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Mel das abelhas sem ferrão_Manual

Mel das abelhas sem ferrão_Manual

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3
Jerônimo Villas-Bôas
Mel
de Abelhas sem Ferrão
Manual Tecnológico
Mel de Abelhas sem Ferrão
Jerônimo Villas-Bôas
1
a
edição
Brasília, DF – 2012
ISPN
Autor:
Jerônimo Villas-Bôas
Comissão Editorial:
Luis Carrazza, Fábio Vaz e Donald Sawyer
Revisão:
Rodrigo Noleto e Lara Montenegro
Fotografia:
Jerônimo Villas-Bôas. Colaboraram com fotografias: Ayrton Vollet (pág. 32), Carlos Alfredo Lopes de
Carvalho (pág. 76), Cristiano Menezes (pág. 32), Elisângela Rego (pág. 68), Giorgio Venturieri (pág 68),
Murilo Drummond (pág. 64) e Rafael Malta Clazen (pág. 83)
Colaboraram com o conteúdo: Ayrton Vollet, Carlos Alfredo Lopes de Carvalho, Celso Feitosa Martins,
Cristiano Menezes, Fernando Oliveira e Murilo Drummond
Agradecimentos: Adriana Lucena, Ana Laura Mantovani, Antonilson Oliveira Rodrigues, Antonio Ilson
Bezerra Constantino, Ayrton Vollet, Carlos Alfredo Lopes de Carvalho, Celso Feitosa Martins, Chadawá
Juruna, Cristiano Menezes, Fátima Carvalho, Fernando Oliveira, Fransisco Melo Medeiros, Giorgio Ven-
turieri, Junior Câmara, Luca Fanelli, Mairatá Kaiabi, Maria José dos Anjos Costa, Marilda Cortopassi
Laurino, Marina da Silva Kahn, Murilo Drummond, Rafael Malta Clazen, Richardson Frazão e Sandra
Sousa.
Projeto gráfico e diagramação:
Masanori Ohashy [Idade da Pedra Produções Gráficas Ltda]
Apoio: Carolina Gomes, Cristiane Azevedo, Isabel Figueiredo, Lara Montenegro, Luciano Fernando,
Lucelma Santos, Márcia Braga, Renato Araújo e Rodrigo Noleto
Esta publicação foi elaborada pelo Instituto Sociedade, População e Natureza por meio do Projeto
FLORELOS: Elos Ecossociais entre as Florestas Brasileiras, financiado pela Comissão Européia. Teve apoio
também do Programa de Pequenos Projetos Ecossociais (PPP-ECOS), apoiado pelo Fundo para o Meio
Ambiente Mundial (GEF) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Este documento é de responsabilidade do ISPN e não reflete a posição de seus doadores.
Ao apresentarem seus produtos, as comunidades e organizações de forma alguma abrem mão de
seus direitos sobre os recursos genéticos que utilizam ou sobre o conhecimento tradicional associado.
Ao mesmo tempo, as diversas entidades que apóiam a divulgação dos produtos defendem que o
acesso aos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais deve respeitar as comunidades, a legislação
brasileira e a Convenção da Diversidade Biológica, da qual o Brasil é signatário.
Villas-Bôas, Jerônimo
Manual Tecnológico: Mel de Abelhas sem Ferrão. Brasília – DF. Instituto Sociedade, População e
Natureza (ISPN). Brasil, 2012.
96 p.; il. - (Série Manual Tecnológico)
ISBN: 978-85-63288-08-0
1.Mel 2. Abelhas sem ferrão. 3. Meliponicultura 4. Tecnologia Social. 5. Cadeia Produtiva.
Sumário
5 Apresentação
7 Prefácio
11 As Abelhas Nativas sem
Ferrão e a Meliponicultura
11 Introdução
11 Importância
12 Classificação e distribuição
13 Biologia
27 Criação de Abelhas sem Ferrão
29 A escolha das espécies
31 Aquisição de colônias
33 Modelos de colmeias
41 Meliponários
44 Captura ou transferência
46 Divisão de colônias
52 Monitoramento de colônias
57 Inimigos naturais
61 Técnicas de Coleta e
Beneficiamento de Mel
62 Considerações sobre boas práticas de
manipulação
63 Métodos de coleta
74 Técnicas de beneficiamento para
conservação
79 Envase e rotulagem
81 Sistemas de produção
85 Anexo
89 Referências Bibliográficas
93 Glossário
5
Apresentação
Donald Sawyer, Rodrigo Noleto e Luis Carrazza
As informações contidas neste manual retratam o universo pouco conhecido
da meliponicultura, ou criação de abelhas nativas sem ferrão. O Instituto Socie-
dade, População e Natureza - ISPN, por meio do Programa de Pequenos Projetos
Ecossociais (PPP-ECOS/Small Grants Programme), do Fundo para o Meio Ambiente
Mundial (GEF) e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD),
tem apoiado centenas de iniciativas de agricultores familiares e comunidades tra-
dicionais, que buscam não apenas a produtividade, mas a inter-relação de espécies
nativas com benefícios para os ecossistemas e as comunidades locais.
Nesse sentido, foi realizado um amplo diagnóstico da situação da meliponicul-
tura em todo território nacional, além de um seminário entre diversas comunida-
des produtoras de mel de abelhas nativas, com o apoio do Projeto FLORELOS: Elos
Ecossociais entre as Florestas Brasileiras, financiado pela Comissão Européia, e BIO.
COM, financiado pelo PNUD.
Esse seminário foi uma oportunidade para que pesquisadores como Murilo
Drummond, Marilda Cortopassi-Laurino e Jerônimo Villas-Bôas promovessem uma
rica troca de conhecimento técnico e tradicional com representantes de comuni-
dades do Parque Indígena do Xingu, dos produtores associados ao Projeto Abelhas
Nativas (PAN) do estado do Maranhão, dos Jovens Agroecologistas de Jandaíra do
Rio Grande do Norte, da equipe do Instituto Iraquara do estado do Amazonas,
dos produtores de mel do Baixo Amazonas no Pará e de comunidades do Amapá
apoiadas pelo Instituto Peabiru. A reunião desses diversos conhecimentos deu ori-
gem ao Manual Tecnológico – Mel de Abelhas sem Ferrão.
Importante salientar que tanto a produção como a comercialização de mel
de abelhas nativas sem ferrão ainda não são regulamentadas. Este manual, como
os demais publicados pelo ISPN, não tem a pretensão de apresentar um modelo
definitivo de produção, mas alternativas, a partir das experiências de manejo exis-
tentes no Brasil. Como tal, poderá ser um documento norteador e catalisador da
regulamentação da cadeia produtiva.
Abelha Tiúba (Melipona fasciculata) – Maranhão
7
Tive a honrosa missão de escrever o prefácio dessa obra. Sem dúvida ela já
constitui um marco na história da meliponicultura (criação e manejo das abelhas
sem ferrão). Isto porque compila de forma abrangente todas as alternativas pos-
síveis conhecidas de técnicas de manejo das abelhas nativas sem ferrão e que
podem atender as necessidades de criadores de uma das mais de 350 espécies
conhecidas.
É incrível como vamos muito bem no conhecimento da biologia das nossas
abelhas, um mérito de toda a nossa linhagem de pesquisadores, mas pouco temos
avançado na parte do manejo voltado para a produção.
A principal razão disso é que há bem pouco tempo, as abelhas sem ferrão não
tinham um destaque merecido por conta de um lapso cultural nosso muito influen-
ciado pela criação das abelhas melíferas do gênero Apis. Suas primeiras linhagens
foram introduzidas no século XVIII, e com isto veio toda a base cultural de criação
e manejo construída 500 anos antes na Europa. Ou seja, a historia da meliponi-
cultura tem sido, numa certa medida, sufocada pelo peso do valor comercial da
apicultura (criação e manejo das abelhas melíferas).
Uma segunda razão das dificuldades de avanço nas técnicas de manejo dessas
abelhas é porque a demanda de mercado vinha das comunidades rurais do norte e
nordeste brasileiros, locais relativamente distantes dos grandes centros de pesqui-
sa, e onde se localizam as maiores criações.
Graças à disposição de instituições como o Instituto Sociedade, População e
Natureza (ISPN), que levaram para os rincões do Brasil uma parte dos abnegados
estudantes e pesquisadores, é que iniciativas como as apresentadas neste manual
começaram a aparecer.
Agora o ISPN encara mais este desafio que é a publicação deste manual. Para
isto não poderia ter escolhido pessoa melhor do que o ecólogo Jerônimo Villas-
-Boas, que vem transitando de forma relativamente confortável no meio acadêmi-
co e em comunidades tradicionais pelo Brasil, incluindo as comunidades indígenas,
tendo portanto uma larga experiência sobre o assunto na atualidade.
Você vai observar que não há respostas prontas para atender uma necessi-
dade específica do criador. O que este manual propõe é apresentar os caminhos
alternativos a serem seguidos. Mas sem dúvida fica uma lição importante: apesar
de todas as inovações que vêm surgindo neste meio, aquelas que surgiram com o
olhar para as experiências culturais locais são as mais propensas a atender as ne-
cessidades inerentes ao criador daquela região. Portanto, veja estas soluções como
caminhos, e não como soluções definitivas, e antes de tudo procure aprender com
Prefácio
Manual Tecnológico 8
o olhar voltado para o que e como se faz na sua região. Embora muito da cultura
de criação dessas abelhas tenha se perdido com o tempo, ainda há uma chance
de conseguir com os mais velhos resgatar parte da memória que se perdeu, o que
pode ajudá-lo no aprimoramento do manejo em sua região e com as espécies da
sua região.
Finalmente, para quem quer investir na produção, jamais, mas jamais mesmo,
inicie qualquer criação trazendo espécies de outras regiões, seduzido pelo canto
da sereia de que são mais produtivas. E sempre sustente suas criações com a divi-
são das colônias existentes e jamais com a captura de enxames (a não ser quando
iniciando uma criação) ou colmeias. A tendência do mercado é a diversificação e
a valorização de produtos de espécies nativas regionais, e com um bom manejo
sustentável, você conseguirá uma ótima produtividade.
Boa leitura e bom proveito.
Murilo Sérgio Drummond
Coordenador do Projeto Abelhas Nativas
Professor da Universidade Federal do Maranhão
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 9
Abelha Uruçu-Nordestina (Melipona scutellaris) – Paraíba
Rotulagem
Envase
Beneficiamento
Coleta
Venda ou
aluguel de
colônias para
polinização
agrícola
Registro do melipolinário no órgão ambiental
Multiplicação de colônias
Processamento Integral do Mel, Produtos e Subprodutos da
Meliponicultura
Manejo para
produção
Própolis
Pólen
Mel
Aquisição de colônias
Comércio de
colônias
Escolha das espécies
11
Introdução
O conhecimento sobre as abelhas sem ferrão e a meliponicultura nas Américas
é muito antigo quando comparado com as atividades envolvendo, nesse continen-
te, as abelhas Apis mellifera (popularmente conhecidas como européias, italianas
ou africanas). Há muito tempo, povos indígenas de diversos territórios se relacio-
nam com os meliponíneos de muitas formas, seja estudando-os, criando-os de
forma rústica ou explorando-os de forma predatória.
Antes da chegada da abelha Apis mellifera no continente americano, ou da
exploração da cana para fabricação de açúcar, o mel das abelhas nativas carac-
terizava-se como principal adoçante natural, fonte de energia indispensável em
longas caçadas e caminhadas que esses povos realizavam na busca por alimento.
Muito do conhecimento tradicional acumulado pela população nativa foi gra-
dativamente assimilado pelas diferentes sociedades pós-colonização, tornando a
domesticação das abelhas sem ferrão uma tradição popular que se difundiu prin-
cipalmente nas regiões norte e nordeste do Brasil. A herança indígena presente na
atual lida com as abelhas é evidenciada pelos nomes populares de muitas espécies,
como Jataí, Uruçu, Tiúba, Mombuca, Irapuá, Tataíra, Jandaíra, Guarupu, Manduri
e tantas outras.
A diversidade de saberes e práticas aplicadas na meliponicultura atual é direta-
mente proporcional à diversidade de abelhas, culturas e ambientes onde a ativida-
de se manifesta. Inspirado nesta diversidade, este manual não pretende defender
uma forma única e padronizada de manejar as abelhas, mas sim apresentar aos
que desejam se aventurar na meliponicultura uma variedade de técnicas que têm
sido utilizadas com sucesso no Brasil.
Importância
Entre os insetos, existem dois grupos que ocupam uma posição destacada
de valor econômico para o homem: o bicho-da-seda, por produzir uma fibra de
alto valor comercial, e as abelhas pelo mel. Apesar de serem predominantemente
conhecidas como produtoras de mel, as abelhas também fornecem cera, própo-
lis, pólen, geleia real, entre outros, e podem ser criadas para a exploração destes
produtos. Economicamente, não são importantes somente pelos produtos que nos
fornecem. Estima-se que um terço da alimentação humana dependa direta ou
indiretamente da polinização realizada por abelhas.
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a
Meliponicultura
Manual Tecnológico 12
POLINIZAÇÃO é o ato da transferência
de células reprodutivas masculinas – ou
seja, grãos de pólen que estão localiza-
dos nas anteras de uma flor – para o re-
ceptor feminino (ou estigma) de outra
flor. Pode-se dizer que a polinização é
o ato sexual das plantas. Este processo,
em especial o transporte de pólen, é re-
alizado durante as visitas das abelhas às
flores para coleta de alimento.
Sem polinização, as plantas não
produziriam sementes e frutos, e não
se reproduziriam para garantir o cresci-
mento e a sobrevivência da vegetação
nativa, ou a produção de alimentos. Se
por um lado as abelhas são fundamen-
Abelha uruçu-nordestina (Melipona scutellaris)
na flor de cosmos
tais para a sobrevivência das plantas, estas são imprescindíveis para a sobrevivência
das abelhas, já que lhes oferecem alimentação e moradia.
O pólen e o néctar são os alimentos oferecidos pelas flores. O pólen é a principal
fonte de proteínas, lipídios e vitaminas para as abelhas, enquanto o néctar – trans-
formado em mel – é a principal fonte de carboidratos e energia.
Classificação e distribuição
As abelhas sem ferrão são insetos sociais de grande diversidade e ampla dis-
tribuição geográfica. Nas últimas décadas, diversas propostas de classificação zo-
ológica destas abelhas foram propostas. A classificação utilizada neste manual
(que não adota uma linguagem estritamente científica), embora não seja a mais
atualizada, é a mais didática, e separa essas abelhas em dois grupos distintos: os
Meliponini e os Trigonini. Essa separação é importante para o entendimento de
características específicas do manejo que serão apresentadas mais adiante.
As abelhas sem ferrão, ou meliponíneos, ocorrem em grande parte das regiões
tropicais da Terra, ocupando praticamente toda a América Latina e África, além do
sudeste asiático e norte da Austrália. Entretanto, é nas Américas que grande parte
da diversidade de espécies ocorre – são aproximadamente 400 tipos descritos, con-
forme catalogação recente – e que a cultura de criação destes insetos se manifesta
de forma mais intensa.
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 13
Classificação atual Classificação utilizada no manual
Classe Insecta Insecta
Ordem Hymenoptera Hymenoptera
Superfamília Apoidea Apoidea
Família Apidae Apidae
Subfamília Apinae Meliponinae
Tribo Meliponini Meliponini
Trigonini
Colmeias tradicionais da região de Puebla, México Meliponicultor do estado do Amazonas, Brasil
Biologia
Entender um pouco da biologia das abelhas é fundamental para orientar sua
criação. A seguir serão apresentadas características gerais desses insetos, em espe-
cial os elementos que o meliponicultor encontra quando abre as suas colmeias e
deve saber lidar para o bom manejo do dia-a-dia.
Os tipos de abelhas (ou Castas)
Existem nas colônias dos meliponíneos três tipos básicos de indivíduos: as rai-
nhas (poedeiras ou virgens) e as operárias – ambas fêmeas – e os machos.
As rainhas poedeiras realizam a postura dos ovos que dão origem a todos os
tipos de abelhas. São também responsáveis pela organização da colônia, coman-
dada por um complexo sistema de comunicação baseado no uso de feromônios
1
.
Normalmente uma colônia possui apenas uma rainha poedeira, mas existem rela-
tos da existência de colônias e espécies com duas ou mais.
1. De forma geral, feromônios são substâncias químicas que, captadas por animais da mesma espécie (intraespecífica),
possibilitam o reconhecimento mútuo e sexual dos indivíduos.
Manual Tecnológico 14
O mecanismo de formação das rainhas é a principal diferença entre os
Meliponini e os Trigonini
Entre os cientistas, existem diferentes conceitos sobre o processo biológico que
determina o nascimento de rainhas em colônias de meliponíneos. Entre as diferentes
espécies, inclusive da mesma tribo, também há pequenas variações. Entretanto, exis-
te um parâmetro básico que define a formação de rainhas e determina a principal
diferença entre os grupos Meliponini e Trigonini.
Nas espécies da tribo Meliponini, não há construção de células reais. Todas as
células de cria (pág. 18) são iguais. A determinação do número de rainhas que nas-
ce, entre todos os ovos disponíveis, é definida por uma proporção genética. Já as
abelhas da tribo Trigonini constroem células reais, que possuem tamanho bem maior
que as células comuns. Por conta deste tamanho, as larvas que se desenvolvem
nesse tipo de célula recebem mais alimento, o que determina a formação de uma
nova rainha virgem.
Essa diferença deve ser assimilada pelo meliponicultor principalmente na apli-
cação dos métodos de divisão artificial de colônias, os quais serão detalhados na
página 46.
As rainhas virgens são poedeiras em potencial e estão sempre disponíveis nas
colônias para uma eventual substituição da rainha poedeira em caso de morte ou
enxameagem (pág. 22). Podem chegar a representar 25% dos indivíduos de uma
colônia.
Os machos são indivíduos reprodutores e vivem basicamente para acasalar
com rainhas virgens. Entretanto, diferentemente das abelhas Apis mellifera, po-
dem realizar alguns pequenos trabalhos, como a desidratação de néctar e a mani-
pulação de cera.
Rainha da abelha uruçu-nordestina Rainha da abelha jandaíra (Melipona subnitida)
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 15
Materiais de construção
Uma colônia de abelhas sem ferrão é cons-
truída com diversos materiais. Alguns deles são
retirados da natureza – como o barro e o pró-
polis – e outros são produzidos ou processados
dentro da colônia, como a cera, o cerume e o
geoprópolis.
A maior parte das estruturas internas de
uma colônia é construída com cerume, mate-
rial formado pela mistura da cera branca (pura)
com o própolis. Sua cor pode variar de um
amarelo bem claro a uma cor quase negra, de
acordo com a quantidade e a qualidade do pró-
polis utilizado na mistura.
As operárias são responsáveis pela
grande força de trabalho da colônia.
Elas cuidam da defesa, manipulam os
materiais de construção, coletam e
processam o alimento. Representam a
maior parte das abelhas de uma colô-
nia, podendo chegar a mais de 80%
dos indivíduos.
Geoprópolis avermelhado produzido pela abelha jandaíra
(Melipona fulva) no estado do Amazonas
Entrada de colônia da abelha cupira (Partamona sp.),
construída com barro
Operárias de uruçu-nordestina (Melipona scutellaris)
Manual Tecnológico 16
A cera é produzida na própria colônia, secretada por abelhas jovens através
de glândulas existentes no abdome. O própolis, por sua vez, vem da natureza, e é
constituído por resinas coletadas pelas abelhas nas plantas.
O barro é muito usado por algumas espécies de meliponíneos para a constru-
ção da entrada de seus ninhos (pág. 18), mas é principalmente material constituin-
te do geoprópolis.
O geoprópolis é uma mistura de barro e própolis. Funciona como um cimento,
utilizado pelas abelhas para a vedação de frestas e, em algumas espécies, na cons-
trução de batumes (pág. 19). A coloração do geoprópolis também varia conforme
os materiais que o constituem.
Outros materiais como sementes e excrementos animais são utilizados em oca-
siões específicas. Um caso é a construção dos ninhos aéreos da famosa abelha
arapuá (Trigona spinipes), também conhecida como abelha-cachorro em algumas
regiões do Brasil.
Arquitetura dos ninhos
São variados os locais onde os meliponíneos instalam suas colônias. Algumas
espécies podem nidificar em cavidades no solo, em cupinzeiros ou formigueiros
Entradas de colônias de canudo
(Scaptotrigona sp.)
Colônia de jandaíra (Melipona subnitida) instalada em
tronco de árvore
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 17
(abandonados ou ativos), em ninhos de pássaros desativados ou cavidades de
construções feitas pelo Homem. Outras constroem ninhos expostos ou semi-ex-
postos em galhos de árvores ou fendas em rochas. Entretanto, a maior parte das
espécies constrói seus ninhos em cavidades de troncos de árvores vivas, de espé-
cies e dimensões diversificadas.
Uma colônia de abelhas sem ferrão é constituída por dois elementos principais:
o ninho e os potes de alimento; além de estruturas auxiliares, como o invólucro, o
batume, a entrada e o túnel de ingresso.
Os potes de alimento geralmente são elipsóides (em formato de ovo), construí-
dos de cerume, e podem apresentar tamanhos variados conforme a espécie. Pólen
e mel são armazenados separadamente. Portanto, em uma colônia de abelhas
sem ferrão, podemos encontrar dois tipos de potes de alimento: potes de pólen e
potes de mel.
Potes de pólen Pólen coletado para consumo
Alguns tipos de potes de mel Potes de mel
Manual Tecnológico 18
A estrutura do ninho das abelhas sem ferrão é constituída de cerume e possui
características diferentes conforme a espécie. Pode ser formada por células agru-
padas, formando favos horizontais, ou em cachos, quando as células são esparsas
e conectadas entre si por pequenos pilares de cerume.
Células de cria agrupadas em favos
Os favos e os cachos são formados
pelo conjunto das células de cria. Em
cada célula de cria a rainha deposita
um ovo que dá origem a uma nova
abelha. Os ovos são alojados nessas
células com uma porção de alimento
(mistura de mel, pólen e secreções das
operárias) suficiente para a alimentação
durante todo o período de desenvolvi-
mento. Depois de nascer, as abelhas
se alimentam predominantemente de
mel.
Para auxiliar a manutenção da tem-
peratura do ninho, as operárias produ-
zem lâminas de cerume, chamadas de
invólucro. Como o nome diz, ele en-
volve o ninho, funcionando como um
tipo de cobertor. Essas lâminas também
auxiliam o trânsito das abelhas ao redor
do ninho.
Uma colônia de abelhas sem ferrão
é conectada com o ambiente exterior
por meio de uma “porta” de entrada.
Diversamente associada a mecanismos
de proteção e orientação das abelhas,
a entrada pode ser construída com ge-
oprópolis, barro ou cera. Sua aparência
é específica para cada tipo de abelha
e, portanto, apresenta-se na natureza
em variadas formas, diretamente pro-
porcionais à diversidade de espécies
existentes.
A entrada é conectada ao interior
da colônia por um túnel de ingresso,
geralmente ligado ao ninho através do
invólucro. Trata-se de um corredor re-
pleto de abelhas guarda. Se algum ini-
migo natural (pág. 57) conseguir passar
Organização das células de cria
Células de cria unidas por pilares formando um “cacho” –
típicas de espécies do gênero Frieseomelitta
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 19
pelas sentinelas da entrada, precisa enfrentar outro forte sistema de defesa antes
de conquistar o ninho e os potes de alimento.
Os batumes são estruturas que delimitam o espaço da colônia em uma cavida-
de. O batume dos Trigonini costuma ser de cerume, geralmente constituído com
uma grande quantidade de própolis. O batume dos Meliponini é construído com
geoprópolis. Em ambos os casos, o batume superior costuma ser muito compacto
para evitar a infiltração de água, enquanto o inferior é crivado, ou seja, possui
inúmeros orifícios que permitem o escoamento da água em caso de infiltração. Os
orifícios também auxiliam na ventilação da colônia.
Entradas de colônias de abelhas sem ferrão
Melipona nebulosa Melipona subnitida Melipona dubia
Scaptotrigona sp. Scaptotrigona sp. Frieseomellita sp.
Melipona scutellaris Melipona scutellaris Melipona scutellaris
Manual Tecnológico 20
A figura a seguir ilustra as estruturas básicas de uma
colônia com as características da maior parte das espécies
existentes e/ou criadas: habitar cavidades de árvores e ter
o ninho formado por favos compactos, horizontais e so-
brepostos.
As figuras ao lado
destacam os principais
elementos de colô-
nias das abelhas tiúba
(Melipona fasciculata)
e uruçu-nordestina
(Melipona scutellaris),
respectivamente.
1. Geoprópolis
depositado nas
frestas
2. Potes de alimento
3. Favos de cria
4. Invólucro
Aspecto geral de uma colônia de abelhas sem ferrão em
ambiente natural
Fonte: adaptado de Posey & Camargo, 1985.
Batume superior
Entrada
Túnel de ingresso
Batume inferior
Pote de alimento
Invólucro
Favo de cria
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 21
1
2
3
2
4
3
Manual Tecnológico 22
Vôo nupcial e
fecundação da
rainha virgem
Migração
de operárias e
rainha virgem
para o novo
local
Transporte de
cerume, mel e
pólen da colônia-
mãe para a
colônia-filha
Fechamento
de frestas
Nova
rainha
fisiogástrica (ou
poedeira) estabelece
atividade de postura
na colônia
estabelecida
Enxameagem
das abelhas sem
ferrão
Procura e
escolha da
nova moradia
1
2
3
4
5
6
Reprodução, enxameagem e ciclo de vida
A enxameagem é o processo pelo qual as colônias de abelhas sem ferrão se
reproduzem. É importante destacar que o processo está relacionado à reprodução
da colônia como um todo, não de uma única abelha. Geralmente ocorre por conta
da superpopulação da colônia, e está associado a um contexto de generosa oferta
de alimento (pólen e néctar) no ambiente.
A enxameagem tem início quando algumas abelhas operárias deixam a “colô-
nia-mãe” para buscar um lugar adequado para a construção de um novo ninho.
A matéria-prima para a construção da nova moradia é retirada da colônia original
e, assim, “colônia-mãe” e “colônia-filha” permanecem vinculadas por algumas
semanas.
Concluída a organização da nova moradia, parte das abelhas operárias e uma
rainha virgem migram para o local. A rainha virgem é fecundada por um macho –
geralmente de outra colônia – em um ritual conhecido como “vôo nupcial”. Uma
vez fecundada, a rainha – agora poedeira – retorna ao ninho, estabelecendo a
rotina biológica de uma colônia estabelecida.
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 23
Célula vazia
Fase larval
Pré-pupa
Pupa
Adulto
Ovo + Alimento
A atividade de postura da rainha dá vida a todas as abelhas
existentes em uma colônia. O processo de nascimento de uma
abelha é iniciado com a construção das células e favos de cria,
passando, a seguir, pelos seguintes passos:
1. Em cada célula, a
operária deposita uma
porção de alimento.
2. Sobre o alimento é
depositado um ovo e a
célula é fechada.
3. O ovo eclode
dando origem a
uma larva.
4. A larva se
desenvolve,
alimentando-se
do pólen e mel
estocados.
5. A larva constrói
um casulo – fase
chamada de
pré-pupa – que
reveste a célula de
cria internamente.
Depois de formado,
as abelhas adultas
retiram o cerume que
envolve o casulo.
Nessa fase, os favos
de cria ficam com
um tom mais claro e
amarelado.
6. Dentro do casulo, a
pré-pupa se transforma em
pupa, a qual se desenvolve
e vira um adulto, que
depois de certo tempo
emerge (sai da célula).
Fonte: adaptado de Posey & Camargo, 1985.
Manual Tecnológico 24
No vocabulário dos meliponicultores, os favos de cria na fase de ovo até pré-
pupa são chamados de “cria verde” ou “postura”, enquanto os favos na fase de
pré-pupa até abelha adulta são chamados de “cria madura” ou “cria nascente”.
O processo de desenvolvimento de uma abelha sem ferrão, desde o ovo até a
abelha adulta, dura aproximadamente 40/45 dias, variando de espécie para espé-
cie. Este período costuma ser um pouco mais longo para os machos e pouco mais
curto para as rainhas virgens.
Após sair das células (emersão), operárias e rainhas virgens vivem em média
50/55 dias. As rainhas, entretanto, depois de tornarem-se rainhas poedeiras, vivem
de um a três anos.
Divisão de trabalho
Como vimos anteriormente, as abelhas operárias são a grande força de tra-
balho de uma colônia. O tipo de trabalho realizado obedece a uma sequência,
variando de acordo com a idade da abelha ao longo dos seus 50/55 dias de vida.
Sendo assim, geralmente todos os indivíduos realizam todos os tipos de atividades,
organizadas na seguinte ordem:
1. Nas primeiras horas após o nascimento, as abelhas realizam a limpeza corporal
e permanecem sobre os favos de cria produzindo cera, secretada por glândulas
específicas em forma de pequenas placas brancas;
2. Nos primeiros dias, cuidam da cria manipulando cera: raspam as células de pré-
pupa, constroem células de cria e auxiliam as atividades de postura da rainha;
3. A partir do primeiro terço de vida, passam a exercer atividades como limpeza
e manipulação de alimento, mas não deixam de realizar outras funções que
vinham exercendo;
4. É somente na segunda metade da vida, ou seja, após o 25º dia, que passam
a exercer atividades no ambiente exterior. Nessa fase, as operárias também
são chamadas de campeiras. Saem para o campo em busca de pólen, néctar,
barro, resina (própolis) e água. Geralmente, antes da fase de campeiras, alguns
indivíduos da mesma idade fazem a guarda da entrada e do túnel de ingresso,
defendendo a colônia. Nessa função, são chamados de sentinelas.
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 25
Fique atento!
Reconhecer a diferença
entre “cria verde” e “cria
madura” é fundamental
para entender as técnicas
de divisão de colônias
Cria verde
Cria madura
A diferença deve ser
notada pela cor dos
favos. A cria verde
geralmente é mais
escura, da mesma cor
do cerume que reveste
o favo. A cria madura é
mais clara e amarelada,
da cor do tecido que
forma o casulo. As
fotos abaixo ilustram a
diferença de favos verdes
e maduros da abelha
canudo (Scaptotrigona
sp.). Reconhecer essas
diferenças é fundamental
para entender as técnicas
de divisão de colônias
(pág. 46).
26
Abelha uruçu-amarela (Melipona flavolineata) – Pará
Pólen
Cerume
Própolis
Sub-produtos
Mel
Colônias
Paisagismo
Turismo
Educação
Polinização
Produtos
Diretos
Produtos
Indiretos
27
Antes de começarmos a falar da criação das abelhas sem ferrão, alguns pontos
merecem ser destacados:
1. Os meliponíneos são animais silvestres, nativos do território brasileiro e, como
muitos outros animais, possuem legislação específica que orienta o seu mane-
jo. No Brasil, é a Resolução CONAMA n
o
346, de agosto de 2004, que disciplina
a proteção e a utilização das abelhas sem ferrão. Alguns itens específicos desta
legislação serão tratados ao longo deste capítulo, mas quem quiser se aprofun-
dar pode consultá-la na íntegra em anexo.
2. São vários os objetivos que podem ser buscados com a meliponicultura. O dia-
grama abaixo indica alguns deles, separados em produtos diretos ou indiretos:
Criação de Abelhas sem Ferrão
Manual Tecnológico 28
Apesar do conteúdo deste manual ser focado predominantemente na produ-
ção de mel, a seguir serão brevemente apresentados três importantes produtos
das abelhas sem ferrão no Brasil: pólen, colônias e polinização agrícola.
As informações apresentadas até a página 59 são perfeitamente aplicáveis
a todas as formas de exploração das abelhas sem ferrão. A partir dali, passam a
tratar especificamente do mel.
Pólen
Como vimos anteriormente, o pólen das abelhas sem ferrão é depositado na
colônia em potes exclusivos, o que torna muito fácil sua exploração. Nestes potes,
o pólen natural coletado nas flores é processado pelas abelhas, as quais depositam
nele algumas enzimas que auxiliam sua conservação natural. Por ser diferente do
pólen in natura, o produto das abelhas nativas recebe nomes especiais: saburá ou
samburá, dependendo da região do Brasil. Uma vez que é um composto rico em
proteínas, tem sido cada vez mais procurado no mercado de alimentos naturais.
Sendo assim, é crescente a iniciativa dos meliponicultores em explorar o pólen
além do mel. Para ser vendido, geralmente é processado de duas maneiras: desi-
dratado ou misturado com mel.
Produção de colônias
Como apresentamos no início deste manual, a meliponicultura é uma ativida-
de que está crescendo no Brasil, o que faz com que a demanda por colônias seja
cada vez maior. Discutiremos mais adiante que a aquisição de enxames depende
de meliponários autorizados para sua comercialização e que existem técnicas de
reprodução induzida que viabilizam a multiplicação intensa de colônias. Sendo
assim, o trabalho do meliponicultor pode ser focado, de forma exclusiva ou não,
na produção de colônias, destinada à venda para novos produtores, pesquisadores
ou polinização agrícola.
Polinização agrícola
Muitos acreditam que o uso de abelhas sem ferrão para a polinização agrícola
é o futuro da meliponicultura mundial. Essa afirmação tem como base a crescen-
te constatação da viabilidade de uso das abelhas sem ferrão para polinização de
plantas de importância econômica. Alguns exemplos comprovados são o uso de
abelhas nativas para a polinização de morango, tomate, berinjela, açaí, pimen-
tão, entre outros. Sendo assim, dominar as técnicas de multiplicação de colônias
e fundar um meliponário autorizado têm potencial não só para provimento aos
meliponicultores iniciantes, mas também para ocupar um nicho de mercado que
tende a se abrir cada vez mais: o fornecimento de colônias (venda ou aluguel) para
polinização agrícola.
Criação de Abelhas sem Ferrão 29
A escolha das espécies
As abelhas sem ferrão são extremamente dependentes do ambiente onde vi-
vem, fato relacionado à íntima ligação com os recursos florais disponíveis em dife-
rentes regiões e a climas específicos. Sendo assim, as melhores espécies para criar
são as que naturalmente existem na região onde se deseja instalar um meliponário.
Existem algumas exceções como a uruçu-nordestina (Melipona scutellaris),
abelha que tem sido transportada para diversas regiões do Brasil e demonstrado
resultados expressivos na produção de mel e multiplicação de colônias. Trata-se
de uma espécie generalista, ou seja, capaz de explorar alimento em uma grande
diversidade de plantas, além de ser resistente a diferentes condições climáticas.
A legislação brasileira, entretanto, condena esta prática, como podemos ob-
servar no artigo 6º da Resolução CONAMA n
o
346/2004:
“(...) Art 6
o
- O transporte de abelhas silvestres nativas entre os Estados será
feito mediante autorização do IBAMA, sem prejuízo das exigências de outras
instâncias públicas, sendo vedada a criação de abelhas nativas fora de sua re-
gião geográfica de ocorrência natural, exceto para fins científicos (...)”.
Com o objetivo de auxiliar o meliponicultor iniciante na escolha das espécies
adequadas para sua região, a tabela a seguir lista as principais espécies criadas nas
cinco regiões do Brasil para a produção de mel:
Antes de começar a criar abelhas, é interessante:
Buscar informações sobre biologia e manejo de meliponíneos, mantendo
contato com criadores que já possuem experiência na meliponicultura;
Fazer um levantamento das espécies de abelhas e, se possível, sobre as
plantas por elas utilizadas, existentes na região;
Definir qual será o objetivo da sua criação: comercialização (mel, subpro-
dutos ou colônias), pesquisa, polinização, preservação das espécies ou
lazer;
Aliar o(s) objetivo(s) de sua criação às espécies disponíveis.
Manual Tecnológico 30
Principais espécies produtoras criadas nas diferentes regiões do Brasil
Região Nome Científico Nome(s) Popular(es) Estados
Norte
Melipona compressipes Jupará, Jandaíra,
Jandaíra-Preta
AC, AM, AP, PA,
RO, RR, TO
Melipona fasciculata Tiúba, Uruçu-Cinzenta, PA, TO
Melipona seminigra Uruçu-Boca-de-Renda,
Jandaíra-Amarela
AM, PA
Scaptotrigona sp.
1,2
Canudo
1
AC, AM, AP, PA,
RO, RR, TO
Nordeste
Melipona asilvai Monduri, Rajada AL, BA, CE, PB,
PE, PI, RN, SE
Melipona fasciculata Tiúba MA, PI
Melipona mandacaia Mandaçaia AL, BA, CE, PB,
PE, PI, RN, SE
Melipona quadrifasciata Mandaçaia AL, BA, PB, PE, SE
Melipona scutellaris Uruçu, Uruçu-Nordestina,
Uruçu-Verdadeira
AL, BA, CE, PB,
PE, RN, SE
Melipona subnitida Jandaíra, Uruçu AL, BA, CE, MA, PB,
PE, PI, RN, SE
Centro-
Oeste
Melipona compressipes Uruçu, Jandaíra GO, MS, MT
Melipona rufiventris Uruçu-Amarela GO, MS, MT
Melipona seminigra Uruçu MT
Scaptotrigona sp.
1,2
Canudo
1
GO, MS, MT
Tetragonisca angustula
2
Jataí GO, MS, MT
Sudeste
Melipona bicolor Guarupú, Guaraipo ES, MG, RJ, SP
Melipona quadrifasciata Mandaçaia ES, MG, RJ, SP
Melipona rufiventris Uruçu-Amarela MG, SP
Tetragonisca angustula
2
Jataí ES, MG, RJ, SP
Sul
Melipona bicolor Guarupú, Guaraipo PR, RS, SC
Melipona quadrifasciata Mandaçaia PR, RS, SC
Melipona mondury Monduri PR, RS, SC
Tetragonisca angustula
2
Jataí PR, RS, SC
1. Existem várias espécies do gênero Scaptotrigona, de diferentes regiões, chamadas “canudo” ou “tubiba”.
2. Espécies da tribo Trigonini.
Criação de Abelhas sem Ferrão 31
Aquisição de colônias
De acordo com a Resolução CONAMA n
o
346/2004:
“(...) Art 3
o
- É permitida a utilização e o comércio de abelhas e seus produtos,
procedentes dos criadouros autorizados pelo órgão ambiental competente, na
forma de meliponários, bem como a captura de colônias e espécimes a eles
destinados por meio da utilização de ninhos-isca.
Art. 4
o
- Será permitida a comercialização de colônias ou parte delas desde que
sejam resultado de métodos de multiplicação artificial ou de captura por meio
da utilização de ninhos-isca. (...)”.
O que é importante reter da legislação brasileira é que não é permitida a cap-
tura de ninhos em habitat natural. A pessoa que deseja iniciar a meliponicultu-
ra precisa recorrer a meliponários autorizados, onde poderá comprar colônias. A
outra alternativa é a boa vontade de um enxame de abelhas ocupar um sítio de
nidificação estrategicamente disponibilizado pelo meliponicultor.
Feita essa ressalva, passamos para as técnicas que vão orientá-lo a começar o
trabalho de criar e manejar abelhas sem ferrão, explicando dois conceitos a que a
lei faz referência: os ninhos-isca e a multiplicação artificial.
Ninhos-isca (ou Ninhos-armadilha)
Chamamos de ninhos-isca os recipientes, caixas, colmeias ou objetos deixados
na natureza com a finalidade específica de capturar uma colônia de abelhas. Esta
é uma estratégia de aquisição de colônias que se aproveita do processo natural de
enxameagem das abelhas (pág. 22) e pode ser facilmente empregada por qual-
quer meliponicultor, otimista com a possibilidade de que o seu ninho-isca seja o
escolhido!
Existem diversos modelos de ninhos-isca concebidos para otimizar as possibi-
lidades de capturar um enxame. As próprias caixas de madeira onde se pretende
deixar definitivamente uma colônia podem ser usadas com essa finalidade. Con-
siderando que no processo de enxameagem os locais previamente ocupados por
outras colônias têm a preferência das abelhas, o que traz bons resultados é fazer
os ninhos-isca se parecerem com cavidades já ocupadas. Impregnar as iscas com
cerume ou própolis é o método mais eficiente.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto desenvolveram
um simples e eficiente modelo de ninho-isca, construído com garrafas plásticas.
Utilizam preferencialmente garrafas pretas, mas as do tipo PET também funcio-
nam, desde que cobertas com algum material que impossibilite a entrada de luz
no interior do recipiente, com lonas ou plásticos escuros. Diferentes tamanhos de
ninhos-isca podem ser deixados na natureza para a captura de espécies diferentes.
Manual Tecnológico 32
Dicas para a confecção e utilização das iscas
Fazer um furo circular
na lateral do recipiente
e instalar um cotovelo
de PVC (22mm) que
servirá como entrada.
Lembrar de instalá-lo
virado para cima para
evitar a entrada de
água.
Visão interna
da isca com
detalhe do
cotovelo de
PVC virado
para cima
Os ninhos-iscas podem ser instalados em
diversos lugares, como em cima de árvores
ou no alpendre das casas. A instalação
em locais acessíveis, em especial alturas
acessíveis, facilita o monitoramento das
iscas durante o período de captura. Dar
preferência a locais sombreados, que não
tomem sol direto das 10h às 15h.
Depois de observada
a instalação de uma
colônia na caixa-
isca, aguarde no
mínimo 30 dias para
transferi-la de local,
tempo suficiente
para que as abelhas
cumpram todas
as etapas do processo de enxameagem. Depois
de capturada, transportar a colônia para o local
definitivo e proceder a transferência do ninho para
o modelo de caixa escolhido (dicas sobre modelos
de caixas e transferência de colônias nas páginas 33
e 44, respectivamente).
Impregnar a isca com própolis de
ASF facilita a captura de enxames
Criação de Abelhas sem Ferrão 33
A partir do momento em que se obtém a primeira colônia de determinada
espécie, seja por meio da compra, seja por captura com ninho-isca, o aumento do
número de colônias no meliponário depende basicamente da multiplicação artifi-
cial das mesmas, tema que será tratado com mais detalhes na página 46.
Modelos de colmeias (ou caixas)
Considerando a grande diversidade de espécies de abelhas sem ferrão, a es-
colha de um modelo único para criar todos os tipos é inviável, sendo necessário
para cada espécie ajustes na forma e/ou dimensões das caixas, o que depende
diretamente da biologia de cada tipo de abelha.
De forma geral, as colmeias para criação de abelhas são blocos retangulares,
ocos, construídos com madeira. Uma grande diversidade de madeiras pode ser
utilizada para essa finalidade. É preferível a escolha de madeiras leves, resistentes,
com pouco ou nenhum cheiro.
A escolha da madeira deve levar em conta a disponibilidade e o preço de cada
região, mas é muito importante o produtor saber sua origem, para não correr o
risco de usar das espécies de árvores ameaçadas de extinção ou que exigem certi-
ficação dos órgãos competentes.
O uso do Pinus, madeira exótica amplamente cultivada no Brasil e de fácil
acesso, é recomendado, uma vez que evita o uso das árvores nativas. Apesar de
não ser a mais resistente, a madeira de Pinus é leve e fácil de manusear, e pode
ser protegida com pintura externa (verniz, por exemplo) para maior durabilidade.
Uma boa premissa para a
escolha do modelo de caixa é
que ele seja compatível com o
clima de cada região, com as
espécies de abelhas disponíveis
e com o objetivo de sua criação.
Independente do contexto,
boas caixas são aquelas que
conseguem:
Garantir a proteção do ninho;
Otimizar o processo de divisão
de colônias;
Facilitar a coleta do mel.
Dada a grande diversidade de espécies
de abelhas sem ferrão e a criatividade do
povo brasileiro, existe uma infinidade de
modelos de colmeia utilizados no país, o
que difere do padrão estabelecido na api-
cultura. Sendo assim, aconselha-se que,
para escolher o modelo de caixa a ser uti-
lizado, o meliponicultor procure saber das
experiências locais de manejo que têm fun-
cionado.
Manual Tecnológico 34
Entre os modelos utilizados para a meliponicultura, é possível separar dois gru-
pos principais, o das caixas horizontais e o das caixas verticais.
As caixas horizontais são as mais tradicionais no Brasil, especialmente nas re-
giões norte e nordeste. Algumas são bem básicas, totalmente, ocas, sem nenhum
tipo de divisão interna. Outras são mais elaboradas, com divisões internas para a
separação da área do ninho do espaço reservado para armazenamento do mel.
Alguns modelos consagrados e amplamente utilizados no Brasil, especialmen-
te no nordeste, são os do meliponicultor Chagas Carvalho – de Igarassu, Pernam-
buco – para a criação da abelha uruçu-nordestina (Melipona scutellaris) e o modelo
do padre meliponicultor Huberto Bruening – catarinense que construiu sua história
com as abelhas em Mossoró, Rio Grande do Norte – para a criação da abelha jan-
daíra (Melipona subnitida).
Caixa horizontal
modelo “Huberto
Bruening” abrigando
uma colônia de
jandaíra (Melipona
subnitida): notar o
espaço específico
para localização do
ninho, à esquerda, e o
espaço destinado para
o armazenamento de
mel, à direita
À esquerda, um exemplo de cortiço. Na meliponicultura tradicional brasileira, o termo “cortiço” refere-se a
segmentos de troncos de árvores utilizados para abrigar colônias de abelhas sem ferrão
Exemplos de caixas horizontais rústicas
Criação de Abelhas sem Ferrão 35
Apesar dos modelos horizontais serem amplamente utilizados na meliponicul-
tura tradicional brasileira, é crescente o número de meliponicultores que adota as
caixas verticais.
O modelo base de caixa vertical segue o padrão natural dos favos de cria nos
troncos de árvore, e foi proposto pelo professor angolano Virgílio Portugal Araújo,
em 1955. Esse modelo é constituído por dois módulos principais: o inferior, des-
tinado para abrigar o ninho, e o superior, destinado para o armazenamento de
alimento – geralmente chamado de melgueira.
O fato de existir um módulo específico para o armazenamento de mel, equi-
pado com uma base que separa o espaço do alimento do espaço do ninho, traz
a grande vantagem de facilitar a coleta, oferecendo melhor acesso aos potes de
mel e possibilitando o transporte só da melgueira para fora do meliponário, o que
preserva o ninho dos riscos e impactos do transporte.
A curiosidade e o empenho de muitos pesquisadores e meliponicultores bra-
sileiros tratou de aperfeiçoar o modelo base proposto por Portugal-Araújo. É o
caso do fluminense Fernando Oliveira, que construiu sua história com as abelhas
coordenando o Instituto Iraquara
2
, em Boa Vista do Ramos (AM). Durante o pe-
ríodo em que trabalhou no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA),
desenvolveu uma colmeia conhecida como “Fernando Oliveira”, ou “Fernando
Oliveira/INPA”, que veio facilitar muito o trabalho dos meliponicultores. Ela tem
sido gradativamente difundida no Brasil e seu uso tem conquistado resultados
expressivos em vários projetos de criação de abelhas sem ferrão, em especial no
manejo das espécies do gênero Melipona.
Essa caixa é composta por quatro módulos dispostos verticalmente: o fundo
e a divisão (também chamada de sobreninho), projetados para abrigar o ninho; a
melgueira, espaço destinado para as abelhas armazenarem mel; e a tampa. Em
épocas de entressafra, quando o manejo das caixas não está focado na produção
de mel, o espaço da melgueira também pode ser utilizado para a alimentação
complementar (pág. 52) ou para o controle de pragas como os forídeos (pág. 57).
A descrição dos módulos, apresentada a seguir, reproduz a colmeia base utili-
zada para a criação da abelha jupará (Melipona compressipes) no estado do Ama-
zonas. Possui dimensões horizontais internas de 15x15 centímetros, tamanho tam-
bém aplicável a espécies como a mandaçaia (Melipona quadrifasciata) e a tiúba
(Melipona fasciculata).
Caixas com dimensões maiores devem ser construídas para espécies de favos
de cria maiores, enquanto caixas menores devem ser confeccionadas para espécies
de ninhos menores.
2. Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) fundada em 2002, cujo principal objetivo é difundir a
meliponicultura na região amazônica.
Manual Tecnológico 36
O dimensionamento ideal da largura da caixa deve levar em conta o diâ-
metro máximo dos favos de cria que determinada espécie é capaz de construir.
Uma regra boa é fazer a caixa 2 ou 3 centímetros maior que o diâmetro máximo
dos favos de cria. Por exemplo: se o maior favo de cria que um meliponicultor
encontrou, de determinada espécie, possui 18cm, ele deve construir a caixa
com dimensões horizontais internas de 20x20cm.
Módulo Tampa
Módulo Melgueira
Módulo de divisão
Módulo Fundo
Aspecto geral e disposição dos módulos de uma da caixa
Fernando Oliveira/INPA
Criação de Abelhas sem Ferrão 37
Potes de alimento
na melgueira
Discos de cria
Entrada
Cantoneiras do
módulo de divisão
Frestas para acesso
das abelhas
à melgueira
Fundo da
melgueira
1
1
2 2
2
3
3
4
4
4
6
6
5 5
5
Modelo da disposição geral dos
elementos de uma colônia dentro da
caixa Fernando Oliveira
1 Potes de alimento na melgueira;
2 Frestas para acesso das abelhas à melgueira;
3 Fundo da melgueira;
4 Favos de cria;
5 Cantoneiras do módulo de divisão;
6 Entrada.
1
2
3
Colônia de uruçu-
nordestina instalada
em uma caixa
Fernando Oliveira
1
Geoprópolis;
2
Potes de alimento;
3
Favo de cria.
Manual Tecnológico 38
Módulo Fundo - Nota-se que o fundo contém um orifí-
cio circular de entrada, geralmente com 2 cm de diâme-
tro. O tamanho relativamente maior do que se costuma
encontrar em colônias naturais é proposital, já que pos-
sibilita às abelhas moldarem sua entrada – com geopró-
polis ou cerume – do tamanho que lhes convém. Ori-
fícios muito pequenos restringem as possibilidades das
abelhas, considerando que as mesmas não são capazes
de perfurar a madeira. A vulnerabilidade a pragas (pág
57) proporcionada pelo tamanho grande do orifício nos
momentos que sucedem uma captura, transferência ou
divisão (páginas 44 e 46, respectivamente) pode ser
minimizada com a redução deste espaço com cerume.
Gradativamente, as abelhas substituem o cerume dis-
ponibilizado pelo meliponicultor pelo material de sua
preferência.
Modulo Tampa
Vista Lateral
15,0
2,5
2,5
Vista Superior
Modulo Melgueira
1,5 12,0 1,5
Vista Superior
Vista Frontal
7,5
Modulo Divisao
2,5 7,5 7,5 2,5
7,5
2,5
Vista Superior
Vista Frontal
7,5
Vista Superior
medidas em centímetros
2,5 15,0
15,0
2,5
2,5
2,0
2,5
Vista Frontal
Modulo Fundo
2,5
7,5
2,5
As abelhas
moldam o
orifício de
entrada de
acordo com as
características
naturais de sua
colônia
Modulo Tampa
Vista Lateral
15,0
2,5
2,5
Vista Superior
Modulo Melgueira
1,5 12,0 1,5
Vista Superior
Vista Frontal
7,5
Modulo Divisao
2,5 7,5 7,5 2,5
7,5
2,5
Vista Superior
Vista Frontal
7,5
Vista Superior
medidas em centímetros
2,5 15,0
15,0
2,5
2,5
2,0
2,5
Vista Frontal
Modulo Fundo
2,5
7,5
2,5
Módulo de divisão - Observa-se que o módulo de di-
visão possui quatro cantoneiras triangulares em sua
porção inferior, formando uma passagem em forma de
losango. Esse sistema é o grande responsável pela efici-
ência dessa caixa para o
processo de divisão de
colônias. Dependendo
do nível de desenvol-
vimento das colônias,
mais que um módulo
de divisão pode ser uti-
lizado para abrigar o
ninho.
Criação de Abelhas sem Ferrão 39
Modulo Tampa
Vista Lateral
15,0
2,5
2,5
Vista Superior
Modulo Melgueira
1,5 12,0 1,5
Vista Superior
Vista Frontal
7,5
Modulo Divisao
2,5 7,5 7,5 2,5
7,5
2,5
Vista Superior
Vista Frontal
7,5
Vista Superior
medidas em centímetros
2,5 15,0
15,0
2,5
2,5
2,0
2,5
Vista Frontal
Modulo Fundo
2,5
7,5
2,5
Modulo Tampa
Vista Lateral
15,0
2,5
2,5
Vista Superior
Modulo Melgueira
1,5 12,0 1,5
Vista Superior
Vista Frontal
7,5
Modulo Divisao
2,5 7,5 7,5 2,5
7,5
2,5
Vista Superior
Vista Frontal
7,5
Vista Superior
medidas em centímetros
2,5 15,0
15,0
2,5
2,5
2,0
2,5
Vista Frontal
Modulo Fundo
2,5
7,5
2,5
A melgueira, por sua vez, possui um assoalho de ma-
deira fina (0,5 a 1 cm) que limita o crescimento vertical
do ninho, com duas frestas nas laterais, as quais permi-
tem o acesso das abelhas ao espaço reservado para o
acúmulo de alimento. De acordo com o potencial pro-
dutivo da espécie criada, várias melgueiras podem ser
utilizadas concomitantemente.
Modulo Tampa
Vista Lateral
15,0
2,5
2,5
Vista Superior
Modulo Melgueira
1,5 12,0 1,5
Vista Superior
Vista Frontal
7,5
Modulo Divisao
2,5 7,5 7,5 2,5
7,5
2,5
Vista Superior
Vista Frontal
7,5
Vista Superior
medidas em centímetros
2,5 15,0
15,0
2,5
2,5
2,0
2,5
Vista Frontal
Modulo Fundo
2,5
7,5
2,5
Módulo tampa
Manual Tecnológico 40
A super melgueira
Além da melgueira
convencional proposta no
modelo básico da caixa de
Fernando Oliveira, uma
eficiente alternativa pode
ser utilizada: a “super mel-
gueira”, ou melgueira “X”.
Trata-se de uma melguei-
ra construída com volume
equivalente a três conven-
cionais e que tem como
vantagem a praticidade na
colheita e no transporte.
Criação de Abelhas sem Ferrão 41
Meliponários
É chamado de meliponário o local onde são instaladas as colmeias de meli-
poníneos. É diferente de apiário, onde são instaladas as caixas das abelhas afri-
canizadas. Não existe um padrão para definir um bom meliponário. As condições
específicas de cada localidade e a criatividade do produtor definem a busca pelos
seus principais objetivos: dar conforto para as abelhas e facilitar o trabalho do
meliponicultor.
Um aspecto importante a ser considerado é que as colmeias de abelhas nativas
devem estar sempre em locais sombreados. Podem tomar um pouco de sol pela
manhã, mas deve-se evitar incidência direta de sol a partir das 9h. A seguir serão
apresentados exemplos de meliponários de duas categorias: meliponários coletivos
e meliponários com suportes individuais.
Meliponários coletivos
As imagens acima ilustram o mais clássico modelo de meliponário da melipo-
nicultura brasileira: as caixas são instaladas nos alpendres ou varandas das casas,
bem próximas aos meliponicultores, o que facilita o acesso para o manejo e o
cuidado contra furtos. As desvantagens desse modelo são a proximidade com as
luzes da casa – que muitas vezes enganam as abelhas atraindo-as no meio da ma-
drugada – e a dificuldade de acesso às caixas, já que ficam no alto e precisam ser
removidas para o manejo.
Manual Tecnológico 42
Já as imagens abaixo demonstram meliponários típicos do sertão nordestino,
especialmente do estado do Rio Grande do Norte, os quais costumam abrigar a
abelha jandaíra (Melipona subnitida).
Existem ainda meliponários mais elaborados, como o ilustrado abaixo, o qual
dá suporte para pesquisas associadas ao Projeto Abelhas Nativas
3
, no estado do
Maranhão.

3. Projeto desenvolvido pela AMAVIDA (Associação Maranhense para a Conservação da Natureza) em 18 comunidades de
nove municípios do estado do Maranhão. Mais informações: http:// www.projetoabelhasnativas.org
Criação de Abelhas sem Ferrão 43
Meliponários com suportes individuais
Como ilustrado nas figuras abaixo, nesse tipo de meliponário as colmeias são
instaladas em suportes individuais, nos quais as caixas são protegidas da chuva
com coberturas independentes, que não exigem a construção de estruturas com-
plexas. Uma boa alternativa de cobertura é um simples pedaço de telha de fibro-
cimento (amianto não!), de tamanho suficiente para proteger a caixa da chuva e
auxiliar no sombreamento. Aconselha-se que meliponários deste tipo sejam insta-
lados em terrenos limpos e sombreados, mas livres da cobertura de árvores com
frutos grandes que possam danificar as telhas e colmeias.
Este tipo de meliponário facilita muito o trabalho do meliponicultor, uma vez
que as caixas não precisam ser movidas durante as atividades de manejo. É impor-
tante que os suportes tenham uma altura que proporcione conforto ao trabalho,
variando de 80 cm a 1 m, conforme a altura do meliponicultor.
Meliponário do Viveiro Municipal de Plantas Nativas,
gerido pela Prefeitura Municipal de João Pessoa, PB
Meliponário da aldeia Nasepoti, na Terra Indígena Panará,
no estado do Mato Grosso
A distância entre os suportes pode variar de 80 cm a 2 m, dependendo do
tipo de abelhas. O ordenamento dos suportes deve ser definido de acordo com as
espécies disponíveis, com base na experiência de cada meliponicultor. Espécies po-
pulosas e agressivas exigem distâncias maiores, enquanto abelhas dóceis e menos
populosas podem ficar mais próximas. Aconselha-se que o criador iniciante busque
informações sobre o comportamento de suas abelhas com meliponicultores expe-
rientes ou nos locais onde adquiriu suas colônias.
Manual Tecnológico 44
Captura ou transferência de colônias
A captura pode ser definida como o processo de transferência de uma colônia
de seu habitat natural para uma colmeia. É importante lembrar que esta prática é
proibida.
A transferência é o processo de substituição de uma colmeia por outra. Geral-
mente é realizada para trocar o modelo de colmeia utilizado (caixa rústica, cortiço
ou ninhos-isca para colmeia racional, por exemplo) ou retirar uma colônia de uma
caixa em estado avançado de degradação.
Ambos os processos, captura ou transferência, devem ser realizados preferen-
cialmente entre as 8h e 11h de dias ensolarados, seguindo os seguintes passos:
Retirar o máximo possível de potes de alimento que podem ser movidos sem
derramar mel ou pólen no ninho. Deixar esses potes em um recipiente separa-
do e não ainda na caixa nova;
Separar o ninho dos potes de alimento restantes e colocá-lo dentro da nova
colmeia;
Criação de Abelhas sem Ferrão 45
A rainha geralmente está junto do ninho e também deve ser transferida. Cui-
dado para que não seja tocada com as mãos. É aconselhável usar um pedaço
de cera para conduzi-la à nova morada;
Coletar as abelhas que não voam, depositá-las em um recipiente e colocá-las
dentro da nova colmeia;
Separar os potes de alimento não danificados em um recipiente fechado e
guardá-los, pois serão utilizados no dia seguinte. Ou seja, nada de alimento
deve ser colocado na nova colmeia no ato da transferência. Caso os potes in-
tactos estejam melados com mel ou pólen, lavá-los cuidadosamente em água
corrente e secá-los com pano de prato limpo. Os potes danificados podem e
devem ser consumidos pelo meliponicultor;
Fechar a nova colmeia e depositá-la na mesma posição da antiga, com a entra-
da exatamente no mesmo local que estava a anterior. Este detalhe é de extrema
importância para que as campeiras reconheçam a nova morada e assumam
rapidamente os trabalhos de manutenção;
Fechar as frestas ou junções dos módulos da caixa com fita crepe;
24 horas após a captura ou transferência, alimentar a colônia. A mesma pode
ser alimentada com os potes reservados no dia anterior ou com alimento artifi-
cial (pág. 52).
Manual Tecnológico 46
Divisão de colônias
Entende-se por divisão de colônias o trabalho de induzir sua multiplicação. De
maneira geral, o processo de divisão consiste em dividir os elementos de uma colô-
nia forte - as abelhas, os favos de cria e o alimento - entre duas caixas, sendo uma
delas a “colônia-mãe”, que permite o povoamento de uma caixa vazia, formando
a “colônia-filha”. Opcionalmente, usa-se uma terceira colônia como doadora de
campeiras, favos, alimento ou rainha.
A multiplicação artificial de colônias é um mecanismo importante para a con-
servação das abelhas sem ferrão, uma vez que pode subsidiar o repovoamento de
populações em ambientes degradados e evitar a aquisição predatória de colônias
em habitats naturais. É, ainda, uma alternativa econômica, pois permite que o
meliponicultor venda colônias para futuros criadores, centros de pesquisa, projetos
de repovoamento ou polinização agrícola.
A seguir, serão apresentados alguns métodos de divisão, levando-se em conta
as diferenças básicas entre os grupos Meliponini e Trigonini.
Método da doação de favos
Trata-se do método mais tradicional, empregado de forma semelhante pela
meliponicultura tradicional em diversas regiões do Brasil. Nele, a “colônia-mãe”
cede de dois a quatro favos de cria madura, aquela de coloração amarelada (pág.
25), para o povoamento de uma caixa nova, ou “colônia-filha”. A cria madura
contém abelhas prestes a nascer e, portanto, proporciona o estabelecimento mais
acelerado do trabalho das operárias na caixa nova.
Módulo
Melgueira
Colônia-mãe
Colônia-mãe
Colônia-filha
Colônia-filha
Módulo
Divisão
Módulo
Fundo
10 Metros
1
4
2
3
1
2
3
4
Colônia-mãe Colônia-filha
Criação de Abelhas sem Ferrão 47
Colocar a caixa
nova no lugar
da colônia mãe
para receber as
campeiras
Vinte
dias após
a divisão,
alimentar a
nova colônia
A colônia-filha deve ser colocada no lugar da colônia-mãe. Assim, ela receberá
as abelhas campeiras – aquelas que voam – que colaborarão na defesa e organiza-
ção da nova caixa. A colônia mãe deve ser transportada e instalada em um lugar
distante, a no mínimo 10 metros, evitando que o cheiro da rainha ali presente
atraia as campeiras, o que impediria a permanência das mesmas na caixa nova.
Opcionalmente, é possível utilizar uma terceira colônia como doadora de cam-
peiras. Nesse caso, a colônia mãe permanece em seu lugar original. Uma terceira
caixa também pode ser utilizada para doação de uma rainha, o que proporciona o
desenvolvimento mais acelerado das colônias divididas. Vale lembrar que todo o cui-
dado é pouco no transporte de uma rainha, devendo-se evitar tocá-la com as mãos.
Vinte dias após a divisão – tempo suficiente para a formação de uma nova
rainha – a colônia-filha deve ser alimentada. Para tanto, pode receber potes de
alimento de outras colônias ou alimentação artificial.
Transferir de 2
a 4 favos de cria
madura da colônia-
mãe para uma caixa
nova
Etapas da divisão
com o método de
doação de favos
Colônia-mãe Colônia-filha
10 Metros
Transportar a
colônia-mãe
para um lugar
distante
1
2
3
4
Manual Tecnológico 48
Destaque das células reais da abelha jataí (Tetragonisca
angustula), uma espécie da tribo Trigonini
A seguir, serão apresentados alguns detalhes e dicas que devem ser considera-
dos durante o processo de divisão com o método de doação de favos:
1. Ao transferir os favos para a caixa nova, os mesmos não devem ser apoiados no
assoalho de madeira. Com o intuito de possibilitar o trânsito das operárias por
baixo dos favos, aconselha-se que sejam apoiados sobre “bolotas” de cerume,
com aproximadamente 0,5 cm de diâmetro;
2. É aconselhável que, durante a divisão, certa quantidade de cerume – que pode
ser retirado do invólucro da caixa-mãe – ou própolis seja transferida para a cai-
xa nova. Este material servirá como matéria-prima para a organização da nova
morada;
3. Como já comentado (pág. 38), é interessante que o orifício de entrada da caixa
nova seja reduzido com um pedaço de cerume, facilitando a defesa da colônia
até que a mesma se estruture;
4. É importante que a fresta da tampa da nova caixa seja vedada com fita crepe,
evitando a entrada de formigas ou forídeos (pág. 57);
5. Tanto a colônia-mãe quanto uma caixa doadora de campeiras pode receber
alimentação artificial 24 horas depois da divisão, uma vez que já possuem suas
rainhas. Nesse caso, a alimentação colaborará para uma recuperação mais ace-
lerada das colônias.
No caso da divisão de espécies da
tribo Trigonini, exatamente os mesmos
passos descritos acima devem ser segui-
dos. No entanto, o meliponicultor deve
estar atento para que os favos de cria
nascente que ocuparão a nova caixa
contenham células reais. Como apresen-
tado (pág. 14), neste grupo de abelhas a
formação de uma nova rainha se dá por
meio das células reais, o que não ocorre
com os Meliponini, onde células de cria
com rainhas virgens ocorrem normal-
mente entre os favos. A figura abaixo
destaca as células reais da abelha jataí
(Tetragonisca angustula). Nota-se o ta-
manho maior que o das células comuns.
Criação de Abelhas sem Ferrão 49
Método de perturbação mínima
Trata-se de um método que depende da utilização de um modelo de caixa
específico, no caso a “Fernando Oliveira”, já apresentada anteriormente. Uma das
grandes qualidades deste modelo é justamente possibilitar a divisão de enxames
através do método de “perturbação mínima”, idealizado pelo criador da caixa.
Neste método, em poucos minutos, e sem a necessidade de se manusear os
favos de cria com as mãos, obtém-se duas colônias através da divisão de uma
única. A vantagem do método é a recuperação acelerada do enxame e a menor
incidência de pragas após a divisão.
Como destacado anteriormente, o módulo de divisão (ou sobreninho) daquele
tipo de colmeia possui quatro cantoneiras triangulares em sua porção inferior, for-
mando uma passagem em forma de losango. Esse sistema é o grande responsável
pela eficiência dessa caixa para o processo de reprodução.
Como ilustrado na figura abaixo, podemos observar que, no momento da mul-
tiplicação, os módulos fundo e divisão são separados, repartindo o ninho em duas
metades. Os triângulos de madeira dão apoio à parte superior, fazendo com que
não seja necessário o uso das mãos para dividir os favos.
Distribuição dos elementos da colônia durante uma divisão com o método de
perturbação mínima
Módulo
Melgueira
Colônia-mãe
Colônia-mãe
Colônia-filha
Colônia-filha
Módulo
Divisão
Módulo
Fundo
10 Metros
1
4
2
3
1
2
3
4
A sequência de figuras a seguir descreve os passos do processo de divisão de
uma colônia – no caso, a abelha uruçu-boca-de-renda (Melipona seminigra) do
estado do Amazonas – usando-se o método de perturbação mínima. Observe que,
nesse exemplo, a colônia está com duas melgueiras cheias de alimento, o que fa-
vorece muito a divisão com o método.
Manual Tecnológico 50
Pode-se observar a colônia (ao centro) pronta
para divisão. Do lado esquerdo, localiza-se um
fundo vazio e ao lado direito, um módulo de
divisão também vazio. Acima da colônia que
será dividida está depositada uma tampa avulsa
Com um canivete ou formão, separa-se
cuidadosamente o módulo de divisão do fundo,
dividindo o ninho em duas partes
O módulo de divisão com a metade superior do
ninho e as duas melgueiras são encaixados sobre
o fundo vazio, enquanto o módulo de divisão vazio
é colocado sobre o fundo, que ficou com a metade
inferior do ninho
Com o formão separa-se a melgueira superior
da inferior
A parte que ficou com o fundo original,
contendo a metade inferior do ninho, e o
módulo de divisão vazio (à direita) recebe a
melgueira superior. A tampa avulsa é colocada
sobre a melgueira inferior, que ficou na outra
metade da colônia dividida
Ao final da divisão temos duas colônias: a primeira
com um fundo vazio, módulo de divisão com a
metade superior do ninho e uma melgueira cheia de
potes de alimento (lado esquerdo). Na outra, está
alojado o fundo com a metade inferior do ninho,
um módulo de divisão vazio e outra melgueira cheia
(lado direito)
Criação de Abelhas sem Ferrão 51
A participação de duas pessoas no processo é muito importante. O meliponi-
cultor que manuseia o formão e divide os módulos é o responsável por observar os
elementos internos da colônia, verificando em quais partes ficaram os diferentes
favos: verdes (postura) ou maduros (nascente).
Módulo
Melgueira
Colônia-mãe
Colônia-mãe
Colônia-filha
Colônia-filha
Módulo
Divisão
Módulo
Fundo
10 Metros
1
4
2
3
1
2
3
4
De forma semelhante ao método de doação de favos, a colônia que ficar com
a maior parte dos favos de cria madura deve ser transportada a uma distância
mínima de 10 metros. Essa condição é diagnosticada no momento da separação
de módulos, com base nos favos observados no fundo da colônia dividida. Caso o
módulo inferior (fundo) apresente favos de cria verde, constata-se, por exclusão,
que os favos maduros ficaram em cima, ou seja, no módulo de divisão (ou sobre-
ninho).
Para as espécies da tribo Trigonini, esse método é um pouco mais complexo –
uma vez que na velocidade da separação dos módulos é difícil visualizar as células
reais –, mas não inviável. Tendo em vista a viabilidade de formação de rainhas nas
duas caixas resultantes da divisão, deve-se considerar que no momento da separa-
ção dos favos duas situações podem ocorrer:
1. Uma das caixas (caixa A) fica com a rainha (ou até mesmo com alguma célula
real) e a outra (caixa B) fica com as células reais - nesse caso a divisão será bem
sucedida, uma vez que ambas, em determinado tempo, terão rainhas.
2. Uma das caixas (caixa A) fica com a rainha e com todas as células reais, enquanto
a outra (caixa B) fica sem nenhuma célula real - nesse caso a divisão não terá
sucesso, uma vez que a segunda caixa não formará uma nova rainha.
Distribuição dos elementos durante a divisão de uma colônia com duas
melgueiras cheias
Manual Tecnológico 52
O meliponicultor tem como identificar a ocorrência da segunda situação (in-
sucesso) caso ao inspecionar a caixa 20/30 dias depois da divisão, não identificar
atividade de postura na nova colônia, ou seja, não encontrar favos verdes (de pos-
tura). Ausência de postura significa ausência de rainha poedeira.
Nesse caso, a solução para que as duas colônias formadas com a divisão so-
brevivam é simples: basta retirar a rainha da caixa A e introduzir na colônia “órfã”
(caixa B). Lembrando que a caixa A, por ter algumas células reais e/ou rainhas
virgens, também formará uma rainha poedeira.
É importante destacar que, na imensa maioria das vezes, a divisão de espécies
da tribo Trigonini com o método de perturbação mínima gera a situação 1, ou
seja, ambas as colônias formadas ficam com células reais. Sendo assim, o uso da
dica para solucionar a situação 2 raramente é necessário, o que faz com que esse
método, para esse grupo de abelhas, também seja muito eficiente.
Monitoramento de colônias
Uma dúvida corriqueira entre os meliponicultores diz respeito à freqüência com
que se deve examinar uma colônia para avaliar seu desenvolvimento. Não existe
uma regra, isso depende da espécie criada, dos objetivos da criação, da época do
ano e, principalmente, da disponibilidade de tempo do criador.
Existem meliponicultores que hesitam muito em abrir as caixas para observar
as estruturas internas da colônia, receosos com os danos que a exposição do ninho
pode causar. Essa preocupação é desnecessária, o uso de uma caixa apropriada e
o cuidado no manuseio garantem a sobrevivência da colônia e a possibilidade do
criador interagir com o desenvolvimento de suas abelhas. Colônias que separam
o espaço do ninho e o espaço do alimento, por exemplo, possibilitam uma maior
frequência de avaliações. Ao abrir apenas o espaço da melgueira, a exposição do
ninho e a consequente troca de temperatura com o ambiente exterior são mini-
mizadas.
A seguir, serão apresentadas as principais atividades que o meliponicultor
pode, ou deve, realizar no dia-a-dia de manejo das colônias.
Alimentação complementar
Alimentar colônias de abelhas não tem o mesmo significado de sobrevivência
aplicável à criação de outros animais, os quais dependem de ração, capim, frutas,
etc., quando domesticados e confinados. Uma vez que as campeiras são livres para
ir e vir, e produzir o próprio alimento, considera-se que a criação de abelhas é uma
semi-domesticação.
Por conta disso, a alimentação induzida às colônias de abelhas é tratada como
“alimentação complementar”. Seu principal objetivo é dar suporte ao desenvolvi-
mento das colônias. Ao receberem uma fonte alternativa de alimento, as operárias
economizam a energia que gastariam para coletar néctar no campo, podendo,
Criação de Abelhas sem Ferrão 53
assim, apoiar outras atividades essenciais, como defesa, limpeza, organização e
suporte às atividades de postura da rainha.
A alimentação complementar não é obrigatória, pois como já foi dito, as abe-
lhas não dependem dela para sobreviver. Entretanto, a maior parte dos meliponi-
cultores modernos são adeptos à sua utilização, uma vez que os resultados obti-
dos, principalmente com vistas à produtividade, são muito positivos.
A alimentação complementar deve ser aplicada principalmente nas épocas de
entressafra, ou seja, nos períodos do ano em que a disponibilidade de flores na
natureza (florada) é pequena. O período de entressafra varia de acordo com a
região e, portanto, seu conhecimento deve ser buscado com criadores de abelhas
experientes ou observação das plantas e colônias ao longo do ano.
da receita, o meliponicultor prepara a quantidade de xarope que quiser, de acordo
com a necessidade de suas abelhas. O preparo é simples: basta misturar os ingre-
dientes e agitar até dissolver. A água pode ser aquecida, o que facilita a dissolução
do açúcar.
Os tipos de açúcar mais apropriados para o preparo do xarope são o cristal ou
o demerara – um tipo cristalizado de coloração escura, amarronzada. O açúcar
refinado possui muitos produtos químicos e deve ser evitado. O açúcar mascavo é
difícil de ser dissolvido e geralmente possui algumas partículas insolúveis que não
são aproveitadas pelas abelhas.
O xarope deve ser introduzido nas colônias com alimentadores específicos.
Existem vários modelos para esta finalidade. O modelo aqui indicado é recomen-
dado por ser barato e acessível: trata-se de um simples recipiente plástico, com
tamanho compatível ao espaço da colônia, variando de 100 a 300 mililitros. É
importante que o recipiente seja de um plástico grosso, o que impede que seja
destruído pelas mandíbulas das abelhas. No interior de cada recipiente devem ser
colocados pedaços de palito de picolé, cera, ou cerume, o que evita que as abelhas
se afoguem no alimento.
1 parte ou
1 quilo de
açúcar
1 parte ou
1 litro de
água
xarope
O produto mais utilizado para
alimentar meliponíneos é um tipo
de xarope de açúcar, ou seja, um
“substituto” do mel, fonte de car-
boidratos – energia – para as abe-
lhas. Meliponicultores e cientistas
têm pesquisado alternativas de
alimentação protéica equivalentes
ao pólen. Entretanto, ainda não
existem receitas consagradas, e o
uso na meliponicultura, de forma
geral, não é difundido.
Seguindo a mesma proporção
A receita mais utilizada entre os
meliponicultores é simples
Manual Tecnológico 54
Alimentadores e alimento introduzidos na melgueira de uma caixa
modelo “Fernando Oliveira”
Como podemos obser-
var nas fotos, a melgueira
não é apenas o módulo
reservado para o estoque
de mel, mas também um
espaço útil para a aplica-
ção da alimentação com-
plementar. Basta levantar a
tampa e realizar a alimen-
tação, não expondo o ni-
nho ao ambiente externo.
Dependendo da inten-
sidade da alimentação, o
xarope é armazenado pe-
las abelhas em potes de
cerume. Caso fique muito
cheia, outra melgueira va-
zia deve ser introduzida,
evitando que o espaço
cheio de alimento seja ex-
posto com as frequentes
alimentações.
Criação de Abelhas sem Ferrão 55
Qual a quantidade e a frequência certa para aplicação do xarope?
Não existe uma fórmula exata. Depende do grau de desenvolvimento
da colônia alimentada e, principalmente, da disponibilidade de tempo do
meliponicultor.
Colônias muito populosas podem receber mais alimento, enquanto co-
lônias fracas devem receber menos. O ideal é que cada caixa receba uma
quantidade de alimento que as abelhas sejam capazes de consumir em no
máximo 1 dia. Isso evita que o xarope fermente dentro da colônia. Com
tempo e experiência o meliponicultor aprende a dosar a quantidade certa.
Uma boa quantidade para começar é 200ml.
A freqüência de alimentações depende dos mesmos fatores. Existem
colônias que podem, tranquilamente, ser alimentadas diariamente. Mas di-
ficilmente um meliponicultor tem tempo de fazer este tra-
balho todos os dias. Alimentar uma vez por semana é
uma ótima frequência. Mas não se preocupe se uma
semana passar, sempre que tiver tempo para alimen-
tar, o xarope será muito bem vindo!
Resumindo
200 ml, uma vez
por semana, é
uma ótima
pedida!
Alimentação complementar armazenada pelas
abelhas em potes de cerume
É importante destacar que o
meliponicultor focado na produção
de mel não deve alimentar suas
colônias na época da florada, pois
o xarope armazenado altera as ca-
racterísticas naturais do mel que vai
ser colhido. Recomenda-se que um
mês antes do início da florada a ali-
mentação seja suspendida.
O meliponicultor focado ex-
clusivamente na produção de co-
lônias, entretanto, pode alimentar
suas colônias o ano todo, já que o
mel não vai ser comercializado e
o número de divisões possíveis de
serem realizadas ao longo do ano
pode ser maior com o apoio da ali-
mentação.
Manual Tecnológico 56
Monitoramento do ninho
Diferente da alimentação complementar, que pode ser semanal ou
até mesmo diária, o monitoramento dos ninhos pode e deve ser realiza-
do em uma frequência menor. Observações quinzenais, ou até mensais,
são mais do que suficientes.
É durante a avaliação dos ninhos que o meliponicultor se relaciona
diretamente com suas colônias, verifica o tamanho da população de
abelhas, o número e o tamanho dos favos de cria e a saúde do trabalho
da rainha.
Com base na avaliação dos ninhos, o meliponicultor pode chegar à
conclusão, por exemplo, de que uma colônia fraca deve ser alimentada.
Ou então decidir que uma colônia forte está no ponto de ser dividida.
Durante o monitoramento das colônias, tanto na avaliação dos ni-
nhos como na alimentação complementar, o meliponicultor deve estar
sempre atento a possíveis ataques de inimigos naturais, tema que será
tratado no próximo item.
Ninhos de uruçu-nordestina no momento das avaliações
Ninho relativamente fraco, em estágio inicial de
desenvol vimento, o qual deve receber alimentação
complementar
Ninho bem desenvolvido, pronto para receber uma divisão
Criação de Abelhas sem Ferrão 57
Inimigos naturais
Forídeos
Sem dúvida alguma, os pa-
rasitas mais perigosos para as
abelhas sem ferrão são os forí-
deos, pequenas moscas do gê-
nero Pseudohypocera. Eles são
os responsáveis pelas maiores
dores de cabeça de um melipo-
nicultor.
Ao invadirem as colônias,
as fêmeas destes insetos depo-
sitam seus ovos, de onde nascem larvas que se alimentam do mel e, principal-
mente, do pólen acumulado pelas abelhas. Os forídeos prejudicam os estoques de
alimento da colônia e, ainda pior, as células de cria nas quais o pólen é estocado
para a alimentação das larvas em desenvolvimento.
Estas mosquinhas são capazes de colocar muitos ovos em uma colônia parasi-
tada. Como os ovos “amadurecem” muito rápido, as larvas infestam a colônia, e
as consequências para as abelhas são desastrosas.
É no período chuvoso que os forídeos se reproduzem e atacam com mais in-
tensidade. Portanto, é nas regiões e épocas mais úmidas que o meliponicultor deve
investir mais atenção no combate às moscas.
A melhor forma de evitar problemas com forídeos é a prevenção. Colônias
fortes e organizadas não são presas fáceis para o ataque dos parasitas. Ou seja, a
prevenção começa com o bom manejo das caixas. Populações fortes mantêm as
frestas das caixas vedadas e realizam com mais eficiência o trabalho de defesa na
entrada e no túnel de ingresso, impedindo a invasão e a infestação.
O pólen é o grande recurso buscado pelos parasitas dentro da colônia. Por-
tanto, o trabalho do meliponicultor no dia-a-dia (durante transferências, divisões,
avaliações e coleta) deve buscar causar o mínimo dano possível aos potes de pólen.
O mesmo vale para as células de cria verde, onde a presença de pólen é maior, já
que as larvas ainda não o consumiram.
A rotina de visitas do meliponicultor ao meliponário também é importante
para o combate aos forídeos. As vistorias periódicas realizadas nas colônias (pág.
52) possibilitam ações imediatas a episódios de invasão, minimizando a probabili-
dade de infestação avançada.
Exemplar de forídeo
Manual Tecnológico 58
Armadilha de vinagre é o melhor remédio para combater forídeos
O vinagre tem um cheiro ácido, semelhante
ao gerado pelo pólen exposto e/ou mel derra-
mado, grande atrativo para as mosquinhas en-
trarem nas colônias. Atraídos por esse cheiro,
acabam caindo no líquido, onde morrem.
A confecção das armadilhas é muito simples.
Basta fazer alguns furinhos na tampa de reci-
pientes que caibam em lugares acessíveis das col-
meias, preenchê-los até a metade com vinagre e
introduzi-los em colônias atacadas. Em cada ins-
peção, o vinagre deve ser trocado, até que não
apresente mais forídeos capturados. É importan-
te que os furos sejam grandes o suficiente para a
entrada dos forídeos, mas pequenos o suficiente
para não permitir a entrada das abelhas, que também são atraídas pelo vi-
nagre. Indica-se o uso de furos com 2/3 milímetros de diâmetro.
Aconselha-se que as armadilhas sejam colocadas nas melgueiras, assim
podem ser monitoradas durante as alimentações.
Modelo de armadilha de vinagre
Criação de Abelhas sem Ferrão 59
Formigas
Formigas são atraídas para a colônia pelo cheiro de alimento. Mais uma vez,
manusear as caixas de forma cuidadosa e evitar a exposição dos potes de pólen e
mel são as melhores formas de evitar os ataques.
Quando ocorrem, os ataques geram muita briga entre formigas e abelhas. Por
mais que na maior parte das vezes os meliponíneos sejam capazes de se defender,
o prejuízo na população de abelhas pode ser catastrófico.
Uma boa estratégia para evitar a preocupação é impregnar os suportes das
caixas com óleo queimado, alternativa viável principalmente em meliponários de
suportes individuais. A substância, facilmente adquirida em postos de troca de
óleo, repele as formigas, impedindo que subam para as caixas.
É importante destacar que o produtor focado na produção de mel orgânico
não pode utilizar essa alternativa, uma vez que o óleo queimado não é permitido
pelos órgãos de certificação.
Exemplo
de suporte
impregnado com
óleo queimado
Abelha jandaíra (Melipona subnitida) - Rio Grande do Norte
61
Uma importante ressalva que deve ser feita antes de tratarmos das técnicas de
coleta e beneficiamento do mel de abelhas sem ferrão é de que no Brasil não existe
legislação específica que regulamente a cadeia produtiva dos produtos originados
pela meliponicultura. No que se refere aos produtos das abelhas, o Brasil dispõe
apenas de legislação que ampara a apicultura, ou seja, a atividade produtiva asso-
ciada à criação das estrangeiras Apis mellifera.
Sendo assim, não existe no país um mercado estabelecido, especializado em
equipamentos de meliponicultura. A diversidade de técnicas que será apresentada
a seguir representa o resultado de iniciativas bem sucedidas no Brasil, as quais têm
produzido mel de qualidade, consumido e/ou comercializado de maneira informal
em diferentes regiões.
Esta diversidade de técnicas pode e deve ser considerada no processo pen-
dente de regulamentação, em andamento por meio do trabalho de produtores,
pesquisadores e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).
O grande desafio deste processo de regulamentação é justamente englobar
a diversidade de técnicas. Dada a diversidade de abelhas e de contextos socio-
ambientais em que a meliponicultura se manifesta no país, a imposição de um
protocolo único e padronizado, como ocorre com a apicultura, tende a ser mal
sucedida .
Considerações gerais
Um dos maiores desafios daqueles que produzem mel de meliponíneos é ga-
rantir estabilidade e longevidade, ou seja, tempo de validade, a um produto muito
suscetível à fermentação
4
. A principal característica que atribui ao mel das abelhas
nativas essa característica é sua elevada taxa de umidade (quantidade de água),
que costuma variar de 25% a 35% da composição, além do seu natural conteúdo
de leveduras, agentes de fermentação.
Veremos mais adiante (pág. 78) que nem sempre a fermentação é um pro-
blema. Entretanto, em um primeiro momento, trataremos das técnicas voltadas
para a produção de um mel estável, com a máxima longevidade possível, sem
fermentação.
4. A fermentação é um processo de transformação de uma substância em outra, produzida a partir de microorganismos, tais
como fungos e bactérias. Exemplos de fermentação são os processos de transformação de açúcares (como o mel) em álcool,
como ocorre na fabricação da cerveja, ou ácido acético, no caso da produção de vinagre.
Técnicas de coleta e
beneficiamento de mel
Manual Tecnológico 62
O primeiro passo para minimizar a fermentação são boas práticas de coleta,
visando a redução da contaminação por microorganismos. Depois de coletado, vá-
rios métodos de beneficiamento podem ser aplicados para auxiliar a conservação
do mel. A seguir, são apresentados alguns métodos de coleta e beneficiamento
utilizados com sucesso no Brasil.
Considerações sobre boas práticas de manipulação
Tendo em vista que o mel é um alimento, é importante que todas as etapas de
sua produção levem em consideração que os principais fatores que motivam o seu
consumo são a nutrição e o prazer de saboreá-lo. Sendo assim, o meliponicultor
que preza pelo bem estar de seus consumidores deve estar sempre atento ao com-
promisso de produzir mel de qualidade.
Entre os principais quesitos para conquistar este objetivo, estão o cuidado e a
higiene no dia-a-dia de trabalho. A seguir, serão apresentados alguns cuidados de
manipulação que devem ser adotados em todas as etapas de produção, desde o
manejo das caixas até o beneficiamento do mel:
Localização do meliponário: Evitar instalar os meliponários em áreas poluídas, próxi-
mas a depósitos de lixo, criadouros de animais e regiões de agricultura intensi-
va, onde o uso de adubos químicos e agrotóxicos é realizado de forma abusiva;
Equipamentos: Utilizar equipamentos confeccionados com materiais de fácil higie-
nização, como aço inox, vidro e plásticos atóxicos. Sempre lavar os equipamen-
tos antes e depois do uso;
Água: Utilizar água limpa, de procedência conhecida, sempre que ela for necessá-
ria;
Higienização: Todos os equipamentos e materiais diretamente envolvidos na mani-
pulação do mel (equipamentos de coleta e beneficiamento, recipientes de ar-
mazenamento, envases, etc.) devem ser higienizados antes do uso. Para tanto,
é recomendado lavá-los em água limpa e abundante com sabões sem cheiro,
como sabão de coco ou detergente neutro. Reservar esponjas específicas para
estes materiais, e nunca utilizar palha de aço. Sempre que possível, fervê-los ou
enxaguá-los com água fervente;
Cuidados pessoais: Tomar banho antes das atividades. Sempre lavar as mãos e man-
ter as unhas cortadas e escovadas. Pessoas com enfermidades potencialmente
transmissíveis devem evitar trabalhar diretamente com o mel;
Acessórios: Para a manipulação do mel (coleta ou beneficiamento), é recomendado
o uso de touca e máscara (encontradas em farmácias ou lojas de equipamentos
cirúrgicos) e roupas limpas, preferencialmente avental.
Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 63
Métodos de coleta
Considerações sobre os locais adequados para a coleta do mel
Tendo como base os diferentes arranjos produtivos presentes no Brasil para
a produção de mel de abelhas sem ferrão, define-se a existência de três locais
usualmente utilizados para a coleta: os entrepostos, as unidades de coleta e os
meliponários. A seguir, as três alternativas serão brevemente apresentadas com
suas respectivas vantagens e desvantagens.
Entreposto (ou casa-do-mel)
De forma genérica, um entreposto pode ser considerado qualquer estabeleci-
mento funcional estrategicamente situado entre um pólo produtor e um pólo con-
sumidor. No caso dos sistemas associados aos produtos das abelhas, o entreposto
também é conhecido como casa-do-mel.
De acordo com a legislação que regulamenta a cadeia produtiva da apicultura,
a existência de um entreposto para processamento dos produtos é obrigatória. É
a casa-do-mel que recebe as melgueiras vindas dos apiários e abriga as atividades
de coleta, beneficiamento, envase, rotulagem, armazenamento e distribuição do
mel de Apis.
De acordo com o Ministério da Agricultura, a obrigatoriedade do entreposto
é a garantia de produção do mel de qualidade: estando estes estabelecimentos de
acordo com as normas de organização e higiene, assegura-se que o produto final
pode ser comercializado.
A obrigatoriedade e a natureza dos entrepostos são temas amplamente dis-
cutidos no setor apícola. Seguir as complexas recomendações impostas pela legis-
lação demanda altos investimentos, o que acaba restringindo as possibilidades de
inserção no mercado de grande parte dos pequenos produtores. A possibilidade
de imposição de modelo semelhante à meliponicultura é ainda mais polêmica,
uma vez que a maior parte da produção do mel de abelhas sem ferrão é fruto do
trabalho de pequenos produtores ou comunidades tradicionais.
O conteúdo deste manual não vai se aprofundar na proposta de um modelo
de entreposto para a meliponicultura, mas deixa registrada a necessidade de ser
pensado um modelo mais simples e barato do que o adotado na apicultura, viável
aos pequenos produtores.
Apesar das dificuldades, existem no Brasil meliponicultores que se aventuram
na utilização dos entrepostos convencionais para o processamento de mel de nati-
vas. A maioria deles, é bem verdade, também trabalha com apicultura.
No que diz respeito à coleta, tema deste item, o sistema adotado é semelhante
ao utilizado com as Apis: as melgueiras são transportadas para a casa-do-mel e lá
o mel é coletado.
Manual Tecnológico 64
Unidade de coleta
As unidades de coleta constituem alternativa para descentralizar a coleta do
mel. São uma forma de aproximar a coleta do meliponário e tirar esta etapa do
entreposto, diminuindo as distâncias de transporte das melgueiras. Tem como
principal vantagem facilitar a possibilidade dos meliponicultores compartilharem
um entreposto: no caso de um arranjo produtivo comunitário, por exemplo, cada
produtor realiza a coleta em sua propriedade, transportando o produto já colhido
para a casa-do-mel.
São vários os modelos de unidade de coleta que podem ser adotados. Existem
estruturas relativamente complexas, fixas, construídas de alvenaria, assim como
unidades móveis, que podem ser caminhões adaptados ou tendas desmontáveis.
Aconselha-se o uso de tendas desmontáveis revestidas com filó. Elas têm a
vantagem de serem simples e baratas. Instaladas próximas aos meliponários, prote-
gem as caixas e melgueiras da pilhagem de abelhas e moscas, sempre interessadas
no mel coletado. Em relação à higiene na manipulação, são viáveis pelos mesmos
motivos da coleta nos meliponários, apresentados a seguir.
Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 65
Meliponário
Se o leite de vaca pode ser ordenhado no estábulo, por que o mel de abe-
lhas sem ferrão não pode ser coletado no meliponário? Esse questionamento tem
como base o fato de ambos os produtos serem coletados de forma relativamente
semelhante: assim como o leite é ordenhado diretamente das glândulas mamárias
das vacas, o mel de abelhas sem ferrão pode ser coletado diretamente dos potes
de cerume (pág. 69).
Veremos que na meliponicultura a coleta pode ser realizada em um sistema fe-
chado, onde o mel é retirado de dentro dos potes diretamente para um recipiente
de armazenagem e transporte. Essa característica viabiliza a coleta no meliponário,
uma vez que o mel tem condições de chegar ao entreposto tendo entrado em
pouquíssimo, ou nenhum, contato com o ar.
Vale lembrar que na apicultura, onde o acesso ao mel depende da abertura
(desoperculação) e centrifugação dos favos, é inviável a coleta nos apiários.
No meliponário, o mel pode ser coletado
diretamente dos potes para um recipiente
esterilizado
Manual Tecnológico 66
Métodos Tradicionais
Perfuração dos potes
Trata-se de um método simples, muito utilizado na meliponicultura tradicional
brasileira, em especial na região nordeste. Através da tampa ou de aberturas late-
rais das caixas, os potes de mel são acessados e perfurados com a ajuda de objeto
pontiagudo, como facas ou espetos de madeira. A caixa é inclinada na direção de
um orifício, geralmente localizado na parte de baixo da caixa, justamente para a
colheita. O mel que escorre dos potes passa pela caixa e sai por esse orifício para
um recipiente de coleta, geralmente um balde, bacia ou jarra. Antes de chegar a
esses recipientes, o mel passa por uma peneira, onde os resíduos maiores, como
pedaços de cerume ou abelhas, são retirados. Terminada a colheita, o mel é enva-
sado e armazenado.
Nestas fotos, o meliponicultor Francisco Melo Medeiros, da JOCA
5
, do município de Jandaíra (RN), coleta mel com
o tradicional método de perfuração dos potes. À esquerda, observa-se a inclinação da caixa. À direita, o orifício de
escoamento, a peneira e o recipiente de coleta
5. Associação Jovens Agroecologistas Amigos do Cabeço, sediada em Jandaíra (RN), cidade que leva o nome popular da abelha
Melipona subnitida, principal espécie produtora de mel na Caatinga nordestina.
Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 67
Compressão dos potes
É outro método simples e tradicional. Sua aplicação segue um processo seme-
lhante ao da perfuração, com a diferença que nele os potes são retirados das caixas
ou melgueiras e espremidos com as mãos. Em relação ao método anterior, tem a
desvantagem de causar um pouco de desperdício, já que com freqüência certa
quantidade de mel escorre no momento em que os potes são retirados da caixa ou
separados dos potes de pólen. O meliponicultor que usar este método deve sem-
pre estar atento aos potes de pólen, para evitar que sejam espremidos junto com
os de mel, o que causa significativa alteração nas características do produto final.
Sim, dependendo de alguns detalhes do modelo de produção adotado,
dos cuidados de higiene durante a manipulação e do processamento do
mel depois da coleta. Assim como o processo de desoperculação e cen-
trifugação aplicado no mel das abelhas Apis, os métodos de compressão
ou perfuração expõem excessivamente o mel ao ambiente externo, o que
aumenta seu potencial de contaminação. Por conta disso, é fundamental
que esses métodos sejam aplicados em locais específicos de coleta, como
unidades de coleta, entrepostos, “casas do mel” etc. Assim, para ambos os
métodos é essencial o uso de um modelo de caixa que permita o transporte
das melgueiras para um ambiente de coleta limpo, ou seja, livre de poeira
ou partículas orgânicas presentes no ar de um ambiente externo.
A diferença entre as espécies de abelhas também pode influenciar na
qualidade do mel. Existem espécies com hábitos relativamente “anti-higiêni-
cos”, que depositam seus excrementos na mesma área onde armazenam os
É possível produzir mel de qualidade com métodos de compressão ou
perfuração?
Depósitos de excremento em melgueiras de uruçu-nordestina
Manual Tecnológico 68
Coleta com perfuração de potes
em melgueiras transportadas a um
entreposto
potes de alimento. É o caso da uruçu–
nordestina (Melipona scutellaris), por
exemplo. Por outro lado, existem espé-
cies muito organizadas, que preparam
melgueiras “limpas” exclusivamente
com potes de mel. As abelhas jandaíra
(Melipona subnitida), jataí (Tetragonis-
ca angustula) e tiúba (Melipona fasci-
culata) são bons exemplos de abelhas
que organizam melgueiras limpas, pos-
sibilitando a aplicação dos métodos de
compressão ou perfuração.
Um interessante sistema produtivo
baseado no método de perfuração dos
potes é proposto pela Embrapa Ama-
zônia Oriental: 1) as melgueiras fecha-
das são retiradas das caixas e levadas
para uma local de coleta; 2) os potes
de mel são abertos com uma faca de
aço inox; 3) a melgueira é virada de
cabeça para baixo sobre uma peneira
quadrada confeccionada de nylon bem
fino; 4) embaixo da peneira coloca-se
uma bandeja de plástico ou inox, onde
o mel que escorre por alguns minutos é
armazenado. Depois de coletado, o mel
é pasteurizado (pág. 75) e envasado.
Trata-se de um método que aproveita a
praticidade e a eficiência da perfuração
dos potes e é viável para quem tem a
possibilidade de construir um local es-
pecífico para a coleta.
Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 69
Métodos de Sucção
A principal vantagem da sucção é permitir que o mel seja retirado diretamente
de dentro dos potes, diminuindo o contato com o ambiente externo e a pos-
sibilidade de contaminação. A seguir são apresentados alguns equipamentos
utilizados com essa finalidade, desde os mais simples – como as seringas des-
cartáveis – até os mais elaborados – como as bombas elétricas de sucção.
Seringa descartável
A velha e conhecida seringa para dar injeção é um utensílio prático
e consagrado na meliponicultura atual. Esse método tem a vantagem
de ser simples, barato e acessível, já que é possível comprar seringas
descartáveis, de diversos tamanhos, em qualquer farmácia.
Exemplo de seringa com
prolongamento do bico
Não é recomendado o uso
da agulha para a coleta do mel,
já que ele é viscoso e não pas-
sa com facilidade por orifícios
pequenos. Alguns modelos
de seringa, principalmente os
com volume superior a 50 ml,
possuem um prolongamento
no bico, o que facilita muito a
coleta por possibilitar maior al-
cance dentro dos potes. Caso
este tipo de seringa não seja fá-
cil de encontrar, um pedaço de
mangueira plástica (tipo cristal)
fina pode ser acoplado no lugar
onde seria encaixada a agulha.
O procedimento de coleta
com a seringa é simples: os po-
tes devem ser abertos (desoper-
culados) e o mel gradativamen-
te sugado e depositado em um
recipiente de armazenamento.
Manual Tecnológico 70
Bomba de sucção elétrica
Existem várias formas de improvisar uma bomba elétrica de sucção, com as-
piradores de pó domésticos, inaladores ou bombas peristálticas. O modelo mais
acessível e utilizado na meliponicultura moderna, entretanto, é o aspirador de lí-
quidos aproveitado dos equipamentos médicos e odontológicos.
As principais vantagens do uso deste equipamento são a eficiência (agilidade
para coleta) e assepsia (limpeza), já que o mel é retirado diretamente dos potes da
colônia para um recipiente esterilizado.
O método, porém, também apresenta desvantagens: o fluxo de sucção é mui-
to acelerado, o que proporciona excessiva oxigenação (espuma) no mel, aumen-
tando seu contato com os microorganismos do ar. Dependendo do local de coleta
e do método de beneficiamento a ser utilizado depois, esta exposição pode causar
problemas para a conservação do mel, diminuindo sua vida útil. Além disso, o
equipamento depende de energia elétrica, recurso nem sempre disponível em co-
munidades produtoras mais isoladas.
Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 71
Bombas de sucção mecânica
Glossador®
O glossador é um equipamento desenvolvido pelo Projeto Abelhas Nativas, do
estado do Maranhão. Trata-se de uma bomba manual que tem como principais
vantagens a independência de energia elétrica e o fluxo lento de sucção, propor-
cionando pouquíssima oxigenação. É uma alternativa mais eficiente que a seringa,
mas também demanda tempo relativamente grande de trabalho para a coleta do
mel.
O equipamento é formado por três elementos básicos: uma bomba de borra-
cha (como uma pêra de laboratório ou bomba de tanque de gasolina de barcos);
um dispositivo central de aço inoxidável com rosca compatível ao de garrafas PET;
e duas mangueiras plásticas tipo cristal (60 e 40 centímetros) que conectam os dois
primeiros elementos.
O Projeto Abelhas Nativas utiliza como recipiente coletor de mel garrafas de
água mineral (500 ml), uma vez que a pêra de borracha tem capacidade de formar
vácuo nesse volume para sucção. Estes recipientes são interessantes por já virem
limpos, dispensando a esterilização e facilitando o trabalho em comunidades com
menos infraestrutura.
Aspecto geral do Glossador®
1) Pêra sugadora;
2) Dispositivo central de INOX;
3) Mangueira sugadora de ar;
4) Mangueira sugadora de mel;
5) Recipiente de armazenamento de mel.
1
2
3
5
4
Manual Tecnológico 72
Bomba de sucção manual
Trata-se de uma bomba semelhante às utilizadas para encher bolas ou pneus
de bicicleta, mas com êmbolo e válvula invertidos para sucção do ar. O ar sugado
gera o vácuo no recipiente de coleta, possibilitando que o mel seja aspirado pela
extremidade de uma mangueira de coleta. Este equipamento tem a vantagem de
aliar independência de energia elétrica, eficiência e baixa oxigenação.
Diversos tipos de recipientes de coleta podem ser acoplados às bombas de
sucção manual para a colheita do mel. Garrafas PET de água mineral, utilizando-se
o mesmo dispositivo central de inox do glossador, são um exemplo.
O tamanho dos recipientes utilizados deve ser compatível com a capacidade
de pressão das bombas. As bombas encontradas no mercado para uso em bolas
e pneus costumam ser capazes de gerar vácuo em recipientes de até 5 litros. A
possibilidade de usar grandes recipientes de coleta é muito eficiente, pois otimiza
o trabalho (não se perde tempo trocando recipientes durante a coleta) e facilita o
transporte.
Exemplo de bomba de sucção manual acoplada a um recipiente de coleta PET/500 ml
Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 73
Bomba de sucção manual
acoplada a recipiente de vidro
de 3 litros. O modelo é utilizado
no projeto de meliponicultura
desenvolvido pelo Instituto
Socioambiental
6
com três etnias
indígenas do Parque Indígena do
Xingu (MT)
6. Organização da Sociedade Civil
focada na conservação e valorização
da diversidade socioambiental. Des-
de 2006, incentiva formalmente a
implementação da cadeia produtiva
do mel de abelhas nativas sem ferrão
em aldeias das etnias Yudjá e Kaiabi
presentes no Parque Indígena do
Xingu (MT).
Vantagens e desvantagens dos métodos de coleta
Método Vantagens Desvantagens
Compressão/
Perfuração
Simplicidade, acessibi-
lidade, baixo custo e
eficiência
Potencial de contami-
nação e possibilidade
de influência do pólen
no aroma do mel
Sucção com seringas
Simplicidade, acessibi-
lidade, baixo custo e
assepsia
Pouca eficiência
Bombas elétricas de
sucção
Eficiência, assepsia e
compatibilidade com
grandes recipientes de
coleta
Custo relativamente
elevado, dependência
de energia elétrica
e fluxo contínuo e
acelerado, o que pro-
porciona oxigenação
do mel
Bombas de sucção
manual
Custo intermediário,
assepsia, compati-
bilidade com grandes
recipientes de coleta
e independência de
energia elétrica
Eficiência inter-
mediária
Manual Tecnológico 74
Técnicas de beneficiamento para conservação
Entende-se por beneficiamento o processo de transformar um produto pri-
mário em um produto de maior valor comercial. No caso do mel de abelhas sem
ferrão, os métodos de beneficiamento são utilizados para transformar o mel in
natura, com grande potencial de fermentação, em um produto estável, que man-
tenha suas características físicas, químicas e sensoriais o maior tempo possível na
prateleira de venda ou na casa do consumidor.
A aplicação destes métodos visa tanto viabilizar a estocagem do mel para con-
sumo pessoal, familiar ou comunitário, como a inserção do mel de abelhas sem
ferrão no mercado. Portanto, não pode ser considerada pré-requisito para o con-
sumo do mel, e não deve substituir a inigualável sensação de consumir mel fres-
quinho recém colhido das caixas.
Refrigeração
Na indústria de alimentos, a refrigeração é um método consagrado para re-
tardar o processo de degradação dos produtos. Isso acontece porque as baixas
temperaturas dificultam o desenvolvimento dos microorganismos. No caso do mel
de abelhas sem ferrão, a refrigeração é um método muito eficiente, já que diminui
a proliferação de leveduras e bactérias e retarda a fermentação.
Uma geladeira convencional mantém uma temperatura média que varia entre
2ºC e 4ºC. Sua utilização na escala de consumo pessoal, familiar, ou até mesmo
comunitária, é muito eficiente, uma vez que o mel, colhido de forma limpa, ali
estocado, dura pelo menos 1 ano.
Já na escala comercial, o uso da refrigeração é mais complicado. Para adotar
este método, o produtor deve refrigerar o mel logo depois da colheita, transportá-
lo refrigerado e comercializá-lo em prateleiras refrigeradas ou geladeiras.
Este modelo está sujeito a uma logística complexa e dispendiosa. Sua aplicação
pode ser viável, mas depende de escala de produção e da elaboração de um plano
de negócio minucioso que garanta lucro nas vendas.
Desumidificação (ou desidratação)
Entende-se por desumidificação, ou desidratação, o processo de retirar ou di-
minuir a quantidade de água de determinado produto. Como a água é o principal
“ingrediente” para a vida, retirá-la dos alimentos evita que sejam criadas condi-
ções propícias para o desenvolvimento de microorganismos.
Como vimos anteriormente, o mel de abelhas sem ferrão tem elevado teor
de umidade (quantidade de água), que costuma variar de 25% a 35% de sua
composição. Como alternativa para proporcionar maior duração, ou seja, impedir
a fermentação acelerada, recomenda-se que o teor de água do mel seja reduzido
para 20% ou menos. Com essa concentração, o mel dura, em média, 2 anos.
Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 75
Como referência, vale destacar que 20% é o máximo teor de umidade per-
mitido pela legislação brasileira para a comercialização do mel das abelhas Apis
(Instrução Normativa nº 11, de 20 de outubro de 2000). É importante lembrar que
estas abelhas naturalmente produzem mel com baixa umidade, próximo ou abai-
xo de 20%. Esta imposição, portanto, não deve ser aplicada ao mel das abelhas
nativas sem ferrão.
Para realizar a desumidificação do mel, existem dois equipamentos principais
disponíveis no repertório dos meliponicultores brasileiros: a máquina de desumi-
dificação e a sala de desumidificação. A vantagem do segundo sistema é o menor
custo. A desvantagem de ambos é a alteração nas características naturais do mel
de abelhas sem ferrão, tido por muitos como mais gostoso por ser menos viscoso
e doce.
Mais uma vez, a escolha por este método de beneficiamento deve levar em
conta a escala de produção e a estruturação de um plano de negócio que viabilize
sua utilização.
Máquina de desumidificação
A máquina de desumidificação não é uma invenção da meliponicultura. O
equipamento é tradicionalmente utilizado na cadeia produtiva do mel de Apis
mellifera e, portanto, encontra-se disponível no mercado de produtos apícolas.
Essas máquinas trabalham com desidratação a frio, o que não danifica a com-
posição natural dos nutrientes e vitaminas presentes no mel. Existem no mercado
máquinas de capacidades e tamanhos diversificados, cujos preços variam entre 20
mil e 100 mil reais.
Sala de desumidificação
Trata-se de um interessante sistema de desumidificação que foi desenvolvido
por pesquisadores do Centro de Ciências Agrárias e Ambientais da Universidade
Federal da Bahia.
Nele, uma pequena sala é equipada com um desumidificador de ar (equipa-
mento disponível no mercado, geralmente utilizado para combater o mofo dos
ambientes), ar condicionado e prateleiras. O mel é disposto nas prateleiras em
bandejas de plástico ou inox. O funcionamento é simples: a água do mel evapora
para o ar seco gerado pelo desumidificador, enquanto o ar condicionado colabora
retirando o vapor da sala para o ambiente externo.
Com a ajuda de um refratômetro – equipamento utilizado para medir o grau
de umidade de substâncias líquidas – monitora-se o teor de água do mel até o
ponto ideal. Dependendo da capacidade do desumidificador, da quantidade e do
teor de umidade do mel, o processo dura entre 12 e 48 horas.
Manual Tecnológico 76
Sala de desumidificação, equipada com um
desumidificador de ar e prateleiras
Detalhe do refratômetro indicando a umidade do mel antes da
desumidificação (esq.) e depois (dir.)
Pasteurização
A pasteurização é um procedimento usado em alimentos para destruir mi-
crorganismos patogênicos ali existentes. Foi criada em 1864, levando o nome do
químico francês que a criou: Louis Pasteur.
O processo consiste basicamente no aquecimento do alimento a determinada
temperatura, por determinado tempo, de forma a eliminar os microrganismos. No
caso do mel, essa temperatura não deve exceder 65ºC, condição em que alguns
açúcares nele presentes começam a queimar, alterando seu sabor, e proteínas e
vitaminas são alteradas, comprometendo suas características naturais.
Existem no mercado equipamentos específicos para a pasteurização de alimen-
tos. Estes equipamentos têm a vantagem de possibilitar a calibração da temperatu-
ra pretendida, proporcionando precisão no aquecimento.
O procedimento mais comum e acessível, entretanto, é o uso do bom e velho
“banho-maria”. Nunca esquente o mel diretamente no fogo. O banho-maria per-
mite que ele seja aquecido de forma lenta e uniforme, prevenindo a possibilidade
de superaquecimento. Durante o aquecimento, a temperatura do mel deve ser
controlada com um termômetro. Indica-se o uso de termômetros de cozinha, dis-
poníveis no mercado em diferentes modelos.
Mel em bandejas de plástico ou inox, pronto para a desumidificação
Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 77
Sugere-se que o mel seja pasteurizado no próprio recipiente onde será guarda-
do ou comercializado, o que otimiza sua hermetização e diminui as possibilidades
de contaminação depois do procedimento. Para tanto, os recipientes devem ser,
obrigatoriamente, de vidro.
O aquecimento deve se realizado nos recipientes abertos, o que permite a saí-
da do ar que eventualmente está contido no mel. Assim que ele atingir 65ºC, deve
ser retirado do banho-maria, fechado e resfriado em água corrente. O resfriamento
rápido acelera a hermetização do recipiente.
Dependendo da espécie de abelha e do teor de umidade do mel in natura, a
pasteurização tem proporcionado um tempo de validade que varia entre 6 meses
e 1 ano.
Principais etapas do processo de pasteurização
Envasar o mel em
recipientes (abertos)
de armazenagem ou
comercialização
Aquecer o mel em
banho-maria a uma
temperatura de 65ºC
Ao atingir a
temperatura, retirar os
recipientes do banho-
maria e fechá-los
Resfriar os recipientes
fechados em água
corrente
1 2 3 4
Mel em banho-maria durante a pasteurização: reparar na
espuma branca, indicando o ar que sai do mel por conta
do aquecimento
Recipientes já fechados, sendo resfriados em água
corrente
Manual Tecnológico 78
Maturação
A maturação é uma técnica que foi aprimorada pelo Projeto Abelhas Nativas
(PAN), no estado do Maranhão, com base em um costume tradicional de povos
indígenas da América Central, em especial dos Maias: consumir mel fermentado.
Trata-se de um método que, diferentemente dos apresentados anteriormente,
não luta contra a fermentação, mas se aproveita dela. Ainda não foram publicados
estudos que descrevam detalhadamente o processo de maturação, mas em alguns
eventos científicos, representantes do PAN relataram que o “pulo do gato” da
adoção do método foi perceber que, depois de algum tempo de armazenamento,
a fermentação do mel se estabiliza.
Adotando o mel fermentado (ou maturado) como produto final – tendo sido
comprovada a aprovação do mercado consumidor por um produto mais ácido e
com leves traços alcoólicos –, conseguiram colocar para venda um produto estável,
ou seja, um alimento que não estraga na prateleira do consumidor. A estratégia
parece ter dado certo, pois o mel maturado produzido por diversas comunidades
do Maranhão tem ganhado muito destaque em feiras, eventos e revistas de gas-
tronomia.
A técnica de maturação consiste basicamente em quatro etapas:
1. O mel colhido com o Glossador
®
(pág. 71) é armazenado em garrafas
PET de 500 ml;
2. As garrafas são armazenadas em ambiente escuro, em uma caixa de
isopor, em temperatura estável (aproximadamente 30
o
C);
3. 15 dias depois da colheita, as tampas das garrafas são levemente afrou-
xadas, permitindo a liberação do gás carbônico formado pela fermenta-
ção. Esse procedimento é repetido semanalmente por um período de 3
a 6 meses, até que seja observada a estabilização da fermentação. Essa
condição é observada quando o colarinho formado pela espuma da fer-
mentação se adere à garrafa, ou seja, não se move com a inclinação do
recipiente;
4. O mel maturado é envasado, rotulado e comercializado.
Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 79
Variedade de méis de meliponíneos disponíveis no mercado. Da esquerda para a direita: mel produzido pelas
comunidades assistidas pelo Instituto Iraquara no estado do Amazonas; mel produzido no âmbito do Projeto
Abelhas Nativas, no estado do Maranhão; produção experimental da Embrapa Meio-Norte, no Pará; mel de uruçu do
Meliponário Massapê
7
, da Paraíba
7. Centro independente de produção e pesquisa localizado em João Pessoa, na Paraíba. Tem como principal objetivo a
valorização dos produtos e produtores associados à meliponicultura.
Envase e rotulagem
Envasar e rotular são as etapas finais de produção antes da comercialização.
Significam dar acabamento a um produto conquistado com muita força de traba-
lho. Portanto, devem ser muito valorizadas, pois com elas o meliponicultor estabe-
lece a cara do seu produto e define a relação que o mesmo terá com o consumidor.
Manual Tecnológico 80
Os recipientes de vidro são os mais indicados para o armazenamento de mel,
uma vez que não interferem em suas características naturais e são esteticamente
bonitos. Recipientes de plástico atóxico também podem ser utilizados e trazem
como vantagem serem mais leves e resistentes.
Existe no mercado uma variedade muito grande de modelos, os quais devem
ser escolhidos de acordo com o gosto do meliponicultor e o perfil do mercado con-
sumidor. O principal pré-requisito para a escolha do modelo é que o mesmo tenha
um bom encaixe da tampa, ou seja, permita o fechamento hermético do recipiente.
A rotulagem também depende da criatividade, mas deve seguir algumas re-
gras. No Brasil, existe um regulamento específico para a rotulagem de produtos de
origem animal, a Instrução Normativa nº 22, de 24 de novembro de 2005. No caso
do mel, as principais informações que devem constar no rótulo são:
Nome do produto (mel de abelhas sem ferrão)
Marca comercial
Peso líquido em gramas ou quilogramas
Endereço do meliponicultor ou entreposto
CNPJ (se existir)
Informações nutricionais
Condições para conservação
Data da colheita
Tempo de validade
Identificação do lote
Selo do serviço de inspeção federal, estadual ou municipal.
No caso da meliponicultura, a viabilidade de
inclusão dessa informação depende da regulamentação.
Comercialização
Acabamento
Técnica de Beneficiamento
Compressão ou
perfuração
Seringa
descartável
Bomba de
sucção elétrica
Bomba de
sucção manual
Refrigeração
Método de coleta
Rotulagem
Pasteurização Desumidificação
Manejo de colônias para produção de mel
Maturação
Entreposto Melipolinário
Local de coleta
Unidade móvel
Envase
Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 81
Sistemas de produção
Com base nas diversas técnicas de manejo, coleta e beneficiamento de mel
apresentadas neste manual, são várias as alternativas para construção de um siste-
ma produtivo. Basta escolher e combinar algumas das técnicas apresentadas para
definir o sistema ideal a ser utilizado por cada meliponicultor.
Esta escolha deve considerar os objetivos da produção e as especificidades do
contexto em que o sistema será implementado, como: disponibilidade de espé-
cies de abelhas, de equipamentos, materiais e matérias-primas; possibilidades de
investimento e escala de produção, oportunidade de troca de informações com
outros produtores e etc. A seguir, é apresentado um fluxograma geral, que reúne
as principais etapas e técnicas discutidas.
Manual Tecnológico 82
Coleta em
unidade móvel
+
bomba de sucção manual
(glossador)
+
maturação
3. O mel, armazenado nos próprios recipientes PET de
coleta, é maturado em uma caixa térmica
1. Mel coletado na própria caixa, em tenda montada ao
lado do meliponário
2. Sucção com o glossador
4. O mel é filtrado e envasado 5. O mel é rotulado
A seguir, são ilustradas duas alternativas de sistemas produtivos, baseadas nas
seguintes técnicas:
Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 83
Coleta em
entreposto
+
bomba de
sucção elétrica
+
pasteurização
2. Desoperculação dos potes
1. Melgueira transportada para o entreposto
3. Organização geral dos equipamentos de coleta e sucção do mel
com o aspirador elétrico
4. O mel colhido é filtrado e depositado em um
recipiente de armazenamento intermediário
8
5. O mel é parcialmente envasado e pasteurizado
8. Indica-se para a armazenagem intermediária do mel os recipientes de polietileno do tipo Milkan®. Esses recipientes
geralmente são usados para o transporte de leite, e são aprovados pelo Ministério da Agricultura.
Manual Tecnológico 84
Abelha Jandaíra (Melipona fulva) – Amazonas
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 85
RESOLUÇÃO CONAMA n
o
346, de 16 de agosto de 2004
Publicada no DOU n
o
158, de 17 de agosto de 2004, Seção 1, página 70
Disciplina a utilização das abelhas silvestres nativas, bem como a implantação
de meliponários.
O CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE-CONAMA, no uso das com-
petên- cias que lhe são conferidas pela Lei no 6.938, de 31 de agosto de 1981,
regulamentada pelo Decreto no 99.274, de 6 de junho de 1990, e tendo em vista
o disposto no seu Regimento Interno,
Considerando que as abelhas silvestres nativas, em qualquer fase do seu de-
senvolvi- mento, e que vivem naturalmente fora do cativeiro, constituem parte da
fauna silvestre brasileira;
Considerando que essas abelhas, bem como seus ninhos, abrigos e criadouros
naturais são bens de uso comum do povo nos termos do art. 225 da Constituição
Federal;
Considerando o valor da meliponicultura para a economia local e regional e a
im- portância da polinização efetuada pelas abelhas silvestres nativas na estabilida-
de dos ecossistemas e na sustentabilidade da agricultura; e
Considerando que o Brasil, signatário da Convenção sobre a Diversidade Bioló-
gi- ca-CDB, propôs a “Iniciativa Internacional para a Conservação e Uso Sustentá-
vel de Polinizadores”, aprovada na Decisão V/5 da Conferência das Partes da CDB
em 2000 e cujo Plano de Ação foi aprovado pela Decisão VI/5 da Conferência das
Partes da CDB em 2002, resolve:
CAPÍTULO I
Disposições Gerais
Art. 1
o
Esta Resolução disciplina a proteção e a utilização das abelhas silvestres
nativas, bem como a implantação de meliponários.
Art. 2
o
Para fins dessa Resolução entende-se por:
I - utilização: o exercício de atividades de criação de abelhas silvestres nativas
para fins de comércio, pesquisa científica, atividades de lazer e ainda para consu-
Anexo
Manual Tecnológico 86
mo próprio ou familiar de mel e de outros produtos dessas abelhas, objetivando
também a conservação das espécies e sua utilização na polinização das plantas;
II - meliponário: locais destinados à criação racional de abelhas silvestres na-
tivas, composto de um conjunto de colônias alojadas em colmeias especialmente
preparadas para o manejo e manutenção dessas espécies.
Art. 3o É permitida a utilização e o comércio de abelhas e seus produtos, pro-
cedentes dos criadouros autorizados pelo órgão ambiental competente, na forma
de meliponários, bem como a captura de colônias e espécimes a eles destinados
por meio da utilização de ninhos-isca.
Art. 4
o
Será permitida a comercialização de colônias ou parte delas desde que
sejam resultado de métodos de multiplicação artificial ou de captura por meio da
utilização de ninhos-isca.
CAPÍTULO II
Das Autorizações
Art. 5
o
A venda, a exposição à venda, a aquisição, a guarda, a manutenção em
cativeiro ou depósito, a exportação e a utilização de abelhas silvestres nativas e de
seus produtos, assim como o uso e o comércio de favos de cria ou de espécimes
adultos dessas abelhas serão permitidos quando provenientes de criadouros auto-
rizados pelo órgão ambiental competente.
§ 1
o
A autorização citada no caput deste artigo será efetiva após a inclusão do
criador no Cadastro Técnico Federal-CTF do IBAMA e após obtenção de autoriza-
ção de funcio- namento na atividade de criação de abelhas silvestres nativas.
§ 2
o
Ficam dispensados da obtenção de autorização de funcionamento citada
no pa- rágrafo anterior os meliponários com menos de cinqüenta colônias e que
se destinem à produção artesanal de abelhas nativas em sua região geográfica de
ocorrência natural.
§ 3
o
A obtenção de colônias na natureza, para a formação ou ampliação de
meliponários, será permitida por meio da utilização de ninhos-isca ou outros méto-
dos não destrutivos mediante autorização do órgão ambiental competente.
Art. 6
o
O transporte de abelhas silvestres nativas entre os Estados será feito
mediante autorização do IBAMA, sem prejuízo das exigências de outras instâncias
públicas57, sendo vedada a criação de abelhas nativas fora de sua região geográ-
fica de ocorrência natural, exceto para fins científicos.
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 87
Art. 7
o
Os desmatamentos e empreendimentos sujeitos ao licenciamento am-
biental deverão facilitar a coleta de colônias em sua área de impacto ou enviá-las
para os meli- ponários cadastrados mais próximos.
Art. 8
o
O IBAMA ou o órgão ambiental competente, mediante justificativa
técnica, poderá autorizar que seja feito o controle da florada das espécies vegetais
ou de animais que representam ameaça às colônias de abelhas nativas, nas pro-
priedades que manejam os meliponários.
CAPÍTULO III
Disposições Finais
Art. 9
o
O IBAMA no prazo de seis meses, a partir da data de publicação desta
resolução, deverá baixar as normas para a regulamentação da atividade de criação
e comércio das abelhas silvestres nativas.
Art. 10. O não-cumprimento ao disposto nesta Resolução sujeitará aos infra-
tores, entre outras, às penalidades e sanções previstas na Lei no 9.605, de 12 de
fevereiro de 1998 e na sua regulamentação.
Art. 11. Esta Resolução não dispensa o cumprimento da legislação que dispõe
sobre o acesso ao patrimônio genético, a proteção e o acesso ao conhecimento
tradicional associado e a repartição de benefícios para fins de pesquisa científica
desenvolvimento tecnológico ou bioprospecção.
Art. 12. Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.
MARINA SILVA - Presidente do Conselho
Este texto não substitui o publicado no DOU, de 17 de agosto de 2004
Manual Tecnológico 88
Abelha Tiúba (Melipona compressipes) – Mato Grosso
89
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Manual Tecnológico 92
Abelha Rajada (Melipona asilvae) – Mato Grosso
93
Assepsia: conjunto de medidas que permitem manter um meio isento da contami-
nação de bactérias.
Beneficiamento: processo de transformar um produto primário em um produto de
maior valor comercial.
Campeiras: abelhas operárias que realizam atividades externas à colônia, coletando
néctar, pólen, barro, própolis, água e/ou outros materiais.
Casulo: película de textura sedosa que envolve larvas e/ou pupas de certos insetos,
em determinada fase de seu desenvolvimento.
Célula real: tipo específico de célula de cria, construído por abelhas do grupo Trigo-
nini, destinado à formação de novas abelhas rainhas.
Célula de cria: estrutura construída com cerume, onde a rainha deposita um ovo
que dá origem a uma nova abelha.
Cera: material de coloração branca, secretado por abelhas operárias jovens, em
forma de pequenas placas, por glândulas específicas.
Cerume: principal matéria-prima de uma colônia de abelhas sem ferrão, formada
pela mistura de cera e própolis.
Colmeia: estrutura construída pelo homem para abrigar colônias de abelhas. Tam-
bém chamada de “caixa”, geralmente é construída com madeira.
Colônia: conjunto completo de determinada população de abelhas e suas estrutu-
ras naturais.
Cortiço: segmento de tronco de árvore utilizado na meliponicultura tradicional para
abrigar uma colônia de abelhas sem ferrão.
Cria madura: termo utilizado para designar os favos de cria que abrigam abelhas em
desenvolvimento na fase de pré-pupa até abelha adulta. Também é chamada
de “cria nascente”.
Cria verde: termo utilizado para designar os favos de cria que abrigam ovos ou
larvas de abelhas em desenvolvimento até a fase de pré-pupa. Também é cha-
mada de “postura”.
Glossário
Manual Tecnológico 94
Desoperculação: processo de abertura dos potes de cerume, para acesso ao mel, na
hora da coleta.
Desumidificação: processo de retirar ou diminuir a quantidade de água de determi-
nado produto, também chamado de desidratação.
Divisão de colônias: processo de induzir a reprodução e a multiplicação de colônias
de abelhas.
Entreposto: estabelecimento funcional estrategicamente situado entre um pólo
produtor e um pólo consumidor, geralmente chamado de “casa-do-mel” na
cadeia produtiva do mel.
Envase: procedimento para introdução de produtos em determinado recipiente
com o intuito de armazenar, proteger, manipular e/ou distribuir em qualquer
fase do seu processo produtivo.
Enxameagem: processo natural pelo qual as colônias de abelhas sem ferrão se re-
produzem.
Favo de cria: componente principal do ninho das abelhas sem ferrão, formado por
um conjunto de células de cria.
Forídeos: pequenas moscas do gênero Pseudohypocera, principais parasitas das
colônias de abelhas sem ferrão.
Geoprópolis: material preparado pelas abelhas, formado pela mistura de barro e própolis.
Glândula: tipo de órgão presente em seres vivos, cuja função é secretar substâncias
com função específica.
In natura: expressão utilizada para descrever alimentos que são consumidos em seu
estado natural.
Invólucro: lâminas de cerume que envolvem os favos de cria para manutenção de
temperatura.
Melgueira: elemento de uma colmeia destinado ao armazenamento de mel.
Meliponário: local onde são instaladas colônias de abelhas sem ferrão para criação.
Meliponicultor(a): pessoa que exerce a meliponicultura.
Meliponicultura: atividade de criação das abelhas nativas sem ferrão.
Meliponini: classificação dada ao grupo de espécies de abelhas sem ferrão, exclu-
sivamente do gênero Melipona, as quais não possuem o hábito de construir
células reais para a formação de novas rainhas.
As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 95
Néctar: substância aquosa, rica em açúcares, secretada pelos vegetais através de
glândulas especializadas. Coletado e transformado em mel, é a principal fonte
de carboidratos das abelhas sem ferrão.
Ninho: parte da colônia formada pelo conjunto de favos de cria e, quando existen-
te, invólucro.
Ninho-isca: recipiente deixado na natureza com a finalidade de capturar uma co-
lônia de abelhas.
Operárias: abelhas fêmeas responsáveis pela maior parte das tarefas de uma colô-
nia.
Pólen: elemento reprodutor masculino das plantas, produzido nas flores em forma
de minúsculos grãos. Coletado, processado e consumido pelas abelhas, consti-
tui principal fonte de proteínas.
Própolis: material preparado pelas abelhas, formado por resinas coletadas de plan-
tas lenhosas na natureza.
Pré-pupa: termo utilizado para indicar o estágio de desenvolvimento de certos in-
setos, imediatamente anterior à pupa. No caso das abelhas sem ferrão, é no
estágio pré-pupa que a larva forma o casulo que abrigará a pupa.
Pupa: estágio intermediário, entre a larva e o adulto, no desenvolvimento de certos
insetos. No caso das abelhas sem ferrão, a pupa é protegida por um casulo.
Refratômetro: instrumento utilizado para determinar a concentração de açúcares
de uma substância líquida.
Sentinelas: abelhas operárias que exercem as funções de defesa de uma colônia.
Trigonini: classificação dada a um grupo de espécies de abelhas sem ferrão, cuja
principal característica comum é o hábito de construir células reais para a for-
mação de novas abelhas rainhas.
Manual Tecnológico 96
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Manual Tecnológico Mel de Abelhas sem Ferrão

Jerônimo Villas-Bôas

1a edição Brasília, DF – 2012

ISPN

Renato Araújo e Rodrigo Noleto Esta publicação foi elaborada pelo Instituto Sociedade. 32). . Murilo Drummond. 2012. Luca Fanelli. Celso Feitosa Martins. Cristiano Menezes (pág. Este documento é de responsabilidade do ISPN e não reflete a posição de seus doadores. Marina da Silva Kahn. População e Natureza (ISPN). Fernando Oliveira. Cristiane Azevedo. Richardson Frazão e Sandra Sousa. Chadawá Juruna. Ana Laura Mantovani. Ao apresentarem seus produtos. 5. Tecnologia Social. 76). as comunidades e organizações de forma alguma abrem mão de seus direitos sobre os recursos genéticos que utilizam ou sobre o conhecimento tradicional associado. Isabel Figueiredo. Lara Montenegro. da qual o Brasil é signatário. Abelhas sem ferrão.Autor: Jerônimo Villas-Bôas Comissão Editorial: Luis Carrazza. População e Natureza por meio do Projeto FLORELOS: Elos Ecossociais entre as Florestas Brasileiras. as diversas entidades que apóiam a divulgação dos produtos defendem que o acesso aos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais deve respeitar as comunidades. financiado pela Comissão Européia. Fransisco Melo Medeiros. Elisângela Rego (pág. Mairatá Kaiabi. Luciano Fernando. Carlos Alfredo Lopes de Carvalho. Instituto Sociedade. . Cristiano Menezes.(Série Manual Tecnológico) ISBN: 978-85-63288-08-0 1. Antonio Ilson Bezerra Constantino. Villas-Bôas. a legislação brasileira e a Convenção da Diversidade Biológica. 32). Antonilson Oliveira Rodrigues. Maria José dos Anjos Costa. 96 p. 3. Colaboraram com fotografias: Ayrton Vollet (pág. Márcia Braga. Lucelma Santos. Brasília – DF. Marilda Cortopassi Laurino. Carlos Alfredo Lopes de Carvalho (pág. Giorgio Venturieri (pág 68). Cristiano Menezes. Teve apoio também do Programa de Pequenos Projetos Ecossociais (PPP-ECOS). Carlos Alfredo Lopes de Carvalho. Ayrton Vollet. 64) e Rafael Malta Clazen (pág. Junior Câmara. apoiado pelo Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). il. Projeto gráfico e diagramação: Masanori Ohashy [Idade da Pedra Produções Gráficas Ltda] Apoio: Carolina Gomes. Fátima Carvalho. Meliponicultura 4. Ao mesmo tempo. Brasil. 83) Colaboraram com o conteúdo: Ayrton Vollet. 68). Giorgio Venturieri. Celso Feitosa Martins. Rafael Malta Clazen.. Fernando Oliveira e Murilo Drummond Agradecimentos: Adriana Lucena. Cadeia Produtiva.Mel 2. Jerônimo Manual Tecnológico: Mel de Abelhas sem Ferrão. Murilo Drummond (pág. Fábio Vaz e Donald Sawyer Revisão: Rodrigo Noleto e Lara Montenegro Fotografia: Jerônimo Villas-Bôas.

Sumário 5 Apresentação 7 Prefácio 11 As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 11 11 12 13 Introdução Importância Classificação e distribuição Biologia 27 Criação de Abelhas sem Ferrão 29 A escolha das espécies 31 Aquisição de colônias 33 Modelos de colmeias 41 Meliponários 44 Captura ou transferência 46 Divisão de colônias 52 Monitoramento de colônias 57 Inimigos naturais 61 Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 62 Considerações sobre boas práticas de manipulação 63 Métodos de coleta 74 Técnicas de beneficiamento para conservação .

79 Envase e rotulagem 81 Sistemas de produção 85 Anexo 89 Referências Bibliográficas 93 Glossário .

Importante salientar que tanto a produção como a comercialização de mel de abelhas nativas sem ferrão ainda não são regulamentadas. foi realizado um amplo diagnóstico da situação da meliponicultura em todo território nacional. Como tal. O Instituto Sociedade. a partir das experiências de manejo existentes no Brasil. COM. financiado pelo PNUD. não tem a pretensão de apresentar um modelo definitivo de produção. financiado pela Comissão Européia. Este manual. poderá ser um documento norteador e catalisador da regulamentação da cadeia produtiva. Rodrigo Noleto e Luis Carrazza As informações contidas neste manual retratam o universo pouco conhecido da meliponicultura. que buscam não apenas a produtividade. Esse seminário foi uma oportunidade para que pesquisadores como Murilo Drummond. da equipe do Instituto Iraquara do estado do Amazonas. e BIO. por meio do Programa de Pequenos Projetos Ecossociais (PPP-ECOS/Small Grants Programme). com o apoio do Projeto FLORELOS: Elos Ecossociais entre as Florestas Brasileiras. além de um seminário entre diversas comunidades produtoras de mel de abelhas nativas. Nesse sentido. ou criação de abelhas nativas sem ferrão. dos Jovens Agroecologistas de Jandaíra do Rio Grande do Norte. tem apoiado centenas de iniciativas de agricultores familiares e comunidades tradicionais. População e Natureza . Marilda Cortopassi-Laurino e Jerônimo Villas-Bôas promovessem uma rica troca de conhecimento técnico e tradicional com representantes de comunidades do Parque Indígena do Xingu.ISPN. como os demais publicados pelo ISPN. A reunião desses diversos conhecimentos deu origem ao Manual Tecnológico – Mel de Abelhas sem Ferrão. dos produtores associados ao Projeto Abelhas Nativas (PAN) do estado do Maranhão. mas a inter-relação de espécies nativas com benefícios para os ecossistemas e as comunidades locais.5 Apresentação Donald Sawyer. dos produtores de mel do Baixo Amazonas no Pará e de comunidades do Amapá apoiadas pelo Instituto Peabiru. . do Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF) e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). mas alternativas.

Abelha Tiúba (Melipona fasciculata) – Maranhão .

incluindo as comunidades indígenas. A principal razão disso é que há bem pouco tempo. as abelhas sem ferrão não tinham um destaque merecido por conta de um lapso cultural nosso muito influenciado pela criação das abelhas melíferas do gênero Apis. e não como soluções definitivas. mas pouco temos avançado na parte do manejo voltado para a produção. Portanto.7 Prefácio Tive a honrosa missão de escrever o prefácio dessa obra. e onde se localizam as maiores criações. e antes de tudo procure aprender com . locais relativamente distantes dos grandes centros de pesquisa. Agora o ISPN encara mais este desafio que é a publicação deste manual. Graças à disposição de instituições como o Instituto Sociedade. Isto porque compila de forma abrangente todas as alternativas possíveis conhecidas de técnicas de manejo das abelhas nativas sem ferrão e que podem atender as necessidades de criadores de uma das mais de 350 espécies conhecidas. é que iniciativas como as apresentadas neste manual começaram a aparecer. a historia da meliponicultura tem sido. Ou seja. um mérito de toda a nossa linhagem de pesquisadores. Sem dúvida ela já constitui um marco na história da meliponicultura (criação e manejo das abelhas sem ferrão). veja estas soluções como caminhos. Mas sem dúvida fica uma lição importante: apesar de todas as inovações que vêm surgindo neste meio. Você vai observar que não há respostas prontas para atender uma necessidade específica do criador. É incrível como vamos muito bem no conhecimento da biologia das nossas abelhas. e com isto veio toda a base cultural de criação e manejo construída 500 anos antes na Europa. tendo portanto uma larga experiência sobre o assunto na atualidade. aquelas que surgiram com o olhar para as experiências culturais locais são as mais propensas a atender as necessidades inerentes ao criador daquela região. O que este manual propõe é apresentar os caminhos alternativos a serem seguidos. Uma segunda razão das dificuldades de avanço nas técnicas de manejo dessas abelhas é porque a demanda de mercado vinha das comunidades rurais do norte e nordeste brasileiros. Suas primeiras linhagens foram introduzidas no século XVIII. População e Natureza (ISPN). que levaram para os rincões do Brasil uma parte dos abnegados estudantes e pesquisadores. que vem transitando de forma relativamente confortável no meio acadêmico e em comunidades tradicionais pelo Brasil. numa certa medida. sufocada pelo peso do valor comercial da apicultura (criação e manejo das abelhas melíferas). Para isto não poderia ter escolhido pessoa melhor do que o ecólogo Jerônimo Villas-Boas.

ainda há uma chance de conseguir com os mais velhos resgatar parte da memória que se perdeu.8 Manual Tecnológico o olhar voltado para o que e como se faz na sua região. e com um bom manejo sustentável. você conseguirá uma ótima produtividade. seduzido pelo canto da sereia de que são mais produtivas. Boa leitura e bom proveito. jamais. mas jamais mesmo. Coordenador do Projeto Abelhas Nativas Professor da Universidade Federal do Maranhão Murilo Sérgio Drummond . inicie qualquer criação trazendo espécies de outras regiões. para quem quer investir na produção. Embora muito da cultura de criação dessas abelhas tenha se perdido com o tempo. Finalmente. o que pode ajudá-lo no aprimoramento do manejo em sua região e com as espécies da sua região. A tendência do mercado é a diversificação e a valorização de produtos de espécies nativas regionais. E sempre sustente suas criações com a divisão das colônias existentes e jamais com a captura de enxames (a não ser quando iniciando uma criação) ou colmeias.

As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 9 Abelha Uruçu-Nordestina (Melipona scutellaris) – Paraíba .

Processamento Integral do Mel, Produtos e Subprodutos da Meliponicultura
Escolha das espécies Aquisição de colônias

Multiplicação de colônias

Registro do melipolinário no órgão ambiental Venda ou aluguel de colônias para polinização agrícola

Própolis
Comércio de colônias Manejo para produção

Pólen Mel
Coleta Beneficiamento Envase Rotulagem

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As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura
Introdução
O conhecimento sobre as abelhas sem ferrão e a meliponicultura nas Américas é muito antigo quando comparado com as atividades envolvendo, nesse continente, as abelhas Apis mellifera (popularmente conhecidas como européias, italianas ou africanas). Há muito tempo, povos indígenas de diversos territórios se relacionam com os meliponíneos de muitas formas, seja estudando-os, criando-os de forma rústica ou explorando-os de forma predatória. Antes da chegada da abelha Apis mellifera no continente americano, ou da exploração da cana para fabricação de açúcar, o mel das abelhas nativas caracterizava-se como principal adoçante natural, fonte de energia indispensável em longas caçadas e caminhadas que esses povos realizavam na busca por alimento. Muito do conhecimento tradicional acumulado pela população nativa foi gradativamente assimilado pelas diferentes sociedades pós-colonização, tornando a domesticação das abelhas sem ferrão uma tradição popular que se difundiu principalmente nas regiões norte e nordeste do Brasil. A herança indígena presente na atual lida com as abelhas é evidenciada pelos nomes populares de muitas espécies, como Jataí, Uruçu, Tiúba, Mombuca, Irapuá, Tataíra, Jandaíra, Guarupu, Manduri e tantas outras. A diversidade de saberes e práticas aplicadas na meliponicultura atual é diretamente proporcional à diversidade de abelhas, culturas e ambientes onde a atividade se manifesta. Inspirado nesta diversidade, este manual não pretende defender uma forma única e padronizada de manejar as abelhas, mas sim apresentar aos que desejam se aventurar na meliponicultura uma variedade de técnicas que têm sido utilizadas com sucesso no Brasil.

Importância
Entre os insetos, existem dois grupos que ocupam uma posição destacada de valor econômico para o homem: o bicho-da-seda, por produzir uma fibra de alto valor comercial, e as abelhas pelo mel. Apesar de serem predominantemente conhecidas como produtoras de mel, as abelhas também fornecem cera, própolis, pólen, geleia real, entre outros, e podem ser criadas para a exploração destes produtos. Economicamente, não são importantes somente pelos produtos que nos fornecem. Estima-se que um terço da alimentação humana dependa direta ou indiretamente da polinização realizada por abelhas.

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Manual Tecnológico

POLINIZAÇÃO é o ato da transferência de células reprodutivas masculinas – ou seja, grãos de pólen que estão localizados nas anteras de uma flor – para o receptor feminino (ou estigma) de outra flor. Pode-se dizer que a polinização é o ato sexual das plantas. Este processo, em especial o transporte de pólen, é realizado durante as visitas das abelhas às flores para coleta de alimento. Sem polinização, as plantas não produziriam sementes e frutos, e não se reproduziriam para garantir o cresciAbelha uruçu-nordestina (Melipona scutellaris) mento e a sobrevivência da vegetação na flor de cosmos nativa, ou a produção de alimentos. Se por um lado as abelhas são fundamentais para a sobrevivência das plantas, estas são imprescindíveis para a sobrevivência das abelhas, já que lhes oferecem alimentação e moradia. O pólen e o néctar são os alimentos oferecidos pelas flores. O pólen é a principal fonte de proteínas, lipídios e vitaminas para as abelhas, enquanto o néctar – transformado em mel – é a principal fonte de carboidratos e energia.

Classificação e distribuição
As abelhas sem ferrão são insetos sociais de grande diversidade e ampla distribuição geográfica. Nas últimas décadas, diversas propostas de classificação zoológica destas abelhas foram propostas. A classificação utilizada neste manual (que não adota uma linguagem estritamente científica), embora não seja a mais atualizada, é a mais didática, e separa essas abelhas em dois grupos distintos: os Meliponini e os Trigonini. Essa separação é importante para o entendimento de características específicas do manejo que serão apresentadas mais adiante. As abelhas sem ferrão, ou meliponíneos, ocorrem em grande parte das regiões tropicais da Terra, ocupando praticamente toda a América Latina e África, além do sudeste asiático e norte da Austrália. Entretanto, é nas Américas que grande parte da diversidade de espécies ocorre – são aproximadamente 400 tipos descritos, conforme catalogação recente – e que a cultura de criação destes insetos se manifesta de forma mais intensa.

Normalmente uma colônia possui apenas uma rainha poedeira. A seguir serão apresentadas características gerais desses insetos. possibilitam o reconhecimento mútuo e sexual dos indivíduos. México Meliponicultor do estado do Amazonas. Brasil Biologia Entender um pouco da biologia das abelhas é fundamental para orientar sua criação. São também responsáveis pela organização da colônia. 1. comandada por um complexo sistema de comunicação baseado no uso de feromônios1. captadas por animais da mesma espécie (intraespecífica). feromônios são substâncias químicas que. Os tipos de abelhas (ou Castas) Existem nas colônias dos meliponíneos três tipos básicos de indivíduos: as rainhas (poedeiras ou virgens) e as operárias – ambas fêmeas – e os machos. De forma geral. mas existem relatos da existência de colônias e espécies com duas ou mais. As rainhas poedeiras realizam a postura dos ovos que dão origem a todos os tipos de abelhas. . em especial os elementos que o meliponicultor encontra quando abre as suas colmeias e deve saber lidar para o bom manejo do dia-a-dia.As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 13 Classificação atual Classificação utilizada no manual Classe Ordem Superfamília Família Subfamília Tribo Insecta Hymenoptera Apoidea Apidae Apinae Meliponini Insecta Hymenoptera Apoidea Apidae Meliponinae Meliponini Trigonini Colmeias tradicionais da região de Puebla.

Essa diferença deve ser assimilada pelo meliponicultor principalmente na aplicação dos métodos de divisão artificial de colônias. Por conta deste tamanho. Nas espécies da tribo Meliponini. diferentemente das abelhas Apis mellifera. Todas as células de cria (pág. Podem chegar a representar 25% dos indivíduos de uma colônia. Entre as diferentes espécies. como a desidratação de néctar e a manipulação de cera. inclusive da mesma tribo. Entretanto. não há construção de células reais. existe um parâmetro básico que define a formação de rainhas e determina a principal diferença entre os grupos Meliponini e Trigonini. também há pequenas variações. Entretanto. 18) são iguais. A determinação do número de rainhas que nasce. o que determina a formação de uma nova rainha virgem. Os machos são indivíduos reprodutores e vivem basicamente para acasalar com rainhas virgens.14 Manual Tecnológico Rainha da abelha uruçu-nordestina Rainha da abelha jandaíra (Melipona subnitida) O mecanismo de formação das rainhas é a principal diferença entre os Meliponini e os Trigonini Entre os cientistas. . entre todos os ovos disponíveis. podem realizar alguns pequenos trabalhos. existem diferentes conceitos sobre o processo biológico que determina o nascimento de rainhas em colônias de meliponíneos. os quais serão detalhados na página 46. 22). Já as abelhas da tribo Trigonini constroem células reais. é definida por uma proporção genética. As rainhas virgens são poedeiras em potencial e estão sempre disponíveis nas colônias para uma eventual substituição da rainha poedeira em caso de morte ou enxameagem (pág. as larvas que se desenvolvem nesse tipo de célula recebem mais alimento. que possuem tamanho bem maior que as células comuns.

Representam a maior parte das abelhas de uma colônia. Alguns deles são retirados da natureza – como o barro e o própolis – e outros são produzidos ou processados dentro da colônia. coletam e processam o alimento. Geoprópolis avermelhado produzido pela abelha jandaíra (Melipona fulva) no estado do Amazonas Entrada de colônia da abelha cupira (Partamona sp. Sua cor pode variar de um amarelo bem claro a uma cor quase negra. A maior parte das estruturas internas de uma colônia é construída com cerume. o cerume e o geoprópolis. podendo chegar a mais de 80% dos indivíduos. Operárias de uruçu-nordestina (Melipona scutellaris) Materiais de construção Uma colônia de abelhas sem ferrão é construída com diversos materiais. material formado pela mistura da cera branca (pura) com o própolis. Elas cuidam da defesa. como a cera. de acordo com a quantidade e a qualidade do própolis utilizado na mistura. construída com barro .).As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 15 As operárias são responsáveis pela grande força de trabalho da colônia. manipulam os materiais de construção.

O própolis. O geoprópolis é uma mistura de barro e própolis. em algumas espécies. Arquitetura dos ninhos São variados os locais onde os meliponíneos instalam suas colônias. utilizado pelas abelhas para a vedação de frestas e. mas é principalmente material constituinte do geoprópolis. secretada por abelhas jovens através de glândulas existentes no abdome. O barro é muito usado por algumas espécies de meliponíneos para a construção da entrada de seus ninhos (pág. Algumas espécies podem nidificar em cavidades no solo. 19). na construção de batumes (pág. Funciona como um cimento.16 Manual Tecnológico A cera é produzida na própria colônia. vem da natureza. por sua vez. 18). Um caso é a construção dos ninhos aéreos da famosa abelha arapuá (Trigona spinipes). A coloração do geoprópolis também varia conforme os materiais que o constituem.) Colônia de jandaíra (Melipona subnitida) instalada em tronco de árvore . Outros materiais como sementes e excrementos animais são utilizados em ocasiões específicas. em cupinzeiros ou formigueiros Entradas de colônias de canudo (Scaptotrigona sp. e é constituído por resinas coletadas pelas abelhas nas plantas. também conhecida como abelha-cachorro em algumas regiões do Brasil.

Potes de pólen Pólen coletado para consumo Alguns tipos de potes de mel Potes de mel . Os potes de alimento geralmente são elipsóides (em formato de ovo). Pólen e mel são armazenados separadamente.As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 17 (abandonados ou ativos). construídos de cerume. a maior parte das espécies constrói seus ninhos em cavidades de troncos de árvores vivas. em ninhos de pássaros desativados ou cavidades de construções feitas pelo Homem. Outras constroem ninhos expostos ou semi-expostos em galhos de árvores ou fendas em rochas. de espécies e dimensões diversificadas. além de estruturas auxiliares. o batume. a entrada e o túnel de ingresso. Uma colônia de abelhas sem ferrão é constituída por dois elementos principais: o ninho e os potes de alimento. e podem apresentar tamanhos variados conforme a espécie. podemos encontrar dois tipos de potes de alimento: potes de pólen e potes de mel. Entretanto. como o invólucro. em uma colônia de abelhas sem ferrão. Portanto.

as operárias produzem lâminas de cerume. Trata-se de um corredor reCélulas de cria unidas por pilares formando um “cacho” – pleto de abelhas guarda. chamadas de invólucro. formando favos horizontais. Em cada célula de cria a rainha deposita um ovo que dá origem a uma nova Organização das células de cria abelha. funcionando como um tipo de cobertor. portanto. ou em cachos. A entrada é conectada ao interior da colônia por um túnel de ingresso. Se algum initípicas de espécies do gênero Frieseomelitta migo natural (pág. Células de cria agrupadas em favos Uma colônia de abelhas sem ferrão é conectada com o ambiente exterior por meio de uma “porta” de entrada. 57) conseguir passar . Os favos e os cachos são formados pelo conjunto das células de cria. as abelhas se alimentam predominantemente de mel. geralmente ligado ao ninho através do invólucro. pólen e secreções das operárias) suficiente para a alimentação durante todo o período de desenvolvimento. Os ovos são alojados nessas células com uma porção de alimento (mistura de mel. Diversamente associada a mecanismos de proteção e orientação das abelhas. Essas lâminas também auxiliam o trânsito das abelhas ao redor do ninho. Como o nome diz. Pode ser formada por células agrupadas. ele envolve o ninho. apresenta-se na natureza em variadas formas. quando as células são esparsas e conectadas entre si por pequenos pilares de cerume. Para auxiliar a manutenção da temperatura do ninho.18 Manual Tecnológico A estrutura do ninho das abelhas sem ferrão é constituída de cerume e possui características diferentes conforme a espécie. Depois de nascer. a entrada pode ser construída com geoprópolis. diretamente proporcionais à diversidade de espécies existentes. Sua aparência é específica para cada tipo de abelha e. barro ou cera.

Scaptotrigona sp. O batume dos Trigonini costuma ser de cerume. Frieseomellita sp. Os orifícios também auxiliam na ventilação da colônia. precisa enfrentar outro forte sistema de defesa antes de conquistar o ninho e os potes de alimento. ou seja. geralmente constituído com uma grande quantidade de própolis. o batume superior costuma ser muito compacto para evitar a infiltração de água. Em ambos os casos.As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 19 Entradas de colônias de abelhas sem ferrão Melipona nebulosa Melipona subnitida Melipona dubia Scaptotrigona sp. Melipona scutellaris Melipona scutellaris Melipona scutellaris pelas sentinelas da entrada. possui inúmeros orifícios que permitem o escoamento da água em caso de infiltração. O batume dos Meliponini é construído com geoprópolis. Os batumes são estruturas que delimitam o espaço da colônia em uma cavidade. enquanto o inferior é crivado. .

horizontais e sobrepostos. Favos de cria 4. 1985. Aspecto geral de uma colônia de abelhas sem ferrão em ambiente natural Batume superior As figuras ao lado destacam os principais elementos de colônias das abelhas tiúba (Melipona fasciculata) e uruçu-nordestina (Melipona scutellaris). .20 Manual Tecnológico A figura a seguir ilustra as estruturas básicas de uma colônia com as características da maior parte das espécies existentes e/ou criadas: habitar cavidades de árvores e ter o ninho formado por favos compactos. Geoprópolis depositado nas frestas 2. 1. Potes de alimento 3. Invólucro Pote de alimento Favo de cria Entrada Túnel de ingresso Invólucro Batume inferior Fonte: adaptado de Posey & Camargo. respectivamente.

As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 21 1 2 3 2 3 4 .

A rainha virgem é fecundada por um macho – geralmente de outra colônia – em um ritual conhecido como “vôo nupcial”. estabelecendo a rotina biológica de uma colônia estabelecida. assim. A matéria-prima para a construção da nova moradia é retirada da colônia original e. não de uma única abelha. e está associado a um contexto de generosa oferta de alimento (pólen e néctar) no ambiente. parte das abelhas operárias e uma rainha virgem migram para o local. Geralmente ocorre por conta da superpopulação da colônia. “colônia-mãe” e “colônia-filha” permanecem vinculadas por algumas semanas. a rainha – agora poedeira – retorna ao ninho. enxameagem e ciclo de vida A enxameagem é o processo pelo qual as colônias de abelhas sem ferrão se reproduzem. É importante destacar que o processo está relacionado à reprodução da colônia como um todo. mel e pólen da colôniamãe para a colônia-filha Nova rainha fisiogástrica (ou poedeira) estabelece atividade de postura na colônia estabelecida Vôo nupcial e fecundação da rainha virgem . 1 Procura e escolha da nova moradia 2 Fechamento de frestas Migração de operárias e rainha virgem para o novo local Enxameagem das abelhas sem ferrão 4 6 5 3 Transporte de cerume. Concluída a organização da nova moradia. A enxameagem tem início quando algumas abelhas operárias deixam a “colônia-mãe” para buscar um lugar adequado para a construção de um novo ninho. Uma vez fecundada.22 Manual Tecnológico Reprodução.

3. que depois de certo tempo emerge (sai da célula). Sobre o alimento é depositado um ovo e a célula é fechada. Nessa fase. Adulto Pupa 6. a pré-pupa se transforma em pupa. A larva constrói um casulo – fase chamada de pré-pupa – que reveste a célula de cria internamente. a seguir. alimentando-se do pólen e mel estocados. a qual se desenvolve e vira um adulto. Em cada célula. Dentro do casulo. as abelhas adultas retiram o cerume que envolve o casulo. Fonte: adaptado de Posey & Camargo. 2. a Fase larval dando origem a uma larva. O processo de nascimento de uma abelha é iniciado com a construção das células e favos de cria. A larva se desenvolve. 4. os favos de cria ficam com um tom mais claro e amarelado. . 1985. passando. 1. O ovo eclode Célula vazia Pré-pupa 5. pelos seguintes passos: Ovo + Alimento operária deposita uma porção de alimento. Depois de formado.As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 23 A atividade de postura da rainha dá vida a todas as abelhas existentes em uma colônia.

as abelhas realizam a limpeza corporal e permanecem sobre os favos de cria produzindo cera. as abelhas operárias são a grande força de trabalho de uma colônia. Nas primeiras horas após o nascimento. Geralmente. alguns indivíduos da mesma idade fazem a guarda da entrada e do túnel de ingresso. resina (própolis) e água. depois de tornarem-se rainhas poedeiras. Após sair das células (emersão). variando de espécie para espécie. Nos primeiros dias. geralmente todos os indivíduos realizam todos os tipos de atividades. antes da fase de campeiras. que passam a exercer atividades no ambiente exterior. A partir do primeiro terço de vida. dura aproximadamente 40/45 dias. secretada por glândulas específicas em forma de pequenas placas brancas. As rainhas. ou seja. Nessa função. após o 25º dia. Nessa fase. vivem de um a três anos. cuidam da cria manipulando cera: raspam as células de prépupa. Saem para o campo em busca de pólen. barro. néctar. O processo de desenvolvimento de uma abelha sem ferrão. É somente na segunda metade da vida. entretanto.24 Manual Tecnológico No vocabulário dos meliponicultores. são chamados de sentinelas. operárias e rainhas virgens vivem em média 50/55 dias. Este período costuma ser um pouco mais longo para os machos e pouco mais curto para as rainhas virgens. enquanto os favos na fase de pré-pupa até abelha adulta são chamados de “cria madura” ou “cria nascente”. passam a exercer atividades como limpeza e manipulação de alimento. Divisão de trabalho Como vimos anteriormente. 2. desde o ovo até a abelha adulta. as operárias também são chamadas de campeiras. O tipo de trabalho realizado obedece a uma sequência. Sendo assim. variando de acordo com a idade da abelha ao longo dos seus 50/55 dias de vida. constroem células de cria e auxiliam as atividades de postura da rainha. os favos de cria na fase de ovo até prépupa são chamados de “cria verde” ou “postura”. organizadas na seguinte ordem: 1. mas não deixam de realizar outras funções que vinham exercendo. defendendo a colônia. 4. . 3.

da mesma cor do cerume que reveste o favo. As fotos abaixo ilustram a diferença de favos verdes e maduros da abelha canudo (Scaptotrigona sp. A cria madura é mais clara e amarelada. 46). A cria verde geralmente é mais escura. da cor do tecido que forma o casulo.As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 25 Fique atento! Cria verde Reconhecer a diferença entre “cria verde” e “cria madura” é fundamental para entender as técnicas de divisão de colônias A diferença deve ser notada pela cor dos favos. Reconhecer essas diferenças é fundamental para entender as técnicas de divisão de colônias (pág. Cria madura .).

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Abelha uruçu-amarela (Melipona flavolineata) – Pará

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Criação de Abelhas sem Ferrão
Antes de começarmos a falar da criação das abelhas sem ferrão, alguns pontos merecem ser destacados: 1. Os meliponíneos são animais silvestres, nativos do território brasileiro e, como muitos outros animais, possuem legislação específica que orienta o seu manejo. No Brasil, é a Resolução CONAMA no 346, de agosto de 2004, que disciplina a proteção e a utilização das abelhas sem ferrão. Alguns itens específicos desta legislação serão tratados ao longo deste capítulo, mas quem quiser se aprofundar pode consultá-la na íntegra em anexo. 2. São vários os objetivos que podem ser buscados com a meliponicultura. O diagrama abaixo indica alguns deles, separados em produtos diretos ou indiretos:

Mel Produtos Diretos Colônias
Sub-produtos Pólen Cerume Própolis

Polinização Produtos Indiretos
Educação Turismo Paisagismo

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Manual Tecnológico

Apesar do conteúdo deste manual ser focado predominantemente na produção de mel, a seguir serão brevemente apresentados três importantes produtos das abelhas sem ferrão no Brasil: pólen, colônias e polinização agrícola. As informações apresentadas até a página 59 são perfeitamente aplicáveis a todas as formas de exploração das abelhas sem ferrão. A partir dali, passam a tratar especificamente do mel.

Pólen
Como vimos anteriormente, o pólen das abelhas sem ferrão é depositado na colônia em potes exclusivos, o que torna muito fácil sua exploração. Nestes potes, o pólen natural coletado nas flores é processado pelas abelhas, as quais depositam nele algumas enzimas que auxiliam sua conservação natural. Por ser diferente do pólen in natura, o produto das abelhas nativas recebe nomes especiais: saburá ou samburá, dependendo da região do Brasil. Uma vez que é um composto rico em proteínas, tem sido cada vez mais procurado no mercado de alimentos naturais. Sendo assim, é crescente a iniciativa dos meliponicultores em explorar o pólen além do mel. Para ser vendido, geralmente é processado de duas maneiras: desidratado ou misturado com mel.

Produção de colônias
Como apresentamos no início deste manual, a meliponicultura é uma atividade que está crescendo no Brasil, o que faz com que a demanda por colônias seja cada vez maior. Discutiremos mais adiante que a aquisição de enxames depende de meliponários autorizados para sua comercialização e que existem técnicas de reprodução induzida que viabilizam a multiplicação intensa de colônias. Sendo assim, o trabalho do meliponicultor pode ser focado, de forma exclusiva ou não, na produção de colônias, destinada à venda para novos produtores, pesquisadores ou polinização agrícola.

Polinização agrícola
Muitos acreditam que o uso de abelhas sem ferrão para a polinização agrícola é o futuro da meliponicultura mundial. Essa afirmação tem como base a crescente constatação da viabilidade de uso das abelhas sem ferrão para polinização de plantas de importância econômica. Alguns exemplos comprovados são o uso de abelhas nativas para a polinização de morango, tomate, berinjela, açaí, pimentão, entre outros. Sendo assim, dominar as técnicas de multiplicação de colônias e fundar um meliponário autorizado têm potencial não só para provimento aos meliponicultores iniciantes, mas também para ocupar um nicho de mercado que tende a se abrir cada vez mais: o fornecimento de colônias (venda ou aluguel) para polinização agrícola.

)”. as melhores espécies para criar são as que naturalmente existem na região onde se deseja instalar um meliponário. polinização. sobre as plantas por elas utilizadas. A legislação brasileira. além de ser resistente a diferentes condições climáticas. Existem algumas exceções como a uruçu-nordestina (Melipona scutellaris). Definir qual será o objetivo da sua criação: comercialização (mel. A escolha das espécies As abelhas sem ferrão são extremamente dependentes do ambiente onde vivem. mantendo contato com criadores que já possuem experiência na meliponicultura. entretanto...) Art 6o . a tabela a seguir lista as principais espécies criadas nas cinco regiões do Brasil para a produção de mel: . subprodutos ou colônias). Com o objetivo de auxiliar o meliponicultor iniciante na escolha das espécies adequadas para sua região. condena esta prática. Trata-se de uma espécie generalista.Criação de Abelhas sem Ferrão 29 Antes de começar a criar abelhas. sem prejuízo das exigências de outras instâncias públicas. se possível.. preservação das espécies ou lazer.O transporte de abelhas silvestres nativas entre os Estados será feito mediante autorização do IBAMA. existentes na região. Aliar o(s) objetivo(s) de sua criação às espécies disponíveis. Sendo assim. capaz de explorar alimento em uma grande diversidade de plantas.. fato relacionado à íntima ligação com os recursos florais disponíveis em diferentes regiões e a climas específicos. como podemos observar no artigo 6º da Resolução CONAMA no 346/2004: “(. ou seja. pesquisa. Fazer um levantamento das espécies de abelhas e. é interessante: Buscar informações sobre biologia e manejo de meliponíneos. sendo vedada a criação de abelhas nativas fora de sua região geográfica de ocorrência natural. exceto para fins científicos (. abelha que tem sido transportada para diversas regiões do Brasil e demonstrado resultados expressivos na produção de mel e multiplicação de colônias.

RJ.2 2 Nome(s) Popular(es) Jupará. RS. MS. PI. MT MT GO. SC PR. Uruçu-Nordestina. Espécies da tribo Trigonini. PE. PE. PE. SC PR. CE. MG.1. SC Tetragonisca angustula Melipona bicolor Sudeste Melipona quadrifasciata Melipona rufiventris Tetragonisca angustula2 Melipona bicolor Sul Melipona quadrifasciata Melipona mondury Tetragonisca angustula Jataí 1. BA. 2. PI. RN. RS. BA. RO. MG. RR. MA. Uruçu Uruçu.30 Manual Tecnológico Principais espécies produtoras criadas nas diferentes regiões do Brasil Região Nome Científico Melipona compressipes Melipona fasciculata Norte Melipona seminigra Scaptotrigona sp. PE. Jandaíra Uruçu-Amarela Uruçu Canudo Jataí Guarupú. RN. MS. Jandaíra-Amarela Canudo1 Monduri. SP PR. SP MG. PA AC. BA. AP. Rajada Tiúba Mandaçaia Mandaçaia Uruçu. TO PA. Uruçu-Cinzenta. MS. PB. PB. PB. SP ES. SE MA. MT GO. Jandaíra-Preta Tiúba. Jandaíra. MS. PE. RR. SC PR. BA. SE AL. AP. PB. CE. .2 Melipona asilvai Melipona fasciculata Melipona mandacaia Nordeste Melipona quadrifasciata Melipona scutellaris Melipona subnitida Melipona compressipes Melipona rufiventris CentroOeste Melipona seminigra Scaptotrigona sp. CE. SP ES. SE AL. TO AL. Guaraipo Mandaçaia Uruçu-Amarela Jataí Guarupú. RO. SE GO. PB. PI. RJ. RS. 1. PI AL. MT ES. AM. TO AM. BA. de diferentes regiões. Uruçu-Boca-de-Renda. chamadas “canudo” ou “tubiba”. PA. SE AL. MG. RN. CE. PA. Existem várias espécies do gênero Scaptotrigona. Uruçu-Verdadeira Jandaíra. RJ. Guaraipo Mandaçaia Monduri 2 1 Estados AC. AM. RN. RS. MT GO.

) Art 3o . Art. 22) e pode ser facilmente empregada por qualquer meliponicultor. Ninhos-isca (ou Ninhos-armadilha) Chamamos de ninhos-isca os recipientes. Impregnar as iscas com cerume ou própolis é o método mais eficiente. caixas. Esta é uma estratégia de aquisição de colônias que se aproveita do processo natural de enxameagem das abelhas (pág. explicando dois conceitos a que a lei faz referência: os ninhos-isca e a multiplicação artificial. Diferentes tamanhos de ninhos-isca podem ser deixados na natureza para a captura de espécies diferentes. A outra alternativa é a boa vontade de um enxame de abelhas ocupar um sítio de nidificação estrategicamente disponibilizado pelo meliponicultor. (. Utilizam preferencialmente garrafas pretas. desde que cobertas com algum material que impossibilite a entrada de luz no interior do recipiente. com lonas ou plásticos escuros. bem como a captura de colônias e espécimes a eles destinados por meio da utilização de ninhos-isca..Criação de Abelhas sem Ferrão 31 Aquisição de colônias De acordo com a Resolução CONAMA no 346/2004: “(.)”. colmeias ou objetos deixados na natureza com a finalidade específica de capturar uma colônia de abelhas. A pessoa que deseja iniciar a meliponicultura precisa recorrer a meliponários autorizados. construído com garrafas plásticas. otimista com a possibilidade de que o seu ninho-isca seja o escolhido! Existem diversos modelos de ninhos-isca concebidos para otimizar as possibilidades de capturar um enxame. passamos para as técnicas que vão orientá-lo a começar o trabalho de criar e manejar abelhas sem ferrão. o que traz bons resultados é fazer os ninhos-isca se parecerem com cavidades já ocupadas.. mas as do tipo PET também funcionam. As próprias caixas de madeira onde se pretende deixar definitivamente uma colônia podem ser usadas com essa finalidade. 4o .. na forma de meliponários. Considerando que no processo de enxameagem os locais previamente ocupados por outras colônias têm a preferência das abelhas. onde poderá comprar colônias. Pesquisadores da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto desenvolveram um simples e eficiente modelo de ninho-isca. procedentes dos criadouros autorizados pelo órgão ambiental competente. Feita essa ressalva. .É permitida a utilização e o comércio de abelhas e seus produtos.. O que é importante reter da legislação brasileira é que não é permitida a captura de ninhos em habitat natural.Será permitida a comercialização de colônias ou parte delas desde que sejam resultado de métodos de multiplicação artificial ou de captura por meio da utilização de ninhos-isca.

Dar preferência a locais sombreados. Lembrar de instalá-lo virado para cima para evitar a entrada de água. transportar a colônia para o local definitivo e proceder a transferência do ninho para o modelo de caixa escolhido (dicas sobre modelos de caixas e transferência de colônias nas páginas 33 e 44. em especial alturas acessíveis. facilita o monitoramento das iscas durante o período de captura. Visão interna da isca com detalhe do cotovelo de PVC virado para cima Impregnar a isca com própolis de ASF facilita a captura de enxames Os ninhos-iscas podem ser instalados em diversos lugares. que não tomem sol direto das 10h às 15h. aguarde no mínimo 30 dias para transferi-la de local.32 Manual Tecnológico Dicas para a confecção e utilização das iscas Fazer um furo circular na lateral do recipiente e instalar um cotovelo de PVC (22mm) que servirá como entrada. respectivamente). . tempo suficiente para que as abelhas cumpram todas as etapas do processo de enxameagem. A instalação em locais acessíveis. Depois de observada a instalação de uma colônia na caixaisca. Depois de capturada. como em cima de árvores ou no alpendre das casas.

Apesar de não ser a mais resistente. o aumento do número de colônias no meliponário depende basicamente da multiplicação artificial das mesmas. madeira exótica amplamente cultivada no Brasil e de fácil acesso. a escolha de um modelo único para criar todos os tipos é inviável. para não correr o risco de usar das espécies de árvores ameaçadas de extinção ou que exigem certificação dos órgãos competentes. O uso do Pinus. Sendo assim. tema que será tratado com mais detalhes na página 46. e pode ser protegida com pintura externa (verniz. as colmeias para criação de abelhas são blocos retangulares. a madeira de Pinus é leve e fácil de manusear.Criação de Abelhas sem Ferrão 33 A partir do momento em que se obtém a primeira colônia de determinada espécie. Otimizar o processo de divisão de colônias. com pouco ou nenhum cheiro. boas caixas são aquelas que conseguem: Garantir a proteção do ninho. De forma geral. seja por meio da compra. Uma grande diversidade de madeiras pode ser utilizada para essa finalidade. o meliponicultor procure saber das e com o objetivo de sua criação. o que depende diretamente da biologia de cada tipo de abelha. Modelos de colmeias (ou caixas) Considerando a grande diversidade de espécies de abelhas sem ferrão. Facilitar a coleta do mel. É preferível a escolha de madeiras leves. ocos. sendo necessário para cada espécie ajustes na forma e/ou dimensões das caixas. que ele seja compatível com o para escolher o modelo de caixa a ser uticlima de cada região. uma vez que evita o uso das árvores nativas. construídos com madeira. seja por captura com ninho-isca. por exemplo) para maior durabilidade. cionado. . mas é muito importante o produtor saber sua origem. experiências locais de manejo que têm funIndependente do contexto. resistentes. o Uma boa premissa para a que difere do padrão estabelecido na apiescolha do modelo de caixa é cultura. é recomendado. A escolha da madeira deve levar em conta a disponibilidade e o preço de cada região. Dada a grande diversidade de espécies de abelhas sem ferrão e a criatividade do povo brasileiro. aconselha-se que. existe uma infinidade de modelos de colmeia utilizados no país. com as espécies de abelhas disponíveis lizado.

especialmente no nordeste. um exemplo de cortiço. Caixa horizontal modelo “Huberto Bruening” abrigando uma colônia de jandaíra (Melipona subnitida): notar o espaço específico para localização do ninho. Outras são mais elaboradas. e o espaço destinado para o armazenamento de mel. são os do meliponicultor Chagas Carvalho – de Igarassu. sem nenhum tipo de divisão interna. à direita Exemplos de caixas horizontais rústicas À esquerda. o das caixas horizontais e o das caixas verticais. ocas. totalmente. à esquerda. o termo “cortiço” refere-se a segmentos de troncos de árvores utilizados para abrigar colônias de abelhas sem ferrão . Algumas são bem básicas. é possível separar dois grupos principais.34 Manual Tecnológico Entre os modelos utilizados para a meliponicultura. Na meliponicultura tradicional brasileira. As caixas horizontais são as mais tradicionais no Brasil. Alguns modelos consagrados e amplamente utilizados no Brasil. Pernambuco – para a criação da abelha uruçu-nordestina (Melipona scutellaris) e o modelo do padre meliponicultor Huberto Bruening – catarinense que construiu sua história com as abelhas em Mossoró. com divisões internas para a separação da área do ninho do espaço reservado para armazenamento do mel. especialmente nas regiões norte e nordeste. Rio Grande do Norte – para a criação da abelha jandaíra (Melipona subnitida).

enquanto caixas menores devem ser confeccionadas para espécies de ninhos menores. e a tampa. ou “Fernando Oliveira/INPA”. 52) ou para o controle de pragas como os forídeos (pág. A descrição dos módulos. O modelo base de caixa vertical segue o padrão natural dos favos de cria nos troncos de árvore. Em épocas de entressafra. equipado com uma base que separa o espaço do alimento do espaço do ninho. tamanho também aplicável a espécies como a mandaçaia (Melipona quadrifasciata) e a tiúba (Melipona fasciculata). espaço destinado para as abelhas armazenarem mel.Criação de Abelhas sem Ferrão 35 Apesar dos modelos horizontais serem amplamente utilizados na meliponicultura tradicional brasileira. apresentada a seguir. em especial no manejo das espécies do gênero Melipona. é crescente o número de meliponicultores que adota as caixas verticais. A curiosidade e o empenho de muitos pesquisadores e meliponicultores brasileiros tratou de aperfeiçoar o modelo base proposto por Portugal-Araújo. 2. em Boa Vista do Ramos (AM). desenvolveu uma colmeia conhecida como “Fernando Oliveira”. oferecendo melhor acesso aos potes de mel e possibilitando o transporte só da melgueira para fora do meliponário. destinado para o armazenamento de alimento – geralmente chamado de melgueira. que veio facilitar muito o trabalho dos meliponicultores. 57). O fato de existir um módulo específico para o armazenamento de mel. cujo principal objetivo é difundir a meliponicultura na região amazônica. projetados para abrigar o ninho. destinado para abrigar o ninho. Essa caixa é composta por quatro módulos dispostos verticalmente: o fundo e a divisão (também chamada de sobreninho). em 1955. Esse modelo é constituído por dois módulos principais: o inferior. reproduz a colmeia base utilizada para a criação da abelha jupará (Melipona compressipes) no estado do Amazonas. que construiu sua história com as abelhas coordenando o Instituto Iraquara2. Caixas com dimensões maiores devem ser construídas para espécies de favos de cria maiores. Ela tem sido gradativamente difundida no Brasil e seu uso tem conquistado resultados expressivos em vários projetos de criação de abelhas sem ferrão. É o caso do fluminense Fernando Oliveira. Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) fundada em 2002. e o superior. o espaço da melgueira também pode ser utilizado para a alimentação complementar (pág. quando o manejo das caixas não está focado na produção de mel. . traz a grande vantagem de facilitar a coleta. Possui dimensões horizontais internas de 15x15 centímetros. o que preserva o ninho dos riscos e impactos do transporte. Durante o período em que trabalhou no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). a melgueira. e foi proposto pelo professor angolano Virgílio Portugal Araújo.

Por exemplo: se o maior favo de cria que um meliponicultor encontrou. de determinada espécie. Uma regra boa é fazer a caixa 2 ou 3 centímetros maior que o diâmetro máximo dos favos de cria.36 Manual Tecnológico O dimensionamento ideal da largura da caixa deve levar em conta o diâmetro máximo dos favos de cria que determinada espécie é capaz de construir. possui 18cm. ele deve construir a caixa com dimensões horizontais internas de 20x20cm. Aspecto geral e disposição dos módulos de uma da caixa Fernando Oliveira/INPA Módulo Tampa Módulo Melgueira Módulo de divisão Módulo Fundo .

2 Frestas para acesso das abelhas à melgueira. 6 1 2 3 Colônia de uruçunordestina instalada em uma caixa Fernando Oliveira Geoprópolis. Potes de alimento. de cria Cantoneiras do módulo de divisão Entrada 6 3 3 Fundo da melgueira. Entrada. 3 Favo de cria.Criação de Abelhas sem Ferrão 37 Modelo da disposição geral dos 1 1 2 3 4 5 5 4 4 6 5 2 2 Potes de alimento uma colônia dentro da elementos de na caixa Fernando Oliveira melgueira Frestas para acesso 1 Potes de das abelhas alimento na melgueira. à melgueira Fundo da 4 Favos melgueira de cria. 2 1 . 5 DiscosCantoneiras do módulo de divisão.

5 15. geralmente com 2 cm de diâmetro.5 12.5 do nível de desenvolvimento das colônias.5 lizado para abrigar o ninho. já que possibilita às abelhas moldarem sua entrada – com geoprópolis ou cerume – do tamanho que lhes convém. Esse sistema é o grande responsável pela eficiência dessa caixa para o processo de divisão de colônias. transferência ou divisão (páginas 44 e 46. formando uma passagem em forma de Vista Lateral losango.5 Vista Superior Módulo de divisão .5 Vista Frontal 1.5 7. Dependendo 2.Nota-se que o fundo contém um orifício circular de entrada. O tamanho relativamente maior do que se costuma encontrar em colônias naturais é proposital.5 2.0 2.5 15. Gradativamente.Observa-se que o módulo de di2.0 módulo de divisão pode ser uti2. respectivamente) pode ser minimizada com a redução deste espaço com cerume.0 1 2. 2.5 7.5 2.5 visão possui quatro cantoneiras triangulares em sua porção inferior.5 Vista Frontal 2.38 Manual Tecnológico Modulo Fundo Módulo Fundo .5 7. A vulnerabilidade a pragas (pág 57) proporcionada pelo tamanho grande do orifício nos momentos que sucedem uma captura. Vista Superior .0 2.5 Vista Superior Vista Superior lgueira Modulo Divisao Modulo Tampa As abelhas moldam o orifício de entrada de acordo com as características naturais de sua colônia 7. Orifícios muito pequenos restringem as possibilidades das abelhas.0 Modulo M 7. considerando que as mesmas não são capazes de perfurar a madeira.5 2. mais que um15. as abelhas substituem o cerume disponibilizado pelo meliponicultor pelo material de sua preferência.5 Vista Frontal 2.5 5 7.

5 VistaVista Superior Lateral 2. De acordo com o potencial pro2.5 Superior ntal 7.5 7.0 2.5 7.5 7.0 7.5 .0 Modulo Melgueira Criação de Abelhas sem Ferrão 39 Modulo D 7.5 a 1 cm) que limita o crescimento vertical 2. possui um assoalho de madeira fina (0. várias melgueiras podem ser utilizadas concomitantemente.5 Vista Superior 2.5 Vista Frontal 1.5 2.5 2.0 2.5 2.5 2.5 ulo Divisao Modulo Tampa Módulo tampa 2. com duas frestas nas laterais.5 Vista Lateral 2.5 do ninho.5 12.5 7.5 dutivo da espécie criada.5 15.0 1.5 A melgueira. as quais permiVista Frontal tem o acesso das abelhas ao espaço reservado para o acúmulo de alimento.5 2.5 15.5 Vista Frontal 2.5 2.5 Frontal 12.0 1. 7.5 15.5 7.5 Vista Superior Vista Superior Vista Superio medidas em centímetros ulo Melgueira Modulo Divisao Modulo Tampa 7. por sua vez.Modulo Fundo 2.5 Vista Frontal 7.

ou melgueira “X”. Trata-se de uma melgueira construída com volume equivalente a três convencionais e que tem como vantagem a praticidade na colheita e no transporte. uma eficiente alternativa pode ser utilizada: a “super melgueira”. .40 Manual Tecnológico A super melgueira Além da melgueira convencional proposta no modelo básico da caixa de Fernando Oliveira.

Podem tomar um pouco de sol pela manhã. É diferente de apiário. bem próximas aos meliponicultores. A seguir serão apresentados exemplos de meliponários de duas categorias: meliponários coletivos e meliponários com suportes individuais. mas deve-se evitar incidência direta de sol a partir das 9h. já que ficam no alto e precisam ser removidas para o manejo. Não existe um padrão para definir um bom meliponário. Meliponários coletivos As imagens acima ilustram o mais clássico modelo de meliponário da meliponicultura brasileira: as caixas são instaladas nos alpendres ou varandas das casas. As desvantagens desse modelo são a proximidade com as luzes da casa – que muitas vezes enganam as abelhas atraindo-as no meio da madrugada – e a dificuldade de acesso às caixas. onde são instaladas as caixas das abelhas africanizadas. As condições específicas de cada localidade e a criatividade do produtor definem a busca pelos seus principais objetivos: dar conforto para as abelhas e facilitar o trabalho do meliponicultor. . Um aspecto importante a ser considerado é que as colmeias de abelhas nativas devem estar sempre em locais sombreados.Criação de Abelhas sem Ferrão 41 Meliponários É chamado de meliponário o local onde são instaladas as colmeias de meliponíneos. o que facilita o acesso para o manejo e o cuidado contra furtos.

o qual dá suporte para pesquisas associadas ao Projeto Abelhas Nativas3.projetoabelhasnativas. como o ilustrado abaixo. Mais informações: http:// www. especialmente do estado do Rio Grande do Norte. Projeto desenvolvido pela AMAVIDA (Associação Maranhense para a Conservação da Natureza) em 18 comunidades de nove municípios do estado do Maranhão. 3. no estado do Maranhão. Existem ainda meliponários mais elaborados.org . os quais costumam abrigar a abelha jandaíra (Melipona subnitida).42 Manual Tecnológico Já as imagens abaixo demonstram meliponários típicos do sertão nordestino.

dependendo do tipo de abelhas. enquanto abelhas dóceis e menos populosas podem ficar mais próximas. uma vez que as caixas não precisam ser movidas durante as atividades de manejo. na Terra Indígena Panará. Aconselha-se que meliponários deste tipo sejam instalados em terrenos limpos e sombreados. É importante que os suportes tenham uma altura que proporcione conforto ao trabalho. PB Meliponário da aldeia Nasepoti. gerido pela Prefeitura Municipal de João Pessoa. nos quais as caixas são protegidas da chuva com coberturas independentes. Este tipo de meliponário facilita muito o trabalho do meliponicultor. mas livres da cobertura de árvores com frutos grandes que possam danificar as telhas e colmeias. de tamanho suficiente para proteger a caixa da chuva e auxiliar no sombreamento. conforme a altura do meliponicultor. Aconselha-se que o criador iniciante busque informações sobre o comportamento de suas abelhas com meliponicultores experientes ou nos locais onde adquiriu suas colônias. . no estado do Mato Grosso A distância entre os suportes pode variar de 80 cm a 2 m. Espécies populosas e agressivas exigem distâncias maiores. variando de 80 cm a 1 m.Criação de Abelhas sem Ferrão 43 Meliponários com suportes individuais Como ilustrado nas figuras abaixo. Meliponário do Viveiro Municipal de Plantas Nativas. Uma boa alternativa de cobertura é um simples pedaço de telha de fibrocimento (amianto não!). O ordenamento dos suportes deve ser definido de acordo com as espécies disponíveis. nesse tipo de meliponário as colmeias são instaladas em suportes individuais. com base na experiência de cada meliponicultor. que não exigem a construção de estruturas complexas.

captura ou transferência. Ambos os processos. . devem ser realizados preferencialmente entre as 8h e 11h de dias ensolarados. Geralmente é realizada para trocar o modelo de colmeia utilizado (caixa rústica. seguindo os seguintes passos: Retirar o máximo possível de potes de alimento que podem ser movidos sem derramar mel ou pólen no ninho. cortiço ou ninhos-isca para colmeia racional. Separar o ninho dos potes de alimento restantes e colocá-lo dentro da nova colmeia. Deixar esses potes em um recipiente separado e não ainda na caixa nova.44 Manual Tecnológico Captura ou transferência de colônias A captura pode ser definida como o processo de transferência de uma colônia de seu habitat natural para uma colmeia. A transferência é o processo de substituição de uma colmeia por outra. por exemplo) ou retirar uma colônia de uma caixa em estado avançado de degradação. É importante lembrar que esta prática é proibida.

alimentar a colônia. Este detalhe é de extrema importância para que as campeiras reconheçam a nova morada e assumam rapidamente os trabalhos de manutenção. depositá-las em um recipiente e colocá-las dentro da nova colmeia. . A mesma pode ser alimentada com os potes reservados no dia anterior ou com alimento artificial (pág. Fechar a nova colmeia e depositá-la na mesma posição da antiga. Cuidado para que não seja tocada com as mãos. 52). pois serão utilizados no dia seguinte. Os potes danificados podem e devem ser consumidos pelo meliponicultor. lavá-los cuidadosamente em água corrente e secá-los com pano de prato limpo. com a entrada exatamente no mesmo local que estava a anterior. Separar os potes de alimento não danificados em um recipiente fechado e guardá-los. É aconselhável usar um pedaço de cera para conduzi-la à nova morada. Caso os potes intactos estejam melados com mel ou pólen. Fechar as frestas ou junções dos módulos da caixa com fita crepe. nada de alimento deve ser colocado na nova colmeia no ato da transferência. Coletar as abelhas que não voam. Ou seja. 24 horas após a captura ou transferência.Criação de Abelhas sem Ferrão 45 A rainha geralmente está junto do ninho e também deve ser transferida.

Opcionalmente. centros de pesquisa. É. Método da doação de favos Trata-se do método mais tradicional. Colônia-mãe Colônia-mãe Colônia-filha Colônia-filha 10 Metros . 25). serão apresentados alguns métodos de divisão.46 Manual Tecnológico Divisão de colônias Entende-se por divisão de colônias o trabalho de induzir sua multiplicação. pois permite que o meliponicultor venda colônias para futuros criadores.as abelhas. proporciona o estabelecimento mais acelerado do trabalho das operárias na caixa nova. projetos de repovoamento ou polinização agrícola. portanto. que permite o povoamento de uma caixa vazia. formando a “colônia-filha”. empregado de forma semelhante pela meliponicultura tradicional em diversas regiões do Brasil. ainda. os favos de cria e o alimento . De maneira geral. A seguir.entre duas caixas. sendo uma delas a “colônia-mãe”. A cria madura contém abelhas prestes a nascer e. usa-se uma terceira colônia como doadora de campeiras. Nele. levando-se em conta as diferenças básicas entre os grupos Meliponini e Trigonini. a “colônia-mãe” cede de dois a quatro favos de cria madura. aquela de coloração amarelada (pág. para o povoamento de uma caixa nova. alimento ou rainha. uma vez que pode subsidiar o repovoamento de populações em ambientes degradados e evitar a aquisição predatória de colônias em habitats naturais. ou “colônia-filha”. o processo de divisão consiste em dividir os elementos de uma colônia forte . favos. uma alternativa econômica. A multiplicação artificial de colônias é um mecanismo importante para a conservação das abelhas sem ferrão.

Criação de Abelhas sem Ferrão 47 A colônia-filha deve ser colocada no lugar da colônia-mãe. Vale lembrar que todo o cuidado é pouco no transporte de uma rainha. alimentar a nova colônia 4 1 Transferir de 2 a 4 favos de cria madura da colôniamãe para uma caixa nova 3 Colocar a caixa nova no lugar da colônia mãe para receber as campeiras . pode receber potes de alimento de outras colônias ou alimentação artificial. a colônia mãe permanece em seu lugar original. ela receberá as abelhas campeiras – aquelas que voam – que colaborarão na defesa e organização da nova caixa. o que impediria a permanência das mesmas na caixa nova. Vinte dias após a divisão – tempo suficiente para a formação de uma nova rainha – a colônia-filha deve ser alimentada. Etapas da divisão com o método de doação de favos 2 Transportar a colônia-mãe para um lugar distante Vinte dias após a divisão. A colônia mãe deve ser transportada e instalada em um lugar distante. Uma terceira caixa também pode ser utilizada para doação de uma rainha. devendo-se evitar tocá-la com as mãos. 10 Metros Colônia-filha Colônia-mãe Opcionalmente. Assim. a no mínimo 10 metros. Para tanto. é possível utilizar uma terceira colônia como doadora de campeiras. evitando que o cheiro da rainha ali presente atraia as campeiras. o que proporciona o desenvolvimento mais acelerado das colônias divididas. Nesse caso.

com aproximadamente 0. A figura abaixo destaca as células reais da abelha jataí (Tetragonisca angustula). neste grupo de abelhas a formação de uma nova rainha se dá por meio das células reais. No entanto. a alimentação colaborará para uma recuperação mais acelerada das colônias. 38). evitando a entrada de formigas ou forídeos (pág. serão apresentados alguns detalhes e dicas que devem ser considerados durante o processo de divisão com o método de doação de favos: 1.5 cm de diâmetro. 2. facilitando a defesa da colônia até que a mesma se estruture. 3. 57). os mesmos não devem ser apoiados no assoalho de madeira. certa quantidade de cerume – que pode ser retirado do invólucro da caixa-mãe – ou própolis seja transferida para a caixa nova. uma espécie da tribo Trigonini . No caso da divisão de espécies da tribo Trigonini. é interessante que o orifício de entrada da caixa nova seja reduzido com um pedaço de cerume. Com o intuito de possibilitar o trânsito das operárias por baixo dos favos. É importante que a fresta da tampa da nova caixa seja vedada com fita crepe. o que não ocorre com os Meliponini. Destaque das células reais da abelha jataí (Tetragonisca angustula). Nesse caso. exatamente os mesmos passos descritos acima devem ser seguidos. uma vez que já possuem suas rainhas. aconselha-se que sejam apoiados sobre “bolotas” de cerume. onde células de cria com rainhas virgens ocorrem normalmente entre os favos. 5. durante a divisão. É aconselhável que. Como já comentado (pág. 4. Nota-se o tamanho maior que o das células comuns. Tanto a colônia-mãe quanto uma caixa doadora de campeiras pode receber alimentação artificial 24 horas depois da divisão. Ao transferir os favos para a caixa nova. Este material servirá como matéria-prima para a organização da nova morada. 14).48 Manual Tecnológico A seguir. o meliponicultor deve estar atento para que os favos de cria nascente que ocuparão a nova caixa contenham células reais. Como apresentado (pág.

já apresentada anteriormente.Criação de Abelhas sem Ferrão 49 Método de perturbação mínima Trata-se de um método que depende da utilização de um modelo de caixa específico. Como destacado anteriormente. formando uma passagem em forma de losango. o que favorece muito a divisão com o método. Os triângulosColônia-mãe de madeira dão apoio à parte superior. Esse sistema é o grande responsável pela eficiência dessa caixa para o processo de reprodução. 4 3 nesse exemplo. a abelha uruçu-boca-de-renda (Melipona seminigra) do estado do Amazonas – usando-se o método de perturbação mínima. em poucos minutos. no caso a “Fernando Oliveira”. Neste método. os módulos fundo e divisão são separados. e sem a necessidade de se manusear os favos de cria com as mãos. obtém-se duas colônias através da divisão de uma única. 2 2 . A vantagem do método é a recuperação acelerada do enxame e a menor incidência de pragas após a divisão. repartindo o ninho em duas Colônia-filha metades. Uma das grandes qualidades deste modelo é justamente possibilitar a divisão de enxames através do método de “perturbação mínima”. Como ilustrado na figura abaixo. fazendo com que não seja necessário o uso das mãos para dividir os favos. podemos observar que. a colônia3está com duas melgueiras cheias de alimento. Observe que. o módulo de divisão (ou sobreninho) daquele tipo de colmeia possui quatro cantoneiras triangulares em sua porção inferior. Distribuição dos elementos da colônia durante uma divisão com o método de perturbação mínima Colônia-filha Colônia-mãe 10 Metros Módulo Melgueira Módulo Divisão Módulo Fundo A sequência de figuras a seguir descreve os passos do processo de divisão de 4 uma colônia – no caso. idealizado pelo criador da caixa. no momento da multiplicação.

que ficou com a metade inferior do ninho Com o formão separa-se a melgueira superior da inferior A parte que ficou com o fundo original. está alojado o fundo com a metade inferior do ninho. que ficou na outra metade da colônia dividida Ao final da divisão temos duas colônias: a primeira com um fundo vazio. localiza-se um fundo vazio e ao lado direito. Do lado esquerdo. Na outra. e o módulo de divisão vazio (à direita) recebe a melgueira superior. Acima da colônia que será dividida está depositada uma tampa avulsa Com um canivete ou formão. módulo de divisão com a metade superior do ninho e uma melgueira cheia de potes de alimento (lado esquerdo). A tampa avulsa é colocada sobre a melgueira inferior. enquanto o módulo de divisão vazio é colocado sobre o fundo. contendo a metade inferior do ninho. dividindo o ninho em duas partes O módulo de divisão com a metade superior do ninho e as duas melgueiras são encaixados sobre o fundo vazio.50 Manual Tecnológico Pode-se observar a colônia (ao centro) pronta para divisão. um módulo de divisão vazio e outra melgueira cheia (lado direito) . um módulo de divisão também vazio. separa-se cuidadosamente o módulo de divisão do fundo.

terão rainhas. no módulo de divisão (ou sobreninho).nesse caso a divisão não terá sucesso. 2. uma vez que ambas. Tendo em vista a viabilidade de formação de rainhas nas duas caixas resultantes da divisão. Para as espécies da tribo Trigonini. O meliponicultor que manuseia o formão e divide os módulos é o responsável por observar os elementos internos da colônia. . com base nos favos observados no fundo da colônia dividida. em determinado tempo. ou seja. Uma das caixas (caixa A) fica com a rainha (ou até mesmo com alguma célula real) e a outra (caixa B) fica com as células reais .Criação de Abelhas sem Ferrão Módulo Divisão Módulo Melgueira 51 Módulo Distribuição dos elementos durante a divisão de uma colônia com duas Fundo melgueiras cheias 4 3 3 4 2 2 1 1 A participação de duas pessoas no processo é muito importante. enquanto a outra (caixa B) fica sem nenhuma célula real . constata-se. De forma semelhante ao método de doação de favos. Uma das caixas (caixa A) fica com a rainha e com todas as células reais. esse método é um pouco mais complexo – uma vez que na velocidade da separação dos módulos é difícil visualizar as células reais –.nesse caso a divisão será bem sucedida. deve-se considerar que no momento da separação dos favos duas situações podem ocorrer: 1. Caso o módulo inferior (fundo) apresente favos de cria verde. por exclusão. a colônia que ficar com a maior parte dos favos de cria madura deve ser transportada a uma distância mínima de 10 metros. que os favos maduros ficaram em cima. Essa condição é diagnosticada no momento da separação de módulos. verificando em quais partes ficaram os diferentes favos: verdes (postura) ou maduros (nascente). mas não inviável. uma vez que a segunda caixa não formará uma nova rainha.

Ao abrir apenas o espaço da melgueira. A seguir. a exposição do ninho e a consequente troca de temperatura com o ambiente exterior são minimizadas. . Lembrando que a caixa A. É importante destacar que. Sendo assim. podendo.. Nesse caso. da época do ano e. Colônias que separam o espaço do ninho e o espaço do alimento. isso depende da espécie criada. ambas as colônias formadas ficam com células reais. não encontrar favos verdes (de postura). frutas. realizar no dia-a-dia de manejo das colônias. ou seja. a solução para que as duas colônias formadas com a divisão sobrevivam é simples: basta retirar a rainha da caixa A e introduzir na colônia “órfã” (caixa B). dos objetivos da criação. o que faz com que esse método. a divisão de espécies da tribo Trigonini com o método de perturbação mínima gera a situação 1. Existem meliponicultores que hesitam muito em abrir as caixas para observar as estruturas internas da colônia. o uso da dica para solucionar a situação 2 raramente é necessário. para esse grupo de abelhas. Alimentação complementar Alimentar colônias de abelhas não tem o mesmo significado de sobrevivência aplicável à criação de outros animais. o uso de uma caixa apropriada e o cuidado no manuseio garantem a sobrevivência da colônia e a possibilidade do criador interagir com o desenvolvimento de suas abelhas. as operárias economizam a energia que gastariam para coletar néctar no campo. Essa preocupação é desnecessária. Monitoramento de colônias Uma dúvida corriqueira entre os meliponicultores diz respeito à freqüência com que se deve examinar uma colônia para avaliar seu desenvolvimento. receosos com os danos que a exposição do ninho pode causar. capim. etc. por ter algumas células reais e/ou rainhas virgens. serão apresentadas as principais atividades que o meliponicultor pode. Ao receberem uma fonte alternativa de alimento. Por conta disso. e produzir o próprio alimento. Seu principal objetivo é dar suporte ao desenvolvimento das colônias. quando domesticados e confinados. não identificar atividade de postura na nova colônia. Não existe uma regra.52 Manual Tecnológico O meliponicultor tem como identificar a ocorrência da segunda situação (insucesso) caso ao inspecionar a caixa 20/30 dias depois da divisão. na imensa maioria das vezes. Ausência de postura significa ausência de rainha poedeira. a alimentação induzida às colônias de abelhas é tratada como “alimentação complementar”. por exemplo. também formará uma rainha poedeira. principalmente. ou seja. considera-se que a criação de abelhas é uma semi-domesticação. possibilitam uma maior frequência de avaliações. Uma vez que as campeiras são livres para ir e vir. os quais dependem de ração. ou deve. também seja muito eficiente. da disponibilidade de tempo do criador.

cera. Existem vários modelos para esta finalidade. ainda não existem receitas consagradas. principalmente com vistas à produtividade. A alimentação complementar deve ser aplicada principalmente nas épocas de entressafra. Entretanto. Os tipos de açúcar mais apropriados para o preparo do xarope são o cristal ou o demerara – um tipo cristalizado de coloração escura. Seguindo a mesma proporção da receita. o que facilita a dissolução do açúcar. Meliponicultores e cientistas 1 parte ou 1 parte ou xarope 1 quilo de 1 litro de têm pesquisado alternativas de açúcar água alimentação protéica equivalentes ao pólen. uma vez que os resultados obtidos. a maior parte dos meliponicultores modernos são adeptos à sua utilização. A alimentação complementar não é obrigatória. limpeza. O açúcar refinado possui muitos produtos químicos e deve ser evitado. são muito positivos. Entretanto. e o uso na meliponicultura. portanto. O açúcar mascavo é difícil de ser dissolvido e geralmente possui algumas partículas insolúveis que não são aproveitadas pelas abelhas. amarronzada. pois como já foi dito. O produto mais utilizado para alimentar meliponíneos é um tipo de xarope de açúcar. A água pode ser aquecida. o meliponicultor prepara a quantidade de xarope que quiser. como defesa. de acordo com a necessidade de suas abelhas. nos períodos do ano em que a disponibilidade de flores na natureza (florada) é pequena. com tamanho compatível ao espaço da colônia. um A receita mais utilizada entre os “substituto” do mel. O preparo é simples: basta misturar os ingredientes e agitar até dissolver. não é difundido. O xarope deve ser introduzido nas colônias com alimentadores específicos. apoiar outras atividades essenciais. No interior de cada recipiente devem ser colocados pedaços de palito de picolé. ou cerume. variando de 100 a 300 mililitros. organização e suporte às atividades de postura da rainha. ou seja. É importante que o recipiente seja de um plástico grosso. . O modelo aqui indicado é recomendado por ser barato e acessível: trata-se de um simples recipiente plástico. as abelhas não dependem dela para sobreviver.Criação de Abelhas sem Ferrão 53 assim. O período de entressafra varia de acordo com a região e. fonte de carmeliponicultores é simples boidratos – energia – para as abelhas. seu conhecimento deve ser buscado com criadores de abelhas experientes ou observação das plantas e colônias ao longo do ano. o que evita que as abelhas se afoguem no alimento. de forma geral. ou seja. o que impede que seja destruído pelas mandíbulas das abelhas.

mas também um espaço útil para a aplicação da alimentação complementar. o xarope é armazenado pelas abelhas em potes de cerume. não expondo o ninho ao ambiente externo. Alimentadores e alimento introduzidos na melgueira de uma caixa modelo “Fernando Oliveira” . evitando que o espaço cheio de alimento seja exposto com as frequentes alimentações.54 Manual Tecnológico Como podemos observar nas fotos. Dependendo da intensidade da alimentação. a melgueira não é apenas o módulo reservado para o estoque de mel. Caso fique muito cheia. Basta levantar a tampa e realizar a alimentação. outra melgueira vazia deve ser introduzida.

Recomenda-se que um mês antes do início da florada a alimentação seja suspendida. já que o mel não vai ser comercializado e o número de divisões possíveis de serem realizadas ao longo do ano pode ser maior com o apoio da alimentação. Qual a quantidade e a frequência certa para aplicação do xarope? Não existe uma fórmula exata. Existem colônias que podem. pode alimentar suas colônias o ano todo. tranquilamente. pois o xarope armazenado altera as características naturais do mel que vai ser colhido. Isso evita que o xarope fermente dentro da colônia. enquanto colônias fracas devem receber menos.Criação de Abelhas sem Ferrão 55 Alimentação complementar armazenada pelas abelhas em potes de cerume É importante destacar que o meliponicultor focado na produção de mel não deve alimentar suas colônias na época da florada. Com tempo e experiência o meliponicultor aprende a dosar a quantidade certa. sempre que tiver tempo para alimen200 ml. Depende do grau de desenvolvimento da colônia alimentada e. A freqüência de alimentações depende dos mesmos fatores. Uma boa quantidade para começar é 200ml. é uma ótima pedida! . principalmente. ser alimentadas diariamente. Colônias muito populosas podem receber mais alimento. uma vez tar. entretanto. o xarope será muito bem vindo! por semana. Alimentar uma vez por semana é uma ótima frequência. O meliponicultor focado exclusivamente na produção de colônias. da disponibilidade de tempo do meliponicultor. Mas não se preocupe se uma Resumindo semana passar. Mas dificilmente um meliponicultor tem tempo de fazer este trabalho todos os dias. O ideal é que cada caixa receba uma quantidade de alimento que as abelhas sejam capazes de consumir em no máximo 1 dia.

o meliponicultor deve estar sempre atento a possíveis ataques de inimigos naturais. tanto na avaliação dos ninhos como na alimentação complementar. de que uma colônia fraca deve ser alimentada. são mais do que suficientes. por exemplo. o número e o tamanho dos favos de cria e a saúde do trabalho da rainha. que pode ser semanal ou até mesmo diária. o meliponicultor pode chegar à conclusão. Ninhos de uruçu-nordestina no momento das avaliações Ninho bem desenvolvido. em estágio inicial de desenvolvimento. tema que será tratado no próximo item. verifica o tamanho da população de abelhas. Observações quinzenais. Ou então decidir que uma colônia forte está no ponto de ser dividida. Com base na avaliação dos ninhos. ou até mensais. É durante a avaliação dos ninhos que o meliponicultor se relaciona diretamente com suas colônias.56 Manual Tecnológico Monitoramento do ninho Diferente da alimentação complementar. o monitoramento dos ninhos pode e deve ser realizado em uma frequência menor. Durante o monitoramento das colônias. o qual deve receber alimentação complementar . pronto para receber uma divisão Ninho relativamente fraco.

Eles são os responsáveis pelas maiores dores de cabeça de um meliponicultor. pequenas moscas do gênero Pseudohypocera. onde a presença de pólen é maior. do pólen acumulado pelas abelhas. Portanto.Criação de Abelhas sem Ferrão 57 Inimigos naturais Forídeos Sem dúvida alguma. divisões. Ou seja. avaliações e coleta) deve buscar causar o mínimo dano possível aos potes de pólen. é nas regiões e épocas mais úmidas que o meliponicultor deve investir mais atenção no combate às moscas. Estas mosquinhas são capazes de colocar muitos ovos em uma colônia parasitada. ainda pior. impedindo a invasão e a infestação. as larvas infestam a colônia. O pólen é o grande recurso buscado pelos parasitas dentro da colônia. Colônias fortes e organizadas não são presas fáceis para o ataque dos parasitas. Os forídeos prejudicam os estoques de alimento da colônia e. minimizando a probabilidade de infestação avançada. A rotina de visitas do meliponicultor ao meliponário também é importante para o combate aos forídeos. e as consequências para as abelhas são desastrosas. os parasitas mais perigosos para as abelhas sem ferrão são os forídeos. as células de cria nas quais o pólen é estocado para a alimentação das larvas em desenvolvimento. O mesmo vale para as células de cria verde. o trabalho do meliponicultor no dia-a-dia (durante transferências. de onde nascem larvas que se alimentam do mel e. já que as larvas ainda não o consumiram. Como os ovos “amadurecem” muito rápido. A melhor forma de evitar problemas com forídeos é a prevenção. Populações fortes mantêm as frestas das caixas vedadas e realizam com mais eficiência o trabalho de defesa na entrada e no túnel de ingresso. Exemplar de forídeo as fêmeas destes insetos depositam seus ovos. As vistorias periódicas realizadas nas colônias (pág. 52) possibilitam ações imediatas a episódios de invasão. a prevenção começa com o bom manejo das caixas. É no período chuvoso que os forídeos se reproduzem e atacam com mais intensidade. Ao invadirem as colônias. Portanto. principalmente. .

onde morrem. preenchê-los até a metade com vinagre e introduzi-los em colônias atacadas. É importante que os furos sejam grandes o suficiente para a Modelo de armadilha de vinagre entrada dos forídeos. grande atrativo para as mosquinhas entrarem nas colônias. o vinagre deve ser trocado. Em cada inspeção. . que também são atraídas pelo vinagre. A confecção das armadilhas é muito simples. Basta fazer alguns furinhos na tampa de recipientes que caibam em lugares acessíveis das colmeias. Indica-se o uso de furos com 2/3 milímetros de diâmetro. semelhante ao gerado pelo pólen exposto e/ou mel derramado.58 Manual Tecnológico Armadilha de vinagre é o melhor remédio para combater forídeos O vinagre tem um cheiro ácido. assim podem ser monitoradas durante as alimentações. acabam caindo no líquido. Aconselha-se que as armadilhas sejam colocadas nas melgueiras. mas pequenos o suficiente para não permitir a entrada das abelhas. Atraídos por esse cheiro. até que não apresente mais forídeos capturados.

Uma boa estratégia para evitar a preocupação é impregnar os suportes das caixas com óleo queimado. Quando ocorrem. impedindo que subam para as caixas. É importante destacar que o produtor focado na produção de mel orgânico não pode utilizar essa alternativa. manusear as caixas de forma cuidadosa e evitar a exposição dos potes de pólen e mel são as melhores formas de evitar os ataques. uma vez que o óleo queimado não é permitido pelos órgãos de certificação. facilmente adquirida em postos de troca de óleo. o prejuízo na população de abelhas pode ser catastrófico. Por mais que na maior parte das vezes os meliponíneos sejam capazes de se defender. os ataques geram muita briga entre formigas e abelhas.Criação de Abelhas sem Ferrão 59 Formigas Formigas são atraídas para a colônia pelo cheiro de alimento. Mais uma vez. A substância. repele as formigas. alternativa viável principalmente em meliponários de suportes individuais. Exemplo de suporte impregnado com óleo queimado .

Rio Grande do Norte .Abelha jandaíra (Melipona subnitida) .

78) que nem sempre a fermentação é um problema. como ocorre na fabricação da cerveja. a imposição de um protocolo único e padronizado. Dada a diversidade de abelhas e de contextos socioambientais em que a meliponicultura se manifesta no país. Veremos mais adiante (pág. A principal característica que atribui ao mel das abelhas nativas essa característica é sua elevada taxa de umidade (quantidade de água). . tende a ser mal sucedida . o Brasil dispõe apenas de legislação que ampara a apicultura. 4. Considerações gerais Um dos maiores desafios daqueles que produzem mel de meliponíneos é garantir estabilidade e longevidade. em um primeiro momento. as quais têm produzido mel de qualidade. Esta diversidade de técnicas pode e deve ser considerada no processo pendente de regulamentação. Sendo assim. Entretanto. Pecuária e Abastecimento (MAPA). com a máxima longevidade possível.Técnicas de coleta e beneficiamento de mel 61 Uma importante ressalva que deve ser feita antes de tratarmos das técnicas de coleta e beneficiamento do mel de abelhas sem ferrão é de que no Brasil não existe legislação específica que regulamente a cadeia produtiva dos produtos originados pela meliponicultura. que costuma variar de 25% a 35% da composição. a um produto muito suscetível à fermentação4. não existe no país um mercado estabelecido. ou seja. como ocorre com a apicultura. consumido e/ou comercializado de maneira informal em diferentes regiões. trataremos das técnicas voltadas para a produção de um mel estável. A fermentação é um processo de transformação de uma substância em outra. ou ácido acético. ou seja. agentes de fermentação. A diversidade de técnicas que será apresentada a seguir representa o resultado de iniciativas bem sucedidas no Brasil. tempo de validade. especializado em equipamentos de meliponicultura. além do seu natural conteúdo de leveduras. em andamento por meio do trabalho de produtores. No que se refere aos produtos das abelhas. O grande desafio deste processo de regulamentação é justamente englobar a diversidade de técnicas. no caso da produção de vinagre. sem fermentação. tais como fungos e bactérias. produzida a partir de microorganismos. pesquisadores e do Ministério da Agricultura. Exemplos de fermentação são os processos de transformação de açúcares (como o mel) em álcool. a atividade produtiva associada à criação das estrangeiras Apis mellifera.

Cuidados pessoais: Tomar banho antes das atividades. Para tanto. vidro e plásticos atóxicos. é recomendado lavá-los em água limpa e abundante com sabões sem cheiro. Higienização: Todos os equipamentos e materiais diretamente envolvidos na manipulação do mel (equipamentos de coleta e beneficiamento. Sempre lavar as mãos e manter as unhas cortadas e escovadas. . vários métodos de beneficiamento podem ser aplicados para auxiliar a conservação do mel. próximas a depósitos de lixo. é recomendado o uso de touca e máscara (encontradas em farmácias ou lojas de equipamentos cirúrgicos) e roupas limpas. é importante que todas as etapas de sua produção levem em consideração que os principais fatores que motivam o seu consumo são a nutrição e o prazer de saboreá-lo. recipientes de armazenamento. e nunca utilizar palha de aço. o meliponicultor que preza pelo bem estar de seus consumidores deve estar sempre atento ao compromisso de produzir mel de qualidade. fervê-los ou enxaguá-los com água fervente. envases. Acessórios: Para a manipulação do mel (coleta ou beneficiamento). estão o cuidado e a higiene no dia-a-dia de trabalho. sempre que ela for necessária.) devem ser higienizados antes do uso. Equipamentos: Utilizar equipamentos confeccionados com materiais de fácil higienização. Sempre que possível. Sendo assim. A seguir. desde o manejo das caixas até o beneficiamento do mel: Localização do meliponário: Evitar instalar os meliponários em áreas poluídas. Água: Utilizar água limpa. criadouros de animais e regiões de agricultura intensiva. etc. A seguir. Reservar esponjas específicas para estes materiais. visando a redução da contaminação por microorganismos. serão apresentados alguns cuidados de manipulação que devem ser adotados em todas as etapas de produção. como sabão de coco ou detergente neutro. onde o uso de adubos químicos e agrotóxicos é realizado de forma abusiva. são apresentados alguns métodos de coleta e beneficiamento utilizados com sucesso no Brasil. Depois de coletado. Entre os principais quesitos para conquistar este objetivo. preferencialmente avental. de procedência conhecida.62 Manual Tecnológico O primeiro passo para minimizar a fermentação são boas práticas de coleta. como aço inox. Pessoas com enfermidades potencialmente transmissíveis devem evitar trabalhar diretamente com o mel. Considerações sobre boas práticas de manipulação Tendo em vista que o mel é um alimento. Sempre lavar os equipamentos antes e depois do uso.

é bem verdade. a obrigatoriedade do entreposto é a garantia de produção do mel de qualidade: estando estes estabelecimentos de acordo com as normas de organização e higiene. Entreposto (ou casa-do-mel) De forma genérica. Apesar das dificuldades. A seguir. existem no Brasil meliponicultores que se aventuram na utilização dos entrepostos convencionais para o processamento de mel de nativas. No caso dos sistemas associados aos produtos das abelhas. É a casa-do-mel que recebe as melgueiras vindas dos apiários e abriga as atividades de coleta. Seguir as complexas recomendações impostas pela legislação demanda altos investimentos. beneficiamento. O conteúdo deste manual não vai se aprofundar na proposta de um modelo de entreposto para a meliponicultura. também trabalha com apicultura.Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 63 Métodos de coleta Considerações sobre os locais adequados para a coleta do mel Tendo como base os diferentes arranjos produtivos presentes no Brasil para a produção de mel de abelhas sem ferrão. a existência de um entreposto para processamento dos produtos é obrigatória. envase. assegura-se que o produto final pode ser comercializado. o sistema adotado é semelhante ao utilizado com as Apis: as melgueiras são transportadas para a casa-do-mel e lá o mel é coletado. . um entreposto pode ser considerado qualquer estabelecimento funcional estrategicamente situado entre um pólo produtor e um pólo consumidor. De acordo com a legislação que regulamenta a cadeia produtiva da apicultura. as unidades de coleta e os meliponários. mas deixa registrada a necessidade de ser pensado um modelo mais simples e barato do que o adotado na apicultura. uma vez que a maior parte da produção do mel de abelhas sem ferrão é fruto do trabalho de pequenos produtores ou comunidades tradicionais. A possibilidade de imposição de modelo semelhante à meliponicultura é ainda mais polêmica. rotulagem. as três alternativas serão brevemente apresentadas com suas respectivas vantagens e desvantagens. o entreposto também é conhecido como casa-do-mel. tema deste item. A maioria deles. viável aos pequenos produtores. define-se a existência de três locais usualmente utilizados para a coleta: os entrepostos. o que acaba restringindo as possibilidades de inserção no mercado de grande parte dos pequenos produtores. A obrigatoriedade e a natureza dos entrepostos são temas amplamente discutidos no setor apícola. No que diz respeito à coleta. armazenamento e distribuição do mel de Apis. De acordo com o Ministério da Agricultura.

são viáveis pelos mesmos motivos da coleta nos meliponários. diminuindo as distâncias de transporte das melgueiras. São vários os modelos de unidade de coleta que podem ser adotados. apresentados a seguir. . Elas têm a vantagem de serem simples e baratas. construídas de alvenaria. sempre interessadas no mel coletado. fixas. que podem ser caminhões adaptados ou tendas desmontáveis. Em relação à higiene na manipulação. Existem estruturas relativamente complexas. Aconselha-se o uso de tendas desmontáveis revestidas com filó. Tem como principal vantagem facilitar a possibilidade dos meliponicultores compartilharem um entreposto: no caso de um arranjo produtivo comunitário. Instaladas próximas aos meliponários. transportando o produto já colhido para a casa-do-mel. por exemplo. cada produtor realiza a coleta em sua propriedade. assim como unidades móveis. São uma forma de aproximar a coleta do meliponário e tirar esta etapa do entreposto. protegem as caixas e melgueiras da pilhagem de abelhas e moscas.64 Manual Tecnológico Unidade de coleta As unidades de coleta constituem alternativa para descentralizar a coleta do mel.

é inviável a coleta nos apiários. onde o acesso ao mel depende da abertura (desoperculação) e centrifugação dos favos. contato com o ar. ou nenhum. o mel de abelhas sem ferrão pode ser coletado diretamente dos potes de cerume (pág.Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 65 Meliponário Se o leite de vaca pode ser ordenhado no estábulo. No meliponário. 69). onde o mel é retirado de dentro dos potes diretamente para um recipiente de armazenagem e transporte. o mel pode ser coletado diretamente dos potes para um recipiente esterilizado . uma vez que o mel tem condições de chegar ao entreposto tendo entrado em pouquíssimo. Vale lembrar que na apicultura. Essa característica viabiliza a coleta no meliponário. Veremos que na meliponicultura a coleta pode ser realizada em um sistema fechado. por que o mel de abelhas sem ferrão não pode ser coletado no meliponário? Esse questionamento tem como base o fato de ambos os produtos serem coletados de forma relativamente semelhante: assim como o leite é ordenhado diretamente das glândulas mamárias das vacas.

a peneira e o recipiente de coleta 5. Terminada a colheita. onde os resíduos maiores. são retirados. observa-se a inclinação da caixa. os potes de mel são acessados e perfurados com a ajuda de objeto pontiagudo. o mel passa por uma peneira. geralmente localizado na parte de baixo da caixa. como pedaços de cerume ou abelhas. A caixa é inclinada na direção de um orifício. bacia ou jarra. Associação Jovens Agroecologistas Amigos do Cabeço. À direita. O mel que escorre dos potes passa pela caixa e sai por esse orifício para um recipiente de coleta. . Nestas fotos. À esquerda. do município de Jandaíra (RN). cidade que leva o nome popular da abelha Melipona subnitida. o mel é envasado e armazenado. como facas ou espetos de madeira. em especial na região nordeste.66 Manual Tecnológico Métodos Tradicionais Perfuração dos potes Trata-se de um método simples. muito utilizado na meliponicultura tradicional brasileira. Através da tampa ou de aberturas laterais das caixas. o orifício de escoamento. coleta mel com o tradicional método de perfuração dos potes. Antes de chegar a esses recipientes. principal espécie produtora de mel na Caatinga nordestina. sediada em Jandaíra (RN). o meliponicultor Francisco Melo Medeiros. da JOCA5. justamente para a colheita. geralmente um balde.

já que com freqüência certa quantidade de mel escorre no momento em que os potes são retirados da caixa ou separados dos potes de pólen. “casas do mel” etc. Assim. para evitar que sejam espremidos junto com os de mel. Em relação ao método anterior. Existem espécies com hábitos relativamente “anti-higiênicos”. para ambos os métodos é essencial o uso de um modelo de caixa que permita o transporte das melgueiras para um ambiente de coleta limpo. livre de poeira ou partículas orgânicas presentes no ar de um ambiente externo. ou seja. Sua aplicação segue um processo semelhante ao da perfuração. Por conta disso. é fundamental que esses métodos sejam aplicados em locais específicos de coleta. É possível produzir mel de qualidade com métodos de compressão ou perfuração? Sim. O meliponicultor que usar este método deve sempre estar atento aos potes de pólen. tem a desvantagem de causar um pouco de desperdício. o que aumenta seu potencial de contaminação. os métodos de compressão ou perfuração expõem excessivamente o mel ao ambiente externo. entrepostos. dependendo de alguns detalhes do modelo de produção adotado. o que causa significativa alteração nas características do produto final. A diferença entre as espécies de abelhas também pode influenciar na qualidade do mel. como unidades de coleta. que depositam seus excrementos na mesma área onde armazenam os Depósitos de excremento em melgueiras de uruçu-nordestina . Assim como o processo de desoperculação e centrifugação aplicado no mel das abelhas Apis. dos cuidados de higiene durante a manipulação e do processamento do mel depois da coleta.Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 67 Compressão dos potes É outro método simples e tradicional. com a diferença que nele os potes são retirados das caixas ou melgueiras e espremidos com as mãos.

que preparam melgueiras “limpas” exclusivamente com potes de mel. Depois de coletado. 3) a melgueira é virada de cabeça para baixo sobre uma peneira quadrada confeccionada de nylon bem fino. por exemplo. jataí (Tetragonisca angustula) e tiúba (Melipona fasciculata) são bons exemplos de abelhas que organizam melgueiras limpas. Um interessante sistema produtivo baseado no método de perfuração dos potes é proposto pela Embrapa Amazônia Oriental: 1) as melgueiras fecha- das são retiradas das caixas e levadas para uma local de coleta. É o caso da uruçu– nordestina (Melipona scutellaris). 4) embaixo da peneira coloca-se uma bandeja de plástico ou inox. Coleta com perfuração de potes em melgueiras transportadas a um entreposto . As abelhas jandaíra (Melipona subnitida). o mel é pasteurizado (pág. 75) e envasado. 2) os potes de mel são abertos com uma faca de aço inox. possibilitando a aplicação dos métodos de compressão ou perfuração. onde o mel que escorre por alguns minutos é armazenado. Por outro lado. existem espécies muito organizadas.68 Manual Tecnológico potes de alimento. Trata-se de um método que aproveita a praticidade e a eficiência da perfuração dos potes e é viável para quem tem a possibilidade de construir um local específico para a coleta.

O procedimento de coleta com a seringa é simples: os potes devem ser abertos (desoperculados) e o mel gradativamente sugado e depositado em um recipiente de armazenamento. Seringa descartável A velha e conhecida seringa para dar injeção é um utensílio prático e consagrado na meliponicultura atual.Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 69 Métodos de Sucção A principal vantagem da sucção é permitir que o mel seja retirado diretamente de dentro dos potes. o que facilita muito a coleta por possibilitar maior alcance dentro dos potes. Esse método tem a vantagem de ser simples. Alguns modelos de seringa. um pedaço de mangueira plástica (tipo cristal) fina pode ser acoplado no lugar onde seria encaixada a agulha. A seguir são apresentados alguns equipamentos utilizados com essa finalidade. barato e acessível. diminuindo o contato com o ambiente externo e a possibilidade de contaminação. . Caso este tipo de seringa não seja fácil de encontrar. desde os mais simples – como as seringas descartáveis – até os mais elaborados – como as bombas elétricas de sucção. Não é recomendado o uso da agulha para a coleta do mel. principalmente os com volume superior a 50 ml. possuem um prolongamento no bico. Exemplo de seringa com já que ele é viscoso e não pasprolongamento do bico sa com facilidade por orifícios pequenos. de diversos tamanhos. já que é possível comprar seringas descartáveis. em qualquer farmácia.

Dependendo do local de coleta e do método de beneficiamento a ser utilizado depois. é o aspirador de líquidos aproveitado dos equipamentos médicos e odontológicos. As principais vantagens do uso deste equipamento são a eficiência (agilidade para coleta) e assepsia (limpeza). entretanto. Além disso.70 Manual Tecnológico Bomba de sucção elétrica Existem várias formas de improvisar uma bomba elétrica de sucção. O método. diminuindo sua vida útil. O modelo mais acessível e utilizado na meliponicultura moderna. . também apresenta desvantagens: o fluxo de sucção é muito acelerado. porém. com aspiradores de pó domésticos. o equipamento depende de energia elétrica. inaladores ou bombas peristálticas. aumentando seu contato com os microorganismos do ar. o que proporciona excessiva oxigenação (espuma) no mel. recurso nem sempre disponível em comunidades produtoras mais isoladas. esta exposição pode causar problemas para a conservação do mel. já que o mel é retirado diretamente dos potes da colônia para um recipiente esterilizado.

É uma alternativa mais eficiente que a seringa. proporcionando pouquíssima oxigenação. dispensando a esterilização e facilitando o trabalho em comunidades com menos infraestrutura.Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 71 Bombas de sucção mecânica Glossador® O glossador é um equipamento desenvolvido pelo Projeto Abelhas Nativas. 3 4 1 2 Aspecto geral do Glossador® 5 1) Pêra sugadora. . 2) Dispositivo central de INOX. 4) Mangueira sugadora de mel. Trata-se de uma bomba manual que tem como principais vantagens a independência de energia elétrica e o fluxo lento de sucção. e duas mangueiras plásticas tipo cristal (60 e 40 centímetros) que conectam os dois primeiros elementos. um dispositivo central de aço inoxidável com rosca compatível ao de garrafas PET. Estes recipientes são interessantes por já virem limpos. O Projeto Abelhas Nativas utiliza como recipiente coletor de mel garrafas de água mineral (500 ml). O equipamento é formado por três elementos básicos: uma bomba de borracha (como uma pêra de laboratório ou bomba de tanque de gasolina de barcos). mas também demanda tempo relativamente grande de trabalho para a coleta do mel. do estado do Maranhão. 3) Mangueira sugadora de ar. 5) Recipiente de armazenamento de mel. uma vez que a pêra de borracha tem capacidade de formar vácuo nesse volume para sucção.

eficiência e baixa oxigenação. Diversos tipos de recipientes de coleta podem ser acoplados às bombas de sucção manual para a colheita do mel. O ar sugado gera o vácuo no recipiente de coleta. pois otimiza o trabalho (não se perde tempo trocando recipientes durante a coleta) e facilita o transporte. Este equipamento tem a vantagem de aliar independência de energia elétrica. O tamanho dos recipientes utilizados deve ser compatível com a capacidade de pressão das bombas. são um exemplo. utilizando-se o mesmo dispositivo central de inox do glossador.72 Manual Tecnológico Bomba de sucção manual Trata-se de uma bomba semelhante às utilizadas para encher bolas ou pneus de bicicleta. Garrafas PET de água mineral. A possibilidade de usar grandes recipientes de coleta é muito eficiente. Exemplo de bomba de sucção manual acoplada a um recipiente de coleta PET/500 ml . mas com êmbolo e válvula invertidos para sucção do ar. possibilitando que o mel seja aspirado pela extremidade de uma mangueira de coleta. As bombas encontradas no mercado para uso em bolas e pneus costumam ser capazes de gerar vácuo em recipientes de até 5 litros.

O modelo é utilizado no projeto de meliponicultura desenvolvido pelo Instituto Socioambiental6com três etnias indígenas do Parque Indígena do Xingu (MT) 6. baixo custo e eficiência Simplicidade.Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 73 Bomba de sucção manual acoplada a recipiente de vidro de 3 litros. Organização da Sociedade Civil focada na conservação e valorização da diversidade socioambiental. incentiva formalmente a implementação da cadeia produtiva do mel de abelhas nativas sem ferrão em aldeias das etnias Yudjá e Kaiabi presentes no Parque Indígena do Xingu (MT). compatibilidade com grandes recipientes de coleta e independência de energia elétrica Eficiência intermediária . acessibilidade. baixo custo e assepsia Potencial de contaminação e possibilidade de influência do pólen no aroma do mel Pouca eficiência Custo relativamente elevado. assepsia e compatibilidade com grandes recipientes de coleta Bombas de sucção manual Custo intermediário. Vantagens e desvantagens dos métodos de coleta Método Vantagens Desvantagens Compressão/ Perfuração Simplicidade. Desde 2006. acessibilidade. dependência de energia elétrica e fluxo contínuo e acelerado. o que proporciona oxigenação do mel Sucção com seringas Bombas elétricas de sucção Eficiência. assepsia.

Já na escala comercial. transportálo refrigerado e comercializá-lo em prateleiras refrigeradas ou geladeiras. Este modelo está sujeito a uma logística complexa e dispendiosa. ou desidratação. . colhido de forma limpa. uma vez que o mel. o mel dura. Desumidificação (ou desidratação) Entende-se por desumidificação. o mel de abelhas sem ferrão tem elevado teor de umidade (quantidade de água). ou seja. retirá-la dos alimentos evita que sejam criadas condições propícias para o desenvolvimento de microorganismos. ou até mesmo comunitária. Como alternativa para proporcionar maior duração. que mantenha suas características físicas. o uso da refrigeração é mais complicado.74 Manual Tecnológico Técnicas de beneficiamento para conservação Entende-se por beneficiamento o processo de transformar um produto primário em um produto de maior valor comercial. Portanto. No caso do mel de abelhas sem ferrão. com grande potencial de fermentação. que costuma variar de 25% a 35% de sua composição. é muito eficiente. A aplicação destes métodos visa tanto viabilizar a estocagem do mel para consumo pessoal. a refrigeração é um método consagrado para retardar o processo de degradação dos produtos. No caso do mel de abelhas sem ferrão. 2 anos. Como a água é o principal “ingrediente” para a vida. a refrigeração é um método muito eficiente. já que diminui a proliferação de leveduras e bactérias e retarda a fermentação. os métodos de beneficiamento são utilizados para transformar o mel in natura. como a inserção do mel de abelhas sem ferrão no mercado. e não deve substituir a inigualável sensação de consumir mel fresquinho recém colhido das caixas. mas depende de escala de produção e da elaboração de um plano de negócio minucioso que garanta lucro nas vendas. impedir a fermentação acelerada. Uma geladeira convencional mantém uma temperatura média que varia entre 2ºC e 4ºC. Isso acontece porque as baixas temperaturas dificultam o desenvolvimento dos microorganismos. Sua utilização na escala de consumo pessoal. recomenda-se que o teor de água do mel seja reduzido para 20% ou menos. em média. o produtor deve refrigerar o mel logo depois da colheita. em um produto estável. o processo de retirar ou diminuir a quantidade de água de determinado produto. Sua aplicação pode ser viável. Com essa concentração. Como vimos anteriormente. não pode ser considerada pré-requisito para o consumo do mel. ali estocado. familiar ou comunitário. químicas e sensoriais o maior tempo possível na prateleira de venda ou na casa do consumidor. Refrigeração Na indústria de alimentos. Para adotar este método. familiar. dura pelo menos 1 ano.

encontra-se disponível no mercado de produtos apícolas. o que não danifica a composição natural dos nutrientes e vitaminas presentes no mel. O mel é disposto nas prateleiras em bandejas de plástico ou inox. Nele. O equipamento é tradicionalmente utilizado na cadeia produtiva do mel de Apis mellifera e. Esta imposição. não deve ser aplicada ao mel das abelhas nativas sem ferrão. Dependendo da capacidade do desumidificador. o processo dura entre 12 e 48 horas. O funcionamento é simples: a água do mel evapora para o ar seco gerado pelo desumidificador. . Sala de desumidificação Trata-se de um interessante sistema de desumidificação que foi desenvolvido por pesquisadores do Centro de Ciências Agrárias e Ambientais da Universidade Federal da Bahia. enquanto o ar condicionado colabora retirando o vapor da sala para o ambiente externo. cujos preços variam entre 20 mil e 100 mil reais. de 20 de outubro de 2000). Máquina de desumidificação A máquina de desumidificação não é uma invenção da meliponicultura. tido por muitos como mais gostoso por ser menos viscoso e doce. geralmente utilizado para combater o mofo dos ambientes). A vantagem do segundo sistema é o menor custo. próximo ou abaixo de 20%. Existem no mercado máquinas de capacidades e tamanhos diversificados. Para realizar a desumidificação do mel. A desvantagem de ambos é a alteração nas características naturais do mel de abelhas sem ferrão. da quantidade e do teor de umidade do mel. a escolha por este método de beneficiamento deve levar em conta a escala de produção e a estruturação de um plano de negócio que viabilize sua utilização. Mais uma vez.Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 75 Como referência. vale destacar que 20% é o máximo teor de umidade permitido pela legislação brasileira para a comercialização do mel das abelhas Apis (Instrução Normativa nº 11. existem dois equipamentos principais disponíveis no repertório dos meliponicultores brasileiros: a máquina de desumidificação e a sala de desumidificação. Com a ajuda de um refratômetro – equipamento utilizado para medir o grau de umidade de substâncias líquidas – monitora-se o teor de água do mel até o ponto ideal. uma pequena sala é equipada com um desumidificador de ar (equipamento disponível no mercado. Essas máquinas trabalham com desidratação a frio. portanto. É importante lembrar que estas abelhas naturalmente produzem mel com baixa umidade. ar condicionado e prateleiras. portanto.

entretanto. de forma a eliminar os microrganismos. proporcionando precisão no aquecimento. equipada com um desumidificador de ar e prateleiras Pasteurização A pasteurização é um procedimento usado em alimentos para destruir microrganismos patogênicos ali existentes. Existem no mercado equipamentos específicos para a pasteurização de alimentos.76 Manual Tecnológico Mel em bandejas de plástico ou inox. é o uso do bom e velho “banho-maria”. Foi criada em 1864. por determinado tempo. essa temperatura não deve exceder 65ºC. pronto para a desumidificação Detalhe do refratômetro indicando a umidade do mel antes da desumidificação (esq. a temperatura do mel deve ser controlada com um termômetro. disponíveis no mercado em diferentes modelos. . levando o nome do químico francês que a criou: Louis Pasteur.) Sala de desumidificação. Estes equipamentos têm a vantagem de possibilitar a calibração da temperatura pretendida. e proteínas e vitaminas são alteradas. O procedimento mais comum e acessível. alterando seu sabor. Indica-se o uso de termômetros de cozinha. prevenindo a possibilidade de superaquecimento. comprometendo suas características naturais.) e depois (dir. No caso do mel. Nunca esquente o mel diretamente no fogo. O processo consiste basicamente no aquecimento do alimento a determinada temperatura. O banho-maria permite que ele seja aquecido de forma lenta e uniforme. Durante o aquecimento. condição em que alguns açúcares nele presentes começam a queimar.

o que permite a saída do ar que eventualmente está contido no mel.Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 77 Sugere-se que o mel seja pasteurizado no próprio recipiente onde será guardado ou comercializado. indicando o ar que sai do mel por conta do aquecimento Recipientes já fechados. deve ser retirado do banho-maria. Para tanto. o que otimiza sua hermetização e diminui as possibilidades de contaminação depois do procedimento. retirar os recipientes do banhomaria e fechá-los Resfriar os recipientes fechados em água corrente . a pasteurização tem proporcionado um tempo de validade que varia entre 6 meses e 1 ano. Assim que ele atingir 65ºC. fechado e resfriado em água corrente. O resfriamento rápido acelera a hermetização do recipiente. O aquecimento deve se realizado nos recipientes abertos. de vidro. os recipientes devem ser. Mel em banho-maria durante a pasteurização: reparar na espuma branca. sendo resfriados em água corrente Principais etapas do processo de pasteurização 1 2 3 4 Envasar o mel em recipientes (abertos) de armazenagem ou comercialização Aquecer o mel em banho-maria a uma temperatura de 65ºC Ao atingir a temperatura. Dependendo da espécie de abelha e do teor de umidade do mel in natura. obrigatoriamente.

O mel colhido com o Glossador® (pág. depois de algum tempo de armazenamento. representantes do PAN relataram que o “pulo do gato” da adoção do método foi perceber que. pois o mel maturado produzido por diversas comunidades do Maranhão tem ganhado muito destaque em feiras. um alimento que não estraga na prateleira do consumidor. ou seja. em especial dos Maias: consumir mel fermentado. em temperatura estável (aproximadamente 30oC). ou seja. Adotando o mel fermentado (ou maturado) como produto final – tendo sido comprovada a aprovação do mercado consumidor por um produto mais ácido e com leves traços alcoólicos –. não luta contra a fermentação. a fermentação do mel se estabiliza. conseguiram colocar para venda um produto estável. as tampas das garrafas são levemente afrouxadas. eventos e revistas de gastronomia. 71) é armazenado em garrafas PET de 500 ml. 3. 2. não se move com a inclinação do recipiente. no estado do Maranhão. A estratégia parece ter dado certo. com base em um costume tradicional de povos indígenas da América Central. O mel maturado é envasado. mas em alguns eventos científicos. diferentemente dos apresentados anteriormente. Esse procedimento é repetido semanalmente por um período de 3 a 6 meses. permitindo a liberação do gás carbônico formado pela fermentação. Ainda não foram publicados estudos que descrevam detalhadamente o processo de maturação. A técnica de maturação consiste basicamente em quatro etapas: 1. Essa condição é observada quando o colarinho formado pela espuma da fermentação se adere à garrafa. .78 Manual Tecnológico Maturação A maturação é uma técnica que foi aprimorada pelo Projeto Abelhas Nativas (PAN). em uma caixa de isopor. até que seja observada a estabilização da fermentação. mas se aproveita dela. Trata-se de um método que. 4. 15 dias depois da colheita. rotulado e comercializado. As garrafas são armazenadas em ambiente escuro.

pois com elas o meliponicultor estabelece a cara do seu produto e define a relação que o mesmo terá com o consumidor. produção experimental da Embrapa Meio-Norte. Significam dar acabamento a um produto conquistado com muita força de trabalho. Centro independente de produção e pesquisa localizado em João Pessoa.Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 79 Envase e rotulagem Envasar e rotular são as etapas finais de produção antes da comercialização. na Paraíba. mel de uruçu do Meliponário Massapê7. no Pará. Tem como principal objetivo a valorização dos produtos e produtores associados à meliponicultura. no estado do Maranhão. devem ser muito valorizadas. Da esquerda para a direita: mel produzido pelas comunidades assistidas pelo Instituto Iraquara no estado do Amazonas. Portanto. da Paraíba 7. Variedade de méis de meliponíneos disponíveis no mercado. mel produzido no âmbito do Projeto Abelhas Nativas. .

as principais informações que devem constar no rótulo são: Nome do produto (mel de abelhas sem ferrão) Marca comercial Peso líquido em gramas ou quilogramas Endereço do meliponicultor ou entreposto CNPJ (se existir) Informações nutricionais Condições para conservação Data da colheita Tempo de validade Identificação do lote Selo do serviço de inspeção federal. .80 Manual Tecnológico Os recipientes de vidro são os mais indicados para o armazenamento de mel. Recipientes de plástico atóxico também podem ser utilizados e trazem como vantagem serem mais leves e resistentes. existe um regulamento específico para a rotulagem de produtos de origem animal. a Instrução Normativa nº 22. ou seja. os quais devem ser escolhidos de acordo com o gosto do meliponicultor e o perfil do mercado consumidor. estadual ou municipal. No caso do mel. O principal pré-requisito para a escolha do modelo é que o mesmo tenha um bom encaixe da tampa. Existe no mercado uma variedade muito grande de modelos. uma vez que não interferem em suas características naturais e são esteticamente bonitos. mas deve seguir algumas regras. a viabilidade de inclusão dessa informação depende da regulamentação. A rotulagem também depende da criatividade. No caso da meliponicultura. No Brasil. de 24 de novembro de 2005. permita o fechamento hermético do recipiente.

são várias as alternativas para construção de um sistema produtivo. de equipamentos. materiais e matérias-primas. Manejo de colônias para produção de mel Local de coleta Unidade móvel Melipolinário Entreposto Método de coleta Compressão ou perfuração Seringa descartável Bomba de sucção elétrica Bomba de sucção manual Técnica de Beneficiamento Refrigeração Desumidificação Pasteurização Maturação Acabamento Envase Rotulagem Comercialização . A seguir. que reúne as principais etapas e técnicas discutidas. possibilidades de investimento e escala de produção. coleta e beneficiamento de mel apresentadas neste manual. é apresentado um fluxograma geral. Esta escolha deve considerar os objetivos da produção e as especificidades do contexto em que o sistema será implementado.Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 81 Sistemas de produção Com base nas diversas técnicas de manejo. Basta escolher e combinar algumas das técnicas apresentadas para definir o sistema ideal a ser utilizado por cada meliponicultor. como: disponibilidade de espécies de abelhas. oportunidade de troca de informações com outros produtores e etc.

é maturado em uma caixa térmica 4. Sucção com o glossador Coleta em unidade móvel + bomba de sucção manual (glossador) + maturação 3. O mel é filtrado e envasado 5.82 Manual Tecnológico A seguir. armazenado nos próprios recipientes PET de coleta. em tenda montada ao lado do meliponário 2. são ilustradas duas alternativas de sistemas produtivos. Mel coletado na própria caixa. baseadas nas seguintes técnicas: 1. O mel é rotulado . O mel.

Técnicas de Coleta e Beneficiamento de Mel 83 Coleta em entreposto + bomba de sucção elétrica + pasteurização 1. O mel é parcialmente envasado e pasteurizado 8. Esses recipientes geralmente são usados para o transporte de leite. e são aprovados pelo Ministério da Agricultura. Desoperculação dos potes 3. O mel colhido é filtrado e depositado em um recipiente de armazenamento intermediário8 5. Organização geral dos equipamentos de coleta e sucção do mel com o aspirador elétrico 4. . Indica-se para a armazenagem intermediária do mel os recipientes de polietileno do tipo Milkan®. Melgueira transportada para o entreposto 2.

84 Manual Tecnológico Abelha Jandaíra (Melipona fulva) – Amazonas .

As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 85 Anexo RESOLUÇÃO CONAMA no 346. abrigos e criadouros naturais são bens de uso comum do povo nos termos do art. de 6 de junho de 1990. no uso das competên. Considerando que essas abelhas. de 16 de agosto de 2004 Publicada no DOU no 158. propôs a “Iniciativa Internacional para a Conservação e Uso Sustentável de Polinizadores”. de 31 de agosto de 1981. resolve: CAPÍTULO I Disposições Gerais Art. 225 da Constituição Federal. página 70 Disciplina a utilização das abelhas silvestres nativas. aprovada na Decisão V/5 da Conferência das Partes da CDB em 2000 e cujo Plano de Ação foi aprovado pela Decisão VI/5 da Conferência das Partes da CDB em 2002. signatário da Convenção sobre a Diversidade Biológi.portância da polinização efetuada pelas abelhas silvestres nativas na estabilidade dos ecossistemas e na sustentabilidade da agricultura. bem como a implantação de meliponários. bem como a implantação de meliponários. bem como seus ninhos.cias que lhe são conferidas pela Lei no 6. e tendo em vista o disposto no seu Regimento Interno. Considerando o valor da meliponicultura para a economia local e regional e a im. O CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE-CONAMA. em qualquer fase do seu desenvolvi. 2o Para fins dessa Resolução entende-se por: I .274. pesquisa científica.938. Seção 1. constituem parte da fauna silvestre brasileira.utilização: o exercício de atividades de criação de abelhas silvestres nativas para fins de comércio. 1o Esta Resolução disciplina a proteção e a utilização das abelhas silvestres nativas. de 17 de agosto de 2004. regulamentada pelo Decreto no 99. e que vivem naturalmente fora do cativeiro. Considerando que as abelhas silvestres nativas. e Considerando que o Brasil.ca-CDB.mento. atividades de lazer e ainda para consu- . Art.

será permitida por meio da utilização de ninhos-isca ou outros métodos não destrutivos mediante autorização do órgão ambiental competente. II . Art. para a formação ou ampliação de meliponários. 3o É permitida a utilização e o comércio de abelhas e seus produtos.86 Manual Tecnológico mo próprio ou familiar de mel e de outros produtos dessas abelhas.meliponário: locais destinados à criação racional de abelhas silvestres nativas. .namento na atividade de criação de abelhas silvestres nativas. procedentes dos criadouros autorizados pelo órgão ambiental competente. CAPÍTULO II Das Autorizações Art. sendo vedada a criação de abelhas nativas fora de sua região geográfica de ocorrência natural. 6o O transporte de abelhas silvestres nativas entre os Estados será feito mediante autorização do IBAMA. composto de um conjunto de colônias alojadas em colmeias especialmente preparadas para o manejo e manutenção dessas espécies. assim como o uso e o comércio de favos de cria ou de espécimes adultos dessas abelhas serão permitidos quando provenientes de criadouros autorizados pelo órgão ambiental competente. § 1o A autorização citada no caput deste artigo será efetiva após a inclusão do criador no Cadastro Técnico Federal-CTF do IBAMA e após obtenção de autorização de funcio. objetivando também a conservação das espécies e sua utilização na polinização das plantas. Art. a aquisição. 4o Será permitida a comercialização de colônias ou parte delas desde que sejam resultado de métodos de multiplicação artificial ou de captura por meio da utilização de ninhos-isca. 5o A venda. sem prejuízo das exigências de outras instâncias públicas57. Art. exceto para fins científicos. a manutenção em cativeiro ou depósito. a exposição à venda. § 3o A obtenção de colônias na natureza. bem como a captura de colônias e espécimes a eles destinados por meio da utilização de ninhos-isca. a guarda.rágrafo anterior os meliponários com menos de cinqüenta colônias e que se destinem à produção artesanal de abelhas nativas em sua região geográfica de ocorrência natural. a exportação e a utilização de abelhas silvestres nativas e de seus produtos. § 2o Ficam dispensados da obtenção de autorização de funcionamento citada no pa. na forma de meliponários.

Art. poderá autorizar que seja feito o controle da florada das espécies vegetais ou de animais que representam ameaça às colônias de abelhas nativas. Esta Resolução não dispensa o cumprimento da legislação que dispõe sobre o acesso ao patrimônio genético. Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação. mediante justificativa técnica. a partir da data de publicação desta resolução. CAPÍTULO III Disposições Finais Art. O não-cumprimento ao disposto nesta Resolução sujeitará aos infratores. 12. a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional associado e a repartição de benefícios para fins de pesquisa científica desenvolvimento tecnológico ou bioprospecção.As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 87 Art. MARINA SILVA . deverá baixar as normas para a regulamentação da atividade de criação e comércio das abelhas silvestres nativas. 8o O IBAMA ou o órgão ambiental competente. 7o Os desmatamentos e empreendimentos sujeitos ao licenciamento ambiental deverão facilitar a coleta de colônias em sua área de impacto ou enviá-las para os meli. de 17 de agosto de 2004 .Presidente do Conselho Este texto não substitui o publicado no DOU.605. 11. entre outras. Art.ponários cadastrados mais próximos. Art. Art. 9o O IBAMA no prazo de seis meses. às penalidades e sanções previstas na Lei no 9. 10. de 12 de fevereiro de 1998 e na sua regulamentação. nas propriedades que manejam os meliponários.

88 Manual Tecnológico Abelha Tiúba (Melipona compressipes) – Mato Grosso .

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92 Manual Tecnológico Abelha Rajada (Melipona asilvae) – Mato Grosso .

formada pela mistura de cera e própolis. Cria verde: termo utilizado para designar os favos de cria que abrigam ovos ou larvas de abelhas em desenvolvimento até a fase de pré-pupa. própolis. Colmeia: estrutura construída pelo homem para abrigar colônias de abelhas. por glândulas específicas.93 Glossário Assepsia: conjunto de medidas que permitem manter um meio isento da contaminação de bactérias. Casulo: película de textura sedosa que envolve larvas e/ou pupas de certos insetos. Beneficiamento: processo de transformar um produto primário em um produto de maior valor comercial. Cerume: principal matéria-prima de uma colônia de abelhas sem ferrão. destinado à formação de novas abelhas rainhas. em determinada fase de seu desenvolvimento. Cria madura: termo utilizado para designar os favos de cria que abrigam abelhas em desenvolvimento na fase de pré-pupa até abelha adulta. água e/ou outros materiais. geralmente é construída com madeira. Também é chamada de “postura”. Cera: material de coloração branca. coletando néctar. barro. Colônia: conjunto completo de determinada população de abelhas e suas estruturas naturais. Campeiras: abelhas operárias que realizam atividades externas à colônia. secretado por abelhas operárias jovens. pólen. Também chamada de “caixa”. Célula real: tipo específico de célula de cria. em forma de pequenas placas. . construído por abelhas do grupo Trigonini. Célula de cria: estrutura construída com cerume. Também é chamada de “cria nascente”. Cortiço: segmento de tronco de árvore utilizado na meliponicultura tradicional para abrigar uma colônia de abelhas sem ferrão. onde a rainha deposita um ovo que dá origem a uma nova abelha.

Meliponicultor(a): pessoa que exerce a meliponicultura. Meliponini: classificação dada ao grupo de espécies de abelhas sem ferrão. Envase: procedimento para introdução de produtos em determinado recipiente com o intuito de armazenar. para acesso ao mel. Desumidificação: processo de retirar ou diminuir a quantidade de água de determinado produto. Melgueira: elemento de uma colmeia destinado ao armazenamento de mel. na hora da coleta. formado pela mistura de barro e própolis. manipular e/ou distribuir em qualquer fase do seu processo produtivo. Invólucro: lâminas de cerume que envolvem os favos de cria para manutenção de temperatura. Divisão de colônias: processo de induzir a reprodução e a multiplicação de colônias de abelhas. Favo de cria: componente principal do ninho das abelhas sem ferrão. formado por um conjunto de células de cria. In natura: expressão utilizada para descrever alimentos que são consumidos em seu estado natural. as quais não possuem o hábito de construir células reais para a formação de novas rainhas. também chamado de desidratação. . Geoprópolis: material preparado pelas abelhas. Glândula: tipo de órgão presente em seres vivos. Meliponicultura: atividade de criação das abelhas nativas sem ferrão. Enxameagem: processo natural pelo qual as colônias de abelhas sem ferrão se reproduzem. Meliponário: local onde são instaladas colônias de abelhas sem ferrão para criação. geralmente chamado de “casa-do-mel” na cadeia produtiva do mel. exclusivamente do gênero Melipona. principais parasitas das colônias de abelhas sem ferrão. proteger. Entreposto: estabelecimento funcional estrategicamente situado entre um pólo produtor e um pólo consumidor. cuja função é secretar substâncias com função específica.94 Manual Tecnológico Desoperculação: processo de abertura dos potes de cerume. Forídeos: pequenas moscas do gênero Pseudohypocera.

Refratômetro: instrumento utilizado para determinar a concentração de açúcares de uma substância líquida.As Abelhas Nativas sem Ferrão e a Meliponicultura 95 Néctar: substância aquosa. no desenvolvimento de certos insetos. secretada pelos vegetais através de glândulas especializadas. Pólen: elemento reprodutor masculino das plantas. rica em açúcares. Operárias: abelhas fêmeas responsáveis pela maior parte das tarefas de uma colônia. é no estágio pré-pupa que a larva forma o casulo que abrigará a pupa. Pré-pupa: termo utilizado para indicar o estágio de desenvolvimento de certos insetos. . Trigonini: classificação dada a um grupo de espécies de abelhas sem ferrão. Sentinelas: abelhas operárias que exercem as funções de defesa de uma colônia. Coletado e transformado em mel. constitui principal fonte de proteínas. imediatamente anterior à pupa. No caso das abelhas sem ferrão. quando existente. invólucro. No caso das abelhas sem ferrão. Ninho-isca: recipiente deixado na natureza com a finalidade de capturar uma colônia de abelhas. Coletado. cuja principal característica comum é o hábito de construir células reais para a formação de novas abelhas rainhas. Pupa: estágio intermediário. formado por resinas coletadas de plantas lenhosas na natureza. entre a larva e o adulto. é a principal fonte de carboidratos das abelhas sem ferrão. a pupa é protegida por um casulo. produzido nas flores em forma de minúsculos grãos. Ninho: parte da colônia formada pelo conjunto de favos de cria e. processado e consumido pelas abelhas. Própolis: material preparado pelas abelhas.

br/ http://www.com/ http://www.org/ http://meliponarios.blogspot.ame-rio.com/ .facebook.blogspot.com/group/abena http://www.com/ http://www.96 Manual Tecnológico Amplie seus horizontes! A internet oferece ótimos espaços para a busca por informações sobre biologia e manejo de abelhas nativas http://br.meliponariodosertao.webbee.groups.yahoo.com/groups/233874557552/ http://criacaodeabelhassemferrao.blogspot.org.

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