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Mary Louise Pratt
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EOl1§C
Editora da Unlvartldada do Sagrado Coração
COO1'detlação Editorial
Irmã ]acinta TUi'Olo Garcia
Assessoria Administrativa
Irmã Teresa Ana SofiJ tti
Assessoria Comercial
Irmã Áurea de Almeida Nascimento
Coordenação tia Coleção Ciências ,,'iociais
Luiz Eugênio Véscio
.di.
c:tencJaS SOCIaIs

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olhos do •
relatos de viagem
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e transculturaçao
Tradução
Hernani Bonfim Gutierre
Revisão técnica
Maria Helena Machado
Carlos Valero
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conSClenCla
planetária,
interiores
uma viagem pelo mundo em
, se f;.r,zer mestre da geografia do universo pelr)s mapas, albs l'
, , de nossoS matemáticos, Pode viajar por terra com
nossos historiadores, pelo mar com os Pode circu­
navegar o com Dampier e Rogers, e, ao fazer isso.
nül vezes mais do que rodos os m"rinheiros iktrados.
(f1!1I1/ellli/ll (1750)
'(Daniel Defoe, 11Je Comp/eat
A paesiH mio está mais em moda, Todos passaram a hrincar dc'
scr geômetra ou físico, Sentimento, c ;\s gra,:;ls
banidos .. , A líteratura est{1 nf'rf'cendo ante nossos ",cínrios olhll"
(Volta ire , C\na a Cicleville. 1(, de abl'iI de
A
européia desta história começa no ano cu­
ropeu 1735, Ao menos este é o ponto em que a narrati·
va começará a história leva outros vinte ou trinta
para realmente deslanchar. No ano de <;lCorrem dois
eventos de certa forma e
Um foi a publicaçào do S)JstemCl Natll me (() Sis/ema do No·
Ar! IlIlclprel:l!ioll,
I l':m()I1, l(j(Íq nl26 ,,\
'{JI'rf'SI>OII{!('II(;e de Volt"jr<\ \'01. rv,
ferênd" " li
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41
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ciência e sentimento, 1750-1800
tureza), de Carl Linné, no qual o naturalista francês estabe­
lece um sistema classifica tório que :visa categorizar todas as
formas vegetais do planeta, fossem conhecidas ou des­
conhecidas dos europeus, O outro foi a inauguração da pri­
meira expedição científica internaçional da Europa, um es­
forço conjunto visando determinar de uma vez por todas a
forma exata da Terra, Como pretendo argumentar, estes
eventos, e sua coincidência, sugerem a importante magnitu­
de das mudanças no entendiment9 que as elites européias
tinham de si mesmas e de suas· com o resto do
mundo. Este capítulo se volta para ª emergência de uma
nova versão do que gosto de chamar "consciêncÍ<l
ria" da Europa, uma versão marcada pela tendência à explo­
ração do interior e pela construçãq c/cp significado em nível
global por meio dos aparatos da história natural.
Esta nova consciência planetária, como sugiro, é elemento
básico na constru.ção do moderno eurocentrismo, o reflexo
hegemônico que incomoda os Çlci<;1entais, continuando
mesmo a ser uma segunda natureZa para eles
Sob a liderança francesa, a expedição científica inter­
nacional de 1735 foi montada ccin\ ç) fito de responder a
uma candente questão empírica: seria' a Terra uma esfera,
como afirmava a geografia (francesa). cartesiana, ou seria
ela, como Co inglês) Newton havia conjecturado um esferói­
de achatado nos pólos? Esta era uma questão altalT;ente car­
regada pela rivalidade política entre França e Inglaterra. Um
grupo de cientistas e geógrafos, líderados pelo físico francês
Maupertuis, foi enviado para o norte, para a Lapônia a fim
de mensurar um grau longitudinal no meridiano. Outro, ru­
mou para a América do Sul para proceder à mesma menstl·
ração no Equador, próximo a Quito. Nominalmente encabe­
çada pelo matemático Louis Godin, esta expedição entrou
para a história com o nome de um de seus poucos sobrevi­
ventes, o geógrafo Charles de la Condaminc;,
A expedição La Condamíne foi um triunfo
co marcante para a comunidade científica européia, Os ter­
ritórios americanos da Espanha estavam estritamentê fecha­
dos para viagens oficiais de estrangeiros de qualquer tipo e

__-1
42
-
ciência, consciência planetária, interiores
haviam permanecido assim por mais de dois séculos, A oh­
sessão:da corte espanhola de proteger suas colônias (k toela
influência e espionagem estrangeiras era legenebria. Após
perder10 controle do tráfico de escravos para a Grã-Breta­
nha em 1713, a Espanha havia se tornado mais
que nunca em relação às incursões em seus
econômicos e culturais. Quanto mais se torn:\­
varri os <contatos internacionais ebs elites criollbs L't1l SlI::";
colônias, mais receosos ficava;11 os espanl,óís. "A
dos espanhóis", escreveu o cors8rio britflnico
gunda década do século "consiste
procurar;: por todos os meios e
as vastas .riquezas daqueles extensos domínios
mãos.'" O conhecimento dessas riquc!.<ls, :lllrl1HHI
I3etagh\e "da! grande denunda, entre americanos, por pn
dutos europeus tem excitado todas aS n:lç'cJc,;
da EUrGpa.'i As instalaçôes militan-:s nos portos Américl
e a mineração no interior eram :IS clU:1S ('Ollstrll
coloniais mais cuidadosamente nrorel'id:IS do olhar
tern?, ao meSmo,l.rempl) em
te investigadas pelos ,rivais de .
o rei .da França contratou um jovem t'ngt.:'nhc:iro
cio para viajar ao longo da costa do Chile L' do
fingindo-se de comerciante, "para melhor ip ,scuir-sc cn!
espanhóis e ter todas as il íd:ldl's d,'
Obcecado minas, '<rl'ziel' I,)
grou ver uma. No entanto, me:,mo os rel:llos ele segu
mão que ele reproduziu, foram avidamente pe­
los leitores na França e na InglaterrJ. auscncia l;,'
escritos sobre a América do Sul, o compibclor da dv
de Churchill, em 1745, traduziu noUS soiJt-e o Cl1i­
le, escritas um século antes pelo Jesuíta f'sn:lIlhol i\lol1s0
2_ Capitt10 Ilcragh f)hsemalioI/S())llbeColIIllr!.u/l •••1.II (/lId
Ia//IS DIlI'ÍII,íi his CC/piioilV in ,/ohn l'inkerton ("li,·, '. (/11/1
in ali Paris World, London, Longman el alll, \01. i-\, I MI.". p.
M. Frézier ;1 Voyage lO Ibe ""ou/h Sea cmd (iIO!l,l
anel Penl in Years 1712. /7/3 e 1711, lradu!.ido do .,:\,;1 (\ 111
glês c editado por London, Lonah Bowyer. l717, l"l'Lki,
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ciência e sentimento, 1750-1800
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Ovalle.
4
No que se refere ao interior da América hispânica,
mesmo relatos antigos eram mais confiáveis que conjecturas
ccntemporâneas , ccmo a descrição que faz Betagh de UO!
terremoto no que "levantou áreas inteiras e as arras­
tou para milhas dali. "5
No caso da expedição La Condamine, a coroa espa-
I _
nhola pôs de lado o seu famoso protecionismo. Avido por
alicerçar o seu prestígio e mitigar a "lenda a respei­
to da crueldade espanhola, V aproveitou a oportuni,
dade para agir como um ilustrado monarca continental.
Condíçôes estabelecendo os limites expedição
acordadas e dois espanhóis, Antonio de Ulloa e
ge Juan, agregados para assegurar que a pesquisa
não desse lugar à espionagem - o que prontamente aconte-
I
ceu. Da mesma forma, praticamente tudo o mais erra­
do. A expedição La Condamine foi 1..Im empreendimento tão
árduo que mais de sessenta anos Sy passariam antes que
qualquer coisa semelhante fosse outra vez tentada.
6
Rivali­
dades dentro do contingente francês rapidamente cindiram
0.5 vínculos de colaboração. A cooperação internacional deu
lugar a interminável disputa com autoridades coloniais
sobre o que poderia ou não ser visto, medido, desenhado
ou quais amostras poderiam ser recolhidas. A certa altura,
toda a expedição foi mantida em Quito por oito meses, acu­
sada de planejar o saque dos tesouros incas. Os estrangei­
ros, com seus estranhos instrumentos, suas men­
surações - da gravidade, da velocidade do som, alturas e
distâncias, cursos de rios, altitudes, pressões
eclipses, refmçôes, trajetórias das estrelas eram objeto de
contínua &uspeita. Em 1739, o médico do grupo foi assassi­
--I
4, Alonso de Ovalle - An Htsloricaf Relútion lhe Kingdom of Chile
em Pinkerton, op, cito vol, 14, pp, 30-210,
5. Beragh, op. cit" p.S.
6, Mínha analise nesse ponto faz uso trabalhos de Victor Von Hagen
- South Amerlca Calted Them, New York, Knorf, 191'1; lfélêne
- Introdução a Voyage sur L íimazone de La Condamine, Paris, Maspero,
1981, pp.5-27: Edward J. Goodman - Tbe fJxp/orers of South Amerim,
New York, Macmillan, 1972,

cíênciu, conscifncia planetária, interiores
nado após ter se envolvido numa entre duas
rosas f;unílias em Cuenca; no Equador; LI COl1daminc p' lI'
pouco escapou do mesmo destino, Uma batalha iudicial f()i
travada por r'nais de um ano sobre se a de
poderia ser afixada sobre as pirâmides triangulares eh expc­
dição fleur de lys perdeu), A é'xploração do interior eS(;J
va provando ser um pesadelo político aineb ma ior cio
a sua precedente marítimn,
Os pesadelos logísticos da cio interit lI'
eram tambçm novos, e a expedição La ConclamÍne n:lO foi
poupada de nenhum deles, Os rigores do clima allclino e J
viagem por terra provocaram enfermidades continuadas,
•. I
danificados, Derda de eSDécimes, cJck'mos de
anotações n;lOJhados, frus
o grupo francês se desintegrou clbendo a
cada um encontrar sua própria maneira de voltar para
>' I, '
ou, então, permanecer abandonado na América cio Sul. A.in­
da qUe 'a expedição sul-americana tivesse tido inído UI1l
antek de sua contrapartida enviada para o Artiol,
. l
damente uma década transcorreu antes que os
começassem sua tortuosa volta pnra a
Há muito, a questão do formato da Terra bavLl siclo decidi,
da (Newton ganhou).
Além de informação sobre outros assunto.", () grup()
sul-americano trouxe para casa desconfon:i veis sohr,'
a política e o (anti-) heroísmo da ciência. O l11atcm:lti(;,) Pil'l
re Bouguer retornou primeiro e ficou com ;1 glória ele
o ocorrido à Academia Franrpça de La CondamÍlll:
em 1744, via e foi aclam:ldo pur sua inC'
dita jOiI1ada amazônica. Por meio de uma Glmp:l­
nha contra Bouguer, La Condamine conseguiu se firmar por
toda a Europa como o príncipal da expcdíç:\u, En..
quanto isso, Louis Godín, o lideI' nominal c:a expedicão, es­
tava lentamente percorrendo o caminho de volta,
a Espanha, em 1751, foi-lhe
devido a
O naturalista Joseph de continuou n Hll suas pcsqu
.'ias na Nova foi m:ll1d:lc!O t'mhl
,\;-,
ciência e sentimento, 1750-1800
.<1 de Quito, completamente louco. O jovem técnico Godin
des Odonnais alcançou Caiena, onde esperou dezoito anos
por sua esposa peruana (voltaremps à trdjetória desta mulher
ma:.s adiante), retomando finalmente para a França em
Dos outros, nada mais se ouviu.
A cooperação da Espanha com a expedição La Conda­
mine constitui evidência flagrante do ipoder da ciência para
elevar os europeus acima de suas mais intensas rivalidades
nacionais. O próprio La Condamine celebrou este impulso
continental no prefácio a seu relato da viagem, no qual con­
gratulou Luís :XV por apoi?r a científica entre as
nações consorciadas, mesmo quando, simultaneamente, em
guerra contra elas: "Enquanto os exércitos de Sua Majestade
moviam-se de um confim a outro da Europa," La
Condamine, "seus matemáticos, por toda a Terra,
trabalhavam em Zonas Tórridas e Frígi'jlas, para o av<mço das
ciências e o benefício comum de todas as nações.'" Todavia,
não se pode deixar de notar aqui o cpnspícuo tom naciona­
lista de La Condamine: o cientista francês orgulhosamente
congratula seu próprio rei por seu cosmopolitismo esclareci­
do. Num espírito.igualmentc dúbio, tanto a Real Sociedade
Britânica quanto a Academia France,sa de Ciências galardoa­
ram os espanhóis Juan e DUoa com o título de membros ho­
norários - gestos transnacionais indissociáveis da intensa ri
validade nacional entre a Grã-Bretanha e a França e seus in­
teresses conflitantes na América espanhola. Tais gestos
resumem o jogo ambíguo de aspirações nacionais e conti­
nentais que havia sido uma constante ao longo da expansão
européia e que haveria de permanecer assim durante a era
da ciência. Por um lado, as ideologias dominantes traçavam
uma dara distinção entre a (interessada) busca de riqueza e
a (desinteressada) procura de conhecimento; por outro lado,
. de la Condamine - A Succint Abridgi!ment ()f a
made withín the Inland Parts of Suuth-America, Lonclon, E.
,
1748, p.iv. Esta é a primeira tradução em Inglês de seu Relatiun abrégié
d'un voyage fait dans l'íntérieur de l'A mérique meridionale (1745) (ecl

bras.: Ralato abreviado de uma viagem pelo interior da América meridio­
nal, São Paulo, Cultura, 1944J.
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a compeuçao as naçoeq cOntinuou a ser () !1l()lor (1:1 c\
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pansao europela no extenor.
Num aspecto, a expedição La Concbmine t'oi unI su­
cesso verdadeiro: elhquanto relato. As hist(írí"s L' texlOS
ela provOcou, circularam por toda a pm
em circuitos escritoS e orais. De fato, o corpo de textos
sultante daexpecliçào La Condamine sugere hcm () alc:lllr,"l'
e a vadedade dos relatos de viagem produzidos el11
do sécülo ),.'VIII, relatos que, por sua vez, trouxcr:l111 outr:lS
as imaginações cios [11ll
breve inventário dos relatos da 1.<1 Condanlím'
sugerir o que significa falar sohre
relatos'e zonas de contato neste momento da llistcíria,
O matemático13ouguer, o primeiro a retornar, escreV('u
seu relatório para a Academia Francesa de CiC:nchl,s em ]7-H,
num,) Narrativa Ab,'eviada de urna Viagenl (I() PCI'/I, Dl'
cio, a do cientista predomina neste retllo. e;ill"LllLlrandn·
se o discurso em torno das
etc. Entretanto, quando sua viagem se volt:l r1:lr:1 i)
narrativa científica de Bouguer se c
de sofrimentos e privaçôes qUl' !lll:S11l0
leitura se torna comovente. No ponto em que a
aéarllpa no topo da gelada cordilheira elos Ande."i, IXlssagl'I1,'
sobre frieiras hemorrágicas e escravos ameríndios ll1on'(:mlt 1
do frio se confundem com
cio calor do corpo. Sobre as minas, Bou­
guer relaw apenas boatos, observando que '.i]
natureza do país" torna difícil que outras detas sejmn encon­
tradas, e também que "os índios são sábios bastl!1te par:l I)
muito pre3tativos neste tipo de
"caso fossem bem-sucedidos, estariam
a quase insuportüvel exploração de seu
do porção ínfima dos rendimentos."
"
Bouguer t:unl)em pro­
duziu um livro técnico sobre a expedicão
c!la \,"(:}YI/!{' lu ( I 1.'111
Pierre Bouguer - Ali
I'inkerton, ojJ. Cil., vol! ,i,
n'

e sentimento, 1750-1800
FigA. A expedição La Condamine fazendq mensurações. Extraído de
Mesure des!rois premiers degres du Méridie'n dans I'Hémispbere Austral
(Mensuraçào dos Primeiros Três Graus do Meridiano no liemiftério
Austral), de Charles de la Condamine, Paris, lmprimerie Roya!. 1751.
La Condamine também pl.lblicOll seu relatório para a
Academia Francesa, sob o título Breve Narrativa das Viagens
através do Interior na América C;o Sul (745), o qual foi mui­
to lido e amplamente traduzido. Talvez porque Bourguer já
tivesse falado d2 palte andlna da missão, o relato de La Con­
damine se volta principalmeme para sua extraordinária via­
gem de volta, descendo o Amazonas e suas tentativas de re-.
gistrar seu curso e afluentes. O texto é escrito essencialmen­
te não como um relatório científico, mas no gênero popular
da literatura de sobrevivência. Ao lado das navegações, os
doIs grandes temas da literatura da sobrevivência são os so­
frimentos e perigos, de um lado, e as maravilhas exóticas e
as curiosidades, de outro. Na narrativa de La Condamine, o
drama das expedições do século XVI na região Olellana,
Raleigh, Aguirre - é recapitulado com todas as suas associa­
ções míticas. Ao adentrar na selva, La Condamine se encon..
tra "nu.:n novo mundo, longe de tedo comércio humano, so­
bre um mar de água fresca ... Lá me encontrei com novas
ciência, consciência planetária, interiores
plantas" novos animais e novos homens."') Ele
como· já haviam feito todos os seus precursores, sobre a ]0­
calização 'do El Dorado e a existência das amazonas, as
,I .:.
quais, ainda que bem possam ter existido, muito provavel­
rnente':tenh,am hoje em dia abandonado seus costu mes
mevos."lO A selva permanece sendo um mundo de fascina­
ção'e perigq.1l
Âinda'q\Je a Breve Narrativa de 1745 certan'lente'
mais conhetida das obras de La Conda:rliI1t', ele tamhém P(,­
blicol! copios:Jmente em outrns gêneros, todo." l'lcs
viagens americanas. Sua "Cal1a ' ,1
em Cúcnca" surgiu em 17tí6, seguida por um:l flisl(i
ria do,." Pirâmides dé Quito (1751) e por um rt'l:ltórlo a
Mer.s/traçâo dos Primeiros Três Grel/Is do J[(,l'idüIIlO
, 'I' di .
Pe o resto e sua vida, ele se empenhou na
eem pblêmkas sobre um leque de temas científico::: relacio­
nados ã América, incluindo os efeitos do
(amplamente utilizada por missiomírino; eSIX\'
nhóis),a existência das Amazonas, a geografia cio Orenoco ('
do RíoNegro. Ele esCreveu sobre a borracha. que arrcsentoll
aos cientistas europeus, o curare e seus antídotos e a neles,·
siclade pflclrôes europeus comuns de mcnsuraçüo. Os cs­
ctitos científicos especializados de La Cone!:lmine d:lO a ml'­
(lida de quanto a ciência veio articular os contatos
com a fronteira imperial e cio quanto foi articulada por o
Foram os dois espar,hóis l' .llloa
elaboraram o único relato extensivo da
por Ulloa, a pedido do rei de
lica do Sul veio a público na Espanha em 1747. v sua tLI
feita por John Adams, mereceu cinco
<: Ullqa .1, nem cié!lei:l. 1ll'11I litcr:ltu
de está escrito num estil() que gosto (Iv
cívica". Virtualmente iSl'nto de
La Condal'linc, ofJ, Cil, p.24.
Ir). IbícL, p.51.
11. Evident<:lllente, ainda C;, A nwís recente re-l'11cc·I1;IÇ·", tI:! I'r<
amazom:s é 1?1I1111Í1/,f, lhe ..1//!C/ZOII, ele 1<:II1l'. 't'\\· Ymk, l{:111l'.
House, J989

ciência e sentimento, 1750-1800
quer rodeio de entretenimento, o livro é um enorme com­
pêndio de informações acerca de muitos da geo­
grafia colonial espanhoía e da vida nas espanholas
'-.....' é claro, minas, ...'-LV,
mações estratégicas. É um trabalho "estatístico", no sentido
original do termo, isto é, "uma investigação sobre o estado
de um país" (Oxford English Dictionary). Adams louvou o
tratado por sua confiabiHdade emj ,contraste com os "pom­
posos narradores de curiosidades maravilhosas,"12 uma alu­
são à literacura de sobrevivência e provavelmente
a ta Condamine, em particular.
]uan e Ulloa também endereçaram a seu rei um se­
gundo volume, clandestino, intitul;:tdo Noticias secretas de
América (Nntícias secretas da Am<1rica), que dissertava criti­
camente sobre vários aspectos da colonial espanho­
la e, como um cOmentarista obselvou, llmuito
que não foi dito nos trabalhos dos
Não foi senào nos primeiros anos, <;lo
Império Espanhol entrou em seu
obra caiu :las mãos dos ingleses e
Junto ao catálogo de textos da La Conda­
mine que foram publicados, existe, I um rol de escritos que
não :J foram inclui, por exempto, o trabalho de ]osepb
de ]ussieu, () naturalista que permaneceu na América do Sul
e continuou a exercer sua profissão por outros vinte anos.
Quando ele afinal enlouqueceu e teve de ser reembarcado
de Quito para a França, os que o enviaram,
ao que parece, perderam de vista o baú que continha o tra­
de toda a sua vida de Apenas um estudo,
sobre os efeitos do quinino, veio a ser publicado - sob o
nome de La Condamine! O restante
dia em Quito.
A mais apab:onante e duradoura história que adveio
da expedição La Condamine foi um relato oral
-1,2. ­ Prefácio a VOy(lge lo Sowh AII/('ric(1 (747), em l'inker­
ton, op. cit., 14, p.313.
13. Von - op. cit., p.300.
f'
, -,,--_.
ciência, consciência planetária, interiores
apenas parcialmente. É lima história de sobrevivência
herói não é um homem de ciêncb eurupcu, IJUS Llllla IlIU­
lher euro-americana, IsabeIa Godin des Odor.ais, da aristo­
peruana, que se casou com um membro da expe(li­
com quem teve quatro filhos. () Tia men t ()
do grupocientífíco, seu G1arido rumou para Caiena. onde
passou dezoito anos tentando obter
gem para a França para si mesmo e sua família. Após a tLÍ­
de seu quarto e último filho, Mme. Godin, ago­
ra já c9m maIs de quarenta anos, tomou uma ousada deci
são. Acompanhada por um grupo que incluía seus irm;los,
sobrinho e numerosos criados, partiu para se juntar a seu
esposo atravessando os Andes e descendo o Amazonas
pela mesma rota que fez de La Condamine um herói. O de­
sastre se. seguiu. Consta que, amedrontados pela varíoLi.
seus guias indígenas desertaram, e todos, incluindo seus il'­
sobrinho e criados, morreram após definharem por
dias na selva. Mme. Godin, em delírio,
mente voltou sozinha até o rio, onde foi resgatada por ill­
erm canoas que a levaram até o
Com
assim prossegue o il COSI<I
da Guiana para ser levada para a :;empre
devotado marido.
A romântica e arrepiante narrativa de . Goclin
publicada em 1773 - não por ela, mas por Sl" c:-:pOSO, a pc­
dic\o de La Conclamine, que a anexou às ele "U;l
pria narrativa.'!' Mesmo hoje, o ocorrido (> profuJ1cbnCIlll'
emocionante, suas complexidades irresistíveis, elmo pare­
cem freqüentemente ser sempre que prot:lgoni:;tas femini­
nas aparecem na prosa sobre <I coloniaL A históri:l
Mme. Godin é uma reaoresentacão cI;l grande proem;1
ama/ona - ou
a isto. O amor, a e :l :;C'l\";l tral1SfOflll<ll11
a mulher crioula. ele uma aristocrata bntllCl. na ('ombatI\':i
1 'L Goclin eles Odollnb Carla M. la C()Il,Llll1íllL',
,
anexada li Ahrh(r;ed Nmnllil'i? em Pinkerlon, u/l. cil.
51.
1 )
e sentimento, 1750-1800
mulher guêrreira que os europeus .haviam criado para sim­
bolizar para si mesmos a Amériql. Ao mesmo tempo, sua
saga a destrói enquanto objeto sexual: Mme, Godin emerge
Como uma versão real da arruinada princesa Cunégonde, do
Cândido. Inversões simbólicas abundam na história, O co­
mércio de ouro, por exemplo, tem sua direção revertida, A
certa altura, Mme, Godin oferece duas de suas correntes de
ouro para os índios que salvaram a sua vida na selva, inver­
tendo o paradigma da conquista, Para sua fúria, os presen­
res foram imediatamente tomados pelo padre residente e
substituídos pela quintessência da mercadoria colonial: teci­
dos, Por tais deliciosas ironias, não admira que a amazona
de Mme. Godin tenha feito carreira e circulado por toda a
Europa por mais de cinqüenta anos, A carta de vinte
nas seu marido representa um traço modesto de uma
exü,tência vital dentro da cultura oral.
-ütapete além da orla
Textos orais, textos escritos, perdidos, textos se­
cretos, apropriJ.dos, abreviados, traduzidos, coligidos e
giadosj cartas, relatórics, histórias de sobrevivência, descri­
ção cívica, narrativa de navegação, monstros e maravilhas,
tratados medicinais, polêmicas acadêmicas, velhos mitos
reencenados e invertidos - o "corpus" La ilustra
o múltiplo perfil dos relatos de viagem nas fronteiras de ex­
pansão da Europa em meados do século XVIII, A expedição
mesma é de interesse neste contexto C0l110 uma instância
precursora e notoriamente malsucedida daquilo que logo se
tornaria um dos mais ostentados e conspícuos instrumentos
europeus de expansão, a expedição científica internacional.
Na segunda metade do século XVIII, a expedição científica
torn'lr-se-ia um catalisador das energias e recursos de intrin­
cadas alianças das elites comerciais e intelectuais por toda a
Europa, Igualmente relevante é que a exploração científíca
haveria de se tornar um foco de inte-nso interesse oúblico, e
..
ciência., consciência planetária, interiores
--,.,:,,-,.. .
.. Jwn"t-IAf''f''t,,,,,u
u"'''''':..r·.....,."... ,k.' .
Fig.5. fenômenos naturais da América elo Sul, tais COlllO vi,;[os peb l':\-
La Condamine. Embaixo, 11 () nJilr',o
de neve e em o canto haí:-:(J. :1 dirciu, 1"l'[lW.'C'I··1.1
o "renomeno do arco da "obre d:ts 11l' )111.1
nhas;' acima, 2t direit;l, ilUotra'se o "fenômeno do IIICO-ir!'. Iriplo. á'I('
primeira vez em Pambamarca e :JosteriOrJ11l'llll' CllI \·'·lli",
montanhas," EXlr:lído /(e/acióll bi'i/e)l'ica de/rio/i' fi lo .llIlcn«(I
ridíonat, deJorge Juan e Amonio de U!lo<!, Madri . .'\nloni" \1:11'111. 1- li,
fonte de alguns dos mais poderosos l
de idealização, por meio dos quais os cicladl'rus
relacionaram com outras paltes do mundo. Estes l'
palticularmente os relatos de viagem, sào o lema 11 ser tra":l'
lhado em
Para os propósitos deste estudo, a La COll­
damine também possui um significado pois foi
dos primeiros exemplos uma nova !lO que
refere à e à documentação dos interiores conli­
em contr,tste com o paradigma marítimo que'
ocupado o centro do oalco por trezentos anos, No:; últimus
;-.)
:).)
:,




novo
sobre
mais
dade,
cidas
suas
'1'
ciência, planeUíria, interiorps
ciência e sentimento, 1750-1800
",:,-_,_.---...-._-,-----...,
ças na concepçüo CJue tem a Europa ele si Il1l'SIll:1 c (1('
anos do século XVIII, a exploração do interior havia se transe
.globais. Não obstante seus calamitosos :\
formado no objeto principal das energias e imaginaçãp
expediç1l,o aparece .como precursora. Enquanto relato.
pan8ionisas. Esta mudança teve significativas
exerriplifica; <:onfigurações de relatos ele viagem que, 11:1
para os relatos de viagem, exigindo·c dando vazão a novas
,11edida em que formas burguesas de autoridade ganhavanl
fonuas de conhecimento e autoconhecimento europeus, no­
vos modelos para os contatos além-fronteiras e noc
seriam radicalmente reorganizados. (O
vas formas de codificação das ambições imperiais européias,
seguinte examinm'áestas transformações nos cclatos de via­
Em o espi'lo francês Frézier impossível a
gem na África Meridional.) Na segunda metade do século
exploração interior do Peru dado Rl1e "os viajantes devem
XVIII, muitos viajantes-escritores vãc se dissociar de tr:Jcli­
carregar até mesmo suas próprias qUlfas, a menos que açei­ tais como a da literatura de sobrevivê
nrí
tem deItar-se no f:hão, como os natiyos, sobre peles de ove·· cívica OU narrativa de navegação, pois se
lha, tendo o céu por teto,"15 Para o prefaciador inglês do re­ projeto de construção de conhecimento da história
segul1­
lato de Ulloa, trinta anos mais tarde, a exploração do interior A emergência de3te
de
é: um passo ser forçosamente dado: I!Que idéia poderíamos do evento de ] que prometi discutir: a
ter de um tapete turco", pergunta, "se 'observarmos apenas as Sistema da Natureza, de Lineu.
berras ou suaorla?"16 Ao redor de ;.1792, o viajante francês
Saugnier viu isto como uma questão de justiça glolx;l: o inte­
rior, tanto quanto a costa da África, "merece a honra" da visi­
o sistema
taçãc européia.
17
Em 1822, Alexànder Humboldt
"nâo haverá de ser pela navegação costeira que poderemos
descobrir a direção das cordilheiras e sua constituição geoló­
a expeOlçao La Condamine <-,Sl;IV;1 cruzam'. )
gica, O clima de cada região e sua influência sobre as formas o em nome da ciência, um naturalist:! succo de \'in­
e hábitos dos seres organizados." Para seu tradutor inglês, a te e oito anos levava ao prelo a sua primeir:l grande contri­
questão era de ordem estética: "Em geral, as expedições ma­ ao O l/aturalista se chamava Cad LinnG ou, l'Ill
rítimas têm uma certa monotonia que vem da necessidade Linnaeus, e o livro tinha por título !V{/Ilil'(/(! (()
se falar continuamente da navegação numa linguagem técni­ Sistema da Natureza). Encontrava-se aí uma cxtr,I()[,'
ca A história das jornadas por terra em regiões distantes é -dinária que teria profundo e duradouro il11p:lCto 11:10 '00
muito mais apropriada para incitar (; interesse geral."'R e os rehltos de viagem, mas n:1 maneir:l
Como portanto, a expedição La Condamine dos cidadãos europeus construírl'11l l' l'omprcl'lI
de uma era de viagens científicas e derem seu lugar no planeta. Para um leitor COnrCI11p(Jr:1nc(),
interior que, por seu turno, sugere mudan- () Sistema da Natureza parece um fcito modcsto v, n;l Vl'l'
um tanto quanto escranho. Era um si:;tema c!cscritÍ\·')
designado panl classificar rodas as plantas d:1 Terr:I, conlll'­
15, Frézíer, np. cit., p.lO.
e desconhecidas, de acordo com as C:lr:1C!l'1 ístic,s (
16 ..... dams, 01'. cit., p.314.
17. Messrs. é Blisson - Vo.vages to the Coas! ofAfrica (1792). Ne- reprooutivasl'l Vinte e CJllatro (c. 111:lis l:l!'(!c. \111
gro U. P., 1969. é tradução em inglês do original francês de 1792 Re­
.lation de plusiers voyages à la côte d 'À./rlque.
18. Alexander von Humboldt Persortal Narratiue of Cf Voyage to lhe
19, A de Lineu e d;\ bístória natural
Equinoctíal Regiom, tradução para o inglês de Helen Maria Williams,
das seguintes fontes: Heins Goerke Ceci.) - Li,ll1a('iI'.
London, Longman et alU, 1822, voI. I, p.vií:
:'ir)
.. ---.-
-----------------------
. ciência e sentimento, 1750.180('
r'
te e seis) configurações básicas de estames, pistilos etc. fo­
ram identificadas e distribuídas de acordo com as letras
alfabeto (veja:..se ilustração 6). Quatro parâmetros visuais adi­
cionais completavam a taxonomia: númeto, forma, posiçào
e tam:mho relativo. Todas as plantas da Terra, argumentava
Lineu, poderiam ser inseridas neste simples sistema dis­
tinções, incIuindo aquelas ainda desconhecidas pelos euro­
peus. Tendo sua origem nos esforços c1assificatórios anterio­
res de Roy, Tournefort e outros, a abordagem de Lineu tinha
uma simplicidade e elegância ausente em seus antecessores.
I
Combinar o ideal de um sistema c1assificatório de todas as
I
plantas Com uma sugestão concreta e prática, de como cons­
truí-lo, constituía um tref.1endo avanço. Seu esquema
considerado, mesmo por seus críticos, como algo que .impu­
nha ordem ao caos - tanto ao caos da natureza como ao da
botânica anterior. "O fio de Ariadne em botânica', afirmou
Lineu, "é a classificação, sem a qual só existe o caos. "lO
Como veio a se verificar, o Sistema de 1735 foi ape­
nas um primeiro passo. Enquanto Condamine abria seu
caminho pela América do Sul, Lineu aperfeiçoava seu siste­
ma, dando-lhe forma final em suas duas obras capitais, Phi­
lo:;ophia Botanica (1751) e Species Plantarum (753). É a
estes trabalhos que a ciência européia deve a nomenclatura
botânica padrão que atribui às plantas o nome de seu gêne­
ro, seguido por sua espécie e por qualquer outra diferença
de Denver Líndley, New York, Scribner's, 1973; Tore Frangsmyr (ed.)
- Llnnaeus: The Man and bis Work, Berkeley, California U. P., 1983; Gun­
nar Broberg Ced.) - Línnaeus: Progress and Pmspects in Lirmaean Re­
searcb, Pitt:;burgh/Stockholm, 1980; Daniel Boorstin - The Disco1!erel's.
New York, Random House, 1983 (ed. bras.: Os descobridores, Rio de ja­
neiro, Civi!izaç?io Brasileira, 19891; Henry Stee1e Coomager - The Empire
ofReason, New York, Doubleday, 1977; pJ. Marshall e GJyndwr WilJiams
Tbe Great Map q/Mankind, Cambridge, Harvard U. P., 1982; Edward
DlJdJeye Maximilian É. Novak (eds.) - The Wild Man Witbín, Pittsburgh,
P:ttsburgh li. P., 1972; Michel Foucault - The arder r!! Tbings, New York,
Pantheon, 1970 Cedo bf"'<ls.: As pala/1ra" e as coisas, São Paulo, Martins
Fontes, 19811; Gay, op, cit .. Em 1956 o Museu Britânico publicou exem­
rlares em da edição de 1758 de O Sistema du Na/ure.<:a sob
seu título enl latim, Carolt Linnaeí Systema Na/ume.
20. FOllcault, op. cit., p.136.
ciência, 'c'onséiêncía planetária, interiores

essencial que as distinga de tipos adjacentes. Sistemas par:l­
Ielos foram também propostos para animai:; c minerais.
O sistema lineano sintetizou as aspir;\(,:ões contint'll­
tais e transnacionais da ciência européia discutidas anterim­
mente no contexto da expedição La Conclamine. Lineu, de­
liberadamente, restaurou o latim em sua
cisamente, porque nào era língua nacion<J I de n ingul'tl1.
fato de que ele mesmo fosse oriundo da Suécia, um prot:l­
gonista relativamente menor na
. ". indubitavelmente aumentou :1
de de seu sistema por todo o continente. P;I
em oarticular pelos
te continentais em amplitude e incençJo. r\bs s() () .';iS!<:I1LI
de Lineu constituiu um empreendimeilto t'lIrOpl:lI
trução do saber numa escala e atrativo sem
Suas páginas de listas em latim podem p;trecer L'st:ítiC1S l'
abstratas, mas o que fizeram e foram concebidas pam fazé'­
foi colocar em movimento um projeto a ser realizauo n()
mundo da forma mais concreta possível. Na medida elll
que sua taxonomia se difundia por toda a Europa na segun­
da metade do século, seus "discípulos" Cpoi.' eles
assim se denominavam) espalhavam-se às dúzias por todo
o globo, por mar e terra, executando aquilo que Daniel
Boorstin chamou de "estratégia messiânica" 21 Acordos com
as companhias ultramarinas de comércio, especialmente
Companhia Sueca da índia Oriental, franquelvam passa­
gens para os estudantes de Lineu, que começaram a Sê eles,
locar por toda palte coletando plantas e insetos. n,pc1inl
preservando, fazendo desenhos e tentando
mente levar tudo isso intacto de volta para Glsa. i\ informa­
ção era veiculada em livros; os caso mortllS.
eram inseridos em coleções de história n:ltural que se
naram passatempos importantes para pessoas ele recursos
em todo o continente; se vivos, eram em
botânicos que também começaram a em
e propriedades particulares, ao longo ele tmb ;1
21. Boorst;n, cil., p.
;)7
pela
consciência planetárta interiores
fosse conJ1ecicla :Interiormente
e os relatos de viagem jamais seriam (
metade do século XVIll, fosse uma
primariamente científica ou nào, fos:ic ()
viajante um cientista ou não, ahistória I1<ltun.l
nharia algum papel nela, A coleta de espécimes, a constru,
ção de o batismo de novas espécies, a iclentific:l­
ção de outras já conhecidas, tornaram-se temas LÍpicos nas
e nos livros de viagem. Ao lado dos pel'sonagell"
de fronteira, como o hornem do mar, o conquistado!', (J
cativo, o diplomaui, começava a surgir em toda pa I'tt' ;t
e decididamente letrada do "herhol'iz:I
dor", armado com nada mais do que uma bolsa de ('ok·
um caderno de notas e alguns h\ISCUS de espl't:i,

nada mais do que umas poucas P,KI
os insetos e as flores. Todo.s os tipos de
começaram a clesenvoh'L'l' pausas dc' 1;1
estudo ela na! \ll'CZ:.l
Hora e fauna não eram ctn si nO":I" 11(
Ao contrário. haviam sido cOl1lp,mcntcs
desde (
como ou digressões formais
Contudo, se firmou o projeto classifica tório
e catalogação da própria natureza se LOrnaram
podendo constituir uma seqüência ele evento"
ou mesmo estruturar um enredo, Poderi:l!11 :1
base narrativa de todo um relato. Dl' um ângulo pai
ticular, o que se conta é ;1 história dos europeus o prr)
cesso de urbanização e industrializaçào, :'l proclIr:1 clt' reLI'
não exploradoras com a natureza, mesmo que [:1 is cc
estivessem sendo destruídas por l'Jcc:
centros de poder. Como procurarei most!':II' [lO jlll)'
ximo capítulo, o que também está em cl:t!)()J':lC10 l;
23, Sten Límlrol], "Linnal'u.\:11 his Europco:lI1 C'H1h',1 ,. ":11 I\n 'il"!',"; ,
cil.)
.'
ciência e sentimento, 1750-1800

i
I
t
Kalm, pupilo de Lineu, foi para a América do Norte, em
1747, Osbeck para a China, em 1750, Lofling para a Améri­
ca do Sul, em 1761, enquanto Solander juntou-se à primei­
ta viagem de Cook, em 1768, Sparrman à sua segunda, e;11
1772 capítulo 3 a seguir), e assim sucessiva­
mente. As palavras do próprio Lineu para um colega em
J771 expressam a a excItação e o caráter mundial
do empreendimento:
Meu :: luno Sparrman acabou de zarpar para o Cabo da Boa Es­
perança, e outro de meus Thunberg, deve acompanhar
uma embaixada holandesa o Japão; ambos são competentes
naturalistas. O ainda está na Pérsia, e meu
Falck se encontra na Tartária. Mutis está fazendo esnlêndirl,,<
cobertas botânicas no México.
de novidades em Tranquebar. O jJlUlt:33UI
nhague, está publicando o registro das
Suriname por Rolander. As descobertas
l".1o logo m.andadas para o
É como se ele estivesse falando de embaixadores e
de um império. O que pretendo aflqnar é, evidentemente,
que, de uma forma muito significativa, ele efetivamente es­
tava. Assim como a Cristandade havia inaugurado um tra­
balho global de conversão religiosa que se verificava a cada
contato com outras sociedades, assim também a história na­
tural iniciou um esforço de escala mundial que, entre ou­
tras coisas, tornou as zonas de contato um local de traba­
lho tanto intelectual quanto manual, e lá instalou a distin­
ção entre estes dois. Ao mesmo tempo, o projeto de siste­
matização de Lineu tinha uma dimensão marcadamente de­
mocrática, popularizando a pesquisa científica de um modo
sem precedentes. "Uneu", como colocou um comentarista
contemporâneo, acima de tudo um homem para o não­
profissional". Seu sonho era que, "com seu método
nasse possível, para qualquer um que
o sistema, dispor qualquer planta de qualquer lugar do
mundo em sua classe e ordem corretas, se não em seu gê­
22 Citado em ibid., p.444.
--_.

---

ciência e sentimento, 1750-1800
-'----------­
ii.
I,
1
j

j
J,
I
:j
I:
:1
'i
I-
i

Fig,6, O sistema de Lineu para a identificação dao plantas por meio
de! seus componentes de reprodução, Esta ilustração de Georg D, Eh­
ret surgiu pela primeira vez na ec!iç;io Leielen, ele 1736, elc SP'ê­
cies Plantarum,
, __
ciência!_ consciência planetária, interiores
_____'c"
11.
narrativq Ide "anticonquista", na qual o natur;dist:l natur;!I i­
Z? 4 presença mundial e ;l autoricLlde do burgut's
europeu", EsLL narrativa nan.lr'llista mantcri:
'
um:! t'nOrll1l'
força ideológica por todo () século XIX, te' , l'll1:111l'CC !11ui­
to presente hoje em clia, entre nós,
O sistema lineano é apenas uma vertente' cios eSCJlle­
mas classific;ltórios totalizadores que se aglutinall1 em me:l­
cios do ,século}.'VIII na disciplina "história mturnl" A vers;lo
definitiva do sistema de Lineu surgiu paraJcLtl11cnte a obras
igualmente ambiciosas como a Hístoire Notil /'clle Buft'ol1,
que começc)U a ser publicada ctn 1749, ou /'(/lI/;lle" de.;'
plantes (1763), ele Aclansun, Mesmo que l'stcs :tlltorC,S tc'
nhan1 proposto sistemas rivais, com suhsl;mti\'as
em' relação ao ele Lineu, os debates entre eles perl11:tIll'­
cerain baseados no projcto totalizante e cl:tssificlleírio qUl'
c1istingtle 'este período, Tais esquemas constitul'm, C0!l10 oi 1­
serva Gunnar Eriksson, "estratégias alternativas r"iLl :t
zação de um projeto comum a toda a história t"latural cio se',­
culo XVIII, a representação fidedigna do plano própri;l
Eil1 sua d8ssica análise do pensamento do sécu­
lo XVIII, The _Order (f 17Jings (970), Miclll'1 !'oucnilt eles,
creve assim tal projeto: "Dada sua estrutur;l, ;1 gr;lndt' vari('­
(!;ide de 'seres que ()l'UP,Il11 a superfície elc) glc)l)o pode' SC'I­
elistribuída tanto na seqüência de Ulml lingu:tgcl11 t1escriti\:1
quanto no campo de uma mathesis que POcle'I'ia :1 illC!:1 S(,I­
uma ciência geral da orelem,"'; Falando cl:t hist(lri:l n:ttur:11
C01110 algo que processa "uma descrição do \-isí\'l.J", :1 a n:i
lise de Foucault salienta () caráter verb;t1 empl'"s:!. ,I
qual, como afirma,
lem comu cOllcliç(IO lil' sua possihilid;llk -,I -,Ifillltlacl,' d,l, ("i\,:'
e da lingu:lgem com a representação: ',1:1, 1,1',1 c:\i,';lc- ell,!1l:111,'
tarefa apl'n,'I.' n;1 i11ectilLI cm que as cois-I,'; ',' ,I.' p:d;I\T<l,'; e,'(vj,illl
separalLts_ Deve, portanto, reduzir esta di"l;íllCi:1 CIltl'C e1:1.'( ,i,­
forma a trazer a linguagem tão próxima qU:lnl(l jlos_sin'l ll:l" pl,­
l
:!.-1_ Gunnar I'rikss()!1, '-Tlic ilo(:lnical SUl'l''-'" (li' 1,illl"l('lI_S_ Tlll .\'1'('('1 "I'
Ol'ganizatiol1 anci ]'ulllicit{' LllI UI), cll __ Jl (Ú
25, Foucau!t, ()p- cll, [1,1:/;
tii
1<lnnt5rh
Não .se encontrar
que o conhecimento existe nâo C(Jmo
fatos e isoladas, ma;,
a verbais e
EvidentemeJl:ite, a empresa
de suportes lingüísticos. Militas formas ele
fala e leitura veicularam o conhecimento 11,\ ('Sret':l
criararne sustentaram seu valor. A autoridade da ciênci:l csLI­
va envolvida I mais diretamente nos textos clesnítivo:;
como .os incontáveis
em torno das várias nomenclaturas e taxonoJ11ias, Os rclall)"
jornalísdcos e a narrativa de viélgem, contuclo, eram
res essenciais entre a rede científica e o público europeu mah
amplo, eram agentes centrais na da :lLllUncb,
Ide científica e de seu projeto global, ao lado de outl';!S forma,.;
de ,ler o mundo e habitá-lo. Na segunda metade
I viajantes-cientistas haverian: de desenvolver
mas cle'discurso que se distinguiam incisi\',1i1
1
qdc LaConchlminé h:wia herdado n8 primeir;
Meu argumento é que a
um projeto europeu de novo tipo,
que se poderia chamar de consciência
: I
Por três
conhecirnento tinham construído o
em termos da
projetos totalizadores ou planetários. Um serí<t
çào, um feito duplo que consiste na
mundo do relato escrito deste
termo "circunavegação" se refere tanto 8
Os europeus tinham repetido este feito
que continuamente desde que
primeira vez l1el década de 1520. O
rio, igualmente dependente da tinta e do
mento do costeiro do mundo,
estava em andamento durante o século J\.\I1II, mas que
se sabia ser
Europa" como, nas palavras de um editor de livros de ví:í­
gem, algo que se estendia "até os
"
çiência e sentimento, 1750-18QO
.. .."
servaçôes, e, as coisas observadas, tào perto quanto possível das
palavras. '6
Sendo um exercício não apenas de correJaçào, mas
também de redução, a história
1\<;"Ul11/S" a área total do visível a um sistema .de variáveis
valorl;S podem ser designados, se nào por uma quantidade, ao
por. uma descrição perfeitamehte clara e sePlpre finita. É,
portanto, possível estabelecer o sistema de e a ordem
das diferenças existentes entre entidades naturais,"
Embor.a os historiadores naturais muitas vezes se con­
siderem engajados na descoberta dealgo já exL'ltente (o pIa­
no da natureza, por exemplo), de um ponto de vista con­
temporâneo, seria antes questão de um "novo campo de vi­
são estar sendo constituído em toda a sua densidade.
Se a história natural foi inquestfonavelmente constituí­
da dentro e por meio da linguagebrt
'
, foi também um em­
preendimento que se concretizou em vários da vida
material e social. A crescente capacidide tecnológica da Eu­
ropa foi desafiada pela demanda por. melhores meios de pre­
servação, transporte, exposição e documentação de C ...,'JCL,'­
mes; as especializações artísticas do desenho em botânica e
zoologia se desenvolveram; foram levados a apri­
morar a reprodução relojoeiros eram procurados
para inventar e provera manutenção de instrumentos; em­
pregos foram criados para cientistas em expedições coloniais
e postos coloniais avançados; redes de patrocínio financia­
vam as viagens científicas e os escritos subseqüentes; socie­
dades amadoras e profissionais de todos os tipos prolifera­
vam local, nacional e internacionalmente; as coleções de his­
tória natural adquiriram e valor jardins
botânicos tornaram-se espetáculos públicos de larga
e () trabalho de supervisioná-los transfofl1íou-se no sonho do
Jl..'lturalista. (Buffon veio a ser o mantenedor do jardim real.
Ibid., p.J32.
27. Ibid.,
28 Ihid., p.l32

interiores
devotou sua vida JO SeU pr()[il"lCl
mais vívido comprov:11
('"Lítico
como :tl i\' icl:i de
em'ulvi:\
P\'J! llicl. l'
botânicos
ntt'
l1et:lclt,
uma n< )v:\ foI'! n:\
os supOltes europeus c!e
Jci11l:! de
Estes termos deram
uma COletiV:1 que
Em 1704, era possível falar do
da terra, onde vú
53
ciência e sentimento, 1750-1800
rias de suas nações mantinham possessõeE:e colônias. "29 A cir­
cunavegação e a cartografia, então, já haviam ensejado aquilo
que se poderia chamar de sujeito europeu mundial ou plane­
tário. Seus contornos são esboçados com desenvoltura e
liaridade por Daniel Defoe na passagem constante da primei­
ra epígrafe aeste capítulo. Como as palavras de Defoe deixam
patente, este sujeito histórico mundial é europeu, homem,3ü
secular e letrado; sua consciência plall1etária é produto de seu
contato com a cultura impressa, infinitamente mais "comple­
taili.." que as experiências vivenciadas por marinheiros.
A sistematização da naturez:;"· na segunda metade do
século hav<=ria de firmar ainda mais poderosamente a auto­
ridade do prelo e, assim também, da, classe que o controla­
va. Ela parece cristalizar imagens do mundo de tipo bastante
diferente daquelas propiciadas pelas imagens anteriores de
navegação. A história natural mapeia não a estreita faixa de
uma determinada rota, não as linhas ,onde terra e água se,en­
contram, mas os' "conteúdos" internos daquelas massas de
terra e água cuja extensão constitui, a superfície do planeta.
Estes vastos conteúdos seriam conhecidos não por meio de
., 1 •
linhas finas sobre um papel em branco, mas por representa­
ções verbai:: que por sua vez são condensadas em nomen­
claturas ou por meio de grades rotuladas nas quais as enti­
dades são inseridas. A totalidade finita destas representações
ou categori;ls constitui um "mapeamento" não só de linhas
costeiras ou rios, mas de cada polegada quadrada, ou mes­
mo cúbica, da superfície terrestre. A "história natural", escrc­
veu Buffon em 1749,
vista em toda a sua extensão, é uma Hí."tória imensa, encampan­
do todos os objetos que o Universo nos apresenta. Esta prodigio­
sa multiplicidade de Quadrúpedes, Pássaros, Peixes, Insetos,
Plantas, Minerais etc., oferece um vasto espetáculo para a curlo­
t
29. Citado em Marshall e WilUams, op. cit.. p 48.
30. Isto não quer dizer, evidentemente, que não havia mulheres naturrl­
listas - elas certamente existiam, ainda que sua particípaç.ão na esfera
profissional fosse limitada e qut' não estivcssem inicialmente entre os dis­
dpulos destacados para o desempenho de miss<les no (·xteri;)!'. Cf. capí·
I
tulos 6 e 8, adiante, para uma discussão sobre ,l!gllJ1l<lS mulheres escri­
toras de viagem em relação às missões denrífic;ls
i
I
!
r
I
---.----------
-t

ciência,: consciência planetária, irlteriores
___··__.. · "'-..
sidaele do espírito humano; sua toralidade " l<lU gr:lIldl' qUl' P:I­
rece ser, e de fato é. inexaurível em todos os scu;-; ..'·
Ao lado deste uni verso totalizador,
ce o velho costume lin'Jr!() ?t ele se
l)ranco dos In3pas com c1esenllOS icônicos dl'
curiosidades e perigos regionais arnazon;lS no Amazonas.
no Caribe, camelos no Saar8, elefantes na Índi:l,
• 1
assIm por
Da· mesma forma
o ,mapeamento sistemático da
cstú correlacionado crescente busca ele nxursos
exploráveis, mercado:: ,.; terras para coloníLlr. t;ll1lo
quanto O' mapeamento marítima está ;1 de m
tas oomél"cio. Diferentemente do
gação, todavia, a história natural concebeu () mundu COlllO
um caos a partir do qual o cientista prodllzio Lima Oldem,
I
Não portanto, uma simples questão de
do tal como tele era. Para Aclanson (1763), o mundo
sem o concurso do olho ordenador do cientista seri;1
mescla de seres que _
o ouro mesclado com outm I1ll'l:d. lO"l
a .com a terra; lá, ,1 violera creSCe lado a I:ldu ,'OI1l UIll
valho. Entre estas plantas, também, vaguei:l () n.;p­
til e o in::seto; os peixes são fundidos, dizer, com ()
elemento aquoso no qual navegam, e com as p[;II1l:1S que' l'I'l'.';Cl'11l
nas profundezas das águas ... Esta mescla é d'dl\':ll11Cnle 1:[\ l gene"
ralizada e multifacerada que parece ser um:! (1:1, (I:! n:Hllft'Z:1
Tal perspectiva pode
ll:llu"
ocidentais do final do
;lS inlvrvCIl­
reza camo ecossistemas auto-reguladores qut::
çôes humanas levam ao GlOS. A história n;ltlJ
icrvenção humana (principéIlmcnte intclcl'tu:l
a ".(jp1Yl n" ai':'
'.":
XVllI
"I
:\ I Citado c'm (;:1)', ,,/!, cil. I'p·l '\2".,
:52. Citado (:111 ('''\lelull, 0/' 1'11., p. 1.',:-1.
(Si)
apropriado no interior
junto a seu
nome secular europeu. O próprio Lineu, ao
teve a seu crédito a introdução de
novos itens àD listagens.
Análises da história natural, tais como a de Foucault,
nem sempre salientam as dimensões transformadoras, e
apropriadoras de sua concepção. Uma a uma, as formas de
vida do planeta haveriam de ser extraídas do emaranhado de
seu ambiente e reagrupadas conforme os padrões europeus
global e ordem. O olh.1r (letrado, masculino, eu­
:-opeu) que empregasse o sistema, poderia tornar familiar
("naturalizar") novos lugares/novas 'v ;;jões imediatamente
após °contato, por meio de sua incorporação à linguagem
do sistema. As diferenças de distância são eliminadas do
quadf0: no que se referisse a mimqsas, a Grécia seria indis­
tinguível d:::'. Venezuela, África OcidE'ntal ou Japão; o rótulo
"picos graníticos" poderia ser aplicado identicamente à Euro··
pa Oriental, aos Andes ou ao oeste americano. Barbara StaE­
ford menciona aquele que provavelmente é dos exemplos
mais extremos dessa realocação semântica global: um trata­
do de 1789, escrito pelo autor alemão Samuel \Vitte, afim1a­
va que toji:lS as pirâmides do mundo, do Egito às Américas,
eram na verdade "erupções basálticas".\3 O exemplo é
ficativo, pois evidencia o potencial do sistema de subsumir a
históría e a CUltUr'd à natureza. A história natural não apenas
extraía os de suas relações orgânicas e eO:)lc,gH:as
um com o outro, mas também de seus lugares nas econo·
mias, histórias, sistemas simbólicos e sociais de outras popu­
lações. Para La Condamine, na década de 1740, antes que o
proJeto classificatório tivesse se firmado, °saber dos natura­
listas coexistia com os mais valíosos conhecimentos locais,
:t'.;otando profeticamente que "a diversidade de plantas e ár'·
vores" no Amazonas "encontraria
t'33. Voyage in/o Subslance, Clmbridge, M. L T. Prcss,
1987, p.lO.
-\
I
ciência, consciência planetária,
tos anos, tanlo para () mais laborioso elos bOl:lnicos.
para mais, um desenhistél," ele prossegue
uma digressão que havena ele ser rraticarnl;nlc
nos meios científicos, nO final do século:
Mcryci()f'Jo <lqui <qJl:llélS () trabalho p:II<l tlll,.1
. Ç'JÇJ "destas plantas, ;;lI:! elll
cada UJ1U em sell :lpropriado gênero e () 1111" 1'lIlú"
ría se adício17armos a isso um exame das I';!'II/(/e> IIIrifmídll3
, eles pelos nat[uos do [Im exame que ;wIIlÍJi!(//'('llIIellle
qZIje mais II/n/i a uossa Cltel/lJIO UIII f.l1I.alClller áre{/ 1'.\111110.
A
rompeu
plantas e animais onde quer
nuo tem
"a natureza era uma imensa de ohietos
passava em revista como um
Teve ele um precursor nesta firdu:l
"55 Ao invocar a imagem clt: inocência
como muitos outros c()!TH:ntarist:1S, m'to :1
ter-se·ia
) "CI' por
bumanos, especialmente os europeus, aprt'sen­
wram, desde () início, um problema para os sistCll1:111i::lc!O·
Adão nomem e classificar a si I11\'SI 11()(
estaria o naturalista suplantando Li,'í.:lI j:í
saída parece ter res[1ondido afirmativamente :1 ,-'st:\
tão _ consta haver ele certa vez afirmado quJ Dl'US h:I\·i:t
que ele bisbilhotasse Seu gnhinete secreto.'"
..
54. La Condamine, op. cit, p.37; os itálicos são mc·!l.'
55. LÍlldroth, up cil., p.2S.
36. Barba,,! Linctwth , num en\lnciado enigmático. CO!1wrtc' .1 inocl'l1cl'l
um fato da m!ture7.a. sustentando que "A d() I"l'i.llo n"lo
donal de Vi,1)W111 (no /'in,]l cio século XVII!) vlll p'lrIl' :lO
cios eXr!or,lc!ores e do público de retornnr lIlll,t :ll'rc'c:I1S:'(('
se da Terra t:ll como poderia ter sido ou C0!l10 f"i dc,cnlwru
que a conscíênci,! humana tivesse !lel:l '1I1arecido·· 01) cU. IH 11)
,7. Commager. 01'· di, p.7.
(
H"
'} i

ciência e sentimento, 1750-1800
,
Para grande desconforto de muitos, inclusive do Papa,ele
,.
fInalmente incluiu as pessoas em sua classificação dos ani­
mais (o róchlo"homo sapiens é de,su"j- autoria). Suas
ções, contudo; diferem daquelas de, Qutras criaturas_ Inicial­
mente, Lincu colocou entre os quadfÚpedes uma categoria
isolada bomo (descrita apenas pE;la frase "conhece-te a ti
mesmo") e traçou uma única entre bomo sapiens
e homo mcnstrosus. Já em 1758, o bomo sapiens havia sido
classificado em seis variedades, cujas principais característi­
cas são sumariadas em seguida:
a) Homem selvagem. QuadfÚpede,
b) Americano. Cor de cobre, colérico
espesso; narinas largas; semblante rude; barba rala;
alegre, livre. Pinta-se com linhas vermelha,;. Guia-se por
costumes. i
c) Europeu. Claro, sangüíneo, muscuJoso;cabelo castanho,
ondulado; olhos azuis; delicado, perspicaz, in',entivo. Coberto
por vestes justas. Governado por
cJ) Asiático, Escuro, melancólico,
curos; severo, orgulhoso, cobiçoso. Coberto por vestimentas sol­
tas, Governado por opiniões. ,
e) Mricano. Negro, fleumático, rela,xado. Cabelos negros, cres­
pos; pele acetinacJa; nariz achatado, lábios túmidos; engenhoso,
indoiente, negligente. Unta-se com gordura. Gove' nado pelo
capricho.lI!
Uma categoria final, "monstro", incluía anões e
gantes (os gigantes da Patagônia ainda eram uma forte
realidade), da mesma forma que os "monstros"
como os eunucos. A categorização cios humanos, como
se pode notar, é comparativa. Dificilmen­
te se poderia ter uma tentativa mais evidente de "natura­
lizar" o mito da su[)erioridade européia. Exceto
monstros e homens selvagens, tal classificação
pouco modificada em alguns dos textos escolares de hoje
em dia.
Evidentemente, o mapeamento associado ;1.S naveg:\­
ções tatribérn exerceu o poder de nomear. De era 11<
processo de nomear que os projetos e
sé combinavam, no sentido em que os emissários rcivindlcl
vam o rrtundo pelo batismo de marcos e for:'
ficas com nomes eurocristàos. Mas mesmo a.'; ,1111, é Céi-ro qUl'
o nomear da história natural é mais dirctan1l.:'11­
te transformador. Ele extrai todas as coisas do
recolocà numa nova estrutura de conhecimento
pousk naquilo que a distancia do CtÓ·
tico, Aqb:, o nomear,. o representar e () reivindicar si'to todos
a nicsrna coisa; o nomear dá origem realidack' da mdem.
De uma outra DerSDectiva, contudo, ;\ llÍslú'ia llatm:1 i
nào é
Se vê a si mesma, ela nào exerceri,t qualquer unrxlCto no ou
sohre O mundo. A "conversão" da natureza hl'ut,l
,)ystenw.naturao, seria um ato,
1
· I 'I. .
trato, a go que nao exercena
. ­ certamente nào sobre alm'ls. Em
navegador e o conquistador, o coletor-n,ttur:tlisw "i­
gura benigna, freqüentemente simpática, podere" clt'
transformação se limitam aos contextos c!ol11c;stico» ,lo
dirn ou da sàla da
lhe no próximo capítulo, d figura do natur:!Ii:iI:1 1l'1l1 I
sua clt' ('011 llt'C i
menta assume ,Ispectos decididamente nú< 1 rú [in1,' !ei h L';'
por Lineu em sua própria inugcli1 de :\ri:\(ln"
seu fio até a saída do labirinto do \linolauro.
Neste pomo, encontramos ,Ima c!r,
il1()(,L'll1C l
não instauraria
os naturalistas eram vistos como <!,1S
raçôcs comerciais exnansionistas da
mente, em troca de
tes, eles pnxluziam conhecimento conwrcialI1lcl1ll' lltilió·
veL nrinciDalmcnte eJ,\ híst()ria natural", ili'i'llíil\;\ 1I111 ill
)ê' (I \i,
(i!]
3H. John G. Burke, "The Wild , l'll1 I>udley Novak, Ci/!.
cit., pp.266-7.
/ ..._,..,

,::.. ...
cjência e sentimento, 1750-1800
F:'
Fig. 7. Os quatro tipos antropomórficqs da esquerda para a
direíta, o trogJpdita., o homem de cayda, (1 sátiro e o pigmeu. Veicu­
lado origin<llmente em Anthropomorpha(l760).
lor e importância de qualqüer paí!" pois é por esta fonte
que podemos conhecer tudo o que de produz.".l9 Na intro­
dução a um novo compêndio de viagens em De
Brosse louvou a nova "possibilidade de se aumenl;l:' a
ra com o novo mundo, de enriquecer o velho mundo com
toda a produção natural e toda a mercadoria utilizável do
Novo. ",0 Em 1766, o resenhista de um livro de viagens, es­
crito por um dos ah,lOos de julgava as viagens dos
homens de ciência como superiores àquelas dos "homens
de fortuna", tanto em termos literários quanto comerciais:
As pesquisas do naturalista, em particular, não apenas lhe dào
prazer individual, como sào proveitosas para outros;
mente as investigações do botânico, cujas descohertas e conquis­
tas têm constantemente levado a conseqüências das mais signifi­
cativas para permuta e intere,;se comercial de seu Mais
que o célebre Lin,eu ousa afirmar que o conhecill1f:nto das
+-._--_.. ­
I 39. Adams, op. cit., p.310.
40, Citado em Staffürd, op. cit .. p.22.
70
,1" ___•• 0
planetária, interiores
plantas constituiria o próprio fundamento de toda eco!1omi:\
pública, dado ser aquilo que alimenta vesre Ul11"d
. Ao mesmo tempo, os interesses da ciência lê cio CO!11l:r
cio era& cuídadosamente mantidos separados.
, . I "
montadas em nome da ciência, como as de
Mares do Sul, nos anos 1760 e 1770, freqi.icnternel1tc. nheclv·
cÚlm a determinações secretas para que estivessem ;
i 1, ;
oportunidades comerciais e a perigos potenciais. O Llto c!l;
tais ordens haverem existido, ainda secretas, lIiclencia
ideol'ógica entre empreendimentos cie;1tíficos e
merçiais. Por um lado, o comércio era visto em
em relação ao caráter abnegado da ciênci'l. Por outr<\ auc­
que ambos refletiam e
mútu,as,.. :'Um bem ajustado", afinna\<t Ander,;
uIT;l pupilo, qe Lineu, "tanto quanto a
em geral,se\,l fundamento na ciência."ao que esta, por
sua vez,. recebe apoio e deve sua extensão ao
dizer que as perspectivas comerciais CO!()C;l­
ram de forma argumentativa a ciência no fllni lO cio interes·
se público geral, embora, na verdade, os d:l l'\
tlrel1:1dos h:l.'i
1'<1­
domínio
no que se refere a animais e n' j­
nerais embora não a pessoas - os sistenus se
de maneira idêntica tanto à Europa como il Asia, ;1
41. Resenha de Vovages (md 'Ih/ve!, iH lhe Li]I'''I/I. ,Ie' 11:"",,/'1\11.'1. ,'Iil
Monthly Rev!cw, Nova St"l'Íe, 1'01. :3'), 17()6, pp.f2 . .1.
42. Anders Sparrlll,il1 Voyage /(i lhe capc li!' C/poli! lu!"',
and 1. Rohinson, 17W5. ".,di!.
7
i
I
I
I
,
,
t
\
.,
'\
cíêr:lcia e sentimento, 1750-1800
. __•__,,
às Américas. A sistematização da natureza representa não
apenas um discurso sobre mundos não europeus, como ve­
nho discutíndo, mas um discurso urbano mundos não
um discurso burguês e letrado mundos não
e rurais. Os sistemas da natureza eram
tanto no interior das fronteiras européias em seu ex­
terior. Os herborizadores estariam tão na
campestre Escócia ou do Sul da quanto no Ama­
zonas ou na África meridional. Na Europa, a sistematização
da natureza surgiu num momento erh que as relações entre
centros urbanos e áreas rurais estavam mudando rapida­
mente. As burguesias urbanas começaram a intervir numa
nova escala na economia agrícola, procurando racionalizar
o processo produtivo, aumentar 0$ lucros, intensificar a ex­
ploração do trabalho camponês e administrar a produção de
limentos que os centros urbanos dependiam completa­
mente. O movimento do fechamento de terras (enclosure
movement)· foi uma incervenções mais reti­
rando camponeses da terra e lançando-os nas. cidades ou
em' comunidades de posseiros. Começaram nesta época as
tentativas de se aperfeiçoar cientificamente a criação de ani­
mais domésticos e colheitas. H Qualquer forma de sociedade
de subsistência parecia tão atrasada :em comparação a mo­
delos que buscavam a formação de excedentes de produ­
ção, quanto carente de "aperfeiçoamento". Em J750, o co­
mentarista francês Duelos, em suas Considerações sobre os
castumes deste século, sustentava que
cem milhas da capital estão cem anos
seu modo de e agir", uma visão que
tudiosos do Iluminismo constantemente reoroduzem sem
quei>tionar. 44
Na medida em que se aprofundavam as diferenças en­
tre os modos de vida urbano e rural, os camponeses euro­
t-·43. Para um estudo detalhado enfocando o século XIX, consulte-se Bar­
riet Rítvo 'lhe Animal Estate, Cambridge, !larvard U. P., 1987.
44. G<1y, op. cito , Gay evidentemente IfabathQ dentro d:l ideologb
do Iluminismo, sem questionar seriamente qlle o próprio []lIIllÍ·
nÍ&mo encar(jU como seus "avanços".
-- --­
.
consciência nlanet.:'íria. interiores
peus Pflssavam a ser conSlOeraoos samenlc 11 111 pouco
nos primitivos que os habitantes do Da mcsJtl;1
forma, O sistema da natureza anulou formas camponcs,ls li
cais de saber dentro da Europa, exatamente como as ind
no exterior. Sten Lindroth associa ,I :lhord,lgeJl1 doell
men'tal e totalizadora de Lineu COfn procedimentos dn bUI()­
tr,\ riação na Europa conl1eClmellto
sua popülaçào do que os suecos; um milhào c meio
cidadãos suecos en:im todos ele;; registr;l<Íos n;l:; CO]UIl;I"­
estatísti'cas adequadas como nascidos, morto,';. Glsat!(
doe'ntes etc";; De fato, os rótulos Iineanos COl110 gênero v
se assemelham notavelmente aos nomes l' sohrem
mes requeridos dos cidadãos - Lineu s;; rder;;t ,lOS
genéricos como "a oficial de noss,1 IcrübliGl
ca."'\ó Ainda que a sistematiza cão da natureza tenhl nreced
do o advento da
5 forma
(líneanos) e os princípios que en-
1C1
5
11
Padronização e produção em por
deÍXadC1J sua marca na
peças sobres::,alentes para armas de fogo. Outras
advêm da organização militar, a qual, exatamente por es::;;t
época começou a padronizar uniformes, 111:1;IO/)r;ls. discipli­
na, e assim por diante.
Tais analogias tornam-se ainda mais sugestivas quan­
do se leva em conta que a burocracía e a Illilitarizacão S80
os instrumentos centrais do imoério. t' o
-I­ ';5, Líndro!ll, O/i. (:11.. p.l1,
';6. oI' (:11., p.llj I.
·17. UnclrOlh, 0/). di.. p.l0
na
a ser assim até os dias :Ie
- e ta l\'ez :t
7;3.
dênda, consciência planetália, :nteriores
ciência e sentimento, 1750-1800
pode imaginar o que haveria de tão avança elo no
mo avançado) mas, como for, houve efetivamente um:l
ra, enquanto você o lê -, em Soweto e na margem ociden­
tal'do Jordão, pedras estão sendo atiradas contra veículos
acumulação, Na esfera da cultura, os ele cok

blindados por povos subjugados e desarmados.) Os estudos
1t
çoes que foram montadas neste período
acadêmicos sobre o Iluminismo, resolutamente eurocentra­

'r
em partê como a imagem dessa acumulação e C0ll10 k­
dos, têm freqüentemente negligenciado o papel dos agres­
. !
gitimação. A sistematização da na,ureza leud clt'
como modelo, inspiração e base de testes para formas de
sivos empreendimentos coloniais e comerciais europeus
I
acumulação a um extremo totalizante e, ao IllC311 temj1(
disciplina social que, re-importadas pela Europa no século
molda çLcaráter extrativo e transformador do lismo il'"
XVIII, foram adaptadas para a constrl!ção da ordem burgue­
clustrial e os mecanismos de ordenação que est,lv;lill CO!l1e
, a sociedade urbana de m;issa.'·· 11,1
sa, A sistematização da natureza coincide com o apogeu do

I
a hegemonia burguesa. Como construto j(
uma imagem do mundo apropriada e n.:'utiL;:lda a 1';\
1 tráfico de escravos, o sistema de plantatiol1s, o genocídio
I
colonial ga América do Norte e na África do Sul, as rebe­
I
liões de escravos nos Andes, Caribe, América do Norte e
tir ele uma perspectiva européia unificada.
Tanto na Europa quanto nas frentes externas de expall­
noutras partes. É possível reverter a direção do olhar linea­
.esta de conhecimellto express:1 CO!H.'XÔCS
no, ou daquele do viajante de Defoe, de forma a se obser­
COm relaçoes mutáveis trabalho ou de rroprieclade. ou
var a Europa a. partir da fronteira imperial. Neste caso, sur­
com aspiraçõc>s territoriais. Este, contudo, é Unl a.specto co­
gem outras formas iluministas de padronização, burocracia
mentado indiretamente por teorias contemporànea.s sobre ;1
e normalização. Pois o que seriam o trático de escravos e o
estrutura do Estado mcderno. O Estado, sustenta Nicos Pou­
sistema de plantations se não maciços experimentos em en­
lantzas, sempre se retrata "numa imagem topológica ele ext,'­
genharia social e disciplina, produção em série, a sistemati­
rioridade", como se estivesse separado da economi:l: "Eo
zação da.vicla humana, a padronização de pessoas? Experi­
quanto objeto epistemológico, o Estado é concebido como se­
mentos estes que se mostraram mais rentáveis do que jamais
tivesse fronteiras imutáveis fixadas por meio ele sua exc!u:;úl>
sonhado por qualquer europeu. (A riqueza que fomentou a
dos domínios atemporais da economia. o
Revolução Francesa foi criada em Santo Domingo, que du­
da expansão européia volta-se para as áreas continentais
rante os ano') 1760 era o lugar até então mais produtivo da
tadas da costa, pard a "abertura" das interiores, tais
Terra.) A agricultura baseada em ptantatíons se constitui cla­
concepções estarão tanto dentro da
ramente num elemento crucial para a Revolução Industrial
em suas frentes de expansão. Os capítulos a analbar:!o
e a mecanização da produção. E, similarmente, mesmo no
mais aprofundadamente como tais
início do século XVII, não havia burocracias semelhantes às
elas e displltaclas na literatura de viagem r; de

burocracias coloniais, para as quais a Espanha forneceu um
sofisticado exemplo.
:1
;)
Historiadores econômicos por vezes rotulam os anos
1500-1800 como período de "acumulação primitiva", no
:1
qual, por meio da escravidão' e monopólios protegidos pelo
as burguesias européias foram capazes de acumular

o c:apital necessário para desencadear a Revolução Indus­
trial. Pode-se, na verdade, pensar sobre o que haveria {;S. Nicos Poulantzit.') - SItUe, POlue}; SucialislI1, LOI1CI"n. \'"c,(J. 1()'8, P j­
(ed. bras,: () E'tado, u o socialismo, Rio í:II:<>iro, (;'J:d. 1')1'\il).
tão prlmitivo nesta acumulação (da mesma form;.t como se
7fi
>'.\, 177
'!.­
I
___,rJtJ:2it1Jlo.
ªªI:f_ª-pdo a
anticonquista
por ycze, as :luwri(\adl's da
o principal de escr,lvos
,,' Lltilizaclo CÓI110 um tipo de hordel.
Cunin et alii AfriclIl I li'I'11")' (F)"';-iJ
de dísrlll"hk''i l' dc,'iordC:1l1 P:II;I
observar oSI,e!,ílorços da envid;ldos por drio,'i co'"
nlzadores para aperfeiçoar os animaio dom(',licos do
(George M, Thea I - A Hislm:)!
;-';l'­
o capítulo anterior apresentou ;l
eul'OpcU de
tecentista d:l natureza como um
L O material sobre a históriu su!-,lfríc8nél foi extraído d;ls sc:gllillll" 1'(111'
tes: Chinweizu 7he 1171'S! anti lhe Resl ()f I17bile I)red{l!ols, !3Iock
l)ers emd the AfríCCl'l'l Elite, New York, Vimage, I'hillp ClIIlin. ;)[c'I'ln
Feierrnan, Leonard Thompson e ]an v:msina - A/í'i((/I1
Litde, Brown, 1978, especialmente cêlni,ulos 9 l' 10; 1), K.
The Coloniall::mpires: A ' ,
London, Macn'lillan, 1982 . ediçào, 19(5); Vernon Forlws- I'jolle';
Travellers of Smllb Africa: A Geographic,J{ COmnlC'II/(IIT II!)(JI/ [{ollh's,
coreis, O!Jserua!iuJ'/s mui Opinlorls of Trcl/lel!er,; (/{ Ibe (,{I/i(', 1 C')()_
Cape Town, A. A, Boekerna, 19(i'); M,try Gunn (' L, I,:, (n(lel I!o!tlllic, II
Bxploratie,n AJríca, Cape Town, A. A. Bockcill:i, J. C"(Jtp
M. Theal- lfi5!Ory cmd (l A/i'íCCl S()iI!b /.(1/111)(',11. \'()h
fi e !lI (,Hé 179\), I,ondon. AJleIl & Unwill, IH')!. ,cl'dil;tt!" ,'lltIH)
"1l
rica
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77
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.......-.............. .. _..... .
ciênciá e sentimento, 1750-1800
trução do conhecimento que criou .um novo,tipo de cons­
ciência eurocêntrica. Cobrindo a superfície do
globo, ela enquadrou plantas e animais enquanto entidades
discretas em termos visuais, subsurpindo-as e realocando-as
numa ordem de feitura européia, finita e totalízante. Talvez
devêssemos ser mais precisos no tocante à nomenclatura
empregada: "européia", nesta acepção, se refere antes de
tudo a uma rede de europeus alfabetizados do nOite, prin­
cipalmente homens dos níveis mais baixos da aristocraçia é:
da média e alta burguesia. "NatureLJa" significa antes de tudo
regiões e ecossiscemas que não eram dominados por "euro­
peus", emb()ra incluindo muitas regiões da entidade geográ­
fica conhecida como Europa.
O projeto da história natural determinou vários tipos
de práticas se;nãnticas e sociais e, dentre elas, a viagem e o
relato de víagemestavam entre asma!s virais, Para os obje­
tivos deste livr<i), o que tem relevo'essencial é a interligação
entre a história natural eo expansionismo político e econô­
mico europeu. Como sugeri acima, a história natural
defendeu uma autoridade urbana, letrada e masculina sobre
tcdo o planeta; ela elaborou um entendimento racionaliza­
dor, extrativo, dissociativo que suprimiu as relações fundo·
riais, experienciais entre as pessoas, ,plantas e animais, Sob
estes aspectos, ela prefigura uma certa forma de hegemonia
global, especialmente aquela baseada na de terras
e recursos e nào sobre o controle de rotas. Concomitante­
mente, enquanto paradigma descritivo, este sistema da natu­
reza é em si) e assim se julga, uma apropriação elo planeta
totalmente benigna e abstrata. Não reivindicando qualquer
potencial transformador, ela diferia radicalmente de articula­
ções imperiais explícitas de conquista, conversão, apropria­
ção territorial e escravização. O sist..:ma criou, como sugeri
anteriormente, uma visào utópica e inocente ela autoridaele
mundial européia, à qual me referi como uma anticonquís­
ta. O termo pretende enfatizar o significado 1-eiacíonal ela
história natur?l, a extensão em que ele se tornou significati­
vo, especialmente em contraste com uma presença exp<Jn-'
sionista européia, a princípio imoerial e
78
narrando a anticonquísll

O presente capítulo procurará ilustrar mais concreta·
mente 9 ,impacto da história natural e da ciência mundial so­
bre o relato viagé]m. Por meio ele um conjunto de exem­
plos, ,pretendo expor como a hist6ria natural forneceu
meios para a narração de viagens internas e de
que visavam não a descoherta de novas rol<lS (;e comércio.
e sim:vigilância territorial, apropriação de recursOs (' contro,
le administrativo. Pretende-se que esta discussão scjJ lida
em conjunção com dois capítulos subseqüentes, que abor·
damo relato de viagem sentimental, a OLltr,l fornu
de anticonquista neste período, Sustento que, na liter:ltur<l
de viagem, ciência e. sentimento codificam a fror.rcira ;""".
rial .nas dua(i linguagens eternamente rnnflilLlntes e
mentares da subíetividade burguesa,
No que se segue, examino a seqüência de Clll,ttro li­
vros de viagem norte-europeus sobre a África
escritos ao longo do século XVIII incluindo o que tenho
chamado de o divisor de águas !ineano: A situaçüo atuol
do Cabo da Boa Esperança (Alemanha, 1719), ele Peter
Kolb; Vi,agem ao Caho da Boa l::'sperança (';uécia. 177')
de P.nders Sparrmat;l; Voyages in lhe land ';:1 lhe Flollenlols
and the 'Kalfirs (Viagens na terra dos bO/f:'n/oles e dos Á?(I
(Grã-Bretanha, 1789), de WiIliam PaterSOl1; c ha/·c!.,
thelnterior (!I'Southern A/rica (Viagens (f() inlerio)'
Á,/J'ica meridiona/) (Grã-Bretanha, 180n, de .lo!1n HUTO\\
meta aqui não é a de re:;enhar a extensa
de viagem sobre a África !Ylp"ldional neste
vês disso, selecionei quatro textos que ilustra 111 r­
mente o impacto discursivo ela história natural e da l1()\'cl
consciência planetária, (Uma exemplo contrastante !lO
relato de viagem ela Áfríca meridional é abordado no
ximo capítulo.) Minhas observaç'ões coincidem. elll v{u'j(lS
aspectos, com as de J. M. Coetzee em seu de
V/hite Writing: On the Culture of Letters in SOl/lb
(Bscrita Branca: sobre a cultu/a letrada }/(( do SI/f)
Os capítulos iniciais deste livro valioso se concentram rCJj­
temente nos relatos de \'iagem dos séculos ÀrVIl t' ),.'VI i I
na do Sld, incluindo :!(]\!cles <tllWl'CS
I
':/.,..----.. .
I
r

ciência e sentimento, 1750-1800
>I
,--­
t
1

aqui. Coetzee prossegue pejo exame de como a proble­
"l
.
mática européia da representação persiste na literatura
dos séculos XIX e XX na África do Sul, da mesma forma
que tentei fazer para o caso da América espanhola no ca­

"
J

pítulo 7.
íI A literatura sobre o Cabo da Boa Esperança é parti­
cularmente fértil para o estudo das transformações discur­
fi
sivas no relato de viagem, pois o Cabo foi um lugar onde
a viagem científica, o impulso de expansão para o interior,
f
i

e as instáveis relações de contato que estes engendraram,
atuaram conspícua e dramaticamente. A "grande era" da
viagem científica está usualmente associada às expedições
de Cook, Bougainville e outros aos mares do sul, inicial­
mente organizadas próximo à passagem de Vênus
meridiano, em 1768. Estas marítimas efetiva­
mente inauguraram a era da científica e do relato
de viagem científico. Mas, ao tempo, elas marcaram
um fim: o da última grande fase da navegação de explora­
ção européia. Cook descobriu e mapeou a costa do
continente não cartografqdo - a Austrália. De certa forma,
preparou o cenário para a i10va fase da exploração de ter­
ra firme. O Cabo da Boa Esperança foi um dos poucos lu­
gares na iJrica em que europeus do norte tiveram acesso
ao interior continental. Era um ímã tanto para colonos
como para exploradores ansiosos deixar suas marcas. Era
um lugar onde a colonização do interior entrou em confli­
to aberto C01T', o mercantilismo de base marítima e onde a
competição entre as européias concretizava-se em
guen'as. Nas primeiras décadas do século XIX, enquanto a
expansão para o interior prosseguia, a África meridional
também haveria se tornar um posto de teste canônico
para a ;:nissào civilizatória nos trabalhos da London Missio­
nary Society (Sociedade Missionária Londrina) e
pela
de sua in­
controlável estrela, David
Fundada em
dias Orientais como um porto de suprimento para navios co­
merciais, a Colônia do Cabo provou ser um ponto de
vital para os mais variados viajantes europeus. A população

-------t§-º-­
a anuconqwl;La
____..-----,.--­ "._..____ ••
ros supria os navios com
Vulnerável a e dependente ela
pecuarista a de carne fresca, a
curou, inicialmente minimizar sua inserção
ploraç
ã
9 cio trabalho aborígene. Uma propOSl<! ele ]6)4
que empreendesse a escravização dos khoikhoi foi
da; assim foram procurados escravos, de início. na ÁLica Oci­
dental e, posteriormente, na Malásia e CeiLlo, Apes:lr disso, I)
cont1i
to
l de fronteira foi imediato e constante (o primeiro
sassinato inter-racial registrado ocorreu em 1653) e inlensili­
cou-se bastante na década de 1670, à medida que a CXjXlIl
são avançava para o interior.
anos depois da fundação da Colônia do Cab(),
\"'Ul!1J.)'WHli:l Holandesa das Índias Orientélis ,td111itiu, relu-
o estatuto de "cidaclàos livres", ou Li
a uma parcela ela pCI'­
que tomassem terras de cultivo e IXlstagcl11 ele
Esta nnnlllac1D de colonos in­
nheiros aportados, mulheres africanas ou
(Até 1685 não havia proibições em relação ao casamento
ter-racial; neste ano, o casamento entre europeus e africanos
foi proscrito, mas não aquele entre europeus e Em
1689, o número dos colonos foi substancialmente aumenta­
do por 150 dissidentes huguenotes holandeses, que trouxe'­
ram consigo a Igreja Holandesa Reformada. Em 1699. :t po­
2, Optei peb utilização da nomenclatura empreg;lda flor Cunin e! alii
(consulte-se nota 1) que se refere aos povos afriGll10S pelos 110l1WS de
origem indígena e nao pelas nomenclaturas coloniais "llrDpC>ias, .">ssim,
não ser em citações, as pessoas a qL.e a literatum I l'opéi:1 Chll\11,[ ,Iv
"hotentotes" aqui meOCi()I1:1d:ls como khoikl\()[': ilS 1')()s'lllím:l[i""
serüo citados ('orno lkung; I"; "kaffirs" ser:lo c!WI1I:It!():i ell' llgllni: [1.1
maior parte das vezes [) termo tradicional "bôer" foi sull,;tituido pel'l C::--.
pressão ceJl1teniporfine,1 "africânder"
8
ciência e sentimento, 1750-1800
-+­
produtor de ouro, conhecido
pulaç-lo de cidadãos livres (bôer), dos atuais afri­
XV1I, um impeno
de Peter Kolb, 1.11'"
publicado em alemão em 1
para o
mantendo-se
tade do
do para o Cabo, em 1706, por um
Ainda que sua
C<1
difere
do no vale do Zambe;d
conhecidos C0111"
tapa" (Cunin e/ aUi, op. ci!, capítulo 9).
l'eter KoIb (ou Kolben)
voí. I, traduÇlo para
reedi.tado P(X
como Monomotapa, aparentado com o Eldorado, por tanto
cânderes, era de pouco mais de 1.'000 homens, e
procurado nas Américas.' Nâo se acredita
cdanças, possuindo uma quantidade espedfícada de es­
. . I
primeiras expedições tenharr alcançado qualquer descobc
cravos. Um sép.llo mais tarde, era).11 17.000, com mais de
ta de valor, nem produzido, na era da narrativa ele navega·
26.000 Hoje são dois milh6es:
l
livros de viagem. Não foi senâo após o início do sécu-
O da sociedade agro-pastoril africânder de
lo XVIII que a literatura européia sobre fi mer'·liona]
- e a corrente guerra de raças sul-aft;icana - já estava defini­
realmente surgiu, sendo A situação atual do Cabo da JJo.
do por volta de 1700. A prisão da Ilha de Robben, onde Nel­
de seus primeiros c;\·
son Mandela e os fundadores do Congresso Nacional
no foram mantidos durante a década, de 60, foi constmícla
em 1657 para hotentotes "que assaltassem ou roubassem um
cid::tdão."4 Basícamente fora do da administração da
CompanhIa e freqüentemente em choque com os interesses
_peter kolb e a defesa dos hotentotes
úesta, a sociedade de cidadãos se desenvolveu de
acordo com suas próprias linhas de expansão, forçando seu
caminho para o interior, usualmente conflito e circuns­ o livro de Kolb foi tr:!­
tancialmente em aliança com a liderança autóctone khoi­ holandês (1721), (1731) e
khoi. Apoiaciospor cavalos (cuja posse era, por vetada como uma das principais fontes im­
aos indígenas africanos), armas de fogo (que, por lei, os co­ pressas sobre a África meridional, ao longo da primeirZl me­
lonos europeus eram obrigados a ter) epor alianças estraté­ (, Matemático de formação, fora 111<1nel:l
gicas com gn:pos rivais, os europeus gradualmente '"",rp'nl
patrono prussiano par:1
jaram o poder indígena, desmantelando estmturas sócio-eco­
pesquisa astronômica e
nômicas locais. Epidemias de varíola em 171.3, 1755 e 1767 missão fosse científicl, o tdato d,
enfraqueceram a posição aborígene. Gradualmente, os khoi­
do mesmo modo que o ele La Concbmine n:1 :'I1ll'r
i
khoi ficaram cada vez mais restritos ao papel de trabalhado­
do Sul, nào o foi. Seu livro, COml) o de La Condamitw
res de subsistência, pastoreando o gado bôer ao invés do
em vários aspectos daqueles escritos do outro !ac l(
seu próprio. Por volta de 1778, o novo governador, Von PIat­
das linhas definidas por Lineu. Ele se concentra
tenburg, relatou não ter encontrado comunidades
autônomas na Colônia do Cabo. O que não quer dizer, evi­
dentemente, que a sociedade local e. a resistência autóctone
'i. Verificou-se afinal que MO!lornotapa era um IU.!.;'lr rl'al 1llt!111 , .
,éculos um grm1(le estado miner;lcl"r de' um, l.
à colonização tenham acabado ambas continuaram em
pelos hiswriadores modernos de Grande Zimb'II1\':c'. 1,:I\'í,' .'c' ,·U1,,(J!íd.(
formas que discutirei mais extensamente
" entn\do em longo coni'litn t()m
Desde sua chegada, os europeus no Cabo montavam il cara do metal nos séculus XVI e XVII , entrando. ['DI l'l lllc"1I1:1
ca, em declínio. Seus ,·:tlv lk lIlll ,I",
periodicamente expedições para a exploração do interior.
afluentes do Zambezi. onde também bVrl\v:t1ll ouro. ;"C'llS dirigL'ldc'.'
Um dos primeiros objetos de típico do século
Mwenc' Murara, de onde' veio
'lhe l'resell/ S/ate <!I/i", (fI/)('
o inglês de Mr. Medley, LLJ11l1on. \\.
t·-;. et a.'it, op. cit., p.295.
York, johnson Heprint Corporllli< '11.
4. Theal, op. cit., vol. m, reimpressão de 1964, p.68.
L"
().
182
.,
da edição francesa de A 1I1IIal do Ccl/)"
Boa Espemnçu du cap de BOll11C-H'jJ('I'ilIICC.
dam, Jean Camffe, 1741), Peter Kolb. "A História", di!.
"prcpara-;;e para escrever :lquilo que lhe
cia, que apresenta ,J ci mesma com "ua
vIsa Ren.an I'ilfagístm. No p:InO de fundo
Boa Esperança; e sobre uma nuvem, a
dia Oriental, su"tentael:! oclu tleus do Comércio
ll:J
.'
ciência e sentimento, 1750-1800
'1---'" -----------.-...
mente, como a página-título alerta,s6bre "Uma AVALL4ÇÃO
Palticular das . várias NAÇÕh'S dós;HIQ7ENTOTES; Sua· Relí­
gião, Governo, Leis, Costumes, Cedmõnias e Opiniões; Sua
Arte de Guerra, Profissões, Linguagem, Caráter &c., conjun­
tamente a Uma Pequena AVALL4ÇÃO da COLÔNIA HOLAN­
DESA no CI'.BO."* A narrativa de Kolbconsiste especialmen­
te em uma descrição etnográfica vívida da sociedade e de
formas de vida khoikhoi, no moddltradidonal de descrição
de e costumes. Mesmo qule S('lJ relato seja basea­
do no que Kolb descreve como anos de contato com gru­
pos muito diferentes de hotentotes, este contato em si não
é relatado, nem b são as viagens de Kolb ao interior. Kolb
estava escrevendo antes que paradigmas narrativos para as
VIagens e explorações no interiore.fl1ergissem nas últimas
décadas do século. Em 1719, os paradigmas de navegação
ainda persistiam: a única parte de sua experiência que Kolb
aprese:lta como narração é a sua de seis meses em
direção ao Cabo.. Mantidas as conveqções da narrativa de
navegação, g viagem é contada como
l
uma perfeita história
de sobrevivência, com tempestades, doença, água salobra e
ameaça de ataque em alto-mar.
Como previsto por seu título, a narrativa de Kolb in­
clui capítulos sobre as formas khoikhoi de governo, religião,
cerimônias, economia doméstica, gerenciamento do gado,
medicina e assim por diante. É fácil admitir a vivacidade da
descrição, mas não é tão simples subscrever sua precisão.
Kolb afirma que "assumiu a Regra de jamais acreditar em
qualquer Coisa que não tenha visto, dentre aquelas que se
possam ver," mas, just:lmente na sentença seguinte, ele sus­
tenta ter visto "que Negros nascem Brancos" e só mudam de
cor vários dias mais tarde!7 No entanto, seu relato é inegavel­
mente a mais substantiva fonte sobre a população indígena
do Cabo no período considerado. Citemos uma passagem rc·
presentativa, para mostrar algo do sabor de sua escrita:
Ibid.,
• N.T.: Aqui, como em outr0s pontos do texto, proclll'ci manter a trans­
crição original das maiúsculas e do itálico.
j I
Wi
lJ I {,r'--·· ,..... _,.,._-_.
e sentimento, 1750-1800
-_....._-...,
Para a preparação da Manteiga, ell'ls usam, em Lugar de uma Ba­
tedeira, uma,Pele de Animal Sclvage.m, disposta na Forma de um
SJ.co, a Paitf com Pelos no Interior. Neste Saco, eles derramam o
Leite o bastante para enchê-lo pela metade. Eles então amarram
o Saco; ·e . .dúas Pessoas, Homens ou :Mulheres, segurando, um
numa Ponta,; outro na Outra, sacodem o Leite animadamente
para trás até que ele' se transforme ",m Manteiga.
Elés então â colocam em Potes, para untar seus Corpos e
dartes, vendê-Ia para os Europeus; pois os Hotentotes, a
t. menos que a Serviço dos Europeu's,nào comem Manteiga,
I
A última sentença é significativa, pois coloca "os Eu­
ropeus" na mesma estrutura que "os Hotentotes", num
de interação diária que se processa toclo o tempo. em zonas
de contato. Tal' interação terá pouca:. expressão nos autores
subseqüentes. Abbservação de Kblb sobre a manteiga re­
verte' a 'Ósual do intercâmbi6 e valores culturais
eurocoloniais. Encontramos aqui OSI europeus consumindo
um alimento africanos rejeitam como não comestí­
vel; os·e1.lropeuS·;éstão comprando um produto manufatura­
do não o vendendo para eles. Quem seriam
os os civilizados? Quem seria o mercado,
quem os 'inercadores? " I, I
; Pode-se provavelmente atribuir:t;,LÍs manipulações de
perspectiva ao polêmico intento de Kolb de resgatar os
khoi dos estereótipos negativos estabelecidos por autores
precedentes. Kolb ataca seus antecessores por "sua Irrespon­
sabilidade e Precipitação nas Caracterizações que fizeram
dos Hotentotes, cujas Memes e Maneiras, embora bastante
vis, não são tão vis quanto as descreveram."9 Com um
humanismo não encontrado em escritores ulteriores, Kolb
mantém que os hotentotes são acima de tudo seres culturais.
Ê incisivamente crítico em relação às afirmações
segundo as quais lhes faltaria a capacidade para a crença re­
ligiosa, afirmações evidentemente sustentadas por escritores
cristãos que procuravam uma explicação para a total falên­
8. Ibid., p,ln
9. Ibid, p.37.

narrando a anticonquista
........-.. ...
da da ação missionária no Cabo. Em sua réplica. 1\:0111
tiza a profundidade cio dos khoikhoi J SlI:i
própria religião - em outras palavras, insiste em que eles clv­
vem ser compreendidos pelos europeus em termos idêntico:;
aos q\lç os europeus entendem a si mesmos. Sem neg:\l' a !'l'­
pugnância ql1e muitas dos khoikhoi .suscitavam !1(
eurQpeus, rejeita de diferen,,':ls l'SSl'i1l'Í:1Í.' Cjll.
tornàm "natural" para os europeus com os arriem( ),.;
I ' : l
de formas diferentes aue mantêm entre si. A pass;lgem tran,­
de mantcig:l. por
prossegJe com a condenação ga "vileza" do prOlluto l'
. . I
imunsiq.s condiÇJÕes em que e elaborado - mas o
segufntç condena igualmente os europeus que o COIllIX;Ul1
em graQdes quantidades. Estranhos e freqCtcl1tvll1l'nll' J'l'pul
sivos, os khoikhoi, conforme o retr<1to fomt'cíclo por Kolh.
, ,
nào sâo um povo conquistado, nem ele advog;l SU:l ce)\1e]llb­
ta". Na. terdade, quando descreve as relaçôes que mantem
comos'colonos holandeses, tràça uma imagem idealizada de
. duas que, após iniciclis, estaheleceram
"o mais solene Compromisso" de não mais ma:;.
eXlstire'm como uma Confederação ('
, ,
contra inimigos comuns.
manter sua perspectiva interativ:\. ,.; j'C'I:lto (Ie Kollí.
em com
notavelmente c1ialógica. Os indivíduos klloíkhoí S:IC) Iml
vezes citados (em!JoJ'<.l em sua prórna 1:1) ou j'('.
prese;ltados por si mesmos em i'!s qlll'SIC'l"...;
do autor sobre suas e costumes; ele bto, Kolh rcvdl
uma fascinação particular pelas
dentro da zona de contato. Logo no início ele seu texto. e;;­
plicita o que se poderia chamar de uma perspecti\'a de C(l!í'
tato por meio de uma extensa história sohn' um t:tlentos\l
empresário khoikhoí, chamado Claas, que se tornoll um in
termediário entre europeus e habitantes indígelJas, caSU:1
mente entrando em conflito com ambos. Um:l outr:l históri:1
inicial discorre sohre um menino, criado por holandeses l.'
mandado para () exterior, que retornou para . !lm';(­
mente, à sociedade aborígene.
É na insistência cle Kolb sobre a COllK'l1'illUhili(bde
87
ciência e sentimento, 1750-1800
sociedades khOlkhoi e européia que reside a limitação de sua
abordagem. Sua estratégia para a defesa dos khoikhoi não
consiste em mostrar que eles são iguais aos europeus
ele não acredita), mas em mostrar que são genuínos seres an­
tropológicos em termos europeus. Contrariamente às afirma­
ções de seus detratores, eles efetivame;nte podem ser descri­
tos com base no completo arsenal deçategorias com o qual
os europeus C'<lracterizam outras sociedades como reais e hu­
manas: religiões, governo, leis, profissões etc. - o catálogo in­
tegraldo título de Kolb. Estas são também as categorias por
meio das quais os europeus definem e avaliam a si mesmos e
se comparam com outros. A defesa dos khoikhoi por Kolb
implica obviamente em assimilá-los a paradigmas culturais eu­
ropeus. As diferenças que extrapolamos paradigmas são ina­
cessíveis ao. disc.yrso, ou podem ser expressas apenas como
ausências e lacunas. Tanto assim que, como J. M. Coetzee su­
gere, as mais fw;damentais diferenças entre a sociedade khoi­
khoi e a européià'podem estar mais claramente presentes, em­
bor.! de forma no discurso de seus detratores. Coet­
zee atribuí a generalizada vilifiçação dos "hotentotes", nos es­
critos dos européus dos séculos XVII e XVIII à frustração pelo
fracasso dos khoÍkhoi em a expectativas antro­
pológicas e econômicas. Desde seu primeiro contato com o
Cabo, como documentado por Coetzee, os europeus inces­
santemente critiC'<lram os hotentotes por sua indolência e pre­
guiça - ou seja, seu fracasso em (ou resistência a) responder
à oportunidade de (demanda por) trabalho em troca de re­
compensa material. O que falta, segundo Coetzee, seria o re­
conhecimento dos valores internos da sociedade khoikhoi e
de sua de vida voltadas para a subsistência. "O mo­
mento em que o viajante-escritor condena o hotentote por
não fazer nada, marca o instante em que o hotentote o colo­
ca frer.te à frente (caso ele admita isso) com os limites de sua
i
10. J. M. Coetzee - White Writing: On the CU/fure ofLetters in South /ifri·
ca, New Haven, Yale U. P., 1988, p . .32, Coetzee também parece aqui se
chocar contra os llmites de sua própria estrutura conceitual. A visão <ll­
ternativa de "ócio" a que ele parece se referir llesre ensaio <: aquela de
Adão após a Queda, um paradigma cuja idealizaç:ào e eurocentrismo ele
claramente reconhece.
.'. 188
,.,"------- .. ..
narrando a anticonquista
própria estrutura conceitual."lO Tanto a análise de Peter Kolh
quanto as análises contra as quais ele escreveu, exibem eSl:l
profunda ,limitação.
Ernfins do século à medida que modernas ca­
tegorias emergiam, que o íntervencionisn,o europeu
se tornavà militante e a socie&lde
era fissuiada e desmantelada pelos colonos, a posição hu­
manista de Kolb desapareceu enquanto oossibiHehcle (Iis­
cursiva. Os "hotentotes" deixaram de ser
mesmo descritíveis, por europeus em termos de
como governo, profissões, opiniões ou caráter (como no tí­
tulo de Kolb). De fato, a classificação feita por Lineu dos
manos (cf. p. 68), em ]759, eliminou exawmente
categorias com a frase depreciativa "governados pelo capri­
cho". Como outros observaram, mesmo as fi­
losofias européias que valorizavam formas n:lO européias de
neste período, apresentavam uma propensão a assimi­
lar esta atitude reducionista: nos enfoques europeus, ,'lS no­
bres selvagens americanos e polinésios paradisíacos eram
valorizados justamente por ausência de prc;
fissões,' leis e instituições.
11
Kolb escreveu antes que esta fé',
dução'global das sociedades de subsistência à natureza hotl­
vess.e sido adotada.
Finalmente, e previsivelmente, o tratamento ela t\.:1'r:1
do espaço na análise de Kolb se afasta radicalmente c1aqul'
le assumido em obras posteriores. Em retrospecto, a ;lust'n­
cia daquilo que viria a se tornar a história natural e do ;\1'1­
é conspícua no trabalho de Kolb, Quando ela ocor­
re, os termos em que ocorre são muito diferentes
seguidos por escritores classificadores, nns-lineanos. A des­
crição do interior do Cabo, por
variedade, mas não mostra nenhum sinal de inmulso clisní­
l'ilfupeb'-,
Como muitas ',eze" se nota, tais leitur,ls Ué
WI;tPO;1
parecem relktir :.15 ansiedades dos próprios
sot'!\,:(I:l<,Il's. ,'\()
da ínstituc;onali7,;lçào e racionalização dl' suas pr()pri
(Il
vamcnte, c ,nlto-entendimento ocidental opera
um outro que, efetivamente. (- () própri() t'l!rO[X'!1.
8>1
11'
ciência e sentimento, 1750'-1300
.
Fig,9, "Como os hotentotes carregam e cuidam de suas
o equipamento para fumar tabaco", da tradução francesa de 1741
obra de Peter Kolb A situação atual do Cabo da Boa lióperança (Des­
cription du cap de Bonne-Esperance, Amsterdam, Jean Catuffc, 174]),
_...__...
narrando a anticonquist,a
&::7:f'uit:eI. .2Iõtt-entxns.
Fíg,lO, "Vilas e Cabamls dos Hotel1t0leS", d:l Ir:lIKt's:l dI.'
1741 da obra de Peler Kolb ri SiílWçâo atual do C(lI)() rI,1 lioll
(DesCI'iptio/1, dI< ca{J de 13onne-Kçpemnce, i\m,lvr(\;ll1\, ,k:lfl (:;1
r;41).
9J
,.
17150-1800
minador ou c!assificatório:
As Planícies e os Vales sào todos Pradarias, onde a Na­
tureza' su,ige com tal Profusão Encantos que maravílha os
Olhos Elas conjo -que sorriem em todo lugar:
sãO' sempreadomadas por lindas Arvpres, Plantas e Flores, algu­
maS delaitilo singulares e atraentes em Forma e Beleza, toçlas tão
Olorosas, 'que enchem os Olhos cbIh incrível Prazer e o Ar com
o mais dos Aromas. Entre i enas' estão o Aloés e outras cu­
riosas ÁrVores medicinais e Abundantes Ervas com Qualidades
médicas."
A linguagem empregada conQrma a caracterizaçcio de
James Turr.--:r da descrição seiscentisra do panorama como
um "composto", "não o retrato de um lugar individual, mas
urna constmção ideal de motíft espe'cífícos. Seu propósito, é
expressar (\ caráter de uma região _ ou a idéia geral de uma
bo,a-terra."13 Como na narrativa Condamine,
tos particulares da fauna e flor:l si:io mencionados no texto
de Kolb por seu exotismo, seu potencial como medicamen­
to ou seu papel dentro dó modo de vida dos indígenas. Por
exemplo, os dois retratos botânicos mais elaborados que
Kolb constrói, complementados por gravuras, são subs­
tândls que os próprios khoikhoi prezam, a folha da dacha
(cannabis) e a raiz de Kanna (ginseng). Não há traço do
projeto desClitivo tatalizador europeu
Mesmo que Kalb rejeite distinções essenciais entre
af!'icanos e europeus, uma outra estrutura hierárquica atra­
vessa seu mundo humanista: o escravismo. Embora comba­
tendo estereótipos reducionistas os khoikhoi (que
não eram possuídos como escravos), Kolb manifestamente
escreve a partir do interior de um mundo pré-abolicionista.
Sua descrição da Colônia do Caoo principia com casas e
igrejas e- termina com senzalas e estábulos. São os eScravos
que continuamente levam a sociedade e o discurso de Kolb
à desordem. Descrevendo os escravos da África ocidental
no Cabo como "os canaD1as mais intratávcis, vimmtivos e
12. Kolb,
13. ]ames - Tbe Polittcs 01 Landscape_ Ruml Scenery mui Society
in English Poetry 1630-1660, Cambridge, Harvard U. P., 1979, p:10.
92
cwêj's de que jamais tive notícia", Kolb termina seu
ro volume com uma apaVOf(ln
t
2 exposiçào "urm ou duas
Execuçoes", Uma das história::; envolve o destino de um gru­
po de escravos tentaram e, no processo, assas­
: : ) - - .
sinaram um' europeu, "cortaram sua Barriga, arrancaram
suas Entranhas e as penduraram nos arbustos mais j­
- !' -
mos." r.anturaclos e condenados, eles for,ll11 tor!ur:ldll.<; ;I!(; :1
morte:
dos homcns fOr;lI11 I'cit()s "m
enforcada. üs Hest:ll1tes
for:\ll1
CUIll ferros em 111';1.'>;1 l h
nilo l11ostr;!I'<lm qu:llquvr
CO!"I:,-,
c-Otn \-:1'
foranl atado.'; sobrc :1 J\oda_ I11\:SI11O gril;tLI'IL
, nenhum deles. nem mesmo um Oh
l
, ou
de mesmo seus membro.'> ('1';1111 qUl'lll-:ldos
que o executor lhes illll)Ul1h:,
ral Eu, Pierre Reviere ... 1\ reconhecerão
suaI e sensadorlalist:-l sobre tortur,l que
gação de formas institucionais de controle soei;\ I C()1ll0 a"
clínic13,e escolas- Kolb express:l qU:dqUlT
com - discurso', emhora as llisu-)ri,l:> :-;( {(lI
tur,\s de escravos efetivamente ÍntclTomTXl111 ,,' Írr( )!lll);ml 111)
- seu texto A di!llé't1s1'io
palavras, mas a silencio::':l
que é
dão parece s(:'[' lima uma ocasíJo P,II':I (j"l'llS,1
contic1o c norm:i1i/JL!n, )
--l-
I
, In." últimas Clt'Cilb.' do Sl\'U!l'.
14, Kolb, op_ cu. p.2:l.
',5_ Michel fOUCll1lt ,,- J Piene [(criêre, /)ou'J/g S/ml,fi"I")",,d Iill' .1 {nlhel:
Síster and my Brolher, Ne'" York, 19-:-') ITI':I<I. ,"11 il1gk"
,4101, Pien"(! Niuii!re, nra ,,!ere, Ul(( SfJ('lIi" ('/ JIJU)/
cas de parricide (/11 X1X" sih1c. G:dlimal'\i_ Itr:_,_ !'tI. IH.,':
Fierre Riviere. (jlle devo/e! mil/h(1 mãe. minb(/ !/'I)/{i <' lIiL'1i
Janr'íro, Graal. ]982)
)
.'
ciência e sentimento, 1750-1800
._-----"-­
menos contido e normalizado. Nos escritores posteriores de
viagens ciem1fiças, o sensacionalismo e a escravidão virtual­
m.ente desaparecem, como desaparece .'1 maior parte dos
dramas sociais de qualquer outro lado, como
procurarei mostrar no capítulo segt'lin'te, ambos encontram
uu:. novo lar nos relatos de viagem 'sentimentais, muitos dos
quais se aliam a causa abolicionista. Nesse contexto, a lin­
guagem sensacionaasta sobre a dor, utilizada por Kolb para
reasseverar a escravidão, é estrategicamente transformada
numa intensa retórica de protesto.
Em suma, ai narrativa de
pela '-CAIJCUIl'-aV antece­
de tanto o Sistema da Natureza rnf'nr.< dae'x­
. ploração e viagem da expansão
européia. Também um momento
história sul-afrkana. Quando da
anos de contínua presença não haviam
uma conquista local, e a hegemonia nativa ainda se manti­
nha. COf.tudú, a d.ominação era sugerida, especial­
mente por a'lueles livros contr<t os quais Kolb se opôs, que
advogavar,1 a 4nediata sujeição khoikhoi. No círculo
ideológico daqueles livros, a própr.i<1., resistência dos khoi­
khoi à cristandade, por exemplo, Contava como evidência
de inferioridades intrínsecas que justificavam ainda mais a
conquista. Neste contexto, a identificaçào dos khoikhoi, por
Kolb, enquanto seres culturais, políticos, religiosos e sociais
possivelmente não seja um igLlalitário ingênLlo, mas
sim crítico, no qual a superioridade européia (à qual Kolb
certaraente subscreve) não implica necessariamente a sub­
jugação. Sessenta anos mais os discul'fOS vigentes tor­
e virtualmente impossíveis quaisquer gestos
narrando a antíconquista
.. a zona de
anders sparrman e
paterson
o fim do século XVIII foi uma época de crise e re­
volta nó Cabo da Boa Esperança. Quanto crescia a
colônia européia, mais se intensificava a impaciência
com 'as: políticas prótecionistas da Companhia das
um processo semelhante ao qÍ1e ocorria ao mes­
mo tempo nas 'Américas. Na Cidade do Caho, lima I'c\'oll:1
dos ' eclodiu em 1779. No interior, as encrgias
dos Africânderes os levaram a UI11 i11­
e 'endêmico conflito tanto contra os interesSt'S mel-'
cantis da Companhia, quanto contra os povos indígenas,
Em os dirigentes ela Companhia tentaran: estalw!cCl'r
o Rio Fish como o limite interior para o encbve colonial
va para sé
ria necessário p:JfZL que
povo , como Cu rtin et alh o
a st'us próprios interesses e a COtlst
cLts soc!c­
!Janto,
. pría sociedade. Leis de passe, como as n:l 1\1
ca do Sul em 1987, já est8vam em vigor na clécad:l de
Gmpos Nguni continuavam a se opor à incursão
der além do rio, e estes continuavam a ser fust igad,. s pe­
los indígenas em seu meio, especialJ11l'l1tc I\,;U
Eles tinham se preocup:lr com outro
nômeno da zona de contélto, os assim chamados
mistos" de khoíkhoi. !kung, escraV('S fugidos, cu
nos, e o renegado branco ocasion,l!.1"
16. Curtin ,li p.29H.
n!í
194
l. ,____. _.... . ____--+-.__.
ciência e sentímento, 1750c1800

Apesar dos distúrbios do período, pelos fins do sécu­
lo XVIII, a difusão da sociedade dos colonos estava tornan­
do a viagem para o interior no sul da África cada vez mais
exeqüível para os europeus. O florescimento da história na­
tural tornou-a gradualmente mais desejável e a emergência
de novos paradigmas narrativos fizeram com que tais via­
gens fossem cada vez mais adaptadas à escrita e 8 leitura.
Estas mudanças estão claramente registradas na obra de
dois viajantes dos anos 1770 - o sueco Anders Sparrman (:
o inglês William Paterson. I
Pupilo de Lineu, Sparrman foi mandado para a África
meridional em 1772 como um naturalista que ganharia a
vida como professor particular. Mais tarde, naquele mesmo
ano, ele se juntou à segunda expedição de Cook ao redor
do mundo, reassumindo seu trabalho no Cabo dois anos de­
pois e lá permanecendo até 1776.Cçnsiderado como "o pri­
meiro relato integralmente pessoal de viagens no extremo
interior da África Meridional, "17 o muito citado Viagem ao
Cabo da Boa Esperança,18 de Sparrman, foi publicado em
sueco em 1783, aparecendo numa tradução alemã em
seguida por quatro edições inglesas a paltir de 1785, e tra­
duções em holandês e francês em 1787.
Paterson era filho de um jardineiro escocês e foi man­
dado ao Cabo, na qualidade de coletor botânico, pela con­
dessa de Strathmore. Foi descrito como "o primeiro a escre­
ver e publicar em inglês um livro inteiramente devotado à
descrição de experiências em primeira mão de uma viagem
na fi.frica do Sul"19j sua Narratíve of Four Voyages in the
Land ofthe Hottentots and the Ka.ffirsJ° (Narrativa de quatro
t 17. Forbes, op. cit., p.46. .
18. Anders Sparrman - A Voyage to Ibe Cape of Good Hope, Landon, G.
and]. RobhltiOn, 1785, vol. I, reedição, New York, ]ohnson Heprint Cor­
poration, 1971.
19. Forbes. op. clt., p.46.
20. Lt. Guillaume Paterson - Retation de quatre voyages dans ft?s pays eles
Hottentots et dc;ns ta Caflrerie, traduzjdo por M. T. 1101"", Paris, Letelier,
1790. Desaforrunadamente, não tive acesso 'à edição original em inglês
da narrativa de Patersonj as traduções do francês são rninlYds. Em 1980,
uma luxuos? edição do manuscrito original de Paterson (descobelto nos
I
narra:tdo a anticonquist.a
__.... ___, .•.•
víagE:ns terra dos hotentotes e dos
elll 1789, sendo que
uma :segunda edição
em ill­
('
Em l781, agora tenente inglês, Paterson
que Colônia do Clbo, o que levou ;)
que viagens haviam sido motivadas por
I(:'n 11;1 111
Patcr:;;on iclentiliGl1l1-sc: l'YPIICltClJ1lt'tlll' COlll
uma nova era de exploraçào do interior e de CiC'ill in­
cas' paJticula lTllel1te no tocante África. Tl'\l'I1lI() seu
prío prefácio, Paterson se define como
aos ('onqtlistaclorcs e víajémtes pois. SI h
tenta ele, nenhum deles tinha sido capaz de:' e:'111ctllll'r a
a jamais tenha instil,ldu !lOS
. do mundo o desejo cle estender seus imperios :lll.<;
mesmo que o comércio não tenha <\lraído hOl11ens ()
exame de um país cuja aparência exterior n:lo de !1lodo
gum cap<lz de seduzir alguém c\lja única mela :1 de il1lTc'
mental' sua riqueza ... mesmo assim, existem 110111('11\ que, 11:'1"
obstante Lodos os terrores associados a estes 1"1 íses, os \'Celll eJl­
tre' os objetos capazes de aumentar sua
Estes novos homens süo evidentemente ()s
O prefaciador inglês de Sparrman também () qU:llilicl Cl1l11(l
um inovador, observando que "de bto, o rel:1l0 qUl' (
do perfil cio paú; ser
medida, como novo", íá que dos
se poderia esperar" que fornecessem lal inforlll:I Ç;'l(),
Como seria de se esperar, ambos estt'S :lll[On:s disl:l!1
ciam-se claramente da liter,ltwa anedótica de sohrevivêllci:l
anos 1950) in! publicada em Joanesburgo, PreparadlJ Verl1O[\ S Fllr­
bes e John Rourke (Paterson's Cape Tral'e{s 1777-79, JO:1l1<:shurgo, llrc:n·
thurst Prefs, 1980), volume inclui r,otas meticulos:ls, m:I]l:IS.
suplementares e muitas das lâminas coloridas origin;tis. Em scu cSI:ldo
original, o manuscrito difere muito da Narralive -td:l, tI'li iUSlilk:1I1-'
do-se a minha p"r utilizar () texto francês.
21. PatersOll , op. cll" p.5.
22, Sparrn1anj op. cit.) p.vi
't)7
196
r-­
('
I '
"
ciência e sentimento, 1750-1800
e do discurso sensacionalista sobre monstruosidades e ma­
ravilhas. Na verdade, fundamentam sua autoridade so.,
tal contraste. O prefácio dei Paterson alJsteram(;nte
anuncia que seu livro "não é um romance sob a pele de um
livro de viagem", ao passo que Sparrman avisa ao leitor que
"muitos dos prodígios e aparições incomuns sobre os quais
tenho sido freqüentemente questionado '" não serão encon­
trados em meu diário," Ainda que "homens com um só pé
ê, com efeito, Cíclopes, Sereias, Trogloditas e semelhantes
imaginários tenham quase que
cido nesta era iluminada," lembra
Sares tinham sido culpados
sas", particularmente em relação aos
é dirigida principalmente a Petbr Kolb).
Ambos estes emissários llneanos organizam sua
narrativa por meio do cumulativo e ob­
servacional de documentar a geografia, a flora e a fauna.
O encontro com a natureza e sua conversão em história
natural constituem o palco da narração. O procedimento
p-arece Lão óbvio que é difícil imaginá-lo como uma ino­
vação. Como se poderia esperar, a paisagem nestes
nào é mais emblemática ou composta, mas
pecífica e diferenciada. A passagem a
ilustra como
o sistema da natureza a
do relato de
viagem de Paterson;
Quando passou o calor do dia, mmamos para o Nordeste, através
de uma região extremamente árida, mantendo a imensa cadeia de
montanhas à nossa direita; quarenta milh;ls adiante avis(amos ou­
tra cadeia de montanhas à nossa esquerda. Ainda que esta área
seja extremamente árida em aparência, ela apresenta
abundância de plantas da classe das euforbiáceas, de
mesembriântemos e de várias espécies de gerânios."
A linguagem é intensamente visual e analítica. Itálicos
lineanos espalham-se pelas páginas, ainda que nunca tão
23. Ibld., op. dt., pp.xv-xvi.
24. Paterson. op. dt., p.23 .
... ....r--- ..
n"rr""r/,, a anticonquista

numerosos a ponto de desconcertar o nflo-iniciado. Em tt'­
. ela semelhante, encontramos Sparrman afirmando:
I
Muito tarde da noite chegamos à fazenda de nos:;o condutor, apra-·
zivelmente situada no outro lado do rio Borr. Este rio ladeado,
a ' intervalos, por belas e altas montanhas, cujos picos l'
encostas emprestavam ao cenário uma variedade encantadora. Nos
declives de algumas delas viam-se gmtas e cav<:rn:!s, que cenalllen­
te não existiam desde sua origem, mas eram n:.sultajo elas vicissi­
tudes e mudanças a que todos os naturais estào sujeitos."
páginas de tais benignos regis;ros sào suficien­
tes para novamente sugerir a do nalll['alista COI1l0
Adão sozinho em seu jardim. Onde, poder-se-ia
estão todos? A paisagem é descrita com!) in;lbitacla, devol!:
ta, sem .hi.stória, desocupada até mesmo
jantes, A atividade de descrever a
ra e estrutura uma narrativa a-social na qual a presen­
ça humana, eurooéia ou africana. é absolutamente
ainda
I
e ,
parecem desa parecer do
o é claro, explica que ele possa andar por toda pane
como aprouver, e que nomeie as coisas com o seu notne'
ou o de amigos de seu país natal. A certa altur:l. numa ilho,
ta deserta, Sparrman se dcscreve "alheio 80 estlldo hot;ltli­
co - nas mesmas vestes que Adão usou em seu esudo 11:1­
tural". Nos termos incorporados naturalista, a au!()rí(l:!­
de e legitimidade da autoridade sào inconlestáve'is
- uma visão indubitavelmente atraente leÍlort'S l'!II'UpCU:i
do tempo, o mundo humano é natu­
ralizado, como pano de fundo para a busca du
naturalista. Nos relatos tanto de 11 qlla nto d,
como é norrn8lmente () caso, o grupo em \'i:lgc1l1
constitui um microcosmo das co!onÍ;1 is. visto (]v
relance em passagens ocasionais. Fora do do olhar
atente., para a paisagem, servos khoikboi se rnovimcntllll
ri, 'I' t
l-.... op. c/I .• p.12R.
D;)
I

"
dênCia e sentimento, 1750-1800
para dentro e para fora das margens da história, levando
I,
f
água, carregando bagagens, tocando o gado, roubando be­
bidas alcoólicas, guiando, interpretando, procurando carre­
I.
tas perdidas. Referidos apenas corrio \.um (uns)!o(s)/meu(s)
hotentote(s) (ou simplesmente orpitÍdos, como em "nossa
bagagem chegou no dia seguinte?, todos são intercambiá­
veis, nenhum. é distinguível pelo nome ou qualquer outra
característica, e sua presença,sua e estado su­
balterno, são tidos como certos. (Paterson: "Na manhã se­
guinte, havendo encontrado uma povoação hotentote
milhas adiante, tomei um de seus habitantes como
Afora sua presença fantasmagórica como membros do
"grupo", os habitam uma seara distinta nos textos
destes livros, çmde são apresentados enquanto objetos de
descrição etnogclfica formal. Sparrman lhes dedica uma
gressão descritiva de trinta páginas n'9 meio de seu livro, en·,
quanto Paterson os coloca numa nota de catorze páginas em
seu primeiro capítulo, em meio a n0ti'lS menores sobre o vea·,
do-do-cabo e a zebra. Estes retratos .. etnográtkos pós-Iinea­
nos dos khoikhoi se afastam da déscrição feita por Peter
Kolb de ,maneiras que expressam esquematicamente o avan·
ço dos interesses colonialistas. Muito simplesmente, enquan­
to Kolb descreveu os khoikhoi primariamente como seres
culturais, estes dois textos da década de 1780 os apresentam
antes de tudo como corpos e acessórios. A estratégia etno­
gráfica de pergunta e resposta de Kolb é em
Sparrman e Paterson, pelo escrutínio visual enquanto meio
de obtenção de conhecimento. O retrato de Sparrman dos
hotentotes começa por cinco páginas devotadas às partes do
corpo, especialmente as genitais/
7
quatro às vestimentas, três
aos orname'1tos. Kolb também escreveu sobre corpos e ge­
nitais, 1'0 entanto, em seu discurso, os corpos eram entida­
des formadas ou, no jargão moderno, estabeleCidas oela cul­
clt" p,196,
27, Ao longo dos sécdos XVIII e XIX, e também no século XX, a geni.rá­
lia dos hotentotes foi objeto de infindáveis, usualmente de­
bates e discussões por toda a Europa, () tema e fantasia principal veio
/.t.... - .. .......----.
narrandú a anticonquista
..
tura. Ao descrever, por exemplo, uma cerimôni,l 1J:! qU;lI J()­
vens meninos tinham (supostamente) um de seus testículos
removidos e substituído por uma bola de gordura de
a príricipal reação de Kolb é a de frisar repetidamente a fi­
neza ,e
l
precisão com que a operação é !cuado Cf co!?u.
Sparrman, por seu turno, observa que os homens hotentott's
têm dois testículos e, com base em sua pról lría
nega a existência do procedimento descrito por Kolh, ü efei·
to é <1 dfsculturação dos cada vez mais
Nào é necessário que se diga que a di111en,<10 c1ial(lgica da
narrativa de r<;:olb contrasta com os aparatos descritivos C:;(;'I­
ricos ,de Paterson e Sparrman, As vozes índígcn,ls quase
ca são reproduzidas ou mesmo invent:ldas neste,s es­
critos dI? final do :ArvIII; os atributos intelectuais e es­
analisados por Kolb são negados pralicamente pon­
Quando Sparrman faz um comentário sobre :1
cannahts, ele explicitamente não pretende discutir o seu lu­
gar nos ,costumes indígenas, mas sugerir que os colonizado­
res "a ptilizem em panos p::lra lençóis, na oroducão de sacos,
lonas, cprdame e outros artigos. "2H
: Inteiraçlos da atual crítica acadêmica ao discursu dos
colonizadores, os leitores contemporâneos facilm\?nte rel:1­
cionamesta criaçào de um corpo sem discurso, desnudo,
biologizado com a força de trabalho desenraizada,
da e disponível, que os colonialistas europeus tão C!eSlll11<l'
na e incansavelmente Jutaram par<l criar em suas hases no
a ser a questão sobre se as I11ulheres khoikhoi pOS5uí;lI11 pm c1l'Il1c:nto gl"
niral "adicional" que veio a ser chamado de "avenral hOlc'!lloll'" "TeSle"
!11unhas" dos dois lado.s envolvidos no debate Sr\() nu llll'l'(lSCIS. c' " dl'h:i'
te sem dLlvida um dos mais sórdidos G'I,jtu!os hiq()l'ill d"
imaginárío colonial desumanizado da Sanlkl' L Gilm:ll1 c'-'l\!ll:!
gUlls aspectos de:iLa milologi,1 sexual enl Bodll'>, \Vilill' 1,,,dll'S: 'I(),
\Varei an Icol1ography 01' l''('mall! Sexuallty in Lare Nil1l'il'l'I1II,-Cl'l1llln
iVledicíne, 'mel in HCllJy Luis Ceci,) .- liilCl.'. Wl'Ílillg Wirl
Difference, Chictgo, Chicago n p" l<)H(Í. O anigo Li" CIIJl1C1n
3cen,rdamCnll' crim:ado por reproduzir l'Xal:Il1Il'l1lt' 'I ,lillll'11S'Ú)
fÍl:a que está procurando condenar. C"n,"\llte ,SL(, por (,.'\l'1111'1, 1,
de Houston Baker II Gílman outlO,s na mesma COIc'iânl'I;,
28. Sparrm:m. ojJ , p.26'S,
101
"
ciência e sentimento, 1750-1800
'1
exterior. Poder-se-ia argumentar que os relatos de Sparrman
i
e Paterscn· simplesmente refletem mudanças que os
'1' próprios povos khoikhoi haviam experimentado durante as
í
cinco décactas ' de intervenção colonial desde K:olb. Suas for­
I
i
mas de vida' tradicionais tinham sido, afinal, permanente­
mente despedaçadas. No entanto, a concordância entre es­
tes textos vem ,já do fato de retratarem os povos africanos
não como objetos de mudanças históricas em suas formas
de vida, mas como indivíduos sem forma de vida,
. I
seres sem cultura . (sans moeurs, .na versão ff'"d.ncesa de
Paterson). Qu:aísquer mudanças porventura tenham
ocorrido, tendem a não ser fomo mudanças, mas
sim "naturalizadas" como ausências I lacunas. A descrição
de Sparrman apresenta a si mesmfl: verdade atempo­
ral e, sempre que as duas entram em conflito, simplesmen­
te rejeita a veracidade da narrativa ,anterior de Kolb, Assim
como os khoikhoi são desterrados extraídos da paisagem
em que vivem -, são também de sua economia,
cultura e história. Estes são procedtnientos que a ação da
história natural torna simples e, de fat9, obrigatórios. Assim,
a anticonquista "subscreve" a colonial, mesmo
quando rejeita a retórica, e provavelhlente a prática, da con­
quista e subjugação.
Enquanto deixa rigidamente à parte os povos IllUlgc:­
nas africanos, Sparrman, em particular, freqüentemente dra­
matiza suas interações com os colonos africânderes (bôe­
res), de cuja assistência ele também depende. Aqui, a
vra que dá lustro e idealiza as relaçôes entre colonos e via­
jantes é "hospitalidade". Os encontros dos viajantes com os
africânderes são regularmente ajuizados, tendo por base o
apreciado cenário burguês do rude e humilde campônio, re­
pa.rtindo al-egremente seus víveres com o homem ilustrado
da metrópole, cuja superioridade essencial é ainda
que suas fragilidades sejam desprezadas. Sparrman e
Paterson raramente, se é que alguma vez o fizeram, men­
cionam as práticas de troca que estruturavam mais concre­
tamente suas relações com oS colonos. Era costumeiro, por
exemplo, que a assistência dos colonizadores africânderes ­

comida\ alojamento, gado, selVentes fosse p;lga em pól­
vora e munição, substâncias difíceis de armazenar e de ch­
ter em áreas remotas, e das a invasào colonizadnJ'a
total e sistematicamente, Nos relatos de viagem, esta
troca não. é mencionada, talvez pelas mesmas razôcs que
tão pouco é dito a respeito dos usos qUt' teria tal Imlt1içJo.
As complexidacles da vicb na zon;1 ele C()i1tato silo
LGUlIU...:m expostas apenas ele relance, A dos
africânderes freqüentemente confunde categorias -­ t,1 nto
Sparrm:;l.11 quanto Paterson contam ter se aproximado de (:1­
banas africanas que afinal percebem ser lares de colonos
europeus. Nas áreas mais remotas, solitários europeus itim'­
rantes encontrados movimentando-se de um lugar para
outm, cruzando os limites da dife:rença. Ambos os autores
sobre alianças sexuais e casamentos transraciais n:1o
apen:ls o caso ,comum de hOlljlens europeus e concubin,ls
africanas, mas t!\l1lilbém de urna mulher que dá à luz o filho
de um arpante africano; de um europeu que se casa C0111
uma m:ulher tribal por verdadeiro amor, A violência e
tmiçào da zona de corrtato também são tn,(S
apenas em suas e111 traços nos corpos ou
anedotas: uma mulher terida h{l anos por \1111:1 !'kcb !'lI
químana, um homem cuja mdher e filhos 1()],;1111 l1l(lr!OS. Ull)
chefe de quem se tinha tinido as tClT,lS, )' lito l' lc't1,-:()1
entre trabalhadores afric<lIl()$ contratados l' [IÚl'S
ropeus permanecem Oi!
mencionados, mas n;IO
Por
nha genocida contra os
da por meio de um,l descrição
melhante a uma receita, de como os bôeres
caça aos bosquímanos,
No livro de Sparr''''
do colono muitas vezes
drama ideológico essencial ú autoridade do naturalista: () dv
sua forma de saber sobre outra:; Cjllt'
-1-";9 Jbid., p,202.
HJ:\
ciência e sentimento, 1750-1800

Pig.n. frontispício da tradução inglesa de 1785 de Viagem ao Cubo
da Boa Esperança, de Sparrman, representando o "Panorama do
C:lmpo no Cabo da Boa Esperança".
As interações de Sparnnan com os africânderes frequente­
mente representam choques entre o conhecimento campo­
nês e a ciência. Significativamente, Sparrman impõe o termo
"camponês" aos africânderes em geral, mesmo os abastados,
os quais certamente não aplicariam o termo a si mesmos.
Em muitas anedotas, os africânderes são tratados com
prezo ou ridicularizados especificamente enquanto
Uma série divertida de anedotas enfatiza o contraste
entre as visões da natureza mantidas pelo colono e aquelas
do naturalista. Num dia particularmente fértil na coleta de
espécimes, Sparrman nota que sua caixa de insetos está
cheia e ele é :'forçado a colocar toda a profusão de moscas
e insetos em tomo da aba de (seu) chapéu, ",lO Procurando
um lugar para se hospedar, é encaminhado para a casa de
t-;.-lbid , p.61·
"uma rica e
do durante
multiglóssico
de insetos antes,
mesmo
lecem
aparece,
51 Ibid"
32, ibid"
narrando a anticonquísta
viúva de cinqüenta e dois <1I10S de idade,"
Ao chegar, Sparrman tenta ocultar seu chapéu infestado de
bichinhos para não alarmar sua anfitriã. Ele, é rr<lí­
o pelos criados, um dos quais slIsswra
para su;:t patroa que o chapéu do conviebdo "('st'l cheio llv
pequenas bestas (kleine bestjes)." Sparrman tem a
de espírito necess{tria para a
Foi então necessário que interrompesse por
para que mIo me engasgasse com das l'flornwc;
pal,!-vras e frases do holandês, que Ill'c<;';;sitc! cunhar illll'­
diatamr.::ntc para convencê-la da utilicl<ldc' de :-;c cntl'ndr.::r
estes pequenos animais, tanto para fins ml'dicos CU[)lO ('con(l!lll­
cos, e também para a do grande Criador
Ao citar a frase afridmer kleine SjXlrrman lli­
nha a substituição verbal que constitui i'ua ll1issilo enquan,
to naturalista. Ele fornecerá os nomes "corretoi''' O aspecto
é poderoso, rois a frase afric:-lner alinha a pa­
troa africânder e seu criado africano na cmegori;l elos nüo­
inicüidos cientificamente, Na continuação da ex­
plicação de Sparrman é ben-,-sucedida, mas uma nO\;1 pl:'l
formance faz-se necessária pouco quando cheg:l
numeroso grupo de amigos e parentes da viúva, Nm'an1l'll­
te a distância entre conhecimento e rrofissiona; é hu­
moristicamente apresentada: "Eles tin
l
-ull1 visto
mas quando examinaram minha
de plantas e encontraram nela não apenas
bém grama e pequenos ramos de arbustos e árvores. n;'I()
puderam conter seu riso ante visàu tão
Sparrman está inquestionavelmeIlle t.ol11hando e!c-
nesta anedota, tanto quanto atribuindo
a seus anfitriôes. Esta autozombmía l' consistentl'
com a relação que e.:;ses dois escritorei' pós-lim:';111os l'stahl'­
entre eles e seus leitores, Quando CH'!1t ua IllWlltl'
o aUlo-ohliterado (b ;uHiCOII( l'
p,(d_
pN;
or
.'
e sentimento, 1750-1800
freqüentemente rodeado por uma aura não de autoridade,
mas de inocência e vulnerabilidade. Sob este a ane­
dota de Sparrman sobre a viúva é reveladora. Deixando de
lado o potencial erótico convencional da cena (jovem sol­
teiro I viúva rica), o escritor a transforma em paródia de dra­
ma edipiano. Infantilizando-se a si Sparrman
rotiza a viúva ao comentar sua fragilidade e explicitar, ao in­
vés de apenas insinuar, sua idade. Ao se esforçar para
falar com a boca cheia, o menino-Sparrman procura possuir
I
a mãe-viúVa por meio de palavras, utilizando especifica­
I
mente o discurso da história naturaL" () momento é, claro,
interrompido por outras pessoas que a requisitam, pessoas
a quem Sparrman é incapaz de assustar ou impressionar. So­
I
cialmente, tanto quanto sexualmente, Sparrman leva a efei­
to umaanticon.quista.
I
Nada disso é muito grave, pois a pessoa que realmen­
te importa é seu pai na Suécia, à espera do retorno de seu
fllho. Diversamente de antecessores, como o conquistador e
o caçador, a figura do naturalista-herói assume,
mente, uma certa impotência ou androgeniaj muitas vezes
ele se retrata em termos infantis ou adolescentes. A pro­
dução de conhecimento do naturalista tem aspectos
decididamente não fálicos, talvez aludidos pela própria
imagem feita por Líneu de Ariadne seguindo seu fio até a
saída do labirinto do Minotauro (cf. p. acima). Serpean­
do pelos campos, olhando, coletando, inlprovisando,
do :loque quer que encontrem, os discípulos de Lineu não
se assemelham integralmente a Dr. Frankensteins ou a Pro­
meteus, ladrões de fogo. (Os devaneios do caminhante soU­
tárict, de Rousseau, inclui um famoso retrato do autor her­
borizando num longo manto turco.
33
)
Os heróis naturalistas não são, mulheres - ne­
nhum mundo é mais androcêntrico do que aquele da histó­
ria natural (o que não quer dizer, evidentemente, que não
tenham existido mulheres naturalistas). A estrntura paternal
t-·-N.T.: -:;-bras.: Brasília, Editom da UnB, 1995,
33. Agradeço a Elizabeth Cook por trazer este ,exemplo à minha atenção.
106
de díscipulado é sobejamente evidente.
!preside em casa ao
lham pelo mbndo à busca das peças
pletarão. A imagem de Adão
imageiTI qlle
neanos 'ao exterior envolve
I '
. sua
missão. Eva é o
e possui.
nha çoleção." Mas contr:triamente ao
cadosnão têm qualquer valor em si
instâncias de si mesmos,
quista e 'a anticonquista
objetos
traI' nas
muito excitado pela
são desconhecidos,
,Que emaranhado
nestas poucas sentenças' Por um lado, a
34, Paterson. op, cito p,"),
de inocên,
cia e desinteresse, por outro, o vocabulário ele
e deseio De um lado, um eu demandante (mas­
no jardim UJl1.!
a criação de Eva. Como os
seus livros muitas vezes sugerem, o impulso' que li­
uma escolha. C0!110 :1 do 1)1
Frankénstein, contra a vicia conjugal l' Im!
lheres. A ausência de Eva é indubitavelmc.:nlt' um:1 rrc('o!l'
díçàq para a infantilídacle e inocê'1cia de Ad<io,
a busca do naturalísl<! <.:nvolvl',
como sugeri anteriormence, LIma imagem de \:' suh
jardim que modo oll j<.:r á\'cl.
"Fizemos pausa par;t descans:II'." di!
Pater,;;oQ várias vezes, "e acrescentei diversos eSDt:címes mi­
não é arrancado de ninguém. Os pequenos espécimes resst'­
- eles mer'll11<.:nte
de seu e ele Sll:l
espécie. O prefácio de Paterson frisa o contmste entre a COI)­
ele fC\'C­
la sua conexão. Nos "sertões" da África. escr\:'vc,
o naturalista encontrará um vasto campo pUfa ()h,.;"r\';\\'('",
e lá descobrirá objetos que, por sua imensa variedade, ""rijo
pazes de satisfazer todos os seus gOStos; lá tmlo,'i (
em seu estado natural, e discl'rnirií no,' sl'lvagl'll'i
hotentotes as virtudes que talvez tenha, em V;\o. ellU)!l'
sociedades civilizadas. Tomado por tilis senli!lwnloS, l'
de uma terra cujos pmcllltos no,
a Inglaterra com a resoluç,10 de
fazer urna curiosidade que. se nâo uista CO/1/01ílil pom Cl
de, é CiO menos inocente (itálicos meus),"
ser encontrado
107
r
[!
ciência e sentimento, 1750-1800
----._'-,..._--------­
culino) com necessidades a serem e, ao mesmo
tempo, um eu receptivo (feminino)! por senti­
mentos. O orOjeto diferenciador e cumulativo da ciência ex­
àquela f6rma de diferenciação e
acumulação que é chamada de O conhecimento é
identificado a6 consumo (como Sparrman à mesa de jantar
viúva) e à satisfação de um desejo auto-reprimido. '
Na literatura da fronteira imÇjerial, a inocência CÇlilS­
pkua do naturalista, suponho, adq1Jire significado em sua
relação com uma assumida culpa p'ela conquista, uma cul­
pa da qual a figura do naturalista procura se
esquivar, e que eternamente menciofla, nem que ape­
nas para distanciar-se dela mais uma vez. Ainda que os via­
jantes estivessem testemunhando as' realidades cliárias ela
zona de contato, mesmo que as instituições do expansio­
nismo tenham: tornado possíveis viagens, o discurso'
de viagem que a história natural produz, e que é produzi­
do por ela, repousa sobre um grande' desejo: uma forma de
tomar posse sem subjugação OH viol'ência. Tal anseio alcan­
ça seus extremos no último relato sul-africano que me pro­
ponho considerar: As Viagens ao Interior da África Meri­
dional nos anos 1797 e 1798, de John Barrow, livro
do em Lonclres em 1801.
Jlrranhões na face do país, ou o que
o sr. barrow viu na terra dos
bosquímanos
As viagens de Barrow no lJ1lerior da Colônia do Cabo
foram originadas por um período de explosivas rupturas nas
relações Ínternas entre a Companhia elas índias Orientais, a
sociedade colonial africânder e os potentados indígenas,
conjuntamente à escalada da agressão externa ela França e
da Inglaterra. A tentativa de se conter a expansão européia
no rio Fish não foi bem sucedida e os africânderes continua.
,__
narrando a antie()nquista
........"'".... _.'-,
ram :sua invasão do território controlado pelos povos
. Eles' também continuaram a se ressentir
relutância da Companhia em apoiá-los. Em
n11ia' enviou um landrost, ou administrador, para conter a
,crescente ,militância africânder. Ele permaneceu nc­
'apenas'uns poucos meses e, pouco depois, um ataque ;,1'1:;­
cânder contra os nguni proV(j",UU um levante geral sem pn'­
ceddntes de africanos contra europeus.
3
> Enmre2ados khoi­
khoi e escravos !k1.lng se rebelaram em
se juntaram aos nguní, fornecendo
mas roubadas de seus palrôes europeus, Eles for;lln cil'\';lS
tadOl'arnente empregados contra os colonos ;lfric! ndercs. :1
quem () governo cLi colônia pouco par;1 prolegcr.
africânderes reagiram á aclministracào col()nial C' ('111 a
mas áreas proclamar
Inceneza e violência persistiram por m\Jitos anos,
num p(jríodo em que os problemas financc:iros da
nhia Holandesa das Índias Orientais limitavam sua ,
dade de reação, Em 1795, a Colônia do Cabo foi tomad:1
pela Grã-Bretanha (sob o pretexto de que eSlava em
de cair sob o controle dos que, sob
viam rel::entemente conquistado os P,iÍses Baixos) Os colo­
nizadores britânicos sul-africanos ingleses de hoje) co­
meçaram a chegar, evidentemente mal recehidos pelos afri­
cânderes, A Colônia foi devolvida aos holandeses em lHO,"',
retomada pelos britftnícos em 180(>, e dchnitiv:II11CIlIC enio,
sob o jugo britânico em 1815, J0I111 13arrmv,
dipl0111ata de carreira, chegou ;;tO Cabo c1ur:ll1te ()
período do britflniCo como secrel;írlo
novo governador colonial, Lorde J\kClrtlll'\'
McCanney
),
VI
dirigentes cLt Companhia, estabelecer o rcconllCcil11(,111() ,11
presença britânica entre as a!'riclIldcl'l'S L' II
genas ié', al('m disso, cloCUI11l'nt:lJ' ";1 LIcc cio n:lí.,
l 35, Curtin el uNi, Oj), pp.,'OI (" ss.
(): I
--------
l
'I;
'j'
I,
I!
ciência e sentimento, 1750-1800
Diferentemente de Kolb, Paterson e Sparrman,
Barrow estava viajando oficialmente em nome de um em­
preendimento territorial eurocolonialista. Em suas narrati­
vas de viagem, ,a retórica de anticonquista do naturalista
quase supera o papel de um relatório oficial, visando a le­
gitimação da ocupação britânica dCll Cabo. No que pode
parecer um paradoxo, o relato de Barrow faz apenas re­
ferências muito limitadas aos ângulos inilitares e diplomá­
ticos de sua missão. Ele escreve ilim pouco no padrão de
Sparrman e Paterson, como naturalista, geógrafo e etnó­
grafo. Estes discursos aparecem Cle 1 forma extremamente
institucionalizada no texto de Barrow, e são conectados à
expansão imperial de maneira mais explícita que nos es­
critos de Sparrman ou Paterson, talvez porque Barrow
estivesse escrevendo como representante oficial (um se­
cretário, de fato), ou talvez por conta de seu próprio tem­
peramento.
Como seus predecessores, o relato de Barrow em ge­
ral separa os africanos da África (e' os europeus dos africa­
nos), relegando os primeiros a retratos etnográficos enseja­
dos pela narrativa da viagem. A narrativa de Barrow consis­
te numa supeqlbundância de descrições da natureza e da
paisagem, uma, catalogação carente de emoções daquilo a
que Barrow, ele Lambém, gostava de se referir como "a face
do país". A passagem seguinte é ilustrativa:
o dia seguinte, atravessamos o rio Great Fish, ainda nàc, sem
alguma dificuldade, posto que as ribanceiras eram altas e íngre­
mes, a corrente, forte, o leito, rochoso e as águas, fundas, Algu­
mas belas árvores, salgueiros-da-babilônia, ou uma variedade da­
quela espécie, ladeavam o rio nesta área, O lado oposto apresen­
tava um lindo campo, com muit:Is matas e cursos d'água é pro­
fusamente coberto de grama, entre a qual crescia em grande
abundância uma espécie de'índigo, aparentemente o mesmo des­
crito pelo Sr. Masson como candicans,
A primeira noite que acampamos na regiào dos kaffir estávamos
próximos a um córrego chamado Kowsha, que deságua no rio
Great Fbh. No dia seguinte passamos pelas vilas de Malloo e
Tooley, os dois chefes e irmãos que havíamos visto em Zuure
Vddt, vilas estas encantadoramente situadas sobre duas eleva­
ções que afloram do citado riacho, Também por diver-
··----..
narrando a anti conquista
sos povoados localizados .lO longo d8s 1ll.1I'g<-'ns cio G ,Iengb l'
Sl/as ramificações, e no dia seguinte chegamos Uill I'io de
nitude muito considerável chamado Kdskallllll:l. '"
E' assim prossegue pela maior p,Hte cle'ÍOO p:ígi[1:1o;,
um tipo de narrativa estranha, extremamente conticla, qLle
parece fazer todo o possível para prcscI1\';[
humana. Em geral, o que é narrado é um:1 sC:'q('[('>nci:l ele'
vistas ou lugares, Detalhes visuais são intL'rcaLlclos com
informação técnica e dassificatória, :1 formar 1.I[]1
quadro' panorâmico salpicado por termos estéticos, miti­
gando o que de outra forma seria um vocabulário integral­
mente insensível. Os viajantes são, sobretudo, apresenta­
dos como um tipo de olho coletivo móvel no qual sào rc­
gistradas as vistas/paisdgens; enquanto ngentes, su:[ pre­
sença é muito reduzida, Na passagem mencionada, por
excn1plo, o grande esforço do grupo para Cl'lIZ8r o rio nào
é narrado ou dramatizado em termos humanos, e sim
expresso de maneira bastante indireta como uma enumc­
ração I dos traços do rio responsáveis pela dificulc\adc,
Prioridades heróicas são eliminadas; os protagonislas eu
J'opeus :excljJem-se de sua própria história,r há nem
mesmo traços ele qualquer coleta de espécinics
J3armw - flll['/'/"" 0/ SOl! An ACCOUllf 01 Traz'e!s illlo ':'
than All'ica Ílz lhe Ye{lrs J 797 (lI/c! 1798, Lo IllI "", C:1l1l'11 ."1e1 li,l
vies, 1801; l'C'l:'c1içào, New York, Johnsoll l\eprilll Corpor:II""" l'l"c'
pp,IS>O-l. U1l1a d:lS l'rCiue!s veiu llll l'lll I C()!ll() l!ln
"'segundo VOlUlllC, A :-;("1' incliclllo, [()d,l> .1." cit;I\.:(')l',"'; "';,1('
provenientes do vol. I.
37, Barrow mantém "uto-,eliminaçào Illesmo qUClllcl" 11:11'1':1 1110111\-"11'"
de drama e grande perigo pessoal. que floderial1l alc:lilpr flollloS elrClIll;l·
ricos extrerno.'-i. Ao C()nlO se processou :\ (Il' 11111 Illcl?nclj()
na serüo dS G\ITOçaS, u gado, os eles t: o teITL'110 qUl' J"L'gi:->lrarj() ,1
crise, ao pélSSO que a t'xperiênci:! (. fUki<li:lIlll'nlL'
S8ínlos lltll pouco do calltinho que Il:'vava :10 lUg.l
r
llL' oIldL' prO\'iIlh,l
H fumaça; contudo, estando carroças a t.: llLlt.' ;\ \'(.'11
tania se intensificou, antes que percebêssemc,s estavaJll elas ',lO Jlleio
do incêndio; e a fumaça estava dellsa e ante LiU" il:iCJ podLill10S ': 'I
o grupo em toda a sua extens"", O.s bois, tendo .sido LJUC'lillCldos 11;1'
palas, tornaraIll-se ingovem(Jv('is e fugiram a galopl', l'lll grande COil·
fusão, os cachorros ganian"J, t' houve griwria t\ ftll1lac\ SUr()­
111
•..
-,

I.
ciência e sentimento, 1750-1800
Os moradores do campo, fossem africanos indígenas
ou colonos bôeres, aparecem na narrativa principalmente
,
como elementos do panorama. Os povoados ngu:1i mencio­
nados acima, por exemplo, são menos relevantes no discur­
so que os rios e Cursos de água, e não se fornece qualquer
siGal de seus habitantes. A história, que motiva a presença
de Barrow e determina seu itinerário, não tem qualquer pa­
pel constitutivo no texto. A travessia do rio Fish é descrita
sem qualquer menção ao significado político do rio CGmo
fronteira da africânder . ainda que seu estatuto
de fronteira constitua a verdadeira razão para que Barrow o
esteja atravessando. As Montanhas Nevadas são ultrapassa­
das sem que haja qU8Jquer referência à sua significação
como a principal base para a atividade guerrilheira antieu­
ropéia - fonte de considerável apreensão para todos os via­
jantes no local. Noutra logo descrever uma
faixa de "campo selvagem, inabitado", Barrow efetivamente
afirma que :1 região havia anteriormente sido "uma das divi­
sões mais povoadas do distrito", ora despovoada em conse­
qüência do "escandaloso conflito entre o campesinato e os
kaffirs."38 Mais tarde, Barrow diria que havia "propositalmen­
te evitado" a discussão política em seu relato, em parte por
discrição, e em parte porque "concluí, então, que havia uma
única opinião a respeito do real valor do Cabo da Boa Es­
perança. "39
Asstn, o drama na narrativa de Barrow não é produ­
zido pela história, nem pela agência dos próprios viajantes,
mas pela face variada do país tal como ela se apresenta a si
cante; as chamas ardiam em ambos os lados das carroças, o que, es­
pecialmente para aquelas que cominham uma quantidade de pólvora,
era muito alarmante... , Por várias mílh;ls, a face do campo era uma [o·
lha de fogo, e o ar estava obscurecido pela nuvem de fumaça.
(Barrow, op. ciI" p.195)
Tão suprimida é a presença humana que a sintllxe faz com que as carro­
ças se alarmem pelas chamas, e nâo as pessoas que est.ão em perigo de
ser destroçada:; pela explosão!
;38. Barrow, op, cU" p.165,
39, Barrow, Travels, vol. lI, p,3.
.,_-t!12,

Ii Jl­
mesrna acs
guagem de Barrow sugere a
priação que est{1 inscrita nesta de outra :ll)('r'
ta e ,passiva, O olho "determina" o que ele :lbr:1I1ge em
olhar; as montanhas e vales "se mostram", "apre"entam UIll
cenário"; o país "se abre" para os visiWrHt'S i\ Cll
é absolutamente incont<-'suc!:l, Ao IllCSl1lC) !l:'mpo, ,1
perscrutador olho europeu parece' imporClll(, S(),
bre ou com este cenário que se ;\ si I11C.'­
nào incliviclu<jIi7,acio, St'lll ego, () 1)1110 I1;·I(
ijfazer nada 'mais cio que ohserv;tr d;l
estamos novamel1te 110 l-c'il1l
'
,l:I
darrow da paisaW'Ill .<10, ;L' H'h"'.
um discurso explica t.i\'( '. c:;lnlt li lJ
reflete os desenvolvimentos da história naturaL no fín;l! li,!
século XVIII. Neste modo explicativo, a GllJ.'i:J!ic!:!(!l: -- (' 11;'\(,
a classificação - define a tarefa a cumprir. () cio (
vador não é o de apenas coletar o visível, () e'" 1111('1
etn tefinos do A descriçClo de ,,,))'1 ,,"·l,';r)­
sa área de ao lado de um
térmicas e
cidas para explicar a presença ele minerais,
dos pântanos, as direções das cacl::ias de
cursos de rios, Experimentos são
propriedades ocultas - o mundo não é
aos olhos, como o é para o colecionador linca:lO.
to discurso, a explicação acrescenta unia c1ínwns;'l() de pn'·
fundidade à superfície encoberta da termi
Ela também gera novoS poderes planetários para ()
te da história natural, agora de posse de um olho 11ltcl'Í(
encarregado de decifrar aquilo que Alexancler \ ()!1 HUIll­
boldt (o mestre cio lTlodo ck'
da natureza. Qud é a relac:'lo que
estes novOs poderes de explicação ;IS forca., multI." li:l
IJO. BmTOW, op. ciI., pp.J2'5-6.
.)
.)
narrando
l
a anticonquista
_____ __ ....,.
Barrow; suas prescnçoes emammdo de fonte d<:: Plí­
atrás do e inocente "eu"
Ê úlrefa dos ba1tedores avançados cio
to" caracterizar que encontram como "Iliío
, aperÍe.íçoado" e, mantendo a terminologia da
, . . aberto a "perfeiçoamenros. As
devem ser apresent
te pontCj', a separação textual de e pessOf1S. de rc­
sobre habitantes e relatos sobre seus h:lhít;,lS,
a sua lógica, O olhar apel'feiçoador europeu
bitats dtf sub.sistência, como
apenfs em termos de um futuro capitalista c de Sl'U PPll'J1­
daI para a produçãO de comt:rci;diz.;í veis. Do
ponto de vista de seus habitantes, ObVÍ<I mente, estes mes­
mos espaços são de maneira intensamente
saturada ele história local e "ianific:li!O. omk
nhedmento
Não os habitats devem ser apresentados como
vazios e' não aperfeiçoados, mas os habitantes tamhém. Para
o olhar aperfeiçoadof, as potencialidades do futuro
nial são Ijustificadas com base nas ausências e cLt vil!;!
'no presente. Para Barrow, o presente africano
aperfeiçoado inclui não apenas os 1,1",;1,10,,; (h"rpnrntp<
(bosquímanos) e os nguni
exploradores e competidores
tanto quanto os africanos devem ser <ljuiz:1llo
s
te em relação às
landesas anteriores e os 1
vem ser depreciados.
cânderes n(J texto de Barrow. é comc
por
l. :\ \,,111;1 n;UT
e sentimento, 1750-1800
nologia ind ustrial e ao faminto ímpeto empresarial recém­
surgido na Europa durante estas últimas décadas do século?
Deoomdo de lado as profundezas ocultas, não é sur­
preendente encontrar um emissá.do de uma potência im-
I
perial européia preocupando-se acima de tudo com a
finição do território e com o rastreamento de perímetros,
especialmente na África meridional! a posse de terri­
tórios tornou-se parte da I=xpansionista. Na n8.r-·
rativa de Barrow, mais que na de seus predecessqres, o
olho que, numa acepção espacial,i examina as potenciali­
ciadcs, sabe também estar examinando as perspectivas
num sentido temporal - as possibilidades de um futuro co­
lonial são codificadas como recursos ,a desenvolver, exce­
, I
dentes a ser comerciados, cidades a construir. Tais
perspectivas são o que torna a informação relevante numa
descrição. Elas fazem com que uma planície seja "boa",
torna relevante que um pico seja "granítico" ou um vale
"bem arborizado". As descrições visuais pressu põem - na­
turalizam - um projeto transformador incorporado pelos
europeus, Freqüentemente, tal projeto explicitamente afIo­
ra no texto de Barrow, nas expectativas de "aperfeiçoa­
mento" cujo valor é comumente descrito como estético.
Um lugar na Baía de Algoa é descrito como "a mais bela
posição que se pode imaginar para uma pequena vila pes­
queira"; não muito longe dali encontra-se um vasto pânta­
no "que por meio de uma simples drenagem poderia ser
convertido num belíssimo prado";"1 a descoberta de miné­
fio contendO chumbo sugere "uma valiosa aquisição para
a colônia", espedalmente porque ela foi feita num lugar
onde uma cidade mineira poderia ser facilmente fundada,"
Em seus momentos mais pragmáticos, Barrow não é aver­
so a dlscutir o nível de preços de mercadorias ou o valor
da presença militar britânica enquanto um nwrcado para a
produção local. Afora estas manifestações explícitas, o "es­
pírito britânico de aperfeiçoamento" pcrmeia o texto de
t
41. Ibid., pp.132-7.
42. Ibid., p.}lO.
'I
Um verdadeiro C:1I11pon(,., Ilol,tndê's, Oll h,',<'I ((I llll<l d \;1111<1
si me,;mo), nilo lem a J11l'llor do que um LII.Cmil'il·<l
l:ntende pela p:d;lWII conforto. O,!ol',ldo i1UIlI paio ('111 qll('
.)
i
uma reJt'lç;lO clJ
e 00 trabalho em favor de uma maneira de vin'l
os frutos da terra fossem usufruídos na medida Clt)
em que o trabalho fosse evitado
e o lazer e o ócio fossem uma e a ll1eSIll:l
coisa."" O parâmetro de de B:lrrow p:lra n"
ca,mT)OlneSes africanos" (donos de são. como s('­
ria, de se esperar em 1801, "os trabalhadores pobres ela In­
glaterra", cuja su perioríelacle em relação aOs "uro-;! frica 11(
residia de alguma forma no fato de que lias por sem;l­
na estavam condenados a uma de doze
para um pedaço ele pilo para sua f:lmilia ..
ciclos, ou
sos de
se trabalhadora

que Ilarn.l\\
ícl ;1
correlatos sobre <l
no Caribe, tais como o ck )ohn Sredm;lll.
será discutido no capítulo 5 e que Barrow ha­
via lido. Na América espanhob, um t1uxo
de de ingleses, no início do século XIX.
zombariam ela sociedade crioula hispano-americana ela
,- mesma forma que Barrow c(mtra os afridll1deres
se o' capítulo Os paralelos não são
1800, a estava tão imensamente
na América do SuL como na África meridional. O
Barrow fones entre as dUJs,
a Colôni:l do
ao posto
't.... +1. Coetzec,
'í5. Barrow,
.lU
46. cf. (,oetzet:, op, voiul11e de 1\.11"'(\\\ 1",( rilO
o retorno do domíniO holandêS ao Cli)o, continua n aUC[11l' ;l<" ,,1'1'1<';111
deres ele forllla (onsic!enive!t1wnle mais <:,,[('11";1,

.. ,
,ciê11cia e sentimento, 1750-1800
o que lhe é necessário, mtJ,s praticamente toda comodi-
. (
í·
dade da vida poderia ser produzida pela ele não goza
d
de nenr-uma delas. Ainda que possua em abundância, faz
I,
i'
muito p6UCO uso do leite ou da Em meio ao mais fa-
I.
vorávd solo e clima para o cultivo vinhas, ele não bebe vi­
! I
nho. Três vezes ao dia sua mesa é atulhada de montes de carne
,de carneiro, boiando na gordura de rabos de ovelha. Sua casa
ou é aberta até o teto, ou por estacas e turfa""
Os assentos de suas cadeiras de tiras de couro cru. As
janelas não têm vidros.
prossegue por duas Numa' leitura
este retrato poderia ser um canto de
louvor ao nobre selvagem e à vida simples. Assertivo de­
mais para que possa ser chamado de etnográfico, o retra to
termina com uma significativa muda,nça de terminologia (os
WiJicos são meus):
Com a mente destituída de qualquer tipo de preocupação ou rer1c­
xão, entregando-se excessivamente à de qualquer ape··
tite sensual, o campônio africano cresce desproporcionahn;:nte, até
ser lev:ldo pela primeira moléstia i!lflamatória que o acomela.
H
Como nóta Coetzee, os viajantes europeus
mente condenavam os bôeres nos mesmos termos que usa­
vam para condenar os hotentotes, como
chave "indolência" e "preguiça". Ambos os grupos,
estavam sujeitos à intencional euro­
peus no tocante às formas de vida tradicionais da África me­
ridional, fossem elas dos africanos ou dos
euro-africanos colonizadores. Os bôeres su­
gere apresentavam um desafio particular para os
valores burgueses europeus, precisamente porque, na qua­
lidade classe colonial dominante, com acesso virtualmen­
te ilimitado à terra e trabalho ILrre, tinham os meios apro­
priados à consecução dos ideais europeus de acumulação,
consumo e enriquecimento por meio do trabalho e, no en­
escolheram nào alcançá-los. A seu ver,
aos observadores europeus a possibilidade de que "sob
43. Ibid, pp.76-7 .
11 í'
.
.'
ciência e oonttrnant.....
1750-1800
Horn:' A história viria a corroborá-lo. Alguns dos generais
britânicos que reconquistaram o Cabo para a Grã-Bretanha
em 1806, foram para a Argentina meses mais tarde partici­
par do ataque britânico a La PIata..
O principal objeto de interesse etnográfico das Via­
gens de Barrow não são os khoih:hoi, mas os !kung, mais
conhecidos por seus epítetos coloniais de bosjesmans ou
bosquímanos. Povo que tem permatú=cido tema de graride
interesse e fantasia ideolÓgica ocidenta-l até os
dias de hoje, os !kung são antigos habitantes do sul da
ca que, quando do estabelecimento europeus, já se en··
contravam em dura competição com os imigrantes khoi­
e nguni criadores de gado. Enquanto população extre­
mamente móvel, vivendo em pequenos grupos, nem man­
tinham animais, nem cultivaVél.l11 l<\voura. Nos séculos XVII
e XVIII eram conhecidos e temidos: antes de tudo pelos ata­
ques noturnos ao rebanho dos khoÜchoi e, poste;-iormente,
I
ao dos europeus.
Repetindo a usual divisão textval de trabalho, Barrow
apresenta os !kung num retrato etnográfico de dezesseis pá­
ginas, separado do corpo principal da narrativa. Deixe-me
usá-lo como oportunidade para refletir sobre como estes
aparatos padronizados do relato de viagem prodUZiam
temas não europeus para a audiência doméstica do imperia­
lismo. Eis aaui um trecho:
Por inclinação (o bosqtiímano) é vivaz e alegre; e, COlHO pesso'l,
ativo. Seus talentos estào bem acima da mediocridade: (' ;ivesso
ao ócio c raramente permanece sem emprego. Geralmente COIl­
finados a suas choupanas de dia, por temor de serem surpreen·
didos fazendeiros, :.algumas vezes dançll11 em noite, de lu;\
cheia até o raiar do soL ". As pequenas trilha,'; drculafC',s em tor­
no de cabanas são pova
mento. Sua alegria é 'anto mais surpreendente quando se obser­
va que as migalhas que procura para sua sub,istênda obrÍ­
das com perigo e fadiga. Ele nilo cultiva () solo, nem cria
e sua região produz poucos bens natur;ús apropri<tclos
tação. Os bulbos da íris e poucas raízes gramíneas de um gosro
Barrow, 01'. cil., p.17 e p.1, respectivamente.

narrando a anticonquista
amargo e penetrante, é ruel(> o que o reill(l lhes I'C,CIY;I
, À .procura destes ,bens, [oeb a sunerfície eb "hní,';" Dj'()xíI1111 11<'
foi .. A"I"
inicial torn:l
passagem
povo a subjugado. isto é, apresentando-o
jeitos" num coletivo eles, se resume ail1cb J uni
icônico' ele ( ,>,,,,p(';mp n'I<l1':'1o adulto C' m:lchál ESI('
caracterizam
!L'111 p' 1. 11 LI'
ser como um ('vel1l0
como uma de costume ou traço
de pc"s, );1:--. qu:!!](
tra nsforma l1l-se, t'.11li'l (), nll VI1Llllll.'LI ":1 ('
tnlçÇ)S. O fato de que as comunidades IkLmfZ de i'ilLli
XIX viviam em conSlante anrecns:'I() c' rwrig
o
.
como um costume de Si.: ('-"conde"
de;; dia e dançar à noite.
A ,antropologia crítica tem J'econbecido a extlJn.<l\ >
descritivas têm atuado par:1 ,101'1ll:1
pam I' seus tr<IC(l:; d
outro, o IYlrr;lt!t)!. p:lr:1 n
aternporal que t< )(1:1.'- '.1:-­
11 ( I1
"Ele" um;! l:,!1t1(i:lcle .\/1 i
uma lísta clt' características. situada llU!11;l
diferente cio
ile111 pc I ri'
nes Fahian utilízou a
neidade" pma se referir
.,
I
l"\'tI ;! I r
41i. liJid., pp.2H:i-·í, í) livro de IkllTO\\ 1.lmhé:fll ;11,lul
I
dos khoikho! r,hc;rcIlloit.:;';) t' ngull'l \ !-..;1!
llll
e sentimento, 1750-1800
to temporal."
9
Esta é uma velha prática textual que efetiva­
mente comp/ementa os processQS de des-culturação e
des-territoríalizaçào discutidos antel;iurmente,
Sob o aspecto gramatical, ocorrem na passagem cita­
da dois poutos em que o presente'etnográfico" aremporal
da descrição normativa é interrompido por uma narrativa no
pretérito, As trilhas em torno das cabanas dos bosquímanos
eram prova de sua inclinação para a dança, e , dada a sua
procura de raízes, a superfície das vizinhas foi ras­
pada, De um mouo fantasmagórico, estas duas instâncias de
verbos no passado se referem retrospectivamente a urna
ocasião ou ocasiões de contato entre Barrow e
os bosquímanos, O que eles
encontro c(,m eles, mas com os tracos aue deIXaram na
sagem - cs arranhões na "face do
A voz nOlmalizadora e elos retratos
etnográficos de maneiras e costumes é distinta da
do narrador, mas a ela, Ambas tem a chance­
la do projeto global da história natur;'ll: lima apresenta a r(::r­
ra como paisagem e território, potencialidades; a
outra apresenta os habitantes indígenas como corpos
fugidios, igualmente rastreados conforme suas potencialida­
des, Conjugadamente, elas desmantelam a rede sócio-ecoló­
gica que as precedia e instalam uma ordem discursiva
eurocolonial cujas formas territoriais e visuais de autoridade
são aquelas do estado moderr:o, Apartados da paisagem em
disputa, os povos indígenas são abstraídos da história que
está sendo feita - uma história na qual os europeus tencio­
nam reinseri-Ios como reservatório de trabalhu explorddo,
Neste contexto, não se deixar de notar que, em
contraste com a ociosidade detectada em africânderes e
Barrow encontra nos !kung as mesmas qualida­
des que valoriza na classe trabalhadora inglesa, Eles são
avessos ao ócio e de trabalham duro por LIma
pequena recompensa p,lra Ot) ;ng/eses, amargas
"y 49, Johannes Fabian Time and lhe Olher: flow Autbropo!ogy Makes Its
Object, New Columbia U. P, 1983 p.3'5,
..
nflo obstante sua
to de BaJTow
o elogio aos !kung,
O que CJuer que os modos de viver (in,.;
sido antes do século XVII, por volu da
dos europeus, FI eram Uill;l
gerante e mohilizada, odiada pl'los khoikhoj C0!l10 seh';1
gcns e maldosos, Est<:; foi um mito que os colol1os
assumiram, aliando-se aos khoikhoi (:m C;lJll­
de repress30 conWI aquek povo "Sl'1 \';lgcm '
a vida pastoril", CO!110 foi dito Uo '1\'q:lCIlIC·
constantes queixas :lS "lic­
Ire'" li:1 CO!1l
)CIi"'ll1wntê
ele rculí;I(.';'\( I,
elll pn)moçuc;) ur.: ,';lei L:1.'1l< Icíd:1
Paterson descrevem :1;; l(:('llíC;IS qlll
e ataqu('
IXlr:\
mais remotas, (eleS não vivenll11 etermU1H.:'1
posto habitat "nat.ural", o deserto de Kalah;l
álente, mesmo :1 éroca de Sparn\1an e
nidades haviam se rornac!<)
trarem, tão bem escondidos L'q:l\'am (};) SOhrl'\i\'l'nl .\
guns !kung, todavia, foram forçados a Llzcr cI:t CC()!1()
mia pa3toril européia, por meio de métodos
mente criticados pelos viajantes, Enquant() :1 !vi lI;1 ((l\ll!':!'
:1 cscravizaçi}() dos I\I10ikl1oi, ljl:l' (l,"
e assim foi feit,), t'mho)':1 ele,
constantement<:' escap:lssem, Sparrman dl'p[()r;l lIlll LI( l,'
europell,';: (l 1;1j)1() ,k' hl'
asSl.::gli 1';1 I' que' :\ 11l:'tl' :1111
ta
é accir;lsse a ('t)cravi7:l,':'i!l
I.' ('\Ir, , .
I
, I
ciência e sentimento, 1750-1800
peu.'; em troca da proximidade de"seu filho. Esta prática foi
adaptada de técnicas para a captura de animais. '0
No final do século XVIII, os !Rüng haviam deixado de
ser uma ameaça séria e haviamadquiriclo o estatuto de
povo conquistado. Nos escritos europeus, começaram a
aparecer não como selvagens malévolos, mas dentro de um
novo estereótipo sentimental, como vítimas benignas, ingê­
nuas e infantis. Barrow é um dos escritores que inaugura­
iam este e.·;tereótipo, como na passagem citada acima, Num
episódio da narrativa, ele encontra na casa de um coman­
dante africânder uma família !kungque havia acabado de
ser capturada pelos invasores africànderes, O resumo cb
conversaçâo mantida por Barrow com o homem cativo
apresenta um marcante contrasle em relação à retórica pre­
ponderante em seu livro, Ao invés de transformar o outro
numa informação, Barrow procura expor sua perspectiva C:::
vaiorizar sua experiência da perse,guição colonial:
Ele no:; descreveu a condição de seus compatriotas como verda..
deiramente deplorável. Afirmou que' por vários meses todos os
anos, quando a geada e a neve os impediam de promover suas
excursões contra os fazendeiros, seu sofrimento devieb ao frio e
carência de alimentos era indescritível: que freqüentemente assis­
tiam a morte de suas mulheres e filhos por inanição, sem que eles
pudessem lhes dar qualquer consolo, A boa estação lhes trazia
pouco alívio à sua Eles se sabiam odiados por loda a hu­
manidade e que a própria nação que os circundava era um ini­
migo planejando sua destruição, Não havia sopro de vento fada­
lhando as folhas ou canto de pássaro que nào fosse tomado
como anüncio de perigo,"
No entanto, não se colocav;:j em dúvida que o locutor
fosse absorvido pela estrutura de poder Ele já
o havia sido, de acordo com os olhos de Barrow: "Preten­
dia-se', assim termina o episódio, "que este homenzinho
nos acompanhasse; mas como ele parecia mais inclinado a
honrar seus compromissos com suas mulheres, foi-lhe per­
mitido seguir suas inclinações maritais" (itálicos meus),
observação a Harriet RilVO,
51. J31ITOW, op, cit" pp,24J-2,

, Ao final, o engajamento humanitário ck' C()lll
os !kung o leva até o outro lado ela anticonquisl;l cícnlíCil';l.
onde se rompe ,'Sua retórica visual e objetívista, O r'-'primído
volca a seu textd rlüm com o qu;ll chego fi I11
te alentado capítulo, Fascinado pelos 'kung, Jl:,'lO
quer nada mais que vê-los em seu estado "I1Jlur;l!", ,\
perseguição aos !kung h;lvia sido tão ,J,ramIL' CjlIC ;1 llI1icI ['()J',
ma de contatCl com suas comunidades er;\ ;1 ele' lill'r;l!I11l'IllL'
invadi-Ias, Apenas por meio de um culposo ;11() dc
ta (in:va.;;ão) poele o inocente ;lto dt' antiuJIlqlIisl:1 (olklri,,"
desempenhado, Em nome do olhar, Barj'()\\' relul;lIlll'I11L'11I','
contraia alguns fazendeiro,'; ;lfric:lllderes 1'.ir:1 LI/,'!' L':\,ll.l
mente isso, Empunhando ;lS ferramentas lLI ','I )11L!LlI'>l:1 -- ,I;
mas e cavalos - eles penetram 8 noite, soh ;1 L'()ncl;c;'\I) ('SI;,
belecicLJ por Barrow ele que nenhum tiro ['IlSSC I
não ser por revide, A aventura parece 11'J' ,ido Ir;ilII11;:liL,1
para ele, uma verdadeira descida ao inferno, ul[a I
contrasta dramaticamente com o testo !ino, () ;1l;lljUl' IH)
turno à "horda" faz irromper na superfície do texlo 1;11110 ,I
linguagem da conquist<l como a linguagem do reI11orso:
Nossos ouvidos pelo horrÍl'l'1 gr'ilO li;) i'llnnll;llI
de guen;a dos selvagens,; os guinchos das Jllullll'rl's l' llS 1';lgid,,,
elas crianças procediam de todos os lados, Eu CII';lIg:ll';l l'OIl1 () l()
mandant<õ <õ outro fazenckiro, ambos os qU:lis :lli!':lr"l1' ""hl\' "
vila, Eu illlcdiatamenle cxpressci ao prillleirll llliJ1i1:1 surp!'l''':1 1""
t<õr sido justanlé'ntc ele, entre todos os dcm:lis,:1 (jlll'lli':lr II,n:1 ,',,,,
clição quc SO!cIlCI)WIltc prolllclillo ohSl'I'\':lr, L' IllIl' III C','I'"
rara dele uma linha de conduta haswnte difercll1l' "!lOJll !l,'u,"
exclamou, "njo viu a chuva de selas quc ,'aiu soh!'l' [1(i,/' FII l'l"
lamente havia visto Ilcm ,eLi,'; nelll Pl'S"':I.S, 1)1,1." 11:II'i:1 ('11\',
do o suficiente para perJ'ur:ll' o mais in,c;cnsÍI'l'l clI1S ('"r:ILI'IL',' '
Seria difícil exagerar o quão C0I11pk'I:1I11l'111l' l",l','
episódio destoa do resto do texto de B:m'()\\, E :1 l'l 11 il';1
cena noturna no trabalho, a única instânci;1 dt' di:llogo cli
reto, a única ocasião em que Barrow dramatiza a mc:,­
mo como um participante, () único arroubo ele CJ11ocão, ;1
única explosão de violência, uma das pouc\.'; 011llc­
'i p,272.
,)') ,
I ......d 1 t
- ----------
cíência e sentimento, 1750-1800
povos e lugar coincidem, e a única vez que Barrow ques­
tlona sua insegurança a respeito de seu ambiente. Um dos
poucos episódios dramáticos no livro de Barrow, é o úni­
co em que o sujeito locutor se divide, surgindo tanto
quanto obse:vador como observado. O que parece provo­
car a crise é o fato de que Barrow opta por exercitar seu
"direito" assegurado pelo Estado para "legitimar" a
da, não, contudo, para defender a si mesmo ou seus con­
cidadãos, mas simplesmente para dar uma olhada, para
satisfazer sua 'curiosidade. A ideologia que constrói o ver
como inerentemente passivo e a curiosidade como ino­
cente, não pode ser sustentada, e a ordem discursiva de
Barrow SI'! 'rompe, juntamente com seu discurso moral hu­
manitário. Nesse rompimento, insere-se um contra-discur­
sosenÚmentaL, Barrow extravasa de modo confessional:
"Nada", diria 'mais tarde, "poderia ser mais indefensável,
posto que cruel e injusto, do que o ataque promovido por
nosso grupo à vila."53
Estilo confessional, porém não transformativo, a per­
da da inocência por parte de Barrow não produziu um novo
ego nem frovas relaçôes de discurso. Sua descida ao
no colonial seria repetida muitas vezes pelos escritores sub­
seqüentes. Um século mais tarde, quando a Europa seten,·
tdonal havia criado sua própria lenda negra sobre a odio­
sa luta genocida pela África, aquela descida tornar-se-ia a
história canônica sobre a Europa na África: a queda. de uma
perspectiva ensolarada, para o coração das trevas.
__pós-escrito histórico
Em 1803, a Grã-Bretanha devolveu a Colônia do
aos holandeses, uma perda que afligiu tanto Barrow a
dI'! ele abandonar tudo durante [rês meses para compor um
segundo volume de suas Viakens. evidenciando o valor do
Ibid., p,291.
narrando a anticonquísta
Cabo para os interesses comerciais e militares britânicos.
Seus argumentos podem ter sido efetivos, pois, em 1806, :l
Grã-Bretanha de fato retornou o Cabo pela
de Barrow marcou começo
pelo domínio britânico, que foi
em 1815, Os britânicos
comprometendo-se, desta forma, a ajuebr os
contra os nguni. A resistência nguní continuou ao
século XIX; foram travadas guerras em 1819, 11154,.'), 1846
1877-8.
novas leis tentaram estélbelecer a sull·
jugação indígena. "Em 1809", acordo com ., relato
ríco canônico de CUl1ín ct aNi, "o estatuto Jc g:!l dos khoi­
khoi e de outros povos de pele escura nào escclvil.;lc!OS foi
definido de tal forma que a maior parte delc:-> foi obrigaeb
a trabalhar para os europeus, ainda que usufruíssem de :11­
guma proteçào por possuírem contratos ele lr:lb,t1ho escritos
e acesso aos tribunais," O truque inventado pelos bô<::'re:;
para escravizar os bosquímanos foi 'Em lRI2, no;
proprietários de terra europeus foram lutcLtr
as crianças que haviam sido criadas em suas fazendas
uma determinação que também imohilizava seus pais Em
1820, 5.000 colonos britânicos aportaram ,com eles,
européia: a lv1issionária Londrina
Society], que estabeleceu Ui1l,] n,'si:-;têl1­
eia humanitária a alguns dos abusos mais hruuis, O
ao lado ela
de viagem, é o tema do
capítulo,
'54 Curtin e! cil.. p.:', II
[:2;1
.:.,,____.----P
24
,

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