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Poemas da Guerra de Inverno

Textos, fotos, ilustrações e edição:

Sammis Reachers

2012
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“...farei lamentação como de chacais...”
Miquéias 1:8b

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“Mais os dias se afastam dispersos e mais retornam no coração dos poetas. Lá os campos da Polônia, a planura de Kutno com as colinas de cadáveres que queimam em nuvens de nafta, lá as cercas para a quarentena de Israel, o sangue em meio ao lixo, o exantema tórrido, as correntes de pobres já mortos há muito tempo e fulminados sobre as fossas abertas pelas próprias mãos, lá Buchenwald, a calma selva de faias, os seus fornos malditos; lá Stalingrado, e Minsk sobre os charcos e a neve putrefatos. Os poetas não esquecem.” (... ... ...) Salvatore Quasímodo

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- íNDICe 06............................................SOBRE 09................................Omnia Funera 10..............................................A Neve 12.............................................O Trigo 13..........................................A Náusea 15.......................................Stalingrado 18................................................Creta 20.........................................Mr. Dylan 21......Oração por Todos neste Campo 23.........A Humilhação de Dunquerque 25............................................O Gueto 26.............................................A Fome 27..............................................RAVEN 28.................................................Paris 29......................A Queda do Reichstag 30..................................A Casa Grande 36................Sobre a Fênix assassinada Omnia Fragmenta..........................38 Hokkaido..........................................39 Guantánamo....................................41 Diu....................................................42 O Retorno do Peregrino do Crepúsculo.......................................44 O Vale de Baca.................................45 Verdun.............................................47 Guerra do Paraguai..........................49 Queda ou Libertação de Saigon.......50 A Ataviada........................................51 Para sempre Esparta........................52 Carta Encontrada Numa Ânfora.......54 Acerca da Intentona dos Ressuscitados do Planeta Fesann: Fragmentos de uma carta rebelde...56 Célula Sunrise..................................59 Fraternidade....................................60 Bagdá 2006 (07, 08...)......................62 IN HOC SIGNO VINCES.....................63 A Guardiã dos Rebanhos..................66 Túpac Amaru....................................67 O Funeral do Tédio em Stalingrado.69 Mesopotâmia...................................75 5 O FIM...............................................77 Autor.............................................78

SOBRE
Desde a minha mais tenra infância, a Segunda Guerra Mundial foi o evento histórico que mais me fascinou e, como tal, eu lia e via tudo a respeito. Há algum tempo, tomei a resolução de elaborar uma pequenina antologia de poemas sobre a Segunda Guerra, da lavra de significativos poetas de todo o globo, com a condição de terem sido contemporâneos ao conflito. Ainda que trabalhos correlatos existam em inglês, não são nem um pouco comuns em nosso idioma, e minha ideia é sempre, para usar uma expressão tão marcial, franquear tudo gratuitamente na internet, publicando em formato de e-book. Ideia puxa ideia, e acabei escrevendo, há algum tempo, uma série de três poemas sobre a Segunda Guerra (A Neve/O Trigo /A Náusea). Pretendia publicá-los com notas explicativas (necessárias para aqueles que desconhecem detalhes do conflito, para facultar a plena compreensão dos fatos citados nos textos) em algum blog. E por fim, pensando em tais notas, me veio a ideia de escrever mais alguns textos assim, ambientados seja na 2° Guerra, seja também em outras guerras ou regiões/períodos conflagrados. E numa mesma semana vieram uns 7 ou 8 poemas... E assim foram emergindo. Somando-se a alguns outros, mais antigos, mas de temática ou roupagem de fundo bélica, eis aqui formado este estranho libreto de poesias tristes... Os poemas aqui reunidos foram escritos sob a égide existencialista, à sombra ou estranha luz de uma profunda percepção da Queda, e a angústia inolvidável que a condição humana (angústia que numa guerra é holisticamente potencializada ao seu nível máximo – e eis daí meu interesse na
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guerra máxima) influi em cada uma de suas partes, cada um de nós. Tudo é vaidade, diz o Eclesiastes, tudo é dor, diz Schopenhauer: Cristo é Tudo por ser a única coisa anti-dor que jamais existiu em nossa Realidade pós-Queda, do Absurdo o escape, Porta e Única Porta para devolver ao homem/Universo o estado de Graça primordial. Voltando à doutrina de Sartre e companhia, só com o tempo percebi que o Existencialismo era-me inescapável. Foi a filosofia que me formou nos anos em que a formação do coração de um homem se dá; o cristianismo posterior (minha conversão) não a suplantou, e não seria necessário, como atestam os existencialistas cristãos - ambas as correntes podem coexistir e quase redundarem uma na outra. O pano de fundo aqui, como dito, é a Guerra, diluída narrativamente em diversas (no tempo e no espaço) guerras já travadas; a grande maioria dos poemas fala na primeira pessoa, e a persona é o soldado, ou melhor, o soldado-vítima, pois o que combate em meio a tanta dor, retroalimentando-a, é ele próprio as primícias das vítimas do caos. Um dos títulos para esta pequena série de poemas seria mesmo Poemas de Soldados Mortos, mas declinei, pois nem todos conseguem aqui escapar pela morte. Datas e locais foram afixados na maioria dos poemas; mas fora os três primeiros textos que abrem o livro, evitei estender-me em notas explicativas sobre os demais. Sei que seriam necessárias. Mas afinal este é um livro eletrônico, e tem-se sempre ao alcance dos dedos a Wikipédia, e tudo o mais que o Google pode oferecer. Dividi o livro em duas partes, Omnia Funera (‘Todas as Mortes’), com os poemas ambientados na Segunda Guerra; e
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Omnia Fragmenta (‘Todos os Fragmentos’), com os demais textos. Nestes, estamos num momento encurralados em Diu, a fortaleza portuguesa encravada durante séculos na Índia; somos em seguida um samurai ferido numa fortaleza em chamas do Japão feudal, absorto entre ser ou não ser; caímos numa estrebaria imunda na imunda Guerra do Paraguai, ou escapamos do Vietnã durante a Queda de Saigon (ou a Libertação, pois como qualquer poema, depende tudo do coração de quem lê); somos um cão humano marchando para a corte de Luís XVI, ou um soldado solitário de Esparta a profetizar sobre coisas que desconhece... Textos sobre a angústia de facear a Morte de tão perto, a ponto de irmaná-la, textos sobre quase a desesperança - ou a esperança espectral, reduzida ao seu mínimo élan vital... Dor Maior? Ou talvez esses poemas falem apenas sobre uma outra coisa, dor menor, mais ínfima, mais pessoal? É o poeta sempre cada um desses personagens? Que importa? Quem se importa? Pequenino amigo, leitor conhecido ou desconhecido, aviso desde já: este é um livrinho inicialmente divertido, mas por fim repetitivo e triste: e você sempre pode não lê-lo.

Sammis Reachers

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Omnia Funera

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A Neve
Para Simo Häyhä, um sobrevivente

[Sou] um partisan da resistência finlandesa um aos-porcos-soviéticos-não-prostituído não-prostituído pela alemã escória integrado à resistência da França Combatente de De Gaulle Amalgamado ao meu rifle Mosin-Nagant (minha-mãe-minha-segunda-alma) Na aurora da Operação Overlord [sou um homem sem nome e] morto deixado, deixando para trás o frio de um vazio casebre, um cão enterrado na neve, 7.777 ausências.

________ Notas _______________________________________
Simo Häyhä, (1905 – 2002), franco-atirador finlandês, considerado o mais eficiente franco-atirador da história, ao eliminar mais de 500 soldados soviéticos, num período estipulado de 100 dias. Partisan, ‘é um membro de uma tropa irregular formada para se opor à ocupação e ao controle estrangeiro de uma determinada área.’ (Wikipédia)
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Porcos soviéticos: 3 meses após o início da Segunda Guerra (novembro de 1939), a URSS atacou a Finlândia, dando início ao conflito conhecido com Guerra de Inverno ou Guerra Russo-Finlandesa. Apesar das aparências, o título deste livro não foi inspirado nesta guerra. Escória alemã: a Finlândia aliara-se às forças do Eixo. França Livre ou França combatente, ‘é o nome dado ao Governo francês fundado pelo General Charles de Gaulle em 18 de Junho de 1940 e que teve a sua sede em Londres. O governo era composto por homens e mulheres franceses no exílio durante a Segunda Guerra Mundial.’ (Wikipédia) Mosin-Nagant – Rifle russo Operação Overlord, é o nome de código da Batalha da Normandia, que foi a invasão das
forças combinadas dos Estados Unidos, na França ocupada pelos alemães, em 1944. Reino Unido, França Livre e aliados

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O Trigo
1944 Em estrépito desembarcamos na Normandia, Como filhotes de tartaruga Eclodindo de seus ovinhos azuis A Poesia Ficou atrás, na retaguarda, no coração De uma menina mórmon de 14 anos no Kansas, Escondida da mãe olhando chorando um alguém um cristão partindo Numa tipografia familiar em Marselha, Hoje prostituída para máquina de propaganda De Vichy Num distintivo da Polícia Montada canadense, Nos olhos de meu cavalo Que não pôde vir morrer comigo (Meu cavalo, minha sombra nas florestas de coníferas, Será a sombra de um outro homem, suas cordatas asas) A Vitória É uma promessa apenas no horizonte, Em meu sangue, nos livros que a liberdade fará imprimir, Nos músculos dos cavalos, nos campos de trigo do Kansas Que eu nunca mais segarei.

Vichy, regime colaboracionista francês (1940-1944), a serviço do Terceiro Reich, a quem se opunha a França Combatente (Forças Livres Francesas) de de Gaulle. Polícia Montada: Muitos canadenses foram mandados para os campos de batalha da Europa e para outros teatros da guerra, em socorro à Inglaterra.
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A Náusea
1942 Num espelho encardido afixado Numa moldura Luís XIV Vislumbro em seco recorte o meu vazio e o vazio De meu quarto, encardidos Este charuto, este rosto cansado e míope É então Jean-Paul Sartre? Uma semana sem Simone, sem Notícias, sem concluir uma página sequer Sorvendo a maresia nauseante De todo o absurdo, este, o Todo Absorto em resistir, em construir Um sentido dentro de uma Europaumquartofrio A Guerra freme mas me talha esta sensação De que o tempo, inábil, esculpe os homens em tédio Tentando forçar uma neutralidade artificial Que não existe, não pode existir Estamos aqui, um triálogo Entre o Absurdo e o Ego e a Morte, A Morte monologal

Hoje ao descer para buscar a correspondência Vi a filhinha do casal ao lado, os marroquinos
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As crianças não costumam sorrir-me, Mas havia, Há Um sorriso constante-teimoso sempre no rosto dela, Sempre Como algo vermelho rompendo uma muralha Por um instante, naquele momento-bouquet eu vi cores caudalosas lampejarem Nesta semana cinzenta.

A Náusea, título de célebre romance existencialista de Sartre, publicado em 1938, e uma de suas obras mais conhecidas. Jean-Paul Sartre, filósofo, escritor e crítico francês, conhecido como representante e mesmo principal pensador e propagandista da corrente filosófica denominada Existencialismo. Na Segunda Guerra Mundial serve como meteorologista no exército francês. Em 1940 é aprisionado, sendo solto em 1941, quando se engaja na Resistência Francesa. Simone, Simone de Beauvoir, escritora, filósofa existencialista e feminista francesa. Manteve um singular caso amoroso com Sartre, um tipo de ‘relação aberta’.
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Stalingrado
1942/43
“Dia angélico e negro” Giorgos Seferis

Dite Capital do Inferno Dite A capital do Inferno Dite Esplendorosa Dante Dante mio capitano Dante toque sua flauta Para distrair-me enquanto O médico amputa minhas pernas Milton, fale-me de teu Deus Milton my mermaid, dulçor de sereia Por favor acompanhe a melodia de Dante Cante contra esta anti-aurora, cante Dante, Milton Ombreiem-me Deem-me as mãos Pois não posso mais andar Tragam-me o cantil de vinho do Porto,
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Balas para o fuzil Comamos e bebamos, Pois amanhã morreremos Dite, Cidade das Trevas Um milhão de mortos Pavimentando suas ruas Três cavaleiros cruzam teu perímetro Se dominasse a língua das metralhas E do morteiro, Rogaria um cessar-fogo bem ligeiro Tenho duas irmãs bonitas E estamos no dia mais negro Da mais negra das guerras: Se eu pudesse Ofereceria minhas irmãs aos soldados Para que parassem de disparar Contra nós, mio capitano E pudéssemos trafegar livres Por sobre o roseiral de cadáveres Camarada Stálin Já estou morto, então Não importa: GRANDE CAMARADA FILHO DE UMA VACA A culpa disso tudo é tua
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Tua lentidão de asno teu fedor de asno Que o inferno exista Como existem Dante e Petrarca E os olhos cegos de Milton Que você queime em seus nove círculos, Um século em cada, perfazendo Um eterno circuito Queime camarada, arda Abraçado à tua mãe vaca E ao Soviete Supremo

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Creta
1941
“É possível que eu, súdito de Yaqub Almansur, Morra como tiveram de morrer as rosas e Aristóteles?” Jorge Luis Borges

Ele tira do bolso um papel puído, Desdobra-o É uma velha ilustração À bico-de-pena Da Vitória de Samotrácia Posiciona-a para que a banhe a luz da lua Meu Deus, a lua ilumina o brilho dos Olhos dele, tão bonitos Ele é só um jovem heleno de 15 anos que não precisa morrer! Um garoto apenas, tão singelo Poderia ser Telêmaco ou Neoptólemo Mas é só mais um partisan fumando assentado À luz da lua Esperando que satanás Faça chover alemães De pára-quedas

Sei pelo que vou morrer. Se terminar aqui, morro e finalmente morro Pela liberdade, pela Inglaterra, Pela ilha de Creta Pelos antepassados de meu companheiro grego, Os que, ao lado do hebreu, fundaram tudo o que existe. Mas este meu companheiro grego De 15 anos Alguém de 15 anos tem qualquer motivo para morrer?

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Já matei onze alemães Combatendo na humilhação de Dunquerque, No escaldo da África, na Holanda, em cada Incursão em que Churchill me enviou Para matar, espionar, treinar resistentes locais

Hoje eles descerão do céu Como anjos caídos: Espero matar ao menos uns 20 Antes de morrer. Pois o pressentimento de que me falaram no deserto, O que nunca senti, agora freme.

Que alguém vá a Oxford, à biblioteca, adentre entre a ancianidade da seção de códices para avisar a meu pai que eu morri em Creta, Como um grego combatendo o Minotauro.

Telêmaco: O filho de Ulisses Neoptólemo: O filho de Áquiles
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Mr. Dylan
1943 Já recebi seis cartas da Morte. Durante todo o Verão de 42 Recebi-as em minha casa em Tucson, Arizona O Excelso Governo dos Estados Unidos da América Requisitava meus abalizados conhecimentos em Explosivos E me convocava para morrer Sei lá onde ou por que Não estou disposto a morrer Sei lá onde ou por que Voltei para a casa de minha mãe em St. George Tomo minhas cervejas Planto nabos e tomilho com meu irmão Peirce De dia me escondo entre a fartura febril de calorosas camas de feno À noite repouso com o aconchego das orações de minha mãe

E eles que morram.

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Oração por Todos neste Campo
1944 Deus, manifesta Tua majestade: interrompa esta guerra, salva-nos a vida Salva primeiro o soldado Pike, Senhor ele é filho de pastor seu avô fundou uma igreja no Maine, próximo a uma mina de carvão, que salvou muitas almas seu pai herdou o púlpito mas a morte cancerosa agora o solicita: Pike herdará a Palavra ele fala com amor das crianças da congregação e das senhoras e a igreja toda o ama e ora por ele, para que volte de alguma maneira Salva a todos, Senhor o sargento Peacock, que celebra a satanás quando amarra alemães naquela estranha posição oh, misericórdia, Senhor!, e os amordaça, e os eviscera vivos, cheio de inferno nos olhos, nas palavras que não profere, nas células Salva o sargento Yvres e o soldado Looney e o soldado Charlie que gostam de vê-lo enquanto ele oficia seu rito Salva-me por não ser homem que baste para denunciá-los e por ter ido, por três vezes, observá-los na casamata Perdoa-nos e salva-nos a todos neste campo
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enregelado de morte, guia nossas cartas até o destino e o lar daqueles que lar possuem Os que disseram-me que se sobreviverem e a guerra terminar este ano, não pretendem voltar demova-os, Senhor a América precisa de seus filhos, mesmo dos de história e coração despedaçados

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A Humilhação de Dunquerque
1940 Oração do soldado legionário de origem nigeriana, Ade Selassie, quando da queda da cidade. Somos ovelhas vestidas em corpos de chacais, debandados pela noite com nossas máscaras gastas Mas dê a ordem de reagrupar e emergiremos da lama de nossas fragmentadas andanças e estacionária fuga Os que possuem uma Rainha/os que possuem um Reino foram evacuados nós, franceses e legionários e hienas, ficamos Oro a Ti neste francês crioulo, dialeto de adagas, este francês crioulo que vociferamos nas baixas hierarquias da Legião Deus de todos, de todos esses brancos que se matam Deus de todos esses que se odeiam e dos negros e meu Usa nossos pedaços, Senhor. Usa meus cacos. Eis-nos aqui – multidão de Jós, de Elias acobardados, Lázaros da noite aguardando um chamado
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Planto desertos por onde fujo, onde passo, construindo não-lares, sempre construindo-os como alguém que vai buscando um Lar que finalmente não possa destruir Morri quando apunhalei o muezim em Camasak morri quando fugi de cidade e cidade, abandonando meu filho morri aqui nesta derrota deste chão que me aceitou estou morto a tanto tempo mas tenho esta adaga nas mãos e seguro-a com tanta força que sinto o sangue pulsando em meu pulso - essa peça de aço frio, e é ela agora o meu coração?

Esta batalha foi perdida, o e este solo, a e esta honra, a e esta hora mas veja, veja veja Senhor Sabaoth a larga extensão da Guerra: sustentemo-la (com os pulsos rebelados contra a ordem de cessar, as adagas comprimidas nas palmas que não batem, nossas lágrimas secas, lágrimas de ar) sustentemo-la Sustentemo-la

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O Gueto
Gueto de Kovno, Lituânia, 1941 A ajuda saiu de lugar nenhum, andou pela estrada do nada e nunca chegou até aqui. Mas mas, sobretudo sobretudo há há uma glória negra uma glória negra em ser o último homem da terra, em estar no último lugar da terra, Ilha do Esquecimento, cercado de noite e morte por todas as portas. Há uma glória secreta e negra em ter sido abandonado por tudo o que existe.

Como o famoso Gueto de Varsóvia, ao longo da guerra foram estabelecidos diversos guetos nos países conquistados pelas forças alemãs. O Gueto de Kovno foi um gueto estabelecido pela Alemanha Nazista para conter os judeus lituanos de Kaunas durante o Holocausto. Em seu auge o gueto deteve 40.000 pessoas, a maioria das quais foram posteriormente enviadas para campos de concentração e extermínio, ou fuziladas no IX Forte. Os lituanos, aliados dos alemães por desejarem verem-se livres do domínio soviético, participaram ativamente na caça e execução dos judeus de seu próprio território. (Com informações de Wikipédia e outras fontes.)

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A Fome
Países Baixos, 1943 Ainda que a fome nos solape com seu madrasto abraço de farpada aramagem arrancaremos do chão as tulipas comeremos-lhes os bulbos como batatas à noite comeremos as estrelas, o couro dos sapatos, a fibra dos corações de nossos filhos pois a fome não importa: importa explodirmos trilhos para descarrilarmos a dança do demônio importa explodirmos diques para afogar sua sede de nosso alegre sangue

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RAVEN
1944 Iridescências pirilampam no espaço-entorno: É a irmã Morte, de mãos alvíssimas e unhas azuis-longuilíneas, Lindas de se beijar. Babel de Israel e Judá, De 23 países viemos, e aqui irmanadas, Quedamo-nos em fila: o homem que ama Beethoven Liga o gramofone e acende o forno. É primavera em Ravensbrück. Estranha estação onde Satanás, vencido, impera.

Ravensbrück, Campo de concentração feminino localizado na Alemanha.

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Paris
12 de junho de 1940 Acordo e o inferno existe: Aquela maldita garrafa de calvados, AH! Eu só queria um trago, Meu Deus!, Eu só queria esquecer

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A Queda do Reichstag
2 de Maio de 1945 Eis aí, tovarisch O mundo deu mais uma de suas voltas malabares A adaga que me atravessou, apanhei-a de meu outro lado, hoje a empunho

entro nu e camuflado de sangue(s) no dormitório do tão-seguro-de-si Exército Olímpico Deles

mas livra-me de todo este tesão de degolar suas criancinhas

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A Casa Grande
1944/45 Seleção de poemas ou trechos de poemas escritos pelos participantes da Oficina de Poesia ministrada pela doutora Lisbeth Müller no Hospício Militar de Grunewald, Alemanha, para soldados enlouquecidos na guerra, de novembro de 1944 a março de 1945. Seleção dos poemas pela eminente doutora e poetisa Hulla Goebbels.

Sete tiros na Realidade Há um dia sepultado Na aurora, Um cemitério inteiro Dentro de uma criança Que nasce A poesia, como a religião, É um mecanismo de Anti-resposta. Sd. Casimir Moller

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Oração Senhor, eu errei Abandonei o redil, estendi o braço rijo Em louvor do anticristo Perdoa-me por ser tão grande pecador, Por amontoar desgraças do fim ao fim do mundo. Basta-nos, a nós e a Satã Estes vinte séculos. Que esta guerra seja o Armagedon, o Teu retorno. Que a aniquilação de tudo o que existe Seja o perfeito armistício. Sd. Wilfried Ahrensdorf

Mouro (trecho) ... Desmembramento de datas, Lodaçal do tempo O poeta como envasador de bravatas ... Um osso No fundo de um poço E uma hiena: Sou osso, hiena Ou o poço? ... Cb. Bernhard Diehl

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Içados Arrumávamos as coisas no galpão. Varríamos o soalho, mas o melhor momento era quando eu dizia “Chalby, pode apagar”, e ele, meu companheiro de serviço, em menos de dois segundos pressionava o interruptor, a pálpebra da Luz, e a escuridão vinha de um salto, caía com surdo estrondo nos olhos, no soalho, engolfando-nos em seu abraço de Paz. Não ver pessoas, não ver armas, pássaros, coisas – não ver coisa alguma – o melhor momento do dia iluminado. Aqueles 20 minutos de escuridão diária, antes de abrirmos o galpão para as tropas, aquela escuridão é tudo que um homem precisa, seja Buda ou seja Wolf. Sd.Franz Abel Jörg

Thanatos Não existe vida: Os dias são mortes Repetitivas, Lenta gestação Do fim, Blocos que somamSe para erigilo, tormentoso deus, Furioso como o Führer, Vazios em sua diária Dança vestal. Sibila de Dresden (pseudônimo do Cap. Mathias Sommeler)

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A Cozinha de Schopenhauer Não ouça o discurso da escuridão, soldado. Ela vai lhe pedir que mate. Não importa que eles mereçam morrer: Todos o merecemos, e por merecimento A morte entrou no mundo, e reina. Mas que não reine em e por tuas mãos. Não ouça o discurso da escuridão, soldado; E olvide sua canção. Despreze o volume do canto, A virtuosidade do braço que a executa. Não faça o esperado de ti, e ao fazer isso Não o faça esperando recompensas divinas. Não espere nada. Dê uma chance à vida, tão aleijada e fraca, Assopre-lhe as brasas sempre semimortas. Não busque a fuga no deserto, mas seja-o: Fragmente teus desejos até tê-los areia, Uniformidade com o Uno, Nada. 1˚Ten. Joachim Thorsten

Solidão (trecho) ...De roldão a noite, toda a noite em meus bolsos! Fascina seu brilho esplendoroso e falso... Sinto uma suavidade... Um diáfano e breve lampejo – Um breve lampejo – De Liberdade... Sgt. Mathias Bachmann
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Ab-surto Semanalmente sinto-me como Kafka, O vadio judeu de Praga - sim, soterrado sob dimensões Superpostas de absurdo Sexta, Sábado e Domingo sintoMe como o protestante Kierkegaard, Dinamarquês vadio, aborto de Lutero, E sonho isolar-me em meu horror, Pânica Dinamarca, Para refletir sobre todo este absurdo Absurdo, esta Realidade inoculada Por sementes de cancros que Brotam ribombantes, Por toda a extensão de tudo Absurdo Absurto E as pessoas têm filhos E povoam-no Povoam o absurdo Sem misericórdia dos filhos Carrascos cheios de amor Asnos do absurdo, eia! Trafegai sob a ferradura de Brandemburgo! Filhos para o Reich, para suas fileiras, Searas, fornalhas! Esta Realidade caída, cadáver de Adão Onde chafurdamos vermes & procriamos Somos a linha de produção
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Para abastecer as celas do inferno Não deste, rascunho em pus, Mas do circular e eterno E fazemos isso Cheios de amor & empatia Mortos ou vivificados Pelo sacrifício de Cristo, tanto faz: Tudo que nasce de nós Já nasce humano demasiado humano: - morto e ao inferno condenado. No entanto p r o c r i a m o s Sem garantias, sem refletir Uma segunda vez E sorrimos tristes para o absurdo E embalamos as crianças e gostamos de crer Que fechamos um ciclo, que era necessário E que somos felizes na medida do possível Asnos do absurdo, resfolegantes Padre Capelão Malthus Zimmer

Em Abril de 1945, um mês antes de a Alemanha capitular, todos os internos do Hospício foram fuzilados, a mando de Hitler, acusados de inimigos do Reich. Somente o Capitão Mathias Sommeler (‘Sibila de Dresden’), conseguiu escapar, na noite anterior ao fuzilamento. Nunca mais foi visto.
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Sobre a Fênix assassinada
“Não há poesia depois de Auschwitz” Theodor Adorno

Sobi Sobibor

Dachau Dachau ch

Treblinka Treblinka bli

Buchenwald Buchenwald henw

Auschwitz
Hannah Szenes Felix Nussbaum Dietrich Bonhoeffer Robert Desnos Anne Frank Primo Primo Levi

Semprun Jorge Semprun

Kertész Imre Kertész

Elie Wiesel Elie Wiesel

ayrol Jean Cayrol

poesi resis esia ist a poesia resiste
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Breve nota sobre o poema: Os primeiros cinco versos referem-se a campos de concentração e extermínio nazistas. Os versos seguintes são nomes de artistas – poetas, escritores, pintores. Os cinco primeiros foram exterminados pela máquina de morte de Hitler. Os cinco versos/nomes finais representam nomes de artistas que sobreviveram ao horror dos campos de concentração, e continuaram produzindo – denunciando, alertando... e encantando. A poesia resiste.

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Omnia Fragmenta

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Hokkaido
1590 Minha face ensanguentada eu esfrego No pó do chão e misturo sangue e pele Dilacerada e pó e somos um, e somos nada.

O cabo de minha espada quebrada permanece Aferrado à minha mão como um coração que Precisa desesperadamente de suas artérias. Sorvo fumaça, saquê da morte, costelas quebradas

O Daimiô abandonou a fortaleza onde a chama grassa; Seis ninjas cercam este biombo onde caí, A fina flor assassina de Chikuzen, Os melhores naquilo que fazem, os capitães Dentre tudo aquilo que não possui HONRA

Poderia despedaçá-los com este coto de espada, Minhas fezes, um sopro de meu ódio combatente Mas o Daimiô abandonou a fortaleza,
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Está seguro

A HONRA, tudo o que importa, Os homens de hoje trocam pela Vida (pó, pele, lixo, sangue não-lacerado)

Não há mais motivos para lutar.

A não ser que o ódio diga à espada: - Levanta.
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Guantánamo
Dezembro 2004 Sou o prisioneiro número 00110177990834659930943248776 No Mundo-Que-Não-Era-Pra-Ser Sou Alice, Sammis, Bandeira Ontem Pela centésima terceira vez Lancei minha cabeça Contra o Espelho Mas ele é inabalável Como o sol Um outro louco, Egípcio educado em Londres Que diz sempre ter Sido um dos príncipes Que assinaram a Paz de Westfália Diz: - Continue, mujahedin!

Eu nunca fui convidado a assinar um tratado de paz Também nunca me convidaram para um baile de máscaras Ou roda de dervixes Também não fui convidado a ser: Nasci

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Diu
1538 O dia em que morrerei se aproxima. Sei por ver florir o ipê. É tempo. As multidões do sultão cerceiam Diu. Eu enlaço a alabarda, combato Sou Diogo Marins Albuquerque, alferes Combatente português Toda a ala oeste caiu em poder muçulmano; Somos eu, Manoel Pocinha e António Mascarenhas Que resistimos fora dos muros, sem opção: Numa incursão malfadada, desprendemo-nos da guarnição Que célere debandara: o portão de ferro interno foi cerrado E não se abrirá Olhamo-nos nos olhos mortiços, somos Três homens pretéritos António fala de duas prostitutas, Adhira e Sachita, Porco sem honra, baixo português, Sempre pensando em tetas A vanguarda de Mafoma avança Eles estão distantes, a situação é a mais sinistra, A última: é esperar que cheguem trazendo nossas mortes. Os arcos que têm nas mãos, eles não os disparam: Querem deliciar-se, fruir nossas peles brancas Satanás dá as cartas, nunca deixou-me dispor na mesa meu próprio baralho: de Lisboa a Málaca,
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de Moçambique a esta Diu, todos os baralhos são do demônio ainda que haja cartas abstrusas infiltradas pelo Senhor Sabaoth mas isso não importa mais Manoel pensa em sua mãe, a casa de Trás-os-Montes, As queijadas que ela não mais lhe fará Eu penso neste dia que sempre esperei A lâmina que me atravessará O ipê vindo numa semente do Brasil, mulheres, minha mãe, meu estômago, sexo, sonho, pátria, flores que explodem, tudo desimporta Eu penso a lâmina que me passará, penso Seu frio, entro em pensá-la, sou-a Eles saltam sobre nós António Pensa em sexo com todas as prostitutas do mundo, Mas que importa? Penso em Um incêndio nas cartas de satanás E todas as prostitutas do mundo Formam um muro Todas as cartas do Belzebu, formam um muro A lâmina que sou, que me matará Romperá seu anti-hímen sinistro Atravessará epifânica a tudo isto

Deus é amor e silêncio A lâmina me ama Ela me silenciará

Breve, Senhor, além dos jogos - nos encontraremos.
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O Retorno do Peregrino do Crepúsculo
1787 (2010) Vou voltar à casa de meu pai sou enfermeiro de guerra num país distante quero perguntar diante de meu pai porque ele parou de se importar quando minhas cartas do front deixaram de chegar porque ele nunca me mandou uma resposta meu pai é um ministro importante e ocupado com os negócios de estado da corte de Luís XVI vou a Versalhes marcar uma audiência, contar a meu pai sobre a minha morte na guerra meu pai é um homem cordato e comPenetrado que não tem tempo para velórios, concertos, e nunca foi dado a lamúrias mas trago informações sobre a assustadora máquina de guerra do inimigo que sempre acreditei fosse dele e meu, a que matou-me, junto a muitos de França e oxalá será isto de interesse do Rei.

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O Vale de Baca
2000 Vou aproveitar o dia Para anoitecer Sou sargento de uma equipe De infiltração & sabotagem do SAS* Instalo explosivos nas pilastras de uma ponte Em algum país insurgido Contra os objetivos da Inglaterra, Do Reino Mas o tenente diz que não presto para o serviço: eu faço perguntas No mais sou como Adão, Vivo de explodir pontes Penso nas poesias de outro poeta, Herege, William Blake Meu discernimento tem se estreitado, Senhor Dias vejo o mal Em tudo Dias mais não vejo o mal Em lugar algum Como se bem e mal se fundissem Numa massa insossa, vale de ossos secos ou poema de Blake Onde trafego como cósmico calango Dias maus em que pareço lutar uma guerra mais que perdida: olvidada Lembra-te de mim nas trincheiras de minha fraqueza,
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Rei meu; livra-me da morte de confundir
SAS: Tropa de Elite do exército inglês

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Verdun
1916 Os cigarros acabaram. Engraçado, o dia hoje está diferente. O sol sobrepõe-se à chuva, Mas há algo estranho, Uma lacuna, vazio denso... No ar não há mostarda, cloro, fosgênio, gás algum Mas o calafrio, sinto-o ao meu lado, Como um antropomorfizado ente, Como alguém que espera que eu lhe dê um cigarro. Saio da trincheira, olho para o que fora céu: Chuva e sol se interpenetram Mas não renasce o Sinal: A MORTE interceptou o arco-íris. Um dia maligno Plange em cada gotícula Do chuvisco oleoso; Ensaia o INFERNO Para uma grande ópera, E eu já não entendo Se a chuva suja cai Ou se sobe da terra, Reversa lágrima, Como oferta alçada À HECATOMBE Deusa. Aos anjos não é permitido debandar; Mas hoje, como num dia sabático Um negro sabath permitiu-se-lhes Observarem de longe:
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O campo está livre de Luz. Quanto a nós, humanos Todos os nossos descaminhos, desde Caim Trouxeram-nos até este górdio nó; E somos aleijados de seu maquinário de alar, E mesmo da intangibilidade dos anjos: Não há voo possível Que nos faculte a fuga: E já não há fuga e já não importa. O arco-íris foi impedido, o campo é livre de Luz; MORTE, INFERNO, HECATOMBE Negra Trindade Eis-nos; adentrem, arrasem (ou reedifiquem a vosso maçônico modo) as ruínas do Jardim.

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Guerra do Paraguai
1869 Não sobraram homens; mas encontrei três crianças na estrebaria, três caveiras enlameadas de fome e de esterco que se acobardaram e ocultaram para não lutar. Empreguemo-las, pois, General na contagem dos mortos

no lugar dos mortos

como uma sepultura ou um futuro para o futuro sepultado dos mortos.

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Queda ou Libertação de Saigon
1975 Baby, baby eu estou vivo

e isso é motivo para quantos poemas existam

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A Ataviada
07/07/2005 Londres, Metrô no pescoço de uma princesa fulgura um colar de granadas.

de tão absorto o próprio tempo para.

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Para sempre Esparta
Prostro-me na posição cerimonial: Minhas curtas espadas Sobre a envergadura de minhas costas Traçam um ‘X’ Meus olhos Treinados para albergar águias Dentro de si Contemplam a um tempo O sol e o rio Eurotas Que foram criados pelo Deus desconhecido No fundo da cela de meu coração Contemplo o cadáver do meu medo Executado no campo de honra, Desfeito em si, implodido, Meu medo nulificado no Agogê Verto ânforas de hidromel Nos rios do Hades, E deito junto as cabeças de pedra Dos falsos deuses, E tudo o que me fraqueja e falseia e futiliza Mesmo desgarrado da alcateia e cercado, Que importa? Sou filho dos filhos de Hércules, Sustento com virulência a guerra Pois onde eu pisar Pisa Esparta Não importa a extensão da mutilação e a largura do talho; Enquanto ainda pulsar o coração Combato, combate Esparta Se morro, Esparta se eterniza Pelo rastro de minha lança Pois respiro e quando expirar
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Expirarei Pela coletividade Esparta Ombreio meus irmãos de fúria e sangue e liça, A manopla da Diarquia, da Cidade de Dois Reis Juntos traçamos um perímetro intransponível, Consubstanciamo-nos num uno-mega-coração Que não pode ser traspassado E avançamos e avançamos como um sol ... ... ... Oh a mais perfeita das imperfeitas Paráfrases do Cristianismo que há de vir! Demo-nos as mãos calejadas, espartanos Sejamos o ápice De tudo o que o homem é Até o advento da Nova Esparta, A do Amor e das estranhas armas, A do Deus desconhecido, Eterna Jerusalém que traspassará a eternidade.

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Carta Encontrada Numa Ânfora
1187 Carta encontrada numa ânfora pelo arqueólogo inglês Christian Balden, no ano 1987, na cidade de São João de Acre (atual Acre, em Israel). É atribuída ao Capitão Gualdim Chalamera, supostamente o último soldado da Ordem dos Cavaleiros Templários a cair quando do cerco dos maometanos de Saladino, que tomaram a cidade, em 1187.

Naquele dia quando todas as mortes se abateram sobre mim, mas desgraçadamente sobrevivi, Você, cujo poder é a Aurora e é Tudo, - porque me preservaste? Aleximandro foi vencido por Satanaquia e traiu a Ordem e a Ti, o Deus Vivo: permitiu a entrada dos inimigos, e três dos quatro círculos de defesa caíram Grande EU SOU ao se multiplicarem tanto as traições foi destruído o meu amor e eu já como que não posso combater sim, fui adestrado nas masmorras do inferno e por isso eu ainda resisto e ofereço combate nas múltiplas frentes onde me designaste lutar mas estou sozinho (e eles destruíram o meu amor) as flechas findam em minha aljava (já arranquei as flechas dos cadáveres de meus companheiros).
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Envie reforços, envie alguém não por mim, que estou morto, mas para sustentar as cabeças-de-ponte quando eu cair pois Legião força todas as portas, e a cidade é morta. Sou um cão recrutado num estranho momento onde faltaram os homens; Tu o sabes, mas aqui o reafirmo: a única honra de minha vida imunda foi vestir esta cruz vermelha ao peito, foi lutar ao lado e à favor dos que Te amam. Os que vão morrer te saúdam! Eu te saúdo, vencedor de César e vencedor da Morte e na ressurreição, se os cães alcançarem-na, saudar-te-ei com as minhas cicatrizes. Verme e mendigo, bastardo e despatriado, Morro como Soldado de Cristo. Viva para sempre o nome e a glória do Senhor dos Exércitos! Para sempre o Teu Nome! Para sempre o Teu Nome!
"Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Vosso nome dai a glória".

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Acerca da Intentona dos Ressuscitados do Planeta Fesann: Fragmentos de uma carta rebelde
Fesann, Galáxia do Sombreiro, 4.004.505 ticrasevs

Sem-Nome a todos nas três luas de Fesann: Luz e Paz. Este é o último comunicado geral a vós todos endereçado, haja vista a iminência de nosso ataque. O dia já foi assinalado. Ficai atentos: ao toque da Tricórnea trombeta do General Alado Ralifax, o Porta-Estandarte, iniciaremos nossa parte do ataque; o Generalíssimo Alado Ghalifax e suas Hostes de Honra atacarão pelos céus, enquanto os Servos Fiéis avançarão pelas terras flanqueando as forças terrestres do inimigo Nós atacaremos por baixo e de dentro, usaremos as sombras, os túneis e esgotos de nossa habitação Repassem a mensagem a cada cão, cada despedaçado que traga secretamente em seu seio a marca cruciforme urge que esta mensagem flua por cada sarjeta, nas prisões, nas cozinhas e serventias dos palácios sabotaremos todas as estruturas de suporte da Opressão de Xathan disseminaremos a gloriosa Mensagem da Chave no miolo próprio da Fornalha Infernal Aquele que contra tudo e todos nos abriu a Porta conta agora conosco
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Nunca houve ilusões, e agora mais que nunca seriam tais coisas inúteis a nós e ao Rei: somos os sem-patente do Exército do Monarca, sabotadores e guerrilheiros, e plenamente dispensáveis. A nós caberão as missões suicidas: que cada um rogue por fortaleza para suprir suas muitas fraquezas. Quando, cercados pelos inimigos no meio dos quais muitos de nós habitamos como serviçais ou escravos, revelarmos nossa natureza de (também nós, os cães!) Combatentes da Luz, nenhum Exército regular nos apoiará (os Fiéis sequer sabem de nossa existência), e o inimigo não fará prisioneiros a tais como nós. Pelo contrário, muitos ainda rirão e escarnecerão de nosso esforço. Não importa; cada um tenha a sua morte como certa, cada um não esqueça em nenhum instante do Poder da Chave que abriu nossos sepulcros. Em sua misericórdia, Ele reservou-nos um lugar na Batalha Final, e deu honra aos sem-honra. Ele conta conosco, aleijados e prostitutas, e disse em sonhos a Wass Gordo que ama-nos a todos; - marchemos, pois, para o matadouro a morrer para que Ele viva! Não teremos armas de Luz, como os Alados, ou armas de Fogo como os Fiéis. Os Irmãos Alados estarão ocupados na ofensiva principal contra os Avatares do Ar

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e os Servos Fiéis precisam cercar todas as hostes inimigas em terra em uma única noite, e toda a força lhes será necessária. Lutaremos com paus e pedras, navalhas e estiletes, se necessário for explodiremos nossos corpos sem valor (no mês de Lazzul fizemos circular a instrução acerca do fabrico de explosivos bio-corporais. Os que ignoram tal comunicado contatem seus líderes de Rede). Desde já nossa honra a Parcehass, Eizel-Sem-Pernas e Monóculo, que foram as primícias dos que ofereceram-se para serem portadores das bombas corporais. Honra ainda a Helceia de Hoxx, por ... ... ... (neste ponto foi rasgada a carta).

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Célula Sunrise
Nicarágua, 1978 Agora beija aqui tua madrecita, Juanzito. Escuta, talvez tua madre não volte amanhã... Junto com os companheiros, tentarei me vingar dos assassinos de teu pai. ¿Que pasa, Chico? Já tens 13 anos; enxuga tuas lágrimas, cabrón! De toda forma, amanhã o padre Haliel virá com outros homens. Lembra-te da senha? Sunrise. Não não, fale de novo: ‘sunraize’, ‘sunraize’. Sim. Você deve abrir o porão e entregar-lhes as armas que lá estão. E fique esta contigo; e lembra-te das lições. Se a Grande Noite ou qualquer que não tenha a senha chegar pela madrugada e bater na porta, não chore; coloque seu irmãozinho no porão tape a entrada com o tapete e dispare contra a porta. Dispare e dispare e tente fugir pelo túnel; e se conseguir escapar para os fundos, combata combata como teu pai que era homem e queria o melhor para ti e para Gabrielzito. E seja homem, para que seu irmão queira ser homem como você e como seu pai, e para que sempre existam homens.
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Fraternidade
Amigo, quando você voltar para o Ceilão, sabe, aquela namoradinha que você falou em encontrar Veja lá Se ela não tem uma irmãzinha pra mim Pra quando eu sair Fala pra ela desse teu amigo hondurenho Se você fizer aquele lance, aquela doideira, sabe De alistar-se na Legião Estrangeira Acho isso tão legal e tô contigo meu irmão, mas Você disse que eles só aceitam soldados profissionais agora Pois eu tenho um amigo no Quênia, ele falsifica documentos E eu sei atirar muito bem, já matei um homem em Johannesburgo Quando sair vou para lá contigo Mas se você conseguir entrar na Espanha, o Gino falou Que as coisas lá não tão boas, que o lance agora é Coréia, América do Sul, Brasil (pra Honduras não posso voltar) Mas aqueles seus conhecidos russos, sabe, Eu posso transportar coisas pra eles, tenho passaporte já Fale com eles de seu amigo, seu irmão da cadeia A carta que eu te pedi, não vá esquecer, eu sei, eu sei, Mas não custa lembrar É prum amigo, sabe Eles estão todos casados, só eu É que não tenho ninguém, fui me meter em treta, Tu sabe que nunca confiei em mulher, ou confiei demais, mas cansei Eles se afastaram, mas esse era amigo mesmo, do peito Ele tem umas casinhas, acho que posso morar de favor
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Até as coisas se ajeitarem Tu vai fazer falta aqui no recreio, isso aqui é uma grande bosta, sabe Mas fazem-se amigos aqui Alianças como não vi lá fora Como nunca vi lá fora, sabe Quando sair vou ter contigo

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Bagdá 2006 (07, 08...)
2006 Filho, nesses dias eu ainda via. A criança - uma criança iridescente, uma criança impossível escondeu a lacrada caixinha sob os escombros da escola, ali, naquela esquina. Você ainda enxerga? Oh por favor então, soldier, traga-ma de volta, se for (c)a paz.

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IN HOC SIGNO VINCES
Ao jovem Ali Abbas, vitimado pelo bombardeio americano num vilarejo em Bagdá em 2003, ataque que lhe custou a amputação de ambos os braços e a vida dos 16 membros de sua família (17, pois sua mãe estava grávida de seis meses).

Um pouco mais de empenho, Ali, um pouco mais de amor e um outro panorama nos engolfaria Se Billy Graham tivesse gritado com toda a sua força Se Rick Warren entendesse realmente se Lucado Hinn Meyer levantassem um clamor uma campanha uma mobilização uma GREVE na nação então talvez Ali Abbas suas mãos hoje acenariam suas mãos então talvez você ainda tivesse mãos para acenar Se Gandhi não estivesse certo, Ali, se Gandhi não tivesse razão em toda a miséria da verdade se os cristãos não fossem como ele disse o único defeito do Cristianismo talvez não houvesse
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esta guerra Talvez ainda mais, talvez seu país ainda fosse cristão desde os dias de Paulo o apóstolo até aqui e as malversações satânicas não pudessem a primazia que hoje podem, que hoje explodem. Talvez não houvesse tantas explosões no mundo se os cristãos todos nós o fôssemos realmente, se a América toda ela realmente fosse. Empinarias pipas na Bagdá ainda de pé empinarias pipas no grande Festival Anual de Pipas da Igreja Batista de Bagdá mas os cristãos falharam em sua missão ao longo da história, ao longo das esquinas falharam em seu perdão e devolveram mil olhos por cada olho, cada terror. Mas há um Cristo que insistentemente morre em cada um de nossos pecados
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e nos ressuscita, que torna o mal em múltiplos bens há esperança, Ali, para todo aquele que se atrela aferra agarra à Esperança

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A Guardiã dos Rebanhos

A Liberdade é uma singela cicatriz na coxa direita da Morte posso divisá-la(s) de qualquer quadrante, longe e muito longe na campa onde pasto.

Ave, Senhoras. Eu estou aqui.
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Túpac Amaru
“Túpac Amaru, sol vencido, tua glória desgarrada sabe como o céu no mar uma luz desaparecida.” Pablo Neruda, Canto Geral Neruda, cicatrizes nas alamedas de quartzo, Um funeral nas pétalas Funeral de insetos tugidos nas pétalas Da flor de turmalina da árvore da vida Sephirot Tepidez, trovão, máscaras araucárias Neruda, nunca beijei uma colombiana, quando Prestes afogaram-me no Amazonas, Meu obscuro Nilo. Eles vão sair, vão à missa na matriz Formam um lindo casal Como a noite e o punhal Interpolação de asas, secreto voo, Queda, Neruda, Neruda, .

Pirata espanhol, pirata francês, Duro pirata inglês Pirata português e holandês Queria dar-vos a morte Em vosso berço, abrir Com meu punhal noturno Os ventres purulentos de tuas raparigas de leite
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Romper o telhado sombreado De vossas casas maternas Mas são vocês que matam-nos em nosso berço de palha, Vocês vêm para transformar-nos em Adão.

Neruda, Neruda, Hoje eu planto coca Para alinhavar a sanha dos piratas: Vingo-nos sem alabardas: Empalo Seus sonhos em pedras E linhas dilacerantes de pó.

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O Funeral do Tédio em Stalingrado
“Fogo e cruz, manadas de feras, lacerações, desmembramentos, deslocamento de ossos, mutilações de membros, trituração de todo o corpo, que os piores flagelos do diabo caiam sobre mim, com a única condição de que eu alcance Jesus Cristo.” Inácio de Antioquia – Epístola aos Romanos

A causa de Cristo não demanda espadas; mas reiteradas vezes sinto em mim a atávica sede da liça, da simplificação das espadas... Sou por vezes Pedro desembainhando a espada e golpeando Malco, sem se importar com a considerável desvantagem numérica, cheio do maior dos ditados da guerra, dos ditados da carne: ‘aquele que hesita está perdido’. Ser um pacato cadáver na lama, ser um soldado morto em Sebastopol ou numa floresta nas Ardenas, tentando frear o avanço da Wehrmacht de Hitler... Ser um cão-de-guerra espartano gritando e tombando como um pequeno incomensurável sol que implode nas Termópilas, lutando por Esparta, mas sem o saber - e dentro das dispensações dos tempos de Deus - salvando toda a cultura grega e ocidental, o pano de fundo que o Deus Vivo usaria para estabelecer e disseminar o Cristianismo. Mas se preciso me encher do amor de Cristo, que despedaça a eficácia da espada ao não respondê-la com aço, mas com corações para que ela os traspasse e traspasse e traspasse até que se canse e se renda; se preciso pôr em diária prática o princípio da ahinsa de Mahatma Gandhi, a não-violência, de onde então vem-me esta sede? De minha carne e sua natureza homicida, caída – direi como cristão? Não, mas de minha
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melancolia e fraqueza e saudade imensa de um Paraíso que não vi, direi como poeta. Se para o poeta este mundo é fardo e a morte libertação, superação, realização última ou reles aniquilarse e ser aniquilado, para o cristão e o poeta cristão é ainda mais, pois ele, como o apóstolo Paulo, pode afirmar: “melhor é partir e estar com Cristo”; e ainda, “meu viver é Cristo, e meu morrer é lucro”. Então é a melancolia do desejo de partir, de livrar-se deste campo de batalha, que o faz desejar a morte rápida cuja batalha é a figura e principal matriz, a grande negra madre que a oferece de tão bom grado e tão fartamente aos homens. O martírio se possível, mas a morte a qualquer preço. Se o cristão mediano e mesmo qualquer pessoa que vivencia algum sentimento religioso, ao acordar agradece a Deus ou a alguma força imaginária, pela ‘bênção de acordar’, pela ‘bênção de MAIS UM DIA’, o poeta cristão também agradece, mas sabe que a bênção não é dele: a bênção só pode ser para o próximo, pois o cristão é um mordomo e serve em seu dia-a-dia, seja ao doméstico da fé, seja ao próximo de maneira ampla. Agradeço então – como que por eles, pois meu desejo é sempre partir. O cristão bobo-alegre, o que comete o disparate de dizer que ama esta vida (independente de como ela se lhe configure), é o pior dos homens, pois duplamente abobalhado: além de iludido pelos seus próprios sentidos (que, idiotizados, não lhe denunciam o circundante e dele próprio estrutural COLAPSO), é também iludido por Satanás e seus variegados jogos de cartas. E chega a agradecer, com toda a sinceridade de seu grande coração, por ter-se-lhe sido concedido mais um dia para ‘fruir esta vida’. É o bobo-alegre de que fala a fábula, o néscio de que falam as Escrituras. Temo-lo em todo canto. Eu acordo já com o gosto amargo, já ciente (como Sartre) de que estou preso em um pesadelo, do qual Cristo é o único escape. Essa é a marca do
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poeta? Ele não tem o dom de esquecer? Nos melhores momentos da minha vida, nos mais doces, nos de agradáveis realizações, seja para mim em particular, seja enquanto servo cristão, em serviço ao próximo – EU SEI SEMPRE QUE ESTOU NO LUGAR ERRADO – veja, missiologicamente, como servo, estou no lugar certo, fazendo a coisa certa, mas como ente puro e simples, ente caído num Universo caído – estou sempre, estou aprioristicamente no lugar errado. Como qualquer homem em algum ou em muitos momentos, repito por vezes o ator que torce pelo fim do espetáculo, encenado mil vezes... A noção da Queda, da Degenerescência, não me abandona, toco-a quando me toco, e uma de minhas angústias literário-ontológicas é não conseguir verbalizar esta sensação como deveria. É a pura & primal & cabal percepção do ‘absurdo da existência’ desnudado pelo Existencialismo, seja ele agnóstico, ateu ou em seu viés cristão. Absurdo cujas algumas facetas foram vistas pelo rei Salomão do Eclesiastes, talvez pelo próprio hinduísmo/budismo e sua noção das aparências e falsidade da realidade. O Mundo-que-não-era-pra-ser é o único que temos: eis o absurdo em toda a sua nudez. Ele não me concede as tréguas do esquecimento que disponibiliza aos outros mortais. A poesia carrega esta maldição em si. Platão precisou bani-la de sua República, sob o risco de vê-la (a República!) naufragada... Toda a minha poesia, notadamente a destes dois últimos anos (e explicitamente nos textos do blog O Poema Sem Fim), está imbuída deste sentimento, deste horror e horror-do-dia-seguinte, de acordar e ver as grades e ver sozinho as grades – pois de nada adianta mostrá-las aos demais, e eu tenho um tempo a cumprir. Esta é a chave para compreendê-la: eu não logro negar o pesadelo, travesti-lo de racionalização ou
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pseudo-racionalidade como um psicólogo, travesti-lo de flores como o mau poeta ou o bom prosador; não logro, para desgraça minha!, sufocar a percepção do pesadelo com a pregação e/ou vivência massiva da salvação do Evangelho, como um pregador (que afinal é o que deve ser feito, é o salto de fé de que fala Kierkegaard) – não alcanço (não naturalmente, não sem um duro esforço) dar-lhe a ênfase que ele lhe confere, o que o livra de cismar apenas, para concentrar-se em propagar a Única Luz Possível, que ao fim pode e livrará o homem que nela crer, do Labirinto e seus minotauros. A mim, poeta sem o ter querido ser, circunscreve-me e define-me a contemplação do calmo horror. Sorrio e brinco e amo – mas não alcanço relativizar ou travestir os monstros. Eles não se escondem debaixo de minha cama, como talvez da tua; eles são a minha cama, são o ar, o almoço. Sou Entropia preso num processo entrópico, deflagrado por Adão & Satanás. Minha oração pela manhã ou ao dormir é sempre ‘basta, Senhor’, e não me envergonho disso, tenho lucidez demais para envergonhar-me. Que eu não escandalize nisto a meus irmãos, mas a boca fala do que o coração está cheio, e tenho neste momento amor em meu coração, mas também toneladas de tédio, enquanto trabalho em e entre livros, cercado de tantos livros e conhecimento e sua solidão de traças. Quisera então, simploriamente, ser só mais um em Esparta, em Stalingrado. Entenda: Uma-vida-rápida-e-objetiva-e-uma-morterápida-e-objetiva, sem espaço para a lamúria farfalhante da Filosofia, ou mesmo da segunda-feira... Com as lágrimas de minha doce mãe a mil seguros quilômetros de distância. Morrer sem delongas numa única e épica batalha, num lugar ermo e

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distante de qualquer mulher, qualquer pranto pueril e vão. Realizar no fio da navalha aquilo tudo que Adão nos logrou. Mas este afinal é um livro de poesia, e estes poemas e suas fantasias poderiam ser outras, nesse meu quase (mas isso é ilusório, pois minha pulsão é cambiar a entropia pela eternidade, o que morre aos poucos e ininterruptamente pela plena imortalidade) blasfemo cortejar a Morte. Mais e melhor que ter sido Borges ou um bibliotecário em Alexandria, de posse de tudo aquilo que os sucedâneos incêndios perderam; melhor que terminar como um velho milionário morrendo de velho numa cama d’água de um hospital; ah!, ah!, retro-ceder e ser um partisan nas montanhas da Iugoslávia, ombreando a fabulosa audácia de Tito!... Mas não tive esta honra. O que faço hoje? Vou para o Sudão do Sul, Ruanda? Mas armas e amor, são como óleo e água. Não há consórcio exequível. E eu estou misturando tudo em minha pulsão de fuga. E a ignorância é mesmo uma bênção, ou biblicamente falando, “aquele que aumenta em ciência, aumenta em angústia”. Há um outro agravante para tanta cisma - aos homens falo: sabem aquela sensação desconsolada de ter nascido na época errada? Isso já te perturbou, não é, envelhecido guri? Neste mal fui iniciado aos nove anos, ao ver desenhos animados sobre o Ciclo Bretão, como são chamadas as lendas de Arthur e sua Távola, que tantas vezes emulei em meu quintal, com cabos de vassoura e restos de ripas de caixote. Mas hoje tenho 34 pacatos anos e uma barbicha rala na cara, porém a sensação persiste nos momentos de melancolia, como agora. Ah, perdoem minhas lamúrias de poeta. Deus sabe de todas as coisas, e não há sequer sombra de erro em seus calendários – Ele
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não erra no tempo, Ele não erra no espaço. Estamos onde devemos estar, somos o que devemos ser. E basta.

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Mesopotâmia
∞ a.C.
Este livro terá sido inútil: Nem se eu relatasse As misérias de cada desgraçado ao meio-dia, Sob o sol, eu expressaria O tamanho de minha dor: Sou-vos o pai, Adão, a tumba, Terror, traição e mestre aborteiro. Tive 42 filhos. Num tempo, 32 deles fizeram-me a guerra, Capitaneados pelo primogênito meu e da morte, Caim. Num tempo prevaleci E assassinei-os a todos, ao meio-dia, Sob o sol. Mas de que lhe valeira eu relatar esta longa Guerra, andarilho? Assassinar 32 filhos e suas sementes: A dor é como uma outra alma Dentro de minha alma, Ente sem linguagem, sombra sem corpo, Não posso trazê-la para as palavras para as 4 dimensões em que habitamos – se exposta ao ar, vestida de materialidade sinto que ela nulificaria o próprio sol. O colapso é tão açambarcador Que nada que eu possa Pode combatê-lo:
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será necessário que se cumpra a esperança que me permite persistir: quando Deus enviará o próprio Deus para reverter tudo o que eu matei. Se já debandou de sua carne a infância, andarilho, Você conhecerá com certeza o Abandono; O silêncio retumbante dEle, Que confunde uns, faz desacreditar a outros. Eu conheci a Presença e o Abandono: Qualquer linguagem caída que eu possua Será também aleijada para nomear sequer As circunstâncias do Esplendor.

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O FIM

Naquele Dia toda a gama dos espectros eletromagnéticos inverter-se-á; os sons soarão de revés, as luzes brilharão ao contrário

quando o Anjo tocar sua grande flauta

a rEaLIdaDe inteira se enrolará como papiro incendiado, numa omni-vasta-espiral-big-crunch

o pau-de-arara o garrote a dama-de-ferro o tronco o chicote nunca nunca nunca mais

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Autor
Sammis Reachers é poeta, antologista e blogueiro. Autor de A Blindagem Azul, Uma Abertura na Noite e CONTÉM: ARMAS PESADAS (poesia); organizador de 3 Irmãos Antologia (textos de Gióia Júnior, Joanyr de Oliveira e J.T.Parreira); Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa; Breve Antologia da Poesia Cristã Universal*; Águas Vivas 1 e 2 (reunindo textos de poetas evangélicos contemporâneos); Antologia de Poesia Missionária e Sabedoria: Breve Manual do Usuário (antologia de frases). Todas estas obras podem ser baixadas gratuitamente (clique sobre os títulos). Mantém mais de 10 blogs, incluindo os literários Poesia Evangélica (desde 2006), O Poema Sem Fim (pessoal), Liricoletivo e Mar Ocidental (estes colaborativos).

* A ser publicada na internet em Agosto de 2012

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