimensio nais t ambém far iam part e da realidade e poder iam ser acessados pela co nsciênc ia alt er ada. Poder íamo s inclu ir aqui o mundo onír ico pelo fat o dele não ser t ridimensio nal: seus e lement os co mponent es não possuem, desde um pont o de vist a fís ico e ext er no, as caract er íst icas que chamamo s largura, alt ur a e co mpr iment o. As imagens not urnas não podem ser medidas em cent ímet ros ou pesadas. Ent ret ant o elas são reais po is est ão vivas dent ro de nós. O ho mem possuir ia recursos int er nos para acessar o que não pode ser vist o, ouvido, tocado e palpado com o corpo fís ico pois suas "experiências multidimensionais t ranscendem o mundo dos sentidos" ( idem, p. 228), ou seja, conduzem ao cont ato com o que est á além do nosso universo sensor ial. As figuras arquet ípicas que surgem em sonhos possuem for mas e, algumas vezes, cores. Há, nos sonhos uma for ma de "visão psíquica" que nos per mit e descr ever as caract er íst icas mor fo lógicas das imagens co m as quais

sonha mos. Porém, bem sabemo s que esse t ipo de visão não pert ence aos cinco sent idos ext er nos. E la os t ranscende e, não obst ant e, ainda assim pert ence ao ser humano po is est á present e nos relat os onír icos. Refer indo-se a est ados não-usuais de consc iência em cult uras

pr imit ivas, ant igas e abor ígenes, Gro f nos diz que nelas "exist e a idéia de que esta realidade vi sível não é a única exi stente, há outras realidades paral elas onde exi stem espí ritos, demôni os, elementos arquetípi cos ou mitológi cos, entidades encarnadas, animais de poder e assim por diante" . Essas cult uras não conceber ia m co mo aberrant e ou absurda a idéia de que o mundo fant ást ico é, à sua maneira, real. Parale lament e à realidade vis ível, haver ia uma realidade invis ível que poder ia ser acessada conscient ement e (at ent e-se para o fat o de que o est udioso est á se refer indo a est ados de consc iência e não de inconsciência; ele não est á t rat ando de processos que se dão sem a presença da lucidez). Tal realidade corresponder ia ao mundo imagina l e poder ia abranger t ambém seu lado onír ico pois ser ia habit ada por ent es arquet ípicos fant ást icos e mit o lógicos, os quais sempre surgem em sonhos. Corroborando essa visão, Harnisch (1999, p.7) afir mo u que "os índios da América do Norte consideravam os sonhos como visões de uma out ra realidade, que para eles traçava um paralelo com o seu mundo desperto . De

uma f orma parecida compreendiam-se os sonhos na China. Atribuía-se-lhes uma uma elevada quali dade vi vencial e est es eram vivenciados com uma intensi dade tão extraordinária que as pessoas se perguntavam: qual será pois a verdadeira reali dade: o sonho ou aquilo que que se vivencia no estado de vigília?" (gr ifo meu) Nessas cult uras, o univer so dos sonhos e o univer so vígil são paralelos. Cada um desses univer sos é real à sua maneira. Ao empreender uma descida conscient e às profundidades do oceano int er ior, o homem penet rar ia em u m mundo real, verdadeirament e exist ent e, embora so b outra for ma. A esse respeit o, Jung (1984) escr eveu: "É muito dif ícil acreditar que a psique nada representa ou que um f ato imaginário é irreal. A psique só não está onde uma inteligênci a míope a procura. Ela exi ste, embora não sob uma f orma f ísica. Ë um preconceit o quase ridículo supor que a exist ênci a só pode ser de natureza corpórea [ física]. Na realidade, a única f orma de que temos conheciment o imediato é a psíqui ca. Poderíamos igualment e dizer que a existênci a f ísica é pura dedução uma vez que só temos alguma noção da matéria at ravés de imagens psíqui cas, transmitidas pelos sentidos." (p. 14) A exist ência psíquica ser ia real e válida co mo a fís ica e t alvez at é mais. Conclui-se, por ext ensão, que adent rar a uma cena onír ica

conscient ement e é adent rar a um mundo fe it o de imaginação mas nem por isso menos verdadeiro. A realidade imaginal int er na é parale la à ext er na. Nas já mencio nadas cult uras ant igas e pr imit ivas são "criados espaços para que (...)[as exper iências em est ados de consciênc ia não-usual] possam ser vivenciadas com segurança e métodos para se desenvolverem com intensi dade. Nesses est ados alterados de consciência é que nascem a ri ca mitologia e a espiritualidade daqueles povos. Estados não-usuais de

consciência são utili zados por culturas ancest rais para (...) [a realização de] coisas práticas e corriquei ras tai s como encontrar objet os ou pessoas perdi das ou para localizar rebanhos de ani mais a serem caçados, inclusive elas desenvolveram cerimônias para aumentar ainda mai s a capacidade de modif icar a consciência, com obj etivos bastante práticos." (Gro f, 2000, s/p). A rea lidade invisível ser ia acessada conscie nt ement e e esse acesso est ar ia fort ement e ligado ao cot idiano prát ico e concret o desses povos, os quais

t eriam inclusive aper feiçoado r it os para int ensificá-lo e nele minimizar a exposição a possíveis per igos. A co nsciênc ia assim alt erada t er ia uma ut ilidade no mundo t ridimensio nal: caça e localização de pessoas perdidas. E la não ser vir ia a uma fuga da realidade ext erna mas a co mplet ar ia. O universo mít ico brot aria de seu seio e por ele os ho mens se orient ar iam. Ent ret ant o, haver ia e m nossa cult ura uma limit ação que a tornar ia avessa a t ais exper iências e a levar ia a tomá-las co mo est ranhas: "Nós não apenas patologizamos estas práticas como também proibimos a utilização de substâncias ou cerimôni as que possam levar à mudança de estados da consciênci a. Por exemplo, dentro da psiqui atri a saxônica não há uma distinção clara ent re mi stici smo e estágios psicóti cos. Em geral, esta dif erença de visão de mundos ent re as soci edades t radicionais e a nossa soci edade indust rial/ocidental é expli cada pel a ‘superioridade f ilosóf ica’ da nossa visão ‘limitada’ de mundo. Depoi s de trabalhar 40 anos nessa área do conheciment o, minha opinião sobre isso é que esta dif erença de vi são de mundo tem mai s a ver com a enf ermidade e com a ignorânci a da ciência ocidental em relação aos estados não-usuai s de consciência." ( idem) Assim, nossa dificuldade em lidar co m esses est ados se dever iam a blo queio s cult ur ais fort es, relacio nados com a possessão colet iva por co mplexos de super ior idade e que exerceria seus efeit os pr incipalment e so bre a ciência, aliada à uma at rofia r it ualíst ica. A incapacidade, present e na ciência em mo ldes eurocênt r icos, de diferenciação ent re a exper iência míst ica e os est ágios psicót icos ser ia decorrent e desse est ado enfer mo e da ignorância ocident al co m relação a for mas de consciênc ia present es em cult uras ant igas, pr imit ivas e or ient ais e aos meios de se desenvo lvê-las. A ausência de espaço na moder nidade para o cult ivo prát ico e alt ernat ivo da consciência t er ia ocasio nado uma at rofia dos seus est ados não-usuais em modo não-patológico e est abelecido ent re nós e out ros povos um abismo. E m virt ude desse abis mo, não ser ia possível a corret a comunicação de cert as exper iências po is os relat os de t eor ext ra-sensor ial (t ais co mo apar ições de ent es fant ást icos ou viagens a out ros mundos) ser iam vist os por nós como manifest ação de ignorância pura e simples. Ao invés de considerar mo s cuidadosament e t ais manifest ações desde o mesmo po nt o de vist a cult ura l que as or igina, co mo corresponder ia a uma post ura legit imament e cient ífica, impor íamos na

abordagem das mesmas nossa visão de mundo, nos esquecendo de que a realidade não se adapt a aos nossos capr ichos t eóricos. Ser íamos surdos e cegos para cert as exper iências psíquicas pelo fat o de não as enxergar mos t al co mo são mas sim co mo nos parecem. Ao abordá-las, ver íamo s nelas apenas os nossos própr ios pont os de vist a. A ciência ocident al r elut ar ia em reconhecer que a espir it ualidade é "algo important e e prof undo, (...) parte da psique humana e não apenas uma questão de f alta de educação ci entíf ica" ( ibidem). Essa co nfusão a respeit o da nat ureza de cert as exper iências co nscient es t ranscendent ais pr eser vadas e aper feiçoadas em out ras cult uras at ravés dos sécu los se dever ia à limit ação do alcance do nosso int elect o: "Quando se trabalha com estados não-usuai s de consciência,

começamos a entender melhor est a conf usão e vamos chegar ao que Jung já havia descobert o há anos: o intel ecto é parte da psique e esta é cósmi ca, abriga tudo o que exi ste. Não podemos entender, com o intelecto, como f unciona a psique de uma outra pessoa (...)." (Grof, 2000, s/p) A abordage m exclusiva ment e int elect ual ser ia um obst áculo que dificult ar ia a co mpreensão do funcio nament o psíquico de alguém. E, pareceme, isso é sobremaneira válido no caso desse alguém pert encer a um co nt ext o cult ural co mplet ament e adverso ao nosso. Por abr igar t udo o que exist e no universo, a psique precisa ser abordada t ambém so b pr ismas não-int elect uais. Isso não significa que o int elect o seja inút il mas par cial. À abordagem int elect ual, dever- se- ia acrescent ar outras que na sociedade at ual não são ut ilizadas. Se buscamo s a t ot alidade, não podemos ader ir t eimo sament e a apenas alguns inst rument os cognit ivo s. Ent re as abordagens válidas est á a simbó lica, co m sua via analógica que nos per mit e conceit uar e expressar int elect ualment e aquilo que é inacessíve l à ment e racio nal. A met áfora é a pont e ent re o compreensível e o inco mpreensíve l e nos per mit e a co mparação. Uma demo nst ração ana lógica t orna o obscuro menos inco mpr eensível. Para Jung (1984) a ext roversão excessiva dos dias at uais levar ia a uma negligência par a co m os acont eciment os int er nos, inclusive dent ro da ciência. E le nos diz que o "preconceito, muito dif undido, contra os sonhos, é apenas um dos si ntomas da subesti ma muito mai s grave da al ma humana em geral. Ao magníf ico desenvolvi mento ci entíf ico e técni co de nossa época,

correspondeu uma assustadora carência de sabedori a e introspecção. É verdade que nossas doutri nas religiosas f alam de uma alma imortal, mas são muito poucas as pal avras amávei s que di rige à psique humana real; esta iria diretament e para a perdi ção eterna se não houvesse uma intervenção especial da graça divina. Estes importantes f atores são responsávei s em grande medida – embora de f orma não exclusiva – pela subestima

generali zada da psique humana." (pp.18-19). E mbora t ivéssemo s grande desenvo lviment o t écnico, t eríamo s grande at raso int rospect ivo. Haver ia uma aversão bem difundida cont ra as viagens do ego às vast idões profundas do si mesmo e isso decorrer ia da ignorância a respeit o da nat ureza da alma. Nem mesmo as nossas religiõ es ser iam capazes de preencher essa lacuna. Haver ia uma subest ima da psique e um preco nceit o cont ra os sonhos. Os sonhos lúcidos não ser iam, port ant o, cult ivados ou vist os com bons o lhos em nossa sociedade. Ent ret ant o, nos dias at uais a ciência est ar ia se abr indo para a possibilidade de se desligar a consciência dos órgãos sensor iais ext ernos e t ranspô- la para além dos mesmo s, mas essa abert ura ser ia ainda incipient e (Grof, 2000): "A tanatologia vem estudando casos de ceguei ra congênita, em que as pessoas que viveram experi ênci as f ora do corpo descrevem o que acontece na sala de operações ou em out ros locai s e, quando voltam, descrevem o que viram, as expli cações são conf irmadas, só que quando retornam ao corpo f ísico, continuam cegas como ant es. Estas experi ências conti nuam sendo negadas pela comunidade científ ica." (gr ifo meu) As pessoas invest igadas ser iam cegas. Não t er iam, port anto, o poder da visão ext erna mas, durant e cirurgias, visualizar iam os acont eciment os da sala de operações em que est avam e at é acont eciment os fora dela e isso ser ia passível de confir mação. As imagens obt idas sem o recurso dos olhos ser ia m co mparadas às realidade vis ível e haver ia uma correspondência ent re ambas: de alguma maneira os pacient es saber iam o que se passava nas imediações. O fat o dessa per cepção não-usual acont ecer em salas de operações sugere que a pessoa est ar ia dormindo ou desmaiada exper ienciando, provavelment e, uma modalidade não-usual de sonho.

Algumas especialment e

pessoas sensíveis

co m a

ma ior pont o

apr imorament o de perceberem

int elect ual out ras

ser iam

realidades

conscient ement e. A exper iência que Gro f t eve "pri ncipal ment e com pessoas que têm grande t reinamento ci entíf ico e f ilosóf ico e que têm Q.I. muito desenvol vido, (...)[f oi] que estas, quando em trabalho com estados nãousuai s de consci ência, ent ram em contato com experi ênci as espi rituai s e místicas. E elas, não podendo negar a realidade espi ritual, começam a se interessar pelas tradi ções místico- religiosas, tanto no ori ente quant o no ocident e." ( ibidem, gr ifo meu). Não ser iam apenas pessoas pert encent es a cult uras ágrafas ou "at rasadas" que exper ienciar ia m conscient ement e as realidades par alelas, ent re as quais podemos inclu ir a dimensão onír ica. Isso parece reforçar ou suger ir a idéia de que o funcio nament o conscient e que consideramo s não-usual é arquet ípico e est á lat ent e mesmo nas pessoas ocident ais e int elect uais. Para que ele se desenvo lvesse, precisar ia ser cont at ado e at ivado. O aper feiçoament o cient ífico-filosó fico e a int eligência não o excluir ia m. O que o excluir ia ser ia o preconce it o, o qual result ar ia em negligência e impedir iam o seu cult ivo. Não obst ant e, o próprio Grof, um cient ist a que t eve for mação mat er ialist a em u m país do lest e europeu, afir mou t ranscender co nscient ement e os limit es do corpo físico so b efeit o do LSD. Refer indo-se a uma exper iência feit a na clínica em que t rabalhava, o est udioso relat ou: "Quando estava no ponto máxi mo do experi mento, no ponto mais intenso do ef eito daquela subst ância, eles me chamavam, para que se f izesse a experiência do monitoramento das [ minhas] ondas cerebrais. Deit ado com uma luz estetoscópica na minha f rente, de repent e me senti como que no meio de uma expl osão at ômica. Hoj e analiso que o que eu vi vi mesmo, naquel e momento, f oi a luz inicial da minha consciência, que f oi catapultada para f ora do meu corpo... e em um instante ‘eu’ saí da clínica, saí de Praga e saí para f ora do planet a. Minha consciência era o ref lexo de tudo que exi stia no universo. E aument ando a intensidade da experi ência com o aparelho, f ui voltando ao meu corpo f ísico." ( ibidem) Est a exper iência apresent a cont eúdos semelhant es aos de cert as

exper iências em medit ação e de um sonho t ido pelo própr io Jung (1963) no qual ele nos relat a t er voado at é deixar o planet a Terra e vê-lo das alt uras. É

int eressant e not ar que a exper iência de Grof apr esent a o abandono t emporár io das percepções sensor iais corporais pela consciência, po is do cont rário a mesma não poderia t er sido lançada para fora do corpo físico, da clínica e da capit al da ant iga Tchecoslo váquia. Ser lançado para fora de algo é deixá-lo e, por isso, ent endo que a consciência deixou as funções sensor ia is ext er nas do corpo fís ico. Obvia ment e, isso não ser ia possíve l sem que est e, no decorrer da exper iência, perdesse o est ado vígil. Caso cont rár io não se dir ia que a consciência "saiu do corpo". Quando dormimo s em sit uações co muns, sem recur sos químicos

adicio nais, e adent ramos às regiões onír icas, as per cepções ext ernas cessam, nos casos em que não há sonambulis mo, do mesmo modo que na exper iência de Grof. Evidenciamo s, assim, que o abando no do corpo físico pela consciência é um pont o comun às exper iênc ias mencio nadas. Quando ador mecemos, deixamo s de perceber muit as co isas que se passa m conosco: que est amo s deit ados, mal posicio nados, que t emos saliva escorrendo pela boca, que roncamos et c. Provavelment e, ninguém negar ia que durant e o sono as funções sensor iais ext ernas ficam mu it o reduzidas e que na mort e elas param. O relat o de Grof parece ser um caso de exper iência onír ica conscient e sob o efeit o da droga. Essa at uação da consciência dent ro do sonho s e relat ivament e desligada dos sent idos corporais pode irro mper durant e cert os pesadelo s

(Sanford,1988): "A participação da consci ência num sonho é responsável pelo f ato de as pessoas di zerem às vezes que despertam dos sonhos pela própri a vontade, especialmente quando se tornam aterrori zadores. Às vezes ouvimos das pessoas: ‘Eu disse para mim mesmo para despert ar, e o f iz’." (p. 56) Essas pessoas dir ia m a si mesmas, pr incipalment e durant e so nhos t erríveis, que dever iam despert ar e usar iam isso co mo recurso para sair da cena onír ica indesejável. Para que o ego chegue ao ponto de dizer isso para si mesmo, é preciso que e le t enha o discer niment o de que est á dormindo. Ninguém afir mar ia que precisa acordar se não compr eendesse que sonha. Essa modalidade especia l de consciência ser ia uma var iant e da capacidade de int er fer ir conscient ement e no cont eúdo dos sonhos,

programando-os previa ment e. Isso facult ar ia ao ego a chance de modificar

sua for ma de reagir ao cont at o dos element os onír icos, desde que est e não t ent asse impor seus capr icho s ao inconscient e. Ao modificar as reações no sonho, a pessoa poder ia adquir ir exper iências novas: "Uma das variações do sonhar programado chama-se ‘sonhar com lucidez’. Convida-nos a nos tornarmos ‘despertos’ no sonho ou, por outras palavras, a sermos capazes de reconhecer, no sonho, que estamos sonhando. Dizem que isso nos capacitari a a redi recionar nossos sonhos. Se

consegui rmos f azê-lo no senti do que qui sermos, ou se f ormos capazes de dar ao sonho um f inal agradável ou f avorável, no meu modo de pensar, isto seria uma grande perda(...). Contudo, se esse ‘estado de vigília’ f or utilizado com o objetivo de termos oportunidade de mudar nossas reações no sonho e podermos escolher out ras respostas [e não apenas as mesmas de sempre, aquelas nas quais nos mecanizamo s e às quais est amo s apegados] , o assunt o já é dif erente. Nesta hipót ese, teríamos uma f orma de ‘imaginação atuant e’, o que seria [um] processo auxiliar (...) [na int er ação co m os cont eúdos psíquicos que est ão se expressando e personificando durant e o sonho] . Há grande dif erença entre tentar manipular o inconscient e para adaptá-lo à nossa f antasia e alterar as respostas de nosso ego de acordo com o que está acontecendo em volta, e devemos nos lembrar e aproveitar essa di stinção." (grif o meu, idem, p.57) A lucidez no decorrer do sonho dever ia ser apro veit ada, ist o é, explorada. E la ser ia um fat or auxiliar no processo de aut o-conheciment o, desde que o ego a ut ilizasse corret ament e ao invés de impor ao sonho os seus capr ichos. No nível psíquico profundo, ser ia possível at é mesmo t ranscender conscient ement e o nível pessoal e exper iment ar-se co mo part e da mit o logia dos povos ou confundir- se co m a força cr iadora da nat ureza: "Em estado t ranspessoal você pode ser qualquer tipo de experiência, entre f icar com o ego - a identidade- até o princípio criador. Podemos nos experienciar como seres mi tológicos ou em ní vei s mitológi cos de consciência - onde o ser humano é def inido como um campo de possibilidades sem limites." (Gro f, 2000, s/p, gr ifo meu). Haver ia a possibilidade de nos exper iment ar mo s conscient ement e num níve l mit o lógico: ser mos unos co m os heró is lendár io s e ao mesmo t empo

saber mos

que

est amos

exper iment ando

isso.

Um níve l

mit o lógico

de

consciência é um est ado psíquico no qual so mos co nscient ement e uma figura mit o lógica. Possuir ía mo s vár ios níveis conscient es em nosso int er ior e est es poder iam ser conhecidos part icular ment e pelo ho mem que "olha para dent ro e explora a sua consciência em seus vári os níveis" (Capr a, 2000, p. 227). A exist ência de vár io s níveis de consciência dent ro do ho mem e a possibilidade de acesso a eles significar ia que não apenas uma modalidade de consciência, a do est ado nor mal de vigília, ser ia a rea lment e exist ent e em nós mas haver ia out ras e est as ser ia m conhecidas há muit o t empo pelos or ient ais. Seus míst icos "exploraram, através dos séculos, vários modos de consciência e as conclusões a que chegaram são, com f requência, radi calmente dif erentes das idéias sustentadas no oci dent e" ( idem, p. 225). Dest e modo, o nível o nír ico, que corresponde às camadas mais profundas da psique, poder ia apr esent ar funcio nament os conscient es,

faculdade não exclus iva do ego vígil. De acordo co m esses est udio sos, haver ia uma realidade invísive l: a do mundo imagina l. E la est ar ia fora do universo conscient e imediat ament e acessível ao ego durant e o est ado normal da vigília mas poder ia ser at ingida fora dele, sob condições especiais nas quais o func io nament o da consc iência fo sse alt erado.

Referências bibli ográficas:

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Fer nandes Dias. Edição 19-22. São Paulo, Cult r ix, 2000. GROF, St anis lav. Estados não usuai s de consciência . Palest ra e depo iment o dado ao sit e Quiron. www.quiron.co m. br/c iência. ht m. Reprodução via int er net em novembro de 2000. HARNIS CH, Günt er. Léxico dos Sonhos: mai s de 1500 símbol os oní ricos de A a Z interpretados à luz da psi cologia . (Das Grosse Traumlexikon: Über

1500 t raums ymbo le von A bis Z psycho logisch gedeut et ).Trad. de Enio Paulo Gianchini. Quint a edição. Pet rópolis, Vozes, 1999. JUNG, Car l Gust av. Memóri as, Sonhos e Ref lexões. (Memor ies,Dreams and Reflect io ns, 1963)Trad. de Dora Ferreir a da S ilva. Vigésima Pr imeira I mpressão. Edit ora Nova Front eir a. JUNG, C. G. Psicologia e Religião (Zur Ps ycho logie west licher und öst licher Religio n: Psycho logie und religio n). Trad. de Pe Dom Mat eus Ramalho Rocha. Segunda edição. Pet rópolis, Vozes, 1984. SANFORD, J. A. Os Sonhos e a Cura da Alma (Drea ms and Healing). Trad. de José Wilso n de Andr ade. Terceira ed ição. São Paulo, Paulus, 1988.

Você pode ficar consciente durante o sonho
(Or i gina l m en t e publ i ca do n a r evi st a Pode r da Me nte ) Por Cl eber Mon t ei r o Muni z
M u n i z, C . M . ( 2 0 0 2 ) . V o c ê p o d e f i ca r co n s c i e n t e d u r a n t e o s o n h o . P o d er d a M e n t e n º 7 , a n o 1 , p p . 4 2 -4 6 .

Na

maior ia das

vezes e m que

nos deit amos

e

dor mimo s,

não

percebemos o que est á ocorrendo conosco. Nossa consciência "se apaga" e at uamos dent ro do sonho sem perceber que est amos so nhando. Não t emos, nos so nhos nor mais, o discer niment o de que dormimos. Tendemo s, quase sempr e, a acredit ar que est amos presenciando cenas ext er iores e não int er iores. Ent ret ant o, há mo ment os em que reconhecemo s o sonho no exat o mo ment o em que se processa. Quando isso acont ece, dizemo s: "Estou sonhando, isto que estou vi venciando agora é um sonho" . A modalidade de so nho na qua l o sonhador compreende que est á sonhando e não at uando sob for ma vígil, ist o é, durant e a vigília, que é o est ado de quem est á acordado, chama- se sonho lú cido (Eeden, 1913). Um sonho lúc ido é, port ant o, uma modalidade de est ado onír ico (onír ico é aquilo que se refere ao sonho) na qual o sonhador est á conscient e do que se passa. Co mpreende que seu corpo dorme na cama e que via ja para dent ro de si mesmo, at ravés das pro fundidades da alma. Durant e os sonhos lúcidos, a realidade do mundo int erno não é confundida co m a realidade ext er ior. Há do is modos de rea lidade: a ext er ior e a int er ior. A realidade ext er ior é a t ridimensio nal, t ambé m deno minada "mat erial". A realidade int er ior é a dos sonhos, a realidade onír ica. Assim co mo há um mundo ext er ior, há um mundo int er ior. Podemos dizer que é imagi nal po is é feit o de imaginações. São imagens int er nas de objet os, casas, cidades, pessoas e anima is. Trat a-se de uma vast idão que pode ser conhecida e explorada. Quando t emos o discer niment o de que est amos sonhando, podemos aproveit ar o sonho ao máximo. É possível via jar para lugares dist ant es, conhecer o que est á ocult o dent ro de nós mesmos e apr ender a nos relacio nar mos melhor co m os nossos co nt eúdos psíquicos.

Se não est iver mo s conscient es, confundiremo s as cenas onír icas co m cenas fís icas. Por t al razão, ao sonhar mo s co m um leão, por exemplo, fugiremos apavorados acredit ando que poderemos ser at acados. É claro que o animal imaginal, pert encent e ao sonho, é ino fensivo. O mundo dos sonhos é real. Podemos dizer que é out ro mundo, pert encent e a out ra dimensão de nossa exist ência: "a dimensão do

inconsciente" (Sanford, 1988). É o mundo mist er ioso ao qual adent rou o profet a Isaías (Tr icca, 1992) em est ado de êxt ase ant e uma mult idão. Est ando lúc idos, podemos ser explor adores da dimensão desconhecida e via jar pelas lo ngínquas do mundo int erno.

Como se tornar u m observad or con scient e nos seus sonhos

A viagem conscient e ao mundo onír ico pode ser aprendida por mét odos que visam educar a at enção. Um mét odo consist e em nos acost umar mos a obser var durant e o dia as cenas ext er iores que nos rodeiam, realizando "testes de realidade" (Harar i & Weint raub, 1993) co m a int enção de descobr ir mo s se est amo s ou não sonhando. Se o fizer mos vár ias vezes ao dia, repet ir emos a mesma o bser vação à no it e, dent ro do sonho. Como os sonhos apresent am cenas iló gicas (cavalos que voam, elefant es ar bor íco las et c.), aprenderemo s a reconhecê-lo s at ravés de acont eciment os impossíveis para est e mundo. É um mét odo que se base ia na prát ica de discer nir const ant ement e a respe it o da nat ureza do mundo em que est amo s aqui e agora. Func io na pela at enção cuidadosa e sincera focada sobre os element os que est ão ao nosso redor: as pessoas, os anima is, os carros, as árvores, as casas, et c. Para que o mét odo da obser vação da realidade circundant e dê

result ados, precisamos ser capazes de permit ir que as cenas obser vadas nos revelem se são onír icas ou fís icas. Mu it as vezes, os acont eciment os que presenciamo s nos revelam, por si própr ios, se est amos ou não sonhando. Não necess it amo s quebrar a cabeça a respeit o, t ent ando discer nir por meio de raciocínios: bast a obser var. A obser vação revela.

Ao

t ent ar

discer nir

por

meio

de

inferências

lógicas e

não

de

const at ações puras, nos t ornamo s incapazes de capt ar as diferenças ent re os mundos. Out ro mét odo consist e em aco mpanhar mos conscient ement e o processo de inst alação do sono. É a t écnica do relaxamento conscient e, desenvo lvida no bud ismo t ibet ano e aplicada por cient ist as em t est es de laborat ório para indução e est udo de est ados onír icos conscient es. Para aplicá-la, devemo s nos deit ar e obser var at ent ament e as alt erações corporais e psíquicas pelas quais vamos passar confor me o sono se inst ala. É preciso ser pacient e e recept ivo. A co nt emplação conscient e e cont ínua do relaxament o progressivo per mit e que ador meçamo s sem perder a lucidez. Um cuidado a ser tomado é o de não blo quear o adormeciment o corporal co nfundindo-o com perda de co nsciência. À medida em que o relaxament o conscient e se apro funda, passamo s a t er percepções alt eradas sob múlt iplas formas e int ensidade cada vez maior: podemos sent ir vibr ações na cabeça ou no corpo todo e chiados int racranianos. Podemos, ainda, sent ir que est amo s caindo ou que uma corrent e elét r ica nos percorre. São indicadores de que est amo s at ingindo um est ado não usual de consciência. Por fim, at ingimo s a paralis ia do sono. É a últ ima et apa. Nest a fase, o corpo não obedece mais aos nossos co mandos, apesar de est ar mos lúcidos, porque est á em so no profundo. A par alisia é ino fensiva. Proporciona as pr ime ir as visões e so ns do mundo dos sonhos. Para prosseguir a viagem, t emos que receber as imagens e sons int er nos que nos chegam, per mit ir que se co nfigurem por si mesmo s co mo uma cena onír ica. A ult rapassagem do umbral ent re os dois mundos efet ivament e se inic ia quando os pensament os e as imagens ment ais se co ncret izam ant e nossa consciência, passando a ser percebidos com a mesma nit idez co m que percebemos os element os do mundo ext er ior durant e a vigília. No inst ant e em que vemo s e ouvimo s imagens e so ns int ernos objet ivament e, como se fossem ext ernos, est amos inser idos na dimensão onír ica. A co mbinação das duas t écnicas, a do discer niment o diár io e a do relaxament o conscient e, acelera a obt enção do sonho lúcido.

As vantagen s do sonho lúcid o

O medo da mort e sofre at enuação quando nos exper iment amos vivo s, int act os, lúcidos e acordados enquant o o corpo est á adormecido e desfalecido no quart o. A exper iência de est ar lúcido dent ro de um so nho nos põe em co nt ato co m um est ado de realidade inco mum e proporcio na a cert eza de que não so mos apenas uma massa t r idimensio nal de car ne e ossos. Alé m disso, o cont ato dir et o com os acont eciment os onír icos nos per mit e ext rair infor mações do inconscient e. At ravés da obser vação e do diálogo com as figuras que surgem em sonho s, podemos descobr ir mu it o a respeit o de nós mesmo s, de out ras pessoas ou do mundo. A psique inco nscient e cont ém infor mações que ult rapassam o alcance da consciência e podem ser acessadas durant e o sono (Jung, 1963). A superexcit ação e a ansiedade int ensa t razem o sonhador lúcido de vo lt a ao est ado vígil cont ra a sua vont ade. Port ant o, ao nos descobr ir mos dent ro de uma realidade paralela, não devemos ficar exalt ados

emocio nalment e ou perderemos a exper iênc ia. Por meio da ser enidade, conseguimo s est abilidade no mundo int er ior e podemos pro longar a duração do est ado alt erado de consciência. O medo, a alegr ia, a surpresa ou out ras emoções int ensas int erro mpem subit ament e o sonho. Ao nos desco br ir mo s lúcidos onir icament e, podemos exer cit ar, em est ado de máxima serenidade, o vôo, a flut uação, a alt eração das cenas cir cundant es e o t ransport e at ravés do t empo e do espaço. As cenas onír icas t omam for ma a part ir dos impu lsos conscient es e inco nscient es de pensament o e sent iment o. Por isso, podemos cr iar

acont eciment os dent ro do sonho lúcido at ravés da imaginação e da vo nt ade. Por meio da imaginação e da vont ade co ncent radas, podemos voar, ir à países dist ant es, assumir a aparência de out ras pessoas e at é nos exper iment ar mo s co mo se fôssemos e las própr ias. O poder de int er fer ir conscient ement e no rot eiro do sonho depende do grau de discer niment o e liberdade de ação que nossa consciência possui; se não est iver mo s lúcidos, será muit o pequeno.

Um novo

mundo

se

abr irá

ant e

aquele

que

aprender

a

viajar

lucidament e para o universo da alma. Sua vida será resignificada e sua idiossincrassia ( visão de mundo) renovada. As ent idades da psique

demo nst rarão que possuem realidade objet iva ( Jung, 1963). Ent ão, o sonhador desco br irá por si mesmo que o univer so imag inal anímico do ho mem é, à sua maneira, concret o. É a port a que nos per mit e chegar aos limit es ext remos da ciência no que concer ne às quest ões espir it uais e at é ult rapassá-lo s.

Referências bibli ográficas:

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Capt urado em março de 2001. HARARI, Keit h & WEINTRAUB, Pamela. Sonhos Lúcidos em 30 Dias: O Programa do Sono Criati vo (Lucid Dreams in 30 Days). Trad. de Mar li Berg. Rio de Janeiro: Ediouro, 1993. JUNG, Car l Gust av. Memóri as, Sonhos, Ref lexões (Memor ies, Dreams, Reflect io ns). Trad. de Dora Ferreira da S ilva. Rio de Janeiro: Nova Front eir a, 1963. O Livro da Ascensão de Isaí as. In: TRICCA, Mar ia Helena de Oliveira (org. e co mp.). Apócrif os: Os Proscritos da Bíblia .. São Paulo: Mercúr io, 1992. SANFORD, J. A. Os Sonhos e a Cura da Alma (Drea ms and Healing). Trad. de José Wilso n de Andr ade. Terceira ed ição. São Paulo: Paulus, 1988.

A verificação das leves alterações conscientivas no sonho
Cl eber Mon t ei r o Mun iz em 29 de n ovem br o de 2001
A d i v u l g a çã o l i v r e d e s t e a r t i g o p e r mi t i d a s o m e n t e c o m a a u t o r i za çã o d o a u t o r . T ex t o r e g i st r a d o . N ã o o p l a g i e p a r a n ã o s o f r er a s p e n a l i d a d e s d a l ei .

Durant e

os

sonhos,

podemos

apr esent ar

diver sos

est ados

de

consciência. O discer niment o de que est amo s no mundo int er no pode ser tot al, parcial, mínimo ou nenhum. À medida em que educamos nossa at enção víg il, os est ados de consciência dent ro dos sonhos vão sofrendo alt erações. Se nos educamo s diar iament e, poderemos reproduzir, so b for ma onír ica, est ados leve ment e alt erados na direção da luc idez. O t reino diár io da consciência repercurt e, inic ialment e, em t ênue aument o, dent ro do sonhos, dos seguint es ele ment os:

1. a concent ração no que est amos fazendo 2. a vivência do present e 3. a obser vação de nós mesmo s 4. a obser vação das cenas que nos rodeiam

As pr imeiras alt erações são incipient es, leves e não correspondem ainda ao despert ar complet o, sendo apenas mudanças na for ma de

cont emplar mos o mundo e a nós mesmo s enquant o dormimo s. Ent ret ant o, podemos nos recordar desses novos est ados e anot á-lo s para post er ior est udo e maior assimilação. O discer niment o int ra-onír ico não irro mpe de modo súbit o do nada. Result a da alt eração progressiva e lent a dos fluxos at encio nais. Ant es de efet iva ment e despert ar mos no mundo dos sonhos, passamos por est ados int er mediár io s de semi-despert ar. Os est ados int ernos que ant ecedem o despert ar apresent am pequena int ensificação da concent ração nas at it udes, da observação de nós mesmo s, da obser vação da realidade circundant e e do quest ionament o sobre o modo de exist ência sob o qual est amos operando no aqui-agora onírico.

O exercício de recordação, anot ação e análise dos sonhos deve abranger essas sut is alt erações. Convém ver ificar se, dur ant e os sonhos, obser vamo s a nós mesmos ou as cenas ext ernas e se chegamo s a nos quest io nar a respeit o do possível t eor onír ico daquilo que vivenc iamo s em nosso mundo imagina l. A co nst at ação de que alt erações na consciência not urna aos poucos est ão se efet ivando marca o início das compro vações pessoais no t erreno t ranscendent e. A co mprovação de que est amos lent ament e despert ando no mundo ext ra-vígil nos est imu la a prosseguir co m as prát icas at encio nais no dia a dia. Vejo, dest e modo, um sent ido nas anot ações dos sonhos: ser vem co mo regist ro das transfor mações pelas quais a co nsciência onír ica passa rumo ao despert ar. E t ais reg ist ros servem co mo est ímulo para que não desist amos de prosseguir t rabalhando psiquicament e.

Referências:

Est e art igo não possui r eferênc ias

A realidade do mundo dos sonhos nos tempos antigos e hoje
( ca p . I d e " A E x p e r i ê n c i a O n í r i c a C o n s c i e n t e : V i a g e n s d a C o n s c i ê n c i a a o M u n d o d o s S o n h o s " – m o n o g r a fi a a p r e s e n t a d a p a r a c o n cl u sã o d o cu r s o d e e s p e c i a l i za çã o e m A b o r d a g e m J u n g u i a n a p e l a C O G E AE d a P U C -S P e m 2 0 0 1 e o r i e n t a d a p el a P r o f a D r a N o el i M o n t e s M o r a e s)

Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 4/ 3/ 01

A d i v u l g a çã o l i v r e d e s t e a r t i g o é a u t o r i za d a d e s d e q u e c i t a d o o a u t o r T ex t o r e g i st r a d o . N ã o o p l a g i e p a r a n ã o s o f r er a s p e n a l i d a d e s d a l ei .

Nos t empos ant igos, os sonhos eram co nsiderados co mo a expressão de um mundo verdadeiro e diferent e dest e. O mundo espir it ual era vist o como import ant e e real, ao cont rár io do que ocorre ho je. As visões onír icas eram tomadas co mo o cont ato do homem co m a dimensão desco nhecida de sua exist ência. Disso decorr ia a grande import ância at r ibuída aos so nhos nas cult uras ant igas e confir mada por Sanford (1988) ao abordar a quest ão da depreciação nos dias at uais: "(...) enquanto nosso tempo ignora e despreza o assunto dos sonhos, nos tempos antigos el es eram muito mai s valorizados. Tanto quanto conheço, não exi ste nenhuma cultura anti ga na qual os sonhos não f ossem vistos como extremamente import antes." (p.12) Ao cont rár io do que ocorre na cult ura moder na, na qual não se prest a at enção cuidadosa aos sonhos e se os considera desprezíveis, o ho mem ant igo at ribuía import ância ext rema às exper iências onír icas. Essa valor ização demo nst ra que eram ent endidos co mo port adores de alguma for ma de realidade po is do cont rár io não ser iam t omados em t amanha consideração. Não se dá import ância ao que não exist e. At é mesmo uma ment ir a ou um boat o precisam exist ir, ainda que seja so b a for ma de uma idéia vaga na cabeça de alguém, para que se dê a eles alguma import ância. Os co mport ament os irracio nais do ho mem, present es ainda no mundo de ho je, ser iam, par a os pr imit ivo s, sinais da exist ênc ia de uma realidade espir it ual que envo lver ia forças os que seres os ult rapassavam. e os Tais for ças, a

inco mpreensíve is,

mo ver iam

humanos

arrast ar iam

co mport ament os subversores do cont role conscient e, sendo, além disso, part e de um universo invisíve l e poderoso mas acessível por meio dos sonhos, nos quais t ambém irro mper ia. O mundo espir it ual manifest ado em sonhos

possuir ia uma for ma específica de realidade que ser ia sina lizada pelo co mport ament o humano irracio nal. Haver ia ligação ent re o ato de nos co mport armos co mo se est ivéssemos possessos e os sonhos po is um ser ia sinal do out ro: "O comportamento humano não é racional e a humanidade se comporta em todo o mundo como se f osse possessa. Para o homem primi tivo tudo i sso era si nal óbvio da realidade do mundo espiritual que lhe aparecia nos sonhos. (...) Persistimos em nosso mat erialismo racionali sta, sob a ilusão de que somos racionais e os outros não. Se há di stúrbios em nossos sentiment os e em nossa af etividade, atribuí mos a causa ao que os out ros nos f azem e continuamos pensando que só tem sentido o que nos parece lógico e racional, que só é real o que vemos, ouvimos, chei ramos, tocamos e provamos . Os sonhos tem sentido, mas um sentido que não é lógico. São muito reai s, mas sua realidade não é apreendida por nenhum dos sentidos do nosso corpo ." ( idem, p. 14, gr ifo s meus) Nos dias at uais, acredit amo s que aquilo que não co mpreendemo s não exist e. Segundo essa for ma de pensar, a exist ência não possuir ia um aspect o desco nhecido, um lado não ent endido ; o inco mpreens ível ser ia inexist ent e. Levada ao ext remo, t al idéia nos leva a crer que sabemo s t udo, que não há mist ér io s. Trat a-se de uma vio lent a inflação egó ica. E m decorrência dessa inflação, rechaçamos o mundo dos sonhos enquant o modalidade especial de realidade por não compreendê- lo. Nosso cet ic ismo ar bit r ár io não nos per mit e aceit ar a exist ência daquilo que não conseguimo s co mpreender at ravés dos cinco sent idos. Esses são os únicos inst rument os que sabemo s usar em nossos processos de cognição. Ignoramos que o problema est á em nós e não no mundo onír ico e que t emos uma consciência ador mecida e medío cre que nos impede de exper iment ar out ras realidades. Não co locamo s at enção sincera na limit ação dos nossos sent idos usuais. Não percebemo s os sonhos dir et ament e pelos órgãos sensor iais ext ernos e, por isso, pensamo s que eles não exist em, nos esquecendo de que a realidade possui níveis ou facet as usualment e nãosensor iais. E m t ais condições, t udo se passa, para nós, co mo se o usualment e não-sensor ial fo sse o nada. Se isso fosse ver dade, não haver ia um espect ro cont endo sons inaudíveis e fe ixes lumino sos invis íve is ao olho nu,

det ect áveis apenas recent ement e co m o uso de equipament os moder nos.

Nem mesmo a religião conseguiu ampliar nossa co nsciênc ia na direção de capt ar mais diret ament e as realidades int er nas, apesar de aparent ement e se posicio nar cont ra o arbit rár io cet icis mo reinant e. A igreja " já poderia nos ter resgatado dessa f ilosof ia materiali sta e arrogante, se ela mesma não tivesse renegado suas próprias tradi ções e, como tudo o mai s, sucumbido ao materialismo racionali sta dos nossos dias. (...) Ao enf atizar a vida da institui ção mai s do que a da alma, deixou de lado os sonhos. (...) Foi o que minou a base da vida espiritual da igreja, expondo-a ao mesmo mat eri alismo e racionalismo que ela combatia e que se est endeu pelo mundo int eiro. A igreja pref eriu ignorar o f ato de que a rejei ção aos sonhos ia contra a vi são contida na bíblia e no cri stiani smo primiti vo." ( ibidem, p.14). O significado que o mundo dos sonhos possui para os religiosos de ho je ser ia

co mplet ament e est ranho às co munidades cr ist ãs do sécu lo I. Ao rechaçá-lo, nossa igreja t eve suas bases espir it ua is minadas. A vit a lidade espir it ual perdeu seu alicerce. Cert os sonhos que ser vem de fundament o às exper iências religio sas possuem impressões de realidade t ão impact ant es que chegam ao pont o de at errorizar o sonhador. Eles "parecem carregados, de modo especial, com energia psí quica. São os sonhos chamados ‘numinosos’. A palavra vem do latim numen, que signif ica a divindade ou a f orça espiritual atuante. Di zemos que experi mentamos algo numinoso quando i sso parece nos levar a participar da natureza de uma realidade espi ritual dif erente , que exist e para além de nossa natureza pessoal. (...) A santidade de Deus é a própria numi nosi dade. [Rudolf ] Otto enf atiza que, diante do Deus de Israel, o homem sent e temor, admiração, horror, enf im, sente o ser própri o de cri atura. A numinosidade constit ui a matéria-prima da experi ênci a religiosa." (Sanford, 1988, pp. 3334, gr ifo meu). Exper iências onír icas numinosas nos dão a sensação de part icipar de uma realidade t ranspessoal. Sent imo s est ar em cont at o com algo verdadeiro que est á além de nós mesmo s e nos ult rapassa. Obvia ment e, a exper iência não provocar ia t error se o seu cont eúdo não fosse t omado como real. Segundo a Bíblia, a realidade t ranscendent e se revela ao ho mem durant e as horas do sono, embora ele não perceba:

"(...)Deus f ala de um modo, sim, de doi s modos mas o homem não atenta para isso. Em sonho ou em vi são de noit e, quando cai o sono prof undo sobre os homens, quando adormecem na cama , então lhes abre os ouvidos e lhes sel a a sua inst rução, para apartar o homem do seu desígnio e livrá-lo da soberba; para guardar a sua alma da cova e a sua vida de passar pela espada." (Jó 33. 14-18, grifo meu) Deus inst rui o ho mem dent ro do mundo onír ico e torna-o recept ivo à Sua inst rução. Ele o prot ege e o ajuda a evit ar a mort e e a espada do inimigo. Isso não ser ia possível se mundo dos sonhos fosse t omado co mo irreal. Na aut obiografia do filóso fo e t eólogo persa Al-Ghazzali, do século XI, a realidade dos sonhos chegava a ser vist a co mo a de um est ado similar ao de Deus e for necer o dom da pro fecia. E le considerava que "Deus aproximou o prof etismo dos homens ao dar-lhes um estado análogo a Ele em seus caracteres principai s. Esse estado é o sono. Se di sséssei s a um homem sem nenhuma experiência com um f enômeno dessa natureza que exi stem pessoas capazes, em dados momentos, de desmaiar de modo que pareçam mort as e que [nos sonhos] ainda percebam coisas que estão ocultas, ele o negaria [e exporia suas razões para isso]. Não obstante, suas al egações seriam ref utadas pela experi ência real." (apud James, 1995, p. 253) Alé m de real, o mundo dos sonhos era vist o como t endo conexões co m o mundo ext erno. Uma relação de correspondência dessa nat ureza pode ser encont rada em um relat o de Enoch, infe lizment e depreciado pela Igreja e pouco divulgado, a respeit o dos mo ment os que ant ecederam sua viagem at ravés dos set e mundos celest es: "No pri mei ro dia do pri mei ro mês, estava eu sozinho em minha casa descansando no meu leito, quando adormeci. E quando estava adormecido, uma grande tri steza tomou conta do meu coração e chorei durant e o sono, e não podi a entender que tri steza era aquela ou o que i ria acont ecer-me. E então me apareceram doi s homens, extraordi nari ament e grandes, como eu nunca vira antes na Terra; suas f aces resplandeciam como o sol, seus olhos eram como uma chama e de seus lábios saía um canto e um f ogo

variados, de cor viol eta na aparênci a; suas asas eram mai s brilhantes do que o ouro, suas mãos mais brancas do que a neve. Eles est avam em pé, na cabecei ra do meu leit o e puseram-se a chamarme pelo nome. Acordei e vi clarament e aquel es doi s homens, de pé, na minha f rent e." (O livro dos Segredos de Enoch 1: 4-8) Os ho mens que E noch viu no sonho est avam na cabeceira de sua cama. Ao acordar, ele diz t er vist o os mesmo s ho mens à sua fr ent e. De acordo com o relat o, parece haver ocorrido uma sincronic idade: ele sonhou co m algo que post erior ment e acont eceu no mundo ext erno. Os mesmo s ho mens vist os por Enoch durant e o sonho eram os que est avam em pé próximo à sua cama quando ele acordou. Um co nt ato co m o mundo espir it ual na ausência da vig ília pode ser encont rado em uma revelação de Isaías. O pro fet a t eve uma visão durant e a qual perdeu os sent idos ext ernos. E le se mant eve em silêncio e fo i dado como mort o pelos que o obser vavam: "E enquanto Isaías f alava sob a inspiração do Espí rito Santo, e todos o escutavam no mais prof undo silêncio, o seu espí rito f oi elevado acima del e mesmo, e ele não mai s enxergou os que estavam em pé diante del e. "E seus olhos permaneciam ainda abertos, mas a sua boca não prof eria mais palavras, e o seu espí rito f oi levado acima dele mesmo. Ele, no entanto, vivia ainda; mas est ava imerso numa vi são celeste. E o anjo que lhe f ora enviado para revelar-lhe esta vi são não era um anjo dest e f irmament o, nem um desses anjos gloriosos dest e mundo: era um anjo descido do sétimo céu. E o povo que lá se encontrava com a assembl éia dos prof etas acreditou que a vida de Isaí as tinha-lhe sido subt raída. E a visão do santo prof eta não f oi deste mundo aqui, mas uma vi são do mundo mi sterioso no qual não é permitido ao homem penet rar." (O Livro da Ascensão de Isaías 6: 10-15) De acordo co m o escr it o, nos mo ment os em que os o lhos de Isaías deixaram de capt ar as pessoas à sua frent e, ele t inha uma visão de outro mundo, mist er io so e impenet rável. Seus o lho s se mant iver am abert os durant e o cont ato, um possíve l ind icador de que seu est ado era o de um so nâmbu lo ou

algo semelhant e. O fat o do povo reunido julgá-lo sem vida é um indicador de que cert as funções corporais t ípicas de quem est a vivo, como o moviment o e a fala, haviam sido suspensas (cadáveres nor malment e não se movem). O est ado do seu corpo não era vígil uma vez que não havia consciência dest a realidade ext erna. A mesma ausência de consciência ocorre no sono usual, no sonambulismo, no desma io, na medit ação, no t ranse ou no coma: em t odos esses est ados o funcio nament o das exopercepções é int errompido e o corpo desfalece. E nt endo que sua consciência deixou o mundo ext er no e penet rou na dimensão onír ica ou fez algo muit o próximo disso, pois o profet a não dava sinais de est ar acordado. O univer so onír ico exist e paralela ment e ao fís ico sob a for ma psíquica (os mundos int er no e ext er no são simult âneos e paralelo s) e, em geral, quando se abandona um se vai para o outro. Em todo caso, o mundo acessado nessa exper iência fo i co nsiderado real, o que favorece a afir mação de que os ant igos não depreciavam a realidade int er ior. Co mo se vê, os est ados em que a co nsciênc ia deixava o corpo fís ico eram a pont e para a realidade espir it ual. As exper iências que se t inha durant e o sono funcio navam co mo port as ou "port ais", at ravés dos quais o ho mem poder ia cont at ar out ras realidades, dist int as da usua l. O univer so além dos limit es do est ado vígil não era considerado irreal ou vist o como algo que t ivesse uma exist ência vaga e ilusór ia. O fat o de ser t rat ado como uma for ma de manifest ação divina demo nst ra que esse mundo era tomado em

consideração ser iament e. A exper iência míst ica er a obt ida enquant o se dormia. E nesse est ado se poder ia obt er a aut oridade de quem t eve uma revelação de Deus. Uma aut oridade de t al nat ureza, proporcio nada pela exper iênc ia religio sa

profunda, pode, segundo Willian Ja mes (1995,) chegar a dest ruir as bases da for mal co ncepção lógico-racio nal de rea lidade po is os "estados místi cos, quando bem desenvol vidos (...) quebram a autoridade da consci ênci a não mística ou raci onali sta, que se baseia apenas no intel ecto e nos sentidos. Mostram que esta não passa de uma espéci e de consci ência. Abrem a possibilidade de out ras ordens de verdade nas quai s, na medida em que alguma coi sa em nós responda vital ment e a elas, possamos continuar livrement e a ter f é." (p. 263, grifo meu). Para ele, há vár ias for mas de consciência que dão acesso a vár io s t ipos de realidades e a religio sa, aquela

que se t em nos est ados

míst icos,

ser ia uma delas.

Dest e

modo,

as

exper iências religio sas possuir iam um fundament o real, peculiar ao t ipo de consciência que lhe corresponde, e não falso. Fo i o que ocorreu com E noch e Isaías, que t iveram exper iências religio sas em est ado ext ra-vígil e aut ênt icas à sua maneira, desde um pont o de vist a espir it ual. At ualment e, a valor ização dos sonhos parece est ar ret ornando. O cet icis mo ar bit rár io, aquele que est á fixo na dúvida grat uit a e busca adapt ar os fat os à t eoria (que ser ia melhor definida co mo crença) e aos mét odos ao invés de adapt ar est es últ imo s às evidências, est á ret rocedendo e a realidade do mundo onír ico sendo levada em co nsideração. Sanford (1988) ent ende que ho je a ciência est á invest igando co m mais cu idado e ser iedade os desafio s cognit ivo s que lhe são lançados pelos sonho s: "Atualmente, estamos nos aproximando da mudança. Durante o século XX, o sonho volta a se tornar obj eto válido de estudo e investigação. E temos, por exemplo, as pesqui sas sérias relativas ao sono e aos sonhos que começaram a ser f eitas depoi s da Segunda Guerra Mundial." (p.15) Co mpreender a import ância de explorar o mundo dos sonhos ao invés de esqu ivar-se ingenuament e dos problemas post os por ele é amp liar as front eir as da ciência. É t ambém aproximar-se mais da visão de Isaías, E noch, Jó, dos povos ágrafos at uais e das cult ur as ant igas e "pagãs", recuperando as bases verdadeirament e espir it uais do cr ist ianismo pr imit ivo, descart adas pela igreja. A idéia de um mundo int er ior real é co mpart ilhada por Saiani (2000) para quem o pressupost o de que a "realidade objet iva" e o "purament e subjet ivo" difer em é preconceit uoso uma vez que a realidade abrange event os fís icos e psíquicos. Levada adiant e, isso significa que exist em objet os psíquicos assim co mo exist em objet os fís icos e que nem sempr e o psíquico é subjet ivo. Alé m disso, Jung (1986) ent endia que o eu est á cont ido em um mundo, que esse mundo era a alma e que ser ia razoável at r ibuir-lhe a mesma validade que se at r ibui ao mundo empír ico uma vez que ela possui t ant a realidade quant o ele. Segundo seu pensament o, a psico logia dever ia reco nhecer que o fís ico e o espir it ual coexist em na psique e que, por razões epist emo lóg icas, esse par de opostos fo i c indido pelo ho mem ocident al.

Dent ro do ho mem há um universo verdadeir o, feit o de imaginação, que se faz not ar incessant ement e por meio de pensament os, sent iment os,

recordações e dos sonhos, quando ent ão se faz mais espesso e t angível. Esse mundo no qual a ciência est á penet rando aos poucos, pert ence a uma dimensão desconhecida do espír it o humano. Nós a chama mo s de inconsci ente porque não t emos, usualment e, cont atos conscient es e diret os com ela: "(...)eis uma teoria básica sobre os sonhos: origi nam-se em out ra dimensão de nossa personal idade a qual, pelo f ato de não termos consciência da mesma, é chamada de inconsci ente. (Sanford, 1988, p.29, gr ifo meu) Alé m dest a dimensão em que vivemos durant e a vigília, há out ra: a dimensão do inconsc ient e. As regiões de onde os sonhos provém parecem ainda ser pouco acessíve is à invest igação cient ífica no nosso at ual est ágio de desenvo lviment o. Ent ret anto, a consider ação sér ia dos mesmo s enquant o realidade passíve l de est udo livre e dos relat os de pessoas que realizam viagens onír icas conscient es (sonhos lúcidos) pode abr ir novas port as nesse campo e ajudar a dissipar nossa ignorância, além de ocupar um espaço que de out ra for ma poder ia ser dest inado ao char lat anis mo e às mist ificações irresponsáveis.

Referências bibli ográficas:

JAMES, William. As Vari edades da Experiência Religiosa: Um Estudo sobre a Natureza Humana. (The Var iet ies o f Re lig ious Exper ience). Trad. de Ot ávio Mendes Cajado. Décima edição, 1995. São Paulo, Cult r ix. JUNG, C.G. & Wilhelm, R. (organizadores). O Segredo da Flor de Ouro: Um Livro de Vida Chi nês. Trad. de Dora Ferreira da S ilva e Mar ia Luíza Appy. Terceira edição. Pet rópolis, Vozes, 1986. O Livro da Ascensão de Isaí as. In TRI CCA, Mar ia Helena de Oliveira (org. e co mp.). Apócrif os : Os Proscritos da Bíblia . Edição de 1995. São Paulo, Mercúr io, 1992. O Livro de Jó. I n: A Bílblia Sagrada: O Antigo e o Novo Test ament o. Trad. de João Ferreir a de Almeida. Segunda edição. Baruer i, Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

O Livro dos Segredos de Enoch (II Enoch). In TRICCA, Mar ia Helena de Oliveira (org. e comp.) . Apócrif os : Os Proscrit os da Bíblia . Edição de 1995. São Paulo, Mercúr io, 1992. SAI ANI, Cláudio. Jung e a Educação: Uma anál ise da relação

prof essor/ aluno. Pr ime ira edição. São Paulo: Escr it uras, 2000. SANFORD, J. A. Os Sonhos e a Cura da Alma (Drea ms and Healing). Trad. de José Wilso n de Andr ade. Terceira ed ição. São Paulo, Paulus, 1988.

Parte II Atravessando lucidamente o portal dos sonhos

O problema da dinâmica usual do sono e de como superá-la
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 04/ 03/ 01 A di vul ga çã o l i vr e de st e a r t i go é a ut or iz a da desde que ci t a d o o a ut or T ext o r egi st r a do. Nã o o pl a gi e par a n ã o sofr er a s pena l i da des da l ei .

A dinâ mica usua l do sono t em a fascinação da consciência pelo s pensament os como meio de dispensar a ident ificação do ego com o corpo fís ico. Essa dinâ mica cons ist e na subst it uição da ident ificação co m o corpo pela ident ificação com as imagens ment ais. Isso ocorre porque o sono exige um esqueciment o corporal par a se inst alar. Se est iver mo s ident ificados co m o veículo fís ico, não dormimo s e não adent ramos ao reino onír ico. Esse é o mot ivo de, por exemplo, ficar mo s meio inso nes quando t emos dores fís icas. Se nos mant iver mos ident ificados co m o corpo, est aremos ident ificados co m os sent idos ext ernos. Isso nos ret ém a exist ênc ia psíquica no mundo ext er ior. A so lução enco nt rada pela nat ureza fo i desligar as exopercepções por meio das endopercepções em est ado fascinat ório, ou seja, fazer co m que fiquemos ident ificados co m os pensament os a pont o de esquecer corpo e mundo fís icos reais. No lugar da at enção ident ificada co m o corpo, passamo s a t er a at enção ident ificada co m as imagens ment ais, que são os pensament os. Essa é a dinâ mica psíquica usual do sono, sem a qual não é possível ador mecer o corpo na cama. É essencial par a o sono a não-ident icação fís ica po is e le é o esqueciment o do corpo e do mundo, um leve est ado de quase-mort e muit o super ficia l e nat ural. Ocorre, ent ret ant o, que esse processo de subst it uição de ident ificações apenas o inst ala e nos leva ao mundo onír ico mas não nos for nece o discer niment o de que isso ocorre. A inexist ência de ident ificação com o corpo é út il par a a inst alação do sono mas não fornece nenhu m t ipo de consciência. A ident ificação com imagens ment ais, por sua vez, provoca um esqueciment o de que se est á em cont ato co m cenas não- fís icas e faz co m que adent remo s às regiõ es int er nas acredit ant o est ar em cont at o com imagens ext er nas. O result ado disso é o sonho usual, no qual não exist e a consciência de est ar do out ro lado da nossa vida. As imagens ment ais, num est ágio mais pro fundo do sono, se

t ransfor mam em imagens onír icas e, ao cont at á-las sem a co mpreensão desse t eor, ficamos po lar izados no ext remo do sono: o corpo e a consciência dormem simult ânea e paralela ment e um ao out ro. Para se carregar a consciência para dent ro do sonho é preciso algo mais do que a não- ident ificação com o veículo fís ico (embora est a seja

indispensável) e o cont ato com as imagens int ernas. A elas prec isa mos acrescent ar a consciência do carát er psíquico dessas imagens. Essa

consciência é a co mpr eensão de que as cenas não são do mundo ext erno e pert encem ao mundo int er ior. A part ir do mo ment o em que nos deit amos, t emos que t er bem clara a idéia de que dali em diant e, nos próximo s inst ant es, todas as cenas que visualizaremos serão onír icas. Se essa recordação for esquecida, cairemo s no sonho usual. A chave é co nseguir uma sínt ese ent re o despert ar e o adormecer. Precisamos de um est ado que cont enha simu lt anea ment e o adormeciment o e o alert a, que sint et ize esses do is element os cont rár ios. Essa co mbinação não é fácil e exige que se at ive a consciência ao mesmo t empo em que se desat ive o corpo: aquela acorda e est e ador mece. A dificuldade est á na idé ia co mum e muit o arraigada em nossa cult ura de que est ar acordado é fazê-lo por meio das exopercepções. Acred it amo s que est ar alert a é sempr e o mesmo que est ar co m os sent idos fís icos at ivos. Essa idéia é parcialment e verdadeir a po is é válida apenas para o est ado vígil do corpo físico. Ent ret ant o, fora desse est ado t ambém podemo s mant er a luc idez. E m sit uações nor mais, a t ent at iva de ficar despert o bloqueia o sono. Por isso é preciso aprender a relaxar o corpo profundament e e a ent rar em cont ato co m as imagens psíquicas se m esquecer que est amo s fazendo isso. A ant ecipação do sono corporal à lucidez psíquica é pr incipal agent e sabot ador dos sonhos lúcidos. Ident ificados co m a vont ade de dor mir, nos esquecemos de discer nir e dor mimos sem saber onde est amos ent rando. Isso acont ece pr incipalment e quando est amos cansados e queremo s rapidament e deixar o mundo ext er no. Nesses casos, abando namo s t ot alment e o alert a psíquico e nos ent regamos ao sono física e ps iquicament e. A co nsc iência ador mece at é mesmo ant es do corpo. Por isso não conseguimo s sonhos lúcidos.

O ideal é ant ecipar mo s à lucidez ao sono. Ant es de deixar mo s o corpo cair em re laxament o profundo, a consc iência precisa ser at ivada ao máximo. Isso exige cuidado especial em não se confu ndir alert a com sobressalt o, t ensão ou ansiedade. Trat a-se de um alert a nat ural e t ranquilo, sem preocupações de nenhum t ipo e sem nenhum querer. Não se pode adormecer o corpo se ficar mos querendo que ele ador meça e não se pode ficar alert a se t ambém ficar mo s querendo isso. Ao querer mos que isso ocorra, nos

ident ificamos co m esse desejo e fracassamo s, seja por ficar mo s inso nes, seja por dormimo s em est ado conscient ivo usua l. Esse querer é egó ico e capr ichoso: o ego quer cont rolar a prát ica e impor sua vont ade. Os processos psíquicos não se submet em a isso e se rebelam. Uma for ma de deixar a ident ificação com o corpo, ant ecipar a lucidez ao sono, não bloquear o processo let árgico corporal e ao mesmo t empo mant er o discer niment o de est ar em cont at o com imagens int er nas é a concent ração. Por meio dela, a consciência do que se est á fazendo é mant ida e se aco mpanha t odo o processo em est ado de lucidez. Por isso muit as cult uras, inc lusive as relig iosas, a usam para induzir exper iências onír icas desse t ipo. O objet o da concent ração var ia co nfor me a época e o lugar: mant rans, orações, imagens agradáveis, cenas onír icas passadas et c. O único que int eressa é t er um grande poder de concent rar o pensament o. Concent rar o pensa ment o é reduzir t odos os pensament os a apenas um. Isso se consegue prest ando at enção em uma única imagem e excluindo as dema is, esquecendoas. Deve- se desenvo lver mais e mais a imagem esco lhida, sem adot ar nenhum limit e para isso (Jung apud Sanford, 1987, pp. 158-159). Por est e meio chega- se ao sono corporal profundo sem perder a consciência. É preciso mergulhar na imagem ment al esco lhida, ca ir dent ro dela sem nenhum medo e a ela ent regar-se de mo do t ot al e co m plena lucidez. Temos que obser var o que est amo s fazendo, perceber que est amos co meçando um so nho, que a imagem não é fís ica et c. Temos que saber o que est á acont ecendo apenas por meio das co nst at ações dir et as e sem raciocinar a respeit o, inclusive nos casos ou sit uações em que as co isas não est ão clar as. Co mbat e-se a co nfusão co m at enção lúcida e não com raciocínio s. Um erro muit o grave é confund ir a co ncent ração com um esfor ço egó ico. Semelhant e confusão promove um co nflit o ent re um ego que quer se

concent rar e mu it os out ros egos dent ro da pessoa que não querem aquilo. Na verdadeir a concent ração, não há esse conflit o por que o papel da consciência não é impedir que os múlt iplo s pensament os ocorram mas apenas prest ar at enção em único pensament o e isso é diferent e. O único que precisamos fazer é focar e mant er a at enção em uma imagem esco lhida esquecer as demais, de ixando-as à vont ade em suas respect ivas reg iões int er nas para se processar em. Há uma diferença radical ent re prest ar a at enção em um element o psíquico esco lhido ent re muit os que se mo vem e impedir esses muit os de se mo vere m. O que nos int er essa é apenas uma imagem ent re as milhar es que se mo vem inint errupt ament e em nossa ment e. As dema is devem ser esquec idas. Querer silenciá- las não é esquecê-las e lembrar delas. Co m a recordação elas se nut rem mais e mais porque a recordação t raz ident ificação. A exper iência onír ica conscient e result a nat uralment e da at enção cuidadosa e despr eocupada.

Referência bib liográfica:

SANFORD, J. A. Os Parceiros Invis íve is: o masculino e o feminino dent ro de cada um de nós. (The Invis ible P art ner s). Trad. de I. F. Leal Ferreira. 5 ª edição. São Paulo, Paulus, 1987.

Como lidar com os sinais que antecedem uma experiência onírica consciente
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z
A d i v u l g a çã o l i v r e d e s t e a r t i g o é a u t o r i za d a d e s d e q u e c i t a d o o a u t o r T ex t o r e g i st r a d o . N ã o o p l a g i e p a r a n ã o s o f r er a s p e n a l i d a d e s d a l ei .

Quando nos posicio namos para repousar e co meçamo s a relaxar, surgem sinais que indicam a aproximação progressiva do est ado let árgico. A per cepção conscient e desses sina is é út il por nos avisar a respeit o da necess idade de maior cuidado uma vez que em t al mo ment o a hora de deixar o est ado vígil est á chegando. Temos sempr e a t endência de crer que est amos lo nge da t ransição para o sono, mesmo quando ela est á bem próxima. Essa crença equivocada se baseia na idéia inco nscient e de que não há uma vig ília em est ados corporais pro fundament e let árgicos e em meio a cenas onír icas. Supomos que o fat o de est ar mos um pouco despert os é um indicador de que est amos lo nge do sono. A apro ximação progressiva do adormeciment o corporal pode ser ident ificada pela ma ior nit idez das vozes int er nas. Poucos inst ant es ant es de ador mecer mos, as vozes int er iores falam em no ssa cabeça co m nit idez cada vez maior. A progressão da nit idez é sut il e acont ece parale lament e ao processo de aprofundament o do sono. À medida em que o processo let árgico corporal aliado ao despert ar conscient ivo no mundo psíquico avança, as vozes são ouvidas co mo se fossem fís icas e são acompanhadas por endopercepções de t eores não-sonoros: visuais, t át eis, gust at ivas e o lfat ivas. Todas chega m à consciência co m nit idez e int ensidade equivalent es às proporcionadas pelas percepções ext ernas e às vezes at é maiores. Isso se deve ao alt o grau de numinosidade das imagens int er nas. Nessa et apa, t endemos a perder a vigilância devido ao poder alt ament e hipnót ico dos pensament os. Dever íamos int ensificá-la e aco mpanhar a exper iência par a esperar o result ado. A maior ia dos prat icant es que t ent am a lcançar a exper iência o nír ica conscient e t endem a reagir às pr imeir as imagens numino sas co m espant o,

medo, ansiedade, cur iosidade ou uma imensa eufor ia por est arem adent rando a um mundo ext ra- físico. Essas reações podem afugent á-las, fazendo a prát ica fracassar. O prat icant e precisa mant er a const ant e recordação de que est á presenciando uma realidade onír ica e fant ást ica que corresponde ao seu universo imaginal, sendo tot alment e dist int a da realidade física. Se essa recordação for perdida, ele fica submet ido ao poder hipnót ico das imagens, se torna vít ima de sua numino sidade e perde o est ado posit ivo alt er ado de consciência, caindo em u m sono/sonho usual. A exper iência t ranscendent e fracassa quando nos esquecemo s que est amo s em cont at o com cenas de um mundo onír ico. Não devemo s confundir a rea lidade ext erna co m a int er na, devemo s discer nir. O reco mendável é não reagir aos pr ime iros sinais co m nenhum t ipo de surpresa ou eufor ia e, ao mesmo t empo, conseguir aco mpanhá-lo s. Para t ant o o ego deve ficar "amarrado". É preciso obser var os sinais inic iais em imo bilidade psíqu ica t ot al, como se faz ao obser var animais selvagens, e aco mpanhar seus mo viment os subsequent es sem espant á-los. Qualquer

mo viment o brusco ou sut il do ego, seja de t ipo sent iment al ou int elect ual (t ent at iva de ent ender ou encaixar o que est á sendo vist o em preceit os lógicos conhecidos et c.), os afugent a. O t rabalho é árduo porque t emos que unir do is ext remos: obser var os sinais e, ao mesmo t empo, não afugent á- los. São dois processos que nor malment e não se co mbina m mu it o, não se realizam simult aneament e. Também não devemo s nos fascinar por nenhuma imagem mas sim receber seu carát er numinoso sem co m ele nos ident ificar mo s. Procedendo assim, vamo s muit o longe na exper iência. Dor mimo s para est e mundo e acordamos para o out ro.

Referências:

Est e art igo não possui r eferênc ias.

A técnica do relaxamento vigilante
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 27 de a br il de 2002. Publ i ca d o n a r evi st a Vi v a Me l hor.
M u n i z, C . M . ( 2 0 0 2 ) . S o n h o s L ú ci d o s: A T é c n i ca d o R e l a x a m en t o V i g i l a n t e. T é c n i ca s d e R el a x a m e n t o e M e d i t a çã o , n º 9 , a n o 1 , p p 4 4 -4 8 ( e d i çã o e s p e ci a l d e V i v a M e l h o r ) . E s ca l a .

Uma das dificuldades que enco nt ramos na prát ica dos sonhos lúcidos é a incapacidade de induzi- los à vo nt ade, quando bem queremo s. Muit as pessoas sonham lucidament e mas de maneira esporádica, sem uma regular idade definida. A lucidez int ra-onír ica lhes ocorre

repent ina ment e, sem que a espere m ou busquem, e, da mesma maneira, desaparece por lo ngos per íodos. Esse proble ma pode ser at enuado. Podemos at ingir est ados onír icos conscient es co m ma is regular idade quando aper feiçoamo s uma t écnica para sua indução deno minada "relaxamento conscient e" ou "relaxamento

vigilante". A t écnica do relaxament o vigilant e fo i largament e ut ilizada no T ibet e para o ingresso profundo no mundo dos sonhos sem perda do discer niment o conscient e (Harar i & Weint raub, 1993): "Os iogues do antigo Tibete que seguiam a Teoria dos Sonhos eram conhecidos por suas extraordinárias proezas mentai s. Diz-se que, usando um método extremamente poderoso de imagens ment ais di rigidas, eles

conseguiam penet rar cada vez mai s prof undamente dentro de si mesmos até começarem a sonhar – sem nunca perder a percepção consci ente. (...) os iogues que seguiam a Teoria dos Sonhos tinham cont rol e quase total sobre ampl os aspectos de seus sonhos lúcidos. Usando sua habil idade para sonhar lúcidos, eram capazes de criar inf initos Jardi ns do Éden oníricos, expl orar realidades alt ernativas e entender de assunt os como a natureza da realidade e o signif icado da vida. (...) a alta lucidez baseia- se numa técnica conhecida como rel axamento vigilante, na qual o corpo se torna cada vez mai s relaxado enquanto a mente permanece vígil. Os atl etas cost umam entrar, muitas vezes, neste estado de consciência alterado para ensaiar mentalment e suas evoluções." (p. 56)

O relaxament o vigilant e pode ser t reinado e aper feiçoado. Basicament e, consist e em per mit ir mos que as alt erações corporais e psíqu icas que aco mpanham a inst alação do sono ent rem em nosso campo de consciência. Quando nos deit amos para dor mir, muit as t ransfor mações t êm iníc io: os músculos lent ament e se afrouxam, a respiração se alt era e as imagens e sons ment ais se t ornam ma is vívidos. O que t emos a fazer é at uar como facilit adores dessas t ransfor mações. Ao invés de bloqueá-las, t emos que aco mpanhá- las deixando que sigam seu cur so nat ural, sem apressá-las ou ret ardá- las. Ao mesmo t empo, não devemos ficar passivo s mas at uar remo vendo conscient ement e os obst áculos para a inst alação do sono: as t ensões musculares. Podemos co meçar pelo s pés, recebendo na consciência as t ensões ali exist ent es e "desat ando-as". E m seguida, fazemos o mesmo co m as per nas, o t ronco, os braços e a cabeça. Temos que procurar nos sent ir cada vez mais leves e so lt os, livr es de t oda preocupação, medo, ans iedade et c. Por t ent ar mos vezes so mos invadidos cr iamo s por um sent iment os problema. O ou le mbranças. adequado Se é

repr imi- los,

mais

simplesment e recebê- lo s para const at ar o que cont ém. Qual é o sent iment o que est á nos assalt ando? De onde vem? A que se refere? Agindo assim, os assimilamo s em nossa consciência e podemo s prosseguir. Nesses mo ment os podem surgir a impaciênc ia, a pressa, a vont ade de mudar a posição do corpo, dores fís icas, desor ient ação a respeit o do que fazer, lembr anças do passado, fant asias et c. São obst áculo s superáveis pela co mpreensão. Os co mpreendemos quando, sem nenhum preco nce it o, os obser vamos co m cur io sidade nat ural, descobr indo o que são e em que consist em. Assim, nos ocupamos co m os obst áculos na ordem em que surgem e os abandonamos na medida em que se disso lvem, para em seguida nos ocupar mos co m out ros que vão aparecendo. Podemos co mparar a prát ica do relaxament o vigilant e a uma est rada que conduz ao cent ro de um país e ao lo ngo da qual há vár io s obst áculo s. Ao passar mo s pelo s obst áculos sem perder a co nsciência, vamo s penet rando mais e mais no país dos sonhos. Um erro a ser evit ado é o de t ent ar simp les ment e rechaçar os obst áculo s à força brut a. Ao fazê- lo, cr iamo s um conflit o ent re nosso dese jo

de relaxar conscient ement e e os desejo s de inúmeros ele ment os psíquicos inco nscient es aut ônomos, os quais t êm suas própr ias met as e não est ão nem um pouco int eressados em nossa prát ica. E nt ão ficamos est ancados,

envo lvidos na t ensão de forças opost as e at é podemos ret roceder. Os obst áculos são superados na medida em que são assimilados e os assimilamo s quando os co mpreendemo s. Ao invés de nos prender mo s em uma t ensão de forças, melhor é obser var o que se passa co nosco, com int eresse sincero em descobr ir o novo. À medida em que o relaxament o vigilant e se apro funda, a consciência se int ensifica e não sofre a redução que se ver ifica no sono nor mal. Co mo result ado, o corpo adormece e nos vemos dent ro de um so nho com plena lucidez e discer niment o. Ent ão co mpreendemo s que est amos em uma

dimensão exist encial par alela à vígil e excla ma mo s: "Eu, agora, est ou dent ro de um sonho." Ao nos acost ar mos, convém que o façamos em uma posição cômoda e que sint amos o ato de dor mir co m t oda nat uralidade, exat ament e co mo o fazemo s quando est amos cansados, porém conscient ement e. Est e empenho em mant er a consciência não deve ser ent endido como um esforço mas s im co mo o ato de nos dar mos cont a cont inuament e do que est á se processando. Trat ase apenas de mant er a at enção no present e, aco mpanhando t udo o que ocorre conosco à medida em que relaxamo s mais e ma is. A co mpreensão se for ma pela percepção do que ainda não havia sido percebido e isso se consegue pela obser vação. Aplicando est a t écnica, at ingimos um pont o em que nossos

pensament os e imaginações se t ornam muit o nít idos e vivos, o que indica que já est amos ingr essando no país dos so nhos, ou seja, que est amos no pont o em que nossa est rada acessa o "lado de lá" da front eira. O relaxament o vigilant e se apro funda, port ant o, a part ir da lucidez e da co mpreensão e não do simp les esforço cego. O empenho em mant er a lucidez é co mp let ament e dist int o do empenho em mant er o corpo físico despert o e at ivo. Não devemos resist ir ao sono mas devemo s nos empenhar em mant er a lucidez, levando-a conosco at é o final, quando at ingir emo s adiant ados níveis de let argia corporal.

Obser var a progressão do relaxament o de modo cont ínuo é est ar concent rado e at ent o. Se nos descuidar mos da at enção, nos dist raímos e perdemo s a oport unidade. O sono e o sonho são indispensáveis à saúde fís ica e psíquica. Ao aco mpanhá- lo s conscient ement e, per mit indo que t ranscorram nor malment e, nos t ornamos co laboradores de um processo nat ural e benéfico. * * * Para melhor ent endiment o, podemos dividir a aplicação da t écnica nas seguint es et apas: 1. Escolha uma posição que lhe par eça cômoda e relaxant e para dor mir. S int a-se ador mecendo com t oda nat uralidade ( mas sem perder a lucidez) focalizando a at enção em si mesmo. 2. Procure desfazer todas as t ensões musculares que det ect ar (as piores são as da cabeça e do rosto). Aprofunde um t rabalho incansável de encont rar e desfazer t ensões. 3. Quando perceber o corpo físico bem relaxado, esqueça-o. Comece ent ão a acompanhar conscient ement e a procissão de imagens que desfilam em sua ment e e as e moções que lhes correspondem. Obser ve o t eor de cada uma delas: o que dizem, o que cont ém, a que se r eferem. Esco lha uma e a aco mpanhe. Prossiga ass im at é vê- la e ouvi-la int er ior ment e co m a mesma nit idez co m que nor malment e são escut ados ou vist os os objet os fís icos quando est amos co m os o lhos abert os. 4. Receba as pr imeir as imagens onír icas t al co mo lhe chegarem. Não t ent e cont ê- las ou compará- las a nada. Nest a alt ura você deverá est ar no sonho lúcido. 5. Tent e deslocar-se dent ro do sonho e boa viagem.

O bse r vaç ão:

Os s on h os l úci dos n ã o sã o r ec om en dá vei s pa r a pessoa s sup er st i ci osa s ou qu e t enh a m fobi a do s obr en a t ur a l. Com o n os t ran spor t a m a est a dos de r ea l i da de ain da n ã o m ui t o a ssi m i la dos por n ossa ext r over t i da cul t ur a oci den t a l , sã o exper i ên ci a s psi col ógi ca s que r equer em in t er esse gen uí n o em se con t a t ar a dim en sã o tr an scen den t e do espí r i t o h uman o.

Referência bib liográfica:

HARARI, Keit h & WEINTRAUB, Pamela. Sonhos Lúcidos em 30 Dias : o Programa do Sono Criati vo (Lucid Dreams in 30 Days). Trad. de Mar li Berg. Rio de Janeiro: Ediouro, 1993.

Parte III Reconhecendo o sonho enquanto o sonho acontece

A percepção consciente dos traços oníricos sutis
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 09/ 05/ 01
A d i v u l g a çã o l i v r e d e s t e a r t i g o é a u t o r i za d a d e s d e q u e c i t a d o s a f o n t e e o a u t o r T ex t o r e g i st r a d o .

Alé m dos element os fort ement e subver sores da lógica for mal fáceis de det ect ar, que ser iam t ot alment e impossíveis e absurdos para o mundo da vigília, os sonhos são r icos em t raços sut is que os denuncia m. Correspo ndem a co mbinações de aco nt eciment os que se encaixam per feit ament e na lógica vígil mas que não correspondem à conformação usual do que vivemo s diar iament e ou à "for ma co mo as co isas dever iam est ar". São alt erações leves na for ma co mo as co isas co mument e est ão. Nossa casa co m um quadro novo, nosso carro com um arranhão que não possuía no dia ant er ior, nosso comput ador fora de lugar ou com um co mando difer ent e não são impossíveis e nem absurdos para a lógica em que vive mo s durant e o dia. No ent ant o, podem auxiliar a reconhecer um so nho. Se nos acost umamo s a usar as alt erações na confor mação usual de acont eciment os de nossa vida co mo est imulador da recordação em discer nir, o faremos sempre que algo novo acont ecer. Isso repercurt irá à no it e. O import ant e é nos educar mos para se mpre reagir a t udo o que é novo co m a obser vação da realidade em que nos encont ramos. A obser vação não deve ser passiva, aut o mát ica mas sim at iva e conscient e. A part ir do mo ment o em alguma no vidade nos chame a at enção, precisamo s observar os acont eciment os present es à procura de mais

alt erações ou no vidades at é que descubr amo s se realment e est amos no mundo fís ico. Quando o lhar mo s ao redor, t emos que fazê-lo buscando alt erações na realidade, acont eciment os est ranhos. A prát ica de obser vação para o discer niment o se fundament a na est ranheza. O que não for usual deve nos causar est ranheza. Devemo s est ranhar t udo o que se desloque da configuração usual de acont eciment os que conhecemo s. Se nos educamos par a perceber as alt erações sut is, as grandes alt erações e os grandes absurdos serão ident ificados pe la consciência onír ica.

Nossa consciência, ador mecida, é mío pe para as alt er ações sut is. Nos sonhos elas surgem aos milhares e não as vemo s. Por meio da educação da at enção, no ent ant o, aprendemo s a capt á- las conscient ement e mais e mais. A per cepção conscient e do sut il precisa ser exerc it ada co m cuidado e disciplina durant e o dia. As leves alt erações na configuração dos

acont eciment os diár ios precisam ser t omadas co mo mot ivo de obser vação e aut o-quest ionament o a respeit o da dimensão da exist ência em que est amos num dado mo ment o. É claro a reação conscient e ao sut il não imp lica em abando no do cuidado obser vacio nal em face de sit uações ext remas co mo uma viagem a um país par a o qual nunca fo mos ou um cão falando ao t elefo ne. Os t raços t ipicament e onír icos, indicadores da realidade fant ást ica, apresent am uma escala que vai das pequenas modificações do que pert encer ia à realidade t ridimens io nal at é o ext remo das sit uações co mplet ament e impossíveis e absurdas. A subversão da lógica víg il apresent a graus aos qua is a consciência educada est ará at ent a. Seu campo abranger á os indicadores pequenos e os grandes. Há casos em que a diferenciação ent re os modos de realidade vígil e onír ico é muit o difícil por ambos se apresent arem à pr ime ira vist a co mo idênt icos. Quando isso ocorre, a t arefa de discernir é co mo a de diferenciar dois ir mãos gêmeos: exige uma obser vação acurada que vá alé m do que se revela à pr imeira vist a.

Referências:

Est e art igo não possui r eferênc ias.

O reconhecimento da realidade intra-onírica durante o sono
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 25/ 04/ 2001

A d i v u l g a çã o l i v r e d e s t e a r t i g o é a u t o r i za d a d e s d e q u e c i t a d o s a f o n t e e o a u t o r . T e x t o r e g i s t r a d o .

"I’ve gone beyond to see the tru th" ( Ir on Mai den)

Os

sonhos

pert encem à

anat o mia

sut il do

ho mem.

Inacessíveis

diret ament e aos sent idos ext ernos, escapam a análises que negligenc iam sua nat ureza essencial ao não t omá- lo s t al como são: acont eciment os sut is e pert encent es ao univer so imaginal. Pelo subdesenvo lviment o das endopercepções, há quem t ome os sonhos co mo fenô menos "virt uais", algo ao est ilo das imagens cinemat ográficas ou das simu lações por comput ador. No que se refer e à inexist ência dos sonhos enquant o concret ude ext er ior isso é verdadeiro. Os fenô menos onír icos e os virt uais realment e possuem uma mesma mo dalidade de inexist ência: a ext er ior concret a. Sob esse aspect o são idênt icos. Porém há uma diferença que precisa ser considerada. Quando presenciamo s cenas simuladas na t elevisão ou em

co mput adores, mant emo s o discer niment o de est ar mos em co nt ato com imagens não concret as do ponto de vist a ext er no. Ainda que so framos pelo dest ino do mocinho da hist ór ia ou fiquemos amedont rados co m o mo nst ro que surge na t ela, sabemos que aquilo não est á fis icament e present e. Mesmo no caso de t ransmissões ao vivo, nossa co nsciênc ia de que as imagens da t ela difer em do objet o represent ado é mant ida. Co mpreendemos que as pessoas, animais e paisagens visualizados não est ão ext er ior e concret ament e inser idos dent ro do aparelho. É preser vado o discerniment o do t eor das cenas. Algo opost o ocorre nos sonhos usuais. E nquant o o corpo físico repousa na cama, o ego sonhador saboreia vivament e as imagens que desfila m diant e dele. Não há, no est ado onír ico usual, o discer niment o de est ar mos so nhando. O t eor das cenas cont at adas não é co mpreendido. Em decorrência disso, acredit amos est ar "acordados" ( vivendo no mundo vígil) em pleno sonho e, a despeit o dos muit os sinais indicadores present es, não nos damo s cont a de nossa inserção em um universo imaginal. Dificilment e t emos um sonho como

o relat ado por Jung em "Memórias, Sonhos e Ref lexões" , no qual lhe apareceu a imagem da esposa já falecida e havia a lucidez de que a cena era onír ica. Ident ificados co m as imagens, não nos ocorre, em sit uações nor mais, uma aut o-indagação de que podemos est ar em um mundo de sonhos. Sob o aspect o supra-cit ado, os sonhos e as imagens virt uais difer em tot alment e. Nos pr imeiros não há o discerniment o e no segundo há. A indist inção ent re realidade onír ica e vígil pro vém do alt o grau de numinosidade dos objet os que percebemo s. Mediant e a recordação de exper iências onír icas conscient es (sonhos lúc idos) descobr imo s que as viagens not urnas nos levam a regiões de nós mesmo s que apresent am impact o numinoso e impr essão de realidade idênt icos aos do mundo fís ico e at é mais int ensos. A co nfusão da realidade ext er na co m a int er na enquant o dormimo s é aco mpanhada pela fuga at errorizada nos pesadelo s ou pela cr ença de t er mos nos so nhos as mesmas obr igações da vida t r idimensio nal. Mediant e a educação da at enção durant e o est ado de vigília, podemos t ranscender esse condic io na ment o e, aos poucos, vamo s despert ando nos mundos int er nos. Isso pode parecer novo e at é est ranho para nós mas não para as cult ur as indígenas e or ient ais. Também não era est ranho nos t empos ant igos. No t ibet e, os sonhos lúcidos são t rabalhados por meio da medit ação (Harar i & Weint raub, 1993) A exist ência de uma modalidade específica de vigília int ra-o nír ica, um est ado alt erado de consciência no qual o sonhador possui a lt a lucidez, é abordada em t rabalho s de LaBerge (apud Lucid it y I nst it ut e) e Eeden (1913). Não assimila mos pro fundament e, em nossa co nsciênc ia at ual, a

exist ência de out ras vidas e realidades paralelas à vígil. Nesse campo, t ribos nort e-amer icanas e as iát icas t êm a lgo a nos ensinar (Har nisch, 1999). E m part e, nosso at raso nesse campo se deve à indist inção ent re ciência e int elect o. Ao cont rário das cult uras indígenas, ser ia impensável, na moder na cult ura ocident al, um ho mem de ciência que não fosse int elect ual. O efeit o colat eral dessa unilat eralidade é a exc lusão de modalidades co nscient es de exper iências inacessíve is ao inst rument o de cognição cult uralment e legit imado. Co mo t ais exper iências são, alé m de humanas, arquet ípicas,

prosseguem reforçando t endências míst icas à margem da ciência e, não poucas vezes, ent re pessoas co m pequeno grau de inst rução. Nós, ocident ais moder nos, nos po lar izamos excessiva ment e na

ext roversão e acredit amo s que os reino s int er iores não exist em ou, quando muit o, exist em sob a for ma "virt ual". E m razão desse funcio nament o conscient e po lar izado e fixo, não t emos ainda uma avançada e ofic ialment e reconhecida cu lt ura de so nhos que se equipare a de cert os povos que resist em ao furacão et nocida que varre o planet a. Parece-me import ant e que

aprendamos a art e do sonhar e o cult ivo da consciência int ra-onír ica co m as cult uras pr imit ivas, ant igas e orient ais. É import ant e que resgat emo s o conheciment o que possuem e que as ajudemo s a preser vá-lo e difundí-lo. O menospr ezo para co m modalidades de ciência pert encent es a cult ur as difer ent es da nossa pode est ar ocult ando um preco nceit o racist a eurocênt r ico: por t rás da negligência pode haver a crença de que a cult ura do ho mem branco pert ence ao topo do processo evo lut ivo humano e abarca t odas as for mas possíve is de cognição.

Referências bibli ográficas:

EEDEN, Freder ik van. "A Study of Dreams". (1913) Reprodução via int er net em mar ço de 2001.
P s y c o l o g y . a b o u t . c o m/ s c i en c e / p s y c h o l g y / l i b r a r y / w e ek l y / a a 1 0 3 0 0 0 a . h t m

HARARI, Keit h & WEINTRAUB, Pamela. Sonhos Lúcidos em 30 Dias :o Programa do Sono Criati vo (Lucid Dreams in 30 Days). Trad. de Mar li Berg. Rio de Janeiro, Ediouro, 1993. HARNIS CH, Günt er. Léxico dos Sonhos: mai s de 1500 símbol os oní ricos de A a Z interpretados à luz da psi cologia . (Das Grosse Traumlexikon: Über 1500 t raums ymbo le von A bis Z psycho logisch gedeut et ).Trad. de Enio Paulo Gianchini. Quint a edição. Pet rópolis, Vozes, 1999. JUNG, Car l Gust av. Memóri as, Sonhos e Ref lexões. Trad. de Dora Ferreira da S ilva. Vigésima Pr ime ira I mpressão. Edit ora Nova Fro nt eira. LUCI DITY INSTITUTE. Perguntas mai s comuns (e suas respostas) sobre o sonho lúcido. In: Jornal Sonhos no 1. Dispo nível via int er net em janeiro de 2001.
w w w . g o l d . c o m. b r / ~ s o n h o s / l u c i d e z . h t m l

O discernimento pela memória residual
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 03/ 04/ 2001; a t ua l iz a do em 24/ 02/ 2004.

Durant e o sonho persist e no ego uma recordação residual, semiconscient e, de que as at ividades da vida víg il t er minaram. É uma recordação t ênue porém nor malment e est á present e e pode ser ut ilizada co mo apo io para discer nir mos que est amos fora da vida fís ica. Trat a-se de uma memór ia residual de nos t ermos deit ado e concluído os nossos afazeres diár ios. À medida em que os agregados psíquicos são disso lvidos, essa recordação aument a de modo nat ural. Podemos ut ilizá- la co mo recur so adicio nal par a desenvo lver a lucidez: ao nos pergunt ar mos, int ra-onir icament e, se est amos ou não no mundo dos sonhos, podemos nos valer da recordação t ênue para obt er a respost a. É impr escindíve l confer ir a esse procediment o um significado adicio nal e não subst it ut ivo. O discerniment o pela me mór ia residual não subst it ui a prát ica de o lhar para os objet os ext ernos buscando a revelação do mundo em que est amo s. Tampouco ou de subst it ui para as est rat égias que de ador mecer a lóg ica

conscient ement e t ridimensio nal.

at ent ar

fat os

desafiam

A refer ida modalidade de discer niment o consist e em buscar a respost a na recordação e não na obser vação. Para saber mos se est amos em so nho, nos pergunt amos: "Eu já me deit ei para dormir ou não?" . Se houver uma recordação t ênue, ela pode nos dar a respost a. Co mplet a-se o t rabalho co m a obser vação ext erna lúcida e ver ificat ório-confir mat ór ia, além da const at ação de acont eciment os t ípico s da lógica fant ást ica. Temo s que ent ender que a pergunt a pr incipal ( "Em que mundo estou?"), cuja respost a é baseada na obser vação, não é descart ada em função da secundár ia. Est a a complet a no caso da mesma não ser suficient e par a proporcionar a lucidez onír ica. Quando a difer enciação for muit o difícil, por t udo est ar muit o igual à realidade fís ica, podemos apelar para a pergunt a secundár ia co mo meio de inst alar uma desco nfiança inicia l. Uma desconfiança co m relação ao carát er numino so das cenas é indispensável no discer niment o. É just ament e a numinosidade, associada à idéia inco nscient e de que não exist em r einos int er iores co m impact o de

realidade equiva lent e ao fís ico, que nos leva forçosament e a sempr e acredit ar que est amo s na vida t r idimensio nal, ainda que est ejamo s fora dela. No que se refer e à aquis ição de lucidez, há do is t ipos de sonhos: 1. 2. A Sonhos que apresent am anor malidades que os denunciam; Sonhos idênt icos à realidade ext er ior. pr imeir a modalidade onír ica é facilment e reco nhecida pela

obser vação das cenas circundant es. Apresent am element os subversores da lógica vígil: acont eciment os absurdos, rupt uras lógicas, salt os no t empo e no espaço. A lucidez, nesse caso, requer apenas que se prat ique no mundo físico um est ado de alert a co m relação a t udo o que fugir da lógica co mum. A segunda modalidade é a ma is difícil de ser reco nhec ida pelo sonhador. Nesses casos, os sonhos são compact os, espessos e coerent es. Os enredos são longos e marcados por uma seme lhança muit o grande co m a realidade fís ica. O ego onír ico não vê absurdos e, por t al mot ivo, não det ect a difer enças co m relação ao mundo ext er ior. A obser vação da cenas

cir cundant es não surt e efeit o em t ais so nhos porque não há t raços de onir ic idade a ser em o bser vados. O onironaut a que conseguir luc idez nos sonho s idênt icos à realidade ext er ior conseguir á facilment e a lucidez nos demais. O único element o que a per mit e é a memór ia aut obiográfica recent e e alt ament e recent a por cont er a lembr ança residual de onde est ivemo s há pouco. Dest e modo, há duas maneiras de exercit ar o discer niment o: 1) pela obser vação dos fat os ext ernos; 2) pela recordação de onde est ivemo s. A memór ia onír ica aut obiográfica recent e e alt ament e recent e é residual pela falt a de uso. Podemos t irá- la da at rofia ao exer cit á-la por meio de aut o-indagações co mo: "já adent rei ao sonho?", "ser á que não deixei meu corpo dor mindo há pouco?", "est as cenas t ão evident ement e reais e fís icas que vejo não podem ser já as cenas de um so nho ?". O exercício precisa ser repet ido infinit ament e no mundo fís ico, durant e o est ado vígil. O segredo consist e em sent ir no fundo do coração as pergunt as, querendo sincerament e a respost a verdadeira. É algo emocio nal e não racional, co mo parece à pr imeira vist a; t rat a-se de sent ir o desejo de desco br ir. A emo ção é chave. Quant o mais int ensa e pro fundament e

dese jar mo s a respost a, maior es serão as chances de discer nir mo s que est amos sonhando.

Referências:

Est e art igo não possui r eferênc ias.

Parte IV Exercitando o discernimento e testando a realidade

Cuidados na educação da atenção vígil (Educação Psíquica para o Despertar Intra-Onírico)
M u n i z, C . M . ( 2 0 0 1 ) . A E x p er i ê n c i a O n í r i ca C o n s ci e n t e : E d u ca çã o P s í q u i ca p a r a o D e s p e r t a r I n t r a -O n í r i c o ( t í t u l o o r i g i n a l ) . C a t h a r s i s , a n o 7 , n . 3 9 , p p . 8 -9 . M a r i g n y & K e r b er .

Or i gina l m en t e publ i ca do n a r evi st a Ca th ar si s. Úl t i m a a t ua li z a çã o em 14 de jan ei r o de 2002. Por Cl eber Mon t ei r o Muni z

" I p r ep a r ed my s el f f o r c a r ef u ll o b s er v at i o n, h o pi n g t o pr o l o n g a n d t o i n t en s if y t h e l u c i di t y " ( F r e d e ri k va n Ee de n )

O despert ar int ra-onír ico exige uma cu idadosa disciplina da at enção durant e o dia. Temos que aprender a discer nir const ant ement e se est amos em cont ato co m cenas onír icas ou físicas. O discer niment o advém da co nst ant e educação do funcio nament o conscient e durant e a exist ência víg il, ist o é, provém de um t reinament o psíquico efet uado enquant o est amos inser idos na realidade t r idimensio nal. A análise dos sonhos revela que boa part e da dinâ mica onír ica é reflexo da post ura conscient e assumida durant e o dia. A co nsc iênc ia pode influir sobre funcio nament os inconscient es (Jung, 1963): "(...) da mesma f orma que o inconscient e age sobre nós, o aumento da nossa consciência tem, por sua vez, uma ação de ri cochete sobre o inconsciente." (p. 282). Se quiser mo s obt er sonhos lúcidos, t emos que adquir ir o cost ume de nos pergunt ar mos const ant ement e durant e o est ado de vigília: "Onde est ou? Est ou em um so nho ? Est as cenas que vejo são onír icas?" A indagação precisa ser sincera e a dúvida verdadeira. É import ant e que a respost a seja buscada pela obser vação diret a dos acont eciment os ext ernos e, co loquemos muit o cuidado nisso, sem o recurso à lógica ou ao pensament o. Os raciocínios sabot am o discer niment o. Na prát ica diár ia de aut o-indagação devemos subst it uir o raciocínio pela obser vação da realidade cir cundant e co mo me io de diferenciação. Por meio dest a, a nat ureza onír ica ou não-onír ica dos aco nt eciment os configur ados na realidade present e que nos cerca se revela por si mesma. A aprendizagem propost a é a de capt ar a

nat ureza do aqui-agora sent indo-a no fundo da consciência, por meio da obser vação lúcida e sem inferências adicio nais. Trat a-se de aprender a ver o mundo com o int eresse sincero de desco brir o t eor de sua exist ência. Para t ant o, os próprios element os co mponent es da cena vivida e quest io nada nos revelam se est amo s sonhando. Não é necessár io que fique mos pensando a respeit o para concluir, pela lógica que conhecemo s, se est amo s acordados ou dormindo. Ao focar mos a co nsciência durant e o dia na realidade present e que nos cerca, co m o int uit o de capt ar se est amos no mundo t ridimensio nal ou onír ico, a est amos amp liando, aument ando. Isso se reflet e à no it e. E m pleno sonho, repet imos o funcio nament o conscient e indagat ório ao qual nos acost umamo s. Disso result ará o reconhec iment o de que adent ramo s à realidade imagina l paralela à fís ica. Convém por cuidado em dist r ibuir as indagações ao longo de t odo o per íodo vígil, evit ando concent rá- la em apenas uma part e do dia. Se não at ent ar mos a est e ponto, concent raremo s igualment e a aver iguação dos est ados de realidade em apenas uma part e da no it e, negligenciando os demais per íodos de sono que t ambém dever iam ser aproveit ados. A rea lidade onír ica se revela nat uralment e ao obser vador at ent o porque a lógica que a rege subvert e a lógica dos acont eciment os t ridimens io nais. Na maior ia das vezes os sonhos co nt ém element os denunciadores de seu carát er fant ást ico e int erno. São eles os acont eciment os impossíve is par a o mundo ext er ior, perfeit ament e ident ificáveis co mo pert encent es a um "estado de realidade incomum" (Cast aneda, 1968). Nossa vida possui duas faces parale las: a vígil e a onír ica. Ambas são igualment e reais à sua própr ia maneira e mer ecem cuidado.

Ext roversivament e po lar izados, desprezamo s o mundo dos sonhos e o t rat amos co mo se não exist isse. E m decorrência dessa post ura, não

desenvo lve mos a lucidez int ra-onír ica. Nos sonhos, acr edit amo s est ar em cont ato co m cenas ext er iores po is, segundo nossa visão comum, não há out ro mundo além dest e. O condicio nament o é revert ido ao colocarmos a co nsciência vígil em função do despert ar int ra-onír ico, o que conseguimos quando nos

acost umamo s a ver ificar const ant ement e durant e o dia se est amo s dent ro de

um so nho ou dent ro da realidade ext er ior. A const ant e ver ificação ou "testes de reali dade" (Harar i & Weint raub, 1993) precisa ser feit a de modo incansável durant e os mo ment os em que o corpo fís ico est á at ivo. A disciplina const ant e repercurt e no inconscient e, nas horas do sono. Ent ão at ivamo s o funcio nament o conscient e int ra-onír ico e podemos viajar pelas mais remot as paragens do mundo int er ior. Podemos ult rapassar em muit o as fro nt eiras do usual e faremo s isso prot egidos. Os r iscos de inflação ficam reduzidos quando compr eendemos que as cenas co m as quais est amo s em co nt ato não pert encem à realidade fís ica. Ocorre, no ent ant o, que alguns de nós, simpat izant es das viagens int er iores, t ransfor mam a lucidez onír ica em problema. Ansio sos por obt ê-la, às vezes nos t ornamos obsecados pelo discer niment o durant e o dia. Há que se por um cuidado especial nest e pont o. A ans iedade por discernir clarament e durant e o dia para que isso repercurt a à no it e desvia o foco da at enção conscient e sem que o percebamo s. Ao invés de nos dar mo s cont a da realidade em que est amo s, passamo s a ficar ident ificados e fascinados pela idéia de desco ndicio nar, no mundo tr idimensio nal, o funcio nament o conscient e e nascer para um mundo novo à no it e. E mbora pareça parado xal, essa fascinação impede a inst alação do correto funcio nament o da at enção

proporcionadora de sonhos lúcidos. A at enção corret ament e disciplinada é nat ural, relaxada e não t ensa. Não é ansiosa. Exclu i as vár ias for mas de fascinação, inclusive a fascinação pela idéia de acordar, pois est a dist rai. A dist ração absorve a consciência e rouba a at enção. Como poderemos est ar at ent os se est amos dist raídos, ainda que seja co m a própr ia idéia de est ar at ent o? Há uma diferença ent re est ar mos nat uralment e alert as, discer nindo por meio dos "testes de realidade" e est ar mos ansio sos e fascinados pelas belezas e alegr ias que podem ser proporcio nadas pe los sonhos lúcidos. O exercício da endopercepção em est ado de alt a lucidez t ranquila durant e a profunda let argia corporal é a chave para adent rar mos ao mist er io so reino not urno. Nesse est ado não usual de co nsciência, nos deparamo s co m ent es arquet ípico s e podemos nos exper iment ar co mo seres mit o lógicos sem perder a consciência de quem so mos enquant o ego. Podemos vivenciar o ser

pássaro, rocha, r io e ár vore. Podemos ir às est relas e mergulhar na vast idão, retornando ass im que desejar mos. O retorno ao univer so vígil após a exper iência não é difícil. Para isso, bast a nos lembr ar mos do nosso corpo deit ado na ca ma e sent í-lo. O simples at o de sent ir a for ma densa é mais do que sufic ient e para at ar novament e a consciência à mesma. As exopercepções são imed iat ament e recuperadas, os mo viment os recobr ados e nos vemo s de novo em nosso quarto, em nossa cama.

Referências:

CAST ANEDA, Car lo s. A Erva do Diabo: as experiências indígenas com plantas alucinógenas reveladas por Don Juan. (The Teachings o f Don Juan, 1968). Trad. de Luzia Machado da Cost a. 12 a edição. Record. JUNG, Car l Gust av. Memóri as, Sonhos e Ref lexões. Trad. de Dora Ferreira da S ilva. Vigésima Pr ime ira I mpressão. Edit ora Nova Fro nt eira. HARARI, Keit h & WEINTRAUB, Pamela. Sonhos Lúcidos em 30 Dias : o Programa do Sono Criati vo (Lucid Dreams in 30 Days). Trad. de Mar li Berg. Rio de Janeiro, Ediouro, 1993.

O presente como porta para a realidade onírica natural
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 23/ 02/ 01 (publ i ca d o n a r evi st a Ca thar si s)
M u n i z, C . M . ( 2 0 0 1 ) . O P r e s en t e c o m o P o r t a p a r a a R ea l i d a d e I n t r a -o n í r i ca N a t u r a l . C a t h a r si s , a n o 7 , n ú m er o 3 8 , p p . 1 4 -1 6 . M a r i g n y & K e r b e r .

O nosso funcio nament o conscient e usual não nos mant ém em co nt ato const ant e co m a realidade imediat a. Fascinada pelo poder hipnót ico dos pensament os mecânicos e subjet ivos, função da ment e aut ônoma e rebelde, nossa consciência se processa em modo medíocr e. Apesar do nosso

asso mbroso desenvo lviment o int elect ual, so fremo s a perda da faculdade de viver no present e. A vivência int ensa do agora é nat ural e est á lat ent e nos seres humano s, podendo ser at ivada pelo uso. Trat a-se de um funcio nament o arquet ípico da psique que aflora à medida em que é at ivado. As cr ianças, os animais e os povos pr imit ivos ainda conser vam, algumas vezes, t raços mais ou menos marcant es desse modo de sent ir a realidade. O ho mem moder no ocident al so freu uma at rofia desse poder por super valor izar a ment e e po lar izar-se excess ivament e na ext rover são. Ao não perceber seus própr ios processos int er nos, ele não pôde vigiá-lo s. Por out ro lado, o endeusament o do raciocínio co mo for ma única de acesso à realidade fez co m que seus processos ment ais se acelerassem mais e mais. Co mo result ado, sua ment e se t ornou autônoma: ela não obedece ao co mando da consciência e pro jet a pensament os sem que isso lhe seja so lic it ado. Dot ados de um poder hipnót ico fort íssimo, os pensament os impedem o est ado de alert a. A consc iência ador mece ent re eles, deixando-se fascinar. Ident ificada co m os processos ment ais, se esquece da dist inção que a separa dos mesmos. O result ado é a incapacidade de enxergar mo s a realidade present e na qual est amos inser idos. A rea lidade possui do is lados: o int er no e o ext erno. Ambos est ão no agora. Se quiser mo s adent rar ao univer so int er ior, precisamo s aprender vivenciar o present e co m pro fundidade cada vez maior. Por essa razão,

Kornfie ld (1995) considera que "penetrar no momento present e é a primeira entrada nos domínios espi rituais poi s estes não est ão nem no passado e nem no f uturo. O passado é mera lembrança e o f uturo pura imagi nação. O present e f ornece a porta de ent rada em todos os reinos da consci ência que estão al ém das nossas ati vidades cotidianas normai s. Estar aqui exige uma f ixação da mente, uma concent ração e uma atenção. É a velha f rase dos cassinos de Las Vegas: ‘Você tem de estar presente para ganhar’. " (p. 160) O mesmo est ado conscient ivo t inham os sa murais nos co mbat es e fo i cult ivado no Jeet Kune Do de Bruce Lee. Porém, nesses casos o alert a era aplicado a uma finalidade física. A educação da consciência para co nt at ar o mundo int er ior passa pelo exercíc io de est ar present e. À medida em que nos acost uma mos a viver no agora, tomamo s consciência de muit os acont eciment os int er iores que est avam na so mbra. E nt ret ant o, t emos que focar o aspect o int erno do agora. Não se t rat a de olhar o present e exclusivament e pe la via da ext roversão. É preciso recordar sempre que há um mundo int er no que nos aco mpanha a t odo mo ment o. O present e possui vár io s aspect os que vão sendo gradat ivament e absorvidos pe la consciência à medida em que ela se educa. Um deles é o nosso comport ament o, aquilo que est amos fazendo no agora. Ele envo lve os pensament os, os sent iment os, os mo viment os, as t endências inst int ivas e a sexualidade, ent re out ros, e se relacio na co m a assimilação das múlt iplas facet as do inconscient e. Out ro aspect o do present e é o lado de nossa exist ência em que est amos em um dado inst ant e. Esse aspect o envo lve uma quest ão que nor malment e chama at enção de poucas pessoas e que se relacio na co m a possibilidade de est ar mos, em cert os mo ment os da nossa vida, dent ro de um sonho ( lit era lment e). Na maior ia das vezes, o ego sonhador não se dá cont a da realidade present e que cont at a durant e a no it e. A co nsciência egó ica em geral não sabe que est á sonhando enquant o o corpo dorme. Se aprendemos a vivenciar int ensament e o present e durant e o dia, o far emos t ambém durant e à no it e, dent ro do inconscient e. Ao fazê- lo, acordaremos par a uma realidade psíquica parale la, que exist e dent ro de nós e for ma um mundo imagét ico. O mundo int er ior é real e concret o. Embora seja sut il, energét ico e dot ado de objet os com for mas alt ament e plást icas, sua exist ência não é

ilusór ia. Devemo s por cuidado nas quest ões psíquicas porque elas nos afet am t ant o quant o as quest ões ext er nas. Para Jung (1984) é um erro at ribuir à realidade ext erna o st at us de realidade única: "É muito dif ícil acreditar que a psique nada representa ou que um f ato imaginário é irreal. A psique só não está onde uma inteligênci a míope a procura. Ela exi ste, embora não sob uma f orma f ísica. Ë um preconceit o quase ridículo supor que a exist ênci a só pode ser de natureza corpórea [ física]. Na realidade, a única f orma de que temos conheciment o imediato é a psíqui ca. Poderíamos igualment e dizer que a existênci a f ísica é pura dedução uma vez que só temos alguma noção da matéria at ravés de imagens psíqui cas, transmitidas pelos sentidos." (p. 14) Assim co mo aprendemo s a viver no mundo ext er ior, t emos que nos desenvo lver co nscient ement e no mundo int er ior. Isso imp lica e m est ar mos acordados para ele o t empo todo, obser vando-o. Mas não poderemos fazer isso se est iver mo s fora do present e, imer sos em pensament os. Há uma difer ença ent re obser var a psique e pensar sobre a psique. Quando a obser vamos, seus co mponent es são vist os objet ivament e. nós Se ficar mo s for jamo s

pensando, veremo s apenas os pensament os que ego icament e.

mes mos

A rea lidade int er ior é t ão vast a quant o a ext erior e for ma um mundo análogo ao fís ico sob cert os aspect os e ao qual pert encem os sonhos, as fant asias, os pensament os e os sent iment os. Esse mundo cont ém imagens que mant ém correspondência co m os element os ext er iores e que, muit as vezes, se for maram a part ir do cont ato co m eles. Trat a-se de um mundo real à sua maneira e ao qual adent ramo s quando sonha mos à no it e. Esse mundo é t ão real que seus efe it os se fazem sent ir fis icament e (Jung): "Quando você observa o mundo, vê gente, vê casas, vê o céu, vê o objetos tangíveis. Mas quando você se observa int eri ormente, vê imagens animadas, um mundo de imagens que são, em geral, conhecidas como f antasias. Entretanto, essas f antasias são f atos. É um f ato que um homem tinha esta ou aquela f antasia, uma f antasia tão tangível que, quando um homem tem uma certa f antasia, um out ro homem pode perder a vida ou uma ponte pode ser construída. Todas essas coi sas f oram f antasias... Convém não esquecer ist o: a f antasia não é o nada." (apud Saiani, 2000, p.34, gr ifo meu)

Essa idéia de um mundo int er ior real é compart ilhada por Saiani para quem o pressupost o de que a "realidade objetiva" e o "purament e subj etivo" difer em é preconceit uoso uma vez que a realidade abrange event os físico s e psíquicos ( idem, p. 90). Levada adiant e, isso significa que exist em o bjet os psíquicos assim co mo exist em objet os fís icos e que nem sempr e o psíquico é subjet ivo. Alé m disso, JUNG (1986) ent ende que o ego possui seu própr io mundo, no qual est á cont ido, e que esse mundo é a alma, sendo sensat o consider á-lo t ão válido quant o o mundo empír ico uma vez que possui t ant a realidade quant o ele. Segundo seu pensament o, a psico logia dever ia reco nhecer que o fís ico e o espir it ual coexist em na psique e que por razões epist emo lógicas, esse par de opostos fo i c indido pelo ho mem ocident al. À medida em que educamos nossa consciência para viver no present e e não reagir evit ando a visão do desagradáve l, ela vai amadurecendo. Isso provoca o seu aument o pela descobert a do novo. Se a discip lina prossegue, at ingimo s um po nt o em que ficamos lúcidos dent ro dos sonhos enquant o o corpo fís ico dorme (Harar i & Weint raub, 1993). Ent ão, podemos exp lorar as dist ant es t erras int er ior es po is "da mesma f orma que o inconsciente age sobre nós, o aumento da nossa consci ência tem, por sua vez, uma ação de ri cochete sobre o inconsci ente."( Jung, 1963, p. 282). Esse r icochet e é uma mudança na for ma dos sonhos se processarem: seus cont eúdos se modificam co mo result ado da ampliação da consciência do/no aqui-agora. Levamos para dent ro deles essa vigília, esse viver imbuído da realidade present e. Passamo s, ent ão, a viver acordados no sonho, plenament e lúcidos. Quando nos damo s cont a do t eor da realidade onír ica present e, à no it e, vivencia mos seus inst ant es int ensa ment e e co mpreendemo s que est amos sonhando enquant o nosso corpo físico dorme na cama. Os sonhos correspo ndem a uma dimensão real de nossa exist ência que co meçou a ser est udada pela ciência há pouco t empo. Nós a chama mos de inco nscient e porque não t emos, usualment e, cont at os conscient es e dir et os co m ela (Sanford, 1988): "(...)eis uma teoria básica sobre os sonhos: origi nam-se em out ra dimensão de nossa personal idade a qual, pelo f ato de não termos consciência da mesma, é chamada de inconsci ente." (p.29, gr ifo meu):

Essa out ra dimensão começou a ser est udada pela ciência apenas nos últ imos cem anos. Os desafio s cognit ivos que ela lhe lançou est ão sendo invest igados cada vez mais ser iament e: "Durante o século XX, o sonho volta a se tornar objet o válido de estudo e investigação. E temos, por exempl o, as pesqui sas sérias relati vas ao sono e aos sonhos que começaram a ser f eitas depois da Segunda Guerra Mundial."( idem, p.15) O mundo dos sonhos é alvo de int eresse da ciência e não um at r ibut o exclusivo do mist icis mo. As exper iênc ias míst icas são, ant es de t udo, exper iências humanas que devem ser abordadas desde o ponto de vist a da cult ura em que surgem. A post ura verdadeir ament e cient ífica visa adquir ir o conheciment o e se aproximar progressivament e da verdade, at ravés de sucessivas e t emporár ias co nst ruções t eóricas. Se quiser mo s co mpreender verdadeir ament e uma exper iência humana de t ipo míst ico, e esse algumas vezes é o caso da exper iênc ia onír ica consc ient e - que para cert as corrent es de pensament o possui significado profundament e religio so - não podemos rechaçá- la por não se enquadrar em mo ldes t eóricos r ígidos e inadapt áveis, arbit r ar iament e est abelecidos a pri ori. Isso ser ia uma ant i-ciência que acarret ar ia num agnost icis mo (a negação do conheciment o). Aquele que se int it ula agnóst ico é um ignorant e po is adot a para si u m no me cujo significado lit eral é: "aquele que desconhece’’ , ou seja, assume para si própr io e para os demais um rót ulo que o ident ifica co mo um desco nhecedor, desqualificando os conceit os que emit e sobre alguns aspect os da realidade, em ger al incorret ament e abordados sob a alegação de serem falso s. Orgulhar-se disso é orgulhar-se de est ar cont ra o conheciment o, ou seja, em favor da ignorânc ia. Esses são os que negam a exist ência de uma realidade usualment e invis íve l em uma d imensão supra e infra-sens ível dent ro do homem e o fazem por duas razões: ela não se encaixa em suas est rut uras int elect uais, inst rument o único de cognição que possuem, e ameaça a visão de mundo que const ruíram durant e toda a vida e so bre a qual er igiram o s cast elos de are ia de suas exist ências. Ent ret ant o, a t eoria deve se modificar para aco mpanhar os fat os e não o cont rário. Além do mais, é melhor apro fundar e ampliar, pela obser vação e exploração, a compreensão da maneira co mo se processa um

fenô meno do que ficar imó vel especulando sobre suas causas a part ir de uma lógica excludent e e super valor izada co mo única. Mas não nos dist anciemos muit o do nosso assunt o... Os sonhos lúcidos exist em, est ão document ados por muit os cient ist as e provam que a dimensão int ra-o nír ica possui u m inst ant e present e, um agora no qual um mergulho é possível. Além dest a dimensão em que vivemos durant e a vig ília, há out ra: a dimensão do inconsc ient e, de onde os sonho s provém e à qual podemo s adent rar se cult ivar mos a vivência no present e co mo fazem cert os ascet as t ibet anos, os quais viaja m para remot as par agens de si mesmo s levando consigo a consciência plena, façanha obt ida por me io do relaxa ment o vigilant e e pro fundo (Harar i & Weint raub, 1993). Ambas coexist em

paralela ment e e fazem part e da nat ureza, que possui do is lados: um denso e out ro sut il. O lado denso corresponde ao mundo fís ico, no qual se mo ve o nosso corpo, que é feit o da mesma mat ér ia que co mpõe o mundo que o envo lve. O lado sut il da nat ureza corresponde à part e energét ica do planet a e do homem, na qual a ps ique est á inser ida e de onde provavelment e provém sua co mposição. Por enquant o essas regiões nat urais da ps ique ainda não são facilment e acessíveis à exploração cient ífica, no at ual est ágio do seu desenvo lviment o, mas a consideração sér ia das mesmas enquant o realidade passíve l de invest igação livre e dos relat os de pessoas que realizam viagens onír icas conscient es (so nhos lúcidos) podem abr ir no vas port as nesse campo e ajudar a diss ipar a ignorância a respeit o, além de ocupar um espaço que de outra for ma poder ia ser dest inado a char lat anismo s mist ificat órios.

Referências bibli ográficas:

HARARI, Keit h & WEINTRAUB, Pamela. Sonhos Lúcidos em 30 Dias : o Programa do Sono Criati vo (Lucid Dreams in 30 Days). Trad. de Mar li Berg. Rio de Janeiro, Ediouro, 1993. JUNG, Car l Gust av. Memóri as, Sonhos e Ref lexões. Trad. de Dora Ferreir a da S ilva. Vigésima Pr imeira I mpressão. Edit ora Nova Front eir a.

JUNG, C. G. Psicologia e Religião (Zur Ps ycho logie West licher und Öst licher Relig io n: Psycho log ie und Religio n). Trad. de Pe Dom Mat eus Ramalho Rocha. Segunda edição. Pet rópolis, Vozes, 1984 JUNG, C.G. & Wilhelm, R. (organizadores). O Segredo da Flor de Ouro: Um Livro de Vida Chinês. Trad. de Dora Ferreira da S ilva e Mar ia Luíza Appy. Terceira edição. Pet rópolis, Vozes, 1986. KORNFIE LD, Jack. Obstáculos e vici ssit udes da práti ca espiri tual . In: GROF, St anis lav & GROF, Cr ist ina (orgs.): Emergência Espi ritual: Cri se e Transf ormação Espirit ual (Spir it ual E mergency: When Per sonal

Transfor mat ion Beco mes a Cr isis). Trad. de Adail Ubir ajara Sobral. São Paulo, Cult r ix, 1995. SAI ANI, Cláudio. Jung e a Educação: Uma anál ise da relação

prof essor/ aluno. Pr ime ira edição. São Paulo, Escr it uras, 2000. SANFORD, J. A. "Os Sonhos e a Cura da Alma" (Dreams and Healing). Trad. de José Wilso n de Andrade. Terceira edição. São Paulo, Paulus, 1988.

D i v u l g a çã o p r o i b i d a s e m a u t o r i za çã o d o a u t o r .

A Tendência de Buscarmos um Artificial "Algo Mais"
Cl eber Mon t ei r o Mun iz em 3 de junh o de 2002

Muit os asp ir ant es a onironaut as int ent am pr at icar o discer niment o sem se darem co nt a de que co met em um erro: o de tomar art ific ialment e a realidade onír ica. I nconscient ement e, procuram um "algo mais" nos objet os que obser vam à sua vo lt a, acredit ando que esse hipot ét ico element o ser ia o fat or de difer enciação ent re os modos de realidade. O "algo mais" ser ia uma nat ureza mágica espec ífica que, ao ent rar no campo de consciência do onironaut a, t ornar ia, segundo a equivocada

concepção sabot adora do inconscient e, a realidade do sonho imediat a, facil e inequivo cament e reconhecível. O hipot ét ico element o mágico ident ificador de modos de realidade não exist e nos so nhos e nem t ampouco na realidade fís ica. O que exist em são element os muit o semelhant es mas que se co mbina m de modo a denunciar seu carát er imaginal/ fís ico. As endopercepções o nír icas são análo gas às vígeis em qualidade e int ensidade, o que nos obr iga realizar a obser vação part indo do pressupost o de que, se est iver mo s sonhando, est aremos em um mundo muit o semelhant e ao vígil (ao menos à pr imeira vist a de um pr incip iant e) em t er mos de concret ude e realidade. O desejo inconscient e ou semi-conscient e de enxergar um "algo mais", além do que os objet os circundant es são em si mesmo s, impede a

ident ificação da dimensão em que est amos. A t endência de fazer, durant e a prát ica do discer niment o, um esforço adicio nal para enxergar os element os que nos chegam à per cepção além de sua aparência imediat a se nort eia por uma co ncepção insuspeit ada (e possivelment e equivocada) do que ser ia esse "algo mais" inerent e ao onír ico. Na et apa de desenvo lviment o da consciência que est amo s t rat ando, ident ifica- se corret ament e o est ado de realidade ao t omar mo s as imagens que nos chegam t al co mo são ao invés de t ent ar desco br ir nas mesmas um "algo mais" que as ident ificasse co mo pert encent es a uma realidade t ranscendent e. A t ent at iva de descobr ir esse "algo mais" desvia o curso da at enção. Tomar as imagens em sua simp licidade nat ural e pr imeira significa simplesment e vê- las o mais objet ivament e possível, co m a maior r iqueza de

det alhes que a lcancemo s e sem pensar a respeit o do que vemos. O pensar sobre é subst it uído pelo enxergar. Quando raciocinar mos sobre o que est amos percebendo, ainda que levement e e de modo quase impercept ível, paralisamos a co nsciênc ia e nos dist anciamo s do discer niment o. O desenvo lviment o da lucidez int ra-o nír ica requer que mir emo s os objet os onír ico s que nos rodeiam do mesmo modo que far ía mo s se est es fo ssem fís icos mas co m a diferença de est ar mos verdadeirament e abert os à possibilidade de est ar mos sonhando. Co mo é impossíve l evit ar que concepções inco nscient es se imiscua m na prát ica, a alt er nat iva que rest a é obser var as cenas circundant es so b a idéia de que, mesmo sendo onír icas, são reais, concret as e objet ivas, em nada difer indo, sob est e aspect o, das cenas acessadas em est ado vígil. Assim, o pressupost o inconscient e de que as objet os onír icos são sobrenat urais e espet aculares é subst it uído pelo pressupost o de que são nat urais e apenas um pouco diferent es dos objet os físico s. A fascinação mist icó ide provoca uma super va lor ização do

t ranscendent e e est a, por seu t urno, leva à procura do "algo mais", o que condicio na a prát ica da at enção a um pressupost o equivocado.

Referências:

Est e art igo não possui r eferênc ias.

O descondicionamento dos parâmetros observacionais
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 07/ 06/ 01 A di vul ga çã o l i vr e de st e a r t i go é a ut or iz a da desde que ci t a d os a fon t e e o a ut or .

Durant e o exercício diár io do discer niment o, podemos incorrer no erro de vic iar mo s a obser vação. A obser vação vic iada se paut a sempre so bre os mesmo s sina is: busca os indicadores onír icos de sempr e. Quando as caract er íst icas diferenciadoras est ão ausent es do cenár io, o discerniment o não é at ingido. Ao esco lhemo s det er minados indicadores recorrent es e os esperamo s nos próximo s sonhos, eles não aparecem porque há cont eúdos inconscient es para os quais não convém o despert ar. Isso indica que seguem u ma lei própr ia e se evadem de serem usados co mo degrau para a lucidez. A obser vação do mundo ext erno imediat o focada em apenas um ou dois aspect os ident ificadores de sua nat ureza nor malment e fracassa. A pequena quant idade de ele ment os diferenciadores buscados diminui as probabilidades de reconheciment o. Quant o maior for o número de indicadores buscados, maiores serão as chances de despert ar mos. A at enção deve ser focada sobr e a realidade no int uit o de abar car a maior quant idade possível de incoerências em relação à lógica vígil. Precisamos nos mant er abert os para a det ecção de qualquer

‘anor malidade’ que desafie a nat ureza fís ica dos acont eciment os e não apenas a algumas que previa ment e esco lhemos. A abert ura at encio nal deve ser cir cular: livre por todos os lados. A obser vação focada em apenas alguns element os previa ment e

esco lhidos é uma obser vação excludent e. Por ser excludent e, não incluirá sinais alhe ios aos egó icament e det er minados e preciosos indicadores não serão det ect ados. Mas a ext irpação tot al da excludência não é possível, uma vez que so mos seres egó icos. Podemos, ent ret ant o, at enuá-la pela educação diár ia da at enção. Est a, quando empenhada em se mant er sensível a múlt ip las indicações, so fre uma alt er ação no sent ido de reagir ao est ranho co m aut oquest io nament o. Por out ro lado, quando fixada em apenas alguns indicadores,

cai num círculo mecânico de repet ições e fr acassos. A fixação dificult a o despert ar. O número de indicadores exist ent es no mundo onír ico de cada um de nós é muit o grande, senão infinit o. A consciência pode assimilá-lo s a part ir da análise vígil dos so nhos. Nas anot ações, são ident ificáveis sit uações t ipicament e onír icas não reconhecidas no mo ment o em que se processaram. Ao reler mos nossas anot ações ou simplesment e nos lembrar mos do que sonha mos, podemos buscar ind icadores negligenciados e que poder iam t er sido aproveit ados co mo agent es de reconheciment o. A ass imilação

progressiva dos agent es t orna a consciência ma is sensível à realidade onír ica e a leva a reagir co m o discer niment o ant e quaisquer acont eciment os int raonír icos que desafiem a dinâ mica vígil usual. Bas icament e, t udo o que for diferent e do rot ineiro é mot ivo para aut oindagação e para obser vação cuidadosa. O que for ‘imprópr io’ ao mo ment o, ainda que não impossíve l, deve ser tomado como lembret e para se por cuidado na at enção do meio cir cundant e. Se nos acost umamo s durant e o dia a reagir ao inusit ado com

quest io nament o sobre sua nat ureza, faremos o mesmo à no it e. São element os difer enciadores: cenas que se alt eram bruscament e, cenas que pert ence m a mo ment os passados, t emas onír icos recorrent es e acont eciment os raros e/ou impossíveis para a realidade fís ica. E m sínt ese, o que precisamo s buscar é o pouco comum para est e modo de realidade em que vive mos: o raro, o inusit ado, o difíc il, e não apenas o impossível. O reconheciment o do sonho é facilit ado quando ver ificamo s se a realidade que presenc iamo s no agora nos fornece, ent re outros, os seguint es element os: combust ão ou moviment o espont âneos de objet os, aviõ es que caem do céu, mortos que falam ou se mo ve m, fant asmas, part es do corpo que caem ou apodrecem, sexo com uma pessoa inacessível e int ensament e dese jada, at ividades inco muns para a nossa própr ia vida ou de alguém conhecido, paisagens que não correspondem ao lugar ao qual pert encem et c. Se os ident ificar mo s no agora, a possibilidade de est ar mos sonhando é muit o alt a ou abso lut a

Quando o leque da consciência se expande ao máximo, abarca o maior número possível de acont eciment os raros, ou seja, de t raços onír icos t ípicos. Ao fazê- lo, as chances de acordar dent ro de um sonho se amplia m. Ao ver ificar mo s se est amos sonhando deve mos procurar a respost a na sit uação present e. E la cont ém os dados que nos infor ma m a respeit o do modo de realidade co m o qual est amos em co nt ato. Um grande impecilho ao despert ar desse modo especia l de consciência é a incapacidade de crer mo s que podemo s est ar em um sonho aqui e agora. Tal incapacidade der iva da cr ença de que não há outros mundos alé m do t ridimensio nal. Há pessoas que chegam a se pergunt ar se est ão sonhando em plena no it e e, não obst ant e, não conseguem aceit ar t al possibilidade nem mesmo quando est ão diant e dela. E m t ais casos, chegamo s a obser var o mundo onír ico mas não so mos capazes de reconhecê-lo, sendo vit imados por nosso próprio cet icismo. Ao nos deparar mos co m cenas nít idas e alt ament e numinosas, so mos incapazes de aceit ar t al possibilidade e não despert amos para a realidade int er na.

Referências: Est e art igo não possui r eferênc ias.

A síntese de indicadores de realidades opostas na observação das cenas circundantes
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 19/ 05/ 01
A d i v u l g a çã o l i v r e d e s t e a r t i g o é a u t o r i za d a d e s d e q u e c i t a d o s a f o n t e e o a u t o r T ex t o r e g i st r a d o .

No discer niment o, o conheciment o dos t raços t ípicos do mundo físico é t ão import ant e quant o o conheciment o das caract er íst icas peculiares ao mundo onír ico. O poder de ident ificação do mundo em que est amos result a da consciência do que é exclusivo a cada uma das dimensões exist encia is. A obser vação diár ia da realidade c ir cundant e com a int enção de reconhecê-la não deve se paut ar apenas por marcas que assina lem so nhos. A presença de indicadores do mundo t ridimens io nal aliada à ausência de indicadores do mundo onír ico nos dá a cert eza de que não est amos sonhando e vice- versa. A co nt inuidade espaço-t emporal dos acont eciment os é um indicador de que não est amos fora do mundo físico. Nos sonhos, as cenas dão salt os no t empo e no espaço, não apresent ando cont inuidade. A pessoa que dialoga conosco em um inst ant e pode não ser a mesma no inst ant e seguint e. A casa dent ro da qual est amos em um mo ment o pode ser out ra quando dela saímo s. No mundo fís ico, pelo menos durant e est ados usuais de consc iência, o desenro lar dos fat os é percebido co mo sequencial no t empo e no espaço. Não podemos salt ar subit ament e de um país a outro, de uma cidade a out ra, de um lo cal a out ro sem at ravessar as porções de espaço que os separam. Também não podemos subvert er as leis t emporais, vivenc iando o dia dur ant e a no it e, ret rocedendo à infânc ia ou nos vendo com a fis io no mia que t ínhamos há vint e ou t rint a anos at rás. A co nt inuidade espaço-t emporal é o agent e da est abilidade (ausência de rupt ura) percebida nos acont eciment os t ridimensio nais. A subver são a esse pr incípio causar ia cert ament e espant o nest e mundo. O mundo dos sonhos, ent ret ant o, rompe muit as vezes co m a mesma e o ego não reage a isso co m est ranhament o em sit uações co muns.

Do explicado decorre a necessidade de educar mo s a at enção vígil no sent ido de ut ilizar a est abilidade e a cont inu idade das cenas co mo um cr it ér io de reconheciment o da realidade exper iment ada no agora. O at o de obser var a cena circundant e durant e o dia visando discer nir exige que seja mos sensíveis à cont inuidade que caract er iza o mundo fís ico e, simult aneament e, aos t raços t ípicos da realidade fant ást ica. A sínt ese dos dois modos de recept ividade or igina o est ado conscient ivo adequado à obt enção da lucidez int ra-onír ica. A ident ificação com uma das duas mo dalidades de sina is int errompe a sínt ese de fluxos de at enção e nos leva à confusão, não per mit indo que a aut o-indagação seja real. Há uma diferença ent re a aut o-indagação real e a simu lada. Na verdadeir a exist e dúvida e não apenas o cumpr iment o de um cost ume. A consciência chega a um est ado em que de fat o não sabe se est á no mundo fís ico. O mesmo não sucede co m a indagação simulada, a qual é mecânica. Nela, o sent iment o de insegurança a respeit o da dimensão em que est amos não exist e e, co mo consequência, não ansiamo s verdadeirament e por

desco br ir. Isso é agravado pela possibilidade de aut o-engano: a consciência, em cert os casos, acredit a que est á duvidando sem o est ar. Por defic iência na aut o-obser vação, o cet icis mo e sent iment o de segurança, inconscient es, a fazem acredit ar que est á at uando em modo t ridimens io nal.

Referências:

Est e art igo não possui r eferênc ias.

A ampliação do sentido de realidade que nos permite superar o ceticismo unilateral
Cl eber Mon t ei r o Mun iz em 27 de m ai o de 2002

A capacidade de não ser mos vit imados pelo impact o realíst ico das imagens onír icas, o qual nos leva sempre a confundí-las co m imagens ext er iores, se desenvo lve lent ament e à medida em que exper ienciamo s os pr imeiros so nhos lúcidos e a concret ude da mat ér ia ideoplást ica que co mpõe os element os int er nos cont at ados. Ant es das pr imeir as exper iências onír icas conscient es, é difíc il

conceber e ace it ar co mo onír icas imagens co m fort e impact o realíst ico e que emanam a sensação de concret ude. A co nsc iência que nunca at ingiu um est ado onír ico consc ient e não exper ienciou a realidade t ranscendent e e, por ext ensão, ainda não compro vou o carát er mat er ial do mundo int er ior, não possuindo a necessár ia base per cept iva diferencia l que lhe per mit a capt ar o cont rast e ent re os modos ext erno e int er no de mat er ialidade. Se, durant e o sonho e em t al est ado usual de indifer enciação, nos indagamo s se est amo s sonhando, simplesment e so mos vit imados pela

numinosidade das sensações de concr et ude que nos levam sempre a conceber co mo real e mat er ial aquilo que é exclusiva ment e t ridimens io nal e fís ico. Duvidaremos, equivocadament e, da possibilidade de est ar mos inser idos na et ernidade. Cairemo s em um cet icis mo equivo cado e unilat eral. Diremos: "Não! Tais cenas concret as e nít idas que ve jo são fís icas po is t êm t odas as caract er íst icas do mundo ‘mat er ia l’. Posso palpar est es objet os que são só lidos e, port ant o, a única possibilidade ‘ lógica e coerent e’é que eu est eja mesmo ‘acordado’, ist o é, no mundo fís ico". A numinosidade nos vit ima e nos lança a uma relação de ido lat r ia co m o mundo ext er ior, ainda que nos creiamo s at eus e mat er ialist as. Não bast a, port anto, indagar super fic ialment e. Temos que dar à pergunt a uma base que corresponda à visão de mundo em que o mat er ial possa t ambém ser considerado onír ico. A t rava para reco nhecer o sonho durant e seu processament o é um equívoco, em ger al semico nscient e ou subconscient e, na co ncepção de

realidade. A idéia de real co mo sinô nimo exclusivo do ext er ior condicio na as percepções sem que o percebamo s e, co mo result ado, quedamos inco nscient es durant e as viagens à dimensão ext ra-víg il: via jamo s para o out ro mundo sem nos dar mo s cont a. O caminho par a invert er o indesejável co ndicio nament o é at ingir a capacidade de mir ar mos as cenas ext er iores aceit ando verdadeirament e a possibilidade de que pert ençam a um sonho, a despeit o de serem reais, concret as e nít idas. Ao obser var mo s a realidade, seja dest e lado ou do lado de lá, t emos que nos per mit ir ser at ingidos profundament e pe la dúvida real: o que vemo s são cenas físicas ou onír icas? Caso cont rár io, os t est es de realidade serão inút eis. O cet icis mo unilat eral e a ausência de t est es de rea lidade são os pr incipais fat ores que nos impedem de despert ar a consciência na dimensão onír ica parale la. Ao t est armos e obser var mos a realidade circundant e, todo cuidado em não concluir mos apr essadament e que est amo s no mundo fís ico é pouco. A dúvida deve se aprofundar, indo muit o além das pr imeir as impressões, o que implica em não aceit ar aquilo que a realidade nos suger e à pr ime ira vist a: a idéia de que est amos sob for ma t ridimensional. Mesmo que t al nos seja suger ido fort ement e por muit as evidências, ainda assim t emos que duvidar e ir além, buscando mais det alhes e infor mações que possam nos revelar se est amos ou não dent ro de um so nho. Para a consciência egó ica, ador mecida, ext rovert ida e co ndicio nada pelo cet icismo unilat eral, a realidade onírica sempre assume uma aparênc ia fís ica que a engana. É como diferenciar duas salas idênt icas ou dois ir mãos gêmeos: t emos que ser profundos e det alhist as, indo além das aparências e at é mesmo duvidando das evidências. Aqu i, ser profundo significa: duvidar da aparência por mais t empo, exigir mais evidências ant es de co ncluir e nunca fechar possibilidades concluindo definit iva ment e. Se vemos um amigo falecido vivo e alegre, at ent emos para est a incoerência e não nos deixe mo s enganar pela vivacidade do seu olhar, a t emperat ura do seu corpo, a mo bilidade e nor malidade vit al que apresent a po is, a despeit o de t udo isso, ele pode ser uma imagem o nír ica. O amigo cont at ado naquele present e

indubit ável pode ser o duplo psíquico da pessoa falecida int ro jet ada por nós. Podemos est ar sonhando naquele mo ment o. A educação conscient iva aqui exp licada conduz à sínt ese ent re o mat er ialis mo e o espir it ualis mo, duas t endências nor malment e opost as. Corresponde ao cet icis mo levado a fundo e à capacidade de duvidar bilat eralment e. Nada t em a ver co m o at eís mo e nem t ampouco com as crenças religio sas. Leva à invest igação de uma realidade nat ural que parece ser sobr enat ural por ult rapassar as concepções usuais de mundo.

Referências:

Est e art igo não possui r eferênc ias.

Transcendendo a preocupação com a concretude
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 14 de m ai o de 2001.
A t u a l i za d o e m 2 6 d e a b r i l d e 2 0 0 2 . A d i v u l g a çã o l i v r e d e s t e a r t i g o é a u t o r i za d a d e s d e q u e c i t a d o s a f o n t e e o a u t o r . T e x t o r e g i s t r a d o .

Re s u mo : Nã o s e r e mos ca p a ze s d e r e con h e ce r o s on h o n o i n s t a n t e e x a t o e m q ue se p r oce s s a d e nt r o d e n ó s s e c on s i d e r a r mos s u a e x is t ê n ci a i l us ó ri a , va ga e n ã o- c on cr e t a . A l u ci d e z i n t r a -on í r i ca e xi ge q u e o t ome m os c om o r e a l i d a d e p ar a l el a à ví gi l .

.

A elevada numino sidade das cenas onír icas dão a elas um r ealis mo que se equipara ao do mundo fís ico. Nit idez nas percepções, int ensidade de sent iment os e impact ant e so lidez dos objet os são fat ores que fascinam a consciência ainda imat ura para o cont ato diret o com a mat ér ia onír ica. O discer niment o advém quando aprendemos a ace it ar o mundo onír ico t al co mo é. Quando mant emos, ainda que na so mbr a, a idéia de que as cenas dos sonhos são "vo lát eis" em si mesmas e não em relação à for ma densa de exist ir, não as reconhecemos quando nos são apresent adas. Ao t ent ar mos obser vá- las e reconhecê- las t endo por base sua vo lat ilidade, as t omamos por fís icas uma vez que a obser vação est á condicio nada por um pressupost o fa lso. Tent ar reconhecer o sonho "in loco" t endo por base sua pouca concret ude é desprezar sua numinos idade e tomá-lo co mo algo que não é: um mundo que aparece ao explorador como vago e de exist ência ilusór ia. Essa é uma abordagem equivocada que result a na co nt inuidade do adormeciment o da consciência e reforça a incapacidade de dist inção ent re os mundos onír ico e fís ico. O "conhecer com" de Edinger (1999), a simu lt aneidade ent re objet o conhecido e sujeit o de conhec iment o (pp. 49-50) não é at ingido em so nhos pela consciência condic io nada por um pressupost o equivocado e que dele é incapaz de se libert ar. O problema est á na influência inco nscient e ou semi-conscient e da equivocada co ncepção do onír ico. Podemos crer que co mpr eendemos a relat ividade da concret ude e seu efeit o numino so mas, ao mesmo t empo, cont inuar mo s ut ilizando cr it ér ios equivocados para diferenc iação sem que nos apercebamo s disso.

A alt a plast icidade da mat ér ia que co mpõe os element os dos sonhos não implica em sua abst rat ilidade. Por mais plást ica e mut áveis que seja m as cenas, no mo ment o em que se co nfiguram no univer so imaginal apresent am so lidez. Se, em uma exper iência onír ica conscient e, bat er mos co m o pé em uma rocha, podemos sent ir o choque da colisão co m a mesma int ensidade que sent ir ía mos se o fizéssemos no mundo fís ico. O so lo em que pisamo s, o corpo que apalpamos e o inimigo co m quem lut amos e m sonho são só lidos naquele inst ant e. O vent o que sent imo s no rosto, a chuva que nos enchar ca e o pássaro que voa no céu são concret os naquele mo ment o para o sonhador. É o vivo poder da numinosidade, que engana as almas ingênuas e as vit ima co m a inflação por arquét ipos. A lucidez int r a-onír ica é o reconheciment o da sit uação em que est amo s enquant o o corpo dorme. Advém da faculdade de enxergar mo s o mundo dos sonhos co mo é, numino so e concret o, e não co mo o ext rovert ido ho mem ocident al moder no supõe nor malment e: vago e ilusór io. Quando em sonho e durant e a educação vígil da at enção, a autoindagação a respeit o de onde est amos precisa ser aco mpanhada pela obser vação conscient e da realidade cir cundant e sem a cont aminação pela idéia de que um mundo de objet os só lidos é fís ico. A obser vação corret a não se paut a pela co ncepção de que a so lidez é exclusividade da modalidade t ridimensio nal de exist ir. O at o de t est ar o t eor da realidade circundant e por meio da obser vação exige que part amos do pressupost o de que, caso est ivéssemos em um sonhos, est ar íamos e m um mundo idênt ico ao ext erior no que se refer e ao impact o realíst ico das imagens, concr et ude ino lvidável dos objet os e nit idez de percepções e sensações. O reconheciment o do est ado onír ico exige que dispense mos a

concret ude co mo meio de ident ificação do t eor da realidade obser vada. A obser vação corret a recebe as imagens circundant es sem reações racio nais e per mit e que seu t eor onír ico ou fís ico se revele espo nt aneament e at ravés dos acont eciment os presenciados no níve l imediat o. É preciso esclarecer, quando afir ma mos que o mundo dos sonhos é concret o, que o est amos fazendo levando em co nsideração a relat ividade mat ér ia-energia. É claro que, de um pont o de vist a exclus ivament e

t ridimensio nal, suas cenas são abst rat as. Mas do pont o de vist a da realidade int ra-o nír ica imediat a, ist o é, do ego que as vivenc ia e saboreia sem o int er médio da recordação post erior, é concret o. Durant e o sono o ego se desliga, em grande part e, do corpo fís ico e das exopercepções. Passa a ser, ent ão, energia quase pur a. As imagens do inco nscient e co m as quais est abelece co nt ato são igualment e energét icas, t endo a mesma nat ureza psíquica. Devido a essa afinidade vibracio na l, consciência e imagens onír icas assume m uma configur ação reciprocament e só lida. Daí a t angibilidade das imagens int er nas no sonho.

Sobre a percepção da materi alidade dos sonhos
(em 25 de a br i l de 2002)

Ao t ent amos discer nir se est amos ou não sonhando, t emos que fazê-lo part indo do princípio de que o mundo onírico é t ão mat er ial quant o o físico. Quando, dent ro de um sonho, obser vamo s a realidade c ir cundant e e nos quest io namo s a respeit o de est ar mos ou não em uma dimensão paralela, a mat er ialidade dos objet os que vemos nos engana, nos leva a acr edit ar que vemos cenas fís icas. A educação ocident al nos inculcou a idéia errônea de que o espír it o se opõe à mat ér ia e de que a alma se opõe ao corpo. A idéia de que o espír it o e a alma se jam imat er iais co ndicio nam nossa percepção e nos impedem de despert ar no int er no. Nos condicio namo s a sempr e duvidar da possibilidade de est ar mos em uma dimensão paralela. Quando est amos em sonho e nos deparar mo s co m a concret ude da realidade onír ica, so mos enganados por sua mat er ia lidade e acredit amos est ar sob for ma fís ica. A co ncepção de que o int er no é imat er ial, abst rat o e ilusór io impede a aceit ação de que as cenas vist as seja m "ast rais" ( no dizer dos ocult ist as). Ao conceber mo s, imat er iais, nos ainda que inco nscient ement e, incapazes de as cenas onír icas quando nos co mo são

t ornamos

reconhecê-las

apresent adas.

O mundo dos sonhos é t ão mat er ial quant o o mundo fís ico, embora o seja sob out ra for ma. Para despert ar, é import ant e concebê-lo co mo realment e é. O discer niment o não dá result ado quando é realizado sob uma base falsa. A idéia de um mundo int er ior ("onírico" para a ciência ou "ast ral" par a os ocult ist as) abst rato é uma base falsa par a o discer niment o. A obser vação fundada sobre uma base verdade ir a revela o t eor da realidade circundant e. A quint a dimensão concebida co mo universo concret o, mat er ial e para lelo é a base verdadeir a po is corresponde à realidade dos fat os. Est a dimensão exist encia l em que vivemos, a fís ica, não é "a dimensão por excelência". É apenas uma das muit as exist ent es. A crença de que out ros universos sejam menos reais e concret os t em a mancha do mat er ialis mo cét ico unilat eral que abort a as viagens int er iores. O fat o de at uarmos conscient ement e no univer so físico não significa que est e seja o único universo mat er ial exist ent e. Os mundos da quart a, quint a e sext a dimensões são reais e feit os de mat ér ia. A idéia de que são abst rat os provém da alucinação mat er ia list a e gera um condic io nament o psíquico que obst rui a passagem int erdimens io nal à co nsciência. Há que se invert er a usual concepção de realidade e radica lizar est a inversão at é o final sem medo da loucura. A loucura não vit ima que m at iva e despert a a consciência. Co nseguimo s a inver são ao aplicar mo s durant e o dia um exercício ensinado por Tho ley que cons ist e em o bser var o mundo físico, co m todo o seu impact o realíst ico de concret ude, como se fo sse um sonho. Se for mo s capazes de sent ir em profundidade os sabor emocio nal dest a obser vação, quebraremo s a crença mat er ialist a arraigada em nossa ment e.

Referência bib liográfica:

EDINGER, Edward F. A Criação da Consci ência: O Mito de Jung para o Homem Moderno. (The Creat io n o f Consciousness: Jung’s Myt h for Modern Man). Trad. de Vera Ribeiro. Nona edição. São Paulo, Cult r ix, 1999.

Parte V A paralisia do sono

A paralisia do sono e o sonho lúcido
Por Cleber Monteiro Muniz em 28 de fevereiro de 2002

Algumas pessoas relat am que, às vezes, sofrem uma paralis ia corporal ao se deit arem para dor mir. Afir ma m que, deit adas, perdem os moviment os e a capacidade de falar, ficando co m o corpo pesado e "duro", preso à cama. Ent ão, dizem, ouvem vozes, escut am passos, vêem est ranhas cenas ou pessoas e se desespera m. Co mo nossa cult ura não é, infeliz ment e, amadurecida no campo onír ico e nem t ampouco para o cont at o com o mundo do inco nsc ient e, não so mos preparados para exper iências dest a nat ureza. Co mo result ado, não sabemo s o que fazer quando caimos na par alisia do sono, sendo tomados pelo medo. Alguns exper iment am int enso t error, supondo que est ão enlouquecendo ou prest es a morrer. Out ros, superst iciosos, crêem que o "Diabo" os persegue e at é que os sufoca. O medo se deve ao desco nheciment o. Na verdade, a paralis ia do sono corresponde a um est ado não usual de consciência no qual at ingimos lucidament e o limiar ent re a vig ília e o sonho. Em out ras palavr as: nossa consciência se encont ra em um po nt o limít rofe ent re o mundo vígil e o mundo onír ico. Obviament e, não est ou me refer indo à narco lepsia ou a est ados pat ológicos similares, nos quais a pessoa desfalece mant endo a consciência em sit uações arr iscadas co mo durant e o trabalho ou no t rânsit o. Refiro-me apenas à paralis ia que algumas vezes enfrent amos dur ant es est ados de relaxament o profundo, logo após nos deit ar mo s à no it e ou acordarmos pela manhã. Não deve mos co nfundir a paralis ia do sono, que é ino fensiva, co m narco lepsia, que é um dist úr bio. É import ant e difer enciar o patológico do inócuo. A ino fensiva paralis ia analisada aqui surge quando nos aco modamo s par a relaxar, medit ar, dor mir ou "t irar um cochilo". Ocorre em sit uações facilit adoras do sono, podendo aparecer na fase inic ial ou final dest e. Não se impõe cont ra a nossa vont ade em sit uações inadequadas ou de r isco, como durant e o ato de dir igir ou t rabalhar. Esse est ado limít rofe nos ofer ece a oport unidade de exper iment ar um t ipo especial de sonho: o sonho lúcido. Se, ao invés de nos de ixar mo s t omar pelo medo, souber mo s aproveit ar a sit uação de imo bilidade para t rabalhar co m a imaginação, adent raremos conscient ement e ao nosso mundo dos sonhos.

Durant e a paralisia do sono, est amos às port as do nosso univer so onír ico. E m t al fase, podemos revert er o processo let árgico ou dar-llhe cont inuidade. Se nos at error izar mo s ant e a impossibilidade de mo viment os e as percepções alt eradas, o revert eremos. Se nos mant iver mo s t ranquilos e per mit ir mos que o processo nat ural do sono t enha co nt inuidade, t eremos a exper iência fant ást ica do sonho lúcido. É uma exper iência cobiçada por muit os. Nos sonhos nor mais, nunca percebemo s que est amos sonhando. Sempre acredit amos est ar acordados: fugimo s dos per igos, nos preocupamo s em reso lver os problemas co m os quais nos deparamos, t ememos as reações das pessoas e anima is co m os quais est amos sonhando et c. No sonho lúcido, est a falt a de discer niment o não exist e. O sonhador co mpreende que est á sonhando e age de acordo com est a co mpreensão. Durant e a fase int er mediár ia ent re sono e vig ília, co meçamo s a t er percepções alt eradas, os pr ime iros cont atos imediat os co m o mundo fant ást ico. Os nossos pensament os adquire m alt o grau de nit idez e podem ser vist os e ouvidos co mo se pert encessem ao mundo ext er ior. As vozes, so ns, imagens e t oques que percebemos são imag inais, ist o é, são for mas ment ais. Não obst ant e, seu impact o realíst ico e nit idez ( numino sidade) são int ensos e espant am as pessoas que ainda não est ão familiar izadas co m isso. Nossos medos, desejo s, anelo s, frust rações et c. se corporificam em imagens ment ais cujas for mas apresent am afinidade co m o t eor dos sent iment os que as geraram. Aqueles que alme jam a exper iência do sonho lúcido procuram induzir a paralisia do sono por me io do relaxament o conscient e. Ao at ingí-la, salt am para o outro lado de suas exist ências. Caso t enhamos int eresse em aproveit ar a paralisia corporal para obt er mos uma exper iência onír ica conscient e, podemos nos valer de um procediment o muit o simp les: uma vez at ingida a imo bilidade, projet amos uma imagem ment al qualquer que nos agrade procurando vivenciá-la lucidament e, ou seja, nos empenhamo s em int eragir com a mesma sem perder a recordação de que é ment al e onír ica. Ent ão, logo nos vemos dent ro de um so nho lúcido. Poder íamo s dizer, em out ros t ermos, que co laboramos consc ient ement e co m o processo nat ural do sono-sonho ao invés de det ê-lo pelo medo. Após o est ado de paralis ia corporal vem o est ado de sonho propriament e dit o. Se vivenciar mos lucidament e as imagens ment ais que se for mam nest a fase inic ial do sonho, logo as mesmas se apresent am ant e nossa consciência co mo se fossem t r idimensio nais. Fui procurado cert a vez por um rapaz que era fr equent ement e jogado na imo bilidade cont ra a sua vont ade. Havia apelado para méd icos, sacerdot es e orações para reso lver o "problema". Não obt eve sucesso algum. A paralis ia persist ia cont ra t odos os seus esforços e os de sua mãe em supr imí-la.

O jovem est ava muit o preocupado. Havia s ido educado na religião cr ist ã e acredit ava que as t revas fossem povoadas por ent idades infer nais. Temia o at aque de algum demô nio na escur idão da no it e. Sua mãe est ava, na época, t ent ando cont at ar um exorcist a. I maginemo s por um inst ant e seu desespero: paralisado na cama no escuro, ouvindo vozes est ranhas co m int enso impact o realíst ico e, ainda por cima, sent indo-se prest es a ser at acado por um demô nio sem poder mo ver-se ou fugir. Inst ruí o rapaz a respeit o da paralis ia e indiquei-lhe alguns t ext os para leit ura. Fizemo s junt os uma análise de suas crenças relig io sas, do t eor das percepções alt eradas que exper iment ava, da nat ureza dos sonhos, do mundo do inconscient e e do que a paralisia significava em out ras cult uras diferent es daquela em que ele vivia. E le logo ficou t ranquilizado e feliz. Co meçou a aproveit ar sit uação de imo bilidade para t er sonhos lúcidos e, ho je, chega a se lament ar quando não a at inge. O "proble ma" se t ransfor mou em algo dese jável ao enco nt rar seu sent ido e seu cur so. A par alisia do sono perde seu carát er t errificant e quando per mit imos cumpra sua função propiciadora de exper iências t ranscendent es. Muit as vezes, a paralis ia do sono é deno minada "pesadelo ", o que nem sempre é corret o. Um pesadelo é um so nho horr ível, co m mo nst ros, assassinat os, tort uras, sangue, cadáveres et c. A paralis ia é a imo bilidade do corpo, a incapacidade de mo ver- se e de se levant ar. É aco mpanhada por alucinações e, às vezes, por uma pseudo-asfixia. A pessoa corret ament e inst ruída a respeit o das et apas de inst alação dos est ados onír icos pode reagir co m nat uralidade ant e a imo bilidade corporal, sem desespero. Fo i esse o caso de um afe içoado aos sonhos lúcidos que est udou comigo. O rapaz est ava deit ado e profundament e relaxado. De repent e, sent iu que não podia se mo ver ou falar : "Eu tentava f alar mas a voz não saía. Tentava levantar mas não conseguia. Eu vi que já est ava começando a dormir." Havia at ingido paralis ia e algumas percepções alt eradas o assalt aram: "Ouvi o som de passos de alguém subi ndo pela escada. A pessoa chegou e abriu a porta sem virar a chave. Pensei: 'Eu tranquei a porta. Como a pessoa consegui u abri r?' Depois eu ouvi, na sala, o som de um riacho, de água.... 'Riacho dentro da minha sal a? Que absurdo! Já são as cenas do sonho...' " E m seguida, vo lunt ár ia e conscient ement e, o est udant e se imagina em pé, diant e da port a. A imagem o nír ica da port a e de sua pessoa em pé se concret izam ant e sua co nsciência. E le est á lá, frent e à port a, vivenciando a cena co m o mesmo impact o realíst ico que t er ia se pert encesse ao mundo

vígil. Não obst ant e, sabia que seu corpo dormia e que exper iment ava um est ado de realidade inco mum: "Como sabia que estava dormindo, concluí que só podia estar dent ro de um sonho e resolvi aproveitar para brincar. Abri a porta e saí. Ao invés de descer a escada e ir para a rua, para f ora, eu f ui para o quintal. No quintal, sabendo que est ava em um sonho, tentei f lutuar. Não consegui. Tentei mai s uma vez, não consegui de novo. Eu estava euf órico pela sensação de poder voar então resolvi me acalmar. Tentei, com toda a cal ma e lentidão, f lutuar levemente e bem baixo. Consegui ! Flutuei até a laje da minha casa. Olhei ao redor. Tudo estava igual. Olhei o céu: tinha nuvens e, mesmo assim, era um sonho! Eu sabia que estava dormindo. Então, agora conf iante, corri e dei um grande salt o do alto da laje, sem medo. Comecei a subir com uma vel ocidade enorme!. Um vento bem real começou a soprar contra o meu rosto, que nem quando a gent e anda de carro rápido e põe a cara pra f ora. O vento começou a f icar cada vez mai s f orte e eu me assustei. Então acordei." Nest e caso, a paralis ia possuía um significado especial par a o sonhador, que a via co mo um indicador de que o est ado onír ico se aproximava. Era o sinal de que iniciar ia uma viagem at ravés da no it e, de que a hora de passear pelo mundo int er ior havia chegado. Alé m do mundo usual da vigília há um out ro mundo: o dos sonhos. É um mundo que pert ence à dimensão do inconscient e, sendo const it uído por imaginações espo nt âneas, anelo s, desejos, recordações, t raumas... Na fase da paralisia, est amos às port as desse est ado de realidade inco mum. As cult uras ant igas, pr imit ivas e orient ais desenvo lveram, ao longo da hist ória, mét odos para co locar a consciência em co nt ato diret o e seguro com esse mundo mist er io so. O mundo dos sonhos é real à sua própr ia mane ira. Infelizment e, nós, ocident ais moder nos, so mos ainda muit o at rasados nesse campo. Prefer imos evit ar a espinho sa quest ão relacio nada com a concr et ude da psique a encarar a crua realidade do mundo onír ico.

Sugestões bib liográficas: BOSVELD, Jane and GACKENBACH, Jayne. Control Your Dreams. New York: Harper & Row, 1989. EEDEN, Freder ik Van. A Study of Dreams. Vol. 26. Proceedings of t he Societ y for Psychical Research, 1913. Disponíve l na int er net via WWW. URL: www.ps ycho logy.about .com/science/psycho logy/ libr ar y/weekly Capt urado em março de 2001. GARFIELD, Pat ricia. Creative Dreaming. New York: Ballant ine Books, 1974. GREEN, Celia. Lucid dreami ng. Londo n: Hamish Hamilt o n, 1968. GREEN, Celia and McCREERY, Char les. Lucid dreaming: The paradox of consciousness during sleep. London, New York: Rout ledge, 1994. HARARI, Keit h & WEINTRAUB, Pamela. Sonhos Lúcidos em 30 Dias: O Programa do Sono Criati vo (Lucid Dreams in 30 Days). Trad. de Mar li Berg. Rio de Janeiro: Ediouro, 1993. JUNG, Car l Gust av. Memóri as, Sonhos, Ref lexões.(Memor ies, Dreams, Reflect io ns). Trad. de Dora Ferreira da S ilva. Rio de Janeiro: Nova Front eir a, 1963. LaBERGE, St ephen. Lucid Dreaming. New York: Ballant ine Books, 1985. MUNI Z, Cleber Mont eiro. "A Experiência Oníri ca Consci ente: Viagens da Consciência ao Mundo dos Sonhos" . Monografia de cur so de especialização (Pont ifícia Univer sidade Cat ólica - COGE AE). São Paulo: 2001. "Experiências Oní ricas Conscientes: Educação Psíqui ca para o Despertar Intra-Onírico" . In: Cat harsis n o 3 9 (Revist a de Saúde Ment al). São Paulo: Mar igny & Ker ber, set embro-out ubro de 2001. "O Presente como Porta para a Realidade Intra-Oní ri ca Natural" . In: Cat har sis n o 38 (Revist a de Saúde Ment al). São Paulo: Mar igny & Ker ber, julho-agost o de 2001. SANFORD, J. A. Os Sonhos e a Cura da Alma (Drea ms and Healing). Trad. de José Wilso n de Andr ade. Terceira ed ição. São Paulo: Paulus, 1988. SPARROW, Gregor y Scott .. "Lucid Dream: Da wning of the Clear Light" . Virginia Beach: A.R.E. Press, 1976.

A superação da paralisia corporal por meio da imaginação consciente
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 06 de a br il de 2001. Re vi st o e a t ua l iz a do em 14 de ja n eir o e 15 de a gost o de 2002.
A d i v u l g a çã o l i v r e d e s t e a r t i g o é a u t o r i za d a d e s d e q u e c i t a d o o a u t o r T ex t o r e g i st r a d o . N ã o o p l a g i e p a r a n ã o s o f r er a s p e n a l i d a d e s d a l ei .

Há casos em que o corpo físico apresent a uma paralis ia quando nos deit amo s para dor mir ou durant e o relaxament o profundo. É um fenô meno que pode ser induzido vo lunt ar iament e mas que t ambém ocorre espont aneament e co m pessoas que nunca ouvir am fa lar em adent rar conscient ement e ao sono. Nesse últ imo caso, a paralisia é mot ivo de medo e angúst ia. Muit as pessoas, logo após se deit arem, se desco brem presas à cama, incapazes do menor moviment o. Embora est ejam sadias, ficam co mo se est ivessem mort as: t ent am fa lar, levant ar-se e mo ver-se mas não conseguem. Se sent em at errorizadas e algumas vezes caem no mais horr ível desespero, acredit ando que est ão sofrendo uma cat alepsia pat o lógica e irreversível, suposição que na maior ia das vezes não é corret a. Por desconhecer a nat ureza do fenô meno exper iment ado, o não-inic iado em exper iências onír icas conscient es t ece ju lgament os equivocados so bre a paralisia do sono. Supõe que est á morrendo, que est á enlouquecendo, que est á doent e ou, se for superst icio so, pode acredit ar que est á sendo vít ima de uma ent idade demo níaca ou que isso é um sinal ma léfico indicador de maupresságio, et c. A falsa sensação de sufocament o ou asfixia que aco mpanha a imo bilidade corporal co nt ribui ainda mais para int ensificar o t error. O que os desco nhecedores da exper iência onír ica conscient e

consideram um problema t err ível é uma dádiva par a os aspirant es à mesma, uma oport unidade valio sa e desejável. Alguns ansia m t ant o por ela que a afugent am. O medo é injust ificado. A fase de imo bilidade correspo nde à et apa de t ransição ent re a vigília e o sono. É uma cat alepsia leve, reversíve l, t emporár ia, nat ural e ino fens iva que correspo nde ao pr ime iro umbr al para a dimensão int er ior desco nhecida, um crepúsculo ent re a luz e a so mbra, co mo disse Don Juan (Cast aneda):

"O crepúsculo é a f resta entre os mundos" (p. 93) A et apa crepuscular da viagem da co nsciênc ia ao inco nscient e nos present eia co m a oport unidade de carregarmo s a lucidez vígil para dent ro do mundo onír ico. Uma dificuldade do iniciant e é ult rapassar a paralis ia. Preso à cama, o aspirant e fica um bo m t empo est ancado: não prossegue a viagem e não retorna. A so lução enco nt rada por alguns é abando nar a prát ica e ent regar-se ao sonho usual. Out ros se desesperam para ret ornar ao mundo vígil e at é t ransfor mam o est ado alt erado de consciênc ia num proble ma emo cio nal grave. Por meio da imaginação consc ient e, t ambém chamada imaginação at iva, podemos superar essa et apa e prosseguir o t rabalho. Se const ruir mo s, por meio da concent ração, uma cena ment al em plena let argia e imo bilidade do corpo e a vivenciar mo s co mo vivenciar ía mo s uma cena dest e mundo, porém sem perder a recordação de que pert ence a uma realidade psíqu ica e par alela, penet raremos conscient ement e no mundo int er no. A cena co nst ruída se t ransfor ma em cena onír ica enquant o o corpo ador mece mais e ma is pro fundament e. Prosseguindo co m a prát ica de imaginação, chegaremo s à fase em que a cena não é mais a que cr ia mos vo lunt ar iament e. A part ir de ent ão as cenas são numino sas, nít idas, densas e se processam e se mo ldam por si mesmas. A est rat égia para t ranscender a fase da paralisia é, port ant o,

simplesment e imaginar um sonho e vivê- lo como t al lucidament e, aguardando os result ados. Durant e a paralisia, nosso fluxo de at enção ainda est á muit o vo lt ado para o corpo fís ico e isso nos leva a sent í-lo co mo se fosse a essência do que so mos. Precisa mos, em t ais mo ment os, ent rar em afinidade co m o mundo psiquíco e desligar os sent idos ext er nos. Para t ant o, bast a não t er medo, esquecer o corpo paralisado e imaginar uma cena qualquer (preferenc ialment e bonit a para que não t enhamo s um pesadelo). Est a cena imaginada será o sonho lúcido inicia l, dent ro do qual poderemo s ent ão viajar co m pleno discer niment o. Enquant o a cena onír ica é e laborada, precisamo s t er o cuidado de não esquecer mo s de que est amos em cont ato com imagens int er ior es. Caso nos

esqueçamos disso, perderemo s o discer niment o e passare mos a sonhar de modo usual, acredit ando est ar em cont at o com o mundo ext er ior ou fís ico. A par alisia do sono é nat ural. Ao adormecer, o corpo precisa ser desat ivado. Todas as funções ficam muit o reduzidas. Os mo viment os são desaceler ados, inclus ive os diafr agmát icos, cuja redução proporciona a falsa sensação de asfixia e, às vezes, a de que t emos "alguém do além" sent ado sobre nosso tórax. Os únicos mo viment os que conser vam desenvo lt ura semelhant e à víg il são os das pálpebras. Sob alguns aspect os, o sono é semelhant e a um est ado de quase- mort e. Apresent a defunção parcial e é a ino fensiva e leve simulação de um "co ma" que pode ser aproveit ada para que nos acost umemo s a abando nar o corpo t emporar iament e, ou seja, esquecer que ele exist e e nos concent rar mos mais no univer so imagina l. Uma vez bem guardado e seguro, o corpo pode perfeit ament e ser deixado de lado sem nenhum problema. Não há nisso nada de míst ico ou perigoso. O que há de míst ico em diminuir os moviment os de braços, per nas ou cabeça no sono? É uma função humana nat ural. Todos sabem que o corpo diminui os moviment os ao dormir. Ent ret ant o, nem t odos presenciam conscient ement e a diminuição em si própr ios. Também não há mist icismo no at o de tomar mo s consciência de que est amos sonhando, pois isso não é nada mais do que perceber mo s que est amos imaginando cenas, que adent ramos ao mundo int er ior. Muit as percepções alt eradas aco mpanham a paralis ia do sono. Podemos sent ir for migament o, arrepios ou algo que se assemelha à passagem de uma corrent e elét rica pelo corpo. Algumas pessoas escut am so ns e vêem imagens int er iores co mo se fo ssem fís icas, co m a mes ma nit idez. Também pode ocorrer uma int erpenet ração de percepções: sons ou imagens do mundo ext er ior real que se mescla m aos produzidos em nossa imaginação. Quando a let argia penet ra no campo de consciência de quem est á ador mecendo, é percebida co mo incapacidade de mo viment os. Aquele que se percebe paralisado na cama, t ransportou a consc iência vígil a um nível de ador meciment o corporal mais pro fundo do que usualment e é t ransport ada. Pode, a part ir daí, exper iment ar conscient ement e a vida no mundo dos sonhos e at é mes mo at ingir lucidament e um nível t ranspessoal, sendo e sent indo-se t emporar iament e co mo part e da nat ureza (r io, águia, rocha, lobo, árvore...) ou vivenciando o papel de heró is mít icos e ent es arquet ípicos.

E m t odo caso, se ainda assim quiser mos det er a paralis ia e evit ar exper iência t ão agradável, t eremos que reat ivar no vament e as funções vígeis, o que não se consegue subit ament e. Será preciso reat ivar o corpo fís ico por meio das funções que per manecem cont roláveis durant e a paralis ia.

Deveremos co meçar mo vendo os olhos, emit indo gemidos (os únicos sons que conseguimo s emit ir nesses mo ment os) agudos, moviment ando os dedos e respirando com int ensidade crescent e. É preciso t er paciência po is a máquina orgânica em sono profundo é co mo um comput ador que demora muit o para ser ligado. Podemos ainda nos valer de out ro procediment o adicio nal: dor mir co m alguém por perto. Pedimo s à pessoa que nos acorde assim que ouvir nossos gemidos e perceber nossa inquiet ação. Ent ão retornamos ou nos ent regamos ao sonho usual. Ent ret ant o, o sonho lúcido é muit o mais int eressant e. Não é à toa que é cult ivado nas cult uras indígenas e orient ais desde t empos ime mor iais.

A dinâmica da paralisi a

Inco nscient ement e, acredit amos sempre ser uma simp les for ma fís ica. A associação equivocada que est abelecemos ent re o Ser sua for ma

t ridimensio nal de expressão é o ma ior responsável pela paralis ia do sono. Por não compreender mo s que o corpo fís ico é apenas um veícu lo de expressão ext er ior da psique, result a inconcebível para nós a idéia de que possamo s ser "alma". Co mo os acont eciment os onír icos são gover nados pelo s fluxo s de libido ( for mas de pensar e sent ir), a crença de que so mos o corpo ext er ior de carne e ossos at ua como um poderoso agent e condic io nant e dos acont eciment os. A exper iência de nos levant ar mos da cama, seja co m o corpo físico ou com o corpo onír ico, é sabot ada pela idé ia inconscient e de que so mos o nosso próprio veículo de expressão ext er ior. Ident ificados co m a "mat ér ia", ou melhor, com idéia equ ivocada de mat ér ia que nossa cult ur a ext rovert ida nos inculcou desde a infância, t ent amos arrast ar o corpo físico ador mecido no ato de levant ar. É claro que ele não responderá à t ent at iva po is est á desat ivado. O result ado é a sensação de paralis ia.

Tent amos levant ar o corpo fís ico e o onír ico simult anea ment e porque nos ident ificamo s co m est e últ imo. E o fazemo s porque apenas so mos capazes de conceber a realidade em t er mos de per cepção ext er ior. Erroneament e, acredit amos que apenas as co isas ext ernas são verdadeiras e que os objet os e acont eciment os psíquicos são inexist ent es, falso s e abst ratos. O pior é que nem sequer co mpreendemos t al equívoco que, não reconhecido e não admit ido, fica causando dano por via subliminar. Não adiant a fazer de cont a que o problema não exist e po is ele cont inuará lá, causando seus pre juízos. A let argia do corpo fís ico faz co m ele não obedeça ao nosso co mando inco nscient e de se levant ar. Os aco nt eciment os nos sonhos result am de uma co mbinação dos infinit os fluxos de libido. Nossos medos, amores, paixões, angúst ias, t errores, aver sões e, o que é mais import ant e no caso que ora t rat amos, nossas crenças se co mbina m e dão for ma às cenas que se desenro larão. Na cr iação das cenas, quase sempr e prevalecem as forças do inconscient e: sent iment os e pensament os de vár io s t ipos que t emos mas que não sabemos que t emos e nem sequer admit imo s. Nos sonhos, esses element os tomam for ma e int eragem ent re si, gerando um aut ênt ico mundo, infinit o e com leis própr ias. E is a razão pela qual a crença de que so mos apenas a mat ér ia densa se co ncret iza na et apa preambular ao sonho, que é a fase t ransit ór ia ent re est ar acordado e ador mecido. Algumas vezes, ent ret ant o, exper iment amos uma saída incipient e do corpo fís ico, uma "quase- saída", proporcional à nossa pequena capacidade de verdadeir ament e nos sent ir mo s alma. E mbora seja incipient e, é uma

capacidade que pode muit o bem ser aproveit ada para superar mos a par alisia. Quando est iver mos presos à cama, incapazes de sair dela para qua lquer co isa, t emos que procurar nos sent ir vaporosos e sut is. Mant endo esse est ado de sent iment o, t ent emos a saída. Para facilit ar e garant ir a inda mais o êxit o, podemos, ao mesmo t empo, t ent ar visualizar-nos no próprio at o de nos erguer mos saindo do leit o, t omando a cena visualizada co mo se fosse real porém sem perder o discer niment o de que é imagina l, onír ica. Se a cena for sent ida int ensament e e o mais lucidament e possível, se concr et izar á

psiquicament e e em seguida nos vere mos dent ro de um sonho, co mplet ament e conscient es.

É impr escindíve l que esqueçamo s o veículo fís ico co mplet ament e e focalizemos t ot alment e nossa at enção nas imagens onír icas à nossa vo lt a. A simples recordação do corpo faz a exper iência ret roceder à et apa

int er mediár ia da paralis ia.

Passos para indução de sonho lúcido a parti r da paralisi a

Podemos obt er sonhos lúc idos a part ir da paralis ia. Para t ant o, bast e seguir mo s os seguint es passos quando est iver mo s paralisados: 1. Perca o medo. 2. Procure sent ir que est e acont eciment o (você paralisado na cama) já é o pr incípio de um so nho. Sint a e perceba as co isas co mo t al. 3. Considere t udo o que você percebe, escut a ou vê nest e est ado de paralisia co mo sendo onír ico, ainda que sejam exat ament e as mesmas co isas que você percebeu há pouco, quando acordado. 4. S int a e conclua, por meio da vont ade, que est á livr e para se mo viment ar em for ma sut il. Não duvide. 5. Tent e moviment ar onir icament e um braço ou uma per na de for ma lent a, relaxada mas alert a. Se você conseguir, já est ará no sonho lúcido. Não é necessár io levant ar e mo ver o corpo todo mas pode-se fazê-lo caso se queira. 6. Se cont inuar paralisado, comece a prest ar mais at enção nos so ns ao redor. Alguns serão sons do mundo ext er no real e out ros já ser ão sons onír icos mas ouça-os considerando, para todos os efeit os, que t odos já são onír icos. Prest e at enção naqueles sons que se int ensificam. 7. Deixe os sons aument arem por si sós at é se incorporarem t ot alment e em sua percepção conscient e. 8. Tent e moviment ar-se novament e na cama. Se t iver êxit o t erá adent rado ao sonho. Caso cont rár io, aprofunde mais ainda o relaxament o muscular ( se você est á paralisado, é porque já est á profundament e relaxado) e t ent e

mo viment ar- se muit o, mas muiiiiit o lent ament e mesmo ! Faça-o da for ma mais alert a, conscient e e lúcida que puder. Est e últ imo procediment o deverá desprendê- lo do corpo fís ico.

Est es procediment os visam desfo car a at enção do sonhador de seu corpo fís ico de modo a liberá- lo par a o sonhar sem as t ravas da ident ificação co m a paralis ia.

Referência bib liográfica:

CAST ANEDA, Car lo s. A Erva do Diabo: as exper iências indígenas co m plant as alucinógenas reveladas por Don Juan. (The Teachings o f Don Juan, 1968). Trad. de Luzia Machado da Cost a. 12ª edição. Record.

Parte VI Experiências espirituais e sonhos lúcidos

A viagem consciente ao mundo onírico como experiência religiosa
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z A di vul ga çã o l i vr e de st e a r t i go é a ut or iz a da desde que ci t a d os a fon t e e o a ut or . T ext o r egi st r a do. Nã o o pl a gi e par a n ã o sofr er a s pena l i da des da l ei .

Há um subst rato comum às exper iências psíquicas conscient es obt idas na medit ação, nos sonhos lúcidos e nos vár io s est ados de quase-mort e. Em todas elas o corpo fís ico desfalece e perde os sent idos enquant o a consciência concebe o mundo em que se mo ve co mo não-fís ico. Essas exper iências t ocam o limit e ext remo da ciência, be ir ando o que em seu at ual est ágio de desenvo lviment o é incognoscíve l. A idéia da so brevivência da alma em out ro mundo após a mort e do corpo, comum a muit as religiões, é reforçada por exper iências desse t ipo. Aqui enco nt ramos mais uma ut ilidade para os sonhos lúcidos. As pessoas que se desenvo lveram menos no campo da da exper iência após esse

t ranscendent al

parecem

sent ir

medo

mort e

desenvo lviment o do que ant es dele. A mort e passa a ser vist a co mo uma viagem lit era l a outro mundo, o que parece dar ao processo de dest ruição do corpo fís ico um carát er mais aceit áve l e uma maior nat uralidade. Grande part e das exper iências psíquicas cujo co nt eúdo imagét ico abrange anjos, demô nios, deuses, céus e infer nos são obt idas em mo ment os em que o corpo desfalece. O desfaleciment o t emporár io do corpo associado à consciência de que se est á em cont at o com imagens não- físicas proporciona uma modalidade de exper iência que adent ra ao t erreno religioso. Ao discer nir mos que as imagens cont at adas são onír icas, o risco de inflação por um arquét ipo parece ser diminu ído. Se o sonhador vê a figura de Jesus Cr ist o, por exemp lo, e co mpreende que é onír ica, seu poder de desco nfiar do carát er divino da mesma parece ser maior. Tal capacidade de desco nfiança co m relação ao carát er lit er al das imagens não ocorreria se a pessoa, t endo o discer niment o de est ar no mundo onír ico, não se desse cont a de que suas imagens são simbó licas. A consciência de que se est á em um sonho não é suficient e par a evit ar a inflação. A recordação de que o mundo é

simbó lico e de que seus co mponent es possuem u m carát er fant ást ico são imprescindíveis para evit ar a loucur a. Aquele que não compr eender co mo se dá a realidade onír ica est ará per igosament e expost o às influências per igosas dos arquét ipos, sejam eles celest iais ou infer nais. Do mundo onír ico provém cr iat uras de t or ment o, demônios int er iores co nhecidos pelas religiõ es: "Os monst ros do inf erno são os pesadelos do cristi anismo e (...) nunca o pincel ou o cinzel teriam produzido tai s f ealdades se não tivessem sido vistas em sonho." (Lévi, p. 397) Os cont eúdos enco nt rados em exper iências religiosas são muit as vezes oriundos de sonhos nos quais há maior ou menor lucidez do que se passa. As exper iências onír icas conscient es parecem assina lar uma et apa da evo lução da consciência ma is elevada do que a das exper iências usuais, nas quais t udo est á indiferenciado e não sabemo s o que é ext erno e o que é int er no. Porém e la possui seus r iscos. A mera noção de onde se est á não é t udo. Além de saber mo s a dimensão em que est amos, é preciso mant er a co mpreensão de que o mundo onír ico é fant ást ico e simbó lico po is, do cont rár io, caimo s no erro de certos pseudo-ocult ist as que t omaram o out ro mundo como realidade lit eral e foram enganados. A lucidez no sonho pode at ingir um gr au que per mit a ao sonhador t er a cert eza de est ar sonhando ou apenas disso desco nfiar se m, no ent ant o, se recordar de que não est á em um mundo de significados lit era is. Uma vez que se t enha cert eza disso, por outro lado, o poder de se explorar esse mundo conscient ement e irá var iar muit o pois há vár io s graus de consciência despert a. Em uma et apa muit o elevada, os sonhos são t ranscendidos e a pessoa vive na dimensão desconhecida e m int ensificada vig ília. Nessa dimensão desconhecida, o reino mist er ioso das nossas viagens not urnas, est ão os ent es fant ást icos, os seres mit o lógicos que est e mundo fingiu esquecer. E m sua vast idão ecoa a voz de Deus at ravés dos séculos, se perdendo na no it e infinit a dos t empos. Esse mundo é o port al por onde se revelam os anjo s e os demô nios e por onde se ascende aos céus ou se é precipit ado ao infer no. Das pro fundezas desse abis mo emergem as legiões do bem e do mal que subjugam os ho mens e o anjo da mort e que os arrebat a no mo ment o final, cujo no me é Abadon segundo as t eogonias ant igas.

Nessa

realidade

paralela

e

fant ást ica,

podemos

cont at ar

seres

arquet ípicos, mit o lógicos e hist ór icos. Transcendemos a barreira do t empo e do espaço e mergulha mo s no ocult o. Cruzamos os vales so mbr io s e os mares da serenidade e do desespero at é ver mos a aurora br ilhant e dos t empos obscuros. Suas mensagens são enviadas na linguagem do arco-ír is: elas falam em silêncio e para sempre!

Referência bib liográfica:

LÉVI, E liphas. "Dogma e Ritual de Alta Magia" . Camayasar. São Paulo, Pensament o.

Trad.

de Rosabis

As experiências oníricas conscientes como meio adicional de investigação dos conteúdos ctônicos 1
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z em 04/ 03/ 01 A di vul ga çã o l i vr e de st e a r t i go é a ut or iz a da desde que ci t a d o o a ut or T ext o r egi st r a do. Nã o o pl a gi e par a n ã o sofr er a s pena l i da des da l ei .

Por nos per mit irem a t ransposição do limiar das zo nas obscuras carregando conosco uma cent elha lumino sa, os sonhos lúcidos podem ser um inst rument o adicio nal de invest igação do mundo psíquico subt errâneo. Co mo inst rument o de cognição ext raído de exper iências humanas por muit o t empo margina lizadas e a ser submet ido ao aper feiçoament o cient ífico, esse t ipo de sonho t em muit o a ofer ecer. Para aqueles que o exper iment ar am, ele é a prova de uma ext ensão sut il do ser. Os sonhos lúcidos e exper iências semelhant es nas quais há perda dos sent idos ext er nos, como a medit ação e as exper iências de quase-mort e, sit uam- se no limit e impreciso ent re a exper iência cient ífica e a religiosa. E les podem ajudar a aument ar a zona de int ersecção ent re ambas, per mindo que a ciência t ranscenda o t abu de não penet rar no domínio do usualment e considerado incognoscíve l. Mét odos funcio nais de invest igação não podem ser descart ados

simplesment e por não se encaixarem em mo ldes egó icos ar bit rár io s. Além da reconst rução const ant e dos mét odos, é preciso que haja uma reco nst rução const ant e dos parâmet ros cient íficos de realidade. Do cont rár io a essência de cert os fenô menos não será aco mpanhada e co mpreendida por se est ar submet ido a for mas ment ais o bso let as. Os so nhos lúcidos não são acessíve is a todos mas apenas àqueles que se t ornam sensíve is, vo lunt ár ia ou

invo lunt ar iament e, à realidade fant ást ica. As viagens onír icas conscient es não são um me io alt er nat ivo de invest igação da psique mas sim ad icio nal. Co mo não se ant agonizam co m os mét odos usuais, podem ser acrescent adas a eles. Uma consciência despert a e sincera na busca do si mesmo explora o universo onír ico à no it e co m mais efic iênc ia e menos r iscos do que uma

1

Referente às profundezas (do psiquismo inconsciente)

consciência ador mecida.

Alé m disso,

é

mais

recept iva aos cont eúdos

cont at ados por compreender que são onír icos e que, port anto, não ameaçam os capr ichos egó icos que porvent ura exist a m. A co mpreensão de que se est á em sonho fornece a possibilidade de experiment ar sit uações impossíve is par a o mundo "real", revelando significados que de outra for ma per manecer ia m na escur idão. Na verdade, os sonhos sempre co mpensam as carências da vida conscient e e, quando são lúcidos, essas compensações ent ram no campo vis ível, sendo assimiladas na vida. Incursões co nscient es às remot as paragens de nós mesmo s, às vast idões int er ior es, são acompanhadas por nat ural e espont ânea assimilação do que se passa em no ssas pro fundidades. A prát ica da imaginação at iva, mét odo usado para cont ato com cont eúdos ctônicos, é, em seu aspect o mais pro fundo, o iníc io de uma exper iência t ranscendent e de car át er onír ico. Um sonho lúcido é uma prát ica de imaginação at iva levada a níveis muit o dist ant es e na qual a consciência se mant ém coesa, despert a e desprendida do adormecido corpo fís ico, tot alment e focada na int rospecção. A psique inco nscient e cont ém infor mações que t ranscendem os limit es do t empo e do espaço e encerra segredos que podem auxiliar a modalidade vígil de exist ênc ia. Aqui reside, precisament e, a import ância maior de se despert ar a consciência onír ica: a possibilidade de se aprender a consult ar o inco nscient e diret ament e. Durant e os sonhos usuais, a consciência adent ra às zonas inco nscient es sem a co mpr eensão de que o est á fazendo. Embora possa, sob t al co ndição, t razer ao univer so vígil infor mações sobr e o que se ocult a nos t ransfundos do mundo int er ior, a consciência onír ica perde oport unidades maiores de ampliação e aprofundament o do auto-conheciment o por est ar adormecida. Ao empreender as jor nadas em modo despert o, se verá diant e de novas possibilidades de int eração e cont ato. O universo int er ior é infinit o. Há nele regiõ es ct ônicas ainda

inexploradas e que podem ocult ar surpr esas. É claro que, est ando int raonir icament e despert os, t eremos a chance de invest igar mo s o que há em nós co m mais prudência do que se est iver mos inco nscient es.

Quando via jamo s at ravés do mundo onír ico em est ado de lucidez, o est amos ass imilando de modo nat ural.

Referências:

Est e art igo não possui r eferênc ias.

Sonhos lúcidos e meditação
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z
R e v i st o e a t u a l i za d o e m 7 d e f e v er e i r o d e 2 0 0 2 e 1 0 d e j u n h o d e 2 0 0 6 . A d i v u l g a çã o l i v r e d e s t e a r t i g o é a u t o r i za d a d e s d e q u e c i t a d o s a f o n t e e o a u t o r T ex t o r e g i st r a d o . N ã o o p l a g i e p a r a n ã o s o f r er a s p e n a l i d a d e s d a l ei .

Um paralelo ent re os estados meditativo e oní rico con sci ente

Podemos t raçar um parale lo ent re os est ados onír icos conscient es e os est ados conscient ivos alcançados na medit ação por meio das t écnicas de relaxament o e concent ração desenvo lvidas nas cult uras ant igas e orient ais. Na medit ação há repouso do mesmo modo que nos sonhos lúcidos. Ent ret ant o, o repouso e relaxament o no primeiro caso são muit o profundos, super ior es aos do sono usual. De acordo com o pediat ra e acupunt ur ist a Norvan Mant inho Leit e (em Morais, 2001, p. 74, grifo meu), idealizador da sala de medit ação do Hospit al do Servidor Paulist ano, a medit ação

proporciona um descanso maior do que o que desfrut amos à no it e em sit uações co muns: "Um homem dormindo consome sei s vezes mai s oxigênio do que meditando.(...) Os batimentos cardíacos di minuem e aument am no cérebro as ondas alf a e teta, associadas ao relaxamento." O consumo de oxigênio e o rit mo cardíaco so frem diminu ições que ult rapassam os níve is do sono comum. Morais ( idem) afir ma que um ho mem que medit a t em um repouso mais pro fundo do que quando dor me: "Os benef ícios da meditação começam pelo repouso corporal, que durant e o perí odo de concent ração é superi or ao do sono." (gr ifo meu) Ver ifica- se, assim, que a medit ação vai além do sono usual que se refer e ao repouso do corpo físico, ao descanso. Não há medit ação sem esse repouso. O corpo precisa ador mecer na prát ica. Por essa razão não vejo problema em cat egorizá- la co mo um superso no, alt ament e reparador. Logo, sendo o repouso da medit ação um so no mais pro fundo, ent endo que as exper iências que se t em durant e essa prát ica podem ser qualificadas co mo onír icas, uma vez que as t emos enquant o o corpo físico dor me. O mo ment o present e é o objet o da at enção na medit ação. Segundo o diret or da clínica de redução do estresse do Cent ro Médico de Massachuset t s,

Jon Kabat Zinn, durant e sua prát ica, a pessoa t oma co nsciência do que se passa no agora ao invés de per mit ir que os pensament os fiquem presos ao ont em ou ao amanhã: "A mente agitada está sempre f ixada no passado ou no f uturo ao passo que meditar é concent rar-se no present e." (em Morais, 2001, p. 74 ) À medida em que o repouso corporal at inge níveis progressiva ment e mais pro fundos, a lucidez do que se passa no agora se t orna maior. Ao conect ar-se co m o present e, a consciência se t orna despert a e se dá cont a da realidade imediat a na qual est á inser ida. Alcançar esse est ado part icular de lucidez dur ant e a med it ação é exper iment ar uma for ma de sono profundo do corpo fís ico no qual há uma aguda vivência co nscient e do present e vivenciado. E esse present e, no caso do repouso corporal t er at ingido a profundidade do sono, é onír ico, ou seja, é a realidade do agora que est á se dando dent ro de um sonho. Sendo a medit ação uma modalidade

t ranscendent al e pro funda de sono fís ico, suas visões podem ser qualificadas co mo sonhos lúcidos po is neles há uma percepção dir et a do mo ment o imediat o, requisit o indispensável para se co mpr eender que não se est á no mundo ext erno. A chave para adquir ir a lucidez e a co mpreensão de que se est á fora do mundo fís ico é a at enção sobre a realidade que est á se processando concret ament e nest e inst ant e. Kor nfie ld (1995, p. 160) considera que "penetrar no momento presente é a primei ra ent rada nos domínios espi rituai s poi s est es não estão nem no passado e nem no f uturo. O passado é mera lembrança e o f uturo pura imaginação. O presente f ornece a port a de entrada em todos os reinos da consci ência que est ão além das nossas atividades coti dianas normais. Estar aqui exige uma f ixação da mente, uma concentração e uma at enção. É a velha f rase dos cassinos de Las Vegas: ‘Você tem de estar present e para ganhar.’ Você tem que estar no cassino assi m como deve estar presente na sua práti ca de meditação." (gr ifo meu) S imilar ment e, o reconheciment o do t eor onír ico de uma exper iência é feit o dent ro do próprio sonho, nos inst ant es exat os em que ele est á ocorrendo em nosso mundo int er ior e não fora dele, em out ros mo ment os. Há um present e vígil e um present e onír ico, o qual é vivido e reconhecido durant e o sonho lúcido. O reconheciment o ocorre quando est amos conscient ement e

present es à cena exper iment ada ao mesmo t empo em que o corpo fís ico repousa profundament e no leit o (ou na sala de medit ação). A co mpreensão de que t ranspo mos a front eira da vigília advém a nós quando nossa consciência capt a no agora onír ico fat ores denunciadores de sua nat ureza ext ra- física: cont eúdos imagét icos que assumem for mas exclusivas dessa dimensão da exist ência e que não poderiam ocorrer no mundo ext er ior. O est ado de alt a lucidez a liado ao profundo repouso é at ribut o t ípico da medit ação. Porém, com menor int ensidade, os encont ramos t ambém nos sonhos lúcidos. A exper iência ind ica que os dois est ados não usuais de consciência apresent am uma mesma nat ureza mas difere m na profundidade. O sonho lúcido corresponde a um est ágio de lucidez ant er ior ao da medit ação e a ele conduz quando ult rapassamo s seu ápice de desenvo lviment o, seu limit e. Vivências semelhant es podem ser obt idas no s do is casos co mo, por exemplo, t ransfor mar-se em anima l ou em p lant a, viajar ao passado ou ao fut uro, part icipar de co nt os mit o lógicos ou t ransfor mar-se em ent es arquet ípicos et c. A at enção dist ensio nal co nt ínua indut ora de sonhos lúcidos A co ncent ração, element o básico nas prát icas de med it ação, é um poderoso agent e indut or de sonhos lúcidos. A medit ação e a concent ração são exper iências hu manas que podem ser co mpreendidas e explicadas sem mist icismo, dent ro das t ermino logias e t eorias psico lógicas acade micament e aceit as. Usual e equivo cadament e, concebe-se a concent ração como um at o de esforço. Parece- me que o refer ido erro possui ra ízes linguíst icas. E m nossa língua port uguesa e em línguas a ela aparent adas, o t ermo "concent ração" é ut ilizado para designar um co njunt o de element os

fort ement e compact ados e que se mant ém coesos sob grande t ensão. Não é est e o sent ido que lhe at r ibuímos nest e art igo. Aqui, a palavra co ncent ração t em um significado diferent e e at é oposto. Trat a-se do fluxo de at enção focado sobre um objet o de modo cont ínuo e t ranquilo. É uma obser vação dist ensio nal, ou seja, relaxada. A at enção dist ensio nal co nt ínua, usualment e deno minada

"concent ração" é uma modalidade de observação cuidadosament e educada. Não há sent ido em co nceber mos uma at enção t ensa na fase preliminar da medit ação pois a mes ma est ar ia cheia de ansiedade e sabot ar ia o exer cício.

A et apa da co ncent ração é uma cont inuidade à et apa do relaxament o neuro muscular. t ranquilidade. O descanso será apro fundado na et apa da concent ração se houver ent rega. A ent rega requer ausência de medo. É comum ser mos assalt ados pelo sust o ou por out ras reações egó icas sabot adoras quando a concent ração se apro funda e t emos as pr imeiras percepções alt eradas. E nt ão o processo em cur so é revert ido subit ament e. Um dos mot ivos das súbit as reações sabot adoras são as idéias absurdas e concepções prévias, or iundas do est udo teórico, que cr iamos so bre o que ser ia est a exper iência. Tendemo s a confront ar a vivênc ia objet iva e crua das percepções não usuais sob co ncent ração profunda co m os conceit os absurdos que cr iamo s, ou seja, reag imos ment alment e cont ra a exper iência, t ent ando analisá- la ao invés de deixar mo s que flua espont aneament e. Há uma diferença radical ent re receber o novo t al co mo nos chega e confro nt á- lo absurdament e co m conceit os est abelecidos a priori. A obser vação recept iva ao novo sob qualquer aspect o que est e se revele a nós ( mant endo, no ent ant o, a fidelidade ao alvo esco lhido) proporciona um desco ndicio nament o com relação a uma met a at encio nal única dent ro do objet o eleit o. E m out ras palavras: não devemo s adot ar uma obser vação est át ica, focada apenas sobre um pont o do processo obser vado. O objet o selecio nado já é o ponto único esco lhido. Todas as var iações e det alhes que revelar precisam ser aco lhidos. Uma consciência em obser vação t ranquila recebe o objet o obser vado t al co mo chega, sem resist ir- lhe ou t ent ar impor-lhe capr ichos egó icos, pessoais. Uma vez relaxados, passamos a obser var o objet o que esco lhemo s para ser alvo da at enção dist ensio nal co nt ínua (co ncent ração). Est e alvo pode ser uma imagem ment al int er nalizada a part ir de um objet o ext er ior, um so m ment alment e emit ido ou as próprias sensações corporais decorrent es do sono. Alguns relig iosos ut ilizam inst int ivament e as orações co mo alvo de sua concent ração para obt er est ados vis io nár ios. Qualquer que seja o alvo, precisa ser recebido pela consc iência sem nenhum medo ou preconceit o por part e dest a. Deve, port ant o, aprofundá-lo aument ando a paz e a

A part ir do mo ment o em que a at enção é focada, o objet o obser vado apresent a t ransfor mações que precisam ser aco mpanhadas em est ado de lucidez crescent e. Ant e as t ransfor mações do objet o de at enção, a consciência pouco educada t ende a reagir co m medo ou com a t ent at iva de co nceit uar e encaixar o que vê dent ro dos princípio s lógicos que conhece ou das suposições que cr iou sobre o que ser ia uma exper iência medit at iva. São reações egó icas sabot adoras do exper iment o. Durant e a obser vação, precisamos esquecer t oda a exper iência e pr incípio s lógicos do passado. Se não o fizer mo s, o fluxo at encio nal livre sobre as imagens que co meçam a se processar de modo autôno mo será int errompido. A única rest r ição que se impõe durant e a at enção dist ens io nal co nt ínua é a de nos at er mos a apenas um alvo (daí o no me "concent ração"). O import ant e é prolongar a at enção cont ínua, a despeit o de t odas as mudanças que o objet o sofrer. As fases de alt eração no objet o são as fases em que a at enção est á fragilizada. A at enção que cessa quando objet o se t ransfor ma ao invés de at ravessar o pont o de t ransfor mação para ver o que se revela não é cont ínua, é desco nt ínua. Normalment e, so mos capazes de focar a at enção sobre um alvo apenas por breves inst ant es e logo a perdemo s. Quando nos educamo s, adquir imo s o poder de prolongar a obser vação por longos per íodos e de modo relaxado. A co ncent ração é um mo do de est udo. Elegemo s um alvo e o obser vamos, conhecendo-o progressivament e e sem r eações int elect uais. Trat a-se de percepção pura e diret a do objet o, sem infer ências ou evas ivas. É um at o de render-se à realidade apresent ada pelo fat o est udado. À medida em que penet ramos mais e mais no objet o, vamos ext raindo da psique inconscient e infor mações sobr e o mesmo. E m nenhum mo ment o est a obser vação é um at o de esforço. Ao cont rár io, é dist ensio nal po is nos ent regamos àqu ilo que nos chega ao invés de resist ir mos ou nos esforçar mo s para t ent ar cont rolar a for ma co mo se apresent a.

Para at ingir mo s um est ado onír ico conscient e podemos nos valer da concent ração sobre uma imagem ment al, que ser virá co mo pont apé inic ial do sonho lúcido, ou apenas obser var mos t odas as percepções e sensações corporais relacio nadas ao sono. Se aco mpanhar mo s lucidament e a inst alação desco br imo s paralisados na ca ma e dor mindo. Não rejeit a mos ou analisamo s nada que provenha do objet o. Não obst ant e, deixamos de lado t udo o mais que não est eja relacio nado a ele. Todos os pensament os, recordações, possibilidades et c. são do sono, logo nos

abando nados para prest ar mos at enção apenas no alvo esco lhido e aco mpanhálo. Teremo s ent ão um só pensament o que apresent ará t ransfor mações e não vár ios pensa ment os dist int os e desconexos. Durant e o dia, devemos t reinar a at enção dist ensio nal cont ínua obser vando o nosso próprio co mport ament o a todo inst ant e. A capac idade de obser var mos aquilo que est amos fazendo concret ament e aqui e agora precisa ser apr imorada at é o infinit o e sem preguiça. O t reino diár io da at enção livr e, recept iva e relaxada educa a obser vação para o mo ment o not urno de indução do sonho lúcido. Nem mesmo o desejo por mant er-se concent rado deve pert urbar a t ranquilidade po is a ansiedade pelo êxit o int erro mpe os processos psíquicos obser vados. A lucidez se apro funda à medida em que o relaxament o se acent ua. A co ncepção corrent e de obser vação concent rada é equivocada porque a associa, por via inco nscient e, à t ensão dos olhos e do ent recenho, bem co mo a uma expect at iva ans iosa. Causa muit o dano. Vit imados por est a idéia equivocada, muit os se esforça m dur ant e os t reinos de co ncent ração a ponto de adquir irem dores de cabeça, t ont uras e náuseas. O result ado é a frust ração. Na at enção cont ínua dist ensio nal há ausênc ia de expect at iva específica co m relação ao objet o obser vado e, ao mes mo t empo, fidelidade t ot al ao mesmo po is não o abandonamos para nos concent rar em out ros alvos. A ent rega ao at o de apenas nos dar mo s cont a mais e ma is daquilo que o objet o nos revela faz co m que penet remos gradat ivament e na imagem psíquica que t emos do mesmo. Dest e modo, at ingimos facet as imagét icas que

ant es

jaziam

na

escur idão

do

inconscient e.

Toda

imagem

int er na

correspondent e a um o bjet o ext erno possui um lado desconhecido e infinit o. O medo de nos desviar mos do alvo e perder mo s a concent ração origina relut ância em nos ent regar mo s corajosament e à viagem e a int errompe. A sínt ese ent re a ausência de rest r ição ao que provém do objet o e a rest r ição tot al ao que não provém do objet o produz a recept ividade adequada. O nosso co mport ament o diár io é o meio de aper feiçoar mo s a at enção cont ínua dist ensio nant e em est ado de recept ividade plena. Para t ant o, bast a que obser vemo s aquilo que est amo s fazendo aqui e agora. O que import a é descobr ir ou perceber os infinit os det alhes do nosso próprio co mport ament o, acompanhando-o cont ínua e conscient ement e mas sem nos prender mo s a nada que desco br imos. Int eressa- nos enxergar mais e mais o desco nhec ido e simult aneament e esquecer mais e mais aquilo que vamo s enxergando para que possa mos enxergar out ras coisas novas so bre o objet o. Mas não enxergaremo s nada se ficar mos pensando, pensando... Há uma difer ença radical ent re invent ar pensament os sobre o objet o est udado e enxergar o que o objet o em si nos revela. O objet o pode ser um pensament o único eleit o ou o nosso próprio comport ament o. Não deve mos esper ar que o objet o est udado permaneça est át ico. A imagem ment al o bser vada t ransfor ma- se co nt inuament e. O campo abrangido pela consciência precisa so frer uma limpeza cont ínua dos resíduos mnemô nicos. Resíduos mnemô nicos são as escór ias ment ais inút eis relacio nadas ao passado e ao fut uro: aquilo que vivemo s, viver íamo s, poder íamo s t er vivido, viver emos... A co nsciência que obser va é tot alment e silencio sa, mesmo quando o objet o obser vado emit e so ns ext er nos ou int er nos. O obser vador não é t agarela. A capacidade de obser var é a maior preciosidade da psique. Sem ela nada ser íamo s. Toda a discip lina par a o desenvo lviment o da psique se paut a na obser vação lúcida.

Esclarecendo con fu sões comuns

Concent ração

Alguns no vat os podem ficar em dúvida a respeit o do seguint e: "devo concent rar o pensament o ou a at enção?" Respo ndo-lhes: concent rem a at enção e o pensament o simult aneament e po is não é possíve l mant er a at enção focada sobre a lgo se est iver mos pensando em out ra coisa. Quando concent ramo s a at enção, o pensament o é simult anea ment e vinculado àquilo que est á sendo obser vado. Na concent ração corret a, a at enção est ará focada de for ma pro lo ngada sobre um único objet o ou alvo. Ent ret ant o, ao mesmo t empo em que est iver mo s sensor ialment e vinculados ao objet o, t eceremos imaginações conscient es e vo lunt ár ias po is a percepção inexist e sem a função imaginat iva. O pensament o concent rado é volunt ar iament e dir igido e pode ser definido como uma imaginação conscient e. Os múlt iplo s pensament os que provocam disper são, desat enção, dist ração e adormeciment o da consciência são imaginações mecânicas, da invo lunt ár ias ment e e aut omát icas, Na meros

func io nalis mo s

invo lunt ár ios

aut ônoma.

co ncent ração,

abando namo s as múlt ip las imaginações mecânicas par a nos at er mos ao pensament o único da imag inação conscient e. Uma vez que at enção est eja co ncent rada, não é necessár io fazer esforço adicio nal para que o pensament o a acompanhe po is a focalização at encio nal em si já implica em minimização e seleção da at ividade ment al. A at ividade ment al aut ôno ma e descr it er iosa impede a fixação da at enção por absorver a consciência e arrast á- la par a vár ios e diferent es objet os inint errupt ament e. O objet o da concent ração pode ser ext erno (fís ico) ou int er no ( imaginal). Se o objet o da concent ração for ext erno co mo, por exemplo, uma plant a, est aremos vinculados ao mesmo at ravés das exopercepções. Se for int er no, ist o é, imagina l ( se est iver "dent ro da ment e") co mo, por exemplo, um mant ram, imagem ou cena ment alizados, est aremos vinculados ao mesmo endopercept ivament e. E m ambo s os casos, o objet o chegará at é nós por via sensor ial ext er na e/ou int er na. À medida em que o relaxament o e a concent ração no objet o ext er ior fís ico se apro fundarem, co meçaremo s a perceber imaginat ivament e sua

cont rapart e int er ior. O que import a é enxergá-lo co m clareza endopercept iva crescent e para exerc it ar e desenvo lver a clar ividência posit iva. Sendo o objet o ext erno, focalizaremo s sobr e ele a at enção por meio do olhar ou da audição e ut ilizaremo s a imaginação conscient e para

co mplement ar o alcance limit ado dos sent ido s fís icos. Isso é feit o t ent ando-se visualizá- lo por dent ro, por fora, de outros ângulos e t ent ando-se enxergar de que est á const it uído et c. buscando at ingir seu númen, ist o é, capt ar t oda infor mação que o mesmo possa cont er sobre si própr io. Mant enha- se mais e mais despert o, lúcido, alert a e conscient e,

silenciando mais e mais sua ment e à medida em que a concent ração se prolo nga e apro funda. Vá diminuindo os pensament os e adent rando ao seu objet o. Deixe que seu corpo adormeça enquant o você, ist o é, sua consciência, se t orna mais e mais despert o. A sensação de leveza, fr escor e bem est ar caract er íst ica dos pr imeiros minut os da prát ica indica se devemos ou não cont inuá-la. Se desaparecerem, significa que é mo ment o de int errompê- la para t ent ar novament e mais t arde. O aument o do t empo é gradat ivo e se co nsegue so ment e ao longo dos anos. Uma vez que est ejamo s profundament e concent rados, ainda t eremos o pensament o único da imag inação conscient e e não t eremos at ingido o silêncio tot al da ment e. O pensament o rest ant e pode ser descart ado ou silenciado por meio da vont ade, simplesment e abandonando-o ou silenciando-o. Se o descart ar mos, ent raremos na próxima et apa: a medit ação.

Meditação

Na medit ação, separamo s co mplet ament e no ssa part e silenc iosa e alert a da part e falant e, agit ada e dist raída. Nossa essência ou alma correspo nde à porção psíquica capaz de se mant er silencio sa e at ent a. Nossa ment e corresponde à part e falant e, t agarela, barulhent a e agit ada. A ment e deve ser ent endida co mo sinô nimo do ego e a essênc ia co mo o sinônimo de alma, ou do que t enhamos de a lma em nós. Não podemos confundí-los porque a indist inção result a em fracasso. Aquele que não difer encia sua essência de seu ego não pode liber á- la por não saber o que deve ser liberado e o que deve ser abandonado. Temos que abandonar o corpo, os afet os e a ment e. Os

sent idos físico s, os pensament os, as preocupações, as dores, as coceiras, a impaciência por moviment os e t udo o mais que nos prender a est e mundo de ilusões devem ser deixados para t rás. Ficaremo s ent ão despidos, so ment e co m nossa essência pur a, livre e despert a. Para t er uma idéia do que ser ia a sua essência conscient e, realize o seguint e exper iment o: 1. Int errompa seus pensa ment os nest e mo ment o, paralise sua ment e,

simplesment e faça-o por meio da vont ade; 2. Prest e at enção no que se passa aqui e agora, incluindo os sons da realidade ext er ior. Pois bem, você exper iment ou de for ma rápida e super fic ial o que são a essênc ia e a consciência despert a da mesma. Agora imagine a felic idade que ser ia saboreada se est e est ado fosse aprofundado at é níve is dist ant es e fo sse per manent e!

Sono

Out ra confusão que assalt a os prat icant es de medit ação é a respeit o da necess idade de ador mecer ou não. Li mais de uma publicação sobre o assunt o nas qua is os aut ores recomendam aos prat icant es que não dur mam, que lut em cont ra o sono et c. Est ão errados. Sem o sono não se torna possível adent rar aos níve is mais pro fundos da ment e para silenciá-los porque os mesmo s se encont ram e m out ras dimensões. A aut ênt ica medit ação é um est ado de relaxament o, serenidade, let argia corporal, consciência e alert a super iores aos ver ificados no simples sonho lúc ido. Forçosament e, você t erá que adent rar à dimensão dos sonhos para dar co nt inuidade ao t rabalho de aquiet ar a ment e e int ensificar o alert a nat ural. Port ant o, o sono é um aliado e não algo a ser evit ado como afir ma m os desconhecedores. Ainda assim, nossa met a não é dormir mas sim ficar mo s mais e ma is despert os, alert as e calmo s. Se pr ior izar mos o sono ao invés de pr ior izar mos a consciência despert a, dormiremos em est ado de consciência co mum e perderemo s a prát ica. À medida em que o relaxament o e o sono se apoderam do corpo fís ico, podem surgir as seguint es alt erações per cept uais:  perda da noção de t empo

 perda de noção de espaço;  perda de noção da posição em que o corpo se enco nt ra;  sensação de que o mundo ou o corpo fís ico est á gir ando;  visões co m os o lhos fechados;  audição de sons int er nos;  sensação de for migament o ou de choque elét r ico at ravés do corpo fís ico;  sensação de flut uar;  sensação de que o corpo est á inflando. Est as alt erações percept uais são ind ício s de que a prát ica est á dando result ados mas não devem nos ent usiasmar e nem t ampouco serem

t ransfor madas em met as po is a met a est á mu it o além: aprofundar, apro fundar e aprofundar a concent ração, a lucidez, a consciência, o silêncio e o alert a nat ural enquant o o corpo fís ico adormece e é esquecido.

A diferença ent re a ment e e a consciência

Não podemos confundir a

ment e co m a consciência co mo

t êm

confundido os psicó logos, filó so fos da ment e e neurocient ist as. Muit os deles consideram que a co nsciência é algo ment al e at é int elect ual porém est ão errados. Há uma difer ença clara e facilment e ver ificável ent re ambos. Se os confundir mo s, a medit ação fr acassa. A ment e é a mat ér ia, subst ânc ia ou energia psíquica que co mpõe os pensament os. As imagens ment ais, pensame nt os e imaginações são

const it uídas por mat ér ia ment al e, em seu conjunt o, const it uem isso que chamamo s de ment e. Aqueles sons e imagens que per cebe mos dent ro da cabeça, em nosso int er ior, são de t eor ment al. A ment e é o principa l at ribut o psíquico do ego ou for ma de manifest ação assumida pelo mesmo. O ego raciocina. O int elect o é uma for ma de expressão educada e t reinada da ment e. A cognição ment al ocorre pelos racio cínios. Os racio cínio s são conjunt os de pensament os encadeados coerent ement e. Os pensament os são imagens

ment ais. Tant o os raciocínio s lógicos co mo os raciocínio s ilógicos ou absurdos são ment ais.

A co nsciência é out ra coisa co mplet ament e dist int a. É um at r ibut o psíquico da essência, vincula- se à seidade. Pode ser at ivada ou despert a pela vont ade. É facilment e diferenc iável dos mecânicos processos ment ais. Não se define pelo s racio cínio s, pela lógica ou pelo s pensament os. Expressa-se no silêncio da ment e. É o "dar-se cont a". É a at enção e o perceber silencio sos. O campo de consciência é o campo de at enção. Para que a consciência se exercit e e desenvo lva, t emos que silenciar a ment e. S ilenciar a ment e é não pensar. Na medit ação busca mos o não pensament o para liberação de nossa essência-co nsciência. A liber ação da essência-co nsciência não é possível se a ment e for vist a co mo part e do Ser. Se considerar mo s a ment e co mo algo pert encent e à nossa essênc ia, não conseguir emo s escapar de la. A ment e não é alma. Ident ificar-se co m a ment e ou com os pensament os é um equívo co que impede o avanço da medit ação.

Músicas "que ficam na cabeça"

Múlt iplas for mas ment ais at rapalham a concent ração. As músicas que algumas vezes se repet em por horas ou dias em nossa cabeça são for mas ment ais. For mas ment ais são represent ações int er nas de element os ext ernos acessados pelo s sent idos. Podem ser represent ações visuais, co mo o rosto de uma pessoa, ou sonoras, como uma música. Não há difer enças ent re for mas ment ais, pensament os e imaginações mecânicas. Quando ouvimos uma música em relação à qual não somos indiferent es, cr iamos uma represent ação ment al da mesma. Est a represent ação ment al se repet e na ment e e "escut amos" a música que t oca sem parar ainda que t ent emos silenciá- la. A música se arraiga em nosso pensament o e não conseguimo s arrancá- la. A afast amo s de nós mas ela sempr e vo lt a. A ins ist ência se deve a um ele ment o psíquico (um "eu" ou um ego) que a aprecia ou a det est a. O ego que se ident ificou co m a canção quer mant ê-la e para isso a reproduz ment alment e, desfrut ando do prazer de ouví-la e sat isfazendo-se. Algo análogo se dá quando gost amos ou odiamo s muit o um acont eciment o e o ficamo s recordando. A recordação incessant e e

invo lunt ár ia é devida à exist ência de um ele ment o psíquico afet ivament e

vinculado ao objet o e que mant ém a recordação para nut r ir-se e per manecer vivo. E m outras palavras: nós, inconscient ement e, não queremos esquecer o acont eciment o ou a música. O element o psíquico que a reproduz pode sent ir at ração ou aversão pela canção, ou seja, músicas que odiamo s t ambém podem se enr aizar na ment e. As for mas ment ais musicais pr endem, t endencia m e ador mecem a consciência. São um obst áculo à co ncent ração e à medit ação. Não per mit em a concent ração do pensament o e nem da at enção. Invadem o campo de consciência e int er fere m no curso da imaginação conscient e. Sempr e que t ent amos nos concent rar lá est ão elas, at rapalhando. S ilenciamos t ais canções inco nvenient es quando est udamo s,

desco br imo s e co mpreendemo s os egos que se ocult am por t rás das mesmas e são responsáveis por suas reproduções. Cada mús ica possui um ego ou conjunt o de det alhes afet ivos que, na maior ia das vezes, nos são e

inco nscient es. Por meio da aut o-reflexão t emos que nos pergunt ar

desco br ir: "Por que esta canção se repete? O que ela signif ica para mim? Como a vej o? Que sentimentos tenho por ela? Que sentiment os ela evoca em mim? O que me at rai nela: a mel odia, os instrumentos ou a let ra? etc. etc. etc." E assim sucessivament e. O que import a é compreender a part e de nós que est á presa a est a for ma ment al. Para co mpreendê-la, t emos que descobr ir det alhes e mais det alhes, sem excluir ou dar preferênc ia a nenhum. A desco bert a dos múlt iplo s det alhes configur a espo nt aneament e uma t eia de infor mações so bre o defeit o psíquico que est á causando o problema. Est a t eia ou rede é a compreensão. A co mpreensão soment e virá se est udar mos o processo psíquico que provoca o dist úrbio. O est udo será possível por meio da obser vação e da auto-reflexão a respeit o do que se passa dent ro de nós em relação àquela música. Aut o-reflexão é a reflexão que realizamo s so lit ár ios, conosco mesmo s. Para que haja aut o-reflexão, se faz necessár ia a aut oindagação e a respost a sincera. Nós mesmos nos pergunt amo s e buscamo s a respost a sincer a, fiel à realidade. Se não houver respost a, não deve mos for jar uma respost a art ific ial po is o que int eressa é descobr ir a realidade que nos est á ocult a e uma respost a art ificia l falseará o est udo. As for mas ment ais insist ent es devem ser abordadas co mo objet os desco nhecidos a ser em pesquisados e ent endidos. Soment e são eliminadas

quando pedimos, após co mpr eendê- las, ao nosso Real S er para que as disso lva definit ivament e. Uma vez co mpreend ida e silenciada a forma ment al insist ent e, podemos prosseguir co m nossa concent ração rumo à medit ação.

Os p rocedimentos para transport ar a con sciên cia aos mundos interiores Parte I
(Men sa gem publ i ca da n o fór um do INT E RPSI da P UC-SP em 22 de dez em br o de 2001)

Chegamos agora à part e mais int er essant e desses est udos e, t alvez, ao final: os procediment os para que co mprove mos a realidade dos universos paralelo s. Creio já t er dit o t udo o que eu precisava nest a list a. Co mo não gost amos de t ransfer ir o ônus da pro va para t erceiros, precisamo s det alhar ao máximo as possibilidades exper ienciais dos sonhos. Temos que co mprovar por nós mesmo s que há algo mais além da for ma tosca de exist ir. Uma co isa é provar por si e par a si mesmo que exist em out ros mundos. Out ra coisa é provar para o out ro. Quando o out ro se int eressa, podemos ensiná-lo a ver ificar por si. Mas quando o out ro não se int eressa ou est á empenhado em não aceit ar, ent ão nada há a fazer. O cét ico unilat eral est á condenado à ignorância po is t rava seu própr io passo. Embora viva, co mo t odas as pessoas, na dimensão onír ica, est á decidido a não enxergá- la cara a cara e a não enfr ent á-la cruament e. A co mprovação de que exist em dimensões parale las é possíve l quando despert amos dent ro de um so nho e o invest igamos in loco co m a mesma consciência cr ít ica que ut ilizamo s durant e a vigília. Ent ão const at amos que est amos ant e um modo de realidade dist int o do usualment e co nhecido mas nem por isso menos válido. Uma vez lúc idos, podemos tocar e palpar os objet os int ernos par a conhecê- lo s. À medida em que nos desenvo lvemos mais e mais, aprendemos a nos deslo car co m desenvo lt ura so b esse modo de exist ência.

O at o de dor mir é chave para que co mprovemo s a exist ência das dimensões paralelas. Ao dormir, adent ramo s ao mundo onír ico. Se educar mo s adequadament e a at enção, podemos adent rar às zo nas obscuras carregando a mesma

consciência que at ua durant e a vigília, ou seja, est a consciência que ut ilizamo s agora para fazer nossos julgament os. Todos at uamos simult aneament e em vár ios níveis exist enciais. O grande problema não é ent rar nas dimensões paralelas mas sim levar conosco a consciência e t razer a recordação. Há muit os procediment os para isso. Em prime iro lugar, t emos que aprender a nos pergunt ar const ant ement e se est amos ou não sonhando. Durant e o dia, em est ado vígil, t emos que no s acost umar a obser var const ant ement e as cenas do mundo ext er ior para ver ificar se as mesmas são onír icas ou não. Ao nos acost umar mo s a fazer isso, repet ir emos t al procediment o durant e as horas do sono. E m geral, quando sonhamo s, acredit a mos est ar acordados. Tendemo s sempre a co nfundir a realidade onír ica com a realidade fís ica. Quando infor mamos as pessoas que dor mem do fat o de que est ão sonhando, elas dific ilment e conseguem ace it ar isso. Est ão condicio nadas a crer que a única realidade possíve l é a t ridimens io nal. Assim, uma pr ime ir a necessidade é a de desco ndicio nar a consciência, levando-a a ser capaz de realment e se pergunt ar se est á em cont at o com uma realidade ext erna ou int er na. Enquant o não for mos capazes de duvidar da crença de que t odas as imagens nít idas e concret as que percebemos são sempre t r idimensio nais, a lucidez no int erior de um mundo paralelo será impossível. Adic io nalment e, t ambém devemo s procurar adormecer pro fundament e relaxados e lúcidos, per mit indo que o corpo desfaleça sem perda da consciência. E m out ras palavras:t emos que aco mpanhar conscient ement e o processo de ador meciment o do corpo. A co ncent ração é impr escindíve l. Temo s que t er uma imagem int er na (um pensament o) que sir va co mo objet o de at enção para que possamo s mergulhar nela e nos perder co mplet ament e. Temos que nos ent regar à concent ração.

Se prest ar mos at enção a essa imagem e aco mpanhar mos seu cur so nat ural, iniciamos a viagem. Gradat ivament e adent ramo s ao reino dos sonhos levando conosco a consciência. A isso podemos acrescent ar a t écnica da co municação audit iva. O sonhador precisa receber, at ravés de um fo no de ouvido, a mensagem de que est á sonhando. Podemos gravar uma fit a ou dizer em micro fone: "I sto é um sonho, observe a realidade que te cerca". Não devemo s usar um vo lume muit o alt o ou o pobre sonhador levará um sust o e acordará. Alé m disso, convém est udar um pouco a respeit o do que é a realidade onír ica para que o inconscient e não nos pregue peças. Após algumas semanas de cont at o conscient e co m o mundo imagina l not urno, nossa consciência est ará bem desco ndicio nada e se acost umará a duvidar co m nat uralidade do carát er fís ico da realidade que a cerca. É claro que a pessoa não ficará louca. E la não se co ndicio nará no pólo oposto, que ser ia o de sempre acredit ar que t oda realidade é onír ica. O que acont ece é que passará a obser var cr it icament e os acont eciment os ext ernos, co m a real cur io sidade de conhecer se são t ridimensio na is ou não. A co nsciência int ra-onir icament e despert a nos for nece mu it as

possibilidades de explor ação exper iment al. Espero que os senhores as aproveit e m. Uma possibilidade ser ia a de t est ar mos a visão remot a solic it ando ao sonhador que t ent e acessar alguma imagem int erna sobr e algo que desconhece (e que possa ser acessado por nós). E m segu ida podemos fazer a ver ificação para avaliar o grau de correspondência ent re a image m onír ica e sua correspondent e t rid imensio nal. Out ra possibilidade é a de pedir mo s para que do is ou mais sonhadores t ent em se co municar por via onír ica, est ando est es separados e sem co municação prévia a respeit o do cont eúdo a ser sonhado. E m seguida, podemos co mpar ar qualit at ivament e os relat os. Out ra possibilidade é a de pedir mo s para que o sonhador faça um esforço no sent ido de penet rar na at mosfera t ridimensio nal. E nt ret ant o, isso é muit o difíc il de se conseguir po is seu corpo onír ico possui uma fr equência vibr acio nal mu it o dist ant e daquela que seria necessár ia para se tornar vis íve l.

Mas t alvez se possa fazê- lo po is no mundo dos sonhos a vo nt ade, os desejo s e a imaginação são os maiores det er minant es dos acont eciment os. Est as são algumas das muit as possibilidades exper iment ais que t emos que explorar exaust ivament e, se é que realme nt e quer emos ser invest igadores nesse ca mpo.

Os p rocedimentos para transport ar a con sciên cia aos mundos interiores Parte II : A concent ração
( M e n sa g e m p u b l i ca d a n o f ó r u m d o I N T E R P S I d a P U C - S P em 2 3 d e d e z e mb r o d e 2 0 0 1 )

Perdoem por escrever ainda um pouco mais. Co mo a co mprovação é a mais import ant e das nossas quest ões, sint o que falt ou det alhar algo. Um ele ment o chave para se t ransport ar a consciência ao mundo paralelo é a co ncent ração. Temos que desenvo lvê-la. Há t écnicas para isso. Uma vez bem aco modados e relaxados, podemos esco lher uma imagem int er na e a ela nos ent regar mo s. Essa imagem pode ser a de algo que não sai de nossa cabeça, de algo que t emos medo, algo que nos despert e muit o int eresse ou um objet o ext erno que t enhamo s selecio nado. No caso de um objet o ext erno, t emos que fit á-lo por alguns inst ant es at é que sua imagem fique gravada em nossa ment e. Ent ão o esquecemo s e t rabalhamos apenas co m a represent ação ment al que t eremos. Uma vez de posse da imagem, precisamo s esquadr inhá-la e explorá-la por meio da obser vação. Precisamos visual izar os det alhes dessa imagem e enxergar as t ransfor mações espont âneas pelas quais vai passando sem t ent ar cont rolá- las. Temos que ser recept ivos àquilo que a imagem nos t raz, não for jando pseudo-revelações de acordo com nossos capr ichos egó icos. Co mo toda imagem ment al possui uma cont rapart e inconscient e, podemos ext rair da mesma infor mações que est avam cont idas no fundo da psique. Muit as dessas infor mações adent raram por canais subliminar es. O discer niment o de que est amos em cont at o com uma imagem psíquica e não com um o bjet o t ridimensio nal precisa ser preser vado.

À medida em que os cont eúdos ct ônicos do objet o imagét ico vão se revelando, adent ramos ao mundo int er ior. Se nos per mit ir mo s ador mecer, produz-se um sonho lúcido. É import ant e que nos mant enhamo s seguindo sempre o mesmo cur so, não correndo at rás de out ras imagens que surgem e que nada t êm a ver co m o objet o. Esse procediment o at iva, aper feiçoa e refina as endopercepções. A endovisão, que os esot éricos chama m de "clarividência", refina-se . Uma "clari vidência" é uma vidência clara, ist o é, uma visão nít ida. O objet o dest a visão é int er no. Também surge m endopercepções audit ivas, que os esot ér icos

denonima m "clariaudiência", e de out ros t ipos. Se o nosso objet o imagét ico for uma moeda, por exemplo, chegará o mo ment o em que a veremo s co m os olhos fechados co mo se est es est ivessem abert os. Poderemos ouví- la t ilint ar ao cair e correr sobre o solo. Porém t udo será int er no. Out ras pessoas não ouvirão o som e nem ver ão a moeda. Temos que esquecer o corpo, abandoná- lo. E nt ão logo nos

desco br iremo s exist indo sob out ro modo de realidade, par alelo a est e. A "clari vidência" é a per cepção conscient e recept iva ao que reve la um objet o imagét ico. Ambo s são uma só co isa co m do is no mes difer ent es. Alguns esot éricos não gost am muit o que se diga isso mas é verdade. Os objet os e os mundos percebidos pela clar ividência são imaginais. Algumas vezes, revelações obt idas por est e procediment o apresent am correspondências co m t raços da realidade ext er ior que desco nhecíamo s: podemos descobr ir algo novo sobre um objet o int erno e, depois, ver ificarmo s que ext ernament e a mesma caract er íst ica exist ia. A clar ividência não se apr esent a sempre so b a for ma de visão remot a de element os t ridimensio nais. E m alguns casos surge co mo visão exclusiva de out ras dimensões. Se a pessoa for superst iciosa e co m t endências ao fanat ismo, acredit ará que essa infor mação lhe chegou por via sobrenat ural. Poderá so frer uma inflação egó ica e a invasão por um arquét ipo. Não há, ent ret ant o, nada de sobrenat ural nesses casos. A cognição se processa t ambém fora do campo abrangido pela co nsciência vígil usual. A

pessoa simplesment e acessou em sua ps ique algo que já sabia mas que não havia percebido. Essa prát ica fo i deno minada por Jung de "imaginação ativa". E le refino u muit o suas endopercepções, co mo vemos em "Memórias, Sonhos e Ref lexões". Cont at ou ent es do seu mundo imaginal frent e a frent e e co m eles dialogou. Os enxergou co m r iqueza de det alhes. Alguns ignorant es o consideram psicót ico por causa dos seus relat os. Não sabem o que dizem. Há uma diferença ent re um est ado patológico e est e que est amos analisando. Campbell diz que o espir it ualist a aprende a nadar no mar do inco nscient e enquant o que o louco nele se afoga. Alguns relig iosos realizam inst int iva ment e est e exercíc io. Se ent regam a r it os e orações, neles se perdendo. At ingem est ados alt erados nos quais obt êm visões de outros mundos e de seres celest iais e infer nais. Quando retornam ao est ado usual de co nsciênc ia, descrevem o que exper iment aram ut ilizando o arcabouço linguíst ico do grupo social que os ampara. Nest a hora se expõem à r id icular ização por part e de algum ignorant e que se presuma de espert o e seja incapaz de ent endê-lo s. O abismo linguíst ico e cult ural associado à inco mpreensão por part e de alguns que se pret endem est udiosos au ment a a dist ância ent re o acadêmico e o ext ra-acadêmico. Engana-se quem acr edit a que a concent ração é um at o de esforço. Ela é uma at enção plena e sem esforço dir igida so bre um o bjet o. Não silencia mos os múlt iplo s pensament os pelo esforço brut o e sim pela at enção dir igida e recept iva. Temos que t omar cuidado co m a t endência em reagir cont ra as pr imeir as imagens eidét icas que surgem durant e o exercíc io aqui indicado. Se não mant iver mos a serenidade, int erro mperemo s a percepção conscient e do fluxo cênico.

Os p rocedimentos para transport ar a con sciên cia aos mundos interiores Parte III: A concent ração (continuação)
( M e n sa g e m p u b l i ca d a n o f ó r u m d o I N T E R P S I d a P U C - S P em 3 1 d e d e z e mb r o d e 2 0 0 1 )

A co ncent ração é uma focalização at enciona l plena e co nt ínua sobre um processo. A part ir do mo ment o em que nos esforçamos para t ant o, o único que conseguimos é uma dor de cabeça. Quando est amos aco mpanhando o desenrolar de um processo, ext erno ou int er no, e não desviamo s nossa at enção, est amos nele co ncent rados. Ent ão o receberemos em nossa consciência e sua nat ureza nos será revelada. Quando nos esforçamo s para mant er a at enção focada, o result ado imediat o, ou quase, é o surgiment o de múlt iplos pensament os que nos fascina m e dist raem. Cr ia-se um conflit o ent re nossa consc iência e a ment e, a qual elabora aut onomament e seus pensament os e emana inúmeras imagens. O result ado é o fracasso na t ent at iva de concent ração. Por alguma r azão que ainda não ent endo, os est udant es sempr e caem nesse erro. Há algo que sempr e os leva a associar concent ração com esforço. Tensio nam o ent recenho, apert am os olhos, adquirem dores de cabeça e, ao cabo de algum t empo, desist em. Suspeit o que a raiz dessa confusão palavra est eja na linguagem. significa Nos algo

acost umamo s a ent ender

que a

"concent ração"

co mpact ado int ensament e, sob a influência de um esforço ext remo e gigant esco. Ent ão, quando algué m a usa, imediat ament e pensamos em uma t ensão. E m alguns casos, que nada t êm a ver co m o que trat amos, t al for ma de empregar a palavra est á corret a. No caso da concent ração que visa nos conduzir à med it ação, no ent ant o, est á errado. Est a concent ração à qual me refiro é uma obser vação dir ig ida. A obser vação não é um at o de esforço mas, ao cont rário, de recept ividade. Não é necessár io esforço para ser mo s recept ivo s. O at o de ser recept ivo é o ato de enxergar algo que ant es não se enxergava. É uma at it ude psico lógica de ent rega. E m virt ude do desco nheciment o prát ico, é sempre propagada a idéia de que concent rar-se é segurar um pensament o pela vont ade, repelindo os demais

pelo esfor ço. A exper iência mo st ra que o máximo que se consegue co m isso é a frust ração. Concent rar-se é aco mpanhar um aco nt eciment o, seguir o seu curso com a máxima lucidez par a conhecê- lo sem t ent ar cont rolá-lo. Esse acont eciment o pode ser uma imagem ment al, caso em que se dir á que a pessoa t em apenas um pensament o. Mas isso não quer dizer que o pensament o fo i mant ido pela força dos desejo s de se concent rar mas sim que fo i mant ido no campo da consciência inint errupt ament e por um cert o t empo graças à at enção nat ural que sobre o mesmo se co locou. Espero t er ajudado e desejo boa sort e em suas prát icas.

Referências bibli ográficas

KORNFIE LD, Jack. Obst áculo s e vicissit udes da prát ica espir it ual . In GROF, St anislav & GROF, Cr ist ina (orgs.): Emergência Espir it ua l: Cr ise e Transfor mação Espir it ual (Spir it ual E mergency: When Per sonal

Transfor mat ion Beco mes a Cr isis). Trad. De Adail Ubir ajara Sobral. São Paulo, Cult r ix, 1995.

MORAIS, Jo mar. O poder da ment e vazia. Super int eressant e. São Paulo. Ano 15. Número 1: 72-76. Janeiro de 2001.

Parte VII Orientações práticas adicionais

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Reflexões e conselhos úteis relacionados com o trabalho de ativar a consciência dentro dos sonhos e/ou durante a vigília
Por Cl eber Mon t ei r o Muni z

21/02/02 O que fazer ao estarmos lúcidos sob forma oní rica

Ao nos desco br ir mo s lúcidos dent ro de um sonho, t emos que procurar desenvo lver t rês capacidades: 1) a de evit ar o regresso invo lunt ár io ao est ado vígil; 2) a de adquir ir o poder de flut uar e voar; 3) a de nos deslocar mo s at ravés do t empo e do espaço inst ant ane ment e at ravés da concent ração do pensament o. As t rês habilidades acima requerem serenidade pro funda. A pert urbação emocio nal as sabot a. Dent ro do sonhos, é fundament al que nenhuma emoção nos deixe ag it ados. Para evit ar o regresso súbit o e invo lunt ár io, t emos que esquecer

tot alment e que t emos um corpo adormecido na cama. Nenhuma dúvida ou vacilação com relação à est abilidade da per manência no sonho deve nos assalt ar. O simples fat o de cogit ar mo s a possibilidade de regr esso ou com ela nos preocupar mos, pode nos t razer de vo lt a cont ra a vo nt ade. Qualquer emoção int ensa t ambém poderá fazê- lo. Para flut uar, t emos que nos concent rar com mu it a calma t ent ando fazê-lo lent ament e. E m seguida podemos exer cit ar o vôo, aument ando aos poucos a velocidade, se m nenhuma exalt ação emocional. Para nos deslocar mos no t empo ou no espaço pulando mo ment os ou lugares int er mediár ios, t emos que nos concent rar calmament e na época ou no lo cal em que pret ende mos est ar. O simples at o de pensar nos t ransport ará. Se ficar mos ansio sos, acordaremos. No mundo dos sonhos t udo é definido pelos fluxos co nscient es e inco nscient es de pensament os e sent iment os.

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07/11/01 O discerni mento desde os p ri mei ros instant es do t rabalho

A nat ureza psíquica do fluxo cênico em nossa ment e precisa ser reconhecida desde o inst ant e em que nos aco modamo s para dor mir. Não t emos que ficar esperando que os sina is let árgicos apar eçam para ent ão iniciar mos o reconheciment o. Caso o façamo s, perderemo s o

discer niment o e ficará difíc il recuperá- lo. Quando fechamo s os olhos, as imagens ment a is que surgem já podem ser t rat adas e reconhecidas co mo onír icas, uma vez que o são em um est ágio embr io nár io. É por isso que a imaginação concent rada induz ao sonho lúcido : elas per mit em o cont ato da consciência com imagens int er iores mant endo o discer niment o do seu t eor desde os inst ant es inicia is da prát ica. As imagens surgem na t ela de nossa ment e durant e os mo ment os de dist ração e as imagens onír icas são as mesmas. A diferença est á apenas na percepção que t emos delas. Quando est amos dor mindo, se t ornam espessas e realíst icas porque as percepções ext er nas cessam. De modo que aprender a est ar lúcido ent re elas é aprender a est ar lúcido dent ro de um so nho pois são sonhos em est ado incipient e. As imagens que indica m o iníc io de um est ado onír ico são mó veis, aut ônomas e, em geral, de t ipo visual. Se fechar mos os o lhos e relaxar mo s, logo surgirão algumas. A chave est á em co nseguir aco mpanhá-las conscient ement e, apenas per mit indo que se desenvo lvam. Durant e todo o t empo, t emos que mant er o discer niment o de que são alucinat ór ias e não ext er iores. Se aco mpanhar mo s esse mo viment o, as cenas visualizadas vão se t ornando progressivament e co mpact as at é que, por fim, chegamo s ao sonho pro fundo em est ado de lucidez. A imagem cujo desenvo lviment o deve ser aco mpanhado por você

conscient ement e e sem perda do discer niment o de que é int er na pode ser esco lhida porque lhe chama a at enção, ou capt urada de repent e na t ela da sua ment e. Algumas vezes nos flagramos perdidos em imagens de alt o t eor eidét ico-

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numinoso mas, infelizment e, sem nenhum discer niment o. Temos que nos desco br ir dent ro de t ais imagens mas sem espant á-las ou int errompê-las pelas reações do ego. Assim que as percebemo s, t emos que ident ificar seu t eor para dar-lhe cont inuidade ou ela desaparecerá. Essa cont inuidade, se aco mpanhada pelo discer niment o, nos conduzirá ao sonho lúcido. Se isso lhe parecer difíc il, ent ão apenas esco lha uma image m que lhe chame a at enção (que você gost e) e a acompanhe mant endo a lucidez. Para que a imagem o absorva ela t em que ser int eressant e e agr adável. Desenvo lva-a sem se desviar dela e vá embora, mergulhando e desaparecendo sem medo.

28/10/01 Por que cert os grup os misti cóides at rapalham

Sei de vár ios casos de pessoas que perderam ou at rofiaram a capacidade de t er sonhos lúcidos por se associarem a grupos mist icó ides, esot er icó ides ou gnost icó ides. Essas pessoas, ant es de se ent regar em ao fanat ismo, facilment e despert avam dent ro dos sonhos ou aco mpanhavam lucidament e seu processo de inst alação desde o mo ment o em que se deit avam. E nt ret ant o, a part ir do mo ment o em que co meçaram a se ident ificar co m linhas doent ias de pensament o, perderam essa faculdade nat ural. Isso ocorre porque t ais grupos t êm o vício de cr iar uma aura de mist ér io em t orno da exper iência onír ica. Muit as dessas pessoas apresent am dist úrbios psíquicos. Quando sonham co m uma figura hist órica ou um ent e quer ido falecido, por exemplo, acredit am que cont at aram a mesma pessoa que viveu no passado. Tais doent es ment ais não co mpreendem que est ão em cont at o com imagens int er iores e co met em o erro de lit eralizar os símbo los. Normalment e, esses grupos de enfer mo s chama m os so nhos lúcidos de "viagem ast ral" ou "desdobrament o ast ral". Seus líderes sempre possuem um arzinho de mist ér io e dão a ent ender aos discípulos, por uma via semi-

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inco nscient e, que são grandes onironaut as lúcidos que podem bisbilhot ar a int imidade das pessoas. Assim, os pobres candit ados a ocult ist as ficam at emor izados. As per sonalidades mais influent es nesses me ios às vezes dizem aos seus pobres discípulos que se relat arem par a alguém que t iveram um so nho lúcido nunca mais os t erão. Isso é falso po is muit as pessoas se submet em a exper iment os cient íficos e relat am os so nho s lúcidos que t iveram repet idas vezes. Nesses círculo s cr ia- se a idéia de que o sonho lúcido é sobrenat ural e proporciona poderes sobre- humanos. Todos ficam obsecados pela exper iência e ninguém consegue result ado. Trat a-se de um int eligent e e alt ament e efet ivo est rat agema sabot ador. Quant o mais confer ir mo s um carát er sobrenat ural ao sonho lúcido, t ant o mais o mist ificaremo s. Quant o mais o mist ificar mo s, mais ansio sament e o cobiçar emos. Quant o mais o cobiçar mos, por crer mos que nos t ransfor mar emos em ent es divino s, menos os alcançar emos ou, se os alcançar mos, isso t erá efeit os pat ológicos. A verdadeir a viagem ast ral é muit o boa e import ant e, jama is deve ser condenada. O problema est á apenas em usá-la co mo pret ext o e ponto de apoio para o fanat ismo. Há muit os grupos espir it ualist as verdadeiros e sér ios que não devem ser incluídos ent re os char lat ães que denuncio aqui e que prejudica m as pessoas.

28/10/2001 As reações egói cas ante as p ri mei ras percep ções alterad as

A part ir do mo ment o em que nos aco modamo s para dor mir, imediat ament e se inicia m alt erações sensor iais t ípicas do sono. O grau de nit idez das endopercepções vai progressiva ment e se int ensificando. Podemos nos perceber inflando, em posições que não correspondem ao nosso posicio nament o na cama, submet idos à passagem de uma corrent e elét r ica dos pés à cabeça, ouvindo

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nit idament e sons dent ro de nossa cabeça ou vendo imagens int er nas co mo se fo ssem ext ernas. Devido à ignorância reinant e em nossa cult ura a respeit o da

feno meno logia onír ica, cr iamos ao lo ngo da nossa vida mecanis mo s egó icos sabot adores dos sinais que ant ecedem as ent radas co nscient es ao sonho. Quando alguns dos int er essant es sinais endopercept ivos indicadores de inserção no mundo onír ico são abrangidos pelo campo da consciência, est a imediat ament e reage redirecio nando seu fluxo para o mundo ext er no. Essa reação mecânica sabot a a prát ica. O est ado que t emos que at ingir é o de permit ir que as alt erações percept ivas pross igam mesmo dent ro do campo da consciência. Essa é uma t arefa difíc il po is t endemos sempre aos ext remos: ou as alt er ações apresent am um mo viment o progressivo inconscient e ou ent ão um mo viment o regressivo conscient e. O que precisamo s é de um moviment o das alt erações percept ivas que seja ao mesmo t empo progressivo e conscient e. Para alcançar mo s o mo viment o progressivo conscient e t emos que deixar o ego "amarrado". Caso cont rár io, est e reagirá co nt ra o fluxo de imagens co m medo ou cet icismo ar bit rár io (para diferenc iar de um cet icis mo lúcido), impedindo sua progressão no nível co nscient e da psique. De acordo com os nossos propósit os, nada adiant a uma progressão eidét ica de imagens rest r it a ao campo do inco nscient e. Isso apenas nos conduz ao sonho usual. O que buscamo s é um est ado não usual de lucidez int ra-o nír ica.

22/10/2001 Ob servação livre e lúcida do flu xo de imagen s internas

As imagens int er nas, eidét icas e numinosas, nos arrast am para o mundo onír ico à medida em que at raem a consciênc ia e a desligam dos funcio nament os exopercept ivos. Um dos grandes proble mas em se adent rar conscient ement e ao sonho consist e na dificuldade de obser var mo s o mo viment o livre das imagens int er nas

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à medida em que o sono se aprofunda. Tendemo s a ser absorvidos por essas imagens, perdendo o discer niment o, ou a reagir mo s cont ra elas, impedindo seu livre fluxo. Se for mos capazes de obser var sua for mação mant endo a compreensão de que são int er iores e, ao mesmo t empo, deixando-as livr es par a assumirem por si mesmas suas for mas, seremos capazes de adent rar conscient ement e ao mundo dos sonhos. Por isso, ao deit ar, não fique fazendo esforço para t er um sonho lúcido. Apenas esco lha uma imagem que lhe at raia e a aco mpanhe sem t ent ar submet ê-la ao cont role do seu ego. O ego é muit o capr ichoso e sempre quer que as co isas andem co mo lhe agrada. A imagem a ser aco mpanhada em est ado de lucidez pode ser provenient e do primeiro pensament o que passar pela sua cabeça. O import ant e é que lhe at raia. Geralment e essas imagens são "espert inhas" po is fluem apenas quando est amos de cost as par a elas e, quando as encaramo s de fr ent e, cessam. Reso lva isso da seguint e maneira: quando est iver dist raído e a imagem co meçar a se mo viment ar aborde-a co m a int enção prévia de "empurrá-la" para que cont inue. E m out ras palavr as: quando você se flagr ar dist raído e sem per ceber a imagem, que est ará se processando de modo autônomo sem ser vist a por você, inicie a obser vação dando cont inuidade à t endência prévia, ou seja, ao moviment o do objet o obser vado ( já que t enderá a se co ngelar e desaparecer em seguida). Esse é um meio de mant er o fluxo imagét ico int act o e ao mesmo t empo obser vá- lo at é que se configure uma cena onír ica co m alt o impact o realíst ico. Temos que ser abso lut ament e recept ivos a essas imagens. O ego sempr e t ende a reag ir às mesmas confront ando-as co m sua lógica ao invés de se abr ir à lógica que t razem. Ant e a nova lógica, sent e medo. São reações que

int errompem subit ament e a obser vação conscient e do fluxo cênico int er no.

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E m últ ima inst ância, t udo se resume a aprender a obser var o imprevist o sem medo e co m recept ividade t ot al, abr indo-nos à lógica que se revela ao invés de t ent ar relacio ná- la ou co mpará- la à lógica conhecida. O que int eressa é o desconhecido, o novo.

14/10/2001 O que fazer qu ando estamos parali sados na cama e senti mos que o exp eri mento está estan cado (parali sia do sono)

Nesses casos, imagine uma cena e passe a vivê-la co mo se fosse fis icament e real mas sem perder o discer niment o de que é psíquica. Se isso não funcio nar, há out ra alt ernat iva: prest e at enção nos so ns ambient es. Durant e a paralis ia, as percepções audit ivas são as pr imeiras a manifest ar um carát er onír ico. Pode ser que você ouça amigos seus, parent es ou est ranhos falando, cr ianças br incando ou chorando, cães lat indo et c. Muit os desses sons já serão int ernos, ou seja, você os est ará ouvindo co m nit idez mas as pessoas que est iverem acordadas no mundo ext er ior não. Nesse po nt o principia uma exper iência onír ica conscient e mais pro funda. Se você considerar que, apesar de sua paralis ia, você já est á dent ro de um sonho e olhar todos os objet os como t al, poderá se despr ender mais facilment e, ainda que est eja em um est ado int er mediário. Ao invés de t ent ar levant ar co m todo o corpo, você pode simplesment e t ent ar mo ver os braços ou a cabeça at é que os sint a livres da paralis ia. E nt ão poderá se levant ar co m t odo o "corpo" de sonho. Faça "de co nt a", quando est iver par alisado, que você já est á dent ro de um sonho e que at é mesmo a paralis ia é uma part e desse so nho. Mant enha a consciência e desfr ut e. Você poderá t er at é mesmo uma OBE. Também cost uma dar result ado o simples at o de relaxar mais

profundament e e, ao mesmo t empo, levant ar da cama mu it o lent ament e, mas muit o lent ament e mesmo ! Se você t ent ar levant ar rapidament e, não conseguirá e cont inuar á paralisado. Quant o mais ansioso e apressado por levant ar-se, mais paralisado fica o aspirant e a onironaut a. A paralis ia se relacio na co m a

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discrepância ent re a velocidade co m que realment e podemos nos levant ar da cama e a velocidade co m que queremo s nos levant ar.

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