O DISCURSO ORAL CULTO

USP – UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor: Prof. Dr. Jacques Marcovitch Vice-Reitor: Prof. Dr. Adolpho José Melfi FFLCH – FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS Diretor: Prof. Dr. Francis Henrik Aubert Vice-Diretor: Prof. Dr. Renato da Silva Queiroz CONSELHO EDITORIAL ASSESSOR DA HUMANITAS Presidente: Prof. Dr. Milton Meira do Nascimento (Filosofia) Membros: Profª. Drª. Lourdes Sola (Ciências Sociais) Prof. Dr. Carlos Alberto Ribeiro de Moura (Filosofia) Profª. Drª. Sueli Angelo Furlan (Geografia) Prof. Dr. Elias Thomé Saliba (História) Profª. Drª. Beth Brait (Letras)

PROJETO DE ESTUDO DA NORMA LINGÜÍSTICA URBANA CULTA DE SÃO PAULO (PROJETO NURC/SP - NÚCLEO USP)

Endereço para correspondência Comissão Editorial PROJETO NURC/SP – NÚCLEO USP FFLCH/USP Área de Filologia e Língua Portuguesa Av. Prof. Luciano Gualberto, 403 sala 205 – Cidade Universitária 05508-900 – São Paulo – SP – Brasil Tel: (011) 818-4864 e-mail: nurc@edu.usp.br Compras e/ou assinaturas HUMANITAS LIVRARIA - FFLCH/USP Rua do Lago, 717 – Cid. Universitária 05508-900 – São Paulo – SP – Brasil Tel: 818-4589 e-mail: pubflch@edu.usp.br http://www.fflch.usp.br SERVIÇO DE DIVULGAÇÃO E INFORMAÇÃO Telefax: 818-4612 – e-mail: di@edu.usp.br

PUBLICAÇÕES FFLCH/USP

Humanitas Publicações agosto/1999

FFLCH

ISBN: 85-86087-57-2

PROJETO DE ESTUDO DA NORMA LINGÜÍSTICA URBANA CULTA DE SÃO PAULO
(PROJETO NURC/SP-NÚCLEO USP)

Beth Brait - Diana L. P. de Barros - Dino Preti Hudinilson Urbano - Ieda M. Alves - Leonor Lopes Fávero Marli Q. Leite - Paulo de T. Galembeck – Zilda Maria Zapparoli

O DISCURSO ORAL CULTO
Dino Preti (org.)

2ª edição

PUBLICAÇÕES FFLCH/USP

1999
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO • FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

PUBLICAÇÕES FFLCH/USP

Copyright 1999 da Humanitas FFLCH/USP É proibida a reprodução parcial ou integral, sem autorização prévia dos detentores do copyright

Serviço de Biblioteca e Documentação da FFLCH/USP Ficha catalográfica: Margarida Maria de Souza CRB/8-5809

D611 O discurso oral culto / Dino Preti (organizador) et al. 2. ed. – São
Paulo, Humanitas Publicações – FFLCH / USP, 1999.– (Projetos Paralelos,V.2) 224p. ISBN: 85-86087-57-2 Projeto de Estudo da Norma Lingüística Urbana Culta de São Paulo - Projeto NURC/SP - Núcleo USP 1. Língua oral 2. Análise do discurso 3. Linguagem culta 4. Português - Língua - Brasil 5. Sociolingüística 6. Estilística I. Preti, Dino, org. II. Título III. Série CDD (19.ed.) 001.542 469.79861

HUMANITAS PUBLICAÇÕES FFLCH/USP e-mail: editflch@edu.usp.br Tel.: 818-4593
Editor Responsável Prof. Dr. Milton Meira do Nascimento Coordenação editorial e capa M. Helena G. Rodrigues Diagramação Selma Mª. Consoli Jacintho Revisão dos autores

1ª. edição 1997

.... interação e constituição do texto oral .. 21 Dino Preti 2............. 55 Beth Brait 4...... 19 1............................ 15 Normas para transcrição dos exemplos ..................... 161 Ieda Maria Alves ........................ 79 Marli Quadros Leite 5......................................................... 35 Diana Luz Pessoa de Barros 3........ A propósito do conceito de discurso urbano oral culto: a língua e as transformações sociais ...................... Processos de formulação do texto falado: a correção e a hesitação nas elocuções formais ....................................................................SUMÁRIO Dedicatória . 9 Breve notícia sobre os autores ................. 141 Leonor Lopes Fávero 7................................................................................................................................. A propósito do conceito de discurso oral culto: definições e imagens .. Purismo no discurso oral culto ............... Imagens da norma culta....... A expressividade na língua falada de pessoas cultas ......................... 7 Apresentação ......................................................................................................... Marcas do discurso de divulgação na linguagem falada culta ............................................... 115 Hudinilson Urbano 6...................................

... 8........ Preservação da face e manifestação de opiniões: um caso de jogo duplo .......................O discurso oral culto. p..... Considerações sobre a utilização de novas tecnologias na análise do léxico do português falado culto de São Paulo ................. 5-6..... 173 Paulo de Tarso Galembeck 9. 1999..................................... 195 Zilda Maria Zapparoli 6 ....

o qual encetava a exploração dos textos orais que gravara e então editava. Dino Preti e foi aprovada com louvor. em 06 de janeiro de 1959. foi co-autora de um capítulo. lecionou e obteve do CNPq uma primeira bolsa de iniciação científica para pesquisa. logo passando a integrar o Grupo das Terças do Projeto NURC/SP. valeu-lhe o Prêmio Moinho Santista Juventude de 1990 e deu origem a Marcadores de atenuação. Em 1980. O trabalho do marido levou-a para Minas Gerais e. depois. Ciências e Letras de Volta Redonda.O discurso oral culto. a cujo estudo se iria dedicar na Faculdade de Letras da UFRJ. Dr. casando-se com o engenheiro metalúrgico Sidney Costa Lima Raymundo. Estudos. ESTE LIVRO É DEDICADO À MEMÓRIA DE MARGARET DE MIRANDA ROSA Margaret nasceu no Rio de Janeiro. Não só participou da preparação dos volumes II e III de A linguagem falada culta da cidade de São Paulo. O turno conversacional. transferiu-se para a Faculdade de Filosofia. como no IV. livro publicado em 1992 pela Editora Contexto. que teve a orientação do Prof. por algum tempo. o campo que realmente a atraía e em que iria demonstrar seus altos dotes intelectuais. Em 1985 iniciou a Pós-Graduação na Universidade de São Paulo. Sua dissertação de Mestrado (Marcadores de atenuação na linguagem falada culta da cidade de São Paulo – NURC/SP). Ainda no ginásio se encantou com a língua portuguesa. onde foi monitora. filha caçula do desembargador Felipe Augusto de Miranda Rosa e Lourdes Aragão de Miranda Rosa. Iniciava um curso de Formação Holística de Base pela Uni7 . mãe de Thomaz e Guilherme. à dedicação exclusiva ao papel de esposa e.

e a saudade de sua presença amiga. cordial e serena. Margaret deixa no coração dos companheiros de Projeto NURC/SP a lembrança de seu brilho. de sua seriedade no trabalho. em Brasília. versidade da Paz. quando surgiu a doença que em curtíssimo prazo a levaria. 8 . alegre. aos 02 de julho de 1996. Breve e intenso clarão.O discurso oral culto.

que rediscutem. na maioria dos artigos. o primeiro composto pelos quatro primeiros ensaios. parti9 . como a Sociolingüística. Reunidos periodicamente em sua sede. mas sempre ligados à língua oral. constituiu importante estímulo para este novo livro da série PROJETOS PARALELOS: O discurso oral culto. e o segundo. Numa visão geral dos trabalhos deste livro. com os cinco trabalhos seguintes sobre temas diversos. Sua base teórica é. a documentação das idéias desenvolvidas foi realizada com os materiais colhidos pelo Projeto NURC/SP e. Letras e Ciências Humanas da USP. esses pesquisadores têm-se dedicado a discutir os mais variados temas ligados à análise da língua oral. a Análise da Conversação.O discurso oral culto. Esta obra incorpora o resultado desses debates e os enfoques mais recentes do estudo da língua falada. a Análise do Discurso. no prédio de Letras da Faculdade de Filosofia. diríamos que existem dois grandes blocos. a Estilística. Como a obra anterior. mas a ela vieram juntar-se outras linhas de estudo. coletânea de nove ensaios assinados também pelos pesquisadores do Núcleo USP do Projeto NURC/SP – Projeto de estudo da norma lingüística urbana culta de São Paulo. em geral. a Sociologia (em especial as idéias de Goffmann). a conceituação de linguagem e falantes cultos. APRESENTAÇÃO A boa receptividade do volume Análise de textos orais. a Informática aplicada à análise lingüística. sob enfoques modernos. publicado em l993 e já em segunda edição. ainda.

os índices de escolaridade. cularmente. em particular. nas grandes comunidades urbanas. visto sob o prisma das “ima10 . da “norma lingüística da mídia”. Retomando o mesmo tema. entendidos como aqueles de instrução média. O A. Diana Luz Pessoa de Barros analisa o conceito de conversação culta e de falante culto. No primeiro artigo. não é somente esse o papel social que os falantes constroem e expõem nos inquéritos do NURC. como esses falantes “têm consciência da existência de normas lingüísticas e conversacionais. como os primeiros.” O terceiro ensaio da obra. procura defender a idéia de que se processou. e se constroem. Em seu trabalho. embora “os responsáveis pelo Projeto NURC tenham definido o falante culto apenas como falante instruído. como variável identificadora dos falantes. mas agora sob o enfoque de “Definições e imagens”. mostra que há um processo em curso de uniformização social da língua. de autoria de Beth Brait. perdendo-se ou confundindo-se. mostra a A.” Partindo dos procedimentos de correção no discurso. uma aproximação entre a língua falada culta e a dos falantes comuns. a partir daí. com os três primeiros volumes da série A LINGUAGEM FALADA CULTA NA CIDADE DE SÃO PAULO (l986-l988). mas que. um discurso da norma na fala. Dino Preti reflete sobre as transformações da sociedade brasileira nas últimas décadas e as suas conseqüências sobre a língua. fabricam uma imagem dessas normas e. em decorrência dos contextos interacionais da cidade grande. sofrem a influência das mudanças sociais e. onde se misturam freqüentemente os mais diversos tipos de falantes. denomina de “imagem da norma culta”. também aborda o problema da conceituação de norma.O discurso oral culto. detendo-se a examinar também a atitude lingüística desse falante e a sua construção consciente do que a A. “A propósito do conceito de discurso urbano oral culto: a língua e as transformações sociais”. nas interações. como falantes cultos com funções sociais determinadas. por conseguinte. Para a pesquisadora.

os diálogos e entrevistas constituem “um vasto material para o conhecimento das imagens da norma culta e de seus falantes. pelo menos em potencial. a de Evanildo Bechara e a de Celso Cunha e Lindley Cintra. Hudinilson Urbano estuda “A expressividade na língua falada de pessoas cultas”. há dois tipos de traços e efeitos expressivos: “os relacionados à expressão dos elementos subjetivos e afetivos. compara usos puristas e antipuristas. mostra como é possível chegar-se à compreensão do discurso culto por meio da análise do imaginário dos falantes e da metalinguagem revelada nos seus textos. O quarto artigo (e último que trata de tema ligado à conceituação do discurso oral culto) examina a permanência do purismo lingüístico na linguagem dos falantes cultos. se não se conseguiu. ao lado de exemplos retirados de um discurso presidencial de Fernando Henrique Cardoso. em nível de léxico e de morfossintaxe. e os veiculados à expressão dos aspectos interacionais.” 11 . até mesmo. Assim.” A A. Sua autora. flagrados nas formas lingüísticas enunciativas e discursivas”. associando campos teóricos diversos (a Análise da Conversação e a Análise do Discurso de inspiração bakthiniana).O discurso oral culto. documentando-os com trechos de entrevistas gravadas pelo NURC/SP. Para o A. O artigo. particularmente. gens que os interlocutores têm da norma culta e de sua importância em alguns processos interativos específicos. até o momento. O parâmetro para aferir purismo/antipurismo será a metalinguagem prescritiva de duas gramáticas da língua portuguesa. Os cinco ensaios que se seguem têm como objetivo diversos problemas ligados ao discurso oral culto ou. Marli Quadros Leite. chegar a um conceito mais preciso e fechado de norma urbana culta na cidade de São Paulo. na linguagem da conversação. convencido de que tal característica se encontra. à sua forma de análisá-lo por meio de técnicas informáticas modernas. assume a posição crítica de que.

o A. processos de reformulação (paráfrases) e tipos específicos de marcadores conversacionais (hedges). Sua análise é baseada nas elocuções formas (EF) do Projeto NURC/SP. Leonor Lopes Fávero estuda o processo de correção e 12 . procurando mostrar estratégias de distanciamento e envolvimento dos interlocutores ou de defesa e resguardo de suas opiniões no ato de fala. como as ciências e as técnicas. a existência de uma formulação e reformulação contínua. todo conhecimento se apóia em um processo preexistente. isto é. caracterizando muitos dos fenômenos expressivos e mostrando. Partindo de idéias do sociólogo americano Goffmann e baseado. examina vários diálogos do projeto NURC/SP. também. em textos de fundo opinativo ou judicativo de falantes cultos. no clássico estudo de Brown e Levinson sobre face. Ieda Maria Alves escreve especificamente sobre problemas de terminologia. de tal forma que “a formulação é. Hudinilson Urbano examina o texto de um diálogo gravado do NURC/SP. já que. Para comprovar a presença de ambos no discurso culto. presentes no discurso dos falantes cultos. como fatores interacionais agem sobre o falante no sentido de que estes manifestem suas emoções e despertem nos interlocutores sentimentos análogos. de certa forma. estratégias que se evidenciam em marcas gramaticais. textos que reproduzem aulas ou conferências.” O ensaio de Paulo de Tarso Galembeck baseia-se no problema da auto-imagem do falante e discute os mecanismos de preservação da face. uma reformulação. à sistematização conceitual. Ainda a propósito de textos de elocuções formais (EF) gravados pelo NURC/SP. por exemplo. “Marcas do discurso de divulgação na línguagem falada culta” se detém nas características terminológicas de um tecnoleto que “visa à precisão semântica. à economia formal e semântica”.O discurso oral culto. à neutralidade emotiva. Um dos objetivos principais desse artigo é demonstrar que o traço predominante do discurso de divulgação é a consciência que o falante tem de uma anterioridade.

que pressupõe trabalho em um ambiente de tecnologia de ponta da Informática. enfim. como Marcuschi. 13 . reconhece que o assunto constitui um amplo e aberto campo de pesquisa. utilizando técnicas computacionais de última geração ligadas a fundamentos lingüísticos. hesitação no discurso culto. a partir da “aplicação de técnicas computacionais que possibilitem a intersecção homem/máquina nas etapas de armazenamento. Sacks. No último artigo desta obra. entre outros.” A A. matemáticos e estatísticos. analisa a auto-correção do tipo auto-iniciadas. No primeiro. analisa a sua ocorrência nos mesmos níveis lingüísticos em que estudou a correção. demonstrar experiências originais. Apesar de referir-se a lingüistas conhecidos da linha da Análise da Conversação para documentar sua linha teórica. nos níveis lingüístico (fonético-fonológico. por exemplo. a A. propor ao leitor o desafio de encarar criticamente certos conceitos lingüísticos sobre os quais muitos especialistas já teriam fechado questão. baseia-se no método de análise de textos desenvolvido por André Camlong.O discurso oral culto. o de norma e discurso culto. sua descrição lexical pautou-se por “um método descritivo. Ligando a hesitação às disfunções. objetivo e indutivo de análise. mostrando as diferenças entre os dois tipos de fenômeno. lexical e morfossintático) e enunciativo. Gülich e Kotschi. rever e rediscutir temas tradicionais. Conforme esclarece em seu artigo. Schegloff e Jefferson. a A. A idéia central de seu texto é mostrar como é possível trabalhar com o léxico desses inquéritos. Zilda Maria Zapparoli realiza uma análise lexical de nove entrevistas do Projeto NURC/SP. Chafe. que é a de abrir novos campos de estudo e pesquisa. como. mediante a utilizaçào do programa Stablex. do Centre de Recherches Iberiques Contemporaines (Universidade de Toulouse II) e pretende demonstrar a possibilidade de descrever o léxico. processamento e recuperação qualitativa e quantitativa de informações lingüísticas.” Pode-se sentir pela leitura dos nove ensaios desta obra a idéia que presidiu sua elaboração.

da Sociologia. Rastreando temas conhecidos da Análise da Conversação. D.O discurso oral culto. O discurso oral culto pretende ser. 14 . da Lexicologia. enveredando pelo campo das experiências computacionais aplicadas à Lingüística.P. acima de tudo. da Análise do Discurso. uma provocação ao debate científico. da Estilística. no sentido de abrir novos e desafiadores caminhos para a pesquisa lingüística.

onde é professora aposentada. Em torno de Bakhtin (em co-autoria com José Luiz Fiorin). BREVE NOTÍCIA SOBRE OS AUTORES BETH BRAIT é doutora e livre-docente pela USP. Teoria semiótica do texto. Letras e Ciências Humanas da USP foi presidente da Associação Brasileira de Lingüística – ABRALIN. Tem desenvolvido e orientado pesquisas e publicou obras. intertextualidade. entre as quais a recente Ironia em perspectiva polifônica. Principais livros: Teoria do discurso. leciona como professora convidada no programa de pós-graduação do Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia. Possui várias obras sobre problemas lingüísticos e literários. principalmente nas áreas de Teoria e análise de Textos. Dialogismo. Foi durante anos crítica literária do Jornal da Tarde. Nessa universidade. Semiótica discursiva e Estudos de língua falada. professor titular de Língua Portuguesa pela USP (aposentado) e. DINO PRETI. Fundamentos semióticos. É Coordenador Científico do Projeto NURC/SP e seus trabalhos se encontram nas áreas de língua oral. atualmente. além de incursões em áreas lingüísticas interliga15 . professor de Língua Portuguesa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atua também no programa de pós-graduação do Departamento de Lingüística Aplicada da PUC/SP.O discurso oral culto. professora titular de Lingüística na Faculdade de Filosofia. polifonia. DIANA LUZ PESSOA DE BARROS. vocabulário popular. Letras e Ciências Humanas.

O discurso oral culto. Criação lexical. MARLI QUADROS LEITE é professora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia. Letras e Ciências Humanas da USP. onde leciona Língua Portuguesa. trabalha como Professora Associada do Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia. Tem-se dedicado ultimamente ao estudo da língua falada e suas relações com a língua escrita. Letras e Ciências Humanas da USP. Principais publicações: Sociolingüística – os níveis de fala. Letras e Ciências Humanas da USP e trabalha na área de Filologia e Língua Portuguesa. especialmente a criatividade lexical e a elaboração de dicionários terminológicos. A linguagem dos idosos. Seus trabalhos têm abordado a área do léxico. doutora em Lingüística pela Universidade de Paris III. Defendeu Mestrado e Doutorado em Semiótica e Lingüística. LEONOR LOPES FÁVERO. Sociolingüística e Literatura. Letras e Ciências Humanas da USP. Além de artigos e 16 . com participação ativa dentro do Projeto NURC/SP. doutora pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e livre-docente pela USP. Sorbonne Nouvelle. pesquisas sobre estratégias e mecanismos de produção do texto oral. Está também ligado ao Projeto Nacional de Gramática do Português Falado. IEDA MARIA ALVES. na mesma universidade. desde 1972. A gíria e outros temas. Nos dois projetos realizou e publicou. leciona a disciplina de Filologia e Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia. Sua especialidade abrange os campos da Lingüística Textual e dos Estudos de língua falada e história das idéias lingüísticas. A linguagem proibida. das. como a Sociolingüística e Análise da Conversação. e sua especialidade é o estudo da norma e uso lingüísticos. É autora de Neologismo. HUDINILSON URBANO é doutor pela Faculdade de Filosofia. individualmente ou em co-autoria. Obra mais recente: As concepções lingüísticas no século XVIII.

escreveu seu doutorado que apresentou na USP sobre Um estudo dos elementos anafóricos em textos conversacionais – Projeto NURC/SP. 17 . USP. na área de Lingüística. em 1990. ensaios. Tem publicado um grande número de artigos sobre problemas conversacionais em revistas e coletâneas científicas ligadas a áreas da Lingüística.O discurso oral culto. ZILDA MARIA ZAPPAROLI é professora livre-docente pela USP. mais comumente da Análise da Conversação. onde atua no programa de pós-graduação da mesma universidade. Defendeu Mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo sobre o tema: Um estudo da correferência entre sintagmas nominais do português e. PAULO DE TARSO GALEMBECK leciona Língua Portuguesa na Faculdade de Ciências e Letras da UNESP – campus de Araraquara. Suas atividades se concentram na aplicação das técnicas computacionais à pesquisa e análise lingüística. é autora do livro Metalingagem e discurso – a configuração do purismo brasileiro. publicado pela Humanitas.

Central. existe uma. certo? são três motivos...... que faze m com que se retenha moeda. usa-se acento indicativo da tônica e/ou timbre) Entonação enfática / maiúscula e comé/ e reinicia porque as pessoas re TÊM moeda Prolongamento de vogal e consoante (como s.r) ::podendo aumentar para :::: ou mais ao emprestareos.. Comentários descritivos transcritor ((minúscula)) ((tossiu)) * Exemplos retirados dos inquéritos NURC/SP nº 338 EF e 331 D2 19 . NORMAS PARA TRANSCRIÇÃO OCORRÊNCIAS Incompreensão de palavras ou segmentos Hipótese do que se ouviu SINAIS ( ) EXEMPLIFICAÇÃO do nível de renda ( ) nível de renda nominal (estou) meio preocupado (com o gravador) (hipótese) Truncamento (havendo homografia...... ou três razões. retenção Silabação Interrogação ? Qualquer pausa .... éh ::: .O discurso oral culto..... dinheiro por motivo tran-sa-ção e o Banco.

(alongamento e pausa).vamos dar essa notação ...) (. Não se anota o cadenciamento da frase. OCORRÊNCIAS Comentários que quebram a seqÜência temática da exposição. A. [ cozinharam lá? B. simultaneidade de vozes ligando as linhas A. Por exemplo: oh:::. 7... Não se utilizam sinais de pausa. ponto final. Não se indica o ponto de exclamação (frase exclamativa) 6... como ponto. 20 . 5. Citações literais ou leituras de textos.demanda de moeda por motivo Superposição. desvio temático SINAIS EXEMPLIFICAÇÃO ---- . Não no seu início..O discurso oral culto.. As reticências marcam qualquer tipo de pausa.) 2. durante a gravação “” Pedro Lima. típicos da língua escrita.) nós vimos que existem. OBSERVAÇÕES: 1... podem-se combinar sinais. Iniciais maiúsculas: só para nomes próprios ou para siglas (USP etc. tá (não por está: tá? você está brava?) 3... vírgula..evírgula.na casa da sua irmã [ sexta-feira? B. 4.éh..ah escreve na ocasião.. Fáticos: ah..fizem LÁ. dois pontos. (..a demanda de moeda . Números: por extenso. Indicação de que a fala foi tomada ou interrompida em determinado ponto. “O cinema falado em língua estrangeira não precisa de nenhuma baRREIra entre nós”. Nomes de obras ou nomes comuns estrangeiros são grifados. ahn. uhn.. ehn. 8. por exemplo.

O discurso oral culto.

A PROPÓSITO DO CONCEITO DE DISCURSO URBANO ORAL CULTO: A LÍNGUA E AS TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS

Dino Preti

Quando se iniciaram as análises das gravações do Projeto NURC/ SP, havia a expectativa de se encontrar nos diálogos e entrevistas a linguagem de falantes que correspondesse à classificação antecipada de culta. Porque na escolha desses informantes foi levada em conta sua formação universitária e essa variável – grau de escolaridade – constituiu a base para a formação do corpus Essas primeiras análises, no entanto, revelaram resultados inesperados e até contraditórios. Considerando que as situações de interação eram praticamente sempre as mesmas, isto é, gravações conscientes, monitoradas por um documentador, com fases mais espontâneas e outras mais tensas, com variações de nível de intimidade entre os interlocutores dos diálogos ou das entrevistas, os inquéritos acabaram revelando um discurso que se identificava, na maioria das vezes, com o do falante urbano comum. E damos a essa denominação o sentido que lhe atribuímos em outro momento (PRETI, 1994: 36-37), isto é, o de um falante de um dialeto social dividido entre as influências de uma linguagem mais tensa, marcada pela preocupação com as regras da gramática tradicional, e uma linguagem popular, espontânea, distensa. Portanto, essa hipotética linguagem urbana comum comportaria opo21

PRETI, Dino. A propósito do conceito de discurso urbano oral...

sições como a presença de uma sintaxe dentro das regras tradicionais da gramática ao lado de discordâncias, regências verbais de tendência uniformizadora, colocações dos componentes da frase justificadas pelos elementos prosódicos, como no caso dos pronomes pessoais; abrangeria a precisão de um vocabulário técnico, ao lado da abertura de significado de vocábulos gírios; utilizaria vocábulos raros, de significação precisa, específica, concomitantemente com vocábulos populares de uso constante e de significado aberto. Portanto, os componentes desse discurso urbano comum se adequariam às variações de interação a que estão sujeitos os falantes nas cidades grandes, ajudando a expressar os vários papéis sociais que desempenham, respeitadas as características da situação interacional. Tratase, pois, de um dialeto social que atende tanto aos falantes cultos como aos falantes comuns, com menor grau de escolaridade. Note-se que estudos sobre problemas de variação de linguagem provocados por variação de situações interacionais já tinham demonstrado que falantes cultos podem utilizar uma variedade de registros que vai do formal ao coloquial, em função de suas necessidades de comunicação. E, mais: é a possibilidade dessa variação de registros que nos permite identificar o falante culto real e não seu conhecimento maior ou menor das regras da gramática tradicional, conhecimento de que se utilizaria muito mais na língua escrita (Cf. PRETI, 1990: 4-5). Um episódio histórico, nos Estados Unidos, o caso Watergate, com suas gravações secretas, revelou ao país inteiro, não só graves problemas políticos, como também o fato de que o presidente americano – um falante culto – “tinha na intimidade de seu gabinete a mais vulgar das linguagens”(ALÉONG, S. s/d: 265). No Brasil, o caso Ricupero mostrou, também, como um ministro, de linguagem normalmente tensa em seu pronunciamentos, utilizava, numa conversa informal nos bastidores de uma emissora de TV, esperando o momento de uma entrevista oficial, uma linguagem com marcas populares. O fato motivou o comentário curioso de um cronista social, que se revela um purista intransigente, esquecido da situação de comunicação em que ocorrera o diálogo:
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O discurso oral culto.

“Foi quase inacreditável ouvir Rubens Ricupero falar, na sua terrível entrevista, duas vezes, pô, uma linguagem chula que não cabe numa figura tão religiosa quanto ele. Ou será que Ricupero não sabe que pô é abreviatura de “pô...” (Diário de Pernambuco, 6/9/94 – apud MARCUSCHI, 1996: 8)

Podemos afirmar que, hoje, pelo menos entre os estudiosos da linguagem, há um concenso sobre esses problemas de variação de linguagem dos falantes cultos, isto é, aqueles que sabem escolher a variante adequada, de acordo com as situações de interação. Mas, se voltarmos à idéia de que as gravações do NURC/SP se processaram dentro de uma situação de interação quase sempre igual – exceção feita, talvez, das elocuções formais, realizadas para um público ou então de alguns diálogos e entrevistas de que participaram interlocutores mais formais, pela própria personalidade ou pelas funções de que estavam investidos – podemos observar que, na grande maioria das vezes, a linguagem se identifica com a de falantes que estão fora do grupo dos cultos e que falam normalmente a linguagem comum que se fala na cidade grande. Como se explica que os falantes cultos não apresentem (como todos desejariam) um discurso bem característico, em que a cultura lingüística ficasse suficientemente comprovada? Primeiramente, é preciso lembrar que, dentro do contexto social das últimas décadas do século, tem predominado, no Brasil, um processo de uniformização cultural, em decorrência de um fenômeno político de democratização, acentuado, entre nós, nos anos noventa, mas já perfeitamente observado nos fins da década de setenta. Esse processo vem estendendo a uma faixa cada vez maior da comunidade urbana as possibilidades de acesso à escola (e até mesmo à universidade), assim como lhe tem proporcionado um acesso mais fácil e intenso à informação, às fontes de notícia, aos meios informatizados. Por outro lado, um lazer, de certa maneira, uniforme, preparado para atingir indistintamente todas as classes sociais, vem aumentando de forma acentuada a presença da midia,na cultura contemporânea, levando a sua linguagem oral e escrita
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PRETI, Dino. A propósito do conceito de discurso urbano oral...

a tornar-se padrão até para estudos da norma escolar. E, talvez, pensando nisso, um lingüista brasileiro de linha gerativista, Mário Perini, produziu sua Gramática descritiva do Português (1995), na introdução da qual se refere à idéia de elaborar uma gramática, considerando “o padrão geral, aquela variedade de língua que se manifesta de maneira uniforme nos textos técnicos e jornalíticos de todo o país”(p.26). Na verdade, esse “padrão geral não-literário” (id.) raramente aparece nos exemplos da obra, praticamente, todos eles, imaginados pelo autor. Mas é de se supor que a norma da midia tenha presidido a exemplificação criada por Perini. Caberia lembrar, a propósito, que a linguagem do jornal, mas também a do rádio, da TV,do cinema, do teatro e da propaganda, mesmo quando escrita, representa uma associação do oral com o escrito, valendo-se das estruturas da fala espontânea, associadas aos preceitos da gramática tradicional, o que se tornou norma na linguagem urbana comum. Da mesma forma, seu vocabulário é uma curiosa mistura de vocábulos tidos como cultos com vocábulos populares e gírios. Também já se começa a propor para o ensino o texto oral comum, distante do literário, mas sob muitos aspectos seu inspirador imediato, como afirma Marcuschi:
“... já se deu há algum tempo uma passagem do uso do texto exclusivamente literário para o não literário, e agora começa, com certa timidez, a entrada do texto falado. É de supor que a compreensão das formas da oralidade venha a lançar luz sobre uma série de usos lingüísticos na própria Literatura, como no caso mais notório que é Guimarães Rosa.” (MARCUSCHI, L.A, 1993:4)

Índice inequívoco dessas transformações culturais, a presença da linguagem oral comum, até em contextos de ensino, demonstra uma nova atitude lingüística, em que está implícita a rejeição do caráter normativo inflexível da tradição gramatical e a aceitação do caráter normal do uso vigente. Um dos índices mais expressivos desse processo democratizador da cultura e de sua representação na linguagem espontânea ocorre, em
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por exemplo. ao lado de marcas da linguagem popular. uma marca representativa do léxico popular na linguagem urbana comum. pois. podem estar presentes também nos falantes comuns e. Em que poderíamos diferenciar os falantes urbanos cultos dos falantes chamados comuns? Dependendo da situação de interação. específicos. em decorrência de seu grau de escolaridade. Esse painel cultural e suas conseqüências lingüísticas favorecem decididamente a linguagem popular. na época contemporânea. Pode-se afirmar que muitas de suas formas expressivas. se disséssemos que esse vocabulário se expandiu consideravelmente. em início de frase. embora haja ocorrências. incluindo-se também na fala das pessoas cultas e nas suas expectativas com referência aos interlocutores. não seria mais possível a um falante culto. que se incorporaram ao que denominamos de linguagem urbana comum. com isso. porque revelam um nível alto de escolaridade do falante. como no inquérito 343 (falantes da primeira faixa etária – 25/35 anos). hoje. estamos propondo a relatividade da classificação de dialetos sociais e registros. em qualquer tipo de situação interacional. por exemplo). com o uso crescente das formas gírias.T. Suponhamos alguns trechos de diálogos do NURC/SP. Eles nos mostram a presença de marcas de linguagem culta. como determina a gramática tradicional. restrita apenas ao artigo (“os nego”): 25 . Assim. em que se perde no sintagma uma marca de plural. evitar sempre o uso do pronome proclítico. D. São raros os momentos em que surgiram marcas de uma linguagem reveladora de uma baixa escolaridade do falante ou até de escolaridade nula. surgindo inclusive em situações de interação formal e constituindo. nas mais variadas situações de interação.O discurso oral culto. durante uma interação. nível de léxico. 1987). Não são certamente índices absolutos. aumentam-lhe o prestígio. dependendo das circunstâncias (convívio com falantes cultos. podemse identificar aqueles por apresentarem certas marcas provenientes de sua cultura lingüística. retirados de cinco textos publicados pelo Projeto (CASTILHO. com os mais variados tipos de falantes (inclusive os cultos). Não estaríamos exagerando. se incorporaram definitivamente à linguagem oral urbana comum. envolvendo faixas etárias diferentes. embora em desacordo com a tradição gramatical./ PRETI. A.

enquanto não chegou naquilo é deixado os nego atuarem à vontade” (idem. a tensão conversacional obriga os falantes a controlarem mais o que dizem.. Mas o uso lingüístico acaba sendo mais forte e várias vezes essa mesma regência se transforma em direta. são os casos de uma linguagem que se aproxime da escrita... pois a interação une o diretor de um grande colégio de São Paulo e um de seus professores. “ F. mas existem... Nesse inquérito.PRETI. parece que... um. 1485-1490) Esses casos. mas em termos assim de. no gabinete da diretoria: “F. o que é comprovado pelo restante da gravação. também.2 geralmente o dia que a gente vai ao cinema é na sexta-feira à noite.... assistir assim os filmes que a gente considera melhor” (idem 438-440) (523-525) 26 ... Os exemplos mais importantes estão no inquérito 255 (interlocutores da segunda faixa etária – 36/55 anos).vai passar um filme que eu já assisti há dez anos atrás e que é uma re/ uma re/ é uma representação então eu até aviso o pessoal ‘olha vamos ter hoje esse filme’então a gente fica junto assiste a esse filme. em que os falantes se formalizam.1 então tem.. o próprio conjunto MUda.... alguma coisa que. porém..... em determinado momento a regência indireta do verbo assistir (no sentido de “estar presente”). formado de várias exposições longas. de modo a eliminar aquilo.2 é assim quando a gente sabe hoje vai ter um filme bom. o próprio. muito mais do que a um hábito lingüístico constante do falante. Raros....” (idem..... observamos que um dos falantes chega a empregar. força::da. A propósito do conceito de discurso urbano oral. Dino. como é hábito na linguagem urbana comum....de morte assim. 494 –500) Esse diálogo apresenta-se tenso. podemos levar à conta de uma pronúncia descuidada.. então a gente procura ir.. assistir habitualmente não existe isso..... A interação perde sua naturalidade. em São Paulo: “F. passa da taxa de um por cento de. a situação da coisa. que mais se assemelham a depoimentos individuais.

... diante disso eu:: vislumbrei outras. escandalo::sas.. F. para.” (NURC/SP 255..” (NURC/SP 343... assim. e que dava bola para todo mun::do então eram escandalosas” (idem.......... 1265) “F.. o discurso dos falantes cultos pode ser identificado pelas seguintes características: – marcas de um vocabulário mais amplo. D2.... vocês conhecem? as profissões ah::: no segundo ciclo e terceiro ciclo.. mas eu considero o automóvel... então. menos recatadas menos coisas que eram consideradas.. mais você perde a per-cepção de que as coisas .O discurso oral culto....1 no namorar:: no portar-se.. de bens....1 escandaLOsa:: no trajar e no no:: portar-se.. Nos textos escolhidos... aquele gosto dela não só arquitetura não é?” (NURC/SP 360. se dão em ciclos. materiais... 182-187) “F... leva a vidinha dela talvez ela se encaminhe para isso a não ser que haja outras aberturas hoje eu estive vendo.. D2.2 namorar F...1 eu sou um indivíduo:: muito despreendido.. indispensáveis à minha vida. um livro editado pelo::. aquelas mais rápidas não? que são as tecnológicas.. realmente me importo muito pouco com aquilo que:: tenho.1 como ela::. no terceiro as profissões de menos duração e de mais duração.. éh:: uma moça que vivia na janela o dia inteiri::nho. como sendo um dos bens.. D2... ahn. de menor uso na linguagem comum e mais preciso em sua significação: “F.. por sair com com um rapaz de braços da::dos.. por uma questão de natureza. face às condições do transporte urbano....... 241-248) 27 . 841-843) “F. Instituto Roberto Simonsen. coisas..... enfim atitudes menos::..2 quanto mais você se distancia da natureza...

não sei..2 é.. duzentos anos assim entre outras Doc. saneamento F.....2 é assim quando a gente sabe hoje vai ter um filme bom...... é a moda......... mas em termos assim de.” (NURC/SP 343. antigamente era::.PRETI.. em temos de mercado.. saneamento.1 exatamente.. D2.. F.vai passar um filme que eu já assiti há dez anos atrás e que é uma re/ uma re/ é uma representação então eu até aviso o pessoal ‘olha vamos ter hoje esse filme’então a gente fica junto assiste a esse filme...” (NURC/SP 255.” (NURC/SP 62. A propósito do conceito de discurso urbano oral. agora é infraestrutura e poluição ((risos)) F..1 problema emocional para a cidade seria.. “F.. quando. uns::... assistir habitualmente não existe isso. aquela porção..... uma melhor qualificação dos programas acaba se frustrando naturalmente...2 saneamento. obviamente. 200-203) “F. 220-22l) – estruturas que lembram as normas da gramática tradicional.. portanto...... 1020-1023) – uso de vocábulos técnicos: “ F... que busca. 568-573) “F.. despoluição. seria analogia de terapia com o indivíduo.. conjuntura..... Dino. à formação escolar do falante: “F. procura atingir uma faixa quantitativa. D2... D2. eu creio que sempre quando o o..1 bom.2 os chine::ses iriam dominar a Europa... remetendo.” (NURC/SP 255. D2. 494-500) 28 ..2 coisas mas aí já é muito elocubrativo né?” (idem.. a programação.. quando.

......1 os coques F. o Brasil diz-se basicamente subdesenvolvido e dizse também que ele está crescendo.. imigração. 523-525) 29 .O discurso oral culto. D2.1 havia os que as que gostavam de cachos havia quem gostava de coque havia quem gostava de franjinha. 623-626) “F.” (NURC/SP 343...” (idem. “F.” (idem. aquela... D2.1 cresceu muito depois da guerra. várias marcas da linguagem popular como...2 quanto mais você se distancia da natureza.. mais você perde a percepção de que as coisas. entende? eu achei muito bacana. do NORte sobretudo do Norte.2 então::: fulano de tal:: sempre foi:: um:: menino mais estudioso.2 para viVER o que ele acreditava que era o papel de um policial numa linha de verdade.1 crescimento.. 499-500) Ao mesmo tempo..... 1140-1146) “F.... pega e mandam procurá-lo porque acham que ele tem. menção honro::sa não sei o que tarará. podemos observar que esse discurso incorpora. 841-843)” “F. e::..” (NURC/SP 396... não é? tirou diploma com:::.. 1960-1965) “F.2 desenvolvimento em que sentido? F. por exemplo: – gíria e vocábulos de intensificação expressiva.. e se ele não arranja tem muita gente que fica chateada ou pelo menos desapontada.. se dão em ciclos. D2. D2.. de efeito hiperbólico: “F. mas certamente por influência do uso comum. talvez para efeito expressivo.2 tem peruca F. condições para arranjar.... então aí mudou mudaram-se os hábitos mudou.2 agora há muita peruca F... né? ((risos)) e::: não é fácil ((risos)) (NURC/SP 360...” (NURC/SP 255....

. menos recatadas menos coisas que eram consideradas.1 então os homens ainda estão num esquema bem bolado. de hoje em dia cria certo?” (idem.. e:: já podaram o nazismo F... mas também não passa de um por cento. 1422-1424) “F...1 escandaLOsa:: no trajar e no no:: portar-se.” (idem. hoje..2 acho que::. Dino.... nas décadas 80 e 90. 241-248) A ocorrência de vocábulos gírios.1 no namorar:: no portar-se. e que dava bola para todo mun::do então eram escandalosas” (NURC/SP 396.... por sair com com um rapaz de braços da::dos.. D2.. F. 1435-l437) 30 .. vinte anos depois da maioria dessas gravações.. do que uma.. o que ela criava o que ela produzia..... o nazismo.1 me preocupo com o humano... sabe você vai saber controlar se for consciente a tua criação se souber por que você está fazendo aquilo” (NURC/SP 343.. D2. enfim atitudes menos::.2 uhn uhn (NURC/SP 343. éh:: uma moça que vivia na janela o dia inteiri::nho... se embananando ele sozinho com as coisas que ele cria. porque a gíria adquiriu.... se testada no discurso dos falantes cultos. A propósito do conceito de discurso urbano oral.. um prestígio crescente. 1034-1039) “F. escandalo::sas.. que não não foram eles que criaram mas. certamente seria bem mais intensa. era muito menos. sabe porque você tinha civilizações antigas. D2... dez milhões F......2 uhn o nazismo matou..PRETI... “F.. surgindo até em interações de natureza mais formal.. deixa eles irem para a frente.1 então.2 namorar F.. – mistura de tratamentos gramaticais tu/você: “F. 1480-1485) “F.. mas. matou:: uma cacetada de:: judeus.

..... e se ele não arranja tem muita gente que fica chateada ou pelo menos desapontada... D2..1 depois à tarde volta aquele mesmo serviço certo? de atender os clientes éh:: ora mostrando os equipamentos ora fazendo demonstração.” (idem.... condições para arranjar..... 31 ...2 então::: fulano de tal:: sempre foi:: um:: menino mais estudioso. 109-113) – formas irregulares do futuro do subjuntivo confundidas com o infinitivo: “F. – pronomes pessoais ele e suas variações como objeto direto: “F.O discurso oral culto. pega e mandam procurá-lo porque acham que ele tem.2 então::: fulano de tal:: sempre foi:: um:: menino mais estudioso.... típico marcador conversacional.. 154-156) – formas onomatopaicas: “F.” (NURC/SP 62.. não é? tirou diploma com:::. menção honro::sa não sei o que tarará.. né? ((risos)) e::: não é fácil ((risos))” (NURC/SP 360. deixa eles irem para a frente. D2..... ainda muito em uso em certos contextos falados: “F. eh ora levando eles na nossa filial e:: mostrando o equipamento in loco. menção honro::sa não sei o que tarará. 1422-1424) “F. não quer saber de gravata não quer nada aqui em São Paulo se você não por uma gravata você não é bem recebido (idem. não é? tirou diploma com:::.1 então os homens ainda estão num esquema bem bolado.2 carioca já é mais folgado carioca::. que não não foram eles que criaram mas. pega e mandam procurá-lo porque acham que ele tem.. 1140-1146) – italianismos da linguagem ítalo-brasileira de São Paulo...

porque::. 24l-248) Mas podem ocorrer também em nível de estruturas gramaticais: 32 .. assim. Voltemos a um dos textos citados: “F. ocorrem marcas de uma linguagem que revela suas ligações com um pretenso nível culto e um nível popular. éh. D2. menos recatadas menos coisas que eram consideradas... A propósito do conceito de discurso urbano oral.. também...” (NURC/SP 62. eh ora levando eles na nossa filial e:: mostrando o equipamento in loco. Dino. e que dava bola para todo mun::do então eram escandalosas” (NURC/SP 396.. que...1 alguns clubes italianos ainda era relativamente modestos...PRETI.2 namorar F. 109-113) Observe-se. Os exemplos são mais freqüentes em nível lexical.. variações que se encontram. num mesmo momento do texto (num mesmo turno). ibidem) – discordâncias entre verbo e sujeito posposto: “F. milionário aqui só existia nessa ocasião três ou quatro. 530-533) – regências de verbo de movimento com preposição em: “F.. no que denominamos de uso lingüístico comum.3 no namorar:: no portar-se. né? ((risos)) e::: não é fácil ((risos)) (idem.” (NURC/SP 396. por sair com com um rapaz de braços da::dos...1 depois à tarde volta aquele mesmo serviço certo? de atender os clientes éh:: ora mostrando os equipamentos ora fazendo demonstração. condições para arranjar.... D2...enfim atitudes menos::. F.l escandaLOsa:: no trajar e no:: portar-se......:: uma moça que vivia na janela o dia inteiri::nho.. escandalo::sas.. e se ele não arranja tem muita gente que fica chateada ou pelo menos desapontada..

Jacques (éd. além de problemas tipicamente interacionais. a ação da norma empregada pela mídia). se pretendêssemos encontrar um discurso que revelasse marcas mais constantes e uniformes do nível de escolaridade do falante culto. François (1988) N’ayons pas peur des mots. In: BÉDARD. de certa forma. portanto. o processo de democratização da cultura urbana). E. isto é.2 agora há muita peruca F. utilizam praticamente o mesmo discurso dos falantes urbanos comuns. seu grau universitário.) La norme linguistique. Assim. como. 1960-1962) De sorte que. normes sociales. Paris. o uso lingüístico comum (principalmente. 33 . só poderíamos surpreendê-lo em situações formais. Larousse. Stanley (s/d) Normes linguistiques. por influência das transformações sociais contemporâneas a que aludimos antes (fundamentalmente. variável básica para a escolha dos falantes cultos no Projeto NURC. de menor espontaneidade. até em situação de gravação consciente. et MAURAIS. Le Robert. une perspective anthropologique.2 tem peruca” (idem. “F. até em gravações conscientes e. poderíamos admitir a hipótese de que o grau de escolaridade (nível universitário). acontece com as elocuções formais gravadas pelo Projeto. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALÉONG. Em síntese. CARADEC. em geral. Paris. embora ajude a identificação. de escolaridade média. tensas. revelaram uma linguagem que. não é suficiente para marcar um discurso próprio dos falantes cultos que.O discurso oral culto. também pertence aos falantes comuns.l os coques F. considerados esses fatos. o que o corpus do Projeto NURC/SP tem-nos mostrado (e isso já na década de 70) é que os falantes cultos.

Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística da UFPe.4-5. (1994) Sociolingüística – os níveis de fala. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. ________.II (Diálogos entre dois informantes). (1995) Gramática descritiva do Português. Dino (1990) Mas. A propósito do conceito de discurso urbano oral. 34 . O Estado de S. (1996) “Língua falada e o ensino de Português” – Minicurso durante o 6º Congresso brasileiro de língua portuguesa. e PRETI. São Paulo. p. Editora da Univ. Recife. ano VII. como falam (ou deveriam falar) as pessoas cultas? São Paulo. Mário A. Luiz Antônio (1993) O tratamento da oralidade no ensino de língua. (org. T. D. (mimeografado) PERINI. São Paulo. Dino.Queiroz/FAPESP. São Paulo.) (1987) A linguagem falada culta na cidade de São Paulo: materiais para seu estudo. São Paulo. Suplemento Cultura.A. 529..Paulo. 7. PRETI. vol. MARCUSCHI.PRETI. Ática. ________. de São Paulo. CASTILHO. A. 22-9-90. afinal..ed.T.

etc. Farei apenas algumas considerações provisórias sobre o caráter “culto” dos textos orais. normativo. sobre as noções de conversação culta e de falante culto. Utilizarei neste estudo a distinção do canadense Stanley Aléong (s/d) entre normas explícitas e normas implícitas: “La norme explicite comprend cet ensemble des formes linguistiques ayant fait l’objet d’une tradition d’élaboration. e sobre a imagem que os falantes do Projeto fazem da norma culta. Essas reflexões estão organizadas em dois blocos: o primeiro sobre o conceito de norma culta na fala. o segundo. A PROPÓSITO DO CONCEITO DE DISCURSO URBANO ORAL CULTO: DEFINIÇÕES E IMAGENS Diana Luz Pessoa de Barros Muitas são as perspectivas que podem ser escolhidas para o exame do conceito de discurso oral culto. normal vs. norma. sistema vs. superioridade funcional. a partir dos inquéritos do Projeto NURC-SP.O discurso oral culto. Conceito de norma culta na fala Dicotomias de diferentes ordens podem ser arroladas para a conceituação de norma culta: igualdade vs. de codification et de 35 . 1. uso vs. norma.

pour être rarement l’objet d’une réflexion consciente ou d’un effort de codification. 1 “A norma explícita compreende o conjunto das formas lingüísticas que tenham sido objeto de uma tradição de elaboração. uma norma lingüística explícita. na imprensa escrita e audiovisual.).” (p. nos usos oficiais. cette norme est socialement dominante en ce sens qu’elle s’impose comme l’idéal à respecter dans les circonstances qui appellent un usage réfléchi ou contrôlé de la langue. legitimada em cada sociedade. prescription. mesmo sendo raramente objeto de uma reflexão consciente ou de um esforço de codificação. para precisar o conceito de norma explícita. sem valorizá-las de modo diferente. il s’ágit de ces formes qui.. A propósito do conceito de discurso . dans la presse écrite et audiovisuelle. que se confunde com o de norma culta...261-262). errados. Diana Luz Pessoa de. com os “belos” e “bons” usos da linguagem. c’est-à-dire dans les usages officiels. propõe que se considerem três pontos: 1 – a existência de um discurso da norma que classifica os fatos lingüísticos em bons.1 A lingüística preocupa-se com o funcionamento e a organização das várias normas implícitas. isto é. não deixam de representar os usos concretos por meio dos quais o indivíduo se apresenta na sociedade imediata. Quant aux normes implicites. trata-se dessas formas que. no sistema de ensino e na administração pública.” 36 . ne représentent pas moins les usages concrets par lesquels l’individu se présente dans sa société immédiate. essa norma é socialmente dominante. Codificada e consagrada em um aparelho de referência. de que decorre o caráter prescritivo da norma culta. Codifiée et consacrée dans un appareil de réference. o fantasma da norma explícita paira sobre os estudos da linguagem. dans le système d’enseignement et dans l’administration publique. etc. Elle se constitue selon des processus sociohistoriques (. belos. já que os usuários da língua estão sempre muito preocupados com problemas de “correção” lingüística. portanto. Se é esse o interesse do lingüista. Quanto às normas implícitas.BARROS. corretos.. procurando descrevê-las e explicá-las..). de codificação e de prescrição. Aléong. Ela constitui-se segundo processos sócio-históricos (.. Há. no sentido de que ela se impõe como o ideal a respeitar nas circunstâncias que pedem um uso refletido ou controlado da língua.

os vestibulandos procuraram “preencher” o espaço da prova com estruturas e vocabulário que acreditavam próprios da escrita. é possível considerar que a norma explícita diz respeito à modalidade escrita. nesse caso. na imprensa e na administração pública. se escrita e fala são “regidas” por uma mesma norma ou por normas diferentes. Obrigados a escrever um texto. em geral. a ordem indireta nas frases – “tinha eu cinco anos” – e léxico menos usual e até erudito. pelas características apontadas.1 Norma explícita na escrita e na fala: primeira reflexão Os usuários da língua elaboram construções imaginárias diferentes sobre a escrita e a fala e suas normas. isto é. sistematicamente substituído: “Eu possuía um cachorrinho”. “anfitriã” e não “dona-decasa”. a usuários de autoridade e prestígio em matéria de linguagem e a academias. 3 – a difusão e imposição na escola. da parte dos usuários. O caso mais impressionante era o do verbo “ter”. Minha intenção é examinar como esses três componentes da definição de norma explícita se aplicam à língua falada. Usavam assim. “Eu havia uma boneca” e assim por diante. Há. farei uma observação mais geral sobre as modalidades da escrita e da fala. 1.O discurso oral culto. 2 – a remissão a um aparelho de referência. Em estudo sobre redações de vestibular (BARROS. 1985) pude perceber claramente essas diferenças. À primeira vista. em vez de “ter”. por isso. uma certa consciência de que escrita e fala são regulamentadas por regras do bem falar ou escrever. coloquial demais para a escrita e. “haver” ou “possuir”. gramáticas e dicionários. em oposição ao caráter “prosaico” da fala. “recinto” por “sala” e assim por diante. embora eles não tenham nenhuma clareza sobre elas. Antes de abordar cada um dos pontos de caracterização da norma. “Quando eu havia sete anos”. portanto. 37 . verificar se há uma norma explícita para a fala e. precioso – “adentrar” em lugar de “entrar”.

Dessa forma. Seria ingenuidade acreditar 38 . A propósito do conceito de discurso . como a norma dos falantes “cultos” ou “instruídos”. O termo “culto” deve ser aí entendido em uma de suas acepções. porém. nesse caso também lingüístico. O Projeto não diz em nenhum momento que considera como norma culta a dos falantes “literatos” ou a dos falantes da classe dominante. ao mesmo tempo uma entre as demais normas e a norma do prestígio e da autoridade. Assim os informantes do Projeto NURC devem ter nível universitário. de domínio de grupos ou de classes. aceita-se a diferença “extrínseca” que existe entre elas e que assegura a uma dessas normas um papel. Essa remissão ao “falante culto” – de prestígio. pertencente a certas classes.2 Aparelho de referência e de divulgação e imposição da norma Começarei pela questão dos aparelhos de referência e de difusão da norma. presidiu também a organização do material do Projeto NURC. pelos usos das classes dominantes. para a fala um aparato institucionalizado de referência e de difusão como há para a escrita – dicionários. gramáticas. mas sim a dos “falantes cultos”.. de autoridade. diferenciado na sociedade. a norma explícita (ou “culta”) é a norma dos locutores de autoridade e prestígio. ao mesmo tempo que se reconhece a “igualdade” intrinsecamente lingüística das diferentes normas. Não se pode pensar que faltem à sociedade e sobretudo às classes dominantes os meios para organizá-los ou que elas estejam abrindo mão de um de seus instrumentos de poder. Quando se afirma que a norma explícita deve ser referendada por usuários de autoridade e de prestígio e por dicionários. Pode-se dizer que são falantes que na escola “aprenderam” ou “confirmaram” a norma explícita. Em outras palavras. Não há. de unificação nacional. Essa ambigüidade da norma culta. Diana Luz Pessoa de. academias. já que a escola é um dos lugares estratégicos de sua difusão. gramáticas e academias. mas por elementos sócio-históricos: necessidades de organização política. a de “instruído”. 1. já se aponta que a norma explícita não se diferencia das demais por “qualidades” lingüísticas.. São eles que respondem pelos usos literários e sagrados da língua.BARROS. com instrução – ocorre tanto para a escrita quanto para a fala.

a que possibilita ao falante “culto” maior variedade de usos. gramáticas e academias. por exemplo. não se adaptam às necessidades dos diferentes momentos e situações. de outro. divulgada e imposta na escola. opõese o bom (correto) ao mau (incorreto) uso da língua. Para fugir um pouco do estritamente lingüístico. De um lado. A segunda decorrência é que se confundem o ético e o estético e que ambos. 1. tomo como ilustração questões de bom e de mau gosto. essa “ausência” de remissão institucional não deve ser tomada como uma falta e sim como uma das características da norma explícita na fala. examinarei mais detalhadamente o assunto ao tratar da noção de “conversação culta” e da imagem que os falantes do Projeto fazem da norma. Na última parte deste estudo. mostram-se como “naturais”. Apagam-se as relações de classe ou de instrução apontadas. na imprensa. A primeira decorrência desse discurso é o caráter prescritivo da norma explícita. nisso. Le bon usage de Grevisse ou os “belos usos” da corte francesa).O discurso oral culto. O discurso da norma é aquele que classifica os fatos de linguagem com base em categorias éticas e estéticas e a partir de critérios que não são lingüísticos e sim sócio-históricos. na televisão. de outro os que “não sabem falar”. Aprendemos em dadas culturas a apreciar certos sabores e a 39 . o belo ao feio na linguagem (Vejam-se. como vimos. estreitamente vinculados a fatores sociais e culturais.3 O discurso da norma Apontarei apenas alguns elementos que permitem que se afirme que há um discurso da norma para a modalidade da fala. na administração pública e referendada por dicionários. não são maleáveis. Essas questões serão abordadas no item que segue. Ao contrário. É a capacidade de variação e não o “purismo” de um único uso que separará de um lado os falantes cultos. Em outras palavras certos usos são naturalmente bons e belos. em relação ao sentido do gosto ou paladar.

Basta que nos lembremos da enorme campanha contra Lula nas eleições presidenciais baseada. a maior parte dos brasileiros é incapaz de comê-los: são amargos. As decorrências são principalmente um certo “abrandamento” da norma e a possibilidade de maior variação de usos. Há. é mais complicado mostrar que discurso é esse e quais as conseqüências da ausência. ou seja. rapidamente. “naturalizando” o bom gosto ou o gosto bom. diz-se que só ela é. sem dúvida. ainda que povos inteiros apreciem tais sabores. estéticas gustativas diversas do amargo. Mas desagradável para quem? Uma propaganda de Vermouth diz: “Para quem gosta do sabor amargo”. Esse processo de “naturalização” da norma explícita oculta não só o modo de diferenciação das normas. e como prato requintado. mas não o grupo de prestígio. “para quem tem bom gosto”. mas elas não têm o mesmo papel que a “norma explícita do gosto” assume na organização social. “bons” ou “maus”. Em outros 40 . pois leva muitas vezes à negação das demais possibilidades lingüísticas ou gustativas. como se dissesse. Assim se os chilenos ou sicilianos apreciam enormemente. do azedo. Quando o dicionário diz que amargo é um sabor desagradável está. os ouriços do mar. O dicionário define amargo como um sabor desagradável. como a própria existência de normas diferentes. É o caso do professor que diz ao aluno: “Isso não é português”. Diana Luz Pessoa de. Em relação à fala pode-se afirmar que há um discurso da norma. A propósito do conceito de discurso . Chega-se assim à linguagem marcadamente ideológica do preconceito: “isso não é português”. passamos a considerar esses gostos como “naturais”. em grande parte. “belos” ou “feios”. do agridoce. que há usos na fala que são considerados “corretos” ou “errados”.. já apontada. mesmo que milhões de pessoas se comuniquem dessa forma. que é cultural. só ela existe. não gostar de outros e. anulando a distinção entre natureza e cultura. de um aparato institucionalizado de referência e de difusão da norma na fala. no fato de que ele não “fala bem”.BARROS. e não apenas na escrita. em favor de uma delas. Se é fácil reconhecer a existência de um discurso da norma na fala. “isso não é comida”. com gosto de iodo. Não se diz mais que uma norma ou gosto é melhor ou pior do que outra. assim..

.deixou a língua falada no Brasil de dizer “vem-me ver”(. pois nem tudo é permitido na norma culta da fala. às vezes.494)... condenada por alguns gramáticos. ou ainda que: “Esta última construção [“visar”com objeto direto]. uma mesma norma que prescreve os “bons” usos para ambas.. há um discurso da norma na fala. as gramáticas servem de referência sobretudo para a escrita. que as noções de usos aceitáveis ou possíveis podem levar à conclusão de que há uma única norma explícita para as modalidades da fala e da escrita. em sua Gramática da língua portuguesa.”(1972: 132). aceitáveis ou mais freqüentes na fala. Daí decorrem certas características da fala que podem ser examinadas nos inquéritos do Projeto NURC: 41 . mas esse discurso. sobre colocação pronominal: “.. é a dominante na linguagem coloquial brasileira e tende a dominar também na língua literária (.”(p. que as prescrições são mais rígidas para a escrita do que para a fala.)” (p. Nesse sentido.) para dizer “vem mever”. Parece-me mais plausível e econômico considerar assim que há uma única norma explícita para a escrita e para a fala e que essa norma se aplica mais rigidamente à escrita. É também Celso Cunha quem afirma que: “Vossa Senhoria é tratamento muito raro na língua falada.O discurso oral culto. ela(s) como objeto direto (.)”(p.. que certos usos são possíveis. que o exame das passagens das gramáticas em que se faz referência aos usos possíveis na fala contribuirá para que se estabeleçam os limites dessa “aceitabilidade”. termos. em segundo lugar. cita Martinez de Aguiar. permite um leque maior de variações.. mas mencionam. em terceiro lugar. Celso Cunha. As citações acima apontam três questões para reflexão: em primeiro lugar. além de prescrever. que diz..293). ou que: “Na fala vulgar e familiar no Brasil é muito freqüente o uso do pronome ele(s).290)...

em nenhum momento é referendado o emprego de “nós vai” ou de um certo tipo de vocabulário. e também do papel dos diferentes registros que utilizam no espaço aceitável e possível de variação. O falante culto não usará concordância ou termos “fora da norma da fala”. Diana Luz Pessoa de. A norma explícita da fala tem assim algumas das marcas gerais da norma explícita: existe um discurso da norma com as características acima apontadas. Os limites da norma na fala são distantes. neste mesmo livro).. 1990. o belo e o feio.). BARROS. c) os falantes cultos têm consciência da existência de uma norma explícita da fala. em uma das definições possíveis.. e o exame de gramáticas e dicionários e de inquéritos como os do NURC permitirá que se saiba a partir de que ponto o falante deixa de ser culto. a) o discurso da norma aceita e mesmo prescreve para a fala um espaço maior de variação do que para a escrita: o falante culto é. serão apresentados. embora se considere aceitável na fala o uso de “vem me-ver”. que estabelece o bom e o mau. b) há limites para as variações prescritas e aceitas em todos os níveis de descrição lingüística (O exame das gramáticas mostra que. BARROS. afastados. por motivos. aquele que usa a língua adequadamente em diferentes situações de discurso e de interação verbal (Veja-se o estudo de Dino Preti. estéticos do “belo uso”. no segundo. 1990. 42 . Na última parte deste estudo. a partir de resultados do exame dos procedimentos de reformulação por correção (BARROS e MELO. que impedem o emprego de palavras ditas “vulgares”. no primeiro caso. em geral. mas existem. por razões éticas que dizem respeito ao bom e ao correto.BARROS. 1994). A propósito do conceito de discurso . mas não há um aparelho institucionalizado de referência e de imposição da norma na fala. alguns dos traços que definem uma conversação culta e um falante culto e a imagem que os falantes do Projeto têm da norma. essa norma é referendada por falantes de autoridade e de prestígio.

principalmente. Examinei em outros trabalhos os procedimentos de correção em dois tipos de inquéritos do Projeto NURC. Os falantes cultos e as imagens da norma Os procedimentos do texto falado. que emprega adequadamente suas possibilidades de variação. alguns dos resultados obtidos e a eles acrescento dados decorrentes de análises parciais desses procedimentos no terceiro tipo de inquérito do Projeto. apontam que os falantes do Projeto têm consciência da existência de normas lingüísticas e conversacionais. Mesmo que os responsáveis pelo Projeto NURC tenham definido o “falante culto” apenas como “falante instruído”. mas se constroem nos processos discursivos como mecanismos persuasivo-argumentativos do texto falado. sem dúvida. 2. e se constroem. a meu ver. isto é. não é somente esse o papel social que os falantes constroem e expoem nos inquéritos do NURC. que tem a função de referendar os “bons usos” da linguagem. Os resultados de estudos sobre os procedimentos de correção mostram como se constrói esse papel social de falante culto.O discurso oral culto. com as finalidades acima arroladas. A construção discursiva do falante culto depende. de duas estratégias. fabricam uma imagem dessas normas e. a partir daí. a que se refere às normas lingüísticas da fala. tal como definido anteriormente. Entre os papéis sociais encontra-se. a que diz respeito às regras conversacionais no sistema de tomada de turnos e de estabelecimento das relações interacionais entre sujeitos. isto é. como a paráfrase. em sentido mais restrito. por conseguinte. um discurso da norma na fala. Retomo neste estudo. as elocuções formais (aulas e conferências). como falantes cultos com funções sociais determinadas. 1996). papéis “individuais” (BARROS. os diálogos entre informantes e as entrevistas. o de “falante culto”. a correção ou a inserção constroem os vários papéis da conversação – papéis conversacionais. falante de prestígio. Os dois itens que seguem – “conversação culta” e “imagens da norma”– tratarão dessas questões. papéis sociais. 43 . Os papéis sociais na conversação não decorrem apenas do conhecimento das posições sociais dos falantes. que conhece as regras da conversação e da língua.

Foram examinados dois tipos de correção. preocupação dos falantes em impressionar bem a “audiência” (documentador. a partir de GÜLICH e KOTSCHI (1987). dessa forma. A propósito do conceito de discurso . dessa ausência decorrem os papéis conversacionais dos diálogos: laços interacionais frouxos. e a correção propriamente dita. variações aceitáveis para o falante culto. quando as infrige ou quando é o seu parceiro que o faz. As reparações e um certo tipo de correção (a heterocorreção ou correção do outro) constituem lugar privilegiado de exame das regras da conversação. em uma mesma cultura. 2. As reparações 44 . a intercompreensão.1 Conversação culta Nos trabalhos mencionados. por ocultar as reparações de que faz uso. como um ato de reformulação textual que tem por objetivo levar o interlocutor a reconhecer a intenção do falante e garantir. resultam também “traços” do falante e da conversação culta: o falante procura não violar as regras da conversação ou. “própria” de falantes cultos. Dessa ausência.). esforça-se por não repará-las de modo explícito. etc. A reparação deve ser entendi da como correção de violações das regras conversacionais. além disso. a quem em última instância eles se dirigem. analistas.BARROS. da “conversação culta”. Nos inquéritos do NURC duas particularidades do uso das reparações devem ser mencionadas: a ausência de reparações claras e o uso de formas implícitas de reparação. portanto. de como se estabelecem as relações de interação entre os interlocutores. Essas regras mudam culturalmente e admitem. enfim. tanto nas entrevistas. relaxamento da tensão conversacional. a reparação. Não ocorrem casos de reparação explícita nos dois tipos de inquéritos do Projeto NURC que foram examinados.. como o falante infringe as regras da conversação ou corrige as infrações próprias ou de seu interlocutor é uma das formas de construção do seu papel social de falante culto. Diana Luz Pessoa de. do modo de construção. que diz respeito às “infrações” conversacionais. O modo. quanto nos diálogos entre informantes. Como apontei nos outros trabalhos. o procedimento de reformulação por correção foi definido..

A demonstração de fortes “paixões” não caracteriza. em princípio.ah ajuda demais né? [ L2L1.(. os falantes levam às últimas conseqüências essa tarefa de construção do papel social de sujeito culto. ora falando em voz sobreposta.. fazem mais fortes os laços entre interlocutores.) pelo menos na.O discurso oral culto. a. Tem-se aí..agora tem sempre 45 de higiene de:: trocar de rou::pa todo esse negócio (quer dizer) já é alguma coisa que elas fazem porque. já ajudam bem. ora aproveitando as pausas do outro para recuperá-lo: L2. um traço das conversações cultas: elas não devem expor a agressividade ou a excessiva aproximação das relações interacionais. ameaçado de perder a vez.. pelas demais razões acima apontadas. ah por si....... não abre mão do turno. Nos inquéritos do NURC. mais diretas tornam a conversação mais tensa interacionalmente. L1 toma a palavra várias vezes sem que o turno lhe tenha sido atribuído e L2. .. fisicamente né? [ L1isso já se cuidam [ L2[ L1.. o “falante culto”. sejam eles cooperativos ou de conflito. No exemplo que segue. que constrói assim relações conversacionais menos tensas. Nos diálogos entre informantes podem ser consideradas reparações implícitas ou mascaradas as sobreposições de vozes um pouco mais acirradas e as disputas pela palavra e pelo turno. por conseguinte.. As reparações utilizadas serão. portanto. mais “mornas” no texto falado. sempre reparações implícitas ou reparações voltadas para o bom funcionamento da conversação.

BARROS. A insistência de L2 em manter a vez pode ser considerada uma forma de reparar a infração do outro. tudo a seu encargo? (INQ 235.179-190). por se referirem às regras de um tipo de conversação e aos papéis atribuídos aos que dela participam..) (INQ.. nesse inquérito. 128.360.. e o que é que vocês preferem? Doc.. l.. as tentativas de L1 de assumir o turno podem ser vistas como uma forma de acusar o outro de monopolizar a conversa. que estou falando”. reparações explícitas do tipo de “deixe eu falar”..(.não vamos supor que a gente omita a opinião gente:: educada (como eu sou) ((risos)) assim “não:: qualquer coisa ser:: ve e tal e não sei que” . você já falou muito” e assim por diante.. l. 54-56). L2.um já ajuda o outro L1. p... da mesma forma que o entrevistador pode procurar reestabelecer a organização própria da entrevista quando o entrevistado dela se afastar.) agora quem sabe se vocês PREcisando .p..(. “agora é a minha vez. e o que que você prepararia se a gente deixasse ... b) Inf. O informante. que toma a palavra sem que ela lhe tenha sido atribuída conforme as regras. Não há. 351-356). Essas reparações..numa família grande há sempre um com tarefa de supervisor.. são aceitas nas conversações cultas: a) Inf. p. Nas entrevistas ocorrem reformulações voltadas para o bom funcionamento da conversação e para a construção dos papéis conversacionais de entrevistador e entrevistado. Da mesma forma... l. impróprias na conversação culta.(.. 134.. Assim. ou melhor insistindo em determinadas perguntas eu poderia dizer mais alguma coisa (INQ 250... porém. o entrevistado pode corrigir o modo de perguntar do entrevistador ou julgar improcedentes certas questões suas. 46 .) então teria que saber o que é que vocês preferem . corrige as perguntas do entrevistador. “fique quieto. A propósito do conceito de discurso . Diana Luz Pessoa de.140-141. melhor .

Há também poucas heterocorreções nos inquéritos do NURC em geral.. o entrevistador corrige o entrevistado para reparar as regras da conversação. sem dúvida. p. L1. As conclusões vão na mesma direção das obtidas no exame das reparações. mais distante e menos apaixonado. Esse “distanciamento” dos interlocutores é.[pessoas é . utiliza o atenuador “bem”– “não é bem comunicação é transporte”–.(. pressuposta ou subentendida. que raramente se expõe.ao repetir o ato de corrigir L2..O discurso oral culto.. uma das características da conversação culta.. O participante da conversação que não corrige seu interlocutor apresenta-se como um falante pouco agressivo ou polêmico. L1.. No trecho.transporte né? L2. diminuindo assim a “agressividade” de sua correção. pois o entrevistado invertera os papéis da entrevista. e nas entrevistas as heterocorreções são praticamente inexistentes. as heterocorreções. mas sempre identificada com a da audiência. ou seja. sobretudo nas entrevistas. de comunicação né? de levar e trazer . contribuem também para a construção do papel de falante culto. além de concorrer para a construção dos papéis conversacionais em que as relações de interação são frouxas ou pouco tensas. 27. contribui também para a constituição do papel social de falante culto. l. com as quais “corrige” a voz do outro.) em cidade grande o metrô é uma forma . 422-427) L1.. uma de suas “normas”. Em lugar da heterocorreção. Esse procedimento não aparece de 47 . Essa ausência do procedimento. as “negações polêmicas” (Ducrot.não é bem comunicação é transporte. (INQ 343.. Os poucos empregos de heterocorreções nos diálogos entre informantes são em geral atenuados: L2.. o falante culto usa com freqüência. 1983). as correções em que o falante corrige os “erros” de seu parceiro. ao fazer perguntas ao entrevistador: “e o que é que vocês preferem?” Conforme foi já mencionado.

b) L2. a ausência explícita por um lado de conflitos ou de polêmicas.. Em resumo. da “briga”. modo explícito no diálogo e não produz o efeito menos culto ou mais rude do conflito.. e que afirma que essa história da premiação de Ponteio é fofoca de bastidor. ao menos na aparência explicitada da conversação.BARROS.) (INQ 137.. elegante. a fraca tensão conversacional e o caráter “morno” ou “frouxo” dos laços interacionais. por outro de aproximações apaixonadas...) então nós ligávamos muito e:: não é caro é relativamente barato . As conversações cultas terão. uso implícito ou ocultamento dos procedimentos de reparação e de heterocorreção (por meio de recursos de sobreposição de vozes e de negação polêmica).(.. l. o:: . um certo “distanciamento” entre eles. Constrói-se dessa forma o falante culto. a conversação culta faz uso peculiar dos procedimentos de correção e caracteriza-se por: ausência quase total de reparações e de heterocorreções. Essa con48 . e ele se negou ele disse que NÃO receberia se não fosse . (.. assim.. 80.. Vejam-se os exemplos que seguem: a) Inf. o ocultamento das relações mais “passionais”... p. não isso não é fofoca de:: de bastidor mas eu:: ( ) você é autêntica . distante.. se não recebesse TAMbém o Ponteio.. decorrem os traços típicos da conversação culta ou sua “norma” e os elementos caracterizadores do papel social de falante culto. por norma o pouco envolvimento dos falantes. Diana Luz Pessoa de. A propósito do conceito de discurso .. atenuação das heterocorreções utilizadas. condescendente.que não aceitaria . com o senso comum. que se identifica com o público. Desses usos. 355-356) O informante contesta a voz implícita da “audiência” ou do senso comum que diz que telefonemas do exterior são caros.. emprego de reparações apenas quando garantem as regras de certos tipos de conversação e os papéis conversacionais que cabem a cada locutor. O falante corrige uma voz implícita..

a de “erro” como violação da norma lingüística padrão. com a correção gramatical. a preocupação do falante com o bom uso da língua. porém. Nos diálogos entre informantes ocorreram pouquíssimos casos de correção de “erros” fonético-fonológicos (3%) e não houve esse tipo de correção nas entrevistas e nas elocuções formais. b) a segunda. em geral. descendência na condução do diálogo abre caminho para que o falante culto use as variações lingüísticas com tranqüilidade. consciência da norma. portanto. Entre os “erros” morfossintáticos corrigidos. Os exemplos de correção que seguem apontam. pois os falantes cultos “erram” menos. a de que as correções assinalem a preocupação dos falantes cultos com os “bons” e “belos” usos da linguagem. se o ponto de vista escolhido é o do caráter culto dos diálogos e dos falantes: a) a primeira é a de que as correções ocorram muito raramente ou mesmo não ocorram.2 Imagens da norma Duas são as expectativas quando se examinam os procedimentos de correção nos inquéritos do NURC. alguns explicitamente.O discurso oral culto. reconhecer que esses “erros” também existem e são corrigidos na conversação. Se não é essa a concepção de “erro” e de correção que norteou os estudos dos procedimentos de reformulação. a de correção de “erro gramatical”. Ambas as expectativas se fazem a partir de uma concepção limitadora da noção de reformulação por correção e da de “erro”. 2. a preocupação do falante com o uso “correto” de sua fala: 49 . As duas expectativas acima apontadas confirmam-se nos inquéritos do NURC: os “erros gramaticais” são pouco freqüentes e a correção deles mostra a preocupação dos falantes com os “bons” usos da língua e. qual seja. deve-se. também em pequeno número nos diálogos entre informantes (8%). aconteceram principalmente enganos de concordância. São as correções fonético-fonológicas e morfossintáticas que marcam.

. 72. De novo. ah quais as razões que levam as pessoas a . fique esclarecida a minha opção (INQ 156. l.. Observe-se ainda nos exemplos arrolados a preocupação do falante em corrigir-se – não deixa para o seu parceiro a tarefa de corrigi-lo – e em fazê-lo rapidamente. Nesse trecho das elocuções formais o falante preocupado com a correção gramatical corrige “faz” por “fazem”. l.. 34....BARROS... l..) (INQ 338.. eu creio .. faz fazem . Corrigiu-se foneticamente uma forma menos culta do bem falar: “pra” por “para”. para tanto.. 30) (D2). Explica-se a predominância já mencionada de autocorreções autoiniciadas e no mesmo turno em que o “erro” foi cometido. A propósito do conceito de discurso .. vacila quanto ao acerto de sua correção e termina por substituir “faz fazem” por “levam a”..... éh . muitas vezes também.quando você vai pra:: para Aliança né? (INQ 343. O falante interrompeu sua fala para “consertar” a concordância. 18. d) Inf. Diana Luz Pessoa de. 8-11) (EF).. p. L.. c) e talvez no decorrer da palestra fique esclarecido .. precise interromper sua fala..(. b) Inf. 72.. p.. 10-14) (EF). p... ah .) tratadas”...mas muitas das manifestações que poderiam me interessar aqui já foram . que fazem com que . éh::: . os casos de correção semântico-pragmática marcam. (. a) L2.) tratados” por “manifestações (.. a preocupa50 .. mesmo que..) a gente quer saber agora quais as razões que faz . 4-5 (EF). tratados por out/ tratadas por outras pessoas (INQ 156.. p. correção de concordância. Bem mais freqüentes nos inquéritos examinados. (estou) meio preocupado (com o gravador) ((risos)) .. ainda que de termos distantes: “manifestações (.

. Neste caso. “década”. e comé/ e reinicia o . o filme brasileiro foi considerado . aquelas em que um termo “mais difícil” ou técnico é trocado por uma palavra mais comum. l. de tal forma que ela sempre tenha alguma reserva algum dinheiro no bolso . 33-34).. um registro mais “culto”– “reserva”..).. Inf... (.. principalmente. 35..(. (.. Inf. 94). Inf. uma das características do falante culto. “difíceis”.. mais difí:: ceis ..) e as outras tarefas vão se tornando mais:: complexas . a de saber usar as variações lingüísticas para seus objetivos de comunicação. (INQ 377.. 36. l... como já se apontou.) (INQ 338.. “bateria de”.(. “intruso”: Inf.. 99-100).) ..... 25.. (.. 56-57)... l. p. p..) (INQ 338. b) substitui-se. “decênio”.. um::: .. 73. p. nas correções que seguem... Os exemplos abaixo. Inf.. na década no no de/ no decênio de trinta ....) .. (.) (INQ 153..... 53-54)..(.. ao contrário. São aquelas correções. “complexas”– por um uso mais “coloquial” da língua – “dinheiro no bolso”.. l..O discurso oral culto.(.. “penetra” – para um mais “culto” – “reinicia”. ciclo .. um:: inTRUso . uma porção de testes (. 51 ..) (INQ 377..) . 6-8).. Inf..) .. p. um penetra .(. 90. l. p. mostram as duas possibilidades: a) passa-se nestas correções de um registro mais “coloquial” – “começa”. p.) (INQ 156. “porção de”.(. Esse vaivém entre o mais usual e o mais raro é também. (. 24.) é:: se aplicar assim uma bateria de testes .. ção do locutor com o seu papel social de falante culto. l. extraídos das elocuções formais.. em que um termo mais “comum” é substituído por uma palavra menos usual ou mais técnica ou. o emprego do termo mais “culto” foi uma amostra de “bem falar” e sua substituição por uma palavra mais usual ocorreu devido à necessidade didática de se fazer entender pelo público....

) mas antes de René Descartes houve um outro que chamava-se (INQ 124. mas com maiores possibilidades ou aceitabilidade de variação. A propósito do conceito de discurso ... três ou quatro citações (. 59. havia .BARROS. esses usos assinalam. ao contrário. do segundo caso. no caso da fala. entram no rol das hipercorreções e mostram.. são “consertados”. a mesma que se apresenta para a escrita. provisórias.. Vejam-se os exemplos abaixo sobre a questão: a) Inf. Diana Luz Pessoa de. pelos falantes cultos. Algumas hipóteses explicativas podem ser apresentadas para o primeiro caso: esses usos estão dentro das possibilidades de norma culta na fala. O último aspecto a ser apontado sobre a imagem que os falantes do Projeto constroem da norma é o de que muitos usos que não são aceitos pelas gramáticas aparecem nas falas examinadas e não são corrigidos ou. l.. “bons usos”. em sincronia. l. As duas colocações pronominais ocorrem com o mesmo falante. 103-105). há:: . Inf..) (INQ 405. p. a preocupação do usuário em “falar bem”. que pude ir apontando no decorrer do estudo: a da existência de uma norma explícita para a fala. 59). a da construção.. os erros são idiossincrasias do falante. ainda que não sejam aceitos na norma explícita da escrita. uma vez mais. 86). Há. tal como ensinam Jakobson e Labov.) .. e. 50... p..(. muito provavelmente uma regência já aceita na fala. uma correção “gramatical” de imprecisão do tempo verbal. que mudanças lingüísticas estão ocorrendo.. para terminar. Retomo. quem sabe. por meio dos procedimentos discursivos da conversação. do 52 .... Por sua vez. 60. no trecho.. l.. p. b) Inf. agora. segundo a gramática. mas não se corrige “se lembram que”.) Gulgamilsh tem um amigo que chama-se (INQ 124..(. uma mudança lingüística em movimento.(. vocês:: se lembram que naquele primeiro texto que nós vimos aqui a respeito do estilo . as correções de “bons usos gramaticais”. as conclusões.

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setembro de 1995) 55 . 1995:189214) e na comunicação “Estratégias interacionais e configuração do texto falado” (no prelo) apresentada no XXI Congresso Internazionale di Linguistica e Filologia Romanza – Università di Palermo. Presentes no processo de constituição de um texto oral. discursivos e enunciativos. 1 Refiro-me aqui à pesquisa pessoal.O discurso oral culto. Facoltà di Lettera e Filosofia. Centro di Studi Filologici e Linguistici Siciliani. IMAGENS DA NORMA CULTA. voltada para as particularidades arquitetônicas do texto oral1 e para os mecanismos interacionais que aí atuam. destacando-se as que são motivadas pelas imagens que os interlocutores têm de norma culta e de sua importância em alguns processos interativos específicos. e que estão explicitadas por meio de diferentes formas de metalinguagem. traduzidas em aspectos lingüísticos. essas formas serão tratadas basicamente a partir do relacionamento entre tópicos e subtópicos (FÁVERO. ligada ao PROJETO/NURC-SP/USP. selecionadas no material do Projeto NURC-SP/USP (CASTILHO & PRETI. e cujos resultados parciais podem ser conferidos no texto “O processo interacional” (BRAIT. INTERAÇÃO E CONSTITUIÇÃO DO TEXTO ORAL Beth Brait Introdução Integrado a uma pesquisa maior. 1993). este estudo apresenta algumas formas de presença de imagens da norma culta. 1987).

Da Análise da Conversação serão considerados. descritas e interpretadas algumas formas de metalinguagem e suas relações com as imagens que os interlocutores têm da norma culta. advindos das duas vertentes para. através deles. no caso a metalinguagem reveladora das imagens da norma culta. por exemplo. na explícita preocupação com a precisão vocabular ou. ainda. na organização de determinados tópicos e subtópicos que revelam encaminhamento do tópico central. que contribuem para a constituição da textualidade no discurso oral. direta56 . esses procedimentos lingüístico-textuais estão configurados. descrever e analisar os processos interacionais. papel da metalinguagem na arquitetura e na economia geral do texto. eleger um corpo de conceitos não contraditórios. interação e constituição .. Nesse sentido. em expressões metaenunciativas que testemunham o esforço para a administração das estratégias interativas. tanto de um ponto de vista sociocultural quanto lingüístico. estratégias interacionais que se vão instaurando em função do texto organizado em parceria. Esses recursos serão observados. conforme tipologia abrangida pelo corpus do material do NURC-SP /USP. A perspectiva que sustenta a pesquisa deriva de fundamentos teóricos fornecidos pela Análise da Conversação articulada com alguns tópicos da Análise do Discurso de inspiração bakhtiniana. Beth. em última análise.. conceitos que dizem respeito aos seguintes aspectos: traços caracterizadores dos participantes. Sem perder de vista essas características é que serão localizadas. bem como a especificidade da situação que envolve os textos e que pode ser resumida. com conhecimento de que a coleta de dados estava sendo realizada para posterior estudo da linguagem falada culta da cidade de São Paulo. como em trabalhos anteriores. situação de comunicação em que o diálogo se dá e que ao mesmo tempo vai sendo constituída por esse evento interacional. proposto para a interlocução. reconhecer. Apresentados de forma explícita. Imagens da norma culta. para tematização da linguagem.. o que significa. em função das particularidades do evento interacional em processo. da seguinte maneira: são interlocutores de formação universitária.BRAIT. portanto. serão consideradas as características do tipo de texto escolhido. grosso modo. de diferentes idades.

O discurso oral culto. os enunciados dos interlocutores (parceiros do diálogo). por mais breve e fragmentária que seja. que propõe conceitos de enunciação. sendo possível responder. participa de forma também explícita do texto oral. contribuem de forma decisiva para a descrição e análise das especificidades interacionais do texto oral. sendo possível tomar. Cada réplica. São. essencialmente interacional. possui um acabamento específico que expressa a ‘posição do locutor’. de construção de sentido. conforme as diferentes atribuições da língua e as condições e situações variadas de comunicação. dois níveis de interação verbal através dos quais se poderá observar a heterogeneidade enunciativa e discursiva que. O diálogo. com relação a essa réplica. a que chamamos de réplicas. uma posição 57 . A vertente bakhtiniana contribui teoricamente para uma concepção de linguagem. combinadas com particularidades teóricas e descritivas da perspectiva conversacional. portanto. é diversamente caracterizada e adota formas variadas. de forma especial. históricos e sociais e. É no diálogo real que esta alternância de sujeitos falantes é observada de modo mais direto e evidente. alternam-se regularmente nele. o diálogo aparece como um gênero discursivo no qual o circuito dialógico pergunta-resposta pressupõe dois interlocutores ativos. Da teoria de Mikhail Bakhtin serão considerados. sendo o discurso um processo de intercâmbio entre eu/outro. os diversos discursos que os envolvem: “Essa alternância dos sujeitos falantes que traça fronteiras estritas entre os enunciados nas diversas esferas da atividade e da existência humana. de interdiscurso e de heterogeneidade discursiva que. por sua clareza e simplicidade. também. Os conceitos de diálogo e dialógico presentes na teoria do pensador russo auxiliam a análise na medida em que. sendo constitutiva de qualquer texto e de qualquer discurso. mente relacionados ao estabelecimento dos procedimentos de coesão e coerência constitutivos do texto oral. entendidos como relação entre falantes numa situação específica de comunicação e articulação existente entre um discurso e os demais que o atravessam e o constituem. é a forma clássica da comunicação verbal. os conceitos de diálogo e dialógico.

imaginário e identidade textual Este estudo. Imagens da norma culta. etc. Pressupõe o outro (em relação ao locutor) membro da comunidade verbal” (BAKHTIN.. portanto. 1992: 294). tópicos e subtópicos relacionados à emergência textual e discursiva do imaginário configurador dessa norma... etc. interação e constituição . asserção-objeção. 1992:291). o que espera é uma resposta. também.. seus sentidos e seus efeitos de sentido. apenas duplicaria seu pensamento no espírito do outro. na tentativa de flagrar as formas de presença de imagens da norma culta em textos do Projeto NURC-SP/USP. em algumas noções de norma apresentadas por teóricos como Stanley Aléong.. Norma. afirmação-consentimento. 2 Para Bakhtin. Beth. Denise François e Dino Preti. Assim sendo.) só é possível entre enunciados provenientes de diferentes sujeitos falantes. uma objeção. “a compreensão responsiva nada mais é senão a fase inicial e preparatória para uma resposta (seja qual for a forma de sua realização). serão focalizados trechos do Inquérito 333 e do Inquérito 18.” (BAKHTIN.. 1. responsiva2 (. 58 . procurará localizar formas de metalinguagem. uma concordância. uma adesão. ordem-execução. A imagem da norma culta e suas formas de aparecimento nos textos estarão sendo apoiadas.relações de pergunta-resposta. constituem justamente os dois pólos interligados pelas estratégias interacionais que dimensionam o texto. uma execução. O locutor postula essa compreensão responsiva ativa: o que ele espera não é uma compreensão passiva que. (. O conceito de texto oral aqui considerado levará em conta duas categorias aparentemente contraditórias: homogeneidade textual e heterogeneidade enunciativa e discursiva que. oferecimento-aceitação.) a relação que se estabelece entre as réplicas do diálogo.. bem como as funções interativas desempenhadas por esses elementos na constituição da textualidade.BRAIT. por assim dizer. em função das perspectivas teóricas escolhidas.

ambas do mesmo sexo. cultos. como as que já foram descritas pelos analistas da conversação e que estão assim resumidas por Kerbrat-Orecchioni (1991:124): fenômeno de eco. Esse conjunto de aspectos. profissão com igual valor social. vocal ou verbal. configuram uma “homogeinização. detalhar os aspectos pertinentes a este estudo. permitindo. os valores culturais aí produzidos e reproduzidos. Dando continuidade aos estudos dos processos interacionais presentes no Inquérito 3333. ainda. É nesse sentido que se pode pensar numa dimensão consensual do diálogo. 59 . As protagonistas encontram-se em condições de igualdade no que diz respeito à linguagem que utilizam: são paulistanas. têm a mesma idade. Uma é jornalista e a outra escritora. e que pode assumir formas diversas e em particular miméticas. de reprodução inconsciente do comportamento postural. quer da cumplicidade lingüística e estilística que vai pontuando o diálogo e marcando os elos de coesão e conseqüente coerência do texto oral. formação universitária. Seguindo os processos metodológicos propostos. é necessário caracterizar os participantes e a situação de comunicação em que estão envolvidos. quer do ponto de vista dos tópicos e subtópicos que vão sendo desenvolvidos e vão evidenciando os pressupostos. Um tal princípio é a base de toda a reflexão sobre as 3 “O processo interacional” (BRAIT. do parceiro da interação. o mesmo estado civil. das vozes dos colocutores. têm dessa sua condição. um exame do trecho compreendido entre as linhas 141 a 300 possibilita a localização de tópicos e subtópicos diretamente ligados a determinada imagem das normas em geral e da norma culta em particular. para.O discurso oral culto. mímico. 1994:189-214). num conjunto em que o acordo entre os interlocutores está fortemente presente. uma avaliação da imagem que os falantes instruídos. em seguida. que procuraremos evidenciar mais adiante. Sem dúvida esse conjunto de características tem uma função especial na condução da organização textual. de grau evidentemente variável .

graças à intervenção do fenômeno de sincronização interacional. Beth.BRAIT. instruídos. 1991:124). 1991:121). de explicação. No trecho em questão. embora ligado à vida profissional de ambas. um trabalho conjunto que implica processos lingüísticos e discursivos específicos de co-adaptação. Entretanto. apesar desse ponto de partida ideal. Sabem que foram escolhidas porque pertencem à categoria dos falantes cultos. dessa aparente simetria de caracterísiticas e de papéis a serem desempenhados no diálogo. é necessário observar também as conseqüências textuais e discursivas diferenciadas que essa situação produz. bem como do princípio de homogeinização que vai reger a construção conjunta do texto. interação e constituição . essas diferenças vêm a se neutralizar parcialmente. Imagens da norma culta. no transcorrer do desenvolvimento da troca. dispor de competências heterogêneas (são dois ideoletos que entram em contato na interação).. de solicitação. como exigência do trabalho interativo. na medida em que o diálogo implica “vozes diferenciadas. É nesse sentido que é possível observar as formas interativas de condução do tema geral proposto pela 60 . Não há apenas cumplicidade e solidariedade. é um pretexto para a observação das particularidades da linguagem falada culta. atentas às particularidades dessa situação concreta de comunicação. No que diz respeito à arquitetura textual.. pela condição textual e discursiva caracterizadora do evento. de coordenação e de harmonização dos comportamentos respectivos das pessoas em presença” (KERBRAT-ORECCHIONI. que a produção de sentido no interior de um diálogo exige um trabalho interativo constante.. no início do processo. interações: se para poder inter-agir é preciso. as interlocutoras sabem que o tema “televisão” sobre o qual deverão discorrer. mas há também um certo tipo de embate. seres diferentes que podem verdadeiramente dialogar” (KERBRAT-ORECCHIONI. de reformulação. cuja função é estabelecer a intersubjetividade constitutiva do texto. essa situação complexa permite observar. de disputa.

aspecto que preserva em certa medida a face da documentadora. constituindo um dos pilares mestres da coerência que caracteriza o texto. 61 . num país assim não é? 4 O trecho inicial foi analisado em “O processo interacional”.. aos diferentes falares reconhecidos e conhecidos por essas interlocutoras cultas. documentadora. capítulo 9 da obra Análise de textos orais. motivadas por particularidades de falas de artistas de televisão. vai sendo conduzida pelas duas interlocutoras de forma homogênea. são os seguintes: a) a necessidade de codificação da língua: 141 L2 quer dizer não há codificação((rindo)) como é que não há codi/ L1 é L2 não pode haver uma codificação. ou seja um pensamento ou uma visão de linguagem segundo a qual se pode classificar os fatos lingüísticos de acordo com categorias como bom.O discurso oral culto. conduzido para tópicos e subtópicos que dizem respeito à linguagem em geral. correto. Essa construção. aqui reconhecidos como metalingüísticos. e vai sendo particularizado em subtópicos afins e metalingüísticos. voltados para um discurso sobre a norma. puro. s/d:270). Os sub-tópicos. mau. O tópico principal recai sobre a linguagem. As considerações. o papel por ela desempenhado nesse evento interacional. que vai sendo transformado. errôneo.. reveladora do imaginário sociolingüístico-cultural que cerca a norma culta e seus usuários. padrão etc” (ALÉONG. constroem progressivamente uma imagem da norma culta em oposição às demais normas existentes. partilhada. dando continuidade ao trecho inical do inquérito4. no sentido explicitado por Stanley Aléong: “há um discurso da norma.

. destinada a melhorar o nível dos intérpretes brasileiros. b) a necessidade dos artistas cursarem a Escola de Arte Dramática5 para disciplinarem sua pronúncia: 145 L1 mas é por isso que eu digo que a a às vezes a gente diz “bom esses artistas deviam cursar . em São Paulo.... e ela é de Mato Grosso.. interação e constituição . Imagens da norma culta.. 62 . e ela 155 L2 Araci não é paulista... agora os ou/ o Juca de Oliveira ela fala feito um caipira do interior do Estado você reparou? é uma pronúncia absolutamente caipira....BRAIT. a a Escola de Arte Dramática” a maioria dos bons artistas que nós temos hoje na televisão cursou escola de arte dramática c) a linguagem caipira como estigma de determinados atores: 153 L1 e isso e todavia falam:: MUI::ti Araci Balabanian é uma das poucas que fala bem . Beth.. L2 mas ela fez o curso aqui [ L1 ela veio para São Paulo fazer a EAD aqui..... mas ela é de Mato Grosso . EAD – Escola de Arte Dramática criada por Alfredo Mesquita. 5 [ fala por exemplos L1 é de Mato Grosso ... é difícil você repara . no final da década de quarenta... L2 mas ( ) ele carrega 165 L1 do interior do Estado L2 mas é vo / voluntária né? L1 não .... não é voluntária não ...

... e) o papel da escola na transmissão da norma culta: 174 175 então não é uma questão de formação da Escola de Arte Dramática onde as pronúncias já estão ....... isso seria do curso primá::rio . e não vejo nisso .... se bem que os produtores já viram já perceberam então ele ele está sempre adequado ao papel de homem ... ele faz muito na televisão um homem rural .. “jogos já estão feitos” como se diz .. 63 .. alemãs e e e italianas como é o caso de São Paulo . ela tem que se g) a construção de uma língua e as influências benéficas de outros idiomas: acrescentar com influências .... d) a variante “não culta” como estigma profissional: 168 como é difícil.O discurso oral culto. para o Juca interpretar determinados papéis ....... deturpar o idioma eu acho que com 185 isso nós o acrescentamos. então está bem ..... ensinar um brasileiro a falar .. éh francesas . mas ele tem uma pronúncia bem acaipirada ... pelo menos quando quer falar bem depois ele pode partir para as gírias... f) a língua e a identidade nacional: acho que há uma língua ( ) uma nossa que está se 180 construindo todos os dias como o país também que está se construindo todos os dias . do interior do Estado de São Paulo..

L2 a influência excessiva por exemplo do Do cinema . histórias que não têm nada que ver com (nós) mas absolutamente nada que ver com a nossa formação .... L1 uhn . L1 eles imprimirem a L2 (esse) entrosamento é muito justo . da 190 história em quadrinhos . Imagens da norma culta... eu fico ( ) revoltada com [ L1 como você não vai .. miLHAres ..... e eles são brasi/ são são propri braziliani né? L1 é . Beth.BRAIT... agora quand/ quando há uma influência por exemplo [ mas quando você vê ..... o italiano está morando aqui ... com a nossa história i) a influência dos italianos: 200 L1 é .... h) as influências maléficas no processo de construção de uma língua: L2 eu acho H... 205 L2 não L1 é [ L2 é .. propri braziliani ..... interação e constituição ...... [ L2 210 propri braziliani . 64 .... L2 você citou o italiano . de modo que:: é muito justo e essa:: . mas eu acho também ..

.ouve-se dos.... expressões de um francês clássico . ahn ..camponeses franceses expressões ....) 245 disseram também que em vários lugares do sertão .. eu::. jovem para o qual ela foi transportada ela fica mais ou menos estagnada . nosso se ou/ se ouve ainda eh:: vocábulos ... que é o caso dessa área francesa do Canadá . e guardou esta linguagem para seus filhos para sua decendência .... então (..) 236 é muito engraçado porque o imigrante .. eu:: . mais 65 .... como patrimônio como se fosse 240 realmente um reTRAto da sua Pátria .....O discurso oral culto.... j) as relações entre o português do Brasil e o português de Portugal: 217 L1 Mas olha a propó::sito da língua da terra jovem e da terra antiga da terra de origem que no caso seria Portugal 220 ....... preservou a linguagem do seu país . tive uma entrevista .... k) as formas de permanência da língua de origem no país novo: a expressão do francês clássico na fala dos camponeses do Canadá francês e os vocábulos clássicos no sertão brasileiro: 233 . em ....eh:: no Bra/ eh:: (... no momento em que ele imigrou ....... e no país ... de Rabelais ..no Canadá francês . então essa linguagem vai evoluindo no seu país de origem ... com uma senhora que era embaixatriz do:: Canadá ... há muitos anos quando eu já estava acho que começando na minha carreira de jornalista ..

........ e almoçavam com elas e elas diziam “comei batatin::nha” .. Beth.. interação e constituição ... ahn clássicos já em completamente em desuso ... não é? l) a caracterização da linguagem do caboclo como “linguagem originalíssima e inteligente”: 252 tem ( ) entre os caboclos ... éh mamãe sempre como:: contava que elas tinham umas amigas que eram sempre 265 carinhosas eram umas velhinhas muito simpáticas então elas se vi/iam visitá-las . de mistura com linGUA::gem do caboclo que aliás é uma linguagem originalíssima .. L2 também que aliás até algum . até o:: acho que o fim do século passado . Imagens da norma culta. e inteligente m) o emprego do ‘vós’ no começo do século e sua permanência na fala popular L2 e o:: e o emprego do vós não é L1 é ( ) o emprego do vós [ 260 L2 o emprego do vós L1 é .....BRAIT. L1 é:: L2 tem muita coisa ainda [ 255 L1 tem muita coisa . L1 comei? (riu) [ 66 .

... éh que ela atendia o telefone e dizia .. é mais ou menos empregado no caso casa de madame .. e não e nem me 67 .. porque maDAme aqui no Brasil . uma cabelereira . nessa nessa .. ... mocin::nha ....... .... como se fosse 285 uma casa de uma coleteira — não tenho nada contra a ((rindo)) a classe das coleteiras prezo muito ... em São Paulo eu me lembro quando eu era ... “aqui é a casa de madame 280 H.... aí .. L2 270 “comei batatinha” quer dizer ofereciam as coisas assim . nessa linguagem usavam ainda normalmente essa linguagem isso não é .. começo do século não é? L1 não e no meio [ L2 ainda 275 L1 é engraçado e no meio assim do L2 usando vós [ n) a atitude prescritiva dos que dominam a norma culta em relação aos que não a dominam e a avaliação estética das variantes: L1 POvo . não diga “casa de madame H.... eu tive uma empreGAda ..O discurso oral culto. de uma:: residência particular então você não . mas enfim na ((pigarreou)) — fosse uma coleteira ((pigarreou duas vezes)) . que não é o caso ...... “olha fulana você não::me chama de madame H.. e:: expliquei eu diSSE . eu fiz ver que não se dizia assim que que eu que eu não era madame H..

BRAIT.— ”por que a senhora não quer que eu lhe dê madamia?” mas [ L2 . madamia 1...1 O papel dos tópicos e subtópicos na construção do sentido e da unidade textual: a emergência de uma imagem da norma culta No que diz respeito a esse conjunto de subtópicos que contribui para a construção e produção de sentido e efeitos de sentido sustentado pelo imaginário em torno da norma culta.. Beth.. interação e constituição . exemplifica com a Escola de Arte Dramática e 68 . Existe um processo colaborativo de constituição temática do texto que implica a situação específica de interação verbal e uma certa ordem de valores culturais... Logo no início.. L2 apresenta a idéia da “codificação” e L1.. dimensionando a reapropriação desses elementos culturais no desenvolvimento da interação.. aí ela pôs a mão no quadril me olhou — eu nunca hei de me 295 esquecer isso faz tantos anos . chame de madame — porque ela só me chamava de madame — eu acho muito desagradável ( ) você me chame dona H. não me chame de madame”.. [ 300 L2 que eu lhe dê madamia ((riram)).. é possível observar que são esses elementos que fornecem as primeiras informações sobre a dimensão ao mesmo tempo homogênea e heterogênea da constituição textual oral.. delicioso L1 é . Imagens da norma culta.. concordando com essa idéia. madamia. herdados e transmitidos socialmente e que estão aí reproduzidos pelas interlocutoras nos turnos que vão sendo alternados.

a participação interacional atua. opondo falas regionais a um padrão paulistano disciplinado pela Escola de Arte Dramática. bonita e correta. Nesse sentido. o que lhe possibilita tocar na questão das influências. criticando a influência do cinema e da história em quadrinhos que “não têm nada a ver com (nós) mas absolutamente nada a ver com a nossa formação . e apontando para outras influências. O desenvolvimento desse subtópico vem com a colaboração de L2 que dá exemplos de artistas que vieram de outras regiões do país e que freqüentaram essa escola. entre povo brasileiro e outros povos. na macro estrutura sintática da coerência textual: os comentários sobre a linguagem não são gratuitos ou ocasionais. Apropriando-se desse último aspecto. como seqüência natural.. através da particularidade do exemplo. complementados por L1 e L2. estabelece a relação com o tópico geral proposto pela documentadora. e com a possível presença de termos clássicos no sertão. segundo L1. da pronúncia “acaipirada”. desenvolvendo um longo turno sobre as relações lingüísticas existentes entre um país colonizado e seu colonizador.. aspectos que perduram. com o emprego do vós e com a criatividade presente na linguagem popular. também. É também o tema da influência que permite a L1 dar seqüência ao texto. 69 . mas estão diretamente interligados com o que foi proposto pela documentadora e com os pressupostos sobre o domínio da língua boa.O discurso oral culto. mas também. o que permite a L1 inserir. e que são exemplificados com os casos do Brasil e do Canadá. Dando continuidade a seu turno. alternadamente. os subtópicos da “fala caipira”. televisão. como a dos italianos. sua função na formação dos “bons artistas que nós temos hoje na televisão”. L1 desloca a função da EAD para a escola e sua função na constituição da pronúncia e da língua em geral. que representam um “entrosamento” entre língua nacional e outras línguas. não só L1 dá seqüência ao subtópico proposto por L2. L2 introduz a questão da relação existente entre língua e nacionalidade. L2 confirma essas hipóteses lingüísticas apresentando outros exemplos que vão sendo. Assim. ou seja. ao longo da história do país colonizado. com o caso da linguagem do caboclo. opondo fala rural a fala urbana. com a nossa história”.

ao serem parcialmente explicitados. através de subtópicos interligados. interação e constituição . Provavelmente. com as construções sintáticas e com uma evidente preocupação geral com a forma como se expressam. Esse conjunto confirma a existência de uma unidade temática. Enquanto participantes ativas do evento. aspecto que procuram evidenciar através dos cuidados com o vocabulário.. de fato.BRAIT. também no nível temático. são esses os conceitos de língua. juntamente com outros fatores. a presença da documentadora contribui para a instalação de aspectos muito particulares em relação à temática proposta. gradativamente organizada e desenvolvida pelas interlocutoras. é possível afirmar que o desenvolvimento da interação verbal implica o estabelecimento de relações sociais entre 70 . mas não só nele.. incluindo a construção de “imagens identitárias” e a representação da situação em que estão envolvidos. é necessário assinalar que a interação está. mas também tematizam. pela coerência textual. Parafraseando Robert Vion (1992). metalingüisticamente. elas não apenas se consideram falantes da norma culta da cidade de São Paulo. isto é. Essa constatação demonstra que a construção do texto. interligando-se ao tema televisão por meio da exemplificação do caso dos artistas. Fica evidente também que essa homogeneidade temática está apoiada em questões gerais de linguagem e de língua. do bem falar e que. vão demonstrando o quanto elas estão levando em conta o conjunto da cena enunciativa.. Sob esse enfoque. além das próprias presenças. Entretanto. acontece enquanto construção de relações sociais entre sujeitos. apoiada sobre pressupostos culturais compartilhados pelas interlocutoras no que diz respeito à noção de norma culta. Ambas se dirigem aos estudiosos da norma culta de forma aberta e apaixonada. empenhando-se na seqüência temática do evento. sua verdadeira audiência. elas co-operam nesse nível da constituição textual. registros e níveis considerados por elas como constitutivos do universo dos estudiosos interessados em registrar o diálogo em pauta. Beth. e que são. de linguagem correta. coesos e responsáveis. essa competência com a explicitação de conceitos referentes ao que consideram pertinente a essa norma. nesse nível. Imagens da norma culta. que se apóia nos trabalhos lingüísticos de inspiração etnometodológica.

considerando os demais lugares como hierarquicamente inferiores. Esses lugares não reproduzem mecanicamente as relações sociais objetivas. ainda que se possa colher. mas em função da representação que ele faz dessa situação”. isso não significa que durante a fala elas não tenham deslizado por construções sintáticas que certamente elas mesmas não incluiriam nesse conceito de linguagem correta e bonita que elas defendem. Constróem esse espaço como o centro a partir do qual é possível pensar as questões de língua e de linguagem.O discurso oral culto. Ainda no que diz respeito ao trecho escolhido. O lugar do sujeito falante vai definindo-se ao mesmo tempo em que se define o lugar do seu interlocutor: os lugares são necessariamente simétricos ou complementares. apesar desse empenho das interlocutoras em mostrar seus conhecimentos lingüísticos. 1. As formas assumidas por 71 . exemplos “deliciosos” da presença da norma culta no falar do “povo”. como aspecto pitoresco e exceção. as protagonistas se posicionam no espaço dos falantes da norma culta e também dos que são capazes de refletir sobre ela. De fato. Isso confirma a passagem em que Abric (1987:56) diz: “o indivíduo não reage em função da situação objetiva à qual ele é submetido. mas seguindo seus modelos constituem-se na situação específica de interação. os sujeitos envolvidos. é necessário assinalar a participação de diferentes fontes enunciativas na construção desse espaço textual. incluindo em sua fala até mesmo a relação língua-identidade nacional-norma culta. Esses sujeitos falam de determinadas posições sociais e dão vida aos papéis desempenhados através das marcas que vão constituindo o texto elaborado em conjunto.2 Algumas outras formas de metalinguagem relacionadas À norma culta e Às funções interativas por elas desempenhadas Ainda no que diz respeito ao Inquérito 333 e às formas de metalinguagem que funcionam interativamente para a construção de uma imagem da norma culta.

constituídas a partir de diferentes recursos discursivos-textuais...... eles são brasi/ são são propri braziliani né? L1 é . considerando-se. a presença e a atuação discursiva das duas interlocutoras... interação e constituição . Beth. Imagens da norma culta. essas fontes... 207 L2 é .BRAIT... “jogos já feitos” como se diz. completamente:: caídas em desuso e:: portuguesas e por/.... 174 L1 questão de formação da da Escola de Arte Dramática onde as pronúcias já estão ... a a Escola de Arte Dramática’. temos.. a maioria dos bons. por tratar-se de um diálogo.. como se pode constatar nas seguintes formas metaenunciativas: 145 L1 a gente diz: “bom esses artistas deviam de cursar .... e . e ela me disse uma coisa muito interessante que se verifica muito nos países novos 245 L1 ... a maneira como vão sendo introduzidas no diálogo e como vão sendo nomeadas e mostradas pelas interlocutoras do trecho em questão podem ser detectadas nas seqüências abaixo assinaladas... no conjunto.. propri braziliani. porque me 246 disseram também que em vários lugares do sertão..” 228 L1 francês.... em primeiro lugar o fato de que. uma interação face a face. de português clássico não é ? 72 ... aparecem outras fontes enunciativas. Além dessas duas fontes constitutivas do diálogo. as quais vão alternando turnos e configurando duas fontes enunciativas explícitas e constitutivas do diálogo.” 249 L2 papai mesmo tem nos livros dele ele tem muitas expressões.

.. s/d :270). “por que que a senhora não quer que eu lhe dê madamia?” O que se observa nesse conjunto é que as vozes enunciativas. do discurso indireto. “aqui é a casa de madame H.O discurso oral culto. nesse diálogo. de pseudo-provérbios e de termos estrangeiros. Esses procedimentos têm a função discursiva de confirmar a heterogeneidade constitutiva do discurso.. éh que ela atendia o telefone e dizia . evocadas de forma explícita através da inclusão do discurso direto. Se por um lado os valores culturais a respeito do uso da língua advêm de discursos que estão em curso na sociedade e que se inserem na 73 ... papai..” 295 L1 esquecer isso faz tantos anos.. O dircurso da norma. funcionam exatamente como no texto escrito.. ao mesmo tempo. mamãe.. 263 L2 do século passado .. empregada e outros que funcionam como fontes discursivas do diálogo em questão para confirmar o universo configurado socialmente. quer ele se apresente sob a forma de texto oral ou escrito.. onde estão bem definidos os locutores investidos de prestígio em matéria de linguagem e os demais. Bastaria uma incursão sobre o campo semântico recoberto pelos termos a gente. “remete a um aparelho de referências que compreende exemplos de bom uso em locutores investidos de autoridade e de prestígio em matéria de linguagem” (ALÉONG. que deles se diferenciam sociolingüisticamente. particularidades do universo lingüístico e social dos interlocutores.. circunscrevendo. eu tive uma empreGada . se considerarmos a questão sob o ângulo do imaginário da norma culta que envolve o diálogo: são formas de autorização do que está sendo dito. éh mamãe sempre como:: contava que elas tinham umas amigas que eram sempre 278 L1 era mocin::nha .

BRAIT. Mas para complementar a abordagem de algumas formas de metalinguagem motivadas pelo imaginário em torno de uma norma culta e de falares que estão fora dessa norma e que participam dos procedimentos interativos de um texto. Imagens da norma culta.. como é o caso da valorização da norma culta e da desvalorização da pronúncia caipira do interior de São paulo e de outras regiões brasileiras. solteiro. o informante vai localizando a época em que freqüentava a fazenda. o informante de 31 anos.. Nesse diálogo. advogado e paulistano é convidado a falar sobre “sua experiência de fazenda”. cuidadosamente. interação e constituição . a preocupação com o outro falar envolvido na interlocução. é possível mencionar mais alguns exemplos. que é o da vivência na fazenda e. motivada pela documentadora-interlocutora. Empenhado em recuperar suas lembranças. manifestado na preocupação com vários fatores: a maneira como os falantes “cultos” se expressam. não apenas o tema solicitado pelo documentador. do gado. O discurso do informante vai revelando seu propósito de administrar essa situação. No decorrer da narrativa. a preocupação com o fato de que a documentadora não domina esse falar. como 74 . a exposição consciente e explícita de outras vozes constitui a condição de heterogeneidade marcada e mostrada que se apresenta no texto oral com a mesma constância que no texto escrito. mas o profundo envolvimento na situação de interlocução. as expressões metalingüísticas e metaenunciativas vão desenhando o perfil desse falante culto.. ainda. como no trecho do Inquérito 333. e especialmente desse material coletado pelo Projeto NURC-SP/USP. colocando-se. sendo interrompido interativamente pelo documentador. Beth. fala das interlocutoras nessa situação específica de interação. da produção e dos trabalhos lá existentes. uma vez que esse é o propósito da pesquisa. o que se observa é a constância de expressões metalingüísticas que revelam não um simples cacoete da linguagem oral ou desse indivíduo. as características da casa. Considerando. todos extraídos do Inquérito 18. constituído de um diálogo entre um informante e um documentador (DID). mas a situação especial de interação.

é. Vamos dizer. aquilo que chama. como se constata no levantamento que segue. ah “como que está a ordenha do gado”. 621 Inf... deve ter um nome especial mas a gente costuma dizer.... da palavra vamos dizer. mas isso é uma palavra que não se usa 527 Inf. dispensou-se a indicação das linhas.. tem uma palavra vamos dizer .. 517 Inf. é que as próprias palavras já estão dizendo.. quer dizer..quando muito até:: ... as expressões e frases metalingüísticas vão acentuando essa preocupação.agora tem um nome especial que eu não:: estou lembrando viu? . é colostro eu acho.. . como se diz. No primeiro bloco. centrada basicamente na adequação vocabular.. uma vez que as expressões destacadas aparecem muitas vezes e em diferentes pontos do texto.. Assim.. e:: mesmo tirar leite.. como poderia chamar.. como é que se diz. 521 Inf.... tiração de leite.O discurso oral culto. vamos dizer assim.mas normalmente ninguém diz por exemplo para o administrador da fazenda. uma vez que a interlocutora é a representante dos estudiosos da norma culta e o informante tem consciência de que é considerado um falante culto. 75 .. como poderiam chamar.. eh:: literária pra dizer ordenha do gado . o falante culto que domina outro falar e é capaz de traduzi-lo para sua interlocutora... no decorrer do diálogo. e tem um nome especial. O conjunto das expressões demonstra a atenção do falante voltada sobre a própria enunciação......... “u/ usa-se entre pessoas muito cultas . uma substan-tivação. que eu:: não sei . eu não sei bem como é que poderia chamar.. nunca se fala ..

.. então usa-se a palavra cabeçada. o:: novilha quando é fêmea.. e depois é que se chama de touro ou de vaca... eu acho que o queijo feito de coalhada.... potrinho. 679 Inf. a gente chama de bezerro. e passa por baixo do. é os nomes praticamente usados acho que são só esses é potro e cavalo....”. a cabeçada por sua vez tem:: também algumas partes..... o:: o cavalo enquanto pequeno é potro... Beth. um outro courinho que sai. que entra na boca do cavalo. 680 Inf. logo:: na frente do::... tem o nome de requeijão né?. o ferro. próximo ao pescoço...... de cima..... depois de::.. parte de trás eu não sei... quando é macho... 777 Inf. da cabeça do cavalo que se chama::........ o::... porque tem uma que vem.. da cabeça. e além disso tem uma.... 733 Inf.... do restante do freio.... que também tem um nome ahn:: — é alguma coisa como:: gargantilha mas não é gargantilha hoje é.. garrote... 76 .. 642 Inf... interação e constituição . aquilo que... cabeção.. por uma::.. Imagens da norma culta. 692 Inf... ah.. 762 Inf. de nenhum nome específico....BRAIT.. depois tem uma que vai mais em cima da própria cabeça do cavalo que é a testada...... que é o Santo Antônio como se diz... a fêmea é:: chamada de égua né?. mas quando se quer distinguir.. por aquilo que se chama barrigueira.

a partir dos fatores aqui sintetizados. foi possível incluir a metalinguagem que marca as formas de presença da relação dos conceitos de norma. do imaginário que cerca esses discursos. flagradas nas formas lingüísticas. instruídos. como elemento constitutivo dessa dimensão. Observações finais Considerando. E é essa uma das dimensões que serve de parâmetro para o reconhecimento da textualidade do discurso oral. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRIC. 1991:218) e que “a organização interna das seqüências varia em função de numerosos fatores – tipo de interação e de situação interativa. ou seja. cada um forma um “ bloco de trocas interligadas por um forte grau de coerência semântica e/ou pragmática” (ORECCHIONI. Suisse. etc” (ORECCHIONI. grau de conhecimento mútuo dos participantes. enunciativas e discursivas presentes nos textos aí registrados e no imaginário por eles revelados. Se o material do Projeto NURC-SP/USP ainda não possibilitou o conhecimento das especificidades da norma culta falada na cidade de São Paulo. que os trechos escolhidos para análise constituem seqüências textuais. natureza da relação interpessoal. é possível reconhecer a condição de homogeneidade textual e de heterogeneidade discursiva e enunciativa aí instaladas. Édition Delval. (1987) Coopération. objetivo. 1991:221). compétition et représentation sociales. e que podem ser observados especialmente em falantes considerados cultos. 77 . destacando-se de forma especial o papel das estratégias interacionais na constituição da unidade e da diversidade articuladas no gênero diálogo. Fribourg. com certeza pode oferecer vasto material para o conhecimento das imagens da norma culta e de seus falantes. circunstâncias do encontro.O discurso oral culto. J-C. freqüência dos encontros entre as pessoas em interação. integrantes do universo dos que partilham conhecimentos lingüísticos privilegiados pela sociedade num dado momento histórico. duração. Aqui.

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analisamos uma entrevista do Presidente da República. examinamos o purismo lingüístico enquanto fenômeno presente no discurso oral culto. Os usos coincidentes com a norma prescritiva.O discurso oral culto. tomamos três textos do arquivo NURC/SP – Núcleo USP. PURISMO NO DISCURSO ORAL CULTO Marli Quadros Leite Introdução Neste artigo. concedida. regência nominal e verbal e composição do sujeito. a fim de verificar o nível de manutenção da norma prescritiva. e. todos de Elocução Formal (EF). Para tanto. no discurso oral culto. levantamos questões gramaticais coincidentes e divergentes da norma prescritiva. Da análise do corpus. verbos reflexivos e pronominais. Além desses. O parâmetro para verificação da ocorrência e característica do purismo nesse tipo de discurso será a metalinguagem prescritiva. pelo emprego de a gente e você. duas conferências e uma aula universitária. mas não coincidentes com o uso efetivo da 79 . em específico. sobre as atividades do governo. nível em que analisamos os seguintes pontos: emprego de tempos verbais. Fernando Henrique Cardoso. no dia 17/01/1996. em termos de léxico e de gramática. após pronunciamento de balanço do ano de 1995. Nosso objetivo é mostrar que o purismo é um fenômeno lingüístico presente na língua.

até alcançarmos a posição do problema em relação ao discurso oral culto contemporâneo.LEITE. 1. portanto. que tinha por objetivo. Comumente. uma atitude anacrônica. os membros da assembléia e de qualquer outra reunião pública”. Para Platão. língua. MALMBERG (1966: 218) escreve: “O purismo e sua motivação teórica podem constituir. Os sofistas gregos criaram a Retórica. o estudo do purismo como fenômeno lingüístico indica que ele existe em todas as épocas. A propósito disso. era “a arte de 80 . Em cada período. contudo. Está condicionado naturalmente pelos aspectos sociológicos e pela teoria da comunicação lingüística. Marli Quadros.” Incorporando a sugestão do conceituado lingüista. 422). são considerados puristas e os divergentes. o que é natural. pensa-se que. Purismo no discurso oral culto. dentro desses temas analisados. por conseguinte. e tem-se certeza de que hoje não existe mais tal tipo de comportamento lingüístico. aproximadamente 1920. os conselheiros no conselho. uma conseqüência lógica da mudança introduzida por Saussure com sua insistência no plano da sincronia. outro aspecto importante da lingüística moderna. para Górgias (Górg. pois decorre da concepção de língua e da atitude lingüística de cada momento. apuro desmedido na escolha da expressão. antipuristas. passemos em revista alguns pontos que envolvem a questão do purismo. A pesquisa sobre o surgimento do purismo exige que voltemos ao passado. o purismo foi atitude característica da segunda metade do século XIX até início do século XX. aparece com uma configuração diferente. “poder persuadir por meio de discursos os juízes nos tribunais. e resulta. no Brasil. Conceito de purismo Quando falamos em purismo. a primeira idéia que nos ocorre é a do exagero gramatical e léxico. No entanto.

Durante séculos. a pureza da linguagem estava relacionada à literatura. No mundo clássico latino. não somente nos tribunais e assembléias populares. sem língua 81 . foi quem determinou a função e o conceito de Retórica que predominaram no mundo durante muitos séculos. feminino e neutro). da procura da melhor expressão para levar o interlocutor ao convencimento. Para esse pensador. falada ou escrita. a terceira. no entanto. mas também nas conversações particulares”. no sentido de língua inferior. o latim clássico. Os que desejassem usar o melhor latim deveriam imitar a linguagem de Cícero. guiar a alma por meio de raciocínios. puro. na Retórica.) Esse foi o lançamento da pedra fundamental da questão. ARISTÓTELES (s. a Retórica “é a faculdade de considerar em qualquer caso os meios de persuasão disponíveis”. A partir daí. esses vernáculos existiram como línguas vulgares. evitar o uso de termos ambíguos. observar o sistema de número. o português. lançou as bases da “prosa” e definiu a idéia de “pureza” da linguagem: “A pureza é o fundamento do estilo e depende de cinco regras.:184). a quarta. o italiano. o romeno. o problema foi tratado por aqueles que trabalhavam com a Retórica e adotado de certo modo pelos gramáticos gregos e latinos. o sardo.id. o espanhol. em especial ao texto ciceroniano.” (ib. rude. empregar termos precisos. o provençal. A primeira é usar adequadamente os conectivos. empregar os gêneros diversos (masculino. Assim se formaram os vernáculos: o francês. desde o esfacelamento do império romano. o catalão. era o latim impuro. a quinta. o dálmata. derivada de outra principal e de prestígio. a partir do século V.O discurso oral culto. o reto-romano. acerca do que interessava em cada discurso. A transformação desse latim vulgar pelo povo das diversas regiões deu origem a diferentes línguas históricas. a segunda. vulgar. primeiramente tidas como “dialetos”. que ainda abordavam o tema pelo viés da arte da persuasão. A linguagem livre do povo.d. Aristóteles.

“a primeira gramática humanista de uma língua vulgar”. surge 1 “A língua literária da Roménia (escrita até o séc. fizeram a descrição de cada uma dessas línguas de acordo com a estrutura do latim. Esse. Sublinhe-se que se trata da pontualização histórica da norma purista e não do purismo. a linguagem como elemento de nacionalidade. com o lançamento de sua Gramática das Línguas Românicas. aos poucos. XIX. séc. portugueses e até de línguas não latinas. gramáticos e filólogos começaram a adotar outras posições. italiano. que encontrou sua forma definida no séc. séc. séc. a Gramatica castellana. embora completamente baseada na gramática latina. franceses. de acordo com VILELA (1982). e ao mesmo tempo como caráter étnico.) 82 . não foi o caminho acertado para a fixação da norma das línguas românicas e. literária. Segundo LAUSBERG (1974: 54). o primeiro a seguir a tendência da Lingüística Comparativa foi Adolfo Coelho. “(. X. provençal séc. XII. VASCONCELOS (1929: 886) acentua que. IX. catalão séc. quse exclusiva com letras cirílicas e agora com letras latinas) criou-se na Transilvânia durante a época da Reforma tão rica em obras tipográficas” (ib. português. espanhóis. Em português.LEITE. Marli Quadros.. foi o espanhol Nebrija que escreveu. XIX. Purismo no discurso oral culto. reto-romano.) considerou-se.. XIII. iniciada nas línguas românicas por Frederico Diez em 1836. em 1492. e nesse sentido opõe-se um dique à corrente de estrangeirismos. os mais antigos textos coerentes em língua românica aparecem na seguinte ordem cronológica: francês. Como informa PADLEY (1983:70). depois de Adolfo Coelho. a norma purista é anterior a esse período. romeno. Vários autores italianos. O purismo como fenômeno lingüístico acompanha o desenvolvimento da língua e. como o inglês. espanhol. no entanto. com rigor maior que dantes.1 Não foram poucas as tentativas de imprimir às línguas românicas o prestígio do latim. Os estudos filológicos portugueses acompanharam a teoria da Lingüística Comparativa. XI. portanto.” No entanto.

expressividade ou harmonia: razões fonético-fonológicas (bem soantes). em conjunto com ela. op. já que um dicionário é elaborado a partir de um estado de língua anterior ao de sua publicação. autoridade e uso). etimologia. extensão da aceitação. metalinguagem produzida sobre certo uso lingüístico. atender ao ‘gênio da língua’. as do grego. a norma purista portuguesa está primeiramente documentada no Glossário das palavras e frases da língua francesa. também. então. uso: uso dos barões e doutos.O discurso oral culto. os que conheciam os clássicos e eram escritores e críticos nas línguas clássicas. c. libertar a língua do refugado francesismo.) Os princípios norteadores desse purismo eram baseados nos de Quintiliano. do Cardeal Saraiva. XVIII. d. publicado em 1816. antigüidade. defender a natural formosura ‘da nossa linguagem’. colocação. os dados lingüísticos nele apresentados são referentes ao séc. os escritores nacionais. morfossintáticas (boa derivação. acerca da perfeição ou decadência das línguas (analogia ou razão. que é atitude lingüística preservadora de uma norma.: 12-16) 83 . cit. aponta que a norma purista do português remonta ao século XVIII. VILELA (1982) explica que. boa origem: em primeiro lugar vêm as palavras originárias do latim. de acordo com o autor citado.” ( ib. com juízo crítico nas que são adotáveis nela. (Cf.). decorre do purismo. em segundo. significação natural). que por descuido. mas é fato diverso dele. Esse purismo do século XVIII nasceu do objetivo da época de “preservar o ‘antigo e bom uso’. Doutos eram os instruídos na língua. Já a norma purista. Esse fato. Assim. e. harmonia. analogia: boa derivação. Em linhas gerais. VILELA. ignorância ou necessidade se tem introduzido na locução portuguesa moderna. repetição de pronomes etc. b. os princípios nos quais o Cardeal Saraiva se baseou para elaborar o juízo crítico sobre as palavras e expressões que julgou são quatro: a. para o português. embora o dicionário do Cardeal Saraiva tenha sido publicado no século XIX. regularidade de acordo com os modelos produtivos da língua ou como coerência de significação. ou semânticas (expressividade.

caracterizou-se pelo combate aos estrangeirismos. Tendo o jurista Clóvis Bevilaqua feito o Projeto do Código. registrou que o dicionário de Saraiva marcou época pelo zelo purista. pode-se dizer que o combate aos galicismos continuou em voga. Essa foi uma situação que contaminou espíritos e gerou polêmicas que caracterizaram a Filologia brasileira e portuguesa. Diga-se.LEITE. O Romantismo trouxe o nacionalismo que. pois queriam deixar patente sua erudição e provar não serem provincianos. No Brasil do século XIX. Em verdade. Embora não se conheça um trabalho crítico ou científico específico sobre o purismo ou a norma purista do século XIX. por exemplo. Purismo no discurso oral culto. falando sobre o desenrolar dos estudos lingüísticos portugueses no século XIX. gerado pela leitura dos clássicos. Rui Barbosa. continuou discordando do antigo mestre e prepa84 . por sua vez. lingüisticamente. Dessa polêmica participaram portugueses e brasileiros contra Alencar. Alencar foi acusado de praticar uma linguagem descuidada. O que escapasse à norma clássica portuguesa era duramente criticado. cheia de neologismos e galicismos. Rui Barbosa. Carneiro Ribeiro. Marli Quadros. as polêmicas que giraram em torno da linguagem de José de Alencar ilustram bem esse espírito da época. em torno da redação do Projeto do Código Civil. Os trabalhos filológicos atestam a existência desse purismo no século XIX. valorização do vernáculo. preliminarmente. Teve Carneiro Ribeiro quatro dias para fazer o trabalho. o Brasil assistiu à polêmica lingüística travada entre Rui Barbosa e Ernesto Carneiro Ribeiro. muitas das quais objetadas por Rui Barbosa. Escreveu setenta e sete emendas ao projeto do Código. tendo sido exemplo de intransigência e visão estreita dos fatos da língua. para que este procedesse a uma revisão da linguagem usada na redação dos dois mil artigos. feitas à redação do Código Civil. No final do século XIX e início do XX. Isso levou Carneiro Ribeiro a elaborar um texto denominado Ligeiras observações sobre as emendas do Dr. ainda. a Câmara o enviou. ao Professor baiano. e utilização da linguagem regionalista. que os brasileiros eram mais rígidos que os próprios portugueses. o centro das atenções era Portugal e a produção lingüística brasileira era toda voltada para lá. MOREL PINTO (1976). depois de estudar as Ligeiras Observações.

A língua falada. Do mesmo modo. magoado com as afirmações do Senador Rui Barbosa. em confronto com exemplos de outras gramáticas mais antigas. então. promoveu uma mudança no panorama lingüístico brasileiro. em termos de língua falada. ainda é muito voltada para a norma prescritiva. tal situação começou a mudar quando a força da bandeira modernista. é mais livre da força dessa norma. só se concretizaram efetivamente depois de algum tempo decorrido da revolução modernista. mesmo a padrão. principalmente. já que há maior liberdade em relação a usos “não autorizados”. considerada bastante liberal. Se a situação é essa em termos de língua escrita. O purismo praticado nessa época no Brasil e. por propugnar a valorização da variante brasileira. Os efeitos dessa abertura. Em termos de norma prescritiva. a força da norma prescritiva. um 85 . Mesmo assim.O discurso oral culto. praticada pela imprensa – e em todos os outros meios exceto os científicos e literários. no léxico e na gramática da variante culta da língua. Há. e de outros modernistas como Manoel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. conforme se pode depreender da análise dos exemplos das gramáticas de BECHARA (1983) e CUNHA & CINTRA (1985). como a de LIMA (1969). A língua escrita. então. no entanto. é muito mais acentuada. foi exatamente o mesmo iniciado no século XVIII. Ernesto Carneiro Ribeiro. a presença de estruturas não autorizadas pela norma prescritiva contemporânea. que têm linguagem especial –. principalmente no dialeto culto e registro formal. assim. não é difícil observarmos. pode-se dizer. Somente a partir de 1922. por sua natureza efêmera. até às vésperas do Modernismo. Muitos outros usos correntes na língua escrita do Brasil ainda são considerados incorretos. por exemplo. duas forças opostas. não é difícil observarmos. a Réplica às correções do professor baiano. tendo sido essa a última palavra sobre a redação do Código. qualquer que seja o grau de formalidade. rou. De posse da Réplica. a ruptura com o passado. foi à Tréplica ao texto de Rui. O impacto causado pela linguagem de Mário de Andrade. apenas depois da década de 70 alguns dos usos modernistas foram abonados. abriu espaço para que se praticasse uma linguagem menos artificial e mais próxima da linguagem comum brasileira.

desaparece o estigma que pesa sobre ele. seja o parâmetro para análise do grau de conservação a própria norma implícita. 2. Neste trabalho. o purismo nasce do conflito entre a sua norma implícita e a norma explícita. já expostas à diversidade na linguagem comum. Se reconhecemos essas forças presentes na elaboração do discurso. podemos dizer que o purismo possui características que se coadunam com a concepção de língua e atitude língüística predominante em cada época. Marli Quadros.LEITE. Examinando. 86 . possível verificar esse esforço aparente no fio do discurso. mas do terrorismo purista. Como os falantes imaginam estar próximos da norma prescritiva (cf. optamos pelo segundo caminho. Barros. Em relação ao discurso oral culto. fluxo inovador e um refluxo conservador. seja a norma explícita. e localizamos aí o purismo lingüístico. então. por estar relacionado a um período em que a concepção de língua em vigor levou gramáticos e literatos à prática não do purismo. neste volume) lutam para conservála em suas falas. Purismo no discurso oral culto. É. Portanto. trabalhando na construção sincrônica do discurso. o purismo como fenômeno inerente à língua e integrante da força conservadora. Isso significa que há purismo referente a todos os discursos de norma implícita. de estruturas morfossintáticas. assim. Na gramática – preservação. 2º estudar a unidade lingüística provocada pela força conservadora. No léxico – uso de palavras não desgastadas pela linguagem comum. Entendido o purismo dessa forma. como afirmou CUNHA (1986: 45). podemos dizer que ele é um recurso preservador de norma. podemos adotar dois caminhos para estudá-lo: 1º estudar a diversidade lingüística provocada pela força renovadora. tal como previstas na norma prescritiva. Portanto. pode-se analisar o purismo manifestado nos seguintes níveis: 1.

é a identidade sistêmica. A propósito disso. àquele versado em sua língua. sem métodos descritivos aperfeiçoados nunca alcançaremos determinar o que. Analisaremos. está fundado no nível 87 . à desconfortável sensação de pensarem não saber a sua língua3. e óbvio. O controle das variáveis sociolingüísticas envolvidas no conceito de falante culto foi realizado pelo Projeto NURC/SP – Núcleo USP e. em relação à variedade brasileira do português. ou. americano. o que é grosseiro. textos de falantes cultos. apesar de diferentes. em termos radicais. no domínio da nossa língua ou de uma área dela. produzidos em situação de formalidade. em muitas situações. seja na escrita. o que é tolerável. em muitos pontos2.O discurso oral culto. O primeiro. são modalidades da mesma língua. africano e asiático). O discurso oral culto: purismo e antipurismo As modalidades lingüísticas falada e escrita. toma-se a norma prescritiva portuguesa em vigor para todas as formas dialetais do português (europeu. embora diferentes entre si quanto ao tipo de enunciação.” (Grifamos) Enquanto não há tal precisão dos estudos lingüísticos. o que é inadmissível. Stanley Alèong (1983: 261) Referimo-nos em específico ao falante culto. o que é e o que não é correto. seja na forma falada. não há norma descrita da língua falada ou da escrita. que conhece os escritores contemporâneos e que tem contato freqüente com a língua escrita. que levam os falantes. objetivamente. mas com discordâncias localizadas em certos pontos. 2. para mostrar a presença do purismo. e em maior grau quanto ao discurso oral culto. bem o disseram CUNHA & CINTRA (1985: 8) quando afirmaram: É justamente para chegarem a um conceito mais preciso de ‘correção’ em cada idioma que os lingüistas atuais vêm tentando estabelecer métodos que possibilitem a descrição minuciosa de suas variedades cultas. pois. ou seja. 2 3 Cf. Sem investigações pacientes. é a coincidência entre as normas implícita e explícita. Podemos afirmar que. O segundo. a seguir. apresentam muitos pontos comuns. é de emprego obrigatório. o que é facultativo.

Não obstante isso. mesmo assim. PRETI. Todavia. Marli Quadros. Em outras palavras. e) economia funcional (negligência de distinções supérfluas no discurso). Já a norma explícita corresponde à norma prescritiva. b) seleção entre variantes e modos isofuncionais existentes na língua. d) empréstimo de outra ‘língua’ (que pode ser total ou parcial e. sentidas no fio do discurso. manifestada pelo uso de léxico e estruturas não freqüentes no uso da língua. decidirá pela consolidação de uma delas em situação de formalidade. é aparente no discurso oral culto porque há dualidade de uso em torno de um mesmo fato gramatical4. não é alarmante a divergência. Há muitas interferências situacionais e pragmáticas. Por outro lado. Se não se exigir objetividade de critério. que é o conjunto de regras extraídas 88 4 5 . É importante salientar que a luta entre a força conservadora. e somente o uso reiterado. Nesse caso. na língua falada. mas. mas coincidentes com a norma prescritiva. ou na língua escrita5. variando seu registro de acordo com as circunstâncias da comunicação. 1990) Consideramos inovador o que se contrapõe a prescritivo.LEITE. COSERIU (1979:71) diz: “Uma inovação – deixando-se de lado as possíveis mas muito raras criações ex nihilo – pode ser: a) alteração dum modelo tradicional. pode implicar também ‘alteração’). que é o uso objetivo da língua. c) criação sistemática (‘invenção’ de formas de acordo com as possibilidades do sistema). Purismo no discurso oral culto. o estudo. (Cf. diálogos e conferências – é sempre universitário. há tensão de normas. entrevistas. manifestada pelo uso de léxico e estruturas não autorizadas pela norma prescritiva. o conhecimento da norma prescritiva contribui efetivamente para a unidade lingüística. somado à autoridade dos que adotarem preferencialmente uma ou outra forma. A norma implícita é correspondente à norma descritiva. o que pode ser comprovado pela análise do discurso oral de um falante do dialeto culto. e a inovadora. sabemos que apenas a variável nível de escolaridade não é condição necessária e suficiente para a definição de falante culto. podemos dizer que há purismo quando se verificam usos da norma prescritiva que constituem desvios em relação à norma descritiva. pode-se dizer que o falante culto é aquele que se adapta a todas as situações de comunicação. Esse tipo de análise mostra que o falante não se afasta muito do prescrito. o antipurismo caracteriza-se pelos usos da norma descritiva que constituem desvios em relação à norma prescritiva. em relação a seu modelo. de escolaridade que – em relação aos informantes que se dispuseram a gravar aulas universitárias. que é a configuração conservadora explícita da língua.

O discurso oral culto. Além desses. a configuração do “douto” contemporâneo. o purismo era a tentativa de preservação do “antigo e bom português”. 1983. e o de Evanildo Bechara. O critério de eleição dos pontos a serem de textos literários de escritores de prestígio na língua. No entanto. neste volume. • inquérito nº 156 – conferência sobre a estética no Brasil. com o objetivo de levar os usuários ao “bom uso” da língua. que é o sujeito capaz de praticar o discurso oral e escrito culto formal. do PROJETO NURC/SP – Núcleo USP. sobre problemas sócio-político-econômicos brasileiros. como se sabe. • inquérito nº 124 – aula universitária sobre a influência da língua na personalidade do indivíduo. Com intuito de mostrar o conflito de forças conservadoras e renovadoras. 89 . hoje há também um purismo praticado por “doutos”. praticado pelos “barões doutos”. A investigação abrange o léxico e alguns pontos gramaticais da língua. b) Entrevista do Presidente Fernando Henrique Cardoso. na Nova gramática do português contemporâneo. Isso quer dizer que. atuantes no discurso oral culto contemporâneo. os textos normativo-prescritivos tomados como ponto de apoio foram o de Celso Cunha e Lindley Cintra. para definição de locutor culto). na Moderna gramática do português. que eram os versados na língua e literatura nacionais e sabedores das línguas e literaturas clássicas. na década de trinta. BARROS. tomamos para análise o seguinte corpus: a) Elocuções formais (EF). • inquérito nº 153 – conferência sobre o cinema brasileiro. Se. a demonstração do saber normativo prescritivo e sua manutenção constituem um dos fatores que caracterizam o purismo lingüístico. na década de trinta. é muito diferente daquela dos séculos anteriores (Cf. 1985. em relação ao registro culto.

2. terminam comuns a muitas comunidades6. poder-se esboçar uma conclusão sobre o assunto.1 Purismo Mais uma vez fica confirmado ser o léxico o setor da língua que mais rapidamente se recicla. poucas palavras que podem ser consideradas restritas ao dialeto culto. analisados foi o da escolha de palavras e estruturas que apresentaram tensão com a norma prescritiva. já que as pessoas. 90 . ao desempenharem seus papéis sociais.1 Quanto ao léxico De modo geral. latinismos e cultismos. naturalmente. embora em todos os textos tenha havido palavras e expressões bem típicas desse registro. a partir daí. Não houve. assinalamos algumas palavras que podem ser consideradas mais adequadas ao registro culto. no corpus analisado não encontramos arcaísmos. destacaremos exemplos que caracterizam o uso conservador e o inovador em termos de léxico e gramática. Marli Quadros. texto de PRETI. neste volume.1. É bem verdade que não há possibilidade de se estabelecer uma linha demarcatória entre os dialetos culto e popular. Apenas a entrevista do Presidente Fernando Henrique Cardoso tem como destino o público em geral.LEITE. Nos textos analisados encontramos. trabalhando com os pólos convergente e divergente. Em primeiro lugar. um caso 6 Cf. As palavras e expressões usadas não oferecem dificuldade de compreensão ao falante comum. também. em termos absolutos. exageros de usos populares. que. transitam por diferentes comunidades lingüísticas. para. Mesmo assim. 2. A seguir. Purismo no discurso oral culto. mesmo sendo os textos produtos de discursos específicos para público especializado: duas conferências e uma aula universitária. levando e trazendo usos próprios dos seus grupos.

exatamente como recomendada pela norma tradicional. o trecho: 7 Lê-se assim o código: Elocução Formal. na literatura. Essa. outro uso culto é a formação do grau superlativo absoluto sintético do adjetivo célebre. até. inclusive.. pode-se dizer. que era um célebre cantor cantor de Bem-te-vi. com a acentuação na penúltima sílaba.. ao contrário. veterano das serenatas boêmias. ocorreu uma de cousa. éh desde Paraguaçu. In: CASTILHO.. celebérrimo. no entanto. que a primeira forma é a mais usada.. registrado. D. a fita apresentava.. a variante. Entre inúmeras atualizações de coisa.. T.. que.. em numerosos vocábulos. a outra. contemporaneamente.. com oi” e dá alguns exemplos como “calouro e caloiro. são raros os registros de sua realização com o ditongo ou. inquérito 153. relativamente à forma cousa. linhas 502 a 507. em São Paulo. dificílimo e paupérrimo (superlativos de fácil. sendo a forma corrente a realizada com o ditongo oi. A.. apresentava desde Paraguaçu até Zezé Lara.O discurso oral culto. . e explica.. dourar e doirar”. 502-507 7 Um caso de arcaísmo. (1986) 91 . que pertencem à linguagem coloquial.. que tomamos para confirmar a presença de mais um caso de uso conservador na língua. de prosódia: a pronúncia da palavra boêmia. a partir da forma latina. aproximadamente. de & PRETI. o primeiro quartel do século vinte... Entre os exemplos dados pelos gramáticos. Com exclusão de facílimo. em seguida. ou nunca. são todos de uso literário e um tanto precioso”. é uma das palavras arroladas por CUNHA & CINTRA (1985:58) no item Observações sobre a pronúncia culta. que faz celebérrimo. A seguir. difícil e pobre).. caloiro.. Embora a lição do gramático seja correta. figura o usado abaixo pelo informante: Inf..l. Sobre isso dizem CUNHA & CINTRA (1985: 250-1): “Também os superlativos em -imo e -rimo representam simples formações latinas. EF 153 . no Brasil. relativo ao uso brasileiro.. é o da palavra cousa. afirma “que o ditongo ou alterna. No mesmo trecho. pois só restritamente se diz doirar e quase nunca. BECHARA (1985: 61). e dos serões familiares ah paulistanos.

.166 a 169 8 No Oxford Advanced Learner’s Dictionary não há registro do termo event como verbo. mas ele escolheu formar uma nova palavra para expressar o sentido exato de que precisava. nesse caso.. ainda. EF 156 .. ou. como diz. escreveu que.l. e.. se lhe ocorreram outros termos. então. 92 . mesmo sendo novo.. oferecida pelo sistema da língua. por ser raro. e em inglês é palavra rara eu vi lá. Resta explicar porque o exemplo tem marca de conservadorismo. EF 124 l. do decalque do nome inglês event..... 2. nós poderíamos dizer hoje. recorreu à possibilidade. se E-VEN-TU-AM” . foi levar o sertão... ( ) . que elas aconteceram... a partir do nome evento... sendo inovadora. Por meio dessa metalinguagem construiu a erudição de que precisava naquele momento. mas no inglês. levaram a civilização........ 696-702 Uma ocorrência bastante diferente das demais é a do uso do termo eventuar.. aos nossos sertões. à nossa civilização. Purismo no discurso oral culto. Vejamos a passagem: Inf.. ou a partir.. ahn Whorf.LEITE. da língua portuguesa e não encontrei a palavra eventuar... Inf. Foi conservadora. conforme declarou8. de formar uma palavra nova..... foi o levar.. É bem verdade que o falante teria disponível uma série de outros termos portugueses para imprimir o sentido que estava buscando no momento da organização do discurso. Por paradoxal que pareça.... Vimos claramente a preocupação da informante em evidenciar que usou um termo não autorizado pelo dicionário português e.. mas ele diz para o hopi.. a fim de dar continuidade ao seu raciocínio. “não se pode dizer que as coisas vão acontecer.eu procurei no Pequeno dicionário. a partir do decalque do inglês. se não lhe vieram à mente outros termos.. pelo conservadorismo. criado pelo informante. os filmes americanos já fizeram muito pelo Brasil. .. . que o recém formado tinha “linhagem”. ou que elas acontecem agora as coisas sempre. nesse texto. esse é um exemplo de neologismo marcado... termo raro. porém: 1.... que os curtas-metragens fizeram. Não se pode precisar. diretamente. que a grande cousa. segundo ele.. Marli Quadros...

Dentre esses. ausentar-se/sair. Vejamos o texto: Inf. e colhidos de registro formal. podemos fazer inferências. para sinalizar que conhecem a norma culta. mas não afirmações categóricas. ociosidade/ gandaia..O discurso oral culto. ao que denominou linguagem comum. é o contínuo devir é a mudança. para expressar aquele sentido. Conforme PRETI (1982: 29). tendência/queda. preferiram termos não desgastados pelo uso cotidiano. a maioria absoluta das palavras faz parte da linguagem comum e apenas pequena parte é de uso restrito ao dialeto culto. Sobre todas essas possibilidades. Nos textos analisados. Alguns desses termos podem ser.. em algumas oportunidades. brevemente parafraseada pelo “é a mudança contínua”. De acordo com esse raciocínio. Além disso.o característico. embora seja difícil estabelecer distinções nítidas entre o léxico da linguagem culta e o da popular. contínua. EF 124 .. vemos que os falantes. da popular. os motivos que os levam a isso sejam a necessidade de precisão. Mais adiante.l. O primeiro exemplo traz a palavra devir. o que força estabelecer um dialeto intermediário entre o culto e o popular. inclusive. de todo organismo de todo sistema vivo. é possível estabelecer entre ambos algumas diferenças.. ainda. conversa/papo. Nos exemplos seguintes. à linguagem popular. em oposição à fraco... entre outros exemplifica: penumbra/sombra.. . usada com o sentido de vir a ser. pois o daquela é mais variado. por exemplo.. porque não se fizeram estudos relativos aos seus objetivos e escolhas lingüísticas.ou. arrola como mais comuns ao uso culto. enquanto umas palavras adaptam-se exclusivamente a um ou outro dialeto.. outras são de uso corrente em ambos.. parte integrante do vocabulário ativo dos informantes. outros. veremos que há também certa quantidade de expressões típicas do dialeto popular. transformar-se. 550-552 93 . tênue. mais preciso e com incidência de vocábulos técnicos. ou a simples oportunidade de usar termos mais rebuscados. o autor apresenta uma pequena lista de vocábulos mais próprios à linguagem culta e. Talvez. apesar de os textos serem oriundos de pessoas cultas. expressão enunciada logo após o termo escolhido. esclarece que. para imprimir mais expressividade ao discurso.

Essa escolha... pela idéia de que o cubismo foi um movimento paradoxal.. ah realmente causam uma impressão grande.o seu ponto de referência é sempre a pintura flamenga do século XVIII..... imprime expressividade. na medida em que.. EF 156 ..l.. ao sentido de prodigiosidade. a:: en/ nas formas que ele chama mais pobres e mais utilitárias da expressão... a atriz e diretora. a pintura contemporânea se fixa... Em primeiro lugar. temos a palavra portentosa que o informante usa para ressaltar a importância da carreira de Lévi-Strauss.. no cubismo. . que tinha nessa ocasião vinte e sete anos e começava no Brasil a sua portentosa carreira uni/universitária. Inf.... acerca do sentido de cada um deles... 100-104 Outras palavras próprias do dialeto e registro cultos são usadas pelos informantes das Elocuções Formais (EF). de percepção. dessa senhora tal cujas fotografia. que na éh que tendo nascido e se desenvolvido sob o signo de do diVÓRcio entre a arte e o público. o que indica estar o falante certo da compreensão... de maravilha de assombro que foi.322 Inf.. a idá/ a identidade exata.. Purismo no discurso oral culto.... de fundo hegeliano.l.. nas quais encontramos todos os termos cultos detectados no corpus. Inf.. EF 156 .l.. não somente pelo inusitado no discurso oral. Leiamos. a atuação de dois professores..... os informantes usaram os termos sem lhes fazer nenhuma paráfrase. CHEIA de extraordinária acuidade.. 172-180 Inf. mas também pela sonoridade da palavra.. realmente.... EF 156 .LEITE.. a pesquisa ainda não deslindou. acabou penetrando de uma maneira insidiosa... nós vamos ver então. EF 153 .. a carreira do ilustre cientista social a que se referia. exemplos em que há outras palavras que podem ser classificadas como cultas. ahn dos seus próprios filmes. uma visão marxista mais.. a seguir.. . Jean (Moguet) e Claude Lévi-Strauss..l. e é... Nos exemplos seguintes.. e é todo ele marcado.. Marli Quadros... 319 . por parte dos interlocutores. deu nascimento e. 279-283 94 .

para que se faça.. mas antes da década de trinta se exaurir... Quanto à adaptação do discurso à situação....... elaborada a partir de uma sintaxe descomplicada. do historiador e sociólogo Oliveira Viana.... a massa.. e que está na fita o tempo todo. com algumas expressões populares.. encarnada por Cleo de Verberena. 788-799 Verificamos que.... Enfim. o intelectual... alguma coisa.. a estupefação.......l. neste volume. nas reminiscências de todas as pessoas que tiveram contato com ela. 686-694 Inf.... aconteceu alguma coisa no cinema brasileiro... que não fere os ouvidos dos letrados e alcança o povo de modo geral.. a mulher assassinada.l. texto de PRETI.. e clama aos céus. .. . uma:: uma série de artigos. toda construída na ordem direta.. me impressionou notadamente. um discurso trajado à moda “esporte fino”.. 95 . para. de fácil alcance a qualquer usuário da língua portuguesa... 385-389 Inf. No discurso de Fernando Henrique Cardoso (FHC) apareceram apenas palavras e expressões comuns. linguagem comum. curiosamente.O discurso oral culto.... Talvez o objetivo político do discurso seja o fator determinante de tal escolha.. É um bom exemplo de atualização da linguagem da mídia9.. 9 Cf. EF 156 . analisado aqui. O discurso presidencial já está “pré-moldado” a uma fórmula que vem dando certo ao longo dos anos: vocabulário simples. era. EF 156 . a personagem principal. conservador que ele era. não apareceu nenhum exemplo de uso de termo culto no discurso do Presidente da República.. com extraordinária freqüência.l. EF 153 . os jornais cariocas registraram. fica esTARRECIdo com o que vê.. muito viva bem viva... causada por esses filmes.. para o Jornal do Comércio... observa-se a utilização de um grau moderado de formalidade quanto ao tom e postura de voz e corpo.. Inf..

. terceiro parágrafo (transcrição da entrevista. encontramos menos palavras e expressões típicas do dialeto popular... pela informalidade. A utilização de chutando. quando fez o balanço da ação do governo. foi-nos impossível selecionar exemplos no discurso de Fernando Henrique. no dia 17/01/1996.... Marli Quadros. isso tem uma influência muito grande eu creio. Inicialmente. não é? há toda essa idéia de viagem. Nos demais textos. publicada pela Folha de São Paulo. a informalidade criada pelo termo usado causa uma sensação de proximidade e cumplicidade entre falante e ouvintes e parece tornar a informação irrelevante. 67 -71 10 Lê-se assim o código: pergunta nº 06.. Todos esses fatores compõem um quadro de formalismo para o discurso. Inseridas no discurso formal. foi o primeiro pronunciamento do ano de 1996. Odisséia por exemplo a Eneida... digamos que no Brasil sejam 66 anos.. A formalidade é inerente a situações como esta em que o chefe da nação se dirige ao povo. por exemplo. A entrevista concedida após o pronunciamento. palavras como as grifadas nos textos apresentados abaixo criam efeitos de sentidos diversos.) 96 .. Purismo no discurso oral culto. – eu poderia estar chutando aqui um pouco – EF 124 . Então..LEITE.. com referência à utilização de termos cultos.. foi dada aos jornalistas dos mais expressivos meios de comunicação do país.1.. o mesmo não acontece em relação à presença de expressões populares. eu estou chutando. que analisamos aqui.l. observemos que algumas palavras são comuns e próprias ao discurso informal. 2. Não bastasse isso. Leiam-se os trechos: FHC “então. Os exemplos listados abaixo ilustram como o Presidente insere naturalmente palavras de baixo prestígio social num discurso formal. quebra o choque que o ouvinte poderia ter com a informação de que os conferencistas não têm pleno domínio dos dados a que se propuseram comentar. ao contrário. que exercem função pragmática importante. ou de registro informal. porque eu não sei de cor.” 6 §310 Inf. referente ao ano de 1995. vocês pegam a literatura do Ocidente toda.2 Antipurismo Se..

A pergunta do jornalista foi a seguinte: “Boa tarde. Também o emprego do verbo comer por alimentar-se... 11 12 Projeção da instância da enunciação no enunciado. quanto ao problema das categorias profissionais que seriam mais atingidas no que se refere à perda de direitos em vigor atualmente.. O contexto em que se encontram as palavras demonstram o que dissemos: FHC “e a reforma da Previdência mexe com todo mundo. vai estar garantida.. usa uma debreagem de 2º grau.. preferencialmente... mostrando o que nós estamos fazendo.. estão comendo melhor. O efeito de sentido criado é a banalização do problema abordado. O sr... FIORIN.. Outras funções exercem as palavras mexe. sua aposentadoria está garantida. ganham as eleições” 10 §1 O emprego de choramingueira. teve avanço aqui.. nesse caso específico. a massa assalariada que luta para conseguir alimentação básica.. você que é aposentado não se preocupe. usado no discurso informal.. 1989: 46). inventando um discurso direto da sua própria fala que cria um efeito de sentido de verdade por meio do seu discurso11 (Cf. ‘olha. é mais um exemplo de como o Presidente utiliza o expediente da linguagem figurada popular (pelo menos nesse sentido) para convencer os ouvintes de que está seguro a respeito do que diz e de que o governo está certo.... fez o Presidente usar um termo que. na agricultura resolvemos tal problema. Nesse trecho.’ acreditar e defender com entusiasmo.. não ouça o murmurinho do pessoal que torce contra o Brasil.. A polêmica e as dúvidas causadas pela reforma da Previdência. salvamos o futuro da Previdência. para “comer”.. por reclamação ou protesto. mesmo já admitiu que houve erros na agricultura no primeiro ano do mandato. ou seja.. comendo e choramingueira dos excertos abaixo. o Presidente. Presidente. Já temos aí uma anunciada 97 ... desempenha função pragmática específica de aproximação com o povo..O discurso oral culto.... é..” 6 §2 FHC “e ir para a eleição com força.. mais adequado a uma situação de formalidade como essa.. empregado em sentido figurado e em referência a pessoas. os aliados percebendo isso.. o governo garantiu.. a fim de desarmar o entrevistador que foi bastante enfático e crítico na pergunta formulada12. pelo discurso direto. inclusive. a Previdência foi feita com acordo.

hoje reduzida a nada a ver. era fantasia.. Novamente o problema é com o Ministro ou o sr. Dessa vez. da regência ter a. 98 ..ontem os sem-terra ocuparam três repartições do Ministério da Fazenda. tirando suas próprias forças ao não acreditarem nos propósitos governamentais sobre a questão da agricultura. porque que nós vamos estar permanentemente dando tiro no pé? Vamos ver o problema e resolver. o fato de o governo de São Paulo ter assumido a dívida do BANESPA. o falante se resredução de safra em torno de 10% e os recentes problemas climáticos devem piorar essa situação. põe dinheiro aqui.LEITE..... Purismo no discurso oral culto. fazendo a pergunta retórica sobre o porquê de os brasileiros estarem sempre se prejudicando. em previsão de catástrofe sempre” 9 §2 A utilização da expressão nada a ver no discurso culto confirma o uso. Marli Quadros. para dizer que o negócio em pauta. Isso é o que nos diz NASCENTES (1944: 206). condenada outrora por ser galicismo... com confiança” 9 §6 Outra metáfora popular usada foi leite de pato. no entanto. o Presidente por meio da metáfora do tiro no pé reage ao (sob a sua ótica) pessimismo a respeito do sucesso da política agrícola do Brasil... comum no Brasil.. que não tinham nada a ver com o assunto.. Vejamos os exemplos: FHC “.. já tem algum plano para resolver a questão?” A referência do jornalista ao Ministro deve-se ao fato de ter. que entra na estrutura completa da expressão nada ter a ver.. os apelos à informalidade havidos em discursos de caráter formal. No primeiro trecho..de modo que eu não acredito nessa choramingueira. na resposta anterior..” 8a §2 As expressões grifadas nos trechos seguintes demonstram. FHC “. o Presidente ter afirmado que a nomeação do presidente do INCRA era assunto do Ministro da Agricultura. definitivamente. FHC “se lá fora acredita.

A estratégia escolhida de “entregar a face”... não foi leite de pato. atrás da afirmação de ser vulgar aquela expressão. não sei se. e que aliás até hoje se lê com agrado EF 124 .. deixou confortáveis falante e ouvintes.. Desse modo... se não me engano ou siberiana não sei em que diabo de língua foi escrita.. produtores.. elaborando rápida e fortemente a idéia da heterogeneidade e desorganização da comissão a que se referia.... jornalistas. sua imagem..... educadores..l.. interrompe drasticamente a mensagem que vinha formulando... tentou proteger a sua face. encerrou a dúvida. a comissão era um saco de gatos. no passado. Leiamos o texto: FHC “coisa que. não foi leite de pato..... o setor do comércio cinematográfico.... guardou. . um professor universitário.l..” 7 §4 No terceiro texto. foi escrita em língua síria. quebrou o clima de expectativa que poderia estar sendo formado em torno da sua indecisão..... enunciada pelo se não me engano. ao usar uma expressão popular tão logo percebeu não ter segurança da informação que tentava passar. totalmente subordinado.. EF 153 . usada. não era assim... já que o conteúdo se tornou irrelevante para o contexto: Inf. é a epopéia de Gulgamesh que. com objetivo de atingir o conteúdo proposicional formulado no momento. comerciantes de cinema.. violentamente como o fez. Mesmo se protegido 99 ... pelo que se pode perceber no contexto. aos interesses da indústria americana de cinema. o informante.O discurso oral culto.. nós vamos vender o que foi a parte do patrimônio que veio para o governo federal. Inf...no passado era ao que se chamava vulgarmente de leite de pato. não.... 52-56 O próximo texto traz a expressão saco de gatos... 626-630 A análise do último texto mostra que nem tudo que é popular pode entrar explicitamente no discurso oral culto.

aparece aqui.. o locutor sabia estar sendo gravado. segundo. Pode-se até argumentar que o tipo de linguagem utilizada em aulas universitárias não é tão formal e. HALLIDAY. Marli Quadros. A utilização do popular no culto. pode-se afirmar que desempenham função ideacional.l. A expressão citada não consta no texto das gramáticas de Celso Cunha & Lindley Cintra nem na de Evanildo Bechara. que esta é uma situação a ser considerada como de baixo grau de formalidade. ahn. faz elevar o grau de formalidade da situação e da linguagem. Purismo no discurso oral culto..l. a aula foi gravada em 1972. tal mas em vez de non ducor duco não é?. ele dizia senhores membros da censura vão a . sem cerimônia.. a situações como essa...LEITE. Nesse caso. cadê o segundo ano? tem alguém do segundo ano? EF 124 . o que. no entanto. as expressões populares ou as comuns informais têm funções diversas e definidas dentro de um texto culto formal e são usadas com objetivos claros.. de uso corrente na linguagem comum informal do Brasil. quando havia maior atenção. 1976: 134). 225 Como se pode perceber pelos exemplos arrolados. EF 153 . em geral. por um bom objetivo. sendo a interpessoal mais saliente que as demais. dois pontos em relação ao texto que ora analisamos: primeiro. Por isso. ((risos)) e chegou a fazer o filme tal. como sempre. Desse modo. e é a seguinte: Inf... No trecho a seguir apresentado. do que hoje. embora todos soubessem qual era ela.. sem restrições. ainda. como se pode ler no trecho a seguir apresentado: Inf. entendemos que a situação pode ser considerada formal. e foi alcançado. interpessoal ou textual (Cf. o que pode ser verificado no registro dos risos da platéia. 100 . 729-733 A expressão interrogativa cadê. o efeito visado era o humorístico. em que aparecia então o bandeirante. ou do informal no formal causa a ruptura que cria o efeito de sentido desejado pelo locutor.... vemos que as reticências escondem a palavra proibida no contexto. É necessário ressaltar. pelo menos. em um texto de linguagem culta formal.

Mas ao lado dessa sintaxe do latim clássico surgiu outra no latim vulgar. exprimia-se por meio de tempos do conjuntivo a idéia que nós designamos com o condicional (.1 Purismo Em relação à utilização de verbos. Assim como de expressões amare habeo formadas com o presente do verbo habere resultou o futuro amarei. proveio outra forma. mas que propriamente é apenas um futuro em pretérito. amare habebam. São poucos o presente e o imperfeito do subjuntivo e raros os futuros simples. 2. amaria. ‘disse que viria’. Tempos compostos e voz passiva aparecem também em pequena quantidade. A substituição do futuro simples do indicativo por perífrase é fato antigo na língua e tem origem no latim. 2. assim de outras expressões formadas com o imperfeito d’aquele verbo. Em primeiro lugar.). o que é um retorno à forma antiga: verbo no infinitivo + verbo haver conjugado (p..2..1. Hoje na linguagem popular o condicional é quase desconhecido. ex. ir + hei = irei). como se vê nos seguintes exemplos: ‘diz que virá’.” Também sobre o futuro do presente.2.1 Modos e tempos verbais Nos textos analisados observamos não haver grande variedade de tempos e modos verbais. a que se deu o nome de condicional por se empregar principalmente no discurso condicionado. o autor diz que era freqüentemente substituído pelo presente ou pela forma perifrástica.2 Quanto à gramática 2. porque substituídos por perífrases. verifi101 . Diz-se sempre: ‘ele ia se o mandassem’ e não ‘ele iria’. A explicação para isso apresentaa MOREIRA (1906: 363-68) que diz: “Em latim.O discurso oral culto. que era também uma perífrase. Entre os tempos simples predominam o presente (também com valor de passado) e os pretéritos perfeito e imperfeito do indicativo. o que vimos digno de nota foram alguns fatos que passaremos a analisar.

que não terão. camos que o verbo haver impessoal existe....§ 6 Inf. 34-37 Os futuros.. Em primeiro lugar. há 102 . segundo dizem os gramáticos e filólogos. não se resolve” 1a .LEITE. CUNHA & CINTRA.l.. há línguas semitas que têm uma outra estrutura uma estrutura em que há ahn.1..1.. O uso do ter será comentado no item 2.2. do que em pequenas manifestações espoRÁ::dicas.l. 18-26 2. são relativamente raros na língua falada (Cf. FHC “eu sou muito tranqüilo e confiante.. já que.. vejamos o peso das perífrases da fala culta. há problemas... 1985: 448) e MOREIRA (1909: 363-68). Vejam-se os seguintes exemplos: FHC “então a gente tem que ser muito objetivo nessas coisas...... tanto nos tempos simples quanto nos compostos. EF 124 .. formas vazias triliterais..2 Antipurismo Depois de verificarmos a presença de algumas formas verbais no futuro...2.. que havia se originado num curso de arte aos arquitetos.. 358-360 Inf. Marli Quadros. e eu acredito que é mais importante para nós pararmos um pouco na meditação do sistema de Arte que ele estabeleceu. com o mesmo valor.. gostaria que se plantasse mais.. mas recebe a forte concorrência do verbo ter. vai-se plantar mais. tanta importância posterior. Purismo no discurso oral culto. não negar a realidade . são outra característica conservadora do discurso oral culto... EF 124 .” 9 §5 Inf.. EF 156 . é republicado o livro de Vicente Licínio Cardoso A Filosofia da Arte... mas também não pode pensar que generalizando esse problemas se resolve as questões.. embora poucos. quer dizer...l.

... numa taxa definida de juros... EF 124 . estabelece um ponto de ligação entre essa estética européia... o mais renovador dos usos em termos de verbo: o emprego de ter por haver. esta a idéia principal de Licí/ de Vicente Licínio Cardoso que vai se transformar. predominantemente..l. às vezes. 189-191 As perífrases com gerúndio também são abundantíssimas e aparecem. para um grande número de grupos humanos. e uma estética que nós podemos dizer brasileira. neste nível de análise.l. 49-51 As perífrases formadas com outros verbos que não o ir aparecem em menor quantidade e. eu creio que nós podemos utilizarmos desta reflexão.... o governo não está lançando mão de política salarial para conter o déficit público. 137-40 FHC “veja.. está se fazendo na sombra. uma restrição forte” 2 §1 Inf.. EF 156 ...O discurso oral culto.. numa idéia:: bana::l para nós hoje em dia.. como é visível nos trechos a seguir transcritos: FHC “ a União vai financiar num prazo longo.. na acepção de presente. Conforme vemos nos exemplos: Inf.. Lévi-Strauss. na acepção de futuro.. trazem flexionados os dois verbos. ...l. 3a § 1 Finalmente... em todo o caso... como no passo seguinte: Inf.então ele... MOREIRA (1922: 118 e180) comenta esse fato. o que imporá ao tesouro de São Paulo. EF 156 .... registrando (p.. 118) que a troca de ter por haver é fato do português 103 ... presença significativa da perífrase formada com o verbo ir + verbo principal.

Em relação ao português brasileiro.. teve avanço aqui.. tem alguém do segundo ano?... na agricultura resolvemos tal problema.. há identidades. Marli Quadros..l.. é menor o número de casos em que há identidade do uso culto com a norma prescritiva. diferentemente do da concordância.1 Purismo O campo da regência verbal. entretanto... .” 10 §1 Inf. tendo-o registrado. O verbo obedecer foi usado também de acordo com a prescrição. pois é empregada na fala familiar ou no dialeto popular. oferece maior possibilidade de inovações dentro do discurso oral culto.. das das aulas de terça-feira passada tinha muito pouca gente. No entanto. 104 . EF 124 . Talvez isso indique não ter tido a estrutura com em força suficiente para invadir a fala culta formal. no dialeto falado culto.l. é forma viva hoje e concorre com o haver.. 3-4 Inf..3 Regência verbal 2. 230 2. estão comendo melhor.. ‘olha. só o segundo ano?.. EF 124 . e não em como é mais comum no Brasil. o que a faz permanecer ainda como fato típico do dialeto popular. Na página 180...LEITE. para comprovar a sua existência. apenas... Vejamos alguns exemplos: FHC “e ir para a eleição com força. popular do Brasil.. Destacamos a regência do verbo de movimento ir seguido da preposição a. mostrando o que nós estamos fazendo. Ainda assim. Purismo no discurso oral culto.. ou do registro culto informal. essa estrutura verbal também não é nova.. Para esse uso. o estudioso da sintaxe popular portuguesa não deu nenhuma explicação.3. pois aqui.na última parte.. registra que o mesmo fato ocorre no português indo-europeu do Norte.

. é mais idiomático dizer: Tenho que sair.. deixando o complemento verbal ligado diretamente ao verbo. pois não se pode considerar. Como explica LIMA (1969: 377).2 Antipurismo A regência verbal é um tema sobre o qual o uso tem atuado no sentido de alterar algumas configurações tradicionais da língua. Inf. já se rejeitou a expressão ter que. geraram uma nova: “Tenho que escrever umas cartas”.espero que não se tenha que se fazer novos planos. das orações do tipo “Temos de morrer ou Temos de escrever umas cartas”. 1990: 567) 105 . Antigamente. em vez de tenho a sair . tenho certeza que não se fará.. segundo.” (Cf. por exemplo.l... cruzadas. a significação da oração é resgatada pelo contexto.3. Entretanto – tenho de sair e de andar – são expressões diversas e necessárias.. nesses casos. os dos outros planos.” 12c§ 3 2. o que como preposição... o mito é algo que aconteceu.. tenho que andar etc.. e a ter + de + infinitivo intransitivo. O mito não é um acontecimento do passado. o uso tem consagrado a eliminação da preposição regente.... um esquema narrativo que pode obedecer a variações mas há uma história no mito. jamais. Essas expressões. No nosso corpus há flutuação em torno das duas formas. Essa é a única análise possível para essa nova conformação sintática da frase.O discurso oral culto. mas o uso a consagrou13.. EF 124 .. já que desaparece o 13 Disse João Ribeiro: “Os usos tenho a fazer e tenho que fazer estão consagrados. atualizam-se as duas formas: FHC “não tem de repor nada. Em um único segmento. das orações do tipo “Tenho umas cartas que escrever”... em que o que é pronome relativo e umas cartas é objeto direto. houve um cruzamento sintático entre as formas ter + que + infinitivo transitivo. Em muitos casos. ou transitivo. FERNANDES. 150-153 O verbo ter aparece igualmente regido pela preposição de e pelo pronome que.

. dizem: “Na linguagem coloquial brasileira.l.. Marli Quadros. também na fala culta. que embora invariavelmente condenado pelos gramáticos. por exemplo. acompanhar. O acréscimo de preposições onde primitivamente não existiam também é fato. apesar das condenações que lhe imputam os gramáticos. É o que ocorre atualmente com o verbo assistir. EF 153 . mas já no discurso oral culto vai ganhando foro de cidade: Inf. Por isso. o regime direto se insinua. o verbo constrói-se. CUNHA & CINTRA (1985: 508). ver..LEITE. com regência indireta.. em tal acepção de preferência com OBJETO DIRETO. elemento diferenciador de acepções. mas que aparece. a propósito desse uso: “Advirtase.. já de regência direta no sentido de presenciar. Em nosso corpus verificamos isso em relação ao verbo implicar. ele imagina um casal de jovens que vão assistir um filme americano médio. O trecho apresentado abaixo mostra que o uso de assistir com regência direta não ocorre apenas “na fala coloquial brasileira”.” FHC “mas todo mundo naturalmente aspira ter mais e tudo isso. porém. Essa regência já tem acolhida hoje não só nos textos literários como também nos normativos gramaticais. e até mesmo a literatura. contemporaneamente. 863-866 Outro caso de supressão da preposição ocorre com os verbos aspirar. Purismo no discurso oral culto. tradicionalmente ligado ao objeto sem preposição. como já registrou PIMENTEL PINTO (1986: 56-59). vez por outra na pena de escritores brasileiros modernos e contemporâneos.. que já invadiu a fala culta na forma direta. vêem lá um rapaz de cara limpa. pela preposição em. CUNHA & CINTRA (1985: 508) ensinam. 12c §1 As diferenças do uso com a norma gramatical no que se refere à regência não dizem respeito apenas a supressões da preposição regime. e escritores modernos têm dado acolhida à regência gramaticalmente condenada”. Abaixo está um registro desse uso: 106 . apesar de ainda com ressalvas. Esse é um uso generalizado também na língua padrão escrita.

) 107 . O filólogo português completa sua informação dizendo: “Conserva ainda este modo de construir o verbo chamar o português do Brasil.435 – Apud MOREIRA. (Gil Vicente. sempre provocou protestos de filólogos e gramáticos. o modo quinhentista da regência perdurou durante muito tempo apenas na linguagem popular ou informal culta. serem regidos de preposição. No entanto. onde se diz: chamou-te de tolo. FHC “esta medida implica num conjunto de medidas que são tomadas sistematicamente e estão sendo tomadas” 1b §1 A construção da regência do verbo chamar. julgar havia dois acusativos: “um deles empregado como complemento direto e o outro referido a esse como seu nome predicativo”. ao passo que em Portugal apenas se poderá dizer: chamou-te tolo. com alguns desses verbos. vol. tal como já sucedia em latim. chamou-te ladrão”. Pois engeitas quem t’adora. op. Está aqui a passagem que comprova o uso no discurso oral culto: 14 Se casasses com pàção Que grande graça seria E minha consolação! Que te chame de ratinha Tinhosa cada meia hora. Contemporaneamente. cit. e essa é a inovação. P. a força do uso já a empurrou à linguagem culta formal falada e à escrita padrão. chamou-te de ladrão. considerar. língua em que para verbos como chamar. com a preposição de acompanhando o predicativo. MOREIRA (1906: 371-2) explica muito bem a questão quando diz estar a origem de tudo no latim. consolidou estruturas acompanhadas de preposição. Inda que a alma me chora. No Brasil. fato que comprova com um exemplo de Gil Vicente14. Folgarei por vida minha. embora o tenha sido no passado. nem na língua popular nem na literária. o fato de certos predicativos. II. Diz ainda o autor que as línguas românicas mantiveram tais construções e por isso nenhuma delas era regida de preposição.O discurso oral culto. MOREIRA afirma não ser construção corrente em Portugal. Em referência ao verbo chamar.

.. não foi leite de pato. EF 124 . 2. os índios sobem em certas árvores. vemos que. que sofreu no ano passado está se recuperando bem... ( ) .4 Regência nominal De modo geral.no passado era ao que se chamava vulgarmente de leite de pato..” 1a §10 108 . não foi leite de pato. purista. a regência nominal e a verbal são negligenciadas na língua padrão escrita.. 285-288 2.. Purismo no discurso oral culto. FHC “coisa que..LEITE. sempre que possível. mesmo sendo instável a existência da força conservadora..” 7 § 4 A regência direta convive lado a lado com a indireta e constitui a força conservadora.. que chama-se. Assim.. da prescrição gramatical contemporânea.. Adiante.4. Marli Quadros... como já afirmou PIMENTEL PINTO (1986: 53). comprova que ela existe e cumpre o seu papel de mantenedora da unidade lingüística. No entanto. que vêm confirmar.. Leia-se o exemplo: Inf. no passado.... certas formas de... pela flutuação em torno de certos usos. por exemplo. observamos a permanência da regência nominal em alguns casos e sua ausência em outros... no discurso oral culto não nos foi difícil encontrar usos acordes com a norma prescritiva... Além disso... em português chamava-se boldo parece que é uma planta de seiva açucarada. não era assim..1 Purismo FHC “nesse ano já tenho informações de que o próprio setor de bens de capital.l. quando o falante conhece a norma eleita como a mais prestigiosa na comunidade da qual é membro ele a emprega... por exemplo... não. colaborando para a sua manutenção. nós vamos vender o que foi a parte do patrimônio que veio para o governo federal..

FHC “então a gente tem que ser muito objetivo nessas coisas. FHC ‘nunca mais houve reclamação de que está atrasado o pagamento. porém. a concordância verbal pode acontecer no singular ou no plural..2 Antipurismo Inf.5 Sujeito: a gente. de valor pronominal..... como o substantivo gente é coletivo. o português usa a gente..” 4 § 2 2. quando se tem em vista uma certa indeterminação do sujeito. correspondentemente ao francês on. É claro que essa expressão convive com a primitiva.5.. Somente para confirmar o uso anterior da expressão na língua.4..1 Antipurismo MOREIRA (1906: 343. à qual é correspondente. mas já tem posição assegurada no discurso oral culto. Além disso. e outras expressões.. se houver alguma distância entre o substantivo e o verbo. de tal forma que quando a gente entre numa igreja baiana tem a impressão que entrou numa gruta submarina. você 2. .. Verificamos. 547-549 2. EF 156 .O discurso oral culto.” 1a §5 109 . que é o emprego da expressão a gente. assinala que. verificamos que o uso da expressão a gente não se restringe mais à fala popular ou familiar. não negar a realidade.l. No português do Brasil. na função de sujeito. nós. 349 e 356) trata de um uso comum ao registro popular e familiar do português europeu. A explicação do filólogo para esse uso é que. o autor traz exemplos de Camões (embora esteja estudando sintaxe popular). que a ocorrência de a gente já é muito significativa nesse registro.

. EF 153 . eu tenho.. Marli Quadros. se você for ver. para isentar-se de alguma responsabilidade que o enunciado naquela enunciação poderia implicar. 6 §2 FHC “então você precisa ter fundos para pagar esse mais tempo para contribuir para ele continuar vivendo bem 6 §3 FHC “como é que você pode ser contra medidas que vão inviabilizar as aposentadorias do futuro? como é que você pode ser contra um acordo que garante até. 18-19 Outra expressão que atualmente concorre com a gente. a manutenção de regras? por que vai ser contra? para ganhar? 6 §7 110 ... de tal forma que quando a gente entra numa igreja baiana tem a impressão que entrou numa gruta submarina.. EF 156 ..não dá não é? a gente tem de ser sério na vida..LEITE.. é incrível mas a gente i/ precisaria ir para antes de guerra de quatorze e dezoito. Purismo no discurso oral culto. por quê? porque hoje. quando o falante quer criar o efeito de sentido de certa indeterminação do sujeito.. em média quanto tempo a pessoa contribui....l.... FHC “.... vem a pressão você aumenta e quem paga é o povo porque não teve aumento real nenhum” 2c §2 FHC “esse tempo de contribuição significa 35 anos para o homem de contribuição. Em ambos os casos vêse claramente que o sujeito usa uma debreagem enunciva. ou quer mascarar uma 1ª pessoa do plural. já que o primeiro sentido do pronome é a referência à pessoa com quem se fala: FHC “aumenta. é você.... no caso dos professores de ensino fundamental.... criando um efeito de sentido de distanciamento..” 11 §3 Inf. 547-549 Inf.” 4 §6 FHC “é preciso a gente ter humildade..l.. . ou para afastar-se do contexto e aproximar o interlocutor..

como por exemplo. está em desconformidade com a prescrição exatamente por ser conservador. porque somos conservadores. como vimos. marcas puristas. têm várias fontes. Esse é o fato que tem levado muitos pesquisadores ao engano de classificar como brasileirismos muitos fatos portuguesíssimos. Registramos entre estas a manutenção de usos antigos do português. o português do Brasil. extraída do uso efetivo da língua. no uso de a gente por nós. e. As forças conservadoras. que vão de encontro a estas. e. em que há a manutenção da norma prescritiva. por isso. que inovações muitas vezes são de origem não determinada cientificamente. como. é inovadora. podemos afirmar. conseqüentemente. também. assim como o uso de metáforas populares. por exemplo. e as renovadoras. Paradoxalmente. antipuristas. como o emprego do verbo chamar regido pela prepoisção de. realmente. tenha ficado entendido depois da análise dos exemplos. o emprego do verbo ter por haver na língua portuguesa do Brasil e o uso de você como indeterminador do sujeito. o que cria o fato esdrúxulo de a nossa norma objetiva ser. finalmente. no uso das perífrases verbais e em outros casos vistos no corpo do trabalho. somos inovadores. Vimos. embora já abandonados em Portugal. um expressivo recurso do discurso que alcança seu objetivo exatamente na ruptura da norma culta. em alguns pontos da norma prescritiva. ainda é preciso considerar que o fato de o português do Brasil conservar aspectos lingüísticos da época antiga e clássica. em muitos pontos. atuando para derrubá-la. porque coloca em descompasso a norma prescritiva e a objetiva. É o que. 111 .O discurso oral culto. que o discurso oral culto tem. em alguns pontos. causa conflito de norma. depois do exame do nosso corpus. banidos da norma prescritiva. esperamos. Conclusão Entendemos o purismo como um fenômeno lingüístico que atua como agente de preservação de norma. modernamente desusados em Portugal e. Assim. observamos alguns desvios da tradição. usado no período quinhentista e hoje desaparecido em Portugal. então. têm esteio na prescrição gramatical. conservadora em relação à prescritiva moderna que. Portanto. mesmo quando há forças inovadoras.

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O discurso oral culto. e é explorada como recurso disponível. Introdução A linguagem falada não se limita a expressar idéias. e ainda mais. Na realidade. também é. Temos consciência das dificuldades de natureza intrínseca que enfrentaremos. o eco da imaginação e da sensibilidade (BALLY. Pensamos. Na língua escrita ela é contingencial. Em qualquer linha de estudos sobre língua falada. quer da linguagem formal ou informal. pois. quer da linguagem culta ou popular. motivações e propósitos diferentes. há de se reconhecer que a expressividade é um ingrediente da sua própria natureza. A EXPRESSIVIDADE NA LÍNGUA FALADA DE PESSOAS CULTAS Hudinilson Urbano 1. 1967:222). mesmo os 115 . sobretudo na linguagem literária. sobretudo a linguagem da conversação. tanto mais quanto seja natural e espontânea. embora freqüente. porque os materiais do Projeto NURC. o expressivo precede o verbal cognitivo. que a língua falada é particularmente expressiva. Primeiro. na expectativa de surpreender os traços que cumprem essa tarefa. naturalmente em graus. Pretendemos examinar essa característica em um trecho de um D2 (Diálogo entre dois informantes) do Projeto NURC/SP.

por língua falada a expressão espontânea de todos os pensamentos que se ligam de uma forma ou de outra à vida real. falta aos textos do NURC. D2. com Bally (1951:285). A expressividade na língua falada de pessoas. mas o pouco que observarmos dará certamente mostra do que seja a expressividade num “corpus” ideal para esse estudo e análise e poderá abrir caminho para pesquisas profundas nesse sentido. 116 . No “corpus” escolhido teremos.URBANO. Hudinilson. de modo permanente. como a questão da argumentatividade – que explica muitas vezes o uso de recursos expressivos. ou se não se fizer ao menos referência a sua expressividade. como por exemplo. que ficaria mutilada em seu conceito. inclusive sobre o emprego de recursos expressivos. o caráter de espontaneidade. 1987. pelo simples condicionamento metodológico. deixaremos claro que se fará aqui abstração de muitas outras características da linguagem em geral ou da língua falada em particular. consultar KOCH. Mas. Segundo. Não se pode apreender a complexidade da língua falada na sua totalidade. se se entender. Finalmente. Na verdade. estão longe de se revelarem boa amostra de linguagem espontânea e natural. ainda que seja o exemplo mais próximo dela dentro do Projeto. a expressividade merece ser observada. porque a expressividade se manifesta não só por meios estritamente lingüísticos como também por outros meios de natureza não lingüística ou apenas paralingüística. se dela fosse abstraída essa característica e propriedade. por signos situacionais. ainda assim. Liga-se à capacidade de os falantes – 1 Para aprofundamento no assunto. menos elementos de investigação e análise. 2. Expressividade A expressividade é uma importante qualidade da linguagem em geral e da língua falada em particular.1 por traduzirem aspectos vinculados a outros interesses de pesquisa. se não se estudar... sobretudo pela sua alta representatividade na língua oral. naturalmente.

coincide com ou reforça a função representativa. Carreada na linguagem. nossa antiga publicação de 1974. muitas das posturas teóricas de Bally. sensibilidade. Corresponde às funções que. nas suas reflexões sobre “emotividade e expressividade” que “a característica fundamental da expressividade reside na ênfase. correm freqüentemente como sinônimos termos como afetividade. na capacidade apelativa. seus produtores – manifestarem suas emoções e de despertarem nos parceiros análogos sentimentos. Na realidade “essas funções têm em comum não serem de fundo intelectivo. emotividade. Aceitamos. ainda. e se pode dizer com Bally (1967:117) que “será expressivo todo fato de linguagem associado à emoção”. ainda Sapir. muitas das quais exploradas por Nilce Sant’Anna Martins. subjetividade e outros. Incluímos. utilizase de um verdadeiro equipamento expressivo muitas vezes socialmente 117 . pois. conforme também o entendimento de Manuel Criado de Val. Há quem pretenda que não se deva confundir expressividade com afetividade. sendo inerente à fala natural. no poder de gerar elementos evocatórios ou conotações. são objeto da Estilística. Criado de Val. superpondo-se ambas à mensagem denotativa. O presente estudo e pesquisa assumem. Aqui. Reunimos sob o tema “expressividade” as manifestações lingüísticas. pois. Todavia.O discurso oral culto. mas emocional” (MATTOSO CÂMARA. Nesses estudos. retomada por Mattoso Câmara. Mattoso Câmara. pode-se falar mais claramente num estudo e pesquisa de orientação estilística da conversação. outro especialista nos estudos de língua falada. 1976:335). na visão de Bally e de tantos outros.” A expressividade dificilmente tem autonomia em relação à finalidade precípua da conversação. em razão de muitos pontos de convergência com questões aqui tratadas. que é a de intercambiar mensagens com fins de comunicação. ainda que rotuladas por outros termos. cuja obra Introdução à Estilística se subtitula justamente “A expressividade na língua portuguesa”. com o subtítulo “Elementos para um Estudo de Paralingüística”. na força de persuadir ou transmitir os conteúdos desejados. paralingüísticas e extralingüísticas que cumprem mais diretamente as funções emotiva e apelativa. 1972:136). com Lemos Monteiro (1987:22). mas constituindo funções isoladas (JOTA.

Mattoso Câmara é bastante explícito. à função comunicativa de julgamento ou avaliação da “festa”. estamos na língua em senso estrito. já adotávamos em 1974 o verbete de Borba (1971:112): “Paralingüística – ramo de estudos dedicados aos elementos que compõem a comunicação lingüística como os traços expressivos em geral”. Até aí. incorporamos os argumentos de Criado de Val (1980:19 e seguintes) sobre a tensão coloquial: “Na tensão se fundamentam várias características que são coincidentes com as determinadas pela outra grande finalidade da conversação: intercambiar mensagens com fins de comunicação social”. dentro da perspectiva adotada aqui. a uma dupla função: de um lado. ou grande. Hudinilson. (grifo nosso) Lembrando Coseriu e defendendo o Projeto NURC. Celso Cunha não deixa de se referir à realização individual da fala que implica a originalidade “expressiva” dos locutores (CUNHA. porque nele se revela o entusiasmo de quem assim nos fala ou ainda o seu esforço para nos fazer participar desse entusiasmo. Para uma melhor compreensão do tema. distinta da que transmitiria denso. por exemplo Que bela festa. principalmente intensificado pelo “que” e por uma entonação específica. digamos). pois. daí. que é a enunciação do termo em dadas circunstâncias. ou verde. traduz uma determinada representação desse ser (um bosque. o adjetivo belo atende.. ao produzir o envolvimento do interlocutor e revelar o próprio entusiasmo do falante.. s/d:14). à função fático-emotiva. mas dela transborda o ato lingüístico.. A expressividade na língua falada de pessoas. tem uma significação intelectiva e encerra um julgamento acerca do ser a que é aplicado. quando exemplifica o modo como a língua absorve uma carga afetiva que se infiltra em seus elementos e os transfigura: “O adjetivo belo. O alcance representativo do termo se desdobra num alcance expressivo (. de apreensão pacífica pelos interlocutores.)” (1977:14) Enunciado em determinadas circunstâncias e em determinado contexto. 118 . Mais ou menos nesse sentido. de outro..URBANO. por exemplo. padronizado.

. 1969:63-78). Bally discute o nascimento da emoção.O discurso oral culto. é um obstáculo que é preciso afastar. não 119 . mas também pode revelarse num nível individual (SAPIR. que normalmente coincide e reforça as anteriores. Nessa linha. a dialética e a afetiva.. esclarecendo: “A primeira atua dentro de um mínimo de intensidade.”(. constituem nota constante e dominante.. Mattoso Câmara sugere a discussão da origem da emoção ou da expressividade. alinhamo-nos com o autor. na mecânica social que regula o intercâmbio de mensagens com fins puramente informativos. Em seguida distingue três tipos de tensão: a informativa. com vistas à natureza dessa expressividade (BALLY. a tradução da afetividade em termos de tensão ou energia. Não obstante. como em termos gerais na fala. 2) a emoção nasce da maneira pessoal de produzi-los? ou 3) a emoção nasce da situação? Admitindo as três fontes – a terceira das quais sem qualquer caráter lingüístico – afirma que às três perguntas correspondem três concepções de expressividade. permite o estudo científico”. bem como sua natureza e seus meios de expressão. Suas variantes são numerosíssimas”. perguntando: 1) a emoção nasce das palavras e dos torneios lingüísticos?.) “A segunda atua sobre os componentes lógicos do diálogo ou de um predomínio do conteúdo ideológico que cada interlocutor representa”. Sapir lembra que a expressividade normalmente se manifesta a partir de padrões socializados. Nessa direção. quando diz: “A justificada prevenção da lingüística moderna diante da afetividade e diante da explicação subjetiva dos fenômenos da linguagem. Ao referir-se acima à “enunciação de um termo em dadas circunstâncias”.) “tensão ‘afetiva’ . de difícil porém possível mensuração. devendo-se ter o cuidado na determinação dessa distinção. que na conversação. (. 1967:117).. No presente estudo. (grifos nossos) Nesse sentido. tem seu próprio campo de origem nas causas emocionais.

porém. Recursos de expressividade Observada a expressividade como uma característica imanente e ponderável da língua falada e em particular da conversação. ligados à expressão dos elementos subjetivos e afetivos e/ou à expressão dos aspectos sociais. manifestar de modo mais ou menos pessoal. Hudinilson. em termos de Criado de Val. nem desconsiderá-los. seus desejos. bem como a capacidade de despertar nos ouvintes 120 . A dificuldade de análise da expressividade decorre. além do mais. que há uma qualidade de emoção em cada enunciação e a própria emoção também difere em sua intensidade. do fato de que ela tem sua motivação nas características psicológicas e sociais da língua falada. Nessa linha.URBANO. não se pode desconhecer e desconsiderar os efeitos da “tensão afetiva” da conversação. haverá preocupação – nem espaço – em se discutir expressividade de caráter social ou individual. que a tensão afetiva é uma característica e dificuldade na análise da língua falada e que toda tentativa de ordenar uma simples orientação estilística da conversação se desfaz ante a infinita gama das numerosíssimas variantes afetivas. consideramos na seqüência os recursos de expressividade e seus efeitos. pois. ainda com o mesmo autor. tomando-se como princípio. Os fatos expressivos estão. entre outras razões. pode-se entender a concepção de afetividade como a capacidade de o falante exprimir. à margem da linguagem comum da comunicação. embora servindo-se normalmente dos recursos socializados da língua. seus atos de vontade. entusiasmo ou repulsa que lhe despertam as idéias enunciadas. na linguagem. Esse sistema expressivo representa um conjunto de meios com os quais os falantes podem. Os recursos da expressividade serão levantados e analisados aqui independentemente de serem de produção criativa do indivíduo ou de obedecerem a padrões sociais. Reconhece-se.. Quem estuda a língua falada não pode desconhecer o sistema expressivo dela. A expressividade na língua falada de pessoas. seus pensamentos. os sentimentos de simpatia. 3. Ou.. nem seus efeitos.

Mais adiante Bally insiste em que na base dos fatos expressivos está a idéia de jogo. como se vê. não só as exclamações e intensificações. e especificamente. com Bally. e. mas também. o falante exterioriza seus sentimentos e atua sobre o seu semelhante. de maneira sucinta. restabelecendo a ordem por um instante comprometida. algumas características desses recursos. isto é. Antes de descer.. Eles são ao mesmo tempo intelectuais e ilógicos: “intelectuais porque operam com as categorias lógicas em que o espírito classifica as idéias. do outro. adverte que esse ilogismo não é mais que aparente e o espírito não se deixa enganar. típicos da conversação. todos os usuários da linguagem sentem aí seu valor expressivo. todos reconhecem que uma frase como Hoje em dia todo mundo sabe dirigir carro não deve ser entendida literalmente. de zonas complexas e de difícil demarcação. esforço para fazer o ouvinte participar do seu entusiasmo. vocativos. por meio de recursos ou marcas que produzem reconhecidos efeitos expressivos. Com efeito. as intensificações etc. Em outras palavras: os elementos ligados à subjetividade ou à pessoa do falante e os elementos ligados à intersubjetividade. o trocadilho. portanto. O falante revela entusiasmo de um lado e.” (BALLY. atenuações. Trata-se. para os elementos ligados à expressão dos elementos relacionados à intersubjetividade. a um rol ilustrativo e explicativo de recursos expressivos. dois tipos de traços e efeitos expressivos: os relacionados à expressão dos elementos subjetivos e afetivos e os vinculados à expressão dos aspectos interacionais. adiante. ligados ao falante e seu interlocutor. Porém. e ilógicos porque o peculiar do signo expressivo é trocar as categorias de tal maneira que justamente aquela que a lógica exige se encontra disfarçada ou suprimida em proveito de outra categoria.O discurso oral culto. consumado graças a uma expressão hiperbólica ilógica dentro do contexto. caberia distinguir. convém considerar aqui. as palavras e frases exclamativas. a sintaxe afetiva. fáticos etc. 121 . Em tese. com a qual está em conflito. onde domina a interação. repetições. Nessa distinção se poderia lembrar. para a expressão dos elementos afetivos ligados à subjetividade. a entonação afetiva. diríamos. análogos sentimentos. Graças a essas motivações. 1967:142). se é que se consegue.

são substituídos. como acontece com as figuras e metáforas. Pouco a pouco perdem. Hudinilson. Podemos. todos os materiais utilizados na língua falada possuem potencialidade expressiva. de um lado. e os co-segmentais. e do outro./paraling. numa mesma direção. co-segmentais: pausas. os prosódicos que.. Entre os não lingüísticos ou paralingüísticos incluem-se os elementos cinésicos e os situacionais. revitalizados ou recuperados de alguma forma. Em termos de quadro sinótico. Entre os primeiros incluem-se. Outra característica dos signos expressivos é que eles estão prontos para o uso e não requerem uma atividade realmente criativa. a ordem etc.. De modo geral. como a entonação. em a) elementos lingüísticos e b) elementos não lingüísticos ou paralingüísticos. cinésicos: gestos etc situacionais Não se fará um levantamento e estudo exaustivo desses recursos. portanto. suprassegmentais: entonação. deles pode-se dizer ainda que não conservam indefinidamente sua virtude expressiva. pois isso não está nos limites e na idealização da presente obra como um todo. classificá-los conforme sua natureza. ordem etc. os verbais ou segmentais. conforme sua importância específica para a língua falada. sua energia e. se subdividem em dois tipos: os suprassegmentais. por sua vez. comentando tangencialmente um ou outro. Vamos nos limitar a um arrolamento rápido. lingüísticos RECURSOS EXPRESSIVOS prosódicos não ling. a configuração poderia se dar da seguinte maneira: verbais: gírias. São muito freqüentes e mais ou menos inconscientes e automatizados. 122 . A expressividade na língua falada de pessoas. mas nem sempre produzem seus efeitos de modo infalível. como a pausa. acento etc.URBANO. Finalmente. a duração etc. com o tempo e o uso. vocativos etc.

O discurso oral culto.

Os elementos lingüísticos verbais são, em princípio, e normalmente na sua origem, elementos de valor intelectual e não afetivo. Todavia, com freqüência na linguagem de modo geral e na fala com maior freqüência, o alcance representativo ou mesmo gramatical dos termos se desdobra num alcance expressivo. A expressividade atinge e altera, ainda que minimamente, o valor lingüístico. A expressão espontânea não saberia ser essencialmente objetiva (BALLY, 1951:286). Associados ou não a outros elementos expressivos, sobretudo suprassegmentais, podem ser observados elementos e procedimentos de diversos níveis, como: gírias, vocativos, interjeições, palavras e frases exclamativas, onomatopéias, sinônimos expressivos, palavras e torneios com tonalidade e/ou ressonância afetiva, formações prefixais ou sufixais afetivas, derivações de efeito expressivo, eufemismos, comparações, metáforas, auto e héterorepetições, auto e hétero-anáforas, citações de fala, perguntas retóricas, fórmulas de atenuação e polidez etc. Entre esses elementos lingüísticos verbais ou procedimentos que deles se utilizam, vamos destacar, para comentários rápidos, as repetições, por se tratar de um fenômeno de larga recorrência na língua oral, constituindo-se mesmo fenômeno típico dessa modalidade quando se trata de certos tipos de repetição. Os elementos prosódicos, tomados numa concepção mais ou menos ampla, são inerentes à expressão oral, não se podendo pensar, a rigor, numa análise de língua falada sem levar em conta esses elementos. Exemplificam os traços prosódicos suprassegmentais o tom, o acento, a entonação, a duração; mais ainda, a silabação, as inflexões de voz, os alongamentos, o ritmo, a fluência etc. Incluem-se nos traços prosódicos co-segmentais – que às vezes se confundem com os anteriores – a pausa, a ordem, os deslocamentos etc. Entre os traços prosódicos suprassegmentais, destacaremos o valor e a importância da entonação, incluindo nessas considerações os chamados acentos de insistência.2
2

Para ambos os termos (entonação e acento) remetemos o leitor para o nosso trabalho já referido, onde foram comentadas largamente as concepções de entonação e acento e suas funções, inclusive a função expressiva.

123

URBANO, Hudinilson. A expressividade na língua falada de pessoas...

Acompanhando Bally, podemos dizer que um enunciado como Paulo é muito bom, dito com entonação inexpressiva, neutra (dizer entonação “inexpressiva” é quase cometer um paradoxo), não é língua falada (BALLY, 1951:44). Já virou lugar comum afirmar que a entonação (também a mímica) é um comentário contínuo (e expressivo) que sublinha as palavras num enunciado realizado. Mas esse lugar comum merece ser retomado em virtude da força de sua verdade. Mais forte, conquanto óbvia, é a afirmação de Maldidier: “não há oral sem entonação” (MALDIDIER, 1986:62). Tanto a entonação quanto o acento apresentam várias funções, entre as quais, a função opositiva, como no caso de uma curva ascendente na interrogação opondo à descendente na declaração, e a expressiva, como nos casos das entonações irônicas ou dos chamados acentos de insistência, com ou sem deslocação, como em menTIra! ou MIserável! Atentemos ainda ao ilustrativo comentário de Gili Gaya a respeito:
“Quando a entonação contradiz o significado das palavras, nosso interlocutor se atém a ela com preferência: expressões insultantes, como “vadio”, “ladrão”, podem converter-se em carinhosas, segundo o tom com que se pronunciem; palavras aduladoras, como ‘preciosidade’, ‘rico’, podem adquirir sentido injurioso. A ironia se baseia de ordinário em uma modificação tonal que dá a entender o contrário do que se diz. Há, pois, formas lógicas de expressão, refletidas pelas entonações enunciativa e interrogativa, e junto a elas vivem, com pleno valor fonológico, formas especiais das entonações volitiva e emocional.” (GILI GAYA, 1966:57)

Em termos de elementos prosódicos co-segmentais, fazemos referência, apenas por ora, lembrando Marcuschi, às pausas enfáticas, assim entendidas aquelas que têm valor de sinalizadoras do pensamento, reforçando-o ou chamando a atenção (MARCUSCHI, 1986:64). Quanto aos elementos não lingüísticos ou paralingüísticos cinésicos, mencionamos os gestos e traços fisionômicos, levando-se em conta sua função não só significativa, quando eles podem até substituir as
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O discurso oral culto.

frases, como também e, principalmente, a expressiva, quando reforçam o discurso. Os gestos se explicam pelo fato de nas conversações espontâneas os interlocutores estarem normalmente face a face. Fazem, pois, parte da estrutura e organização desse tipo de evento. Tratando-se de elementos visuais, devem fazer parte normalmente dos estudos específicos de comunicação visual. Associados às palavras, vale a pena serem lembrados, não só na sua função precisadora das palavras, como também na função enfatizadora da mensagem. Uma preocupação com particularizações leva os estudiosos a especificar inúmeros traços gestuais e fisionômicos, até o muxoxo que se produz com os lábios sem articulação de som propriamente dito. Finalmente, lembrando que “a fala é a língua em ação, a língua atualizada”, há que se levar em conta toda a realidade extralingüística onde mergulha o discurso, ou seja, a situação, e em função da qual as mensagens podem ser compreendidas. Se o papel da situação na comunicação da mensagem já é bastante estudado e pacífico, não parece ser, porém, o papel que ela desempenha na transmissão do pensamento emotivo, sem a intervenção dos procedimentos lingüísticos. Uma forte emoção (estética) se pode expressar com palavras tíbias; basta que o objeto de nossa admiração esteja presente (BALLY, 1967:119). É o caso da frase que formulamos e comentamos páginas atrás: Que bela festa!, pronunciada com surpreendente espontaneidade em presença do anfitrião que acaba de nos receber.

4. Corpus
O inquérito tomado como “corpus” (D2/SP-333; CASTILHO e PRETI, 1987:234-264) refere-se a um diálogo entre dois informantes, duas mulheres de 60 anos cada: uma jornalista e outra escritora, intermediadas pela documentadora, na realidade, uma interlocutora não espontânea, cuja tarefa era, sobretudo, suscitar temas. Nesse sentido, o
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URBANO, Hudinilson. A expressividade na língua falada de pessoas...

inquérito corresponde a um diálogo “induzido”, em oposição ao totalmente “espontâneo”, de que fala Criado de Val. É colóquio induzido aquele no qual um dos interlocutores não é espontâneo, já que se trata na realidade de um entrevistador. Esse tipo de conversação acaba sendo um evento “mascarado”, que faz com que a tensão coloquial entre os interlocutores perca a naturalidade – e, em particular a tensão afetiva, diminuída, porque um deles – a documentadora – atua com intenção premeditada. Diminuem, por isso, as variações tensivas em relação a uma conversação espontânea e tanto as pausas quanto as intensificações polêmicas, normais na conversação natural, são mais reduzidas. No caso do presente inquérito, é muito reduzida e pouco inibidora a participação da documentadora. Em 57 minutos de gravação, ela fez apenas 12 pequenas intervenções (em média, pouco mais de uma linha cada, sendo 11 perguntas e um comentário). Portanto, pouco interferem e prejudicam o problemático grau de espontaneidade dessa conversa planejada. As informantes conversam sobre cinema, TV, rádio e teatro. Trata-se de duas pessoas não só cultas, mas sobretudo lingüisticamente preparadas, que fazem da própria linguagem escrita seu instrumento de trabalho. Nota-se seu natural desempenho lingüístico culto, com vocabulário, sintaxe e dicção cuidada. Mas são pessoas desinibidas, traquejadas e, graças ainda ao seu grau de intimidade, bastante espontâneas e naturais, condições suficientes para permitir, excepcionalmente, uma conversa mais ou menos solta, entusiasmada e muito interativa, com muitas interrupções, sobreposições, segmentos colaborativos, sombreamentos3 e liberdade de participação, num diálogo em princípio simétrico, mas que registra também longos turnos, na sua grande maioria por parte da informante jornalista. No geral, a participação da jornalista, na realidade, foi muito superior à da escritora, numa proporção de 75% mais ou menos do
3

Sombreamento – produção de um segmento por um locutor, repetindo igual segmento do locutor anterior, mas com uma diferença mínima de tempo: L2 (...) o esse e o erre exagerados dos cariocas L1 | dos cariocas (l.55-56).

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por uma personalidade mais dominante em termos interacionais. por uma questão de perfil profissional. diálogo. à qual a jornalista.. toma a iniciativa de responder.. e Ele especialmente porQUE. por alguns momentos. ((m/m 1 seg)) tem que se ter ali a medida do homem. o momento de maior vivacidade e manifestação de expressividade talvez tenha sido aquele que contou com maior participação da escritora.. chega ao menos a introduzir o tópico (ou subtópico). porém. e até. talvez também. O trecho em questão corresponde às linhas 1068 a 1157 do Inquérito: 1068 Doc e problemas como o Sílvio Santos como vocês entendem? L1 1070 o problema do Sílvio Santos é um problema MUIto difícil de se SEN-ten-ciar ((rindo)) sobre ele como aliás é difícil de sentenciar sobre tudo... A escritora (L2) procura interromper várias vezes a jornalista. até que. muito interessada e entusiasmada em expor e defender seu ponto de vista no assunto sobre um programa de auditório de televisão: o quadro “Cinderela”. 127 .. a do homem de 4 Tratava-se de um quadro dentro do programa de auditório do animador Silvio Santos.. sendo uma delas selecionada para representar. mas com veemência e expressividade. o papel de Cinderela.. em que algumas meninas pobres concorriam entre si. a medida do: : : ((m/m 1seg)) do industrial . como faz normalmente. porém. com direito a príncipe e a uma grande quantidade de presentes.O discurso oral culto.4 O momento começa com uma pergunta da documentadora sobre o programa Sílvio Santos.. possivelmente.. pelo maior conhecimento sobre os temas abordados e. Entretanto. manifestando-se. poucas vezes. não em razão de qualquer tipo de inibição da escritora. mesmo sem conseguir discorrer como e sobre o que pretende.a medida do comerciante. sem êxito. mas.que ele já é um industrial em grande escala .

URBANO, Hudinilson. A expressividade na língua falada de pessoas...

1075

negócios... e do profissional de TV... e do empreSÁrio (( ralentando nas três últimas sílabas)) de TV... sobre esse aspecto do empresário de TV... todas as pessoas que trabalham com o Sílvio Santos os artistas e tudo... todas as pessoas testemunham que ele é um: : um dos... meLHOres empresários do mundo... que ele

1080

paga na hora paga muito bem... e é MUITO BOM é um: : ((quase silabando)) sob (qualquer) ponto de vista... L2 L1
|

ele é uma boa pessoa...
|

Apenas eu lamento que não haja... ( ) sob o ponto de vista... não deixa eu 1085 L2 L1 L2 L1 1090 dizer... acaba... deixa eu termiNAR: : depois eu tenho ( ) sob eu lamento muitas coisas mas eu estou expondo o que se diz dele... sob o ponto de vista patronal ele seria ...estaria muitos ( ) acima do que o: : ... a maioria maioria... dos empreSÁrios de televisão... então seria o lado bom dele... agora... o lado discutível... es: : CApa ((em falsete)) à televisão... que é aquele lamenTÁvel LAdo do Baú que ((quase silabando)) 1095 L2 L1 L2 L1 de certo era isso que você ia... não... fundamenTAR... não... não é o Baú... não do Baú da Felicidade
128

O discurso oral culto.

1100 L2 L1 L2 L1 L2 1105 L1 L2 L1 L2 1110 L1 L2 L1 L2 L1 1115 L2

|

não

que ele com isso... ele se agiganta
|

o Baú ele é honesto

não eu não acho que seja honesto... ( ) mais ou menos... do ele está tiRANdo do pu/ do povo antes de dar qualquer coisa é mas... ele está tirando do povo é ele tira dinheiro isso mas parece éh... para a economia popular eu acho \ tenho ouvido dizer que não é... não não não isso é terrível ((os três “não” em fala muito rápida))
|

não não é isso não me interessa aí

nesse ponto a economia popular não interessa tanto... o que me revolta profundamente é o programa Cinderela L1 L2 1120 ah bom ( )
|

aquele programa aquilo é abaixo da crítica...

((superposição de vozes incompreensíveis)) eu não posso compreender como é que as autoridades... como é que o Ministério da Educação não não interveio não interveio ainda ainda L1 não ( ) porque aquilo é uma coisa que não tem não tem: : não tem classificação... não aquilo é premiar a desgraça e é uma coisa há pouco tempo...
|

1125 L2 L1 L2 1130 L1

é uma coisa horrível é a exposição da desgraça

HÁ pouco tempo eu escrevi: : isso que a: : que
129

URBANO, Hudinilson. A expressividade na língua falada de pessoas...

todos os vitoriosos são alegres... têm aquele sorriso de vitória a miss... que ganhou o lugar de miss... tem a junto com a faixa tem aquele sorriso de dentes lindos não é?... é o sorriso da vitória... a estrela que ganha um 1135 troféu tem o sorriso da vitória... as únicas vitoriosas tristes que eu conheço que CHOram... são as Cinderelas do Sílvio Santos... porque quando elas põem aquele manto coitadas elas SAbem que foram escolhidas porque são as mais pobres né? as 1140 L2 L1 tem mais pobreza MAIS miseráveis né?
|

mais miseráveis... além do mais...
|

as que

L2 1145

|

ficam as outras duas ali... aquela recebendo TUdo e as

outras duas ali não recebendo nada... e TOdas as outras miLHAres de crianças... também tendo o mesmo sentimento de frustração... quer dizer isto É/ CRI-MI-NO-so não há outra expressão... L1 é isto é um crime ((em tom baixo e descendente)) eu acho criminoso sobretudo...
|

1150 L2 L1 L2 L1 L2 1155 L1

é um crime contra a inFÂNcia e devia...

eu acho criminoso... sobretudo
|

merecer uma atitude do governo | éh esse

ex-POR à desgraça esta falta de respeito para com a ((em decrescendo)) criatura humana... (...)
130

O discurso oral culto.

5. Análise do trecho “cinderela”
Vamos analisar alguns segmentos do inquérito referido, tomando por base o trecho acima que nos pareceu um dos mais expressivos no inquérito todo. Mesmo assim, sobressaem nele momentos de maior expressividade. A gravação originalmente transcrita e publicada foi aqui retranscrita mais fielmente, sendo inseridas a duração de algumas pausas e rápidas descrições de valor já interpretativo, que ajudam a compreensão da análise e compensam eventuais lacunas analíticas. Pretendemos fazer uma análise linear, tendo em vista a economia de estudo. De fato, uma análise vertical, hierárquica e classificatória, rastreando o trecho todo para a análise isolada de cada tipo de recurso expressivo demandaria muitas retomadas, muitas idas e vindas no texto, em virtude da alta concentração – quando não, coocorrência – de fenômenos diferentes nos mesmos trechos. Em outras palavras, pretendemos observar e analisar em determinadas seqüências, quanto possível e conjuntamente, todos os fenômenos – e respectivos tipos – sinalizadores de expressividade, evitando-se, desse modo, o retorno freqüente ao mesmo trecho. A documentadora propõe como tópico a figura do apresentador de TV Sílvio Santos. Todavia faz a proposta já de maneira provocativa, colocando tal figura como “problema” (1068)5. Dentro do contexto6 da conversa, a palavra selecionada realmente revestiu o tópico de problematicidade, recebida esta como tal por L1, que, na sua resposta frisa a palavra “problema”, repetindo-a duas vezes (1069): primeiro, como tópico, ponto de apoio ou de partida da mensagem (o problema do Sílvio Santos) e depois, como comentário desse tópico (é um problema MUIto difícil de se SEN-ten-ciar) (1069-70). Para que o comentário de
5

6

O(s) número(s) entre parênteses corresponde(m) ao(s) número(s) das linhas do texto transcrito. Colocamos normalmente em negrito os termos ou expressões que aqui são entendidas como fatores, recursos e/ou procedimentos expressivos, ou que de alguma forma os representam. Isto permite ressaltá-los, além de ajudar a explicitar e ampliar a tipologia do quadro sinótico do item 3. RECURSOS DE EXPRESSIVIDADE.

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os segundos. de significativo valor. e sobre a própria palavra “sentenciar”. Para justificar a dificuldade para “sentenciar”. na medida em que o “problema” é tratado como um caso de julgamento e sentença. entendida esta primariamente como uma “técnica de argumentação” (Martins. com Guiraud (1970:17). Os verbais. pitorescas e estéticas” 132 . L1 se utiliza de verdadeiros recursos retóricos8. silabação e riso revelam expressivamente uma emoção exaltada – como que fora de controle – sinalizada pelas micro pausas entre sílabas. ela o enriqueceu de traços lingüísticos verbais e prosódicos. que a audição da gravação claramente revela. L1 começa arrolando os fatos complicadores para esse julgamento e o faz utilizando de estruturas verbais e prosódicas repetidas. em coocorrência com o riso. os primeiros. Hudinilson. L1 manifestasse de maneira expressiva a sua complexa idéia de julgamento. como sinônimo de “estilístico” na Retórica. a expressão do traço fisionômico7. “o colorido”. de grande efeito expressivo e apelativo. O termo (retóricos) é aqui utilizado. recursos especificamente normais da fala. alguns típicos de uma argumentação característica da oralidade. Na seqüência (1072-76). de cuja área jurídica o termo “sentenciar” revela expressivo efeito evocativo. tanto mais quanto forem exteriorizadas visualmente. 1989:18). agradá-lo. Há que se supor ainda. à semelhança de Koch (1987:164). Por outro lado. recursos normais da língua em geral. aqui mais expressiva ainda pela antecipação de sua sílaba tônica (SENten-ciar). e franca. pelo riso liberado.. intensificando-o ainda mais. outros traços prosódicos expressivos coocorrentes na palavra são a silabação e o riso. os prosódicos. A expressividade na língua falada de pessoas. destaca-se. representados pelo advérbio de intensidade “muito” e pelo termo “sentenciar”. “o seu rendimento expressivo. manter vivo seu interesse. Com efeito. a conjectura se impõe e é válida e segura. ou seja.URBANO. Antecipação do acento.. o aspecto expressivo do estilo. de vez que se tem em conta que as emoções são contagiantes. Por outro lado. L1 assevera que : tem que se ter ali 7 8 Considerando-se a ausência de gravação em vídeo. impressionar-lhe a imaginação mediante formas vivas. revelados nos acentos de insistência sobre o próprio advérbio “muito” (MUIto). próprio para convencer o ouvinte.

. industrial. com força argumentativa. que formam dois grupos: nos três primeiros segmentos temos três sintagmas simples integrais. profissional e empreSÁrio). que se percebe auditivamente na voz de L1) e uma velocidade “ralentada” nas três sílabas finais recaem sobre o último dos segmentos. por outro lado. sintáticos e semânticos. mas contrabalanceada na parte final pela entrada de novos sintagmas preposicionais. A maior intensidade (coocorrente com uma espécie de falsete. pelos acentos tônicos intensificados no último vocábulo de cada segmento. passando pelos acentos tônicos (sempre dois em cada segmento) e.. cada um.. por sua vez. (1075) e ( = = = = ) do empreSÁrio de TV. o “a” inicial deste segmento foi mais sugerido do que ouvido com clareza ou propriamente articulado. formados. ficando a massa sonora dos segmentos reduzida na parte inicial.. dos segmentos. sobretudo.... que.. sintáticos e semânticos. negócios. de locução prepositiva mais nome. a audição da fita permite perceber paralelismos rítmicos. detêm valor significativo especial dentro dos segmentos semanticamente considerados (homem. ((ralentando)) (1075-6) Observem-se os paralelismos morfológicos. nos três últimos. a locução prepositiva sofre elipse parcial. (1072) 9 a medida do:: do industrial — (1072-3) a medida do comerciante.O discurso oral culto. Suprassegmentalmente aos paralelismos morfológicos.. a começar pela própria dimensão muito semelhante dos segmentos (de 7 a 10 sílabas). a saber: de negócios. (1074-5) 10 e ( = = = = ) do profissional de TV. a medida do homem. 133 . comerciante. constatados a partir dos padrões das estruturas anteriores repetidas. Os sinais = = = entre parênteses representam as sílabas dos elementos elípticos (“medida / a medida”). inclusive mantendo o mesmo esquema acentual. 9 10 A sílaba em negrito objetiva chamar a atenção para a sua intensidade tônica gramatical.. de TV. Essa acentuação (ritmicamente intensificada) determina curvas entonacionais ascendentes nos vocábulos finais. o que enfatiza o fechamento da lista argumentativa. de TV. (1074) a (= = =) do homem de negócios .

que contém doze sílabas. mais lenta e. A qualidade é manifestada naturalmente pelo sentido das próprias palavras. a reiteração ritmada do verbo “paga” acentua seu conteúdo referencial como qualidade positiva do empresário. portanto. na conceituação de Mattoso Câmara (1964:182). já perdeu bastante do seu vigor. Por outro lado. que. o trecho sob análise registra um comentário hiperbólico. L1 escolhe o perfil de “empresário”– já destacado pela sua posição final dentro da lista (recurso da ordem) e pelo acento segmental mais saliente. é um exagero da significação lingüística para fim de expressividade (grifo nosso). Como se percebe. a emissão do segmento A é muito mais rápida (velocidade) do que a emissão do segmento B. o ritmo rápido e marcado desse segmento. Com efeito. em virtude de sua sim134 .. a fórmula. Naturalmente expressivo como toda figura. enfatizando-se o conteúdo nele expresso. Todavia. porém. No campo das figuras... Hudinilson. Na seqüência (1076-80). Além da repetição de estruturas. meLHOres empresários do mundo – 1inha 1078-9). o que parece favorecer a emissão pausada. acima comentado – para ressaltar a qualidade positiva de Sílvio Santos nessa atividade: ele paga na hora paga muito bem. traços expressivos emolduram esses segmentos. ressalta mais uma vez a repetição próxima de termos chaves.URBANO.. e é MUITO BOM (1079-80). de configuração simples e popular (ele é um:: um dos. graças à estrutura repetida.. o que favorece. moldado na fórmula ele é o maior do mundo. mais expressiva. que tem apenas quatro sílabas. A expressividade na língua falada de pessoas. sintático e semântico nas duas partes que compõem o segmento A. Chamemos de segmentos A e B: A: ele paga na hora paga muito bem B: e é MUITO BOM O segmento A. tanto quanto o segmento B. novamente se observa certo paralelismo morfológico. é pronunciado mais ou menos em dois segundos.. Ocorre que o segmento B é emitido quase silabadamente e num tom mais saliente em relação ao segmento A.

. exemplifica um e outro caso: e Ele especificamente porQUE. ao lado de funções sintáticas ou relativas a atitude. Isto ocorre. No segundo caso. como a hesitação. tem que se ter ali ((m/m 1 seg)) ((pausas)) a medida do homem . O trecho que vai da 1inha 1071 a 1076. quando se situa em posição anômala. e do empreSÁrio de TV . percebe-se também alguma hesitação na procura do argumento.. a do homem de negócios .. acentuam sobremaneira as estruturas sintático-prosódicas paralelas e o efeito retórico da argumentação.. coocorrendo com os outros elementos já comentados.. No caso. por exemplo. enfatizando segmentos argumentativos. No primeiro caso ocorre após o “porque” (1071) uma pausa de razoável duração ou duração anormal ((m/m 1 seg)). Em qualquer texto falado. logo. a pausa desempenha ênfase. meLHOres empresários do mundo) ou depois de uma conjunção. como entre um determinante e seu determinado (como acontece no segmento recém comentado: um dos. provocando um notável silêncio... plicidade semântica e estrutural e da grande recorrência e automatismo de uso..O discurso oral culto. uma argumentação prosodicamente expressiva. Isto pode explicar a ênfase na palavra “melhores” por meio de uma intensidade compensatória (meLHOres).a medida do comerciante . 135 .. e do profissional de TV .. ocorrem repetidas pausas entre os segmentos que contêm a premissa argumentativa de L1.. tanto mais que a sílaba final do “porque” foi emitida num tom intenso ou anormal: porQUE.. em parte já comentado. Outro caso em que também se tornam expressivas é aquele em que ocorrem várias pausas em pontos estratégicos e paralelos.. As pausas ao final de cada segmento. a medida do: : : do industrial ..

SEN-tenciar (1070) ou es: : CApa (1093). A expressividade na língua falada de pessoas.”. nesse sentido. Todos esses recursos ou estratégias (sobreposição de vozes. deve ficar claro que intensificações sonoras como as reveladas em Apenas (1083) e termiNAR: : (1087) são de natureza diferente das que acompanham MUIto (1069).URBANO.... não só a negociação da vez. tudo isso deixa reflexo na pronúncia total das frases e torna. Observem-se. As repetições. autorizando a vez. L2 faz a primeira tentativa sem êxito para introduzir seu ponto de vista restritivo à figura e ao comportamento de Sílvio Santos: Apenas eu lamento que não haja (1083). o tom mais saliente na primeira sílaba de “apenas”..). Comentários semelhantes podem ser feitos em relação a outros fenômenos. mas também a preocupação com a preservação da face com o “acaba” (1086). Nas linhas 1082-3. também. Todavia. após um comentário de concordância polida (ele é uma boa pessoa – linha 1083). de alguma forma especial. Consideremos as linhas 1081 (sob (qualquer) ponto de vista).. em digressão entonacional e semântica. Toda a intervenção é feita em sobreposição. intensificação de tonalidades. ou com o eu eu lamento muitas coisas mas eu estou expondo o que se diz dele (1089-90) – mais uma vez conforme a fórmula “sim mas. expressivo – ou mais expressivo – o intercâmbio. lutando ambos os interlocutores pela manutenção da palavra. inclusive o mesmo verbo “lamento” de L2. negociação de vez. segundo a fórmula “sim mas. marcadores prefaciadores. deixa eu termiNAR: : (1087). uma vez que é o próprio “mas” da fórmula “sim mas” que é usado. porém.”– em que L1 retoma. 1089 (sob) e 1090 (sob o 136 .. aquelas visam a permitir a tomada ou a manutenção do turno.. têm freqüentemente motivações e funções variadas. Hudinilson. Cremos que se pode falar aí numa expressividade de caráter pragmático. à organização interacional da conversação. por exemplo. estas.. a intensificar ou chamar a atenção para o sentido das palavras.) dizem respeito. Há nesse jogo interacional. que Marcuschi (1986:72) entende como prefácio de disjunção ou alinhamento. não só nessas linhas mas nas subseqüentes. o prefácio é mais fiel à formula. preservação da face etc. Entretanto. as saliências sonoras e as frases metadiscursivas deixa eu dizer (1084-5). 1084 (sob o ponto de vista. a rigor. Agora.

com conteúdo hiperbólico. O silêncio funciona como um pedido ou sugestão de reflexão sobre a expressão miLHAres de CriANças. na linha 1084. ex-POR. mas o segmento ficou truncado em decorrência da reparação pragmática não. onde os “não” são produzidos mais ou menos alternativamente. ponto de vista patronal.. dentro de um contexto lingüístico que termina com um comentário conclusivo muito forte: isto é CRI-MI-NOso não há outra expressão (1147-8). Essas repetições têm.. 1098 (não. L1 estava introduzindo uma perspectiva argumentativa sob (qualquer) ponto de vista. conseguindo L1 finalmente completar sua perspectiva argumentativa.). pode-se observar um instante de silêncio altamente expressivo (criANças ((1 seg)) também tendo o mesmo sentimento de frustração. onde se destaca o avaliativo CRI-MI-NOso.. – linhas 1146-7). silabações: CRIMI-NOso.). onde eles são contíguos e pronunciados de maneira mais rápida.. além de vários recursos expressivos como os dos tipos já referidos (acentos de insistência: TUdo. etc. feita pela própria L1. pro137 . quando sofreu sobreposição e interrupção.. L1 tentou retomar. porém. pois. não) 1100 (não). Finalmente. ou nas linhas 1115-6 (não não é isso não me interessa aí nesse ponto a economia popular não interessa tanto. o trecho compreendido entre as linhas 1141 e 1155 é um pico de expressividade. a repetição do “não” ou a dele mais os segmentos que ele encabeça frisam agressivamente o sentido e/ou revelam a irritação do falante. ou ainda nas linhas 1125-6 (porque aquilo é uma coisa que não tem não tem: : não tem classificação).. Aqui as repetições têm as seguintes explicações: na linha 1081..O discurso oral culto. miLHAres... uma função textual estruturadora e não expressiva. mais uma vez e logo no início. ou na linha 1114 (não não não é isso). não é o Baú.). inFÂNcia. na linha 1089 pela segunda vez.). agora para a inserção da digressão já referida (eu eu lamento muitas coisas mas eu estou expondo o que se diz dele. dentro de uma frase constituída de palavras já de conteúdo afetivo. CRI-MI-NOso. interrompendo-se. criANças. particularmente no caso do último exemplo. TOdas. ex-POR. linhas 1089-90).. o que acontece na linha 1090: sob o ponto de vista patronal (. Nele. Já nas linhas 1095 (não). L1 pretende retomar a mesma introdução.. Daí a necessidade de uma terceira e definitiva retomada. deixa eu dizer..

conforme se manifeste por meio da língua escrita ou falada. por meio da fala formal ou informal (sobretudo da conversação espontânea) ou por meio de pessoa lingüisticamente culta ou inculta. ferido com articulação martelada. A expressividade na língua falada de pessoas. conceituada no presente trabalho como a capacidade de os falantes manifestarem suas emoções e de despertarem nos parceiros sentimentos análogos. a função inseparável de comunicar a própria vida. A partir desse “corpus”. embora em graus e naturezas diferentes. Comentários finais A hipótese. A massa sonora do termo é por si só altamente expressiva. cinco vezes em oito segundos. “estreitada” e anasalada. 6. O “corpus” escolhido teve o propósito de favorecer a observação num texto com linguagem e situação bem próximas de um texto falado espontâneo. pudemos examinar vários fenômenos reveladores da expressividade. Hudinilson. consensualmente reconhecida. os quais o analista pôde captar. em coocorrência com seu objetivo comunicacional cognitivo.. 138 . das quais as duas primeiras contêm dois estridentes “i” e as duas últimas dois graves e surdos “o”. simples ou derivada. evidentemente. é a de que a linguagem é sempre expressiva. A idéia é tão pertinente dentro do quadro desenhado pelos interlocutores que eles consensualmente lhe atribuem alto grau de importância e representatividade. O caminho percorrido permitiu observar e constatar claramente que a expressividade não é só uma característica intrínseca da língua falada. assim caracterizado. assumida desde o início no presente estudo. analisar e denunciar. mas sobretudo que a linguagem possui.URBANO. Não se previa nos objetivos. lembrando choro. composta que é de quatro sílabas. fazer todas essas constatações dentro dos limites do presente trabalho.. na medida em que repetem a palavra.

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aulas. Os textos analisados pertencem aos inquéritos 338. 1986: 16). produzidas por informantes cultos em atitude formal. dirigir e concluir a interação e exerce pressão sobre o(s) outro(s) participante(s)” (MARCUSCHI. orientar. favorecendo uma linguagem tensa. quer dizer. em diálogo assimétrico. numa situação comunicativa marcadamente didática. isto é. conferências. mas também realizá-lo (ANTOS. 377 e 153 do Projeto NURC/SP. o locutor realiza uma atividade intencional: formular um texto não é só planejá-lo. Ao produzir um enunciado. do tipo Elocução Formal. PROCESSOS DE FORMULAÇÃO DO TEXTO FALADO: A CORREÇÃO E A HESITAÇÃO NAS ELOCUÇÕES FORMAIS Leonor Lopes Fávero 1. 1982: 92) e o esforço de formular se manifesta por marcas que esse locutor deixa no texto e que funcionam como pistas para que seu 141 . “em que um dos participantes tem o direito de iniciar. transcritos em Castilho e Preti (1986).O discurso oral culto. Introdução Este trabalho investiga dois processos de formulação do texto falado – a correção e a hesitação – como subsídio para que possam ser explicitados os mecanismos de construção desse tipo de texto.

a gente quer saber agora... na denominação de Marcuschi (op. serão aqui examinadas situações em que se evidencia a existência de “problemas” ou turbulências. Essa atividades são constituídas por hesitações.. 34) (2) Loc. Essa concepção permite a divisão das atividades de formulação. 34) (3) as fa:: ses da inteligência estão aí no caso a inteligência... b) quando há evidência de “problemas” de processamento e linearização que devem ser resolvidos. interlocutor possa compreendê-lo. já... as correções e as hesitações.: 30). éh::. mas é ação e interação. ls 30-31.. ela estaria. precaução. Leonor Lopes..cit. faz fazem..FÁVERO... alguns tipos de repetição... ela é TOdo e desempenho do indivíduo ela não é simplesmente o uso do inte142 . ls 10-11. (SP EF 338. Processos de formulação do texto.. assim. éh. Como já disse. a produção de um texto nunca se realiza na perspectiva de um dos interlocutores.. (SP EF 338. p.. ah... que fazem com que. (estou) meio preocupado (com o gravador)... liga:: da a to:: do o desenvolvimento do indivíduo ela (ia ia) estar JUN:: to...... correções. existe uma demanda de moeda por motivo. id).. Considerem-se os exemplos: (1) Inf. considerando-se dois aspectos: a) quando não há evidência de “problemas” de processamento e linearização (ANTOS. especificamente. es/esses dois tipos de demanda de moeda já. quais as razões que faz.... p. denominados por GÜLICH e KOTSCHI (1987) de refrasagens (quando há repetição de uma estrutura léxico-gramatical) e paráfrases.

. encontra um problema: achar a palavra adequada para dar seqüência ao turno: hesita e encontra: esses dois tipos – trata-se de uma hesitação. 143 .30 (4) Loc. então. apesar de face-a-face. admitem formalismos. (SP EF 377. o processo de formulação. efetivando uma refrasagem. ele é textualmente manifestado e dá-se. no interior do discurso. o locutor... pessoas a. como bem mostra o número de correções e hesitações encontradas no corpus.. embora se trate de aulas e conferências em que. criando uma paráfrase. de que provavelmente todas as línguas possuem elementos que permitem introduzir. ls 337-342.. como já disse.. lecto. há uma relação de sinonímia. o locutor depara-se com um problema captado após sua formulação. Esses exemplos revelam o que já foi apontado por KOCH e OSTERREICHER (1990: 60).O discurso oral culto. caráter prospectivo. Em (3). com pouca intimidade entre os falantes.34) Em (1). mas ela é:: éh:: tudo TOda a realização do indivíduo em qualquer momento. isto é. o locutor sintetiza dizendo ser a inteligência toda a realização do indivíduo em qualquer momento. no caso da correção. demandarem moeda a procurarem moeda. essa formulação tem caráter retrospectivo (só posso corrigir algo que já foi expresso) e no da hesitação. Em (4). A correção e a hesitação desempenham importante papel na construção do texto. seguindo o curso normal da formulação. ls 14-15. sua reformulação que apresenta um aspecto retrospectivo – trata-se de uma correção. (SP EF 338. Em (2). p. p.

Problemas retrospectivos: a correção 2. de palavras funcionais. Processos de formulação do texto. etc..FÁVERO. agora. a análise pormenorizada de cada um dos fenômenos que constituem objeto de estudo deste trabalho.. Tabela 11 Ocorrências de correções no corpus Textos Ocorrências EF 338 13 EF 377 07 EF 153 03 Tabela 2 Ocorrências de hesitações no corpus Textos Ocorrências EF 338 488 EF 377 386 EF 153 157 Efetuar-se-á.1 Conceituação e características Corrigir é produzir um enunciado (enunciado reformulador = ER) que reformula um anterior (enunciado fonte = EF) considerado “errado” aos olhos de um dos interlocutores. 144 . 2. de fragmentos léxicos. Em: 1 Apresenta-se aqui o número de ocorrências contadas em bloco e não em separado. como o número de marcadores. Leonor Lopes.

). (SP EF 377... de:: evolução da inteligência.. é o principal motivo da correção. dois agentes que oferecem.. o enunciado x é reformulado por um enunciado y.. FA:: ses da inteligência.. o mesmo ocorre em: (6) dois tipos de oferta de moeda e nós vimos que existem... Central... assim.. (5) uma Outra forma de:: de(se) estudar a inteligência. então.. um claro processo de formulação retrospectiva: problemas de reformulação ® EF ® reformulações retrospectiva ¬ correção 145 y= xRy (R = relação semântica) ¬ ER . certo? O falante. para assegurar a intercompreensão que.. segundo GÜLICH e KOTSCHI (op. quando diz isto é os bancos comerciais e o Banco.. são. criam moeda...cit. al 333-35...30) o falante anula sua formulação quando diz FA:: ses da inteligência.. embora não seja o único x R A correção é.. Central.O discurso oral culto... p. é o banco comercial isto é os bancos comerciais e o Banco.. na busca de precisão.... seria mais uma frase de. anula explicitamente sua formulação.

a relação é de equivalência semântica.. em muitos casos. 146 . ao reunir as refrasagens na categoria das repetições. BARROS. afirma “ser problemático o limite entre as repetições e as paráfrases.. substituído por um outro. porém. Processos de formulação do texto.FÁVERO. podem ser considerados tanto correções. Para os marcadores de correção. Na paráfrase. que a correção apresenta a mesma estrutura básica da paráfrase: EF ® ER A paráfrase e a refrasagem têm também a função de garantir a intercompreensão. elas se diferenciam pela natureza da relação semântica (R) que liga o enunciado reformulador (y) ao enunciado fonte (x) e pelos marcadores de reformulação2 (GÜLICH e KOTSCHI. porque na correção o “erro” não é necessariamente erro mas assim considerado e. e. os casos que comportam uma substituição sinonímia. como paráfrases. 1977). Esta é também a opinião de GAULMYN (1987: 86-7) que. pois. mas podendo aí ocorrer redução. Resulta. nas paráfrases. de contraste. op. como apontam esses autores. ele se coloca como elemento norteador para que se efetive a reformulação. os casos em que as mesmas palavras reaparecem. 2 Dadas as limitações de um trabalho desta natureza. Gülich e Kotschi também consideram difícil a delimitação entre paráfrase e correção. por ex. ocorrendo uma neutralização. quer de hesitação. não será aqui examinada a questão dos marcadores quer de correção. como tal.cit. ANDRADE e AQUINO (1996). muitas vezes são tênues os limites entre paráfrase e correção e certos casos. reordenação. remeto o leitor ao trabalho de FÁVERO. LYONS. então. Leonor Lopes. Além disso. na refrasagem de sinonímia denotativa e na correção. Como se pôde observar no corpus. como já apontaram vários estudiosos (por ex. uma explicação ou uma ilustração”..: 43). 1993). merece ser incluído o aspecto interacional. no sentido que lhes dá a semântica estrutural (veja-se. expansão. Incluímos nelas..

2 Operacionalização FÁVERO. propõe-se. 2. de autocorreções heteroiniciadas e de heterocorreções auto-iniciadas pode ser atribuída a várias causas. isto é. visto estar ciente de quem são seus interlocutores (aula universitária). dentre elas. Observa-se uma preocupação com a norma culta. examinando a correção em diferentes tipos de inquérito do Projeto NURC. No exemplo (1). como se pode ver. c) heterocorreções auto-iniciadas. aqui. ao reformular seu enunciado. SCHEGLOFF e JEFFERSON (1974) consideram a correção um mecanismo que repara infrações a regras conversacionais. a tentativa de preservação da face do outro. A reformulação talvez não ocorresse se fosse uma conversação entre falantes que se utilizassem de outras variantes da língua. No corpus selecionado (elocuções formais). encontraram: a) autocorreções auto-iniciadas.O discurso oral culto. já que se considera sua função na construção do sentido do texto. preserva sua imagem. O enfoque é. o locutor emprega faz e logo em seguida reformula seu enunciado efetuando uma correção: fazem. já que. b) autocorreções heteroiniciadas.cit. interacional. destaco. ele não quer perder a oportunidade de reformular seu enunciado (SCHEGLOFF. foram encontradas somente autocorreções auto-iniciadas e que ocorreram na mesma frase. sim. ANDRADE e AQUINO (op. mas. uma forma mais ampla de se ver o problema. então. o que acaba por provocar um número significativo de orações truncadas.). porque o locutor tem pressa em corrigir-se. no corpus. para eles não haveria contraste semântico. A não existência. mas. 147 . por sua própria natureza. neutralização. 1979). A razão dessa “pressa” talvez seja a de preservar a auto-imagem. SACKS.

377 ls 119 e 120..) propõe dois tipos de correção. né? SP EF. sim de Vergílio (conversação espontânea)..): a infirmação (do lat. Observem-se agora os exemplos: (7) L1 aquele seu amigo::: Luís que está estuda:: ndo economia L2 não não é economia. torna-se impossível dizer que houve uma correção. certos aptidões:: certas outras tarefas. infirmare = anular.25 3 Quando há sobreposição de vozes não se considera correção. Vejam-se os exemplos: (9) ..... em que o falante inicia a correção que é efetivada pelo interlocutor e confirmada no terceiro turno. revogar) e a retificação (do lat.. rectificare = que segue sempre na mesma direção).. 2. quando o falante que produziu a inadequação retoma a palavra. 148 .. a Eneida de Horácio. não..... falando os interlocutores simultaneamente... aceitando a reformulação feita por seu interlocutor3. então ele estava dizendo que.. O exemplo (7) mostra claramente uma autocorreção heteroiniciada e o (8).. Leonor Lopes.... (8) L1 estava na biblioteca procurando um livro. determinadas tarefas que vão exigir::. confirmados pelo exame do corpus e pelas análises realizadas por Fávero.. L1 ah é. uma heterocorreção auto-iniciada.. é direito.. Andrade e Aquino (op.FÁVERO. não. L2 de Vergílio L1 sim.3 Tipos CHAROLLES (1987: 118 ss.cit... a profissão exige dedicação (conversação espontânea). Processos de formulação do texto.. porque. p.

voltou a reinar a ordem e nosso pergado em nosso mercado cinematográfico.. substituindo realizar por assumir. (10) podemos verificar em que medida o indivíduo pode. portanto. p. esses aspectos estão interligados.26 No exemplo (9). I.O discurso oral culto. Temos uma infirmação... já que.. realizar (determinadas funções). pouco “errando”.... Já no exemplo (10). p.. ls. SP EF. 149 . Lingüísticos a) fonético-fonológico: em que se observa uma correção de pronúncia ou articulação: (11) .. assumir (certas funções). uma anulação do enunciado-fonte. 574-75. considerando-se os aspectos lingüístico e enunciativo4. o locutor corrige parcialmente o enunciadofonte. há. 377 ls 122-124. b) lexical: em que a seleção léxica não era a pretendida e há uma substituição: 4 A divisão entre aspectos lingüístico e enunciativo tem caráter didático. que conhecem a “boa pronúncia”. Temos uma retificação. com falantes de nível universitário. explica-se pelo fato de ser ele constituído de gravações de aulas e conferências. É necessário agora examinar-se as correções encontradas. 103 Este foi o caso menos encontrado no corpus. o locutor anula certos aptidões e anuncia explicitamente certas outras tarefas. SP EF 153. na construção do texto..

2 deste trabalho)... aparelhados ou muito mal aparelhados coisas improvisadas. relacionando-se à busca de cooperação. p....... conferências) não se encontrou no corpus correção por interferência de interlocutor (cf... SP EF 338. intercompreensão e ao estabelecimento de relações de envolvimento entre os interlocutores.... criam moeda. quais as razões que faz. 34 II. Processos de formulação do texto. Por tratar-se de elocuções formais (aulas.. e regência etc.34 c) morfossintático: – quando a concordância. assim se apresenta aqui um exemplo de conversação espontânea: 150 ...... (12) (... ls 1-3. p..FÁVERO. éh.... são mal formuladas: (1) a gente quer saber agora. e nós vimos que existem dois tipos de oferta de moeda... que fazem com que.4 Funções As correções apresentam a função geral de caráter interacional. SP EF 153. (estou) meio preocupado (com o gravador). ls. 133-35. éh::. Enunciativos A formulação não é a que se pretendia. dois agentes que oferecem....). ls 10-11. então reformula-se. imprimindo-se ao mesmo tempo um caráter de maior subjetividade ao enunciado: (13) . faz fazem. SP EF 338. em que os cinemas não estavam.93 2. ah.. Leonor Lopes.. p... item 2.

sim Rubem Berta Ao corrigir seu interlocutor.. no no. orientar o foco de atenção para elementos específicos como: a) o tópico. a pintura holandesa do século dezessete. Problemas prospectivos: a hesitação 3. a hesitação se dá em situações em que se evidencia a existência de “problemas” e seu estudo se justifica pelo fato de que. ls 321-325 p... adequando sua fala ao registro sociolingüístico do “bem falar”. (5) e (15). holandesa dá-nos no século. por exemplo.. A função interacional pode. Ibirapuera até o aeroporto::... (14) L1 fui pela Av.. o locutor busca. ao mesmo tempo em que precisa o conteúdo da mensagem... não não. precisando o interlocutor o conteúdo da mensagem: (15) é sempre a pintura flamenga do século dezoito.. evidenciando a correção. mais do que evidenciar a existência de proble151 .. Nos exemplos (1). SP EF 156.. evidenciar sua posição de professor universitário. 79 b) os interlocutores e as relações entre eles. L2 encontra uma possibilidade de participar. relaciona-se à posição social ou à preservação da auto-imagem. atenção e interesse. L2 Rubem Berta L1 sim. a pintura.O discurso oral culto.. envolvimento.. pela correção... perdão. diz ele.. 3....1 Conceituação e características Como já disse no item 2 deste trabalho.

Leonor Lopes.. quer dizer é contínua. p. de disfunções.. 1995: 1).. o maior interesse em vincular.. moeda já.. p. p.. uma curva assim. pre-cau-ção. numa luta entre irmãos..a... o locutor.... hesita.. Processos de formulação do texto. no prólogo do fi / do filme lia-se... às vezes gagueja e encontra esse termo: 2..... es/esses dois tipos de demanda de.. ls.. mas.. de acumulação:: de conhecimen:: tos simplesmente.. isto é.. sem SAL:: tos. depara-se com um problema de formulação (achar o termo adequado).31 (17) Menotti tinha.. ...a...... ls 446-50. o seu nome a um empreendimento dessa na/natureza... SP EF 153. ela “é parte das manifestações da competência comunicativa em contextos interativos” (MARCUSCHI. es/esses dois tipos de demanda de. 34 (16) ... Trata-se de hesitação que tem sempre um caráter prospectivo: 152 . sem éh.. 355-59.. Observem-se os fragmentos: (2) existe uma demanda de moeda por motivo. EF 338 ls 29-31. o seu nome a um empreendimento dessa na/natureza.. SP EF 377. 16. seguindo o curso normal de sua formulação. éh contí:: nua.a. sem que:: des: sem SAL:: tos 17... não há vencedores nem vencidos.. sem QUE:: des.100 Nestes exemplos.. então no modelo funcionalista...FÁVERO.. SP.

de forma e conteúdo. mas sim como indício de uma não solução” (id. Assim. que não são isomórficos.). como já disse. a repetição e a paráfrase porque constitui indício de “dificuldade de processamento cognitivo/verbal localizado na estrutura sintagmática” (MARCUSCHI. ao contrário da escrita. Deve-se ressaltar que a hesitação não pode ser considerada um mecanismo de formulação textual.O discurso oral culto.cit. seus próprios processos de criação. representa uma solução a um dado problema de formulação retrospectiva enquanto a hesitação se dá na prospectiva e “não pode ser tida como proposta de solução para algum problema de formulação.): a hesitação está presente em todas as línguas. ela revela as estratégias adotadas pelos falantes para resolver os problemas que surgem no processamento que é. a refrasagem. mas é um ato criativo relacionando dois meios. ela está relacionada não ao que se fala. ao mesmo tempo. 1987) e constitui uma evidência de que a fala é uma atividade administrada passo a passo e que planejamento e verbalização simultâneos têm conseqüências no controle do fluxo informacional. 1995). CHAFE (1985: 18) também afirma que a hesitação constitui uma “evidência de que a fala não é matéria de regurgitação de materiais já estocados na mente em forma lingüística. pensamento e linguagem. a fala vai mostrando. Um outro ponto que permite a distinção entre hesitação e correção é o que diz respeito ao estágio de desenvolvimento da formulação/refor153 . que têm meios de introduzir no discurso o processo de formulação. como o são a correção. problema de formulação hesitação ® prospectiva Casos como estes confirmam o que já apontaram KOCH e OSTERREICHER (op. quando há dificuldades na prospectiva. mas ao como se fala (PETRIE. mas que requerem ajustes e reajustes mútuos”. Difere da correção porque esta.

Desse modo.. 1) e alongamentos vocálicos (exs. 154 . considerando-se os aspectos lingüístico e enunciativo. o enunciado já poderia ser considerado concluído do ponto de vista sintagmático.. por exemplo. a ocorrência de dois ou mais elementos. casos como os dos exemplos (2).FÁVERO. 25.23 5 Freqüentemente tem-se. preenchidas por marcadores de hesitação. ela se instaura. SP EF 377. devido a uma má seleção futura de um ou mais termos do enunciado. resultando um enunciado ainda não concluído do ponto de vista da organização sintagmática. mulação textual. como ah (exs. detecta-se uma interrupção no fluxo informacional. Lingüístico a) fonético-fonológico: são as pausas. (16) e (17) são aqui considerados hesitações e não correções como o fazem alguns lingüistas... examinar-se-ão os tipos de hesitação encontrados.. eh (ex. 18-19 e 1)5 (18) então veja bem. mas é necessário reformulá-lo. nos casos de ocorrência de correção. num ponto em que uma má seleção já se efetivou. por motivos já expostos neste trabalho. l. 18 e 1). p. numa hesitação. Leonor Lopes. em (1) há marcador de hesitação (éh) com alongamento.. ahn:: os testes têm como objetivo. Nos casos de ocorrência de hesitação. I.2 Tipos Como foi feito para as correções. 3. Processos de formulação do texto. Por outro lado.

.. ls 134-5.. na década de trinta.. ahn:: os testes têm como objetivo. SP EF 377..34 b) morfossintáticos – são as palavras iniciadas e cortadas.. p..) e repete o sintagma nominal (o cinema brasileiro). verificar a situação real.. então em Psicologia há modelos::. SP EF 153.. ainda segundo Marcuschi.26 (21) o cinema brasileiro.. do do indivíduo.90 Neste exemplo.. 22 e 23) e das repetições hesitativas (exs. p.. há um truncamento oracional. o falante abandona (na década de trinta. faz fazem.. ls 25-6. SP EF 338. através dos marcadores conversacionais hesitativos (exs.. ah. (estou) meio preocupado (com o gravador) éh. p. ls 10-13.... ls 2-3. os truncamentos de orações (segundo Marcuschi os anacolutos e as aposiopeses) e os falsos começos: (20) pra:: se verificar em que em que ponto aonde estaria aí. p. (19) é claro que isso é extremamente discutido.. um cinema MARGINAL... éh::: ah quais as razões... que:: SP EF 377. o cinema brasileiro foi quase sempre.. que fazem com que. ls 31-2... a/o erro certo? SP EF 377..23 (1) quais as razões que faz. 24 e 25) que são repetições julgadas semanticamente não significativas: (22) então veja bem.. p..O discurso oral culto.. c) lexical – dá-se... com repetição de unidades menores..23 155 .

).. ls 272-4. p 32 (25) ah com isto já.. (23) isto já é um fatorzi:: nho:: negati:: vo. eu não me lembro. éh:: difí:: cil que::.. mas um sinal da existência de problemas. p... ou três ou quatro. éh:: pertuba assim a::... ela não é uma estratégia de formulação. ls 235-36...28 (24) então ele (está querendo discutir.FÁVERO. ls 392-94.. 156 . hesita-se dando ao texto maior subjetividade: (26) no Brasil ele deixou dois artigos. além disso... Leonor Lopes... ls 116-7.. p... SP EF 377. já que o termo função pode dar a idéia de que a hesitação é “algo que o falante emprega com consciência e com algum objetivo”. A hesitação exerce o papel geral de busca de intercompreensão e cooperação.. estou me lembrando agora de dois. SP EF 156. SP EF 153. já começou a provocar atrapalhações.3 Funções (Papéis) Para MARCUSCHI (id..78 3.. no caso da hesitação parece melhor falar-se em papéis do que em funções..92 II. p.. Processos de formulação do texto. SP EF 377.) ALTO (mais de base de::) e não de:: de argumentação::. Enunciativos A formulação não é encontrada.

No ex. intercompreensão e ao estabelecimento de relações de envolvimento entre os interlocutores. quando o falante encontra “problemas” na retrospectiva e deve resolvê-los. mais especificamente de Elocuções Formais.O discurso oral culto. permitindo que o locutor acidental tome o turno: (27) Inf. éh... A correção foi mostrada como uma estratégia de formulação. mantenedora e finalizadora do tópico e introdutora de digressão. No corpus encontrou-se hesitação exercendo o papel específico de mantenedora ou entregadora do turno.. Apresentou-se sua função geral – interacional – relacionada à busca de cooperação.. ah. 4.... faz fazem. por meio de inquéritos do Projeto NURC-SP. você já está saltando sobre o aspecto lingüístico para chegar nas conseqüências não é?.. quais as razões que faz.. acidental eles não têm passado nem futuro Já em (1).. a correção e a hesitação. Loc. mas... (estou) meio preocupado (com o gravador). introdutora. a gente quer saber agora. (27).. Conclusão Este trabalho procurou investigar. que fazem com que. e os tipos encontrados... mostrando como o texto é o meio de que dispomos para a observação de sua composição.. dois processos de constituição do texto falado. o informante interrompe sua formulação. 157 . hesita e faz uma digressão: (1) Inf.. o informante hesita..

A pesquisa mostrou claramente ainda o quanto há ainda a pensar e a pesquisar. In: BANGE. Berna. de dénomination e de réctification. (eds. Queiroz/FAPESP. P. Tübigen. A. D.R. 99-112. e HILLYARD. Cambridge University Press. E. (1987) Les actes de réformulation dans la consultation.C. Processos de formulação do texto. (1990) Gesprochene Sprache in der Romania: Französisch. KOCH. P. La Dame de Caluire. Actes du Colloque tenu à L’Université Lyon 2. p.. ANDRADE. T. I.) Gramática do Português Falado. CHAFE. (1982) Grundlagen einer Theorie des Formulierens. e KOTSCHI.) (1986) A linguagem falada culta na cidade de São Paulo: Elocuções formais. Berna. M. Max Niemeyer.) Análise de Textos Orais.) L’analyse des interactions verbales. vol. CASTILHO. (1987) Actes de réformulation et processus de réformulation. (org. M. Acentuou-se que a hesitação não é um mecanismo de formulação textual como a correção. 13 a 15 dez.V. N. FÁVERO. G. p.. GÜLICH. e OSTERREICHER. TORRANCE. São Paulo. In: BANGE. GAULMYN. VI.. M. W. porque ela constitui um indício de dificuldades. Vol. 13 a 15 dez. (org.T.) L’analyse des interactions verbales.129-156. 83-98. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTOS. P.O. La Dame de Caluire: une consultation. BARROS. Puderam ser examinados também seu papel interacional e os tipos encontrados. 13 a 15 dez.) Literacy. FFLCH-USP. D. São Paulo. D. A hesitação foi mostrada como evidenciadora de problemas na prospectiva e como “parte das manifestações da competência comunicativa em contextos interativos” (MARCUSCHI. W. (orgs. In: OLSON. 1985.A. (org.FÁVERO. Spanisch. (org. CHAROLLES. Language and Learning. p. L. (1996) Estratégias de Construção do Texto Falado: a Correção. La Dame de Caluire: une consultation. 1985.P (1993) Procedimentos de reformulação: a correção. A. In: PRETI. (1985) Linguistic difference produced by differences between speaking and writing. La Dame de Caluire: une consultation. D. Cambridge. 158 . In: KATO.G. Italienisch. Berna. A. Niemeyer. P. (1987) Spécialisation des marqueurs et spécificité des operations de réformulation. Z. M. 1993).. Leonor Lopes. Tübigen.L. 1985. e PRETI.L.) L’analyse des interactions verbales. Actes du Colloque tenu à L’Université Lyon 2.L. e AQUINO. (org. In: BANGE. T.M. Actes du Colloque tenu à L’Université Lyon 2.

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e contrariamente à língua comum ou geral. dispõem também de recursos específicos. podemos definir os tecnoletos como “um subsistema lingüístico utilizado em um campo de experiência particular. 161 . Com base em Rousseau (1995: 82). domínio de todos os falantes da língua. forma decalcada no francês langue de spécialité. um tecnoleto é usado e compreendido por um grupo restrito de especialistas. por essa razão. própria do tecnoleto relativo a cada área ou subárea analisada.O discurso oral culto. Como essa designação tem sido muito criticada pelo uso impróprio do termo língua. MARCAS DO DISCURSO DE DIVULGAÇÃO NA LINGUAGEM FALADA CULTA Ieda Maria Alves Introdução Os inquéritos Elocuções Formais (EF) do Projeto NURC caracterizam-se por reproduzirem uma aula ou uma conferência e. De maneira análoga à linguagem simbólica. se os tecnoletos apresentam muitas características próprias do léxico geral. que se caracteriza pelo emprego de uma terminologia específica e por outros meios lingüísticos como o estilo e a fraseologia” 1. veiculam uma terminologia. 1 Esse conceito é freqüentemente denominado língua de especialidade. ela tende. Conseqüentemente. por isso. a ser substituída por tecnoleto.

no entanto. o que lhe permite denominar o mundo cognitivo da técnica ou ciência a que corresponde. um único termo. aulas. revistas não-especializadas. o aspecto cognitivo e lingüístico mais marcante do tecnoleto. a neutralizar a emotividade. a comunicação de cunho técnico-científico conhece variadas possibilidades de intercâmbio: entre pesquisadores do mesmo grupo. de especialidades conexas. e entre especialistas e não-especialistas. Esse caráter normativo. o tecnoleto visa à precisão semântica.ALVES. à economia formal e semântica. Na verdade. Marcas do discurso de divulgação na linguagem. que o empregam para comunicarem-se no âmbito de uma atividade profissional (cf. Tendo em vista o ideal de uma comunicação mais eficaz entre os usuários de uma determinada atividade. Diferentemente da linguagem simbólica e da língua comum. Essa comunicação serve-se também de diferentes veículos.. KOCOUREK. conferências. de línguas diferentes. seminários. a definir suas unidades lexicais. 1991:40-1)2. O conjunto lexical constitui. comunicações em congressos.. Ele tende. Ieda Maria. a controlar a homonímia e a polissemia. visa somente a assegurar que o processo da comunicação. de grupos ou organismos distintos. por isso. Todas essas características de um tecnoleto tornam a terminologia uma disciplina normativa. não seja perturbado por elementos subjetivos e emotivos. um tecnoleto possui um conjunto lexical bastante amplo. entre especialistas ou usuários de uma determinada área. a subjetividade. assim. denominadas termos. Por outro lado. impositiva mesmo. pesquisadores de uma determinada área conhecem diferentes situações de comunicação. 2 De acordo com o Vocabulaire systématique de la terminologie (Boutin-Quesnel et alii: 21). à neutralidade emotiva. 162 . Assim. idealmente. língua comum ou língua geral designa a “parte do sistema linguístico compreendida e utilizada pela maioria dos falantes de uma comunidade lingüística”. a evitar a sinonímia. num tecnoleto a cada conceito deve corresponder. de caráter oral e escrito: livros e artigos. de caráter sempre denotativo. à sistematização conceitual.

No discurso científico especializado. Já no discurso de semidivulgação científica. um conhecimento apenas superficial. Loffler-Laurian considera ainda o discurso acadêmico (teses. classifica os textos técnicos e científicos em diferentes tipos de discurso: discurso científico especializado. pois tratam de diversos assuntos.O discurso oral culto. discurso científico pedagógico. A Autora. discurso de semidivulgação científica. tanto o emissor como o receptor são especialistas da mesma área. em que um professor publica textos dirigidos a estudantes de nível universitário. as diferentes situações de comunicação. os distintos tipos de emissor e de receptor e os variados veículos de difusão de uma mensagem técnico-científica. ao discurso científico pedagógico e ao discurso de semidivulgação científica. As revistas que divulgam esse tipo de discurso não são propriamente especializadas. em geral de cunho acadêmico. discurso acadêmico. não costuma efetuar pesquisas nessa área. com base na modalidade escrita de uma língua. representado por um pesquisador (ou por um grupo de pesquisadores) que redige relatórios dirigidos a instâncias oficiais. consideramos que as aulas e as conferências constantes desses inquéritos correspondem. Seguindo essa tipologia apresentada pela Autora. Esses veículos servem igualmente de suporte para o discurso de divulgação científica. dissertações). discursos científicos oficiais. em que o emissor é representado por um jornalista profissional. 163 . Considerando. e adaptando-a à língua falada e aos inquéritos EF do Projeto NURC. assim. sobre o assunto analisado. que. respectivamente. O veículo utilizado. O elemento didático é levado em conta na caracterização do discurso científico pedagógico. se dirige a um público que tem. em que um estudante de pós-graduação redige um texto destinado a um grupo de especialistas. no entanto. o emissor é também um especialista que. Loffler-Laurian (1983: 9-14) apresenta uma tipologia do discurso das ciências e das técnicas em que esses elementos são analisados. o receptor faz parte do “grande público”. e o discurso científico oficial. Em tal tipo de discurso. embora muitas vezes especializado em uma área. que procura informações rápidas e fáceis sobre um determinado assunto. é constituído por revistas especializadas. nesse caso.

de tipo Elocução Formal. ou. 1989). Authier caracteriza-o como uma atividade de difusão de conhecimentos científicos já produzidos e que circulam no interior de uma comunidade restrita. Neste trabalho. abordamos um aspecto bastante relevante nos textos técnicos e científicos de divulgação. a linguagem banalizada do futebol coloca à disposição de milhões de indivíduos informações que lhes seriam inacessíveis se fossem formuladas na linguagem especializada dos técnicos do futebol. “Assim. que consiste na passagem de um termo para o vocabulário da língua comum ou para os distintos níveis lexicais intermediários que correspondem aos graus de divulgação das ciências e das técnicas (Lino. aspecto esse em que se pode verificar o cruzamento dos caminhos da sintaxe e da semântica: o enunciado definitório. Trata-se. introduzido por Galisson. que corresponde ao inquérito 156 do Projeto NURC/SP. 164 . 3 Conceito polissêmico. No inquérito analisado. o público presente à conferência. como o equivalente francês referente a divulgação é o termo vulgarisation. que reproduz uma conferência sobre Estética. de maneira mais genérica. Preferimos. vinculada ao fenômeno neológico. baseada em uma linguagem técnica. adotar o termo divulgação por estar o mesmo já difundido no português do Brasil. Cabe ainda acrescentar que.. procuramos verificar os enunciados definitórios que permitem efetuar a passagem do conhecimento da conferencista para o do receptor. assim. 1978: 9). como por exemplo no sintagma nominal artigo de divulgação. a forma traduzida vulgarização é por vezes empregada em textos escritos em língua portuguesa. seguindo Authier (1982: 34). ou seja.ALVES. uma linguagem banalizada constitui uma outra linguagem. no entanto. Segundo esse Autor. O conceito de divulgação não se confunde com o de banalização. por meio de procedimentos como a tradução. A difusão desses conhecimentos efetua-se sempre fora da instituição escola-universidade e visa apenas a fornecer informações para um público não-especializado. Apoiando-se em vários autores que trataram do discurso de divulgação técnico-científica. Enfocamos. pois. divulgação conhece uma outra acepção. o resumo ou as diferentes formas de adaptação de um texto-fonte para um outro texto (idem: 35)3. de um texto de divulgação..” (Galisson. analisamos uma conferência. Marcas do discurso de divulgação na linguagem. a definição no âmbito do fenômeno da divulgação. com a finalidade de assegurar uma difusão maior às informações concernentes ao domínio de experiência coberto pela linguagem técnica em questão. Ieda Maria. de um texto de semidivulgação científica. segundo Loffler-Laurian.

igualmente. Ao ministrar sua conferência. os enunciados definitórios dos termos relativos à Estética constituem. Nessa constante passagem de uma a outra atividade. Aborda.. a descrição dos constituintes do objeto. op.” (CASTILHO e PRETI. reformulações do ponto de vista 165 . Definição e divulgação técnico-científica A informante do inquérito analisado. a informante desenvolve atividades metaformulativas. assim. numa abordagem onomasiológica. trata. A reformulação.: 14-9).. a conferencista. ora sofre o processo da reformulação. dá forma e organização lingüística a suas idéias. construindo formulações e reformulações. A informante vai. denominadas atividades de reformulação (Hilgert. professora universitária. a informante vai construindo seu texto. a indicação das características do objeto. o conceito de Estética e também a atuação de três professores franceses da Universidade de São Paulo que. numa perspectiva semasiológica. na década de 30”. pois. assim. cit. que. LOFFLER-LAURIAN. com o objetivo de divulgar suas idéias sobre Estética. atividades de formulação. comunicando-as ao público presente à conferência. o emprego de um enunciado equivalente. efetuada pelo próprio emissor da mensagem. de “Estética no Brasil. que se caracterizam pelos seguintes aspectos: a denominação de um objeto ao qual o termo se refere. observamos que o termo ora é inicialmente formulado. sobretudo. durante o período analisado. uma “mulher de 56 anos. No inquérito analisado. Desse duplo movimento. a exposição das funções do objeto. podemos depreender cinco categorias de enunciados definitórios (cf. ou deste para aquele. Desse modo. refletem um duplo movimento: do termo para o conceito.O discurso oral culto. para explicitar seu texto. ou seja. do termo para o conceito. constitui uma auto-reformulação. nesse caso. em sua conferência. tiveram influência sobre o desenvolvimento das artes no Brasil: LéviStrauss. desenvolve. casada. 1993: 10-3). ou do conceito em direção ao termo. À medida que formula novamente enunciados já formulados. Jean Moguet e Roger Bastide. ela enuncia definições. 1986: 72).

porque penetrou na sua vida. em que a sinonímia tende a ser reduzida e a precisão conceitual entre o termo e a sua respectiva definição costuma ser observada. o verbo típico da definição por equivalência. Traço característico do discurso de divulgação. barroco baiano / barroco sobrecarregado. “do barroco baiano por exemplo que é um ba/barroco sobrecarregado..não apenas a visão do esteta. um pouco indiano ...coberto de ouro” (l. 174-84). constata-se no discurso de divulgação o estabelecimento de uma sinonímia referencial por meio da equivalência entre termo e enunciado reformulador. Nesses exemplos... a categoria da equivalência é a mais freqüentemente utilizada pela conferencista..da sociedade” (l. ahn: :extremamente :::rico . correspondentes a referentes mais variados do que o do termo definido (cf. defini-lo.. portanto.do homem comum.. Ieda Maria. aventura estética. 166 . que mostra uma relação equivalente entre o termo e o seu respectivo enunciado reformulador: pintura / reflexo da sociedade. menos precisos.... Dentre as cinco categorias de enunciados definitórios acima mencionadas. Assim. 311-2). a equivalência entre termo e conceito é estabelecida por meio do verbo ser. Alguns exemplos: “pintura é o reflexo.. coberto de ouro.de todo dia” (l..mas a visão do homem da rua.. diferentemente do discurso científico especializado. Marcas do discurso de divulgação na linguagem. cubismo / movimento paradoxal.foi uma aventura estética que acabou modificando totalmente a visão do homem..ALVES.. 1982: 53)... Mortureux.... “o cubismo foi um movimento paradoxal /.544-7). esse enunciado emprega unidades lexicais dotadas de significados mais vagos e. em seguida../ isto é.. semasiológico: a informante primeiramente introduz o termo.. para.

em que são definidos os termos artista e impressionismo: “o artista é aquele que. no contexto abaixo. 408-412).no horizonte....... representar. considerar como.de uma grande incapacidade de pensar as idéias gerais da natureza...na medida em que o pintor mergulhava no particular no imprevisto no fugidio /.que.... a informante apresenta uma definição do termo Estética em que o enunciado 167 . primeiramente... expor o que ele representa..sabe ver.. para.. Observa-se esse fato nos exemplos seguintes..O discurso oral culto..mas de uma relação em crise. ou seja./ então para ele o impressionismo foi antes de tudo um movimento DEsespera::do... 223-6). “o impressionismo exprimia para ele um movimento de espírito oposto....... o enunciado reformulador explica o que representam os quadros do pintor Van Gogh: “os quadros de Van Gogh. como consistir.não de uma relação harmoniosa com o ar/com a natureza. Outros verbos. 345-67).. uma definição por equivalência de caráter negativo.. Desse modo.representam construções focalizadas sobre um ponto de fuga. discorrendo sobre o título de sua conferência. Outras categorias de enunciados definitórios também transparecem no inquérito analisado. o enunciado reformulador pode apresentar. em seguida.tenTAva fixar. entre outros.no sentido de...não a imagem prática e vulgar.são profundidades batidas pela chuva ou varridas por uma luz sem alegria” (l. Em alguns contextos..o que não tinha possibilidade de ser fixado. Assim..reter” (l...que é impossível da gente.a natureza exterior ao homem.. exercem igualmente a função de estabelecer uma equivalência..tentava reter aquilo que estava desaparecendo que era a natureza natural.. constituir.que tem a sua representação no mundo. exprimir...tentava reter o instante.. a conferencista apresenta o que o objeto não é..mas o equilíbrio interno dos volumes e das formas” (l..

.e:: e pode eventualmente entrar pelo campo da literatura” (l... Pintura. Artes Plásticas.e de estilos... entre outros... a categoria da definição por denominação. Marcas do discurso de divulgação na linguagem. 12-4)..a paisagem por exemplo. Outra categoria de definição é utilizada no contexto abaixo...de unidade.uma dezena de temas.. em que os verbos chamar. denominar..... reformulador caracteriza-se por agrupar as diversas partes – Arquitetura. sobretudo o barroco de Minas de rococó” (l. a função e a finalidade do objeto..diz ele. uma definição por análise: “a estética abran::ge:: enfim a::arquitetura:: as artes plásticas em geral a arquitetura e pintura. constatamos que a pintura holandesa do século XVII representa uma pintura patriótica. Ieda Maria...como uma pintura pensa::da e remodelada pelo homem.. 338-43). Literatura – que são abrangidas por esse termo..da natureza holandesa /. nesse caso.. assim.ALVES.. 168 ..põe em relevo as idéias gerais. portanto... Temos.uma pintura que mostrava uma pai/paisagem que tendo SIdo repensada pelo homem..trabalhada pelo homem” (l... 540-2).a pintura holandesa.dá-nos no século dezessete.que tinha sido.. Observa-se que a informante denomina o barroco brasileiro de rococó.de um povo às condições naturais em vista de construir um habitat” (l.ele chamava. empregando. Desse modo.patriótica. “uma pintura objetiva. Em outro trecho do inquérito 156../ o esforço extraordinário de adaptação. a conferencista apresenta uma definição de pintura holandesa do século XVII em que é realçada a função exercida pela pintura nesse período. de uma definição por função.... estabelecem uma ligação entre o enunciado formulado e o reformulado: “preferia não chamar o barroco brasileiro de barroco. em que são expostos o uso. Utiliza-se.uma lição..... designar.. uma pintura que retrata a luta do povo holandês para a construção da pátria: “a pintura holandesa do século dezessete.. 324-37)....

.... denominá-lo rococó..de que o povo é criador original” (l. 169 .de todo dia.dos objetos feitos em série” (l. ou suas opiniões..de que o povo é criador. ao barroco brasileiro para...mas a visão do homem da rua. que explicita a mensagem. que corresponde a uma denominação../ isto é. representa uma reformulação do ponto de vista onomasiológico. A junção entre formulações e reformulações é. Esse recurso é particularmente produtivo no discurso de divulgação..... diz-nos com razão Rey-Debove (1978: 260-1) que a língua falada recorre com freqüência ao uso do comentário metalingüístico.não apenas a visão do esteta..do homem comum. permite-nos reiterar a existência de uma relação. na verdade. quer dizer – que. Dessa forma o enunciado reformulador. 70610). para o leigo ou o aprendiz: “o cubismo foi um movimento paradoxal /.. Considerações finais Este breve estudo a respeito dos enunciados definitórios empregados em um texto de divulgação.. a conferência referente ao inquérito EF 156 do NURC/SP.. em que os enunciados reformuladores são apresentados do ponto de vista semasiológico.foi uma aventura estética. A esse respeito. representam traços do trabalho metalingüístico de reformulação.. A conferencista refere-se.isto é. “e. ou seja..penetrou na sua vida.. algumas vezes... pois contribui para efetuar a passagem do conhecimento do especialista... 174-87).. Esse último exemplo apresenta uma característica que o distingue dos exemplos anteriores..da arte aplicada e da arte.não através dos quadros mas..porque. inicialmente......através de todos os estudos que ele estava fazendo sobre o folCLOR/ adotava uma posição muito ROMÂNtica em face da arte popular. efetuada por meio de marcadores – isto é.éh e de uma e da arte tipográfica e dos cartazes.que acabou modificando totalmente a visão do homem. em seguida..O discurso oral culto..

. mas também de definições por análise. que se caracteriza pela interação que o emissor estabelece com o receptor. ao construir seu texto. sobretudo..representam construções focalizadas sobre um ponto de fuga” (l.: 20 e 1994: 111. 408-10).. não está representada no inquérito. op. os cientistas parecem necessitar de um contato cada vez maior com o mundo exte170 . cit.que os quadros de Van Gogh. A definição por caracterização. “se nós formos ler esses dois artigos com atenção. portanto. LOFFLER-LAURIAN.cit. os professores franceses representados pelo pronome ele: “o que ele /Lévi-Srauss/ procura na pintura” (l. em que a definição por caracterização não é registrada e. 304-6).inigualável” (l. O inquérito estudado revela ainda um outro traço do discurso de divulgação. Assim..é uma influência. Marcas do discurso de divulgação na linguagem. Na verdade. Ieda Maria. em vários momentos a conferencista une-se ao público por meio do nós: “a estética.que nós desentranhamos deste pequeno artigo de LéviStrauss” (l.: 53-4)... MORTUREUX.. “ele /Jean Moguet/ lembra. já delineada por Loffler-Laurian (op.... que emprega adjetivações nominais (adjetivos e orações adjetivas) e ainda advérbios e modalizadores. “as manifestações artísticas que nós encontramos no povo e que tomamos como de origem popular” (l. a conferencista utiliza-se de definições por equivalência. 502-4). dos pesquisadores. A conferencista distancia-se. cit. 246-7)..ALVES. 312-3). com bastante freqüência. Estas constatações coincidem com a análise de outros discursos de divulgação. como bem observa Bruneaux (1984: 14).: 19-20).. 722-4).nós descobriremos que o que Jean (Noguet) procura na pintura” (l.. op. observa-se a definição por equivalência (cf. por função e por denominação. entre discurso científico e tipos de definição. No inquérito analisado. “a IN-fluência que ele /Roger Bastide/ exerceu no Brasil..

Wiesbaden. p. 93-112. p. José Gaston (1983) Procedimentos de reformulação: a paráfrase. (1983) Typologie des discours scientifiques: deux approches. Maria Teresa Rijo (1989) Língua portuguesa. Paris. FFLCH-USP. ________. In: PRETI. já que esse desenvolvimento supõe uma anterioridade. musées). 334-47. BOUTIN-QUESNEL. Etudes de Linguistique Appliquée. conferências. Ataliba T. Rostilav (1991) La langue française de la technique et de la science. Langue Française. T. Français technique et scientifique à re-formuler. a denominação de um novo conceito. artigos em revistas não-especializadas. 3-16. rior e. De maneira análoga. o termo neológico. 1984: 111). (org. Oscar Brandstetter Verlag. Concluindo este estudo. de e PRETI. 9 p. sempre. língua das ciências e das técnicas. LOFFLER-LAURIAN. por isso. São Paulo. A. D. 103-27. 51. apóia-se igualmente em elementos lingüísticos preexistentes: assim.) Análise de textos orais.) (1986) A linguagem falada culta na cidade de São Paulo. 64. p. GALISSON. São Paulo.) por meio do processo da divulgação. CASTILHO. reformulam seus conhecimentos de diferentes formas (aulas. Jacqueline (1982) La mise en scène de la communication dans des discours de vulgarisation scientifique. Queiroz. In: CANDEL. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AUTHIER.. p. Langue Française. HILGERT. Didier Erudition. 8-20. 53. a formulação é sempre. Michel et alii (1984) Avant-propos. A herança preexiste. Dino (org.) Français scientifique et technique et dictionnaire de langue. Office da la Langue Française. Fernand Nathan. LINO. Paris.O discurso oral culto. podemos afirmar que formulação e reformulação estão sempre presentes no desenvolvimento das ciências e das técnicas.. Danielle (org. uma reformulação (cf. de uma certa forma. Comunicação apresentada no Colóquio Internacional “Língua Portuguesa – Que Futuro?” Lisboa. 171 . p. e no respectivo discurso dos cientistas. KOCOUREK. 2è éd. a qualquer progresso. LOFFLER-LAURIAN. Anne Marie (1994) Les définitions dans la vulgarisation scientifique (presse... Robert (1978) Recherches de lexicologie descriptive: la banalisation lexicale. Rachel et alii (1985) Vocabulaire systématique de la terminologie. Québec. BRUNEAUX.

Langue Française. Langue Française. Louis-Jean (1995) Principes méthodologiques du travail terminologique au sein du Réseau de terminologie Realiter. Marcas do discurso de divulgação na linguagem. 14. Ieda Maria. 172 . 64. MORTUREUX.. p. ROUSSEAU. ________. 82-4. 48-61. REY-DEBOVE. Terminologies Nouvelles. p. Marie-Françoise (1982) Paraphrase et métalangage dans le dialogue de vulgarisation. Paris. 53.. Le Robert. 109-24. (1984) Vulgarisation scientifique: formulation. traduction. Josette (1978) Le métalangage.ALVES. reformulation.

aulas. palestras). publicados em Castilho e Preti (1987)1. esse exemplo foi extraído de Rosa (1992). 173 . 255 (Projeto NURC/SP). 343 e 360. Trata-se dos diálogos entre dois informantes – D2 no 062. Dessa forma. Esse trabalho discute os mecanismos de preservação da face em fragmentos opinativos ou judicativos extraídos de inquéritos representativos da fala culta de São Paulo. Por esse motivo. 333. já que expõe publicamente sua auto-imagem (face). o falante acha-se em posição vulnerável. ele corre o risco de exibir o que deseja ver resguardado e deixar de colocar em evidência o que tem a intenção de mostrar. 1 Um dos exemplos citados foi extraído do Inq.O discurso oral culto. PRESERVAÇÃO DA FACE E MANIFESTAÇÃO DE OPINIÕES: UM CASO DE JOGO DUPLO Paulo de Tarso Galembeck Introdução Nos diálogos e nas demais formas de interação face-a-face (entrevistas. o falante adota procedimentos que lhe permitem controlar a construção dessa auto-imagem.

que estabeleceram a distinção entre face positiva (aquilo que o interlocutor exibe para obter aprovação ou reconhecimento) e face negativa (“território” que o interlocutor deseja preservar ou ver preservado). implicitamente. representa uma ameaça virtual à auto-imagem pública construída pelos participantes do ato conversacional. Como não há previsibilidade quanto às ações a serem desenvolvidas pelo(s) outro(s) interlocutor(es).. atendimento de pedidos ou recusa em fazê-lo.. por isso o locutor procura mitigar os efeitos dessa invasão pelo emprego de um procedimento de atenuação. o fato de alguém entrar em contato com outros constitui uma ruptura de um equilíbrio social préexistente e. o falante adota mecanismos que assegurem o resguardo do que não deseja ver exibido e coloquem em evidência aquilo que desejam ver exibido. assim. Cabe acrescentar que a preservação da face deve ser necessariamente considerada em relação ao quadro geral da interação. e não como uma atitude isolada do falante. Segundo o citado A.GALEMBECK. perguntas diretas e indiretas.. Essa pergunta representa. nas quais o falante se expõe de forma direta: pedidos. É o que se verifica no exemplo a seguir: o falante formula uma pergunta que diz respeito à vida profissional do seu interlocutor. manifestação de opiniões. As idéias de Goffman foram complementadas e aprofundadas por Brown e Levinson (1978). uma “invasão do território” do interlocutor. a partir do quadro geral de interação face-a-face. As circunstâncias particulares em que se desenvolvem os diálogos fazem com que neles a preservação da face seja uma necessidade constante. designa por processos de representação (face-work) os procedimentos destinados a neutralizar as ameaças (reais ou potenciais) à face dos interlocutores ou a restaurar a face dos mesmos. o mesmo A. 1. Goffman denomina face a expressão social do eu individual. O conceito de face O conceito de face foi inicialmente estabelecido por Goffman (1970). A necessidade de preservação da face torna-se particularmente relevante em determinadas situações. no qual são realizados os textos falados. Preservação da face e manifestação de. Paulo de Tarso. respostas. o emprego do futuro do pretérito: 174 .

01) L2 eu:: eu lhe perguntaria aí dentro desse problema [o horário de trabalho de L1]. 062. É importante. você não. e o fato de ele constituir necessariamente um trabalho cooperativo. A seqüência do trabalho apresenta os procedimentos lingüísticos que ilustram essa duplicidade de atitudes. em certos momentos.. Procedimentos para marcar o distanciamento do locutor Nos textos conversacionais. parece que. verifica-se uma dupla atitude por parte dos locutores: por vezes eles se distanciam dos conceitos emitidos (como forma de evidenciar que esses conceitos não são integralmente assumidos). digamos assim. 251-258) No caso da manifestação de opiniões. mas.. 2.. o que é obtido com o uso de certos recursos gramaticais utilizados para a expressão da impessoalidade (é possível que. por isso. Essa duplicidade de atitudes corresponde a uma das atitudes mais evidentes do texto conversacional: dada a dinâmica desse tipo de texto. (Ex. um controle.. ou.. pois os interlocutores sabem que a manifestação direta de opiniões pode torná-los vulneráveis a críticas e opiniões contrárias. mas. em cima de você você deve produzir tanto num dia.. os locutores mostram que assumem – ainda que parcialmente – os juízos expostos. l. possui uma. é provável) e da indeterminação 175 . promover o apagamento das marcas da enunciação (ROSA. que (que você) você poderia fazer isso? (NURC/SP. existe isso ou digamos um dia de chuva está um dia horrível para trabalhar um dia que você está indisposto você poderia pegar voltar para sua casa entrar num cinema distrair um pouco entende?.. o falante envolve-se diretamente na sua construção. 1992: 40).... o emprego dos procedimentos em questão se torna particularmente relevante.. em outras situações...O discurso oral culto. sente a necessidade de mostrar um prudente afastamento....

l. e eu não eu sou leiga eu não entendo.. 062. 2. Preservação da face e manifestação de.. 03) (L1 trata da atuação profissional do marido.. em poder transmitir. também.... do sujeito (dizem.. L2 ahn ahn L1 certo? [ L2 ( ) L1 e::: e deu-se muito bem no magistério .. ele se realiza sabe? fica feliz da vida. a coisa mais difícil é você manter realmente o indivíduo... é especialista em Direito Administrativo...) L1 e:: ele leciona nas FMU L2 ahn ahn L1 ele::. procurador do Estado e professor de Direito.GALEMBECK. mas. não é? ele se dedica 176 .. éh Oito horas em contato direto com os clientes... 231-234) (Ex....... diz-se)..1 Recursos para indicar a impessoalidade ou a indeterminação do sujeito Vejam-se exemplos dos processos de indeterminação do sujeito: (Ex.. Paulo de Tarso.. recebe ou.. se não me engano).. pelo que a gente. tem pareceres muito bem dados. e.. falam. 02) (L1 e L2 estão a discorrer acerca das respectivas rotinas diárias de trabalho... (NURC/SP.. uma coisa realmente difícil. ouve falar são muito bem estudados. e os processos também...) L1 dizem né? — você vê — dentro da profissão do vendedor. o que ele sabe.. que ele... com o emprego dos marcadores de rejeição (não sei...

sobre o problema do Doc. O emprego dos procedimentos de indeterminação do sujeito constitui. já que o enunciador representa o senso comum. l. 04) L1 bom nós estávamos só só retomando::. verifica-se. é provável. uma distinção entre as figuras do locutor (o sujeito falante. individual. já que neles está implícita a idéia de apreciação e julgamento. tanto à. um recurso que assinala um afastamento acentuado do falante em relação às idéias emitidas.. Já o uso dos procedimentos de impessoalidade (parece que. 360... Os assuntos dos exemplos anteriores são polêmicos (o horário de trabalho do vendedor e a defesa da classe dos procuradores). Em exemplos semelhantes aos anteriores. para o âmbito do senso comum. é bom) marca o afastamento em grau menor. 1175-1189). (NURC/SP. MUItíssimo a.O discurso oral culto.(o ensino) L2 ah sobre o problema da:: dos métodos de ensino atualmente entende? L1 uhn uhn L2 parece que ( ) está havendo agora uma maior participação do aluno entende? está havendo aquele. que organiza o ponto de vista e as atitudes) (Ducrot (1978: 192 e ss). uma pluralidade de vozes indistintas. quer dizer. você estava falando sobre... que as opiniões omitidas não são suas e que não há propriamente um responsável por elas. (Ex. que produz os enunciados) e do enunciador (aquele que manifesta a opinião. de fato o trabalho em grupo 177 . por isso mesmo. de modo explícito. é possível... carreira de procurador como de professor (tá?).. no nível do enunciado. pelo que a gente ouve falar.. pelos quais se efetua o deslocamento do campo meramente pessoal. Os locutores sinalizam. São recursos de indeterminação do sujeito. por isso os locutores empregam certas expressões que denotam resguardo ou afastamento em relação aos conceitos emitidos: dizem....

1627-1630) As expressões sublinhadas (parece que.. Em outros termos. que faz o curso de História... 420-434) (Ex.. se não estou enganado e outras semelhantes). ela me diz... as quais geralmente funcionam como prefaciadores de unidades discursivas: 178 .) seria interessante se alguém fizesse experiências diferentes com os lemingues para ver se.... é o que eu noto principalmente:: quando eu vejo aí. Essa divisão.. eu dou uma passada aí na faculdade aí eu converso com a.2 Marcadores de rejeição Os marcadores de rejeição apresentam uma antecipação do locutor. os professores jogam os temas então.... não é tão acentuada como no caso do sujeito indeterminado. 062.. ainda que parcialmente. l.. (NURC/SP.. Paulo de Tarso.. Os marcadores de rejeição encontrados no corpus correspondente às frases fixas (que eu saiba. praticam o suicídio coletivo. o falante sinaliza que assume. como reagiria..... as idéias expostas... 343.GALEMBECK. eles têm cinco horas de aula sobre determinado tema então é preparar o tema é discutir o tema levantar os problemas (.. porque::. já que – como se viu – nelas está latente a idéia de julgamento ou apreciação. com a finalidade de limitar ou neutralizar possíveis reações desfavoráveis ou interpretações contrárias ou prejudiciais por parte do interlocutor. sei lá alguma:: mudan::ça de de de esquema . l... jogando-se no mar). Preservação da face e manifestação de. L1 (. não tem mar o que faria:: . 2. porém. 05) (L1 e L2 discutem a reação dos lemingues que. quando a população aumenta. nossa colega aí que.. não sei se. seria interessante) indicam a divisão entre os planos do locutor e do enunciador.) (NURC/SP...

. pelo contrário acho que aquele dia fui até meio agredido lá (sabe) (...... na selva ... não 179 . 062.. 82-84) (Ex: 07) L1 sinceramente:: . 343. mas não consegui . a analogia entre a selva e a sociedade industrial). à medida que resguardam o falante de possíveis objeções ou críticas por parte dos demais interlocutores.......... Os marcadores de rejeição exercem um papel relevante no desenvolvimento da interação. tão forte essa lei não não consegue... auditiva ..... a controvertida peça “Rico amor selvagem”.. moldar a cidade (NURC/SP.. 1369-1372) (Ex: 08) L2 (.. não é tão.. não consegui.. assim começo de de:: revolução industrial né? aquelas máquinas barulhentas e tal e mesmo atualmente .. pára tudo qualquer barulho de passarinho e tal é que está havendo algum perigo por perto .. fui sentei com a maior boa vontade para poder entender participar [da peça “Rico amor selvagem”] ... l.. acho que tem a mesma equivalência (NURC/SP.. para prevenir-se de reações desfavoráveis do seu interlocutor. l. eu não sei se a analogia está certa mas outro dia eu pensei né? (que você) o silêncio na . 789-800) Os três exemplos anteriores tratam de temas que podem suscitar polêmicas (a lei do zoneamento urbano de São Paulo.O discurso oral culto. 343.. (Ex: 06) L2 esse negócio de lei de zoneamento não está funcionando? L1 não que eu saiba não::.) as máquinas que:: não têm barulho . Essa atitude defensiva é assinalada pelo emprego dos marcadores assinalados. acho que tem uma função de tranqüilizar . não consegui entender.. não é tão... se você pensar assim numa hora em que você não ouça mais barulho na cidade .... Nesse caso.. o:: barulho de trânsito a polui/ a poluição . l. elas são mais mágicas de uma certa forma do que .) (NURC/SP.. por isso os falantes adotam uma atitude defensiva. é sinal de perigo né? a hora que .

Preservação da face e manifestação de. 372-376) Nos dois exemplos citados.. que enquanto existe um projeto nosso. l. a atitude de afastamento do locutor (indicada pelas expressões disseram e parece que) é reforçada pelos marcadores de rejeição não sei se é mesmo e não sei eu ouvi. entende né? (. o locutor reitera que não assume o que vai ser dito.) (NURC/SP. 062. Paulo de Tarso..) L1 eu não sei eu ouvi parece que o:: eh:: curso Objetivo né? está lançando um um. 360. seriam.. mas há a indicação explícita de que os falantes não assumem os conceitos emitidos.. se verifica a polifonia (com a cisão entre os planos do locutor ou do enunciador)...10) (L1 e L2 discutem a existência de cursos paralelos aos de Economia e Administração.. 513-518) (Ex. e::: provavelmente ele deve ter falado com você L1 enquanto houver concursados:: L2 não L1 vão sendo chamados (NURC/SP. 2... 180 . curso de:: L2 existe uma Faculdade Interamericana aí que lançou. ao utilizá-las. l.... dois ou três anos... Essas expressões manifestam dúvida ou incerteza e..3 Emprego associado dos procedimentos de impessoalidade ou indeterminação e dos marcadores de rejeição (Ex.. 09) (L1 e L2 discutem o ingresso na carreira de procurador do Estado) L2 porque diSSEram não sei se é mesmo ...GALEMBECK.cursos vagos.

.. a alusão a terceiros (polifonia). 63-71) 3.O discurso oral culto. Esse mesmo efeito é obtido com o emprego conjunto do futuro do pretérito e de marcadores de indeterminação (dizem que): (Ex:11) (L1 trata do clima da cidade de São Paulo) L1 (. 181 . o emprego desses elementos é mais freqüente que os marcadores de afastamento. ou seja. realmente foram acabando com essas reservas aí. l. vegetais [ L2 mas é o progresso né? L1 é seria o progresso que está chegando? dizem que é o progresso.) havia assim uma área de vegetação muito grande aqui nas redondezas de São Paulo. Em textos conversacionais.. neste item. São Paulo da garoa São Paulo é terra boa. fato que se explica pela necessidade de cada interlocutor marcar a própria presença (auto-envolvimento) nas situações de interação face-a-face... os “hedges” e as paráfrases... L2 São Paulo da garoa [ L1 mas éh você vê o fato né?. dizem né? sei lá (NURC/SP.. os procedimentos que assinalam que o locutor incorpora os conceitos emitidos. que ele assume (ainda que parcialmente) as próprias opiniões: os marcadores de opinião..... então isso:: realmente:: cooperava assim para aquele:: famoso sereno né? .. 062.. Procedimentos que marcam o envolvimento do locutor São discutidos.

L1 (Né? então) eu Acho que ela não está conseguindo nem atuar sobre o que vai existir.1 Marcadores de opinião Os marcadores de opinião são representados por duas classes de elementos gramaticais: os verbos de opinião.. porque [ L2 182 eu vejo .... Paulo de Tarso. e mesmo assim seria uma restrição de. ela está sendo desrespeitada... éh:: retroativa sei lá atuar sobre o que já existe L2 uhn uhn... 3.. em termos ela existe [ L2 EH::: L1 ela está lá mas:: não funciona. que dobram essa lei . devido à especulação imobiliária. certo? dum. eu não vejo funcionar.. muda a lei de zoneamento.12) (L1 e L2 tratam da lei do zoneamento urbano de São Paulo e falam que.. suponho.. muito bairro::.. dum. Preservação da face e manifestação de... no que me diz respeito e similares).... residencial com muita indústria dentro. creio.. noto e similares) e certas expressões adverbiais (na minha opinião....... principalmente bairro pobre né? . dum governo para o outro... para consertar isso::: não dá. É o que se verifica nos exemplos a seguir: (Ex.. a lei teria que ser. errado mas já está um montão de coisa errada certo?.. vejo. O emprego de verbos que prefaciam ou introduzem a opinião do falante representa uma indicação de que ele assume integralmente a própria opinião..... em termos ela vai existir.. Cada uma dessas classes será considerada separadamente.. desenvolvimento.) L1 (tem isso) porque envolve interesses econômicos muito FORtes muito grandes..... geralmente utilizados na primeira pessoa do singular (acho.GALEMBECK..

.. mas eu acho que ele falava tanto tanto tanto e eu o admirava muito. mas eu noto que agora..) porque de jeito nenhum ele falou “você vai fazer isso”....) (NURC/SP. correta [ L1 exata L2 é. acho. da da linguagem simples e da linguagem::.14) (As duas informantes tratam da escolha profissional) L2 a minha [vocação] eu acho.... nós ficamos um pouco chocados com o esse e o erre exagerados dos cariocas (. os informantes tratam de temas polêmicos (a lei do zoneamento.... Há casos.. eu tenho a impressão que foi. atinge um certo tamanho (. e empregam verbos de valor epistêmico (vejo..... a pronúncia tida por correta)... era militar:: mas a vocação dele era ter sido. 87-106) (Ex.. l. meu pai foi o um::..... ainda.. porém. a respeito dos quais manifestam certeza e convicção. l. por causa disto embora a mi183 .) L2 e. L1 acho que a economia é mais forte do que a lei. advogado. acho que esse negócio se repete ou acaba se repetindo em qualquer cidade que.. sobretudo na nossa família que nós temos muita preocupação.. eu não tenho certeza para julgar mas eu acho que foi incutida...13) (L1 e L2 tratam das falhas de pronúncia de certos locutores e artistas do rádio e da televisão. 343. que esses mesmos verbos vêm acompanhados de certas expressões que denotam incerteza ou imprecisão: (Ex...) que são mesmo um preciosismo inútil né? (NURC/SP.. exata.O discurso oral culto... L2 é meio incontrolável né? e acho que::..... 51-56) Nos exemplos anteriores. 333. ele vivia dizendo isso (.... noto) para mostrar que assumem os conceitos emitidos..

.. sabe.. l.... 933-942) No ex...16) (O assunto do fragmento é o intercâmbio de programas de rádio e televisão com outros países latino-americanos.. aí eu acho que o.. eh isso eu acho muito bom (NURC/SP. mediante o emprego da expressão eu não tenho certeza para julgar. 333.. se você pensar.15) (Os informantes discutem as conseqüências da especialização profissional. l... só atinge uma área muito limitada e não dá. boa para a mulher né? L2 ahn ahn Doc. não mudou muita coisa....você falou em:: carreira.) L1 então ((pigarreou)) Gabriela eu acho ( ) também.. por exemplo. Paulo de Tarso. acho que:: eu..) (NURC/SP... 14... coma diferenciação humana (. ou seja... 15... fora essa. Preservação da face e manifestação de.. nos casos que essa expressão não está colocada na testa do enunciado: (Ex.. nha meta fosse Itamarati (... o efeito de dúvida ou incerteza é obtido com o emprego da expressão eu não sei e dos sinais que indicam hesitação ou planejamento verbal: sabe. o informante manifesta falta de certeza ou convicção..... 184 . alongamentos (que::)..) L2 o teu conhecimento especializado não dá para .. 360.. parece que já está sendo negociada. ah eu não sei.. O mesmo efeito de dúvida ou falta de convicção é obtido com a posposição da expressão de valor epistêmico. 343..: que tipo da carreira. pausas (indicadas pelas reticências). 513-516) (Ex: 17) Doc.. como foi O Bem Amado. assim numa época em que..) (NURC/SP... o trabalho era bem artesanal. então você tinha o sapateiro.GALEMBECK. seriam digamos conveniente.. 1513-1520) (Ex. acho que a especialização veio com.. o:: ((tosse)) (cocheiro) não sei quê não sei quê né? .. já no ex.. l..

.. as expressões eu acho e acho que não se situam na margem esquerda da unidade discursiva2 – posição mais freqüente –.... ciências exatas (... (. 646-653) Nos exemplos 16 e 17. sendo facultativa a figuração destas”. mas que não assume inteira responsabilidade a respeito dessa opinião.. ao correio.. mas no núcleo das unidades. citado por Rosa (1992: 47) (Ex: 18) Doc. A posposição dos verbos epistêmicos é também um sinal de dúvida ou falta de convicção.. como uma problemática... já que os termos Gabriela e o tipo de carreira estão deslocados para o início do enunciado. na minha opinião.. com ela o locutor deixa claro que se trata de uma opinião marcadamente pessoal. Além dos verbos de valor epistêmico. ahn nacional. para mim.. naquilo que me diz respeito).... L1 bom. l. eu não tenho GRANdes queixas a fazer. não sei até que ponto posso responder em termos pessoais ou posso analisar assim. e formalmente por se compor de um núcleo e de duas margens.. 360.. eu por mim...) então nós gostaríamos que o professor C falasse sobre o problema do correio.) (NURC/SP.O discurso oral culto. naquilo que me diz respeito. atendo-se como arranjo temático secundário ao processo informativo de um subtema. é eu::.. Veja-se o exemplo a seguir.. 255. que se trata de uma opinião marcadamente pessoal (pessoalmente.. l... 767-773) 2 CASTILHO (1989) define unidade discursiva como “um segmento do texto caracterizado semanticamente por preservar a propriedade de coerência temática da unidade maior. ou melhor.. (NURC/SP. a opinião pode ser indicada por certas locuções adverbiais que assinalam. genericamente. de ciências mais human/ ah de o lado humano o ou de::.. L2 olha ah o ti/ o ti/ ah especificamente o tipo de carreira ah eu acho que isso seria qual/ qualquer uma ( ) quer dizer:: o o :: lado. 185 . ahn.

20) (As informantes tratam da escolha da Dra Ana Cândida da Cunha Ferraz para o cargo de procurador-chefe do Estado. Entre seus marcadores. l... 343.. um certo ciúmes ter:: ter sido escolhido uma mulher 186 . 565-570) 3.GALEMBECK. no ouvinte. O mesmo se verifica no exemplo a seguir: (Ex.. quer dizer.2. um efeito de dúvida ou imprecisão: (Ex. você tem que pegar na média esquecendo esse aspecto particular L2 é mas aí:: é o tal negócio eu não me preocupo muito com a média. 1992: 48 e ss). Preservação da face e manifestação de. modificando a força assertiva dos enunciados.. pra mim interessa:: o:: indivíduo né?. digamos.2 Marcadores “hedges” O conceito de “hedge” tem sido formulado de forma diferenciada pelos diversos autores consultados. interessam. segundo os quais “hedges” são os marcadores que..1 “Hedges” de planejamento verbal O emprego desses marcadores provoca.) L1 então você tem que abstrair desse aspecto [os problemas individuais de cada pessoa] porque você pode ter ambos os ca::sos.. lá eu senti.. Neste trabalho. salvação individual (NURC/SP. 3. Paulo de Tarso. modificam o valor ilocutório de um enunciado... adota-se a definição proposta por Brown e Levinson (1978)..) L2 é eu soube (. vamos dizer) e os que exprimem incerteza (Rosa..) que [essa indicação] também provocou uns certos ciúmes ahn ahn ahn isso eu soube não eu vi.19) (L1 e L2 conversam a respeito da felicidade do homem e de sua adaptação à sociedade. de qualquer forma. como marcas de opinião. como os “hedges” que sinalizam atividades de planejamento verbal (assim... sobretudo os que atuam como atenuadores.

ela não entrou na carreira por concurso (.. dentro digamos desse na manu/ na::. não diria em termos de um computador grande mas ele pode ter um minicomputador. 343. assim. um elemento técnico ou pe/ precisaria ser um engenheiro? (NURC/SP.) (NURC/SP.. no funcionamento desse minicomputador... 196-199) 187 .... mas tudo vai em virtude da da necessidade que ele vai sentir.....) eu faço analogia como indivíduo. ainda mais porque ela não é.) MESMO o pequeno empresário já Pode. 062..) L1 (.. L1 é:: isso é demais (lá) [ L2 isso realmente provocou éh ciúmes entre os homens éh:: quer dizer eles acharam assim no começo::. fazem com que o locutor não se veja tão comprometido com os juízos emitidos: (Ex.22) (A informante estabelece uma analogia entre a cidade e os seres humanos... quem sabe.2. 3...O discurso oral culto. e::. L2 e:: haveria necessidade. não sei e assemelhadas. uma posição parentética nas unidades discursivas.) (NURC/SP. o:::. 360.. 777-786) (Ex: 21) L1 (. 1071-1079) Esses marcadores ocupam..... l.. l. geralmente.2 “Hedges” que denotam incerteza Trata-se das expressões talvez. sei lá. l.. as quais diminuem a força ilocutória dos enunciados opinativos e. o elemento que forma cidade os vários seres humanos com :: sei lá parte do corpo do indivíduo né? (.......

. assim...23) (O assunto do fragmento são os transportes. as pessoas estão procurando coisas novas né? (.. 399-400) (Ex.) (NURC/SP. l. 3. sei lá de ansiedade das pessoas vai aumentar.) nós temos uma linha. Paulo de Tarso.3 Alusão a terceiros A alusão a terceiros constitui um caso de polifonia. 1189-1195) Da mesma forma que os “hedges” de planejamento verbal..24) (O informante trata dos ajustes e desajustes do ser humano na sociedade moderna..) L2 você pode inclusive dizer que o nível geral de.. 343.) (NURC/SP. l. imprecisão ou incerteza e. Por isso mesmo. já que os informantes utilizam-na para conferir às suas 188 .. os “hedges” de incerteza ou imprecisão ocupam uma posição parentética nos enunciados. Os marcadores “hedges” de ambos os tipos funcionam como elementos de atenuação do valor ilocutório dos enunciados... e previnem eventuais reações desfavoráveis. coitadinha não sei se dá para chamar ela de metrô.) L1 (... as. pois o uso desse procedimento implica uma divisão entre os papéis de locutor e de enunciador..GALEMBECK. esses marcadores cumprem um papel análogo ao que é exercido pelos marcadores de rejeição. Preservação da face e manifestação de.. a alusão a terceiros diverge do outro caso de polifonia considerado neste trabalho (os procedimentos de indeterminação do sujeito). assim diminuem a “responsabilidade” do locutor com relação aos conceitos emitidos. (Ex.. No entanto. eu acho provável isso (. preservando.. a face do falante. pois provocam no ouvinte um efeito de dúvida... 343..) ou talvez não porque..

. 333. l.. o arquiteto Franck)..26) (As informantes discutem alguns problemas da cidade de São Paulo.... Vejam-se alguns exemplos: (Ex.... começo do século não é? (NURC/SP. Isso significa que o falante incorpora as palavras das pessoas que cita e as emprega para obter crédito ou aprovação.25) (As informantes discutem a preservação de traços da linguagem arcaica na linguagem atual.... e eu inclusive gosto né? cheio de. 65-70) Nos dois exemplos anteriores. até o:: acho que o fim do século passado. e almoçavam com elas e diziam “comei” batatin::nha”.. éh mamãe sempre como:: contava que elas tinham umas amigas que eram sempre carinhosas eram uma velhi-nhas muito simpáticas então eles se vi/ iam visitá-las . nessa nessa..O discurso oral culto. L1 comei? ((riu)) [ L2 “comei batatinha” quer dizer ofereciam as coisas assim. a busca de fidedignidade é verificada não só pela alusão a outras pessoas (a mãe da informante.) (NURC/SP. l.) L2 o emprego do vós L1 é. que é arquiteto? L1 uhn L2 ele estava falando que a topografia da cidade é muito bonita. 343. mas também porque os locutores fornecem dados que permi189 .... nessa linguagem usavam ainda normalmente essa linguagem isso não é.) L2 éh São Paulo acho assim uma vez o Franck sabe aquele que.. né? colinas tal mas que é muito mal aproveitado (. palavras maior fidedignidade ou valor de verdade.. L2 também aliás que até algum.. 260-272) (Ex. montes e:.....

GALEMBECK, Paulo de Tarso. Preservação da face e manifestação de...

tem contextualizar as informações veiculadas. Assim, no ex. 25, a informante relata que a expressão “comei batatinha” era proferida em um almoço oferecido por “duas velhinhas muito simpáticas”; no ex. 26, menciona-se a profissão da pessoa citada, como forma de enfatizar que se trata de um conceito digno de crédito. Deve-se ressalvar que nem sempre a alusão a palavras de terceiros constitui sinal de busca de crédito ou de aprovação. No exemplo a seguir, o próprio locutor coloca em dúvida as palavras da pessoa a que ele se refere:
(Ex: 27) L2 você vê o:: o:: o Altair Lima ele e... arriscou está certo... ele arriscou ele... pôs tudo:: segundo declarações dele não sei se não demagógicas ou não ele pôs... tudo que ele tinha na montagem da peça Hair (...) (NURC/SP, 062, l. 1290-1293)

O locutor alude a Altair Lima, pessoa bastante conhecida no meio teatral, mas emprega a expressão “segundo declarações dele não sei se são demagógicas ou não” como forma de ressalvar que não atribui valor de verdade pleno pelas informações veiculadas. No exemplo a seguir, o locutor alude ao “homem do tempo”, mas indica que não confia nas informações que ele transmite:
(Ex: 28) L2 você vê o homem do tempo... você ouve aí o homem do tempo... pá pá... fala isso aquilo... não deu nada daquilo ele chega à noite... “frente fria (constratou)” não sei o que e deu ((ruído)) bateu voltou não vem nada daquilo (NURC/SP, 062, l. 92-96)

Nos dois últimos exemplos, os informantes manifestam falta de confiança ou de certeza nas palavras das pessoas às quais se referem. Isso significa que os exs. 25 e 26 podem ser apostos aos exs. 27 e 28: nos dois primeiros o locutor concorda com as palavras da pessoa a que alude e, assim, incorpora-as em benefício da própria argumentação. Já nos exs.
190

O discurso oral culto.

25 e 26, esse fato não se verifica, pois os informantes ressalvam ou contestam as pessoas às quais aludem. Seria o caso de colocar os exemplos 27 e 28 entre os casos de distanciamento do locutor? Não, com certeza, pois o informante não concorda com as palavras da pessoa que cita, mas, ainda assim, utiliza-as para reforçar ou reiterar suas próprias idéias. Em outros termos, não se verifica nesses exemplos o afastamento encontrado nas ocorrências de indeterminação ou impessoalidade.

3.4 Paráfrases

Hilgert (1993: 112 e ss) menciona dois processos ou atividades de reformulação textual: a paráfrase e a correção, ambos caracterizados por apresentar um enunciado de origem e um enunciado reformulador. A diferença entre ambos decorre da relação entre esses enunciados: na paráfrase há uma relação de equivalência semântica entre eles, ao passo que na correção verifica-se o contraste semântico entre esses enunciados. Como na paráfrase ocorre uma relação de equivalência semântica (total ou parcial) entre dois enunciados, ela é empregada para reiterar ou reforçar os pontos de vista ou conceitos expostos. É o que pode ser verificado nos exemplos a seguir:
(Ex.29) (L2 discorre acerca da escolha da escola para o filho.) L21 (...) ele não eu pus em uma escola ele não gostou daquela... aí eu achei que realmente a escola não preenchia tudo... que eu gostaria (que) preenchesse então eu tirei... aí eu procurei bastante escolhe/ foi escolhida a que eles estão... como sendo na opinião de muita gente uma das melhores et cetera et cetera... tudo que tinha... peguei todos os requisitos... fiz ((risos))... estudei bem fiz um estudo certinho para ver qual era a melhor e foi determinado... foi visto que aquela era a melhor... então foi posto quer dizer não foi uma escolha...
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GALEMBECK, Paulo de Tarso. Preservação da face e manifestação de...

L1 sem:: L2 assim sem base L1 ( ) L2 foi bem pensada bem escolhida (...) (NURC/SP, 360, l. 389-403)

Em um trecho não reproduzido no exemplo anterior, a informante L2 diz que o filho não gosta de acordar cedo, e L1 pergunta se não seria útil mudá-lo de período escolar. L2 então cita as razões que a levaram a optar por aquela escola e conclui sua exposição com a paráfrase “quer dizer não foi uma escolha... assim sem base foi bem pensada bem escolhida”. Essa paráfrase tem valor resumitivo e, por meio dela, a informante reforça o seu papel de mãe, a sua responsabilidade para com o filho. Em outros termos, a informante L2 previne-se de outras objeções e, assim, preserva a própria face.
(Ex.30) (As informantes discorrem acerca da pronúncia das artistas.) L1 (...) agora os ou/ o Juca de Oliveira ele fala feito um caipira do interior do Estado... você reparou? é uma pronúncia absolutamente caipira... L2 mas ( ) ele carrega L1 do interior do Estado L2 mas é vo/ voluntária né? L1 não... não é voluntária não... é difícil você repara... como é difícil... para o Juca [de Oliveira] interpretar determinados papéis... se bem que os produtores já viram já perceberam então ele ele está sempre adequado ao papel de homem... ele faz muito na televisão um homem rural... então está bem... mas ele tem uma pronúncia bem acaipirada... do interior do Estado de São Paulo... então não é uma questão de de formação da Escola de Arte Dramática onde as pronúncias já estão ... “jogos já estão feitos” como se diz... isso seria de curso primá::rio (...) (NURC/SP, 333, l. 160-176)
192

O discurso oral culto.

No exemplo anterior a informante diz que, por causa da pronúncia “caipira”, é difícil para Juca de Oliveira interpretar determinados papéis, mas logo faz a ressalva “se bem que... papel de homem”. Essa ressalva é reforçada pela paráfrase “ele faz muito na televisão um homem rural... então está bem” e, com ela, a informante reitera que não nega o valor artístico de Juca de Oliveira e, assim, resguarda-se de possíveis objeções. De modo geral, as paráfrases que têm interesse como procedimentos de preservação da fase são realizadas pelo mesmo interlocutor que produziu o enunciado de origem (auto-paráfrases) e vêm imediatamente após esse enunciado (paráfrases adjacentes).

Comentários conclusivos

Foi visto, no decorrer da exposição, que os falantes assumem atitudes diversas para a preservação da face. Por vezes, eles procuram tomar uma atitude de defesa e resguardo, procurando evidenciar que as opiniões não são suas ou, então, que eles não assumem os conceitos emitidos. Em outros casos, verifica-se uma atitude oposta: os falantes evidenciam que incorporam – ainda que com ressalvas – os conceitos e opiniões. Essa duplicidade de atitudes (distanciamento x envolvimento) é característica do texto conversacional e só pode ser explicada porque nessa modalidade de texto não há previsibilidade quanto às ações e reações do outro interlocutor. Além disso, verifica-se que os procedimentos de preservação da face são de natureza variada: elementos gramaticais (processos de indeterminação do sujeito e de indicação de impessoalidade; verbos de opinião), elementos próprios da língua falada (“hedges”, marcadores de rejeição), elementos de reformulação textual (paráfrase). Apesar disso, esses elementos têm o mesmo papel, qual seja, atuar como marcas que assinalam os diferentes modos de participação dos interlocutores na construção do diálogo. Por isso mesmo, o papel desses elementos decorre do quadro geral da interação e só dentro dele pode ser compreendido.
193

V.téc. São Paulo. HILGERT.G. FAPESP. Paulo de Tarso. da UNICAMP. São Paulo. E. O. ROSA. e PRETI. D. P. 2. (1984) Esboço de uma teoria polifônica da enunciação. (1993) Procedimentos de reformulação: a paráfrase. ________. FFLCHUSP..) Português falado culto no Brasil. (série “repensando a língua portuguesa”). de E. CASTILHO. Press.Guimarães.A. II – diálogos entre dois informantes. (1978) Politeness: some universals in language use. Preservação da face e manifestação de. (1992) Marcadores de atenuação. (1989) Para o estudo das unidades discursivas no português falado. (1987) A linguagem falada culta na cidade de São Paulo: materiais para o seu estudo. D. T. J. DUCROT. O dizer e o dito. GOFFMAN. Campinas.M. Cambridge. (1970) Ritual de la interacción. In: ____.T. Campinas. Buenos Aires. Tiempo Contemporaneo. Queiroz. São Paulo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BROWN. A. Cambridge U. Ed. e LEVINSON. (org.) Análise de textos orais.. ed. In: (org. Contexto. In: PRETI. Rev.C.GALEMBECK. S. Pontes Editores. da trad. 194 . M.

1 André Camlong Introdução Este capítulo insere-se no âmbito dos trabalhos sobre língua portuguesa falada que vimos realizando há alguns anos. celle du texte et celle du poète. a do texto e a do poeta. Bien au contraire. CONSIDERAÇÕES SOBRE A UTILIZAÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS NA ANÁLISE DO LÉXICO DO PORTUGUÊS FALADO CULTO DE SÃO PAULO Zilda Maria Zapparoli La lexicologie est la voie royale que mène au coeur des textes de manière sûre. 195 . dosant savamment les informations quantitatives et qualitatives.O discurso oral culto. estreitamente enlaçadas. mais toujours discrète. sem jamais eclipsar o texto. ela revela sua trama misteriosa que oculta em seu seio o segredo da vida. Bem ao contrário. mas sempre discreta. elle en révèle la mystérieuse trame qui cache en son sein le secret de la vie. étroitement enlacées. através da aplicação 1 A lexicologia é a via régia que leva ao coração dos textos de maneira segura. n’éclipsant jamais le texte. dosando sabiamente informações quantitativas e qualitativas.

E aqui se enquadram os estudos com o material do Projeto NURC/SP. mais fácil. também. em colaboração com Alessandra Sallum. organização e análise dos dados lingüísticos. tipo de segmento. constituído do conjunto de inquéritos dos três volumes publicados: Elocuções formais (vol. turno.: Internet). 1988). Diálogos entre dois informantes (vol. de técnicas computacionais que possibilitem a interação homem/máquina nas etapas de armazenamento. sexo. através da utilização de técnicas de multimídia. de forma a permitir. truncamento. 1986). processamento e recuperação qualitativa e quantitativa de informações lingüísticas. repetição formal). rápido e seguro o acesso ao material de análise. a fim de tornar acessível aos pesquisadores do Projeto uma amostragem. II.. a recuperação simultânea de voz e texto. por consegüinte. Considerações sobre a utilização de novas. sobretudo em tarefas em que se manipulam grandes volumes de dados. hesitação. São indiscutíveis as vantagens da utilização do computador no armazenamento.3 Como o objetivo é não só gerar bases de dados textuais. 1987) e Diálogos entre informante e documentador (vol. processamento e recuperação de informações. geramos o Corpus informatizado do Projeto NURC/SP. Visando à informatização dos materiais de estudo do Projeto NURC/SP. áreas semânticas. das bases textuais geradas através de redes de comunicação (ex. mas também manipular os dados armazenados com diferentes objetivos de análi2 3 Esse trabalho desenvolveu-se no Centro de Informática da FFLCH-USP. 196 .. A pesquisa à base de textos informatizados facilita e otimiza a busca. Zilda Maria. tipo de locutor) e a variáveis lingüísticas relativas ao contexto da enunciação e às especificidades da língua falada (tipo de inquérito. III. das entrevistas gravadas. bem como a disponibilização. marcadores. a transcrição do corpus mínimo oral do Projeto para suporte em laser (CD-ROM). para acesso público. sobreposição de vozes. tornando. Está sendo providenciada. enquanto bolsista de Iniciação Científica do CNPq. faixa etária. I. em suporte eletrônico.2 Para a constituição desse acervo informatizado respeitaram-se todas as informações relevantes concernentes a variáveis extralingüísticas controladas na seleção dos informantes que forneceram material lingüístico para análise (cidade.ZAPPAROLI.

Universidade de Toulouse II. com Leland McCleary. O corpus informatizado permite a sua manipulação automática para diferentes finalidades de análise. Universidade de Toulouse II. FFLCH-USP. uma atenção especial foi dada à identificação de linguagens e de programas especiais de tratamento de textos.0. optamos pelos seguintes programas: a) para Macintosh: programa STABLEX. desenvolvido pela Electronic Text Corporation. e a do corpus para PC. se. versão 2. 197 . b) para PC: programa WordCruncher. a partir de um estudo nos três volumes de inquéritos. aqui. Esse projeto-conjunto inclui a publicação de um dicionário de freqüência do português falado culto de São Paulo com parâmetros estatísticos para cada entrada léxica. Após levantamento e análise de produtos que permitem a pesquisa de texto auxiliada por microcomputador.O discurso oral culto. com dados selecionados e organizados para um fim determinado. Provo. O corpus Dadas as limitações impostas pelas dimensões de um artigo. de forma a não trabalhar simplesmente com dados.4 Este artigo é parte de um projeto maior que vimos desenvolvendo com André Camlong sobre a análise lexical e a estrutura discursiva do português falado culto de São Paulo. considerações sobre a descrição e análise estatístico-descritiva do vocabulário dos nove inquéritos que compõem 4 A manipulação do corpus informatizado para Macintosh tem sido feita através de um trabalho-conjunto com André Camlong. 1. restringimo-nos a tecer. utilizando o método de análise de textos desenvolvido por André Camlong. desenvolvido por André Camlong e Thierry Beltran no Laboratório de Inteligência Artificial. UT. mas com informações. ou seja.

outras corrigindo e orientando nossa leitura do texto. – DID/242 – “Instituições: o ensino. saúde”. feminino. gado”.. 1ª faixa etária. banco. televisão. 40 minutos. finanças. sexo e tempo de gravação diversificados: – DID/018 – “A casa. 65 minutos. 3ª faixa etária. pois. – DID/234 – “Cinema. estatíscas. masculino. o volume de Diálogos entre informante e documentador. 40 minutos. 2ª faixa etária. feminino. vegetais. integra fundamentos lingüísticos..ZAPPAROLI. vestuário”. 2ª faixa etária. utilizando técnicas computacionais de última geração. televisão. agricultura. 40 minutos. – DID/235 – “Alimentação”. bolsa”. 2ª faixa etária. 1ª faixa etária. textos e discursos. cinema. Trata-se. – DID/161 – “Teatro. masculino. 3ª faixa etária. feminino. masculino. 45 minutos. matemáticos e estatísticos. – DID/251 – “Profissão e ofícios”. o comércio”. teatro”. masculino. algumas vezes corroborando. 198 . faixas etárias. 1ª faixa etária. rádio. com temas. 2. a igreja”. 2ª faixa etária. feminino. – DID/137 – “A cidade. matemáticas e gráficas a serviço da descrição e análise de léxicos. rádio. 40 minutos. 40 minutos. de um método que põe ferramentas informáticas. Zilda Maria. Considerações sobre a utilização de novas. animais. 40 minutos. O método de análise O método de análise de textos desenvolvido por André Camlong no Centre de Recherches Ibériques Contemporaines (CRIC) da Universidade de Toulouse II apresenta-se como inovador na medida em que. – DID/250 – “Dinheiro. o terreno. 40 minutos. masculino. – DID/208 – “Família.

portanto. a base de todo o processamento. descritiva e medida. mas ligados intimamente: o número representa uma realidade lingüística em que o vocábulo existe no e pelo texto e o texto. para ser universal. pour être universalle. 5 “Para ser ‘científica’. Ora. descriptive et mesurée. 199 . 1996: 6) Conforme esclarece André Camlong. oferece ao pesquisador maior confiabilidade às análises dos dados de suas pesquisas. elle doit nécessairement entrer dans la logique du raisonnement inductif. “Por être ‘scientifique’.O discurso oral culto. pautada por um método descritivo. A descrição do vocabulário dos Diálogos entre informante e documentador está. matemática e estatística relacionada à análise lingüística. portanto. a textual (qualitativa) e a numérica (quantitativa): a estatística ajuda-nos a penetrar no universo lingüístico e a descrevê-lo de modo mais exato. no e pelo vocábulo. Or. dada a filosofia do método aplicado pelo STABLEX: cada valor numérico reflete o vocabulário correspondente e. nem indutivo”.5 (CAMLONG. toda análise deve ser objetiva. Em outras palavras: o texto é o ponto de partida. nem descritivo. mediante a utilização do programa STABLEX. Há uma comunicacão constante entre as duas informações. ela deve necessariamente entrar na lógica do raciocínio indutivo. os dados não são meramente quantitativos. A utilização de ferramentas de análise de textos estatístico-descritivas e. portanto. toute analyse doit être objective. il est bien entendu qu’il ne peut y avoir de scientifique et d’universel qui ne soit ni objectif. ni descriptif. destacando-as nitidamente. o texto de referência. Os dados quantitativos e os dados qualitativos são de natureza diferente. objetivo e indutivo de análise. que pressupõe trabalho em um ambiente de tecnologias de ponta da informática. é ponto pacífico que nada pode haver de científico e de universal que não seja nem objetivo. O cálculo algébrico e a descrição estatística dão a conhecer para fazer reconhecer: põem em relevo as linhas constitutivas do raciocínio e do discurso. da técnica informática. ni inductif”. mas quanti-qualitativos.

3. para Macintosh. lematização. também. Com recursos de ordenação (à direita. com seu contexto imediato e sua localização). O STABLEX compõe-se de quatro módulos complementares: a) TurboSTAB – realização de léxicos: levantamento exaustivo do vocabulário e elaboração automática de dois léxicos. EXCEL. criação automática de dicionários. a recuperação por listagens em forma de concordâncias ( o conjunto de ocorrências de cada palavra. tais como Word. é possível a busca de palavras que guardam alguma relação). de forma mais completa e satisfatória. e por ser compatível com programas disponíveis para Processamento de Textos. extração de seqüências e concordâncias. de forma a facilitar o gerenciamento de informações. Hypercard.ZAPPAROLI. Considerações sobre a utilização de novas. consideramos que o STABLEX responde. acompanhados de suas ocorrências no corpus e nas variáveis do corpus. produzem concordâncias e servem para a busca textual: permitem a indexação das palavras de um texto (ou seja. b) TABLE – preparo de dados para a análise estatística: confecção automática de Tabelas de Distribuição de Freqüências – TDF 200 . tratamento estatístico. de indexação. Planilha Eletrônica e Editoração.. à esquerda. Pelo conhecimento que temos de diferentes programas de análise e tratamento de textos. Zilda Maria. a identificação de sua localização no texto). por associar os recursos de um sistema de recuperação de textos aos de um gerenciador de banco de dados. por ordem de freqüência decrescente. Os programas ainda permitem um tratamento quantitativo dos dados. às necessidades do pesquisador cujo objeto de trabalho é o texto. inversa).. Há outros programas disponíveis que são indexadores. Possibilitam. O Programa STABLEX O tratamento informático do vocabulário dos diálogos entre informante e documentador foi efetudado por André Camlong mediante o emprego do programa STABLEX – programa. recuperam-se padrões de colocações. a pesquisa de grupos de palavras (com o uso de coringas e expressões lógicas. Banco de Dados. em ordem alfabética. um em que os vocábulos são classificados por ordem alfabética e outro.

respeitando-se a ordem de ocorrência no texto. sistematicamente convertidas em Tabelas de Desvios Reduzidos – TDR (põem em evidência o conjunto dos traços característicos da distribuição). relativos aos Diálogos entre Informante e Documentador e elaborados por André Camlong a partir do processamento dos dados do Corpus informatizado do Projeto NURC/SP pelo STABLEX. (fornecem o “status” da população lexical). O STABLEX na análise do léxico do português falado culto de São Paulo A análise aqui feita baseia-se nas diretrizes contidas nos documentos D1 NURC – Plano geral do estudo e Estudo do vocabulário de D1 (D 018). 201 . c) EXTRACTION – levantamento de seqüências: extração automática das seqüências textuais ou das concordâncias relativas a cada vocábulo ou radical. O desenvolvimento completo das operações com um perfeito encadeamento dos módulos permite a análise lexical de um texto e a confecção de dicionários. 4. d) HYPERDICO – manipulação e consulta de dicionários: criação automática dos dicionários desejados.O discurso oral culto.6 6 O discurso do informante e o do documentador foram considerados no processamento e análise dos dados que compõem este artigo. A análise quantitativa de textos – ponto de partida para a análise qualitativa – é fornecida pelos dois primeiros módulos e por programas de análise estatística que aceitam arquivos no formato ASCII. com a possibilidade de enriquecê-los e manipulá-los à vontade.

Considerações sobre a utilização de novas.1 Dos textos diálogos entre informante e documentador aos vocabulários de freqüências As Tabelas de Distribuição das Freqüências (TDF) fornecem o status da população submetida ao tratamento. os vocábulos são classificados por ordem alfabética e por ordem decrescente de freqüência. fim-de-semana.ZAPPAROLI. Por exemplo: Belo-Horizonte. Vocabulário Total a à aba abacaxi abafa abanar 1363 102 1 7 1 1 T1 172 6 1 0 1 1 T2 192 26 0 0 0 0 T3 169 12 0 6 0 0 202 T4 156 7 0 0 0 0 T5 182 8 0 0 0 0 T6 79 11 0 1 0 0 T7 166 12 0 0 0 0 T8 142 17 0 0 0 0 T9 105 3 0 0 0 0 ..T9 (consideradas as nove variáveis) –. Esse tratamento é precedido por um trabalho manual de recomposição dos sintagmas (locuções. respeitada a distribuição entre as variáveis. 4. fundo-de-garantia.. mil-novecentose-três. visto que. a fim de evitar-se o seu esfacelamento. T2. Trata-se de uma operação que consiste no levantamento automático exaustivo dos vocábulos dos nove diálogos entre informante e documentador – T1. dia-a-dia. gado-de-corte. nomes próprios. com o traço de união. numerais) nos textos. A título de exemplificação... apresentamos uma pequena amostra dos dois vocabulários gerados em tabelas de distribuição de freqüências a partir dos nove inquéritos de Diálogos entre Informante e Documentador que foram utilizados para a análise dos dados. T3. Zilda Maria. torna-se inviável a sua apresentação integral: – vocabulário classificado por ordem alfabética: os vocábulos são classificados por ordem alfabética. com sua freqüência de ocorrência global e por variável. em que. dada a sua extensão.

Vocabulário Total que o de a e não 2296 1649 1591 1363 1211 1127 T1 265 341 188 172 229 144 T2 230 110 235 192 151 90 T3 317 275 219 169 152 168 T4 177 142 175 156 155 89 T5 359 246 171 182 96 151 T6 183 80 156 79 112 134 T7 257 126 175 166 136 171 T8 195 201 145 142 82 86 T9 313 128 127 105 98 94 203 . abandonada abandonando aberta aborreceu aborreço aborto abrangente abre abrir abriu absoluta 2 1 1 1 1 2 1 3 4 1 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 1 0 0 0 1 1 0 0 0 0 1 0 0 1 0 0 0 2 0 0 1 0 2 0 0 0 0 0 2 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 0 1 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 4 0 0 1 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 absolutamente 5 absoluto absolutos 1 1 – vocabulário classificado por ordem decrescente de freqüência: registra. a freqüência de ocorrência do vocábulo no total do corpus e a sua distribuição pelos nove inquéritos.O discurso oral culto. em ordem decrescente.

). eu. o. cinema.). visto a sua diferença de extensão. seguido pelo vocabulário nocional em que se destaca o temático (teatro. 204 . não. a observação dos dados fornecidos pelos vocabulários apresentados anteriormente não fornece nenhuma informação relativa à sua importância nos nove inquéritos. de.. eu é um uma em do se então mais da no mas com você 1061 1040 660 601 574 476 474 398 397 366 364 345 327 327 46 243 84 76 51 66 119 57 43 30 47 51 46 0 180 94 47 83 144 69 39 52 49 46 54 33 36 11 64 126 123 104 80 106 88 60 64 83 76 48 48 86 66 44 64 48 65 33 36 41 32 49 45 40 43 19 239 113 67 45 47 51 32 18 71 30 42 38 16 31 88 98 53 50 57 29 28 69 33 19 10 18 47 109 184 139 60 94 41 36 41 27 24 39 26 65 40 6 62 96 59 51 61 49 64 35 27 26 40 28 32 21 132 87 103 50 28 37 27 39 54 44 24 24 19 44 Embora a observação desses dados não ofereça informação relativa ao valor dos vocábulos nos nove inquéritos. e.. etc. filme. Zilda Maria. 4. Considerações sobre a utilização de novas. peça.ZAPPAROLI.2 Descrição estatística: das Tabelas de Distribuição de Freqüências (TDF) às Tabelas de Desvios Reduzidos (TDR) Como já salientado. a classificação freqüencial põe em relevo: o vocabulário gramatical nas altas freqüências (que. a. etc.

simplesmente. é formada pelas colunas relativas às nove variáveis classificadas por or7 “ (. a do desvio-padrão. Esses dados brutos não permitem formular nenhuma hipótese. em virtude da diferença de extensão de cada texto.O discurso oral culto. No plano vertical. mas um meio de interpretar a descrição de uma amostragem a partir do levantamento dos elementos.. “ (.) convém dizer que a estatística não é um fim em si. C’est un outil d’analyse permettant de décrire une observation et d’en tester les variables par rapport à des modèles théoriques de variation.) convient-il de dire que la statistique n´est pas une fin en soi. Son rôle s’arrête à la description de la qualité des distributions de la population”. pelos nove inquéritos). É uma ferramenta de análise que permite descrever uma observação e de testar suas variáveis em relação a modelos teóricos de variação.. o que não é suficiente para uma descrição científica do corpus. Seu papel se esgota na descrição da qualidade das distribuições da amostragem.7 (CAMLONG. a Tabela dos Desvios Reduzidos fornece o valor centrado e reduzido de cada variável (de cada texto = inquérito) e de cada item (= de cada vocábulo). A interpretação dos resultados no tangente ao tratamento qualitativo não é da alçada da estatística. nem fazer nenhuma comparação. 1991:40) Sendo o cálculo algébrico (efetuado automaticamente pelo STABLEX a partir do cálculo das probabilidades) um excelente meio de representação e de comparação.. As TDF (cálculo aritmético) dão. uma vez que os valores nelas apresentados retratam. A TDR apresenta-se sob forma de matriz. apenas. em que todos os elementos são medidos com a mesma unidade. transformando-as em TDR (cálculo algébrico). mais un moyen d’interpréter la description d´une population à partir du recensement des éléments dans des tableaux.. o status da população lexical recenseada. a distribuição dos vocábulos pelas variáveis (neste caso.” 205 . A estatística descritiva fornece os meios científicos para uma avaliação objetiva dos valores apresentados nas TDF. L’interprétation des résultats quant à la portée qualitative n’est pas du ressort de la statistique.

como exemplo. razão pela qual se apresentam. referem-se à especificidade de cada variável a partir de uma descrição do conjunto. a TDR para os nove inquéritos.287 25.999 -7. Pelas limitações de tamanho de um artigo. A visão combinada dos dois eixos – vertical e horizontal – fornece os traços comuns e os traços distintivos entre os textos que integram o corpus.051 -0. totalizam-se os valores dos desvios reduzidos de cada variável..000 ∑(z)= 4.677 -23. o que significa que o emprego da preposição de é deficitária no DID/018 em relação ao emprego que tem nos nove inquéritos. coluna por coluna.006 0..024 206 .003 0.. totalizamse os valores dos desvios reduzidos na linha (ou das 9 variáveis). as leituras horizontais.032 0.169 -0.075 0.005 0.811 3.732 0. aqui. torna-se impossível reproduzir.027 0. numa última linha.T9).993 15. Enquanto as leituras verticais.304 z = z 2= 0. dem crescente de numeração (T1. Citamos.029 0.. os 188 de na primeira célula do primeiro inquérito. No final. TABELA 4. a partir daí.009 0.02.001 0.101 0. a seguir. permitindo a comparação das diferenças ou das preferências de emprego de elementos ou de grupos de elementos de um texto a outro e. Acusa-se um desvio reduzido negativo de –2. T2. a obtenção de uma visão estilística. A estatística é essencialmente um instrumento de medida contrastiva em que o todo se define em relação à parte e a parte em relação ao todo. Considerações sobre a utilização de novas. Na primeira coluna.001 0. integralmente. apenas os resultados por ela fornecidos.2 – Resultados fornecidos pela TDR T1 T2 T3 T4 T5 T6 T7 T8 T9 0. linha por linha.348 -13.189 -11. Zilda Maria.155 0.010 -0.093 -0.ZAPPAROLI. dizem respeito à comparação entre as variáveis.

homogêneo. que a distribuição das 9 variáveis é mais do que centrada e normalizada já que há ainda uma variação de 21 para 1 dentro dessa margem de 99.l. primeiro é calculada a soma dos desvios reduzidos (Z) para cada variável. O teste de normalidade é fornecido pelo c2 de Fisher. Todos esses cálculos são automaticamente efetuados pelos programas utilizados através do STABLEX. É essa concentração em torno da média que exprime o gráfico seguinte elaborado a partir do z médio de cada variável:.. pois. O χ2 vale 0.l. (graus de liberdade correspondendo às 9 variáveis). Para calcular-se o c2. observa-se que se trata de um corpus equilibrado.d. depois.5%. Figura 4. dividindo-se a soma pelo número de linhas e. 4. a tabela de Fisher dá o valor de 1. visto que a distribuição atinge um grau de normalidade tal que o χ2 é perfeitamente centrado.d.5%. que é a soma dos desvios reduzidos das nove variáveis em estudo. é calculado o quadrado. A partir delas.O discurso oral culto.3 Das Tabelas de Desvios Reduzidos a considerações sobre a análise do léxico do português falado culto de São Paulo A significação da distribuição das Tabelas de Desvios Reduzidos é fornecida pelas tabelas de significação do χ2 estabelecidas por Pearson e Owen.3(a) – Normalidade da distribuição 207 . para ser feita a soma das nove variáveis. Para 9 g.735 para uma probabilidade de 99.082 com 9 g. Resulta.

Trata-se da norma lexical descritiva da população considerada. Ao lado desse vocabulário comum. Ou seja. com efeito. que a descrição estatística permite abstrair dos atos lingüísticos concretos. T6. fundamentada. “implica a eliminação de tudo aquilo que no falar é aspecto totalmente inédito. conforme a qualidade de cada uma: 4 negativas (T4. embora distintas.. standard) entre inquéritos de temas diferentes. ocasional ou momentânea. o que. em sua visão tripartida da linguagem – Sistema/Norma/Falar Concreto –. geral. e varia segundo a comunidade” (COSERIU. de um vocabulário normal (= comum. aproxima-se de 1. T9). atestada no falar culto dos paulistanos pelas freqüências observáveis dos vocábulos. “realiza concretamente em seu falar moldes. portanto. 208 .735. oscilando entre – 0. entre outros fatores. não são totalmente antagônicas. visto que a coerência interna. leva-nos a concluir que as posições descritivista e prescritivista. A existência de uma coerência interna e de uma dispersão. de imposições sociais e culturais. na norma. pela tradição escolar (traço comum aos informantes) e comprova que o prescritivismo tende a estandardizar a língua. T3. Nenhum desses valores.150 e + 0. 1979: 72-74). T5.170. um sistema de realizações obrigadas. enquanto representação do desvio reduzido. só se conservando os aspectos comuns que se comprovam nos atos lingüísticos considerados e em seus modelos”. Reportando-nos a Eugenio Coseriu. T2. pode explicar-se. Zilda Maria. registram-se traços variáveis em função da temática do inquérito. ou seja.. T8) e 5 positivas (T1. T7.ZAPPAROLI. nas freqüências observáveis desses atos. Considerações sobre a utilização de novas. o valor global do χ2 . a atitude descritiva revelada pela estatística descritiva apóia-se numa atitude prescritiva oriunda da tradição escolar. o falante repete “formas sociais determinadas e mais ou menos constantes”. “A norma é. O gráfico põe em evidência as características da distribuição perfeitamente centrada. variante individual. estruturas da língua de sua comunidade”. Para Coseriu. Em outros termos. norma única. podemos dizer que esses cálculos permitem determinar a norma lexical da amostra considerada.

grifo nosso). pois.) o discurso da norma é. a propósito. com determinação do peso e do espaço ocupados por cada um.96 ou +2): resultante de uma leitura vertical da TDR. pur. 8 9 Ver.. correto. standard. É característico de cada inquérito.) le discours de la norme est.3(b) – Variedades de vocabulário (apud CAMLONG. os falantes cultos paulistanos são fiéis aos contratos lingüísticos e sociais firmados pelos membros da comunidade de nível superior de que são parte. (. imperativo. fautif. “um conceito ou uma visão de linguagem de acordo com a qual podemos classificar os fatos lingüísticos segundo as categorias de bom. par définition. ou seja. que caracterizam a estrutura lexical das variáveis: Figura 4. standard. mau.8 Isto é. Conforme os valores das Tabelas de Desvios Reduzidos. na fala. impératif. observações de Diana Luz Pessoa de Barros em capítulo desta obra.” 209 . única para a escrita e para a fala. 1996:127) a) vocabulário preferencial (cujo Z > +1. correct. errado. puro. sendo particularmente representativo da estrutura do discurso. Em outros termos. por definição.d. A determinação da norma descritiva (norma implícita) reflete a existência. de um discurso da norma explícita (no sentido que lhe é atribuído por Stanley Aléong). s. etc (. destacam-se variedades do vocabulário. é aquele cujo peso lexical positivo é altamente significativo. Trata-se. autoritário e arbitrário. há “une pensée ou une vision du langage selon laquelle on peut classer les faits linguistiques selon des catégories de bon.:270. de um vocabulário de emprego significativamente excedente.O discurso oral culto. objeto de uma escolha privilegiada. 9 (ALÉONG.. etc. autoritaire et arbitraire”... mauvais.

isto é. ou vocabulário restritamente básico (-1 < Z < +1): é aquele cujo peso lexical está centrado em torno da média. É um vocabulário de emprego significativamente deficitário. à temática do texto. ou de uma rejeição. Como o preferencial. b) vocabulário diferencial (cujo Z < -1. objeto de um abandono. ligado às palavras-chave e.96 ou -2): resultante de uma leitura vertical da TDR. próprio. – vocabulário básico com tendência positiva (+1 < Z < +2): é aquele cujo peso lexical tende a diferenciá-lo positivamente. ou exclusivo: é aquele que é próprio da variável analisada (essencialmente temático) 210 . comum. compreendido entre -1. vulgar. da zona de forte concentração dos vocábulos do tronco comum que gravitam em torno da média reduzida a zero. – vocabulário básico com tendência negativa (-2 < Z < -1): é aquele cujo peso lexical tende a diferenciá-lo negativamente. portanto. ou seja. leitura contrastiva. formando a base do discurso: palavras gramaticais e nocionais fundamentais que servem de suporte para a construção do texto. Zilda Maria. c) vocabulário básico. é um vocabulário característico de cada inquérito.ZAPPAROLI. portanto. distintivo. d) vocabulário particular.. É sobretudo o valor algébrico de que é afetado que lhe confere o caráter de básico: o lugar nos limites do intervalo de confiança. Podem-se distinguir: – vocabulário básico fundamental. Considerações sobre a utilização de novas.96 e + 1. é aquele cujo peso lexical negativo é altamente significativo. ou banalizado (cujo Z tende para zero). determinado por uma prática de leitura horizontal da TDR. Trata-se do vocabulário próprio do corpus. ou seja. sendo indispensável à formação do texto e à delimitação mais específica da zona centrada do vocabulário comum ao corpus..96 (ou entre + 2). imagem dos empregos correntes da amostra considerada.

ou rejeitado: é aquele que é inexistente na variável considerada. os hapax podem entrar. podemse focalizar aspectos considerados globalmente.O discurso oral culto. Assim. Lembramos que as variedades de vocabulários dizem respeito ao peso ocupado pelo vocábulo no corpus. não figura nas outras. e que. A lematização é um procedimento de redução ou de síntese parcial do léxico “qui tend à réduire les éléments lexicaux à un seul vecteur centré sur une racine thématique (le lemme) ou à regrouper les différentes flexions d’un mot autour d’un mot-clef ou d’un vocable-vedette”. e) vocabulário de exclusão. 1966:133). f) vocabulário específico: é um vocabulário temático de síntese. Do mesmo modo. porém não a sua totalidade. que obedece a critérios de reagrupamento segundo uma avaliação temática particular. assim como o léxico representativo da expressão comum. Os hapax representam a maior parte do vocabulário particular. As variedades de vocabulários arroladas acima permitem-nos destacar as temáticas e as gramáticas específicas nas zonas preferenciais. portanto. pode-se avaliar 10 “que tende a reduzir os elementos lexicais a um só vetor centrado numa raiz temática (o lema) ou a reagrupar as diferentes flexões de uma palavra em torno de uma palavrachave ou de um vocábulo em destaque. O vocabulário particular não pode ser confundido com os hapax (vocábulos que ocorrem uma única vez no texto e no corpus ). e não à sua freqüência. ao mesmo tempo. a partir das TDR. por exemplo. Os nomes próprios. comum e preferencial.” 211 . o suporte da temática. exclusivos e repetitivos. Por outro lado. o que equivaleria confundir peso com freqüência. no vocabulário diferencial. destaca-se o suporte gramatical básico. também. são. Recorrendo-se ao vocabulário específico fundado na lematização.10 (CAMLONG.

ZAPPAROLI. Zilda Maria. conforme o setor determinado pelo peso dos itens. enxergar… mais olho.. que oferece 11 A transcrição integral da entrevista consta em PRETI. é possível focalizar blocos mais importantes. saber… Mais ainda. Reúne-se. tecemos considerações sobre o estudo do vocabulário da primeira variável – inquérito DID/018 –. agricultura. 1988: 17-37. observação…). animais.. 212 . como ser. vista. medindo-se o peso exaustivo de certos aspectos semânticos. Considerações sobre a utilização de novas. o terreno. querer. olhar.1 Vocabulário preferencial A temática desta primeira variável. conforme o ponto de vista analisado. URBANO. Mais do que a medição global. perceber. perfeitamente definida no cabeçalho da entrevista. já que fornece o peso exato dos tempos e dos modos verbais relativos a cada variável. ter. Dada a impossibilidade de apresentação integral das listas desses vocabulários. gado”. A seguir. mas também os nocionais (ver. Observemos a temática que se destaca do léxico. o peso efetivo dos verbos auxiliares ou modalizadores do discurso. o da vista. reproduzimos os gráficos representativos de sua distribuição em que se implantaram os vocábulos mais significativos quanto ao relevo ocupado. estar. como. 4. vegetais. bem como das listas exaustivas aqui não relacionadas. reunindo não apenas os elementos verbais.4 Estudo do vocabulário do DID/01811 4. o vocabulário preferencial (diferenças ou preferências de emprego de vocábulos de um inquérito a outro). abordando o vocabulário preferencial e o vocabulário básico.4. dizer. Tecem-se considerações a partir da análise desses gráficos. é: “A casa. haver. essa técnica permite destacar nitidamente as perspectivas discursivas. poder. aqui. por exemplo.

freio. queijo. potro. sulco. barracão. – termos genéricos: terra. fêmea. couro. – termos ligados aos produtos: em que a palavra leite ocupa um lugar destacado: leite. reuniram-se. luz. de um lado. enxadão. fubá. vaca. mamar. fazenda. argola. caroço. cultura. algodão. ordenha…. café. enquanto animal é uma palavra empregada aqui 7 vezes sobre um total de 9 vezes. pano. terreiro. manta. raça. paiol. chicote. cavalo. requeijão. besta. plantar. garanhão. novilha…. casca. latão. coalhada. botina…. palha. colhido. colonos. fechaduras. em negrito. balde. gado de leite. estribo. pelego. para terminar. burros. éguas. moinho. metal. manga-larga. enxada. galho. cavaleiro. colheita. rédeas. 213 . bezerro. grãos. intrumentos. eqüinos. pampa. capim. A primeira é utilizada 33 vezes. espiga. Mas isso é ainda relativo. bezerros. a seguir os produtos e. Para facilitar a leitura. cria. em que também podem figurar: água. tecido. égua. zebu. culturas. sal. alazão. depois os vegetais. iluminação. – termos ligados às ferramentas: arreio. colheita. Para a temática do gado e da agricultura. as ferramentas agrícolas: – termos ligados aos animais: gado. farinha.O discurso oral culto. Conforme se observou. culturas. touro. as palavras do vocabulário particular (ou exclusivo). sabugo. já que gado é uma palavra exclusiva. manso. saco. empregada 33 vezes aqui e apenas aqui. destacam-se. (litros). planta. estábulo. burro. os animais. – termos ligados aos vegetais: milho. animal.51 e a palavra animal afetada de um z = +5. cavalos. a carga semântica dos elementos deve ser considerada conforme o peso dado pelo valor do desvio reduzido que acompanha cada item. grão. arroz. sementeira. há uma diferença fundamental entre a palavra gado afetada de um z = +14. animais.63. vendia. boi. madeira. água. pasto. arado. trator. feijão. enquanto a segunda apenas 7 vezes. eixo. gargantilha. elétrica. gado de corte. curral. bota. uma visão das características estilísticas. roda. Assim. sela.

aparelhinho.98 (com a palavra preciso de freqüência 3).00 leite 16. administrador. armazenado.. pedra. bezerro.00 milho gado cavalo café 14.00 se tem arado coalhada freio gado de leite… e bom 4. gado. administradores.1 – Ecografia do vocabulário preferencial A representação do vocabulário preferencial resulta do peso dado pelo desvio reduzido que se estende do valor superior +17. aguada. que figuram no cabeçalho da listagem. cavalo.00 ele como pra dizer vaca arroz burro documentador informante é o 6.00 arreio vamos bezerro grão fazenda 8. A configuração do vocabulário preferencial pode ser observada globalmente no gráfico seguinte: 18.. fazenda. 214 .4. arreio. milho.ZAPPAROLI. raças… Os seguintes termos.00 0 50 100 150 200 250 300 350 Figura 4. Considerações sobre a utilização de novas. carga. em que o cavalo ocupa um lugar privilegiado e o leite. refletem claramente a temática: leite.00 agora uhn já ou essa preciso 0.00 espiga 10. cria. barrigueira.55 (com a palavra leite de freqüência 52) até o valor inferior-limite +1.00 2. Zilda Maria. uma preocupação importante.00 12.

Para tecer considerações sobre os vocábulos gramaticais. ainda. ou ainda pelo “et cetera”...... O emprego preponderante da preposição pra mostra o caráter falado da entrevista. uhn. observa-se uma marca de expressão do informante. está mansa não precisa fazer nada com ela ou (l. é bem mais rústico. 494495) – Inf. 498-499) No emprego do enquanto. que acaba contaminando o documentador. 567-8). como se pode ver com o seguinte exemplo: – Doc.. ou. pela procura de precisão com o até. e vamos dizer é:: é inteiro...O discurso oral culto. já que figura apenas nesta variável: – Inf. 215 .. Remetendo-se para a lista exaustiva. de leite. e a vaca enquanto está tirando o leite ela. podem-se destacar todos os elementos e classificá-los conforme a necessidade da análise. reforçado por ô. (l.. destacamos a conjunção enquanto.. e:: muito mais bravo também.. e é como vamos dizer um triângulo. enquanto que:: o gado. 9495) – Inf. enquanto que o enxadão. enquanto que o boi ele é:: castrado (l... (l...

está. vai. têm. alguns. sei. na. Considerações sobre a utilização de novas. A qualidade dos vocábulos é uma indicação da natureza do vocabulário de tendência essencialmente gramatical. ficar. há. – os artigos e pronomes: dos.40 primeiro nenhuma -0. vai. eles. isso.2.80 -1.00 0 -0.1 Vocabulário básico fundamental 1.40 grande diferença nessa com do senhor isso fazer 0.. algumas. um. do.60 um estou vai têm uma não -0. Zilda Maria. Pode-se resumir globalmente a situação da gramática que aí se destaca: – os verbos: pode. deve. ninguém – na parte positiva – e outras. uma. sua. numa – na parte negativa..4. nenhuma. no. aqueles. sair.60 sei ah está tudo às mas então 0.1 – Vocabulário básico fundamental centrado em torno do zero O gráfico permite fixar a imagem da distribuição desse vocabulário. 216 . pelo.00 deve muita sua ficar sair Figura 4.4. havia. fazer – afetados dum z positivo – e estou.80 há 0.2 Vocabulário básico 4.20 coisa hoje assim aliás 50 100 150 na no -0.00 pode sempre 0.ZAPPAROLI.4. 4. tudo.20 0.2. muitos. conhece – afetados dum z negativo.

2 Vocabulário básico com tendência positiva A observação da imagem representativa da distribuição preferencial permite focalizar melhor os elementos.00 normalmente por 1.60 0.00 0. – os advérbios: praticamente.2 – Vocabulário básico com tendência positiva Destacam-se os seguintes elementos: – dentro dos verbos: descrever. levar (de freq. hoje e. 2.60 outro aí 1.00 0 10 20 30 40 50 Figura 4. cobrir… (de freq.4.2. 4.80 mesmo quer ser me 1. aproveitar. naturalmente.2. nada. ser (de freq.4.80 1.20 tinha num utilidade 0. 1). falava. 26).O discurso oral culto. com um lugar notável para a negação. 2). não e sem. 217 . aproveitavam.40 tipos diferentes ela 1.20 0.40 0.

00 nós que -5. 2 ou mais). naquilo.2.4. árvores. Zilda Maria. lugar.00 50 quando 100 150 a né de 200 250 300 -2. como cujo. figuram elementos mais modestos. quer dizer de baixa freqüência. conclusão. – dentro dos substantivos: máquina. Considerações sobre a utilização de novas. mesmo…. largas…..4. daquelas.2. me.3 – Vocabulário básico com tendência negativa e vocabulário diferencial 218 .00 0 -1. 4. máquinas… (de freq. alguma.00 eu Figura 4. 1 geralmente e raramente de freq.ZAPPAROLI. hábito. num.00 -9.00 paramais os são acho -3. cor. larga. aí.00 foi -6.00 -7. embora de peso semântico reduzido. ela.00 em -4. como a preposição por no início da lista. – dentro dos adjetivos: baixo. ou os indefinidos outro. – dentro dos elementos gramaticais: a par dos vocábulos de alta freqüência.00 -8. alto..3 Vocabulário básico com tendência negativa A representação gráfica da distribuição preferencial permite sempre a focalização visual da configuração dos elementos: 0. essencial.

mostras das possibilidades de exploração do corpus mediante a utilização de novas tecnologias na análise de textos. para… Considerações finais Tendo em vista a extensão e a finalidade deste tipo de texto. especialmente em se tratando de um sistema desenvolvido especialmente para aplicações lingüísticas. destacam-se: – os substantivos: casa. estão. tanto. porque. que faz mais do que simplesmente acelerar e facilitar o trabalho de edição de dicionários: fornece. de forma confiável e segura.O discurso oral culto. mais…. – e as palavras gramaticais consideradas globalmente: em. cidade. como é o caso do STABLEX. ver…. portanto. comer. Voltando a atenção para os elementos de baixa freqüência. procurando demonstrar que a técnica lexicográfica auxiliada por computador representa uma interface útil entre o homem e a máquina. A conjunção temporal quando tem nada ou pouco a ver nesse discurso relatando a vida agrícola na zona de Campinas. porque embasada por métodos e critérios científicos. vale insistir na direção dada ao discurso totalmente orientado para a descrição no imperfeito ou no presente. Os dois elementos mais rejeitados são o pronome pessoal da primeira pessoa eu e o verbo ser no pretérito perfeito foi. Mais do que insistir na não-orientação para a primeira pessoa ou para o pretérito. trabalho. – os advérbios: muito. A implantação dos elementos no gráfico já é em si representativa não apenas da distribuição. da não-orientação do discurso por compensação. mas também da qualidade dos vocábulos desleixados e. melhor. – os verbos: acho. são. aqui. negócio…. indicadores para uma análise das características temáti219 . estava. gente. onde. buscamos dar.

No que diz respeito ao estudo do vocabulário do DID/018. que que poderia contar pra gente? – Inf.. relacionados a seguir. enquanto que “casa” e “terreno” integram o vocabulário básico com tendência negativa. Os principais campos semânticos que se intrincam nessa lista.. e lá em:: Barretos era gado de corte. animais..1.. vegetais. aqui em Campinas o gado era gado de leite. animais.. no item 4. a:: 12 Lembramos que as palavras particulares estão assinaladas em negrito nas considerações feitas sobre o vocabulário preferencial. no início da lista. Essa correção da temática proposta é perfeitamente justificada pelo vocabulário particular. arreio (17). algumas vezes. bom na parte de gado. grão (14) . Zilda Maria... gado de corte (8). explicando os ciclos da carne e do leite: – Doc.. destacam a configuração piramidal da temática geral do discurso: – campo semântico do gado: gado (33). cas e da estrutura argumentativa do discurso. bezerro (14).. aparece um trecho importante em que o informante define a economia do gado. agricultura..escuta e na parte de gado.. 220 .. reforçando. espiga (18). há::. gado”. agricultura. gado de leite (7).ZAPPAROLI.. Considerações sobre a utilização de novas.. a pertinência do método de análise aplicado permite verificar que o informante desenvolveu parcialmente a temática que lhe foi proposta e que aparece definida no cabeçalho da entrevista: “A casa. à temática agrícola que figura no cabeçalho da lista preferencial: milho (40).4.12 A análise quanti-qualitativa do vocabulário particular dá relevo... gado (33). há dois tipos vamos dizer fundamentais de cultura de gado.. gado”. A temática que se destaca do léxico revela que o discurso do informante privilegia “vegetais. No meio da entrevista. outras orientando hipóteses prévias. o terreno. há gado de corte e gado de leite..

.. e depois o gado-de-corte não é o. cavalos (5). holandesa vamos dizer a ra/ a raça. todos os dias. pro gado de leite. tem.... muito bem tratado. como:: jersey.... não muito grande.. como::. – campo semântico do cavalo: cavalo (33). éguas (1). o gado de leite é pra produção de leite.. então é um é um gado manso pra tratar. ele pode ser largado no pasto.. vamos dizer produzia. e::.. e o gado de corte é pra carne... agora há outras.. sim – Inf... e que precisa de tratamento. o Manga-larga é um tipo de cavalo. porque o gado de leite ele é muito mais delicado.. quer dizer todos os... suíço.. e tem diferença isso na criação? – Inf... por ninguém mais.. garanhão (3). ((riu)) o gado de leite natu/ como di/ a:: é que também as próprias palavras já estão dizendo né? – Doc... burros (2)..pode dizer a distinção de um e de outro que nós não sabemos – Inf... 221 . o:: também lá em Barretos nem se costumava tirar leite das das vacas. se tira o leite. égua (2).... que costuma se misturar....... a do gado de leite. cavaleiro (4)... jumentos (1)... e precisa ser tratado. então:: o próprio leite que ela. então... ahn::. – Doc. alazão (3)... O informante emprega o termo genérico para falar da raça em si e mais especialmente do Manga-larga: – Inf... mas a base essencial do gado de leite....... ahn:: vamos dizer duas semanas sem.. voltar pro estábulo.... era consumido pelo bezerro... o animal é um animal mais sensível vamos dizer.. 442-481). Este campo amplia-se... opostas. que seria separado quando estivesse um pouco maior (l..... estabulado todos os dias. na verdade o gado é mestiço..... quando completado pelos seus colaterais: burro (9). tem uma diferença vamos dizer grande.... holandesa.. caracu. ele não precisa ser.......O discurso oral culto... a:: às vezes. 657)........ e são raças também:: especiais.. – Doc.... inclu/ inclusive então é pouco leite. e. tem características vamos dizer....... (l. depois... ficava assim uma duas semanas depois já ía pro pasto com a mãe. ele é:: praticamente::.. base. que haviam dado cria.. os próprios bezerros nem sempre ficavam no estábulo. é o:: holandês....

– campo semântico da plantação: plantava (7). Foi o ponto de partida da entrevista: – Inf.. 147-156)... a a parte acidentada é uma parte vamos dizer de morraria. cultivava (2)...ZAPPAROLI. e o que que se cultivava na fazenda? – Inf. pra culturas em geral – Doc.. Zilda Maria.... colhia (1): – Doc. mas ta/ mas também corta e renova transforma em pasto. que se renovavam..... por exemplo algodão. colher (3). – campo semântico da cultura:. colhendo (1).... colhe-se (2). colhido (4). não é muito:: economicamente não é muita:: vantagem. Este campo é relativo... uma esteira... 128-134)...... plantação (2).. depois plantava-se também às vezes eucaliptos. bom... até as mulheres passavam a:: a ajudar... (l.. – campo semântico da colheita do café: colheita (4). à plantação de milho.. 222 . e::. do habitat.. cultiva (1). planta (5). porque a colheita teria que ser feita dentro de uma certa época.e costuma plantar alguma coisa no meio do café? – Inf.. culturas (6)..... plantava-se (1). costumava-se colocar embaixo do pé de café uma espécie de:: lona. mas também de eucaliptos e de algodão: – Doc.. ah às vezes até:: milho por exemplo no meio do café mas não é vantagem – Doc. colhe (3). é. enquanto que a parte plana servia pra::... cana-de-açúcar... e justamente servia pro gado. o:: era colhido tudo manualmente. e depois vai-se pa/.. agora:: houve uma época em que usava-se:: plantar. Considerações sobre a utilização de novas.... aí aí mais tempo já não é cultura anual né?. não é parece que não é muito útil...... o café por exemplo o senhor se lembra? – Inf.... e::. e como é que se colhe. ((riu)) mas:: cultivava milho... então é preciso mais gente pra colher. mas nessa época então:: de:: colheita... e a::. passando a mão no galho... e caindo os grãos. bom. principalmente..tem um nome esse tipo de:: de.. 35-46). plantação de ( )? (l.... ahn:: até hoje se cultiva apenas eu hoje eu estou afastado do::.... depois colhe-se tudo (l. e:: culturas que:: quer dizer não eram constantes culturas anuais.. cultura (11). plantar (6).

. portanto. cuja sensibilidade não é substituída por máquinas ou técnicas. destinados ao ensino do português como língua materna. em forma. então precisa colocar no terreiro. de uma Base de Dados. Assim... informações para a construção de programas informáticos educativos. Cabe assinalar. de forma simples. bom inclusive o grão do café também precisa ser secado. É na avaliação dos resultados que entra o papel do lingüista.. possibilita a obtenção.. mencionamos a análise exaustiva de seqüências e de concordâncias (o conjunto das ocorrências de um vocábulo em seus contextos no corpus). a partir dos resultados da análise estatística descritiva. secar (1). terceiro módulo do STABLEX. entre outros recursos possíveis de sua manipulação automática. de: dicionários do português falado culto de São Paulo. que permite acompanhar a trajetória do vocábulo ao longo do texto. em suporte informático (por exemplo. secos (1) – esses termos referem-se essencialmente ao trabalho do café e do milho: – Inf. ou em suporte de papel. hoje tem secador também (l. 223 .O discurso oral culto. que o armazenamento lexical estruturado. informações lexicais para a elaboração de manuais e gramáticas do português falado. 171-173). secador (1). – 9 campo semântico de secar: seco (5). mais amplos ou mais restritos. Diante dos muitos recursos que o programa oferece não tratados nesta rápida visão. CD-ROM). mesmo as mais aperfeiçoadas. em função da construção do discurso. e:: deixar secar no sol. aborda-se a análise lexical e pratica-se a extração de seqüências textuais de acordo com diferentes finalidades de estudo. extração de seqüências textuais em função de interesses específicos. ou como segunda língua. secagem (1). secando (1). secado (1). ainda. rápida e segura.. possível a partir dos dados fornecidos pela EXTRACTION.

.I. Teknea. ________. Paris. Toulouse. Paris-Lisbonne. Dino.C. & OPHRYS. Eugenio (1979) Teoria da linguagem e lingüística geral.. Jeanne. Referências bibliográficas ALÉONG. ________.I. C.P. Conseil de la Langue Française. . Atitude prescritiva. Claudie (1995) Les dieux sont morts. Gulbenkian. T. ________. Manuel d’utilisation.) La norme linguistique. COSERIU.A. CAMLONG. Rio de Janeiro. Considerações sobre a utilização de novas. FRANÇOIS. Ao Livro Técnico S/A. Caravelle nº 30. In: BÉDARD. Paris.ZAPPAROLI.) (1988) A linguagem falada culta na cidade de São Paulo. Denise (1979 ) A noção de norma em lingüística.C. (1996) Méthode d’analyse lexicale textuelle et discursive. Trad. Toulouse. Presença. 224 . André (1986) Le vocabulaire du sonnet portugais. BELTRAN. Jacques (orgs. Les trois premiers siècles d’histoire.I. une perspective anthropologique. Da teoria lingüística ao ensino da língua. (1996) Plano geral do estudo e Estudo do vocabulário de D1 (D 018). Queiroz/FAPESP. normes sociales. ________. MAURAIS.. C. de Agostinho Dias Carneiro. Zilda Maria. ________. Stanley (s/d) Normes linguistiques. A. Paris. Thierry (1991) STABLEX. ________. (1991) STABLEX pratique. URBANO. e ao estudo do vocabulário do DID/018). Rio de Janeiro. Toulouse. Hudinilson (org. & OPHRYS. Atitude descritiva. TOULOUSE (Documentos encaminhados a mim por André Camlong. referentes à descrição da metodologia da análise lexical dos diálogos entre informante e documentador e à interpretação dos dados.R. São Paulo. Édith.R. (1978) Traitement informatique du vocabulaire. Reflexions sur la génétique du discours. PRETTI. Entrevistas (Diálogos entre informante e documentador). In: MARTINET. CAMLONG.

p. 5-6.O discurso oral culto. Ficha técnica Divulgação Mancha Formato Montagem Tipologia Papel Humanitas Livraria – FFLCH/USP 10.8 x 17. 1999.8 x 21 cm Charles de Oliveira e Marcelo Domingues Times New Roman e FolhaMyriad miolo: off-set branco 75 g/m2 capa: cartão branco 180 g/m2 Impressão da capa Impressão e acabamento Número de páginas Tiragem 7 azul bronze Seção Gráfica – FFLCH/USP 226 1000 exemplares .8 cm 13.

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