You are on page 1of 1
Edttoriat Jose Manuei Fernand “Gozar avida’, civilizacoes eo que andamos para aqui a fazer Gaza nao rimacom o apelo dos ateistas @)a “gozar a vida’. Gaza rima.com responsabilidade, ndo com “nao te preocupes” ‘4 mesa sermana ern que a revists mais influente do mundo, a The Economist, enchi astia capa como titulo A Guerra dos Cem Anos, uma das raras noticias internaciona's que competiram, em tengo, eom 0 conilito de Gaza ¢ os cortes no fornecimenta de gés russo.a paises da Unio Furopeis foi uma espécie Ge faitdivers. Fol do aparecimento, em Londres, deautocarros assim pintados: “Deus provavelmente niio existe. Deixe de se preocupar e goze a vida". A circunstanci dea campanha ser promovida por uma associacio ateista parece ter impedido tum eserutinio da mansagem para além da contrarresposta de associagGes religiosas. Contudo, o problema nio esta ma sta primeire frase, poiseladecorre apenas da Fé de.cada ume todos tem direito aexprimi-la, 0 problemaesta no “nio te preocupes”, no “goza a vida". Nao é preciso ser ateuou crente pars perceber que nos tempos que correm - nos tempos que sempre correram, apesar das lusbes, nao pode passar em claro tal promovao. da iesponsabilidade pessoel. Eda irresponsebilidade social, da recusa em tentar perceber o que se passa a volta. E porisso que se deve considerar signiicatva a cotncidencia das pinturas, com oalerta da The Economist para uma “guerra de cem anos". Um alerta nao por causa de mais este conflito ou por. a0 contrario da regra, o editorial néo sugerir (© caminho a seguir, mas por sentir nele se reflectir sobre como ocrescimento dos movimentos religiosos (sobretuco nos paises drabes, mas também em sectores sociedade istaelita) assocladosa um redentismo radical, torna dificil prever algo distinto de um conflito quase eterno. Ese “o Hamas é um movimento religioso aujo objectivo programitico é a reject da simples possibilidade de existir um Estado de Israel” porque “nao hi espa para um estado judaico em terras do isa ha novas condigoes neste confito, “Ha «um novo tipo de confronto geopol regigo, 0 qual opve o Irio a América eos movimentos iskimicos aos regimes arabes Giana cock 0 Cams cst ngton,. isma que protecyao do liao ea Fatal de Was os palestinianos enfrentam am impede qualquer progres. Esse cisma segue uma linha de clivagem que ja nao ¢ das fronteiras maisou menos conjunturais definidas no tempo da guerra fra, numa época em que o nacionalismo arabe era abertamente laico e osionismo era nao sé laico como de inclinagbes socialistas, mas a fronteire entre sociedades onde uma religiao nao esta no centrodo poder (como € 0 caso des Estados Unidos, de boa parte dosregimes arabes aliacos ¢ também, pelo menos por enquanto, de Israel) e sociedades, movimentos, estados ou quase-estadas onde é a encarna 0 poder (como no Ira0 ou e movimentos semelhantes ao Hamas, rmandade Mugulmans e ao Hezbollah). 2 assim que se toma inevitével ‘ao tema de 0 Choque lizagbes prevista pelo clentista politico, recentemente falecido, Samuel Huntington. Muitos dos obituaries escritos por estes dias tém referido a popularidade ganha pela sua tese (formulads noinicio dos anos 1990) ap0s 0 il de Setembro. Contudo, nessaaitura, Huntington deu uma pequena entrevista 26 Le Monde onde detendia que os ataques que tinham atingido Nova Jorque e o Pentagono ngo se enquadravam nas suas previsoes, Fle Hi sabia. Ora, a semana passada, Lee Siegel, professor de estudos culturais, regressava de alguma forma weste tema para contestar a possibilidade de formuler, em politica, uma teoria unificadora, revorrendo & primeira grande obra de Huntington - Political Order in Changing Societies -e 3 tal que o tornou famoso, Num texto publicado no New York Times, Siegel socorre-se de um exaluno e, depois, contraditor de Huntington, Fukuyama, para lembrar que as grandes sinteses que permitem explicar tudo sao tao apelativas como perigosas, Isto, claro, se forem tomadas a letra e nao evoluirem de acordo com a realidade, uma tentacaoa que o autor de O Choguedas Givilizagbes nunca sucumbiu. Porém, outros sexmantiornsfaiiterannioe malicduiaatoens. ‘de Voltaire a Marx, 0 que levou muita gente [por muitos mans caminhos e deu alimento teGricoa muitas tragédias. “A ideia do lluminismo de que a natureza humana ¢ aperfeigodvel [se liberta da sSupersticao religiosa] revelourse, entre ‘outras coisas, numa grande fabrice de flusdes. por isso que se pode tragar uma linha quase directa desde esse optimismo, do século XVII as bolas de sabao das fentdsticas rentabifidades que levaram a ‘crise finenceira de 2008”, escreveu Lee Siegel. E certo que houve coisas bem piores pelo meio, em especial os totalitarismos do séualo XX,mas a verdade é que continua laser esse mesmo optimismosobre a natureza humana que nos leva a achar normal o “néo te preocupes, gozaa vida” ‘ua ngoentender (ou fingir que niose entende) oque ¢ umaguerraeem que ‘condigSes os soldados eombatem. Parafraseando Siegel, podemos dizer que ‘também ha uma linha quase directa que tune o nillismo individualista do cartaz, que [para muitos apenas evora tabus sexuais, ‘quer a gendncia, quer omedo irracional ‘nunca deixaram de frequentar Wall Street ‘mesmo em ambientes regulatériosbem distintos como os vividos de 1929 até hoje. ‘Ou que naanilise de um conilitoarmado Se tenha como unica bitoiaa artemética das vitimas, colocando num mesmo plano, por auséncia de referencias morais, 0 combatente que se esconde entre as civis, 0 «que luta com ermas desiguais mas flo face face, o que procura evitar as vitimas civis, ‘ou o que comete ertos involuntirios, por negligéncia ou com dolo. ‘Nada disto é amesma coisa nem é reduzivela némeros, mas quando se acredita no tal aperfeigoamento natural linear da natureza humana deixa de se perceber a diferenca entre os que tem como Programa aniquilur um Estado existente © ‘0s que falharam.as oportunidades para uma coexisténcia pacifica que desejam. ‘Se tudo fosse simples, linear e como prescrevem as ihisOes luministas, entao a The Economist nio titularia um editorial ‘quase sem recomendacoes com uma admissio tio trégica como a implicita ao | gen thile: VheXundbad een wee.